N
ão tivemos nenhuma surpresa no caminho até Boise. Chegamos lá por volta de três da tarde. O dia estava frio e muito chuvoso. Foi complicado encontrar um motel com toda aquela chuva, mas achamos um. Na recepção, havia uma senhora e um homem, que parecia ser filho dela. Eles foram bem legais conosco e nos deixaram ficar lá por um preço promocional. Enquanto Hector e Hannah cuidavam da nossa hospedagem, e Tobey falava ao celular com a mãe dele (apesar de nós termos pedido a ele para não fazer isso um milhão de vezes, já que a porcaria do celular poderia trazer algum monstro até nós), Eve me puxou para um canto e cochichou:- Aquilo que aconteceu no carro? Tão surreal! Você está pirando agora, não é mesmo?
- Hã? Do que é que você está falando?
- Daquela sua discussãozinha com a Hannah. Ela ficou mesmo se roendo de ciúmes por causa da Dione.
- Você... – eu praticamente fiquei sem ar. – você acha mesmo? Não está de brincadeira?
- O quê?! Você não reparou?!
- Eu reparei que ela parecia muito interessada nessa história, mas não achei que ela estivesse realmente com ciúmes. Quero dizer, ela ainda namora o Tobey.
- Você é uma toupeira! Não consegue enxergar nem o que está literalmente na sua frente! – então ela apontou para Tobey, que havia tentado falar com Hannah, mas ela simplesmente mandou ele deixá-la em paz.
- Eles...estão brigados? – perguntei, incrédulo.
- Dã! Claro que sim! Você estava lá quando Hannah começou a acusar Tobey de ter trazido Maureen para perto dela.
- Claro. Na casa de Percy. Mas eu não achei que ela estivesse brava de verdade. Pensei que ela só estava desabafando naquele momento e depois ele ia vir com a conversinha mole dele e os dois iam fazer as pazes e ficar se beijando.
- Nós duas conversamos longamente a respeito disso antes de dormir naquele dia.
- Mesmo? Então vocês duas são amigas agora?
- Pode-se dizer que sim.
- Bom. E o que ela disse?
- Ela disse que tinha raiva daquela situação mesmo antes de saber que Maureen era uma ameaça. E agora que descobriu a verdade, não acha que vai ser a mesma coisa com o Tobey.
- Ela vai terminar com ele? – eu tentei não parecer tão desesperado.
- Eu não sei. Hannah está muito confusa. Mas... – ela abaixou ainda mais o tom de voz.– o que aconteceu com vocês dois no carro pode ser uma dica. Quem sabe a Maureen não te fez um favor?
Eu dei uma risada nervosa. Aquilo era meio engraçado. E meio sinistro também.
Espalhamos as nossas coisas pelos quartos e resolvemos começar logo o trabalho.
- Deve ter uma lista telefônica lá na recepção. – eu disse.
- Não precisamos da lista telefônica. – Hector respondeu. – Eu sei onde a Karen mora.
Se alguém achou isso estranho, ninguém disse nada. Enfim, lá fomos nós, naquela chuva incômoda, no meio da tarde, bater na porta de uma casa lilás bonita, com vasos de plantas espalhados por toda a varanda. Só vieram atender depois de um bom tempo. Um cara de uns vinte anos abriu a porta com o cabelo assanhado, parecendo que tinha acabado de acordar e nos olhou com cara de poucos amigos.
- Quem são vocês? – ele perguntou, antipático.
- Hã... Você deve ser o Joe. – disse Hector. – Eu sou Hector. Eu e Karen éramos do acampamento.
- Ah, você é um deles. A Karen não está.
- Bom... E onde nós podemos encontrá-la? É meio urgente, sabe como é.
- Hum, ela está com o circo. Eu dou o endereço para vocês.
- Valeu.
O tal Joe entrou e voltou para a porta uns cinco minutos depois com um pedaço de papel.
- Aí está. – ele disse, ainda parecendo muito sonolento. – Não é difícil de encontrar. É um circo. Grande e colorido. – finalizou com um bocejo.
- Muito obrigado.
Hector pegou o papel e nós saímos dali antes que Joe caísse no sono ali na porta mesmo.
Realmente, não foi nada difícil encontrar o tal circo. Paramos o carro o mais perto possível, por causa da chuva que estava praticamente caindo em baldes. Era agradável lá dentro. Era abafado, um alívio quando comparado ao frio lá fora. Havia pouca gente ali. Alguns no contorcionismo, outros no trapézio. Os mais jovens não eram artistas de circo de verdade. Estavam só tendo aulas, pois havia gente mais velha que deviam ser os professores. Hector olhou rapidamente em volta e sorriu quando gritou "Karen!". Uma garota de cabelos curtos e cacheados olhou para nós, surpresa, e desceu do trampolim. Ela correu até nós e se atirou nos braços de Hector. Pelo abraço que eles trocaram, deu para perceber imediatamente que eles era mais que amigos.
- Hector! Que surpresa! O que está fazendo aqui? – ela disse, enquanto eles se abraçavam. Percebeu que estávamos com ele naquele instante e disse: - Ah, oi!
Nós murmuramos um "oi" meio sem graça, já que os dois ainda não tinham se largado.
- Karen, eles são do acampamento. – Hector a soltou e nos apresentou. – Nico, filho de Hades; Tobey, filho de Hefesto; Hannah, filha de Hera; e Eve, filha de Deméter. Pessoal, essa é a Karen, filha de Hécate.
- Prazer em conhecê-los! – ela sorriu para nós.
Tenho que admitir que a tal da Karen era bem bonita. Não tinha aquele tipo de beleza tradicional como a de Hannah, que era bonita porque tinha traços perfeitos. Se você olhasse bem, veria que ela tinha a boca meio grande e as sobrancelhas se curvavam num ângulo esquisito, além de ela ser muito magra. Mas ela era bonita porque o conjunto era bonito. Por causa disso, tanto eu quanto Tobey (além do Hector, que provavelmente era namorado dela) ficamos um tanto perturbados com o sorriso da Karen. Acho que Hannah e Eve perceberam o que estava acontecendo porque ficaram mal humoradas de repente.
- Hum, deixa eu adivinhar. – Karen continuou, ainda sorrindo. – Vocês estão aqui numa missão, certo?
- Pois é. Você se lembra da Maureen Lewis, de Atena? – disse Hector.
- Lembro. O que houve com ela?
- Ela está matando semideuses para pegar as Dádivas deles.
Karen estremeceu.
- Não pode ser verdade. Por que alguém faria algo assim? – ela parecia achar aquela história a maior invenção.
- Não sabemos. Viemos aqui para te avisar. Você tem uma dádiva, não tem?
- Vocês vão levá-la?
- Só queremos ter certeza de que ela está bem protegida. E você também, é claro. – Eve revirou os olhos quando Hector disse aquilo.
- Eu garanto a vocês que a minha Dádiva está segura. E eu vou ficar atenta. Aviso vocês se souber de algo. Mas, como essa missão funciona? Vocês vão atrás de todos que possuem Dádivas? Quero dizer, tem semideuses no mundo inteiro.
- Nós fizemos uma lista das pessoas que Maureen conhecia no acampamento.
- Então não deve ser muita gente. Considerando que é muito raro receber uma Dádiva nos dias de hoje. E como vocês descobriram que Maureen estava envolvida nisso?
- Foi em um Capture a bandeira. – eu expliquei. – Ela tentou matar Hannah usando a Dádiva do Tobey.
- Nossa...O que você fez para ela te querer morta? – ela perguntou a Hannah.
- Nada, na verdade. Acho que ela simplesmente não gostava de mim.
- Você é a filha de Hera, não é? Que tipo de poderes você tem? – Karen perguntou, meio fascinada.
- Poderes? Nenhum. Eu sou só uma garota normal.
- Ah, conta. Não é possível que você não tenha nenhuma habilidade especial. O filho de Hades tem, não tem?
- É sério, Karen. Hannah não tem poderes como os filhos dos três grandes. Quero dizer, ela é uma ótima arqueira, mas não cria exércitos de mortos como o nosso amigo aqui. – Hector bateu no meu ombro.
- Exército de mortos... – o interesse de Karen passou todo para mim. – Aposto que você sozinho daria conta desse probleminha com Maureen.
- Bom, na verdade... – eu não tinha admitido para ninguém que meus poderes não estavam funcionando direito, mas achei que não teria problema nenhum em dizer aquilo para Karen. Ela era tão legal e eu não queria parecer convencido na frente dela. – Faz muito tempo que eu não preciso usar os meus poderes. E eu não estou controlando eles muito bem agora.
- Jura? – aquele assunto parecia muito interessante para Karen, os olhos dela estavam brilhando.
- Bem, acho que já podemos ir agora, não é mesmo? – Eve mandou essa do nada. Olhamos para ela como se ela fosse louca.
- Por que a pressa? – Tobey perguntou a ela.
- Porque nós já fizemos o que viemos fazer e já está ficando tarde e a chuva está piorando. – continuamos encarando ela. – A menos que o Hector queira ficar mais um pouco com a namo...amiga dele.
Hector olhou para Eve com cara de quem não estava entendendo nada.
- Apesar de você ter toda razão, queridinha... – disse Karen, com um sorriso estranho no rosto. – Eu não posso deixar vocês irem embora agora.
Aquele dia estava escuro, com a chuva e tudo o mais, mas o circo ficava mais claro e fresco no lugar onde nós estamos conversando com a Karen, que era perto da entrada. Assim que ela terminou de falar, eu senti que ficou mais quente e escuro. Todos devem ter sentido, porque olhamos para trás a tempo de ver algumas daquelas pessoas que estavam na aula fechando a lona completamente. Uma parte de mim sabia que estávamos em perigo e que eu devia agir, mas outra ainda estava em choque porque aquela garota bonita havia se revelado uma inimiga. Essa última parte prevaleceu, pois eu fiquei imóvel enquanto Hector procurou rapidamente sua espada e Karen, que havia sido mais rápida, o empurrou para um dos pilares que sustentavam o circo e pressionou sua espada contra a garganta dele.
Depois ouvi Eve gritar e quando olhei ela estava sendo contida por um rapaz e uma garota. Foi aí que o restante de nós despertou procurando as espadas, mas também nos seguraram antes que conseguíssemos pegá-las. Karen assistia tudo com um sorriso maligno.
- Levem –os para os fundos. – ela ordenou.
Aquele pessoal nos arrastou enquanto nós nos debatíamos para fugir. Eles nos amarraram firmemente, cada um em uma cadeira. Karen chegou e os demais saíram de lá.
- Karen, que loucura é essa?! Você não sabe o que está fazendo! – disse Hector enquanto lutava com as cordas em volta dele.
- Eu sei exatamente o que estou fazendo. É você que está do lado errado.
- Do lado errado?! Karen, presta atenção: Maureen tem uma flauta que confunde as pessoas. Ela deve ter usado em você e...
- Ela não precisou me confundir, Hector. Eu estou fazendo isso porque é o certo. E você vai perceber isso quando ela conseguir o que quer. Eu não vou matar você. Mas você vai ter que passar um tempo comigo para não atrapalhá-la, sabe como é.
- E o que é que ela quer? – eu perguntei, enfurecido.
- Maureen? Ah, ela vai revolucionar o modo de viver dos tornar tudo mais justo.
- Justo?! Ela está matando semideuses! Você chama isso de justiça?
- Nós só matamos quando é impossível fazê-los colaborar. Ou quando eles são como você.
- Como eu? O que você quer dizer com isso?
- Eu não estou aqui para dar explicações, filho de Hades. – ela falou rispidamente.- Nós só vamos brincar um pouco.
Estremeci com a última frase. Eu sabia que não seria nada divertido.
- Mas eu posso te deixar de fora, Hector, se você quiser se juntar a mim. Eu juro que vai valer a pena quando ela conseguir. – Karen passou a mão pelos cabelos loiros de Hector. Ele desviou a cabeça, como se tivesse nojo dela. – Não? Pois bem. É uma pena. Nós poderíamos nos divertir tanto juntos... Lembra como a gente se divertia no acampamento? – ela beijou o rosto dele e deu uma risadinha depois. – Você vai ganhar um bônus por ser tão bonito. – Hector olhou para Karen, nervoso. – Vou deixar você escolher quem vai ser o primeiro.
Hector não pensou duas vezes.
- Eu vou ser o primeiro. – ele disse.
- De jeito nenhum, superman. Você não pode se escolher. Escolha qualquer um deles.
Hector ficou calado.
- Vamos ver... – Karen passeou entre as nossas cadeiras. – Primeiro as damas? Qual das duas, Hector? A animadora de torcida ou a sua admiradora mais jovem? Eu escolheria a última; ela meio que me irrita. E temos os rapazes também: o bad boy
e o rockeiro. Qual de vocês é o namorado da Hannah? – ela perguntou, alisando o meu braço e o do Tobey. – E então? – ela ainda estava esperando que Hector escolhesse um de nós.
Ninguém falou nada. Karen perdeu a paciência.
- Que seja a caçula então. – e começou a desamarrar Eve.
- Não, espera! – Hector gritou.
- Você tem cinco segundos para escolher alguém. – Karen se afastou de Eve e ficou na frente de Hector.
- Eu escolho você! – Hector se soltou das cordas de alguma maneira e golpeou Karen. Ela tomou um susto e tanto, e demorou para se recuperar da pancada. Hector aproveitou para cortar as minhas cordas com uma faca que ele estava carregando sem ninguém perceber. – Solte os outros! – ele me passou a faca e pegou a espada dele, que um dos parceiros de Karen havia amontoado junto com as nossas em um canto. Libertei Eve, que pegou sua espada e foi logo ajudar Hector.
Seja lá quem amarrou Hannah, fez isso muito bem, porque eu demorei muito tempo tentando cortar as cordas dela.
- Dave! Klaus! Eles vão escapar! – Hector segurou Karen e tapou a boca dela com a mão para ela não gritar mais. Mas não adiantou, pois aquelas pessoas do circo entraram ali e nos encurralaram. Conseguiram libertar Karen e ela veio furiosa até mim enquanto eu ainda tentava desamarrar Hannah, e Tobey continuava preso. Tentei me apressar, mas não fui rápido o bastante. – Agora, Klaus! – Karen ordenou e um rapaz sardento jogou uma espécie de lençol preto em cima dela, de mim, de Hannah e de Tobey. A última coisa que vi foi Eve tentando se libertar das pessoas que a seguravam e gritando meu nome. Depois, fomos sugados para uma espécie de portal.
Primeiro, tudo ficou escuro e não tinha mais chão. Hannah e Tobey flutuavam em suas cadeiras e eu me sentia como se estivesse nadando. Mas não havia água ali. O ambiente foi ficando mais claro, até que caímos em um chão branco. Na verdade, não só o chão daquele lugar era branco, tudo era branco. Eu não sabia se aquilo era uma sala. Eu não conseguia enxergar as dimensões daquele lugar. Era só branco. Karen e Klaus pousaram suavemente atrás de nós. Aquilo me fez voltar a raciocinar e eu recomecei a desamarrar Hannah e em seguida Tobey.
- Não vão precisar de cordas aqui. – explicou Karen. – Vocês não conseguirão sair mesmo.
- Onde nós estamos? – Tobey perguntou.
- Esse é o mundo do lençol negro de Klaus. Um dos mundos, pelo menos. Esse aqui vai servir para que eu possa terminar a minha tarefa sem ninguém para atrapalhar.
- Onde estão Hector e Eve? – eu quis saber.
- Ah, eles vão ficar bem. Maureen não os quer mortos. E eu também não quero que o Hector morra. Mas eu ficaria levemente preocupada com a outra se fosse vocês. Ela é meio esquentadinha. O meu pessoal pode não ser tão paciente. Bom, chega de conversa mole. Vamos começar.
Um espelho surgiu no meio daquele lugar. Só isso. Um espelho. Karen puxou Hannah pelo braço sem a menor cerimônia e a colocou de frente para o espelho. Com isso, o lugar se transformou rapidamente no que parecia ser uma daquelas casas de cartomantes. Havia mesmo uma cartomante sentada atrás de uma mesinha circular. Ela parecia não ter se dado conta da nossa presença, pois não parou de analisar detalhadamente as cartas espalhadas pela mesa. Karen arrastou Hannah até a cadeira na frente da cartomante e mesmo assim a mulher não tirou os olhos das cartas. Hannah estava muito confusa. Parecia não saber se devia ter medo ou relaxar um pouco, afinal, era só uma cartomante.
- Acampamento Meio sangue... – a mulher falou depois de algum tempo. Não era como se ela tivesse gritado, ela apenas falava bem alto. – Você é tão modesta para ser filha de quem é. Sua mãe não é nada modesta. Esse é o seu lado humano.
- O que? – Hannah perguntou porque, assim como eu, não estava entendendo nada. Karen segurou seu braço com força para que ela ficasse quieta.
- Você pensa que não tem um lado divino, mas é você quem o reprime com a sua modéstia. – a voz da mulher parecia cada vez mais alta, mesmo que sua expressão fosse de pura tranqüilidade. – E é por isso que a sua mãe a rejeita. Ela despreza a sua humanidade. Você poderia ser igual a ela: uma rainha. Mas você só quer uma vida ordinária. É provavelmente a menos ambiciosa entre todos os semideuses. Fraca. Covarde. E no final, você estará sozinha. Porque seus companheiros não serão capazes de lutar contra aquilo que é certo e morrerão tentando. Ninguém nesse mundo irá ajudá-la. Sua mãe será a primeira a empurrá-la em direção à morte.
- Cala essa boca! – Tobey protestou. – Hannah, não dê ouvidos à ela! Isso é só uma ilusão!
- Ele. – a cartomante levantou um pouco a cabeça e olhou para Tobey por um segundo. – Ele vai trazer dor à sua vida. Você vai sofrer. A dor que ele lhe causar vai consumir até os seus ossos.
Hannah olhou para Tobey de onde ela estava. Foi um olhar de tristeza. Ela estava acreditando no que a cartomante dizia.
- Hannah, isso é mentira! Eu nunca faria nada para magoar você!
Vi uma única lágrima escorrer pelo rosto de Hannah. Eu não podia mais agüentar aquilo:
- Hannah, acorde! Isso não é real! Estamos presos em um lençol, lembra? Isso é coisa da Maureen! É ela que quer te ver sofrer, não o Tobey!
Hannah estava em transe, não estava ouvindo nada do que dizíamos. Seu olhar parado focava a cartomante.
- Você não tem escolha, filha de Hera. Entregue-se. Não vale a pena viver com o sofrimento iminente. Não vale a pena viver sozinha e rejeitada.
- Não, Hannah! Você não está sozinha! Você tem os seus amigos e tem o Tobey! – eu gritei.
- Foi culpa sua o seu pai ter morrido. – disse a mulher. – Você era um fardo muito grande de se carregar.
- Papai...? – Hannah murmurou, ainda em transe.
- Ele a amava de verdade. Foi o único que a amou.
- O meu pai me amava de verdade. – Hannah repetiu.
- Sim...Você deve ficar junto das pessoas que a amam.
- Eu devo ficar junto do meu pai.
- Sim... E onde ele está agora?
- Ele está morto.
- E o que você deve fazer?
- Eu devo... – Hannah pareceu relutar. - ...morrer.
- Sim...
Karen pegou a faca de Hector que eu havia trazido e pôs na mão de Hannah.
- Agora, filha de Hera... – a cartomante falou baixo. – Morra!
- Hannah, não! – Tobey gritou quando Hannah mirou a faca em seu coração, mas Klaus, que estava bem atrás de nós, golpeou Tobey na cabeça e ele desmaiou.
Aquele não era o momento de ficar paralisado. Hannah estava prestes a se esfaquear e só eu podia fazer alguma coisa. Eu já tinha pensado no que teria que fazer, mas era Tobey que devia fazer. Mas ele estava apagado e não dava para esperar ele acordar. Então eu juntei todo o meu fôlego e toda a minha coragem e gritei o mais alto que pude:
- HANNAH, EU TE AMO!
Antes eu não fazia a menor idéia se ia funcionar ou não. Era o meu único plano e eu tinha que tentar, por mais idiota que fosse. Acontece que funcionou. Karen pode não ter notado, porque estava atrás dela, mas eu vi quando os olhos de Hannah se moveram. Ela havia saído do transe. A faca ainda estava em sua mão. Ela se virou de supetão e chutou Karen para longe dela. Eu aproveitei e dei um soco em Klaus enquanto ele ainda estava distraído. A ilusão da cartomante se desfez imediatamente. Nós voltamos para o branco.
- Não tem saída. – disse Karen, muitíssimo irritada, vindo em nossa direção, mancando. – Você é o próximo, filho de Hades.
Eu tinha Klaus como refém. Hannah havia corrido para perto de Tobey, que ainda estava desmaiado, e ela me passou a faca.
- Matar Klaus não vai nos tirar daqui. – Karen informou.
Eu meio que sabia daquilo. Mas eu tinha que fazer alguma coisa. Talvez, se eu o mantivesse preso, ele não criaria mais nenhuma ilusão. Karen e eu ficamos nos encarando. Era melhor que nada. Eu precisava de tempo para pensar em alguma coisa. Enquanto isso, Hannah estava ajoelhada tentando acordar Tobey. Pelo menos ela estava tendo sucesso, porque ele finalmente abriu os olhos com dificuldade e levou a mão até a cabeça; a pancada de Klaus devia estar doendo. Mas ele não se levantou, ele meio que queria continuar dormindo e ficou ali no chão mesmo. Hannah ficava dizendo que ele precisava se levantar, que nós estávamos com problemas, que precisávamos sair dali, mas ele só ficou olhando em volta. Eu não podia parar de encarar Karen, mas eu dei uma olhada rápida para Tobey e vi que ele estava olhando de um jeito estranho para algo em Klaus. Não pude me desconcentrar para ver o que era.
- Solte ele. Não adianta, eu sei que você não vai matá-lo. Só estamos perdendo tempo aqui. – disse Karen.
Permaneci com a faca no pescoço de Klaus. Tobey finalmente se levantou, mesmo que tenha precisado se apoiar em Hannah. Ele caminhou até onde eu estava e nós três ficamos lá encarando Karen. Mesmo que discretamente, Tobey continuava olhando alguma coisa nas costas de Klaus. Já que eu não estava mais sozinho, pude dar uma olhada mais caprichada. E lá estava: Klaus estava usando uma jaqueta larga por cima da camisa; ele havia escondido o lençol bem dobrado por dentro da camisa, nas suas costas. Eu o estava segurando de um jeito que a jaqueta dele subiu um pouco e por causa disso dava para ver o lençol. Agi rapidamente. Empurrei-o em direção à Karen, puxei o lençol e o joguei por cima de nós.
Não foi como da primeira vez. Tudo estava escuro sim, mas não era como nadar. Era como se estivéssemos dentro de um redemoinho! Karen e Klaus também foram parar lá, mesmo que eu não tivesse coberto eles. Não tinha como evitar, nós ficávamos nos batendo naquele lugar. Eu guardei logo a faca para não causar acidentes. Eu não conseguia ver quem estava perto de mim, eu só ouvia os gritos quando a gente colidia.
- Pense no circo! – aquela voz não era de Tobey, eu tinha certeza. Só podia ser Klaus.
- O quê?! – eu gritei de volta.
- Você tem que pensar aonde você quer ir! Rápido! Senão vamos ficar presos aqui para sempre!
Eu obedeci e pensei em Eve e Hector. Eu não sabia se eles estavam bem nem se ainda estavam no circo, mas eu queria encontrá-los. O ambiente escuro foi ganhando cor e forma e de repente nós estávamos lá nos fundos do circo outra vez. Dessa vez Karen e Klaus também caíram pesadamente no chão como o restante de nós. Antes que eu pudesse pensar em segurá-los, vi dois pares de pés correndo na nossa direção.
- Amarre o cara, Eve! – era a voz de Hector. – Eu cuido dela. – eu vi quando Hector arrastou Karen para longe de mim.
Me levantei e vi que Hector e Eve ficaram bem ocupados enquanto estávamos fora. Eles conseguiram dominar todo o pessoal do circo e amarrá-los num canto. Amarraram também a Karen e o Klaus.
- Nico! – Eve quase me derrubou outra vez no chão com o abraço que ela me deu. – Eu fiquei tão preocupada! Você está bem?
- Estou... Acho que sim. – eu respondi. Notei naquele instante que ainda estava segurando o lençol negro.
Eve correu para ajudar Hannah, e Hector veio falar comigo.
- Para onde vocês foram?
- Eu não sei. Esse lençol deve ser uma Dádiva. Estávamos presos dentro dele, eu acho. Ele pode criar ilusões também.
- O que houve lá?
- Tentaram matar Hannah. Ela foi hipnotizada ou algo assim. Mas o Grant acabou sendo o grande herói. Se não fosse por ele, eu provavelmente não teria encontrado o lençol para nos trazer de volta.
- É mesmo? Que bom que vocês dois estão conseguindo trabalhar juntos.
- Bom... Você e a Eve também, não é? - olhei para aquelas pessoas amarradas. – Como fizeram isso?
- Eles não são grande coisa quando nós estamos com nossas espadas. Mas a Eve... Cara, eu nunca tinha percebido que ela lutava tão bem. Ela praticamente fez esses caras chorarem. Ela é tão... Uau!
Foi o que ele disse: uau. E me deixou ali. Ficamos esperando os sátiros que Hector havia chamado chegarem para cuidar daquele pessoal. Tobey ainda estava meio tonto, então Hannah ficou cuidando dele. Ela ainda não havia falado comigo. Eu não sabia o que ia acontecer quando ela falasse. Porque, mesmo sem querer, eu havia feito o que Eve e Percy me disseram para fazer: eu me declarei para ela. Bom. Mais ou menos. É claro que eu gosto dela. Gosto muito. Mas eu disse que a amava. E eu não tenho certeza se eu a amo ou não. Isso é algo muito forte. E eu acho que, no nosso caso, só se pode dizer que ama alguém quando você está namorando essa pessoa. Quero dizer, e se eu e ela começássemos a namorar e eu percebesse depois de um tempo que ela não era do jeito que eu imaginava? Essas coisas acontecem o tempo todo.
Mas existia uma possibilidade enorme de ela não se lembrar de nada disso. Claro, ela estava em transe e depois nós ficamos rodopiando em um redemoinho. Seria surpreendente se ela se lembrasse de todos os detalhes. Acontece que ela só despertou depois que me ouviu gritar "Eu te amo", então era bem possível que ela lembrasse sim disso aí. Só que ela não devia saber quem tinha sido. Eu bolei um plano: se ela viesse me perguntar eu diria que foi o Tobey. Ele gritou e o Klaus bateu na cabeça dele. O que é algo perfeitamente aceitável. Ele era o namorado dela e depois de tanto tempo de namoro, ele já poderia dizer que a amava. Além do que, isso era o que deveria ter acontecido, porque eu tinha a intenção de mandar Tobey gritar "Eu te amo".
Os sátiros chegaram e nós entramos no carro, aliviados. Chegamos ao motel ensopados e entramos molhando a recepção inteira. A dona do lugar olhou para nós um tanto aflita e disse que tinha jantar na cozinha se nós quiséssemos. Nós fomos para os nossos quartos para tomar banho. Aquele banho quente foi um verdadeiro alivio depois daquela chuva. Eu adoraria deitar naquela cama que parecia tão confortável e dormir uma semana inteira, mas Eve abriu a porta do quarto que eu dividia com os caras, sem a menor cerimônia, e nos chamou para jantar lá embaixo.
Não foi tão ruim. A comida era boa e eu estava mesmo morrendo de fome. Ninguém tinha muito ânimo para conversar naquela noite. Eve parecia muito ansiosa para saber de todos os detalhes do que havia acontecido no tal mundo do lençol negro, mas ninguém tinha forças para contar. Foi quando nós estávamos comendo uns muffins que o Hector apontou para o braço direito da Hannah e perguntou:
- O que é isso aí?
Hannah estranhou a pergunta e olhou para o próprio braço, muito surpresa. Todos nós olhamos. Eu passava as minhas refeições no acampamento olhando praticamente o tempo todo para Hannah e eu tinha bastante certeza de que ela não tinha uma tatuagem de borboleta azul no braço direito.
- O que é isso?! – Hannah começou a esfregar a tatuagem desesperadamente.
- Ei, calma. Deixa eu dar uma olhada. – Hector deu a volta na mesa e pegou o braço dela. - Tem certeza que você não colocou isso?
- Tenho! Isso não estava aí!
- Deve ter sido a Karen. Ela sempre gostou de tatuagens. Não se preocupe. Ela provavelmente só estava tentando ser engraçada.
- Eu achei uma gracinha. – comentou Eve.
- É, ficou lindo em você. – Tobey disse e acariciou o braço dela.
Eu achei que eles já haviam se entendido depois de tudo que aconteceu, mas Hannah o ignorou e tirou o braço do alcance dele.
- Eu vou dormir. Não estou nem conseguindo manter os olhos abertos. – Hannah anunciou e pegou um pacote de biscoitos de chocolate que estava ali encima. – Vocês vão comer isso aqui? – ninguém disse que sim, então ela levou o biscoito e subiu para o quarto.
- Hannah, vem logo! – Eve gritou do lado de fora do quarto delas no motel.
Todo mundo estava muito cansado do dia anterior, mas nós não tínhamos tempo a perder. Por isso estávamos nos organizando para partir quando o dia amanheceu. Bom, eu, Eve, Hector e Tobey já estávamos prontos. Só Hannah parecia estar demorando demais no seu ritual matinal diário de beleza. Ela ainda não havia saído do quarto. Eve disse que mandou ela levantar, mas ela ainda estava dormindo feito uma pedra quando Eve terminou de se arrumar e saiu do quarto.
- Não podemos esperar. – Hector se dirigiu impaciente até o quarto das meninas. – Droga, Hannah! Nós temos que ir agora! Sai logo daí! – gritou, praticamente esmurrando a porta.
Nós esperamos mais alguns minutos.
- Eve, entra lá e fala com ela. Estamos atrasados. – Hector pediu e Eve foi lá.
- Hannah! Não dá para acreditar! Levanta logo! - Eve exclamou de lá de dentro. - Ela ainda está dormindo! – ela apareceu para nos dizer isso.
- O quê?! – Hector foi até lá e eu e Tobey o seguimos.
Encontramos Hannah dormindo profundamente no chão do quarto. Com o pacote de biscoitos ao lado.
- Por que ela está no chão? – Tobey perguntou.
- Sei lá. Ela já estava aí quando eu cheguei ontem a noite. Pensei que fosse uma preferência dela ou algo assim. – Eve respondeu.
Hector balançou ela de leve, tentando acordá-la. Tobey também tentou, sem sucesso.
- Acho que nós vamos ter que carregá-la até o carro. – disse Eve e começou a puxar o braço direito de Hannah. Do nada, Eve deu um berro e se afastou rapidamente, de forma que o braço de Hannah caiu pesadamente no chão.
- Você ficou louca?! – Tobey correu para checar o braço de Hannah. – Ah, meus deuses... – ele murmurou para si mesmo. Tinha o olhar mais chocado que eu já vi.
Eu e Hector chegamos mais perto para ver qual era o problema. E ali estava: no lugar da tatuagem de borboleta que nós havíamos visto na noite anterior, estava uma espécie de ferida muito vermelha e que pulsava. Dava para entender perfeitamente a reação de Eve. Aquilo era sim muito assustador. Por um minuto inteiro, nenhum de nós sabia como agir. Só fomos capazes de ficar encarando aquela coisa sinistra no braço de Hannah. O detalhe era que, mesmo depois de tudo aquilo, Hannah ainda não havia acordado. Eve pareceu ser a primeira a ligar os pontos:
- Ela está morta...? – ela sussurrou.
- Vira essa boca pra lá! – Tobey se manifestou e passou a sacudir Hannah sem a menor delicadeza. – Hannah, acorda! Por favor, acorda!
- Ei, para! Para com isso! – eu tentei acalmá-lo antes que ele quebrasse o pescoço dela ou algo parecido. Mas Tobey estava me empurrando para longe. – Hector, faça alguma coisa! – eu pedi socorro.
Hector ainda não havia se movido. Continuava encarando a ferida muito pasmo.
- Hector! – eu gritei.
- Acho que sei o que é isso... – ele parecia estar falando sozinho. – Não. Não pode ser! – ele saiu do quarto correndo.
- Ela está morta! Estava morta a noite inteira! – Eve não parava de dizer isso.
Hector voltou rapidamente carregando o livro das Dádivas dos deuses. Folheou rapidamente e se ajoelhou ao meu lado.
- É isso. Sabia que já tinha lido em algum lugar. – ele me apontou uma página. Havia a figura de um pincel fino com o cabo branco cheio de estampas coloridas e as cerdas prateadas.
"Um presente de Hécate, a deusa da mágica, esse instrumento é capaz de gerar um monstro poderoso quando utilizado em um objeto ou em alguns seres vivos. A tatuagem que produz atua como um parasita , sugando as forças do hospedeiro até a sua morte."
"Herói presenteado : Karen Leroy"
Eu podia ter dito um milhão de coisas diferentes depois de ler aquilo. Eu podia ir atrás da Karen e matá-la da forma mais cruel que eu conseguisse pensar. Eu podia gritar para que todos saíssem dali e me deixassem sozinho com Hannah para que eu pudesse dizer a ela tudo que eu sentia antes de ela morrer. Entre outras coisas. Mas eu não consegui falar nada. Na verdade, eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo.
- Ela não está morta. – Tobey quebrou o silêncio. – Tem pulso e o coração ainda bate. Está quente também.
Não sabia se devia me sentir aliviado com aquilo.
- O que mais diz aí? Tem como reverter? Quem sabe se dermos ambrósia para ela? – Tobey estava nervoso, porém esperançoso.
- Não diz se há como reverter ou não. – Hector relia a mesma página sem parar.
- O que nós vamos fazer, Hector? – Eve perguntou , levemente mais calma.
- Como é que eu vou saber, Eve? Acho melhor falarmos com Quíron. Talvez ele saiba alguma coisa que não esteja nesse livro.
Nós mandamos uma mensagem de Íris para o acampamento. Quíron estava na varanda da casa grande. Contamos o que houve imediatamente, mas como todo mundo falava ao mesmo tempo, Quíron demorou para entender.
- Isso... Isso não pode estar acontecendo... – ele balbuciou. – Então Maureen está mesmo formando um exército? E Karen está do lado dela? Agora eu sei que isso é algo mil vezes maior do que eu imaginei. E essa obsessão em matar Hannah? Meus deuses... – ele a olhou cheio de tristeza. – Eu não entendo.
- Quíron – Tobey prendeu a respiração. – Existe alguma maneira de tirá-la dessa? Quero dizer, aconteceu ontem a noite. Acho que ainda é cedo. Não é? – ele definitivamente não acreditava muito no que dizia.
- Essa é uma Dádiva muito curiosa. A própria Karen provavelmente não tem conhecimento da extensão dos poderes daquele pincel.
- Você sabe algo mais? – Tobey perguntou desesperado.
- Não, Tobey. Eu sinto muito. Eu acredito que só quem o fabricou sabe ao certo tudo que ele pode fazer.
- Você quer dizer...Hécate? – eu quis saber, achando a situação cada vez pior..
- É, Nico. Não tenho certeza, mas acho que apenas um Deus poderia reverter esse processo.
- Mas isso é loucura! – Hector exclamou, estupefato. – Ir até o Olimpo? Eles não vão nos receber! Eles não ligam se um de nós morrer!
- Eu vou fazer qualquer coisa para salvar a Hannah. E isso inclui ir até o Olimpo. – Tobey falou firmemente.
Eu tinha que admitir : por mais idiota , arrogante e estúpido que o Tobey fosse, ele realmente amava Hannah. Ela definitivamente era a mulher da vida dele e não só um troféu. A tensão naquele quarto era absurda. Grant era o único que parecia estar com a cabeça no lugar. Bom, pelo menos ele tinha certeza do que queria fazer. Eu e os outros ainda estávamos parados, ainda sem acreditar que aquilo estava acontecendo.
- Talvez Karen saiba de alguma coisa. – disse Eve. – Quero dizer, nós nem desconfiávamos que ela estava contra nós. E se ela souber como tirar essa coisa?
- E por que ela nos diria? É perda de tempo ir até ela. Hannah não tem muito tempo. Vamos logo para o Olimpo. – Tobey rebateu.
- Não. Eve pode ter razão. Talvez Karen nos diga porque querem tanto matar Hannah. Eu acho que Hannah deve voltar para o acampamento. Não é seguro para ela continuar com essa missão. – Hector disse.
Eu estava sendo egoísta, eu sabia disso. Já estava mais do que claro que era perigoso para Hannah continuar com a gente. Mas me doía pensar em ficar longe dela. Bom, ela provavelmente estava chateada comigo, mas eu tive mais contato com ela naqueles últimos dias do que durante anos no acampamento. E eu havia falhado, era verdade. Eu não consegui protegê-la. Mas realmente não me sentiria melhor se ela estivesse longe de mim.
- Pessoal. – eu suspirei. – Vamos falar com a Karen. Ela ainda está na cidade, certo?
Acho que todos estavam esperando a minha decisão. Eles me encararam e Tobey nem reclamou. Ele só disse:
- Vamos lá.
Combinamos que Eve ficaria no hotel tomando conta de Hannah enquanto eu, Tobey e Hector iríamos até o galpão para onde os sátiros levaram os meio-sangues que estavam com Karen. Estava garoando, o que já era um alívio. Minha vida já estava uma porcaria sem precisar de um banho de chuva super gelada. Fomos recebidos por uns sátiros surpresos. Eles disseram que nós demos sorte. O transporte para aqueles meio-sangues já estava chegando, mais uma meia-hora e nós os perderíamos.
Karen estava amarrada em um canto com Klaus ao seu lado. Foi estranho. Nenhum daqueles semideuses parecia furioso ou desesperado para fugir. Eles estavam conversando tranquilamente como se estivessem num restaurante ou algo assim. Não dei importância àquilo. Pra mim eram todos uns cínicos. Nós nos dirigimos até Karen. Ela parou de conversar com Klaus e nos encarou muito surpresa.
- O que é que você está fazendo aqui, filho de Hades? – eu não entendi porque ela se dirigiu somente à mim. Achei que ela fosse provocar Hector como da outra vez. De qualquer maneira, não pude responder, porque Tobey sacou sua espada, caminhou furiosamente até Karen e pressionou a lâmina contra a garganta dela. Até os sátiros ficaram aflitos com aquela cena.
- O QUE VOCÊ FEZ? – Tobey berrou e pressionou a lâmina mais ainda.
Karen ficou realmente com medo daquela explosão. Bom, eu não a culpo. Você percebe que Tobey é um cara esquentado só de olhar pra ele, mas você não espera que ele chegue berrando e tentando cortar a sua garganta no primeiro momento.
- Eu... eu... – lágrimas escorriam sem parar dos olhos de Karen e ela mal conseguia falar. Eu já tive uma lâmina contra a minha garganta e posso assegurar que a sensação não é nada agradável.
- VOCÊ VAI ME DIZER COMO TIRAR AQUELA MALDITA TATUAGEM AGORA, CASO CONTRÁRIO EU VOU MARCAR CADA CENTÍMETRO DE VOCÊ COM FERRO EM BRASA ATÉ VOCÊ ME CONTAR! ESTÁ ME ENTENDENDO?
-EI! – eu tive que dar um basta naquilo. Karen era má, eu sabia. Ela quis matar a todos nós. Mas Tobey passou dos limites. – Já chega! – eu afastei Tobey dali.
- ME LARGA! – ele ficava se debatendo. – EU VOU ACABAR COM ELA!
- Grant, não! – Hector veio me ajudar a contê-lo. – Não é desse jeito que nós vamos conseguir respostas.
- VOCÊ DIZ ISSO PORQUE É A SUA NAMORADA QUE ESTÁ ALI , MAS A MINHA ESTÁ MORRENDO E ALGUÉM VAI TER QUE PAGAR POR ISSO!
- GRANT, ME ESCUTA! - eu tive que gritar pare que ele prestasse atenção em mim. – Hannah não ia querer que você fizesse isso! Você sabe que não! Então vê se dá um tempo e vamos tentar resolver isso de outra forma!
Acho que o fato de eu ter mencionado Hannah fez com que ele voltasse à razão. Ele olhou pra mim e Hector como se nem tivesse percebido que nós estávamos ali antes. Ele respirou fundo e eu o soltei.
- Está tudo bem. – eu disse a ele. – Não precisa fazer isso se não quiser.
- Não. Está tudo bem agora. – ele me garantiu.
Voltamos para perto de Karen. Um sátiro limpava o corte em seu pescoço. Ela chorava que nem um recém-nascido.
- Karen, você tem que nos dizer o que fazer. – Hector declarou firmemente. – Você não vai ficar impune pelo que você fez.
- Eu... – ela soluçou. – eu juro que... eu juro que eu não sei. Não sei como parar o processo. Acho que não há como. – ela foi se acalmando aos poucos.
- Tem que haver um jeito! – Hector já não estava mais tão tranqüilo.
- Eu não sei! Talvez só a mágica de Hécate possa acabar com isso.
- E onde ela está? No Olimpo? – eu exigi.
- Eu não sei! – ela recomeçou a chorar.
Tobey saiu de perto, provavelmente para não matá-la. Hector passou as mãos pelo cabelo, em desespero.
- Ela não sabe. – ele afirmou sem olhar pra mim.
- Tem certeza?
- Infelizmente, sim. Vamos embora daqui.
Voltamos para o motel. Mal chegamos ao corredor e Eve praticamente pulou em cima da gente:
- Caras! Vocês não vão acreditar! Hannah acordou! – Eve estava pálida e de olhos arregalados. E falou tão rápido que eu mal consegui entender.
Eu e os outros atropelamos Eve e corremos até o quarto que nem loucos. Mas, quando chegamos lá...
- O quê?! Hannah! – Tobey correu até a cama. Hannah não estava acordada. Ele ficou chamando o nome dela e sacudindo-a. Sem resposta.
- Mas você não disse que... – Hector olhou para Eve, que ficou parada na porta, olhando para Tobey e Hannah, com tristeza.
- Vocês não me deixaram terminar. – ela explicou, com pesar na voz. – Ela despertou logo depois que vocês saíram. Estava muito cansada, quase não conseguiu se sentar, mas ficou acordada até há bem pouco. Eu não entendi nada! Em um segundo eu estava falando com ela e então eu ouvi um carro se aproximando e fui até a janela para ver se eram vocês. Quando eu virei para dizer a ela que vocês estavam chegando, ela já havia desmaiado de novo! Dois segundos! Eu tirei os olhos dela por dois segundos!
- Então vocês conversaram? O que ela disse? – eu perguntei.
- Ela disse que deve ter desmaiado assim que voltou da cozinha ontem à noite. Disse também que parecia que ficava mais fraca a cada momento. E eu... Bom. Eu não contei a ela sobre a coisa de, vocês sabem... A coisa de morrer. Achei que seria mais fácil se ela não tivesse que pensar nisso. E ela perguntou sobre vocês, é claro. Eu disse que vocês estavam tentando ajudá-la. – de repente, ela ficou elétrica. – Ah, meus deuses! E então? Vocês falaram com a Karen?
- É... Falamos. – Hector respondeu desanimado. – Ela não faz idéia.
- E ela também não disse porque fez isso com Hannah?
- Isso não é o mais importante agora.
- Acho que você tem razão... – Eve suspirou. – O que nós vamos fazer?
- Por enquanto, eu vou tentar dar o meu jeito. – ele disse, um pouco menos deprimido.
- O que você quer dizer com isso? – Tobey perguntou, desconfiado.
- Ora... – Hector tirou o casaco e arregaçou as mangas da camisa. – Apolo não é apenas o Deus do sol e da música. – ele se sentou na cama e pegou o braço de Hannah delicadamente. – Ele também é o Deus da cura e da proteção contra as forças malignas. – ele aproximou sua mão da ferida, fechou os olhos e começou a entoar um cântico.
A atitude do Hector me deixou mais tranqüilo. Eu havia me esquecido completamente que os filhos de Apolo possuíam habilidades de cura. Não sabia se ele teria poder para combater aquele parasita, mas eu tinha certeza de que ele daria o melhor de si. Grant saiu do quarto das meninas e foi para o nosso, do outro lado do corredor. Eve estava auxiliando Hector, então eu segui Tobey. Não era algo que eu faria em condições normais, mas dava para perceber que ele precisava de uma força.
Ele estava deitado na cama de baixo do beliche, encarando o fundo da cama de cima. Eu me sentei no outro beliche.
- Grant? – eu arrisquei.
- O que é? – ele foi muito delicado, para não dizer o contrário.
- Eu só queria que você soubesse que essa situação é horrível para todos nós, mas que nós não vamos desistir. Você pode contar com a gente.
- Você pode ir lá ficar com a Hannah, sabe? Eu não preciso de ninguém tentando me reconfortar.
Eu devia ter obedecido ao meu instinto que era dar um belo soco na cara daquele ingrato, mas acho que toda aquela situação com Hannah me enlouqueceu, porque eu ignorei completamente a grosseria dele e continuei.
- Eu não ia ser de muita ajuda para eles. Não só porque eu não entendo nada de cura, como também porque eu não acho que ter um filho do deus da morte por perto vá ajudar alguém a continuar vivendo.
Eu não tive a intenção de fazer graça, mas Tobey deu uma risada mesmo assim. Não foi nada comparado àquelas risadas que ele dava quando estava com os amigos no acampamento, mas, diante de tudo que estava acontecendo, até que foi grande coisa.
- Me desculpe. – ele disse depois de um tempo de silêncio. Sua expressão se suavizou um pouco.
- Pelo quê? – Tobey Grant estava me pedindo desculpas? Alguém tem uma câmera aí?
- Ah, por tudo. Eu não fui legal com nenhum de vocês desde que Hannah sofreu aquele primeiro atentado.
Tive vontade de lembrá-lo que ele jamais foi legal com a gente, mesmo quando tudo estava bem. Mas achei melhor não estragar aquele momento tão irreal.
- Eu me preocupo demais com ela, sabe? Foi por isso que eu impliquei tanto quando você a convidou para a missão. – ele continuou.
- Eu sei. E... Deixa eu adivinhar: você me culpa por ela estar daquele jeito agora.
- Muita gente tem culpa nessa história... – ele falou de um jeito muito sombrio.
Antes que eu pudesse perguntar o que aquilo significava, Eve apareceu na porta e disse que Hector queria falar comigo. Eu e Tobey fomos até o outro quarto. Hector ainda estava sentado ao lado de Hannah, mas o seu olhar, que há poucos minutos fora de determinação, naquele momento era de frustração.
- O que foi? – eu perguntei apreensivo.
- Eu tenho uma teoria. – ele disse. – Se aproxime.
Eu caminhei até a cama e Eve também.
- Veja só, Eve. – disse Hector , e ela tocou a pele de Hannah.
- Temperatura normal. – ela disse.
- Sua vez, Nico. Toque na Hannah. – Hector mandou.
Não estava entendendo nada, mas fiz o que ele pediu. E assim que eu toquei na mão dela...
- Ah, meus deuses! – Todo mundo no quarto exclamou.
A ferida no braço de Hannah ficou mais inchada e começou a pulsar bastante. Eve tocou a pele de Hannah outra vez.
- Está fria... – ela afirmou, nervosa. – E ela está mais pálida.
- Mas o que é que está acontecendo?! – eu larguei Hannah imediatamente e praticamente voei até a porta.
- Hector estava certo, Nico... – murmurou Eve.
- Certo?!Sobre o quê?!
- Meus poderes de cura não funcionam, Nico. – ele explicou. – E o estado de Hannah se agrava quando você está perto... Acho que as pessoas estão certas quando dizem que você... Irradia morte.
Eu não devia me ofender com aquilo. Quero dizer, eu não ligava. Os pégasos do acampamento não me deixavam montá-los porque diziam que eu tinha cheiro de morte. Mas isso era algo que, se realmente existia, os humanos não sentiam. Ninguém nunca chegou para mim e disse que eu fedia. Mas, enfim, eu pensei que essa coisa de "irradiar morte" fosse só uma metáfora, não um fato. Nem posso explicar como eu me senti diante daquela situação. De verdade, não tenho palavras.
- Nico... – Hector parecia desesperado para me consolar. – Entenda. Talvez seja só enquanto eu faço uma magia de cura. Provavelmente não vai levar uma hora. Sabe, eu... eu acredito que posso curá-la. Então... se você sair ... vai ajudar Hannah a sair dessa mais rápido. Você... entende isso, não entende?
Aquilo foi terrível. Todos olhando para mim com aquela cara de "Coitado do Nico. Ele nem pode ficar perto de uma amiga doente. Ele não tem culpa se nasceu com o dom de arrastar as pessoas para a morte.".
- Eu... Claro. Claro que eu entendo. Eu vou... não sei. Perguntar à dona lá embaixo se ela sabe de outro motel em que eu possa me hospedar.
Eu sai de lá depressa para que ninguém tentasse me consolar. Caramba, como aquilo era horrível! Naquele momento fez sentido o que Eve nos contou a respeito de Hannah ter acordado quando eu me afastei e de ter apagado quando eu voltei. Que droga. Mil vezes droga.
Recolhi minhas coisas e enfiei tudo dentro da mochila em meio minuto. Desci as escadas e pedi uns endereços para a senhora do hotel. Enquanto eu esperava impaciente ali em pé, alguém colocou um celular no balcão a minha frente.
- Tome. Ligue quando quiser. – Tobey estava ali ao lado, com uma expressão ininteligível.
- O quê? – eu devo ter feito a maior cara de idiota.
- Comprei celulares para todos quando soube da missão. Sei que você tem receio de usar, mas nessa situação... Não sei. Achei que ia querer se manter informado.
- Bem, eu... – peguei o celular cautelosamente. – Talvez eu vá precisar mesmo. Valeu.
- Hum, de nada. – ele deu de ombros. - Já sabe onde vai ficar?
- Eu vou deixar o endereço aqui. Ainda estou esperando. Mas... – emendei depressa. – eu não vou demorar.
- Tá. – disse, já subindo as escadas. – Eu ligo se acontecer alguma coisa. – e sumiu.
