N/A: Capítulo atrasado de White's Day! Vou tentar que o próximo não demore tanto...


Gareki abriu a porta do pequeno comércio distante do movimento da cidade, ouvindo um pequeno sino tocar em resposta. Quietamente, ele foi em direção ao balcão e depositou a caixa que carregara. Um homem idoso – o dono daquela miúda loja – veio em sua direção o cumprimentando no que Gareki o respondeu minimamente.

O senhor observava cada objeto que tinha dado a ele na grande caixa de papelão, murmurando elogios a cada rádio, relógio, cafeteira, entre tanto outros aparelhos consertados. Gareki continuou com suas poucas palavras, esfregando as mãos sobre seus cabelos por instinto. Se ele pudesse escolher, Gareki trabalharia com aparelhos mais tecnológicos – celulares, computadores, sistemas de segurança... Gareki conseguia até hacker alguns, como simples desafio.

Mas era um bom emprego, ele sabia. Não havia muitas chances de alguém contratá-lo com a idade que tinha e por ainda nem estar na faculdade, e ele tinha se acostumado as paredes com seus papéis antiquados, e àquele homem que parecia não se incomodar com sua maneira insociável.

– Você está melhorando rapidamente, garoto. - outro comentário, num tom distraído e despreocupado.

Gareki levantou seu olhar e olhou – realmente – a pessoa que de alguma maneira, tinha se incomodado de comentar com o garoto que visitava sempre a loja, com olhos atentivos as poucos objetos nas estantes ao redor como se fossem algo valioso, e dizer que precisava de ajuda em algumas tarefas.

– Eu... Pratico em casa. - sua voz saiu mais baixa que o pretendido, porém foi o necessário para chamar a atenção do senhor, que já estava retirando seu pagamento da caixa de registros. Ele o encarou por alguns segundos, e Gareki sentiu o silêncio irritar sua pele. – Não com suas peças, claro.

O dono da loja riu energicamente, dando palmadas pesadas sobre o ombro de Gareki que o olhava surpreso.

– Eu te dou algumas coisas que não tem uso por aqui. - Gareki soltou um pequeno 'ah', vendo o senhor sumir no corredor atrás do balcão. – Gosto de ver novos talentos florescerem! - ele gritou, quase coincidentemente com a entrada de uma senhora, que encarou Gareki indiscretamente.

Aquilo não incomodou-o tanto quando o senhor depois de alguns minutos, entregou uma caixa maior que a normal, dizendo entusiasmado que havia algumas coisas que Gareki iria gostar de olhar.

Ao invés de qualquer reação cotidiana sua, um ligeiro sorriso de agradecimento foi a resposta do moreno.


Alguns colegas de classe diziam 'bom dia' ao encontrá-lo nos corredores – e Gareki acenava em resposta. Nunca lembrava-se do nome deles, mesmo daqueles que falavam quase todos os dias com ele, mas por tentarem uma conversa, Gareki se esforçava para algumas palavras as mais que os cumprimentos que já se tornavam mecânicos.

Quando a conversa na hora do lanche voltou-se a entrada de novos alunos e um dos garotos perguntou o que Gareki pensava sobre o assunto, Gareki, realmente, tentou.

– Espero que não sejam tão barulhentos. - depois das palavras ditas, o silêncio reinou e Gareki quase cogitou ter sido melhor permanecer no seu lugar como parte do cenário.

Até que uma onda de risadas veio, entre comentários de como Gareki era engraçado com seu jeito sisudo.

Gareki murmurou qualquer coisa em resposta, e após isso, ele continuara a participar da conversa, mesmo que apenas com balbucios fracos e acenos ligeiros.


Num dia qualquer entre o final de fevereiro e o início de março Gareki tinha notado a necessidade de um novo par de pantufas para Nai – uns que fossem próprios para ele. Mesmo com apenas dois anos de diferença – que não se notaria olhando Nai de qualquer maneira – seus tamanhos eram diferentes e Gareki sabia que seria preciso umas pantufas do número certo pela constância das visitas de Nai.

Nai negava ser preciso. "Elas são confortáveis", disse o mais novo, enquanto ainda as olhava sorridente, parecendo ignorar as marcas do tempo – furos, mofo, grandes demais...

(Gareki precisava também de mais talheres, pratos, xícaras, cadeiras. Nai não notava nada, o que o fazia suspirar de alívio por um lado e às vezes exalar pesadamente por outro, principalmente quando se permitia pensar, como algumas coisas estavam se alterando lentamente, ao ver objetos agora tornarem-se pares na sua casa).

Então, já que Gareki não queria ao menos adivinhar o gosto de Nai (que ele especulara ser algo que trazia ao pensamento a palavra 'fofo'), ambos foram procurar por algo que satisfizesse o gosto do mais novo.

Que não foi difícil, Nai era um garoto especialmente modesto e qualquer coisa que Gareki apontasse e perguntasse 'você gosta?', Nai respondia afirmamente.

Depois do vigésimo par de pantufas deixado de lado, Gareki começou a achar que era ele que era exigente. E como uma coisa parecia levar a outra, Gareki explodiu.

– Por que você não escolhe logo e para de ser tão – - Gareki parou, contando até dez mentalmente, não querendo perder-se em sua raiva.

Nesse momento, ele voltou seu olhar rapidamente a Nai e admirou-se como cada vez mais, sua raiva podia ser substituída por culpa.

Gareki fez menção de alcançar Nai, porém o mais novo foi mais rápido, dando um passo para trás.

– Eu... Não quero importunar, ainda mais com coisas como... - Nai virou seu rosto a ele, abatido. – Se eu gosto de algo ou não, isso não importa, Gareki.

Uma frase ressoou nos ouvidos de Gareki, mais nova e sincera da que a de hoje.

Agarrando o ombro de Nai, Gareki o olhou de repente fatigado. – Claro que importa. - Nai, ainda surpreso, fechou os olhos quando Gareki alcançou o topo de cabeça, o dando um ligeiro e quase afetuoso tapa. – Seu tolo.


Nai escolheu finalmente um par de pantufas que eram absolutamente tudo que Gareki já sabia que elas seriam: fofinhas, com desenhos quase infantis e de cor azul claro, como a maioria das roupas de Nai.

Esse que, timidamente as ergueu incerto, dividindo entre olhar qualquer coisa e desviar do olhar firme de Gareki.

Quando a cena continuou por alguns momentos, Gareki cruzou os braços e Nai começou a remexer-se, até que.

– Eu realmente gosto dessas.

Gareki comprou outro par que Nai tinha encarado por longos minutos, por via das dúvidas.


Em um sábado, enquanto Gareki estava fazendo sua faxina semanal na frente de sua casa, o moreno notou que a neve quase não se fazia ver, mesmo com o vento gélido a tocar seu rosto e o fazer involuntariamente cobrir-se mais com seu casaco cinza. Os movimentos distraídos do moreno com a vassoura pausaram quando foi levado àquele pensamento, e estranhamente, ele sentiu-se perdendo algo.

Algumas coisas só são imutáveis por um certo período de tempo, não é?

Gareki soltou um murmúrio de irritação, voltando a varrer com mais força que o necessário.


Uma vitrine de uma loja de eletrônicos chamou a atenção de Gareki numa de suas saídas a livraria para novos manuais de mecânica. Calculando mentalmente suas finanças e se era realmente necessário comprar alguns produtos apenas para abri-los e estudá-los, Gareki sentiu uma mão sobre seu ombro e virou-se, encontrando a garota de maria chiquinhas e expressão austera encarando fixamente seu rosto.

– Tsukumo. - a menina acenou, como se afirmando a informação a ele.

– Como vai, Gareki?

– Como sempre. - Gareki a respondeu, observando seu rosto sem expressões. – E você?

– Também. - seu tom plácido o fez voltar a sensação de semanas atrás, entretanto Gareki tentou não ser rude.

– Posso lhe ajudar em algo...? - Gareki disse as últimas palavras num tom mais baixo, quase hesitante.

Tsukumo não pareceu notar nada de diferente. – Na verdade sim. - Gareki a encarou atentamente enquanto Tsukumo mexia em uma pasta que segurava até achar seu celular. – Eu preciso encontrar algumas peças para esse brinquedo aqui. - Tsukumo mostrou uma foto no visor do celular de uma ovelha, que tinha em suas costas uma abertura no que se podia ver algumas engrenagens. – Você sabe onde é possível encontrar uma loja que tenha algo do tipo? Talvez... - ela voltou o olhar para o celular, com as bochechas a ficarem vermelhas. – Lá haja alguém que possa consertá-lo também.

– Eu posso concertar. - Gareki disse, apontando para a imagem no celular. Tsukumo levantou o rosto, confusa. – Eu... Mexo com esse tipo de coisa – coisas mecânicas. - Gareki comentou, se sentindo levemente inquieto com o olhar de admiração que a menina o dava.

– Ah. - ela o respondeu, e sua voz parecia ganhar um pouco mais de energia. – Nai disse que você gostava dessas coisas, mas eu não sabia que era a esse ponto. - Gareki controlou-se para não virar o rosto, se incomodando com o olhar intenso que Tsukumo o dava.

– Nai não sabe muitas coisas sobre mim. - Gareki enfiou as mãos pelos seus cabelos, tentando aparentar-se calmo. – Vocês conversam pelo celular? - Gareki desconversou, enquanto via Tsukumo voltar a sua expressão cotidiana.

– Também. - Gareki mandou um olhar curioso com a resposta, e Tsukumo adicionou. – Como nosso colégio é próximo, às vezes nos encontramos para ver algumas coisas pela cidade. - ela clicou algumas vezes o teclado do celular, e trouxe a vista uma foto de Nai segurando pelúcias numa loja com cores pastéis e algumas meninas atrás dele. – Temos gostos parecidos.

– Ah. - Gareki respondeu, considerando que era fácil de chegar a saber que Nai gostava de coisas do tipo. – Ele te disse que gostava? - Gareki perguntou casualmente, e Tsukumo acenou, o surpreendendo um pouco.

– Eu disse a ele que deveríamos saber mais um do outro como amigos que somos, então todo dia trocamos mensagens pelo celular. - Tsukumo comentou, guardando o celular. – Podemos conversar mais sobre o brinquedo no caminho até meu ponto? Já está na hora de eu voltar ao meu dormitório. - Gareki acenou, ainda sentindo-se disperso pela conversa de antes.

Tsukumo comentou no caminho detalhes sobre o brinquedo como quanto tempo estava com ele, onde tinha o comprado e como tinha acontecido o acidente – com uma de suas amigas a abraçá-la e esbarrar no brinquedo em cima de sua mesa, no que Gareki tentou anotar mentalmente mesmo que em alguns momentos a estar longe dali.

As mensagens. As idas a sua casa e convites as da dele.

Nai está se esforçando para me conhecer melhor...

E eu?


Nai era um garoto diferente e Gareki traçava isso como ao procurar a peça que se encaixasse melhor ao quebra-cabeças do qual ele sabia apenas uma parte da imagem final.

Uma imagem tão simples – um rosto sempre iluminado, com um sorriso sincero a ter sempre seu lugar de destaque...

Entretanto, naqueles momentos em que Nai não era como sempre, aquele que não se importava de ser chamado de bobo – com seu olhar a atingir um tom melancólico, e suas palavras, incertas...

Gareki não conseguia ignorar as rachaduras em Nai.


Gareki já não conseguia contar os 'como sempre' que passaram por sua mente.

'Sempre' era quase...


Gareki, aos poucos, tentou não parecer tão intrusivo como aquilo tudo o soava, ignorando o fato que ele era péssimo em perguntar coisas consideradas naturais aos outros.

De fato, ele tinha tentado antes perguntar coisas banais como o endereço de Nai -

(Ele gostava de esquecer de que demorara quase um mês para descobrir que Nai morava acima da confeitaria, ou como semanas após isso, ele descobriu por puro acaso no que se baseara o relacionamento de Nai com Karoku.)

- Mas algumas coisas eram difíceis demais para que Gareki pronunciasse com a própria voz, até que a falta dessas informações causasse o mesmo sentimento.

No início de março, a oportunidade surgiu quando Gareki passava despreocupadamente por uma rua e ouviu seu nome ser chamado, e, ao se virar encontrara Nai, cercado por um grupo de pessoas com o mesmo uniforme que o mais novo vestia.

Gareki acenou lentamente já firmando seus passos adiante – ele não era um fã de aglomerações, afinal. Nai, para a sua surpresa, acenou para o grupo que estava com ele, correndo em sua direção. Os olhares recebidos fizeram Gareki levantar um pouco a gola de seu casaco sem perceber.

– Eles são da minha classe. - Nai comentou, ao parar ao seu lado sorrindo. Gareki coçou o rosto, querendo que Nai não tivesse notado sua expressão questionadora, até que algo iluminou-se em sua mente após o silêncio em que ele tentava formular uma resposta de volta.

Nai, como ele iria descobrir, não era uma pessoa que escondia as coisas. Depois dele mencionar o grande número de amigos que Nai parecia ter, Nai apenas o preencheu com informações de como sua sala o adotara como um 'mascote' por ser o menor dos meninos, ou como todos davam um jeito de levá-lo para casa, entre um sorriso e outro.

Gareki sorriu, acenando e murmurando entre uma fala e outra do mais novo. As pessoas gostam dele, isso o fazia estranhamente feliz, o que deixou de lado ao ponderar outras perguntas que sairiam um tanto naturalmente agora.

Como se o mundo conspirasse contra a possibilidade de Gareki não se embaraçar e demonstrar que queria conhecer alguém melhor , Gareki foi surpreendido pela placa da confeitaria conhecida e Nai que o puxava para a entrada de funcionários.

Uma expressão abatida caiu sobre o rosto de Gareki, que reagiu rápido o bastante para modificá-la quando Nai abriu a porta dos fundos e o soltou.

– Nós podemos falar mais. - Nai disse, quase tímido, porém ainda o encarando sem receios.

Gareki iria se questionar cada vez como Nai tornara-se perceptivo a ele, enquanto murmurava 'claro, claro', entrando rapidamente e desviando a atenção do assunto.


Era seis de março e Gareki não entendia a necessidade daquilo.

Nai retirava sacolas e mais sacolas de ingredientes que fariam sua casa cheirar a doce por séculos, enquanto Gareki ainda encarava o avental salmão que lhe foi dado.

– Obrigado por oferecer sua cozinha, Gareki. – Nai disse, pela milésima vez ao seu ver, com uma expressão tão clara e intensa que o faziam querer diminuir as luzes um pouco. - Com o movimento na confeitaria, fazer todos os presentes seria muito difícil sem incomodar a todos. - Nai comentou, enquanto retirava das sacolas formas para os doces que iriam fazer.

Gareki não entendia a antecedência daquilo.

– Por que você se apronta para fazer os presentes do White Day tão cedo? - Gareki perguntou, ajudando Nai a arrumar as coisas sobre a bancada da cozinha. – Na verdade... - o tom de Gareki ficou mais baixo e Nai deixou de lado algumas barras de chocolate, o encarando.

Para que diabos você faz isso?, era o que Gareki ansiava perguntar, não compreendendo o porquê de Nai gastar tanto tempo para algo que poderia ser retribuído com um simples obrigado.

Não que ele entendesse muito como funcionava isso de White Day.

A atenção de Nai continuou voltada para si, e Gareki suspirou fundo, já sabendo que o outro não tinha notado que ele queria esquecer do que ia dizer. O que o estava martelando há dias também ajudou com que Gareki lentamente exalasse e tentasse ser um pouco sincero. – Por que você faz tudo isso, Nai?

O quase sussurro de Gareki pareceu soar bem claro para o mais novo, que voltou aos ingredientes, os separando em grupos. – Todas as pessoas que me deram alguma coisa no Dia dos Namorados me deram de coração. - Nai o respondeu em um tom terno, enquanto colocava delicadamente um conjunto de embrulhos em um canto mais afastado. – E eu quero retribuí-las porque queria demonstrar o quão grato sou por esses sentimentos!

Gareki fitou por alguns segundos o sorriso afetuoso que permaneceu no rosto de Nai, até que o mais novo desse um pequeno salto de alerta.

– Gareki, você quer ajuda nos seus presentes também? - de novo, o olhar brilhante, e Gareki engoliu a seco.

– Não. - seu tom saiu áspero demais e Gareki viu Nai literalmente murchar, abaixando a cabeça e cutucando um aplicador de glace. – Não, obrigado, Nai. - ele adicionou, sentindo-se estranhamento aliviado com o desaparecimento do olhar tristonho de Nai, que agora o encarara curioso. – Ninguém me deu presentes – além de você, é claro.

Nesse momento Gareki se surpreendeu com a expressão de indignação que tomou o rosto de Nai, seguida de um franzir que o moreno concluiu não combinar com o mais novo por completo.

– Nai? - Gareki o chamou, e Nai acenou para si, voltando a atenção para ele.

– Aposto que é porque não acharam a melhor oportunidade, não é Gareki?

Gareki franziu o cenho enquanto Nai voltava a organização de antes. – De que, Nai?

– De lhe darem os chocolates. - Gareki o encarou, pasmo. – Eu mesmo não sabia quando te dar, já que o dia foi muito ocupado. - Nai comentou e Gareki lembrou-se daquele dia por um momento e da caixinha que fora colocada no seu casaco em um momento de distração.

– Você quer todos prontos para antes do dia treze para ajudar na confeitaria também, não é? - o olhar surpreso de Nai só o fez sorrir menos discretamente. - Então me indique no que posso fazer, já que você é o confeiteiro.

Nai assentiu o dando algumas frutas que iriam na decoração, uma quantidade de chocolates que deveriam ser derretidos e, claro – um sorriso.


Enquanto Gareki batia a massa para um dos cupcakes que Nai iria entregar – entre uma montanha de chocolates, bolos, mousses, pudins, biscoitos, brownies, e mais outros deleites – Gareki começou a se perguntar se ele deveria dar algo de volta para Nai. Não porque ele tinha dado algo no Dia dos Namorados – ele se negava a pensar nisso, porém lembrar da cena após achar a caixa e Nai dizer que era para ele...

'Eu não quero nada em troca Gareki, eu só queria te dar algo em nome da nossa amizade'.

Gareki não conseguia mensurar o crescente e indesejado sentimento de culpa e desapontamento que ele sentia consigo mesmo depois de ter ouvido aquilo e ter murmurado um mísero 'mas'.

(E como queria entender de onde Nai tinha relacionado Dia dos Namorados com amizade, de todas as coisas –)

Sua irritação aumentou ligeiramente ao Nai o encarar, concentrado na cobertura de um dos cupcakes que já tinha ido para o forno. Ele não espera nada em troca do que ele faz, não é? Ao quase grunhir de frustração a percepção seletiva de Nai, ele bateu a massa com mais força em vez disso.


A entrega dos produtos que devia concertar foi um pouco mais demorada, com o dono da loja a perguntar interessado cada forma que Gareki consertara os produtos com defeito, e elogiá-lo com as formas inventivas as quais ele criara com seus métodos sem um estudo formal. Gareki até perdeu a conta das palavras que dizia, ainda minimamente audíveis como o movimentar do relógio na parede da loja.


Lentamente, Gareki abriu a porta de sua casa ao chegar da escola, já ponderando que tarefas tinha que fazer, que livros deveria terminar de ler, com seus prazos próximos a vencerem na biblioteca da cidade; que prato iria fazer hoje para seu jantar (Nai tinha o indicado vários sites com receitas e Gareki não conseguia negar que até gostava de cozinhar) e como deveria responder aos colegas de classe ao convite para um lanche no sábado depois da escola.

Jogando sua mochila num canto qualquer, Gareki inconscientemente olhou em volta. Sua mente ficou limpa de qualquer ideia anterior e ele se direcionou até o calendário afixado na parede, traçando as datas do mês.

'– Gareki, apenas porque você vai embora', - Gareki desviou o olhar, segurando fortemente na alça da mochila em seu ombro, – Não quer dizer que você ainda não tenha a nós.'

Ao alcançar o computador e selecionar a página de e-mails, Gareki não sentiu seu peito tão constrito como sempre, ao digitar o endereço conhecido com precisão. As palavras saíam mais livremente também, enquanto ele contava como foram seus dias, suas notas na escola, seu comportamento com o mundo e como ainda recusava ajuda financeira que não precisava, bem como agradecia, um tanto mais gentilmente, a casa onde morara e a ainda desnecessária – Gareki via ser preciso citar – atenção a ele, já longe de sua tutela.

'Espero que todos estejam bem', Gareki escreveu depois de alguns excruciantes minutos ao observar o cursor sobre a tela, 'e você também'.

'Nunca vou poder agradecer pelo que você fez por mim e pelos outros', era o que Gareki digitou, querendo deixar a frase ao final da mensagem, mas a apagou depois de relê-la, enquanto esfregava o rosto com força, sentindo-se fraco e inútil.

Ao invés disso, 'Obrigado por ainda se preocupar', foi o que Gareki digitou, sentindo-se sufocar uma vez mais.

Ele enviou a mensagem e desligou o computador ao final do envio, segurando seu rosto nas mãos até que sua respiração se tornar tranquila.


Era dia treze de março – o que Gareki não percebeu, entre a análise de um celular que não ligava e um livro sobre tal manual – e o celular de Gareki tocou, recebendo uma mensagem.

"09:02 PM

De: Nai.

Ei, Gareki, pode me ligar? Eu queria pedir uma coisa a você."

Foi aí que Gareki notou, ao olhar o visor de seu celular, que dia da semana – e do mês – era e como ele começava a saber de datas comemorativas cada vez mais.

Ele deixou de lado seu trabalho indo em direção a geladeira, esperando que a desculpa de 'estava jantando' fosse razoável o bastante para que ele pudesse afirmar para si mesmo que Nai não queria nada relacionado ao dia de amanhã.

Gareki apreciou uma sopa de ervilhas por mais tempo que o normal.


Era definitivo. Gareki tinha encontrado exatamente a quem incitá-lo a fazer coisas que teria muita vergonha de ter o feito.

O caso é – e aquilo o incomodava muito, ele não deixaria de mencionar – que ele não estava se aborrecendo tanto como gostaria – mesmo que ele tivesse gritado o caminho inteiro como Nai era um tolo e que o mais novo não deveria pedir que ele fizesse essas coisas.

Essas coisas que ele não conseguia dizer não, foi o que Gareki pensou, ao ouvir o tom pedinte de Nai pelo celular, plus a súplica estampada naqueles olhos tão irritadamente puros.

As sacolas pesavam em suas costas cada vez mais. – Será que você não vai arrumar problemas com isso, Nai? - Gareki mencionou as sacolas que Nai também levava, e o garoto negou com a cabeça, com passos rápidos.

– Eu perguntei aos professores e eles deixaram após conversar com a diretoria, mas não por muito tempo. - Gareki ficou um pouco admirado com o poder que Nai tinha na escola, mas permaneceu quieto, enquanto acompanhava os passos do outro.

Ao chegar nos portões da escola de Nai, atraindo olhares e cochichos, Gareki preferiu comportar-se como na sua própria escola, com uma expressão séria que afastava as pessoas e um olhar fixo que calava a maioria das palavras que eram direcionadas a ele.

Não que fizessem efeito, com Nai ao lado. – Vamos Gareki! - ele o puxou entre os corredores, entre vários acenos e cumprimentos aos passantes.

Tentando manter sua expressão o mais firme o possível depois de tantos cumprimentos – todos o encaravam esperando algum, já que ser amigo de Nai parecia por osmose ser um pouco como Nai – eles finalmente chegaram a sala de Nai, que ficou alvoroçada com sua chegada.

Gareki ficou para trás com as sacolas e contemplou a cena – garotos falando animadamente com Nai, garotas em grupos o chamando – e não pode deixar de se impressionar, mesmo que um pouquinho. Eles realmente gostam do Nai, ele notou entre uma risada e outra ao fundo.

Não houve tempo para mais pensamentos pois Nai, sendo Nai, notou que Gareki havia ficado deslocado naquela cena de integração e –

– Ei pessoal, esse é o meu amigo Gareki. - Nai gritou em meio ao barulho, segurando no braço do moreno e o puxando para perto. - Por favor, cuidem bem dele tanto quanto cuidam bem de mim. - a voz cheia de ânimo unido a um perceptível carinho fez as bochechas de Gareki corarem-se, com ele se curvando em seguida em cumprimento a todos na sala.

A turma movimentou-se para falar com o moreno, que permaneceu com o vermelho no rosto por um motivo a mais.


Depois que todos tiveram seu momento com Gareki, que sentiu ter se esgotado socialmente por meses a fio, Nai começou a distribuir os presentes e o barulho impossivelmente ficou maior. Gareki se questionou, com a pergunta que o martelava desde de o dia que Nai comentara sobre precisar de um tempo na cozinha para fazer algumas coisas, qual era o significado do White Day.

Ter atendido o pedido de Nai para ajudá-lo a entregar os presentes que as meninas tinham o dado na escola foi mais um ato involuntário, porque, mesmo ao ver os "obrigados", Gareki realmente não compreendia absolutamente nada. Ele deixou de lado a sua dúvida, que seria pelo jeito eterna, e arrumou a sacola para a entrega dos presentes.

A situação não se tornava mais estranha – as meninas, não só da sala de Nai, formaram uma fila, enquanto a maioria dos garotos ria da visão – por puro acaso de destino. Gareki se resumiu a procurar entre as sacolas os nomes das inúmeras garotas que gritavam felizes em resposta aos presentes de Nai.

E, nada platonicamente ao seu ver. 'É porque eu tenho muitos amigas', eu sei, Gareki ponderou, vendo as expressões de jubilo e as bochechas coradas de cada uma que Nai agradecia. Gareki sentia-se quase inclinado a chamar Nai para uma conversa sobre o que esse tipo de "amizade" significava na verdade, entretanto preferiu continuar o movimento quase mecânico de procurar o embrulho certo, entregar a Nai e esperar que o ciclo continuasse.

Ao menos ele se distraiu com as inúmeras respostas e como Nai manteve-se o mais gentil o possível por horas.

Todos pareciam satisfeitos, Gareki não pode negar.


Horas depois, após as sacolas terem sido esvaziadas e despedidas terem sido dados, Gareki declarou oficialmente o White Day como um dos dias mais cansativos do ano. Voltando-se a Nai, que continua com sua expressão alegre de sempre, ele até pode notar um certo cansaço sobre o semblante do mais novo.

– Foram muitas pessoas, não é? - Gareki perguntou casualmente após um bocejo de Nai, controlando-se para não fazer o mesmo.

– É sempre assim nessa época. - Nai comentou, esfregando o rosto. - Foi bem divertido, não é?

– Foi... Interessante. - Gareki murmurou, medindo suas palavras. 'Algo que eu realmente não iria experimentar na minha vida.'. Nai riu em resposta a isso e Gareki calou-se, notando que algumas coisas simplesmente eram melhores não serem ditas.

– Espero que ano que vem seja assim também. - Nai disse, num tom esperançoso que fez Gareki voltar a decisão de antes, mesmo que não processasse a ideia de Nai ser do tipo de gostar de atenção.

– Tão... - Gareki lembrou-se da falta interruptiva de silêncio. – … Animado? - Nai sorriu em resposta, acenando vivamente.

– Essa é graça desse dia, não é?

Nai é tão estranho. Gareki balançou os ombros em resposta e foi o bastante para Nai, pelo jeito que balançara energicamente.

Eles continuaram seu caminho até a confeitaria (o que era cotidiano a Gareki, já que seus pés quase se guiavam para lá esses dias) em um silêncio que se arrastou por mais do que o normal. Gareki começou a se incomodar com aquilo por qualquer motivo, se voltando inconscientemente para Nai que deveria estar falando e –

– O que houve, Nai? - sua voz saiu preocupada com um Nai que se remexia inquieto, com um grande franzir sobre o rosto.

– Isso não foi um incomodo para você não é, Gareki? - a expressão perplexa de Gareki fez com que Nai pausasse seus passos. – Digo... - Nai murmurou, notavelmente aflito. - Você se aborreceu de se encontrar com meus amigos?

– O que? - Gareki questionou confuso, e Nai abaixou a cabeça, puxando o próprio casaco.

– É que você não gosta de ficar com muitas pessoas. - Nai o encarou rapidamente. - Eu acho. - Nai voltou a posição de antes, com Gareki a não conseguir retirar a expressão de perplexidade do rosto. – Mas, mesmo assim, eu o chamei para ir lá, e você pareceu irritado, como parece irritado de vez em quando com muito barulho e –

Gareki agarrou os ombros do outro, o fazendo encarar o seu rosto. – Respire, Nai. - o pedido do moreno foi atendido, com o mais novo a inspirar e exalar calmamente. Enquanto o observava, Gareki rebobinava em sua mente mais lentamente as palavras ditas pelo outro. – Eu não fiquei...

– Na verdade, - Nai o cortou, virando seu rosto, num tom mais controlado. – Eu queria que você conhecesse a todos – que todos conhecessem você. Que todos meus amigos estivessem juntos. - Nai o olhou, com uma ligeira confiança. – Você é meu amigo e eu queria que todos pudessem... - Nai pausou suas palavras ao encarar Gareki, que apertava com força seus ombros.

Com seus lábios cerrados e um olhar nublado, Gareki sentiu um pequeno nó em sua garganta. Algo no coração de Gareki se movimentou, descongelando-se. Em uma vida que ele tinha moldado para a sua auto-defesa, tecido de modo que nenhuma existência tivesse importância (que não se familiarizasse, que não importasse, que não o machucasse), a voz baixa, porém clara do garoto a sua frente o fazia ainda ver a palavra amigo com significado.

A voz de Gareki soou mais baixa que os mais quietos sussurros de Nai. – Você também é para mim, Nai. - a frase conseguiu sair, sem pausas, como em seu coração.


Gareki notou que Nai queria que ele fizesse aquelas tantas perguntas incômodas e pessoais.

'Eu quero que você me conheça melhor', um sentimento sincero, um que não o fazia tão desconfiado e inseguro.

'Eu quero conhecer você melhor', era posto moderadamente nas entrelinhas da frase anterior, e a incerteza e desconfiança voltaram, o incomodando, repetindo mantras que Gareki não queria esquecer.

Mas, 'Nós somos amigos, não é?' era o que tudo isso significava e sua garganta apertava tanto quanto seus sentimentos, bons e ruins, enroscados uns nos outros.


Naquela noite, depois de cair sobre sua cama e ter considerado que seu pequeno ataque de irritação após ter dito aquilo (que disfarçou bem o leve vermelho sobre seu rosto) um sucesso pela resposta de Nai – uma risada, de todas as coisas – ponderou-se por muitas coisas que ele tinha tentado deixar para trás.

Nunca fora fácil lembrar do que tinha perdido – Tsubaki e por extensão, Tsubame e Yokata - sua família – do que nunca pode ter – pais, aqueles que os tinham gerado, a terem algum tipo de afeto a ele – ou o que foi roubado dele – um lar, uma possibilidade de viver uma vida feliz. Viver longe do orfanato, uma outra quase família, uma que ele rejeitava por um medo de reviver tudo de novo, de possuir algo e aquilo ser arrancado sem misericórdia. Gareki não acreditava que algo poderia ser concertado, como sua esperança que tinha sido morta – só mecanismos, que tanto o fascinavam, podiam, e ele não tinha em si como outros habitantes do orfanato algo para acreditar que as coisas podiam um dia melhorar.

A solidão era uma certeza, e Gareki se acostumara a ela, o que não fora difícil. Você apenas quer se proteger, dizia sua consciência, nos momentos mais tempestivos, não seja um covarde, era sussurrado o zombando com a verdade.

Observando seu quarto que se tornava cada vez maior e vazio aos seus olhos, Gareki soltou uma risada rouca, alcançando a boca com uma das mãos para controlar o som alto que era produzido pelas suas cordas vocais.

Como alguém pode ter uma realização de algo tão importante após um dia de entregar doces a garotas que ele mal vira em sua vida, ainda mais por causa das palavras de um garoto franzino, bobo e inocente demais para esse mundo?

A risada cessou aos poucos, e sua mão voltou-se a procurar pela cama o celular, aquele objeto que estava ocupando muito mais tempo de seu dia. Assim que o encontrara, Gareki clicara rapidamente para redigir uma mensagem – as palavras formaram-se rapidamente, como se para não perder o impulso de dizê-las.

Ao enviar a primeira mensagem (ao seu tutor, que iria o incomodar pelo resto do mês pelo ato), o moreno voltou-se a escrever uma mensagem para Nai – não uma de resposta, para completar algo dito para o mais novo, algo sem necessidade, como muitas das mensagens esporádicas do de olhos carmesim, uma que Nai não esperaria receber de Gareki, e nem que Gareki, com movimentos incertos, não sabia como escrever.

Ao clicar pela segunda vez em 'enviar', Gareki colocou o celular sobre o rosto, apreciando o calor morno do aparelho sobre sua pele. Gareki permitiu-se encolher em si, exausto, ignorando a ventania fresca que entrava pela janela – o ar era quente e reconfortante o bastante.

A primavera estava chegando, Gareki concluiu enquanto sentia-se ser levado por um sono pacífico.


'10:16 PM

Para: Nai.

Assunto: Ei.

Eu sou um pouco parecido com você – no caso de uma família.

Às vezes eu gosto de lembrar deles.

E você?'