Excitation
— Escravo do amor? — Edward não estava acreditando que ela havia acabado de usar esse termo. Será que, quando as luzes se apagavam, a vizinha do andar de cima se transformava em uma dominadora pervertida que usava roupa de couro e chicote?
Ai, ai. Ele não se importava com uma mulher dominando a situação de vez em quando. Na verdade, era bastante excitante quando uma mulher tomava a iniciativa e dava as cartas. Mas ele também gostava de ter o controle. Porém, o estilo sadomasoquista não era o seu.
Ela pareceu ter percebido os temores de Edward.
— Não quis dizer escravo do amor, no sentido pervertido. Quero que você finja que eu sou a mulher mais fascinante, linda e inteligente do mundo.
— E sexy, também — acrescentou ele, lembrando que essa era a característica que mais se destacava em Bella.
— Claro, sexy também. Enquanto estivermos no casamento, tem que prometer que não vai olhar para mulher nenhuma. Tem que fingir que está cegamente apaixonado por mim.
Ele via o entusiasmo dela crescendo enquanto imaginava o papel que ele teria que representar. Os olhos castanhos brilhavam de exaltação. Podia até se imaginar meio apaixonadinho por ela, sem grandes dificuldades.
— Não vai ser nenhum sacrifício, pode deixar. — Sorriu ao ver que as bochechas de Bella logo ficaram rosadas com o elogio.
Quando se conheceram, não imaginava que ela fosse do estilo que ruborizava com facilidade, mas agora notava que bastava uma pequena provocação para que as bochechas se transformassem em dois botões de rosas vermelhas. Imaginou se ela ficaria ruborizada assim também quando estava amando. Também imaginou se algum dia teria a chance de descobrir.
— Obrigada — disse ela.
— Então, temos quatro semanas para nos preparar para o grande dia.
— Exato. Quero o pacote completo. Smoking e cabelo cortado.
Smoking era uma palavra que causava arrepios em Edward. Lembrava-o de casamentos e ele odiava casamentos. Principalmente, por causa do pai, que não se cansava de ir para o altar. De qualquer forma, já tinha um terno, apenas para ocasiões como aquela, guardado no armário. Saía mais barato do que alugar, com tantos casamentos que o pai o fazia ir. No entanto, valia o sacrifício. Era o único jeito de fazer Bella cooperar.
— E já que teremos um mês, podemos fazer um capítulo por semana. Vai ser perfeito para nos conhecermos melhor. Em um mês vamos conseguir enganar todo mundo. Ninguém vai duvidar que sou seu escravo do amor.
— Um capítulo por semana... — Ela deu um passo atrás e cruzou os braços. — Não sei. Tenho que pensar melhor sobre essa história.
Olhou fixamente para os lábios dele, como se estivesse tentando adivinhar se iria gostar dos beijos. Se continuasse olhando um pouco mais, ia acabar descobrindo, concluiu Edward, pois aqueles olhos fixos em sua boca o estavam deixando louco.
— Bem, não estou nem um pouco animado com a idéia de me fantasiar de pingüim para ficar vendo um casal que te magoou na faculdade fazer votos de eterno amor. — Ele deu de ombros, sabendo que aquele seria um momento crucial. — A escolha é sua.
Ela o encarou com as sobrancelhas arqueadas.
— Está bem. Mas só até o capítulo quatro. Não passo dos beijos. — Abriu a porta e fez um gesto, mostrando a saída.
— Preciso começar minhas sessões de abdominal. Ele saiu do apartamento e admirou os olhinhos cor de
mel que brilhavam com a idéia de ir à forra.
— Não precisa de abdominais. Seu corpo está mais do que perfeito.
Os olhares se detiveram um no outro e os lábios dela se abriram em um convite inconsciente. Edward teve que se concentrar para não lhe roubar um beijo. Ela era deliciosa e sensual. Por que perdia tempo com uma desilusão amorosa do passado?
— Acho que teve muita sorte. Um cara estúpido a ponto de dispensar você merece mesmo terminar os dias com alguém chamada B.J.
Ela riu, meio desconcertada.
— Vou considerar isso como um elogio.
— Pode ter certeza que é. Boa noite.
Esperou que ela fechasse a porta e começou a pular e comemorar em voz baixa. Bella tinha aceitado! Bella, a vizinha maravilhosa do andar de cima, tinha concordado em participar dos quatro primeiros capítulos de Sexo para idiotas completos. E o melhor, não tinha precisado mentir para convencê-la. Apenas havia pedido que praticasse os exercícios do livro com ele. Em nenhum momento dissera que precisava aprender as lições. Caso ela tivesse tirado conclusões precipitadas era problema dela.
Obviamente, havia um preço a pagar. Não era fã de casamentos. E tinha sido obrigado a comparecer aos quatro do pai. Era bem verdade que, no primeiro, havia estado presente ainda no útero e não teria como se lembrar. Mas o fato era que tinha tomado aversão a casamentos.
Estava convicto que nenhuma mulher o arrastaria para o altar. Nada de chuvas de arroz para Edward. Liberdade e privacidade eram suas melhores companhias.
Se o pai tivesse usado a cabeça em vez de ter se deixado levar pelos hormônios, certamente, pensaria como ele. Alguns homens não haviam nascido para ser homem de uma mulher só, para ser pai de família.
O pai era um desses homens. Nunca devia ter se casado. Edward também, porém, ao contrário do pai, era esperto o suficiente para não se deixar enganar pela armadilha do "felizes para sempre" e depois ter que agüentar ex-mulheres e filhos carentes.
Edward gostava e respeitava demais as mulheres para que se comprometesse com uma. Por essa razão, sempre havia sido franco com suas parceiras e houve poucas lágrimas no percurso. Tampouco existiram relacionamentos muito profundos. Mas como Edward costumava dizer: não se podia ter tudo nesta vida.
Havia doze capítulos na obra de Lance. Bella tinha se comprometido a testar o livro por um mês. Claro que, se o livro valesse as folhas em que fora impresso, quatro semanas seriam suficientes para convencer uma mulher a querer experimentar o capítulo seguinte.
Ele já podia imaginar doze semanas passionais pela frente. Seria algo em torno de três meses. Um bom tempo, mais ou menos a quantidade necessária para ele começar a se entediar e querer cair fora, em busca de novidade.
Contanto que fosse sincero, não haveria mágoas ou ressentimentos. Ela teria a companhia que precisava para o casamento e ele iria descobrir se o livro era eficaz ou não. Os dois só tinham a ganhar.
Era uma idéia genial. O que poderia dar errado?
— Você está completamente louca? — Ângela tinha os olhos arregalados e o queixo escancarado.
Estavam no banheiro reservado para professoras, durante um intervalo de aula. Bella estava tão ansiosa para contar a novidade que não conseguiu esperar o fim do expediente.
— Você parece surpresa. Achei que ia adorar a notícia.
— Adorar a notícia de que vai brincar de professora com um cara que mal conhece?
Ângela se olhou no espelho e abriu a bolsinha de maquiagem. Apanhou um brilho rosa e retocou os lábios. Um cheirinho de morango invadiu o ambiente e Bella achou graça. Era o tipo de maquiagem que as adolescentes usavam. De alguma forma, caía bem em Ângela, assim como as roupas joviais, o corte moderno e a maquiagem com cores vibrantes.
— Tem gosto de morango, também?
Ângela passou a língua pelo lábio superior e fez que sim com a cabeça.
— Tem, quer provar?
— Não obrigada. Quero que você me diga por que não acha a idéia boa. Ele não é nem careca, nem baixinho ou gordo. Ele é um deus grego. Se conseguir ajudá-lo a dar os primeiros passos para ser um amante incrível, estarei fazendo um bem para a humanidade.
Ângela apenas revirou os olhos e foi em busca da escova, também cor-de-rosa. Enquanto escovava os longos cabelos pretos, fitou a amiga.
— Para começar, quantos anos ele tem? Bella deu de ombros.
— Acho que uns trinta?
— Quando foi que ele começou a se relacionar com mulheres?
— Sei lá.
—Aposto que deve ter uns dez ou quinze anos de prática e ainda não consegue satisfazer uma mulher. Modéstia à parte, estou no palco há muitos anos. Já me ouviu tocar uma nota errada?
Ângela não era apenas uma mulher experiente, como também havia tido uma carreira de êxito, como música, em Montreal e Paris, antes de se tornar professora.
— Não, não toca, mas para isso teve que aprender e errar bastante.
— Querida, algumas pessoas, simplesmente, não têm ouvido. Nunca vão conseguir cantar sem desafinar. Outras não têm ritmo. Há os que não levam jeito para o esporte... — Ela deu de ombros.
— E alguns nunca serão bons amantes. É essa a mensagem?
Ângela guardou a escova e fechou a bolsa.
— Só estou dizendo que ele teve tempo suficiente para aprender a lição.
— Minha mãe voltou para a faculdade aos sessenta anos para terminar o curso de história que sempre quis concluir. — A campainha anunciando o fim do intervalo tocou. — Está tirando ótimas notas — disse Bella, abrindo a porta do banheiro e segurando-a para que a amiga passasse.
— Não estamos falando sobre história.
— Acho que qualquer um pode ser bom em alguma coisa se estiver disposto a se esforçar.
— Aposto cinqüentinha que você não vai agüentar um mês.
Ao se juntarem à massa de estudantes que se encaminhava para as salas, no corredor, Bella sussurrou:
— Aposta aceita. Claro que Ângela não sabia da outra parte da história.
Bella já tinha um trato e tanto com Edward. Sé não conseguisse um espécime único de masculinidade, pelo menos já havia garantido um "namorado" com quem desfilar no casamento de B.J.
Não podia negar que havia ficado lisonjeada por Edward a ter escolhido para ser sua professora. Além da forte atração que sentia por ela, devia achar que Bella fosse uma mulher cheia de experiência. Sorriu. Sabia que não era nenhuma femme fatale, mas tinha um ou dois talentos escondidos na manga. Edward, poderia ter escolhido muitas piores.
O barulho na sala de aula a recepcionou ao entrar. Guardou a bolsa, sentou-se na cadeira de madeira em frente à turma barulhenta e deu um longo suspiro antes de entoar em voz alta e clara:
— Que a morte não seja orgulhosa!
O silêncio ecoou pelo ambiente para a satisfação da professora. Os treze alunos se acomodaram em suas carteiras e olhavam Bella com diferentes níveis de entusiasmo. Ela olhou ao redor e procurou uma vítima.
— Que a morte não seja orgulhosa! — Apontou para um aluno no extremo da sala, que olhava para o teto. Alguém não havia feito o dever de casa.
— Dylan, quero o resto da estrofe do poema de Donne, por favor.
John Donne não ficaria orgulhoso com a forma como sua poesia estava sendo tratada. No entanto, era importante introduzir aos mais jovens poemas tão divinos e atuais apesar de terem sido escritos séculos antes. Se um jovem se deixasse envolver pela magia de sua poesia, já seria uma grande vitória, pensava Bella.
Ela amava poesia, mas lhe incomodava a forma como os alunos recitavam os versos, cheios de pausas, erros de pronúncia e entonação. Bem, pelo menos, estavam tentando. A próxima unidade ia ser bem mais fácil para os adolescentes. O currículo pedia uma pequena introdução aos textos jornalísticos. Bella pensava em convidar algum jornalista para ir falar com a turma.
Ainda estava pensando nisso, quando chegou em casa. Levava uma sacola com verduras e iogurte natural. Do corredor, ouviu o telefone tocar. Abriu a porta rapidamente e correu para atender. Todos os músculos da perna doíam. Tinha exagerado nos exercícios físicos.
— Alô.
— Está ocupada? — A voz grossa e sensual tinha uma pitada de malícia. O coração de Bella disparou. Era familiar e provocadora, como um tempero exótico que não conseguia identificar.
— Não, acabei de chegar em casa. — Queria que ele falasse por mais alguns segundos para descobrir quem era. Não seria difícil, já que não conhecia muitos homens e muito menos com uma voz tão cativante e sexy.
— Estou ligando para marcar um encontro.
— Encontro?
— Para o capítulo um.
— Sei, capítulo um. — Era Edward. As batidas do coração continuaram aceleradas. — Não imaginei que fôssemos começar tão cedo.
— Estou ansioso para começar logo. Estava pensando nesta sexta-feira, se você já não tiver outro compromisso.
— Sexta... — sabia muito bem que não tinha nada para fazer na sexta. Costumava sair com Ângela, mas a amiga ia viajar no fim de semana e Bella não tinha planos de sair à noite. Será que estava preparada para iniciar a maratona de Sexo para idiotas completos? Deu de ombros. Nunca estaria realmente preparada.
— Claro, sexta está bem para mim.
— Ótimo. Pode vir aqui em casa por volta das sete? —Ah, vai ser na sua casa? — De repente, ela já não tinha tanta certeza. — Pensei que podia ser aqui em casa.
— Podemos revezar. Que tal nesta semana no meu apartamento e na semana que vem, no seu?
— Parece justo. — Não podia deixar de pensar que aquela história era surreal é a culpa era toda de BJ. McLaren. Por que aquela mulher reapareceu das trevas para atormentá-la novamente?
— Ótimo, nos vemos na sexta.
— Edward?
— Sim?
— O que tem no capítulo um?
Ele deu uma risada gostosa. Era contagiante. Bella adorava ouvi-lo rindo:
— Você vai descobrir na sexta.
Ela estreitou os olhos. O que esse menino travesso estava aprontando?
— Não vai passar do beijo, não é?
— Não se preocupe, pois não há nada além de beijos até o capítulo cinco.
— Está bem. Até sexta.
Edward ficou observando as velas que havia acabado de comprar. Sabia, por experiência, que as mulheres adoravam velas. Será que havia mencionado velas e vinho no primeiro capítulo? Que diabos tinha escrito, afinal?
Um pouco impaciente e nervoso com a primeira lição, achou melhor pegar o livro e revisar o primeiro capítulo.
A sedução começa, não com o corpo, mas com a mente.
Ele concordou, orgulhoso de seu alter ego.
— Esperto esse Lance.
Uma boa conversa é a preliminar ideal. Se conseguir fazer com que o parceiro se sinta desejado, ele ou ela irá retribuir o desejo e aumentar o interesse por você. E aí que você, caro principiante, deixa de ser visto dessa forma e passa a ser encarado como um possível amante. Esse livro é sobre como deixar de ser um bobo para se tornar um amante inigualável.
Achou melhor pular a introdução e ir direto para os exercícios, específicos para mulheres.
Exercício um: Vá para um bar lotado. Se estiver sozinho, escolha uma mulher que pareça ser simpática. Se já tiver uma parceira e se ambos acharem que precisam de ajuda, sugiro que volte para o início, como se tivessem se conhecido hoje. Não importa seja têm três filhos. Usem a criatividade. Olhe para sua mulher bem nos olhos. Concentre-se nessa pessoa que você acaba de conhecer. Pergunte a ela o que fez hoje, sobre o trabalho dela, o que gosta de fazer. Observe a linguagem corporal dela. Ela o convida a se aproximar? Manda mensagens pelo olhar?
Tente um movimento sutil, um toque de leve no braço, na mão, como se tivesse esbarrado, sem querer. Um toque acidental é sempre muito excitante. Mas não exagere. E não esqueça que deve ser um toque de leve. Na hora de ir embora, leve-a até o carro, o táxi, o ônibus, o que seja. Está louco para beijar, não é? Não vê a hora de entrar em ação? Pois, não faça nada! Pegue na mão dela, diga que a companhia foi ótima, tente conseguir o telefone dela ou dê o seu. Esse é o segredo: deixá-la querendo mais, à espera, ansiosa. E se houver clima, dê-lhe um beijo suave na face, olhe profundamente dentro de seus olhos e diga que vai ligar.
Edward largou o livro.
Droga, tinha esquecido. O primeiro exercício era fora de casa. Tinha comprado velas à toa. Olhou o relógio e ligou para Bella.
— Alô? — A voz dela era suave e melosa ao telefone.
— Oi. Acabei de ler o capítulo um. Temos que nos encontrar pela primeira vez em um bar.
Houve um momento de silêncio.
— Que tipo de bar?
— O livro não diz.
— Você tem que ir para um bar, seduzir uma mulher, esse é o primeiro exercício?
— Acho que sim. Ela suspirou.
— Esse livro está me saindo pior do que a encomenda. Só podia ter sido escrito por um homem.
Não havia o que comentar a respeito.
— Não custa tentar, não é?
— Não gosto muito de bares. Onde marcar esse encontro?
Ele pensou um pouco. Nenhum lugar onde costumasse ir. Haveria muita gente conhecida, seria arriscado. Lembrou-se de um bistrô que ficava em um hotel próximo. Tinha música ao vivo, às sextas. Era tranqüilo, ideal para conversar. Pessoas solteiras costumavam ir lá. Com certeza, ela iria gostar.
— O Rainbow Room. Conhece?
— Conheço.
— Pode chegar lá, por volta das sete? Vou chegar um pouco mais tarde. Você tem que fingir que não me conhece.
— Isso é ridículo.
Edward mordeu os lábios. O pior era que concordava com ela. Ao escrever o primeiro exercício, nunca tinha imaginado que teria que praticar com a vizinha que morava no andar de cima. Teve medo que ela hesitasse e a tocou no calcanhar de Aquiles de Bella.
— Ah, hoje passei na lavanderia e deixei o terno para lavar. Para garantir que vai estar impecável no dia do casamento.
— Vê se não demora muito a chegar, certo, porque do contrário corre o risco de outra pessoa chegar primeiro e acabar testando a lição do capítulo um.
Ele quase deixou escapar uma risada por causa do tom desafiador de Bella. Algo lhe dizia que aquela noite seria muito divertida. Apenas não podia esquecer de seguir as instruções que ele mesmo havia criado. Nada de improvisar.
Se não estivesse tão compenetrado e determinado a fazer tudo como mandava o manual, teria caído na tentação de provocá-la pelo telefone. Bella era segura de si e não tinha nenhum problema para colocá-lo em seu devido lugar. Mas não podia pular etapas.
— E, Edward — disse ela em um tom professoral que o deixou excitado. — Da próxima vez, faça seu dever de casa com antecedência.
NA: Mais dois capítulos postados, até próxima semana!
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