Retrtação: Naruto não me pertence, bem como a fic 'Diplomatic Relations'.

Atenção: Pode até parecer um fic bobinha. Mas não se engane, ela não está classificada como M à toa. Contém YAOI!!!


SANDSTORM

Capítulo 4 - Sentindo falta

O gavião mudou de poleiro, enquanto olhava para Gaara com alguma desconfiança, havia algo que simplesmente o impedia de se afastar. Então os olhos da ave se deslocaram para a mão dele, melhor, para o petisco de carne fresca que segurava entre os dedos. Como que hipnotizado pelo pequeno pedaço de carne, o gavião foi se aproximando. Mas, antes que estivesse perto o suficiente para arrancar a carne de entre os dedos de Gaara, o receio superou a fome e o bicho parou. Olhava fixamente para o alimento, provavelmente travando internamente uma batalha psicológica de difícil solução: aproximava-se, espunha-se ao perigo e matava a fome ou se afastava em segurança com o estômago vazio... Antes que o gavião tomasse uma decisão, Gaara lançou o pequeno pedaço de carne para cima, que foi quase imediatamente arrebatado pela ave. O gavião engoliu rapidamente a 'presa' e voltou a olhar arrogante para Gaara, quase como se dissesse, ignorando por completo o título de Kazekage dele, 'não faz mais do que sua obrigação'.

Lee, que havia parado ainda nas escadas que davam para o Setor de Comunicação, tentando não assutar nem Gaara e nem o gavião, decidiu que já era o momento apropriado para interrompê-los.

- Gaara... Cuidando dos pássaros?

O Kazekage olhou de relance sobre o ombro, não se preocupou em responder. Aquele era o comportamento padrão de Gaara, que já não surpreendia mais Lee.

- Onde está o Chounin do plantão? - Lee perguntou ao se aproximar da mesa onde ficava o responsável pela Sessão de Correios e encontrá-la vazia.

- Recebeos algumas mensagens urgentes, todos estão muito ocupados. Então ele foi pessoalmente adiantar algumas coisas na Sessão de Criptografia. Deve estar de volta em uma hora, no máximo - Gaara respondeu, enfiando a mão em uma vasilha para pegar mais um pedaço de carne. Outro gavião se aproximou ansioso.

Lee tirou a mochila das costas e se sentou em uma cadeira para esperar. Gostaria que o Chounin não demorasse muito, entretanto suspeitava que ele não teria muita pressa para retornar. Pelo menos enquanto o Kazekage estivesse no aviário.

A maioria das pessoas evitavam ficar sozinhas com Gaara se não tivessem nenhum assunto oficial para tratar com ele. Em grande parte, isso se devia ao medo que ele ainda provocava nas pessoas, especialmente entre os civis. Mas, além disso, era uma forma de evitar constrangimentos. Afinal, Gaara passava a impressão de ser alguém que não gostava de ser incomodado. Some-se a isso um certo embarasso por estar na presença do homem mais importante da Vila, alguém a quem todos deviam suas vidas... E também ao fato das pessoas se sentirem inacapzes de puxar algum assunto que pudesse ser do interesse de Gaara, simplesmente por não saberem que tipo de assunto era do interesse dele.

Lee observou Gaara lançando outro pedaço de carne para os gaviões. Era serviço para um Chounin alimentar as aves utilizadas para comunicação entre as Vilas, mas Gaara fazia isso de vez em quando, por alguma razão que ele, obviamente, não se preocupou em explicar.

O silêncio que se seguiu foi agradável, apenas com os ruídos das aves de rapina se deslocando entre os poleiros e engolindo a refeição que Gaara lhes oferecia, e o gorjear sempre preocupado dos pombos-correio em suas gaiolas mais ao fundo. Lee também não se lembrava de ter tido alguma conversa longa e interessante com o Kazekage, algumas vezes ele tinha exatamente a mesma dificuldade que os demais moradores da Vila para encontrar assuntos extra-oficiais para tratar com Gaara. Mas isso também não significava que ele se sentia desconfortável na presença do Kazekage. Nos seis meses que Lee já estava em Suna, ele e Gaara tinham estabelecido uma rotina diária de treinamentos, sempre que ambos estavam disponíveis. E você não precisa de horas de conversa com uma pessoa para conhecê-la quando você disputa com ela todo dia. O estilo de luta de um homem revela a sua verdadeira personalidade, era isso que Gai-sensei dizia, e Lee concordava plenamente.

Aquelas sessões de treinamento tinham se tornado o momento mais esperado do dia para Lee, e para Gaara também, a tirar pelo esforço que ele fazia para conseguir tempo na sua agenda sempre lotada. Levou algum tempo para que Gaara aceitasse que Lee realmente gostaria de ser atacado como se fosse um inimigo (dentro de limites razoáveis, obviamente). Mas agora Gaara tinha pego o espírito da coisa e proporcionava a Lee treinamentos tão duros quanto os que ele tinha com Gai-sensei.

As disputas eram ataques de alta velocidade e esquivas, Jutsu de Areia versus Taijutsu. Lee evitando os ataques de Gaara, rolando, saltando para frente, escapando pelo lado, tentando ficar perto o suficiente para contra-atacar, desferindo golpes que explodiam na barreira de areia... Isso se um dos golpes de Gaara não o pegasse pelas costas primeiro! Era realmente excitante! Ou, como dizia Kankuro, 'Brutal, você deveria pedir que um médico examinasse a sua cabeça'.

Claro que aquilo era uma bobagem, a cabeça de Lee estava perfeitamente bem. Os treinamentos eram duros, verdade, mas Gaara precisava praticar o seu controle, velocidade e força... E, além do mais, nunca atingira nenhum ponto vital de Lee.

Gaara não falava muito durante os combates, a natureza dele era introspectiva e extremamente observadora, o oposto de Lee... Mas isso não o incomodava, gostava até. Gaara sempre tinha um ponto de vista diferente do seu e isso era enriquecedor, sem dúvida. Não fora tão difícil se acotumar com as oscilações de humor e com o silêncio dele, tanto durante os treinamentos quanto durante os 'encontros' noturnos no escritório do Kazekage - outro hábito que os dois Shinobis haviam adquirido, sem nem perceber, nos últimos meses.

Lee frequentemente trabalhava até tarde no prédio da administração. Realmente, suas atribuições não eram poucas, além de cumprir suas obrigações como ninja (e dessas ele não abria mão de forma nenhuma), ainda precisava dar conta de toda a burocracia que o seu cargo de diplomata exigia. Além disso, Lee não era um gênio... Então contava apenas com a sua teimosia, determinação e trabalho duro para descontar a falta de traquejo com a parte burocrática. Entre um relatório e outro, Lee fazia pequenas pausas para esticar as pernas e ver se o Kazekage, que não dormia nunca mesmo, precisava de alguma coisa, ou se queria apenas um pouco de companhia.

Dependendo do tipo de silêncio que Gaara fazia, Lee podia ficar por apenas alguns segundos ou permanecer no escritório de Gaara por meia hora, até mais. Algumas vezes eles sequer conversavam, outras eles falavam sobre suas Vilas, sobre outros Shinobis e missões e tal... Lee gostava dessas pausas noturnas, quando todos estavam dormindo e a noite fria do deserto apenas era perturbada pelo uivo das raposas lá fora.

A despeito dos raios de sol que entravam pelas janelas, aquele momento no aviário tinha algo de parecido com os encontros noturnos, Lee só não sabia dizer o que era. Talvez fosse pela oportunidade de observar Gaara fora da sua rotina sempre corrida, sem aquele semblante pesado do dia-a-dia cheio de compromissos.

A essa altura os pombos gorjeavam ligeiramente mais tranquilos, enquanto as cigarras cantavam para os últimos minutos de calor do dia. O sol ia se pondo por trás das dunas ao longe, tingindo Suna de um tom alaranjado vibrante, muito diferente do amarelo pálido da areia, que parecia estar presente em absolutamente todos os lugares e ocasiões. E Gaara continuava alimentando as aves de rapina, sem pressa, a camisa cor de terra que ele vestia, diante do complexo jogo de luzes e sombras provocado pelo sol do fim da tarde, parecia se confundir com a plumagem dos bichos. O robe de Kazekage displicentemente atirado sobre uma cadeira...

Sem dúvida, havia uma aura de tranquilidade e paz naquela sala. E Lee sentia-se bem, muito bem, podia ficar horas ali, apenas contemplando a cena que lhe parecia inexplicavelmente interessante...

Mas então ele se agitou, retornando abruptamente para o mundo real. Não tinha tempo a perder. Ele precisava partir dentro de poucos minutos se quisesse começar a viagem ainda com o dia claro. Lee olhou ansiosamente para a porta, como se ele pudesse trazer o Chounin de volta para a sua mesa apenas com a força do pensamento.

Alguns minutos depois os seus instintos fizeram com que ele voltasse seu olhar novamente para Gaara, quando percebeu que o Kazekage olhava fixamene para ele. Ou melhor, para os dedos dele, que batucavam freneticamente na mesa. Lee parou imediatamente.

- O que você está esperando? O malote para Konoha já foi fechado e está pronto para ser enviado - Gaara disse em voz baixa para não assustar os pássaros, enquanto limpava as mãos com um pedaço de pano.

- Bem, eu gostaria de acrescentar uma carta, uma carta pessoal - Lee mostrou um pequeno pergaminho que tinha nas mãos. - Mas se o Chounin não voltar logo, ele não terá tempo de inspecioná-la antes que o pombo-correio seja enviado para Konoha. E eu também tenho que partir daqui a pouco...

- Você tem uma missão rank B para as Planícies do Sul.

- Essa mesma.

- A sua carta é importante?

- Bem... não. Eu posso enviá-la pelo correio comum... - Lee olhou melancólico para a sua letra impressa no pergaminho de papel de arroz. - É só uma carta para Gai-sensei, mas como levam três dias para ir até as Planícies e três dias para retornar... Eu estarei fora por uma semana, e ele também vai partir em uma missão na terça-feira...

- Me dá. Eu inspeciono - Gaara extendeu a mão sem se virar, o olhar fixo em um dos gaviões.

- Mas... - Lee hesitou, manipuilando nervosamente o pergaminho. - É trabalho para um Chounin. Eu não posso pedir para você...

Gaara não disse nada, mas também não recolheu o braço, e Lee se aproximou resignado. Ele já havia se acostumado com a economia de palavras que Gaara praticava, aquele braço estendido era o seu jeito peculiar de insistir para fazer a inspeção.

Não que o Kazekage fosse propositalmente rude com as pessoas, mas podia-se dizer que ele não tinha muita preocupação com cortesias. Havia também uma grande possibilidade dele simplesmente não conhecer as regrinhas básicas de boa educação, ou como elas deviam ser aplicadas na interação com outras pessoas.

Bem, não havia nada no pergaminho que Lee não gostaria que fosse lido por Gaara. E aquilo também não diminuiria a autoridade dele como Kazekage, não o ridicularizaria, não aquele homem que fazia questão de alimentar as aves, mesmo estando muitas patentes acima da criatura encarregada de fazê-lo.

Gaara se desfez do pano, agora manchado de sangue, pegou a carta sem dizer nada e começou a examiná-la. Leu rapidamente as sentenças, procurando por algo que pudesse ser um código. Ele provavelmente estava memorizando algum trecho para transcrever ao Setor de Correios posteriormente, para que fosse analisada por especialistas em criptografia. Lee não estava particularmente incomodado com nada disso, essa formalidade era um procedimento padrão para qualquer Shinobi que estivesse em uma Vila Oculta. Não era por nada disso que Lee observava Gaara atentamente, mas sim para ver se ele perceberia...

Os olhos de Gaara se estreitaram quando viu o seu próprio nome na carta, que passou então a ler com algum interesse.

- Hum... Gai-sensei sepre pergunta por você - Lee disse, ligeiramente embarassado por alguma razão que ele não podia dizer exatamente qual era - Eu dou a ele noticias suas, da Temari-san e do Kankuro... Bem, nenhuma informação confidencial, claro...

Gaara já havia terminado de ler mas ainda olhava fixamente para o pequeno parágrafo (que não dizia muito mais de que o Kazekgae passava bem, continuava treinando com Lee e que a sua velocidade estava aumentando).

- Porque? - ele perguntou, daquele jeito direto que fazia com que parecesse mais uma afirmativa do que um questionamento.

- Porque o quê?

- Eu quase matei você duas vezes. Ele teve que me impedir em ambas. Porque ele quer ter notícias minhas? - fez uma breve pausa - A menos que ele esteja esperando que você conte a ele que eu morri repentinamente - Gaara completou com a voz indiferente.

- O quê? Não! - Lee gritou sem querer, perturbando os animais do aviário.

- Não... - repetiu com voz sensivelmene mais baixa - Ele não guarda nenhuma mágoa do exame Chounin, assim como eu. E ele sabe que você salvou a minha vida. Ele pergunta por você porque ele te conhece, e porque nós treinamos e trabalhaos juntos. Ele apenas está interessado nas pessoas com quem eu convivo.

- Porque você é uma pessoa importante para ele... - Gaara disse devagar, olhando atentamente para a carta como se tentasse descobrir algum código secreto escondido na descrição entusiasmada das missões e do dia-a-dia de Lee.

- Sim.

- Vocês se correspondem com frequência. - não se tratava de uma pergunta. O Kazekage devia saber que tipo de carta um Jounin forasteiro enviava e recebia.

- Quase toda semana - Lee disse contente.

- Porque? Ele tem um novo time agora. Ele não precisa mais de você.

Lee arqueou as sombrancelhas desconcertado. Esse era outro motivo pelo qual as pessoas não falavam muito com Gaara. Ele podia ser cruel, com o seu jeito frio e duro, apesar de quase sempre a sua crueldade não ser intencional. Ele apenas não tinha muito tato e dizia as coisas de uma forma muito direta, sem se dar conta de que isso podia soar muito agressivo em certas circunstâncias.

Algumas vezes ele até se dava conta de que o que ele dizia podia machucar, mas ele dizia assim mesmo. Gaara passara os primeiros doze anos da sua vida como uma arma, como alguém que matava sem nenhuma misericórdia, e até mesmo com algum prazer. Avaliando sob este ângulo, as mudanças na personalidade Gaara eram realmente impressionantes, e mereciam muito respeito. Mas isso também não significava que não tivessem restado algumas arestas para serem aparadas. O Gaara de antes era o tipo de pessoa capaz de utilizar o Sabaku Kyuu como a forma mais fácil de terminar uma discussão. Sob esse ponto de vista, mantendo as devidas proporções, deixar os seus interlocutores um pouco ofendidos pelas palavras pouco cordiais não devia ser algo que ele considerasse muito problemático.

Além de tudo, esse comportamento pouco cordial, obviamente, não era repreendido pelas pessoas com as quais Gaara convivia. Seus subordinados, bons Shinobis que eram, nunca demonstravam ao Kazekage qualquer emoção que não fosse respeito e, eventualmente, alguns traços de cautela. Se algum deles tivesse se preocupado em demonstrar para Gaara o descontentamento provocado por tais atos, certamento o teriam ajudado muito em sua ressocialização. Seus irmãos até o faziam ocasionalmente, mas apenas quando Gaara os magoava realmente, e eles também não estavam sempre na Vila.

E ali estava Lee. Lee, que nunca dava as costas para seus princípios ou para uma luta. Particularmente quando o seu orgulho, ou o seu mestre, ou a sua honra era posta em questão. Lee abriu a boca, e fechou em seguida, reprimindo as primeiras palavras que lhe vieram a mente. Ele não estava com tempo para argumentar e, além disso, algo lhe dizia que daquela vez a suposta agressividade fora verdadeiramente não-intencional.

- Gai-sensei e eu não somos mais mestre e discipulo, é verdade - Lee declarou apontando dramaticamente para a diração de Konoha (ignorando o olhar faminto que um dos falcões lançou para o seu dedo). - Mas isso não significa que nós não precisamos mais um do outro, ou que esquecemos um do outro. Nós compartilhamos muitos momentos de dificuldade, e ele me ensinou tudo sobre a vida e Taijutsu. A distancia pode nos separar, nós podemos ficar sem ver um ao outro por meses, mas nós temos uma linda amizade que vai durar para sempre!

- Às vezes você fala exatamente igual a ele também - Gaara murmurou, seus olhos perscrutando uma última vez a carta.

- A ligação entre mestre e discípulo é muito forte - Lee concordou - e influencia toda a sua vida.

Gaara se virou para a mesa da Sessão de Cerreios.

- Eu não tenho como saber - ele disse, procurando pelos carimbos. - Eu nunca tive um mestre. Somente tutores que me vigiavam. E todos, menos um, estão mortos.

- Eu sinto muito - Lee disse sinceramente, mas sem muita surpresa, a expectativa de vida de um Shinobi não era muito longa... - Eles morrera em serviço?

- De certa forma, sim...

- De certa forma? O que aconteceu?

- Eu os matei.

Lee levou um segundo para compreender a afirmativa. Então olhou atentamente para a expressão de Gaara, impressionado.

Os olhos verdes se levantaram lentamente para encontrar os de Lee, sem nenhuma hesitação, frios como gelo, pareciam estar procurando alguma coisa.

Gaara frequentemente o olhava daquele jeito, como se esperasse alguma coisa de Lee, alguma reação. Talvez algum sinal de medo ou aversão.

Lee conhecia o antigo Gaara, o conhecia bem, de uma forma que poucos haviam sobrevivido para contar. A assustadora criatura continuava espreitando, cuidadosamente enjaulada e reprimida, por trás dos olhos verdes e frios. Aquele era o jovem rapaz que saia para caminhar nas tempestades de areia, com Lee no seu encalço, seguindo-o a uma distância segura. E Lee era muito cauteloso com aquele Gaara, sempre que ele aparecia, não gostava muito dele e nem se aproximava. Mas Lee não sentia medo. A diferença entre cautela e medo era muito sutil. Talvez tão sutil quando a diferença entre um mestre e um tutor, e igualmente crucial.

- Eu sinto muito que você nunca tenha tido um sensei de verdade - Lee disse tranquila e honestamente. Na opinião de Lee aquele antigo Gaara nunca teria existido se ele tivesse alguém como Gai-sensei em sua vida.

A expressão avaliadora de Gaara se transformou em outra, mais familiar, aquela completamente vazia, branca, que dava a impressão de que ele estava tentando compreender uma sentença em alguma línguia extrangeira, com a qual ele apenas podia lidar depois de interpretar na sua própria língua. Por fim ele desviou o olhar com uma expressão que ainda era de dúvida, como se o que Lee havia dito continuasse fazendo pouco sentido, mesmo depois de traduzido para a sua língua.

Ele inclinou-se sobre a mesa e assinou a margem da carta de Lee, adicionando um 'inspecionado, envie imediatamente' ao rodapé.

- Obrigado - Lee disse. Gaara não respondeu, aquele tipo de civilidade não era mesmo o seu forte.

Lee se certificou de que acarta estava visível sobre a mesa, então colocou a mochila de volta sobre os ombros e deu as costas, preparado para partir. Gaara tinha voltado a se aproximar das aves e, quando Lee olhou de relance para ele, Gaara estava estendendo a mão na direção de um dos gaviões que havia alimentado. A ave sacudiu a cabeça, abriu e fechou o bico de forma ameaçadora, e finalmente permitiu que Gaara acariciasse gentilmente as penas do peito.

De acordo com Kankuro, da primeira vez que Gaara colocou os pés dentro do aviário todas as aves ficaram absolutamente apavoradas. Pode ter sido pelo cheiro de sangue impregnado na areia, ou talvez fosse siplesmente o seu instinto de sobrevivência gritando para fugir do perigo.

Entretanto Gaara tinha adquirido um espírito determinado depois da luta contra Naruto e insistiu. Os pombos ainda ficavam loucos quando ele se aproximava, mas as aves de rapina deixavam que ele os alimentasse agora, os mais corajosos até pegavam a carne de sua mão e o deixavam tocá-los.

Gaara olhava para o gavião que se inclinva para receber melhor o 'carinho'. Havia mais uma daquelas expressões indecifráveis no seu rosto, essa diferente de todas as outras que Lee já havia visto. Conseguiu identificar algum traço de curiosidade e orgulho, não mais do que isso. Ele não achava que Gaara fosse capaz de gostar daquele tipo de contato, mas o Kazekage podia reconhecer o grande passo que estava dando. Afinal, ele havia formado um pequeno laço com uma criatura viva, ele tinha erradicado um pouco do medo que provocava.

Era exatamente a mesma coisa que acontecia com Suna, Lee pensava consigo mesmo. Encarava a Vila como algo que devia proteger, cuidar e domesticar aos poucos. Como algo a que estava ligado, a que se dedicava, mesmo sem ter a esperança de receber muito em troca - além de um motivo para a sua sangrenta existência. Isso provocou em Lee uma tristeza difusa, que ele não podia definir.

Eu estou muito imaginativo hoje, Lee pensou, balançando a cabeça. Já era hora de partir.

Apesar de ter consciência de que já tinha passado da hora de ir embora, Lee continuava observando o jovem rapaz que agora tentava alcançar um falcão. A ave se afastava nervosaente.

- Gaara...

Ele abaixou a mão e olhou de relance para Lee.

Lee não tinha a mínima idéia do que dizer. Ele até sabia o que queria dizer, mas 'tenha esperança' seria estúpido, insensível e surreal. Que diabos diria então?

Gaara olhava para ele inquisitivo, então Lee levantou o dedão entusiasmado.

- Eu vou trabalhar duro na minha missão e estarei de volta em uma semana! Eu vou sentir falta do nosso treinamento enquanto estiver fora, mas vou aproveitar para pensar em uma forma de defender aquele seu golpe, aquele dos três jatos de areia. Eu tenho certeza que vou vencê-lo da próxima vez!

Gaara olhou fixamente para o dedo de Lee, que manteve a pose de nice guy por mais alguns segundos, fez uma breve saudação e rumou apressado para as escadas, sem esperar que Gaara sequer lhe desse um tchau.

- Eu vou sentir falta do nosso treinamento também.

Lee parou imediatamente e olhou para Gaara. Ele já tinha virado de costas novamente e acariciava o falcão agora, a ave aparentemente tinha perdido o medo e tentava bicar de leve seus dedos.

- Como? - Lee tinha quase certeza de que tinha escutado mal. Ou talvez o aviário de Suna tivesse um papagaio em uma gaiola lá no fundo, porque com certeza Gaara não poderia ter dito...

- O nosso treinamento. Eu vou sentir falta também - Gaara repetiu. Ele falou devagar, como se estivesse experimentando as palavras e as achando estranhas e não exatamente do seu agrado, mas não o bastante para deixar de pronunciá-las.

Lee sentiu-se eufórico. Aquele era o lado positivo da brutal honestidade de Gaara, suas palavras nunca eram vazias. Se ele havia dito aquilo era porque sentia verdadeiramente.

Era como se algo queimasse dentro do peito de Lee, sentia-se absurdamente feliz.

- Eu estarei de volta antes do que você imagina! Certo! Se eu me esforçar eu posso fazer a viagem em apenas um dia! Vejo você em breve!

Lee ignorou as escadas, pulou pela janela ainda mais entusiasmado do que o normal. Ele achou ter ouvido Gaara o chamando, mas não tinha tempo para perder. Se ele não conseguisse chegar nas Planícies do Sul em um dia, faria três mil...

- Lee!

Ele congelou. O mesmo aconteceu com metade das pessoas que estavam dentro e no entorno do edifício da administração. Ninguém nunca tinha ouvido o Kazekage gritar.

Quando se virou viu os cabelos vermelhos para fora da janela da sala do Setor de Comunicação.

- Leve três dias na viagem, indo e voltando. Não corra como um maluco ou abra Portões para alcançar uma velocidade exagerada - Gaara ordenou em um tom ligeiramente ameaçador.

- Mas eu...

- Lee!

- Está bem.

Gaara lançou um último e severo olhar para Lee, para que ele não se atrevesse a desobedecer. Então voltou para as aves, que provavelmente estavam desesperadas depois da gritaria.

Lee trotou obedientemente até que o prédio da administração desaparecesse no horizonte, então ele acelerou a corrida. Gaara havia dito nenhuma 'velocidade exagerada', mas as Planícies do Sul e Konoha ficavam à mesma distancia de Suna, e Lee já tinha feito a viagem de Konoha para Suna em dois, então aquilo não era exagerado... Não podia perder tempo!

Porque ele realmente ia sentir falta dos treinamentos se ficasse longe mais tempo do que o necessário. E o seu reservado, mutável e brutalmente honesto parceiro de treino também, só um pouco.


Às reviews!

Maah/Maay (são a mesma pessoa, certo? Apenas com um pequeno erro de digitação), o yaoi já vem... Pra quê pressa??? Além do mais, não adianta me pressionar que a fic já está escrita... Eu sou uma reles tradutora sem nenhum poder de decisão...

FeH, o que você está esperando para me mandar essa fanart (babando incontrolavelmente)???

Lalah, você acha que é fácil 'pegar' o Gaara-sama??? Não é não...

É isso...

Making of em www ponto thesenseiclub ponto blogspot ponto com.

(setembro de 2007)