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Não eras capaz de…
[. . .] PART FOUR [. . .]
"-E já têm alguma ideia de como queres que seja o casamento?"
Estavam sentadas na cama de Ginny, fugindo ao frio da neve e da geada que cobria o chão e as árvores do jardim. Faltavam apenas uns dias para o Natal e após terem feito os planos para as celebrações da época decidiram falar dos preparativos do casamento.
"-O Harry deixou tudo nas minhas mãos, diz que o que eu desejar estará bem para ele."
"-Então o que é que tu imaginaste?"
"-Eu não sei Hermione. Eu sempre sonhei com este dia, mas agora que está realmente próximo não sei o que desejar."
"-Vamos começar pelas coisas básicas. Já escolheram a data?"
"-Principio de Abril, dia 4 ou 5."
"-Onde queres que seja?"
"-Aqui, no jardim da Toca. Aqui há espaço suficiente e na Primavera está tudo coberto por flores, borboletas e passarinhos. Vai ser agradável."
"-Há espaço para todos os convidados?"
"-Não tenciono convidar muita gente e como podes imaginar o Harry também não, por isso há espaço mais do que suficiente."
"-Isso é uma das coisas mais importantes. Precisas de te reunir com o Harry para escreverem juntos a lista de convidados para o casamento. Depois precisas de escolher o esquema de cores e as decorações da cerimónia, escolher os padrinhos, as damas de honor e os meninos das alianças. Tens ainda de escolher o teu vestido e o das damas de honor, os convites e o arranjo de flores. Já para não falar do menu e a música ambiente."
"-Como é que sabes tanto sobre planear casamentos Mione?"
"-Talvez porque passo demasiado tempo a imaginar o meu próprio casamento com o cabeça dura do teu irmão. Eu juro… um dia destes deito tudo pelo ar!"
"-Está tudo bem entre vocês?"
"-Está…Mas o teu irmão não quer nada mais comigo. Não quer evoluir a nossa relação e espera que eu me contente com isso."
"-Precisas de ter calma com ele. O Ron é apenas mais um Weasley que tem medo de mais de compromissos. Mas não te preocupes, eu dou-lhe uns toques."
"-Não Ginny, não quero que o forces a nada. Se não acontecer eu própria trato do assunto."
"-Eu não o vou pressionar, vou apenas mostrar-lhe a realidade. O Ron pode ser muito esquecido e completamente alienado da realidade. Provavelmente não percebeu ainda que te está a magoar apenas por ser distraído."
"-Às vezes eu não sei o que dizer. Ele é a minha vida sabes? É o homem que eu amo e que me ama de volta. Mas há dias, aqueles dias horríveis em que tudo parece escuro que penso que seria melhor se fossemos por caminhos separados. Eu sempre quis viajar sabes? Talvez passar uma temporada como muggle noutro país, mas o Ron só pensa em Quidditch e no trabalho. Quando não está a trabalhar está a assistir a jogos de Quidditch, a ler sobre Quidditch ou cansado de mais para fazer qualquer outra coisa. Eu quero viajar, quero casar, quero ter filhos. Não quero passar a minha vida inteira a morar na mesma casa com um homem que só pensa num jogo infantil."
"-Tem paciência querida, vais ver que corre tudo bem."
"-Obrigada pelo apoio Ginny. Mas vamos voltar ao teu casamento. Ainda temos bastante tempo para organizar tudo, mas quanto mais depressa decidires os detalhes mais depressa preparamos tudo, deixando-te livre de stresses na altura do casamento."
"-Acho que vou deixar tudo para depois. Não quero pensar nisso agora. Tenho dois homens para convencer hoje."
"-Como assim?"
"-Tenho de convencer o Ron de que vai ser totalmente miserável e infeliz sem ti e tenho de convencer o Harry a não fazer uma fita quando enviar o convite de padrinho ao Draco."
"-O Malfoy vai ser o teu padrinho? Não achas isso um pouco demais?"
"-Não, não vejo problema nenhum no facto dele ser meu padrinho."
"-Eu não queria ser óbvia mas o Harry odeia o Malfoy e aposto que ele retribui o sentimento. Não achas que pode ser um choque para o Harry ter o Malfoy como padrinho de casamento para o resto da vida?"
"-Eu não sei… eu só queria muito que o Draco fizesse parte disto. Ele tem estado ao meu lado há algum tempo e apoiou-me em decisões muito sérias como a entrada nos Puddlemere."
"-Eu entendo isso, mas vê o lado do Harry. Ele tem aguentado tanto, tem lutado tanto para não fazer uma cena de ciúmes, para não duelar com o Draco. Devias ao menos discutir a fundo isso com ele."
"-Eu sei… é isso que vou fazer."
"-Então podes aproveitar agora, porque o Harry acabou de chegar!"
"-Como é que sabes?"
"-Ginny! Desce filha! O Harry está aqui!"
"-Eu disse." – Comentou divertida.
"-Eu já volto. Tenho uma missão difícil pela frente."
"-E eu também, vou tentar arrancar a nova edição do 'Quidditch através dos Tempos' das mãos do teu irmão."
"-Desejo-te boa sorte."
Desceu as escadas duas a duas e assim que chegou à cozinha recebeu uns bons dias efusivos de Harry.
"-Tenho uma óptima novidade!"
"-O que é? Sabes que eu sou curiosa!"
"-Vamos para outro local."
"-Anda, o meu quarto está vazio."
"-Não se demorem meninos, o almoço está quase pronto."
"-Sim Sra. Weasley."
"-Diz-me, o que tens para me contar!" – Pediu, encostada à porta fechada do seu quarto.
Harry caminhou até à cama e sentou-se, olhando-a sempre com um sorriso nos lábios. Gostava de a ver curiosa e ansiosa, com os olhos a brilhar e um sorriso nervoso nos lábios.
"-Vais contar-me ou não?"
"-Quero um beijo primeiro."
"-Não sei se a novidade que tens para mim vale um beijo ou não."
"-Acredita em mim, vale muito mais que um beijinho."
"-E como é que sei que não me estás a enganar?"
Caminhava para ele sedutoramente e acabou por o empurrar contra o colchão fofo e subir para o colo dele.
"-Não te estou a enganar. Palavra de Harry Potter."
"-Um beijinho? É isso que queres?"
"-Para começar…"
Ela beijou-o delicadamente, os cabelos ruivos a tocarem-lhe e as mãos pequenas a acariciarem os fios negros do cabelo dele.
"-Quero saber…" – Murmurou com os lábios ainda colados nos dele.
"-Outro beijo…"
"-Isso é chantagem."
"-Exactamente."
Outro beijo, profundo, apaixonado e quente. Um toque suave na face que deslizou pelo pescoço e parou no peito dele. E um outro beijo, mais selvagem, acompanhado de um lento mover de ancas.
"-Quero saber…"
"-Encontrei o sítio ideal para nós."
Ela afastou-se um pouco dele, endireitando-se no seu colo.
"-Como assim?"
"-Descobri a casa ideal para nós. Podemos visitá-la ainda hoje se quiseres."
"-E é longe?"
"-Não, é aqui mesmo em Ottery St. Catchpole. É um pouco mais pequena que a Toca, como podes imaginar não é fácil encontrar casas com sete andares. Mas acho que vais adorar, porque tem uma vista linda da colina e um jardim enorme todo florido."
"-Podemos ir vê-la já? Acho que não consigo esperar!"
"-Depois de almoço. Se faltarmos à refeição é capaz da tua mãe nos pôr de castigo."
"-Não sei se aguento tanto tempo…"
"-Talvez se eu ocupar o teu tempo até lá não te custe tanto."
"-Podes tentar…"
Harry puxou-a para um beijo fogoso que foi interrompido pela porta do quarto a abrir.
"-Ginevra Molly Weasley! Que pouca vergonha vem a ser esta?"
Ginny saltou do colo de Harry no mesmo instante, sentando-se envergonhada no colchão ao lado do moreno.
"-Pedimos desculpa Sra. Weasley."
"-Sem desculpas meus meninos!"
"-Mas mãe! Nós vamos casar sabes?"
"-Eu não quero saber! Enquanto não estiverem casados não quero essa pouca vergonha debaixo do meu tecto! Agora, almoçar! Rápido!"
Ginny e Harry levantaram-se da cama no mesmo instante, ambos com a face vermelha e a cabeça baixa quando saíram pela porta do quarto.
[. . .]
"-Não há como não gostar! É simplesmente perfeita!"
"-Tens a certeza que gostas?"
"-Como podia não gostar? É linda, espaçosa, com uma vista perfeita e fica perto da Toca e da casa da Luna! Como eu disse, simplesmente perfeita!"
"-Ainda bem que gostaste, porque eu também a achei ideal."
"-Mal posso esperar para me mudar para cá." – Disse sentando-se no chão de madeira, em frente a uma grande vidraça.
"-Só temos de preparar tudo, escolher mobílias e afins."
"-Podemos aproveitar a pausa de Natal para tratar disso. Depois do ano novo tenho a certeza que não vou parar um minuto, entre treinos e preparativos do casamento."
"-Já começaste com os preparativos para o casamento?"
"-Hoje eu e a Hermione falámos um pouco sobre isso."
"-E que tal correu?"
"-Bem, e na realidade tenho uma coisa para falar contigo."
"-Isso não pode esperar? Contava poder aproveitar melhor este tempo em que estamos sozinhos e onde não corremos o risco de ser interrompidos."
"-Queria… falar contigo… primeiro." – Disse entre beijos.
"-É assim tão importante?"
"-Não é importante, quero apenas falar contigo o mais rapidamente possível sobre o assunto."
"-Porque é que eu acho que não vou gostar disto?"
"-Já escolheste os teus padrinhos de casamento?"
"-Não há muito para pensar, o Ron e a Hermione claro. Mas o que é que isso tem a ver com o que me queres dizer?"
"-É que eu já escolhi os meus."
"-Era isso que me ias dizer? Que já escolheste os teus padrinhos de casamento? É a Luna e mais quem? O Bill, o Charlie?"
"-O Draco."
"-O Malfoy? É uma brincadeira? Diz-me que é uma brincadeira!" – A sua face começou a corar e não demoraria muito para perder o controlo da sua voz.
"-Não Harry, eu quero o Draco como meu padrinho."
"-Não estás à espera que aceite, pois não?"
"-Estou. É por isso que estou a falar contigo."
"-Não me faças uma coisa destas Ginny, por favor. Tu sabes que eu não gosto dele, sabes que faço de tudo para não falar no assunto, para não me enfurecer quando te encontras com ele. Até compreendo que o queiras no nosso casamento, mas daí a escolhe-lo para padrinho é de mais!"
"-Por favor Harry, eu não quero fazer disto uma grande discussão. Só quero que saibas que é muito importante para mim que ele seja o meu padrinho de casamento."
"-E se eu ceder de novo? Vais chamá-lo para ser padrinho do nosso primeiro filho? Vais convidá-lo para passar os natais connosco? Vais convencer-me a deixá-lo passar uma temporada na nossa casa? É isso que vai acontecer?"
"-Não! Eu só quero que ele seja o meu padrinho de casamento, só isso. Nunca te pediria algo tão ousado como deixá-lo ser padrinho dos nossos filhos. Conheço os limites, sei bem que não gostam um do outro e que nem Draco concordaria com tal coisa!"
"-E o que é que te diz que ele vai aceitar ser o teu padrinho de casamento?"
"-Eu sei que ele vai aceitar. E mesmo que não aceite, quero que ele saiba que pensei nele como hipótese."
"-É isso que queres? O Malfoy como padrinho de casamento?"
Ela assentiu vigorosamente e Harry só pode suspirar. Nunca faria nada para a deixar infeliz, nem que isso significasse engolir todo o seu orgulho.
"-Se é isso que queres…"
"-Obrigada! Obrigada!" – Agradeceu enchendo-o de beijos leves.
"-Qualquer coisa para te ver feliz…"
[. . .]
Uma pilha de intermináveis convites de casamento estava à sua frente. Todos eles eram brancos e convidavam, numa letra dourada muito trabalhada, à cerimónia de casamento de Harry James Potter e Ginevra Molly Weasley, a realizar-se a dia cinco de Abril, pelas dez horas no jardim da Toca em Ottery St. Catchpole.
Uma dúzia de corujas esperavam empoleiradas na janela do seu quarto, ansiosas por alguma missão, enquanto ela, com ajuda de alguma magia, colocava os nomes dos convidados nos envelopes brancos.
O nome Draco Malfoy saltou da sua varinha ficando preso, como todos os outros, na superfície de um dos envelopes brancos. No verso do convite que lhe enviaria escreveu à mão, com tinta azul, uma frase que se tornara costumeira entre eles.
«Não eras capaz de … ser o padrinho, pois não?»
O que ela não esperava era que pouco mais de uma hora depois receber um bilhete dele, com uma letra apressada onde se podia ler «Não posso ser padrinho de casamento da noiva do Potter. Seria uma honra caso o noivo fosse outro. Conta comigo, mas não como padrinho.».
Amachucou o bilhete descontente, não esperava aquela resposta. Mas talvez fosse melhor assim, talvez a recusa de Draco fosse um sinal para deixar de insistir naquela história de o querer presente em todos os momentos.
No entanto ainda precisava de Draco para mais uma coisa. Disso trataria com um bilhete no dia seguinte.
[. . .]
"-Este bilhete foi um golpe muito baixo Ginevra." – Disse agitando o bilhete na frente dos olhos dela.
"-Nem por isso, foi apenas mais um desafio."
"-Para uma Weasley tu estás bem mesquinha, sabias?"
"-Não sou mesquinha, apenas não posso ignorar o facto de que sabes mais de vestidos do que qualquer outra pessoa que eu conheço, seja isso estranho ou não."
"-Mas escolher o vestido de casamento da futura mulher do Potter é um exagero, não?"
"-Vá lá Draco…Compensas o facto de não teres aceite ser o meu padrinho."
"-Vamos andando, a Madame Moreau está à nossa espera."
"-Como assim?"
"-Marquei uma hora com ela. Se vou ser eu a escolher o vestido quero que seja um como deve de ser."
"-Mas…"
"-Sem mas. Ela está à nossa espera no atelier dela."
"-Onde fica?"
"-Infelizmente na parte muggle da cidade. Aparentemente os muggles são grandes apreciadores dos vestidos da Madame Moreau."
"-Como vamos para lá?"
"-Aparatamos no 'Caldeirão Escoante' e de lá procuramos um táxi muggle até ao atelier."
"-Eu tive uma ideia melhor."
"-Que ideia?"
"-Quando sairmos do 'Caldeirão Escoante' eu conto-te."
"-Tenho a sensação que não vai ser uma boa surpresa."
"-Não sejas tão céptico Draco, aposto que vais adorar."
Adorar não foi bem o termo. Na realidade Ginny nunca tinha visto o loiro tão descontente e assustado antes.
"-Explica-me o que é que estamos aqui a fazer?"
Muggles andavam em todas direcções, mulheres, homens, crianças e idosos atarefados, carregados com pastas, mochilas e sacolas, num frenesim citadino habitual. Tudo isso assustava Draco, não só as pessoas, mas o ambiente sombrio e frio, os gritos e conversas altas e os sons cortantes que se ouviam em intervalos regulares.
"-Onde é que estamos?" – Perguntou desconfiado.
Não se mantinha quieto no lugar, em vez disso desviava-se em todas as direcções tentando ao máximo não entrar em contacto físico com nenhum dos muggles. Olhava em volta desconfiado e evidentemente incomodado com a multidão.
"-O que é que tu fazias nas tuas aulas de estudos muggles?"
"-Eu recusei-me a fazer parte dessa demonstração ridícula de pseudo-conhecimento."
"-Se tivesses assistido a essa demonstração ridícula de pseudo-conhecimento saberias que estamos no metro da cidade. É um dos meios de transportes mais utilizados pelos muggles."
"-E não consegues ver o que está errado nesta situação?"
"-Nem por isso."
"-Malfoy, muggles. Ainda nada?"
"-Deixa de ser preconceituoso Draco. São pessoas normais sabes. A falta de magia não é uma doença contagiosa, não se pega." – Murmurou-lhe rapidamente ao ouvido – "Agora vamos, o metro deve estar a chegar."
"-E como é que sabes para onde vamos?"
"-Estás a ver este diagrama?" – Perguntou.
Apontava para um grande cartaz, cheio de linhas coloridas e pontos e traços com nomes que marcavam as linhas e as estações do metro nas várias partes da cidade.
"-Era suposto eu entender?"
"-Nós estamos aqui." – Disse pousando o dedo sobre um dos nomes, numa bola branca onde se cruzavam três linhas diferentes – "E o estúdio da Madame Moreau, segundo a morada que me disseste, é aqui." – Percorreu com o dedo uma linha azul clara e depois uma azul escura parando na estação pretendida – "É fácil. Entramos no próximo metro, saímos na estação que se segue. Depois nessa trocamos de linha e saímos na primeira estação dessa nova linha."
"-Eu espero que saibas o que estás a fazer, porque se ficarmos perdidos no meio destes muggles todos…"
"-Não nos vamos perder, confia em mim." – Cortou – "Agora vem, o metro chegou."
Centenas de muggles tentavam entrar no metro enquanto tantos outros tentavam sair dele, resultado numa confusão de que nem Draco, com todos os seus cuidados, não foi capaz de escapar.
"-Ginevra, eu quero sair daqui." – Murmurou-lhe irritado ao ouvido, comprimido contra ela e contra outras três pessoas, que o prensavam contra as portas automáticas da carruagem.
"-É num instante Draco, saímos na próxima estação."
"-Tenho um pirralho a babar-me as calças!"
"-Calma Draco, é só uma criança. Uma criança com um chupa-chupa gigante a colar-se nas tuas calças, mas ainda assim, uma criança."
"-Quanto tempo demora de uma estação à outra?"
O metro parou no mesmo instante e Draco deixou-se empurrar pela multidão e por Ginny para fora da carruagem do metro.
"-Segue-me, precisamos de mudar de linha."
"-Eu não quero entrar naquele inferno de novo Ginevra."
"-É num instante."
"-Não quero saber."
"-Por mim, por favor…"
"-Rápido Ginevra, antes que eu desista da ideia."
Ela sorriu e puxou-o pela mão e em menos de dez minutos estavam em frente ao atelier de alta costura da Madame Ange Moreau.
"-Finalmente livres daquela multidão horrível de muggles."
"-Não sejas assim."
"-É a última vez, a última vez que eu dou ouvidos às tuas ideias loucas e totalmente sem sentido."
"-Prometo que nunca mais te envolvo numa cena destas."
"-Óptimo. Agora vamos ao vestido."
O atelier da Madame Moreau era um espaço amplo e ostentosamente decorado. Ao canto, em frente a uma lareira, estava uma moça jovem, a atender pedidos via Flu. No lado oposto da sala, duas mulheres com alguma idade lançavam encantamentos em direcção a dois manequins elaborando os mais belos vestidos que Ginny alguma vez tinha visto. O centro da sala era o local mais atractivo de todo o espaço. Nele havia uma pequena plataforma circular, onde uma jovem se encontrava em pé, a experimentar um gracioso vestido de noivas a que Ange adicionava pequenos detalhes com a ajuda da sua varinha.
"-Mara, se não te importas, termina os detalhes no vestido desta jovem." – Disse para uma das mulheres que lançava feitiços para um manequim – "Querido, que prazer em vê-lo. Como tem passado a sua mãe?"
"-Muito Bem, obrigado. E a Madame?"
"-Atarefada querido. Pelo que percebi veio para escolher um vestido de noiva. E vi que mudou de opinião em relação à Ginevra. Mas não sei se sabe dá azar ver o vestido da noiva antes do casamento. E nós não queremos isso, pois não?"
"-De novo Madame Moreau, eu e a Ginevra somos apenas amigos. Não é comigo que ela vai casar."
"-Desculpe o que lhe digo querido, mas é realmente uma pena. Mas mudando de assunto, querida Ginevra, que ideia tem em mente?"
"-Na realidade contava que me pudesse ajudar, não tenho ideias nenhumas."
"-Então veio ao local certo. Se não se importa de subir para a plataforma…Óptimo. Vamos começar pelo básico, deseja um vestido médio, comprido ou realmente comprido?"
"-Comprido, com um pouco de cauda."
Ange executou o mesmo feitiço que utilizara na prova do vestido do baile. Uma centena de fios brancos saídos da varinha de Ange desenhou em torno do corpo de Ginny as fundações para um bonito vestido de noiva.
"-Rodado ou direito."
"-Rodado."
"-E quer muitos ou poucos detalhes?"
"-Apenas os suficientes." – Respondeu com um sorriso.
Ange concentrou-se no seu trabalho, agitando a varinha em várias direcções, desenhando com fitas de seda e apliques cremes detalhes delicados no tecido lustroso.
"-Draco, querido, o que acha?" – Perguntou ao concluir o vestido.
"-Uma verdadeira obra de arte."
"-Como estou?" – Perguntou a ruiva, num tom nervoso.
"-Muito bem." – Respondeu-lhe Draco.
Madame Moreau fez flutuar um espelho grande do canto da sala até Ginny, que deixou a sua boca abrir de espanto após vislumbrar o seu reflexo na superfície prateada.
"-É maravilhoso."
Nuca sonhara com um vestido assim, nem nos seus sonhos fantasiosos de criança apaixonada. O vestido era simplesmente deslumbrante, um equilíbrio perfeito entre a simplicidade e a ostentação. Sem alças e feito num tecido branco lustroso, o vestido descia colado ao seu tronco até se abrir num balão delicado a partir da sua cintura, que se arrastava pelo chão atrás de si, numa cauda comprida. Não era muito enfeitado. A parte que lhe cobria o tronco era adornada com pequenos brilhantes cremes dispostos em motivos florais próximos uns dos outros, cortados a partir da cintura por uma fita larga de seda creme que atava nas suas costas com um laço. O tecido continuava branco e imaculado até ao fundo onde, na parte mais funda da cauda do vestido, se organizavam novamente pequenos brilhantes cremes, desenhando motivos florais dispersos que emitiam um brilho especial quando a ruiva se movia.
"-Diga a verdade querida, o que achou?"
"-Nunca tinha imaginado algo assim…" – Murmurou, os seus olhos rasos de lágrimas.
"-Pronto, pronto querida, não precisa de chorar. Aprecio que tenha gostado."
"-Adorei! Obrigada Madame Moreau."
"-De nada querida. É para isso que eu cá estou. Precisa de mais alguma coisa?"
"-Acho que não, o vestido é tão longo e bonito que um véu só iria estragar o efeito."
"-Concordo plenamente. Antes de sair vou pedir-lhe que me diga onde quer que a entrega seja feita."
"-Em Ottery St. Catchpole, na Toca. O nome é Ginevra Weasley."
"-Perfeitamente querida. Espere o vestido no mim desta semana, talvez no último fim de semana de Fereveiro. Quanto ao pagamento…"
"-Isso é comigo Madame Moreau."
"-Não Draco! Isso é demais, não posso deixar que pagues o vestido."
"-Eu escolho como gasto o meu dinheiro Ginevra. Além disso, mesmo não sendo o teu padrinho de casamento quero que o meu presente seja o melhor."
"-Mas Draco, é demais!"
"-Eu é que decido quando é que é demais." – Disse um tom de quem quer dar por encerrada a conversa – "Envie a conta para mim Madame Moreau."
"-Como desejar querido." – Disse. Depois de tirar as notas que precisava sobre o vestido, desfez o encantamento fazendo-o desaparecer no ar.
"-De novo, obrigado Madame Moreau, por nos ter atendido tão em cima da hora e ter escolhido um vestido tão perfeito para a Ginevra."
"-Já sabe querido, pode contar comigo sempre que precisar."
"-Obrigada Madame."
"-De nada querida. E boa sorte com o seu casamento, que seja muito feliz."
Saiu radiante do atelier de Ange e abraçou Draco assim que teve oportunidade.
"-Obrigada Draco. Foi muito amável da tua parte."
"-Vê o vestido como uma compensação à recusa do convite." – Respondeu assim que ela o libertou.
"-Mas não tinhas que o fazer e ainda assim fizeste."
"-Não o menciones ao Potter. Ele não vai gostar de saber."
Ela apenas encolheu os ombros, não sabendo muito bem o que responder. A viagem de volta correu muito melhor, para alívio de Draco. Não havia tantos muggles a empurrarem-no nem crianças com guloseimas a colarem-se às suas calças.
"-Não tens treino hoje?" – Perguntou ao entrarem no 'Caldeirão Escoante'.
"-Tenho e estou atrasada. Vai haver sermão do treinador de novo."
"-Antes de ires tenho uma coisa para ti."
"-O quê?"
"-Não pensavas que me tinha esquecido pois não?"
Tirou uma miniatura do bolso e com a varinha devolveu-lhe o tamanho normal. Era a costumeira caixa de bombons, branca e com uma fita vermelha, que Draco nunca se esquecia de levar quando se encontrava com Ginny.
"-Eu não devia aceitar sabes? Depois do vestido e tudo! És louco em oferecer-me presentes a toda a hora."
"-Leva os bombons contigo, vais precisar deles depois de teres ouvido o sermão do teu treinador."
"-O pior é que tens razão…" – Admitiu pegando na caixa branca – "Depois do treino vou entupir-me em chocolates."
"-Então vá, boa sorte com o treino e vemo-nos em breve."
"-Antes do casamento, ok?"
"-Vou fazer os possíveis."
[. . .]
Estava cansada, o seu corpo doía dos treinos e dos preparativos da cerimónia e estava emocional e psicologicamente desgastada com os nervos do casamento.
"-Onde vamos Luna?"
"-É uma surpresa."
"-Sabes como eu fico quando me falam em surpresas, não sabes?"
"-Calma Gin-Gin, prometo que vais gostar."
Mas Ginny conhecia Luna bem demais para ficar calma quando ela lhe falava em surpresas. Luna era excêntrica demais e uma surpresa dela tanto podia significar um colar de cromos dos sapos de chocolate como um encontro perigoso com uma esfinge.
"-Diz-me ao menos onde vamos? Estou cansada de andar, hoje o treino foi brutal."
"-Temos de passar pela casa do Blaise, deixei lá uma coisa."
Encolheu os ombros e continuou a seguir a Luna pela rua pouco movimentada. O céu estava mais escuro do que seria de esperar naquela altura do dia e época do ano e ela só esperava que o sol começasse a brilhar a tempo do seu casamento, dali a duas semanas.
"-Chegámos!"
"-O Blaise mora aqui?"
Era um edifício alto e moderno, que mais parecia um complexo de escritórios do que uma zona de habitação.
"-Sim, no último andar. Tem uma vista espectacular da cidade."
Um elevador espaçoso levou-as ao último andar num instante.
"-De que é que te esqueceste na casa do Blaise afinal?"
"-Algo que precisamos para esta noite." – Respondeu simplesmente murmurando um feitiço para abrir a porta.
Ginny espantou-se. O apartamento era espaçoso e muito iluminado, decorado de forma simplista e consistente. Mas não foi essa a razão do seu espanto. Na sala grande de Blaise estavam sentadas algumas das suas melhores amigas.
"-O que é que é isto?" – Perguntou confusa recebendo como resposta um sorriso divertido de Luna.
"-Só uma festinha para te despedires da tua vida de solteira."
"-Mas Luna…"
"-Aproveita. Estão cá as meninas todas e a noite ainda mal começou. Esta foi só a primeira surpresa."
Ficou confusa nos primeiros minutos, entre cumprimentos e saudações, Ginny conseguiu identificar seis mulheres diferentes, algumas das quais já não via há muito. Hermione, Angelina, Padma, Parvati, Katie, Lavander e Luna conversavam agradavelmente fazendo comentários sobre o seu futuro casamento.
"-Oh Ginny! Conta-nos como aconteceu!" – pediu Padma.
"-Sim, porque achávamos que ao fim de todos estes anos já tinhas avançado para outra e esquecido o famoso Harry Potter."
"-Acho que vão ficar desiludidas, não foi nada de extremo. Ele não caiu aos meus pés de repente depois de ter percebido que me amava há anos."
"-Bem, algo romântico deve ter sido, porque caso contrário não te casarias com ele assim tão de repente."
"-Bem Katie, a verdade é que ele foi realmente romântico. Enviou-me uma carta super fofa a pedir que passasse o Natal na Toca, para poder estar com ele. E quando dei por mim estava a beijá-lo em plena queda de neve."
Um sonoro 'Oh!' fez-se ouvir pela sala, todas as mulheres encantadas com a perspectiva de um beijo romântico debaixo de neve. Um 'pop' alto atraiu a atenção de todas. Uma caixa grande e branca, adornada por uma fita vermelha tinha acabado de cair nos joelhos da ruiva, para surpresa dela e das restantes.
"-Nós a falar do Harry e ele a dar mostras do seu romantismo."
"-Será que é o que estou a pensar?" – Perguntou Angelina curiosa.
"-Parece uma daquelas caixas de bombons muito famosos."
"-Tens razão Lavander." – Concordou Luna – "O Blaise já me ofereceu destes bombons várias vezes. E é engraçado porque têm o teu nome Ginny."
"-Isso é realmente romântico!" – Disseram Padma e Parvati em simultâneo.
"-Não foi o Harry que os enviou…" – Disse baixinho.
"-Como assim, não foi o Harry que os enviou?" – Perguntou Hermione confusa – "A caixa não tem cartão, como podes saber que não foi ele a enviá-los?"
"-Porque o Harry nunca me ofereceu destes bombons, aliás, ele não sabe que são os meus favoritos."
"-Então quem tos enviou?"
"-Foi o Draco."
"-Draco…Draco Malfoy?"
"-Sim Lavander, Draco Malfoy."
"-Não sabia que te davas com ele, muito menos que ele te enviava caixas de bombons desse tamanho."
"-Não é nada, é apenas uma mania que ele tem, já que fui eu que lhe dei a ideia destes bombons…"
"-Como assim?"
"-Oh! É por isso que têm o teu nome!" – Concluiu Luna divertida –"O Blaise tinha-me dito que conhecia o dono da «La Gelée Blanche», mas nunca pensei que fosse o Draco!"
"-Sabes, se não fosse um Malfoy e se não tivesses prestes a casar com o Harry diria que ele estava a tentar algo contigo."
"-Que disparate Lavander. Eu e o Draco somos apenas bons amigos e nunca aconteceu nada entre nós nem nunca vai acontecer."
"-Desculpa Ginny, não te queria aborrecer."
"-Não tem importância." – Respondeu após um suspiro – "Quem quer bombons?" – Perguntou com um sorriso.
A degustação de bombons foi interrompida por uma série de batidas fortes na porta de entrada.
"-Acho melhor ires abrir Gin-Gin."
"-Mas esta é a casa do Blaise Luna, pode ser algo para ele e devias ser tu a abrir a porta."
"-Confia em mim, esta é para ti."
Ginny caminhou até à porta, desconfiada, esforçando-se para não prestar atenção aos risos divertidos das mulheres sentadas na sala. Assim que abriu a porta dois homens entraram na casa, com enormes sorrisos estampados nas caras douradas pelo sol.
"-Boa noite senhoras!" – Cumprimentou o mais alto, com uma voz grossa e melodiosa.
Ginny estranhou os dois homens, completos estranhos, um deles vestido de jogador de Quidditch dos Montrose Magpies e o outro de…
"…medibruxo?" – Murmurou para si própria – "Luna, o que é que se passa aqui?"
"-É a tua surpresa tonta!"
A ruiva olhou confusa para a loira e depois para os dois homens.
"-Então esta é que é a futura noiva." – Disse o que estava vestido de medibruxo – "Senta-te e relaxa querida." – Aconselhou guiando-a pela mão até ao sofá mais próximo –"A diversão vai começar."
Uma música estranha e ritmada começou a tocar fazendo os dois homens movimentarem-se numa espécie de coreografia.
"-Luna!" – Chamou meio atrapalhada sentido o estranho vestido de medibruxo a aproximar-se de si mais do que o permitido pelos bons costumes.
Mas aparentemente Luna não achava nada estranho o facto de dois completos estranhos estarem a dançar e a tirar as roupas no meio da sala do seu noivo. Nem a Luna nem as outras. Além dela só Hermione se encontrava um tanto embaraçada, tentando a todo o custo desviar o olhar dos abdominais expostos e bem definidos do dançarino vestido de jogador de Quidditch.
Uma batida na porta passou desapercebida às mulheres, entretidas com os bailarinos e a música alta. Ginny esgueirou-se até à porta só para encontrar Draco especado do outro lado.
"-Animadas?" – Perguntou espreitando por cima da cabeça dela, só para observar seis mulheres coradas a gargalhar.
"-Ainda bem que chegaste, mesmo no momento certo." – Disse aliviada.
Saiu para fora do apartamento de Blaise e quando estava quase a fechar a porta gritou.
"-Adeus meninas! Obrigada pela festa!" – Fechou a porta com força e disse para Draco – "Vamos embora, rápido!"
"-Hogsmead?"
"-Hogsmead." – Concordou aparatando depois dele.
A noite estava agradável e calma. Não passavam muitas pessoas na rua, muito menos naquele lugar e as nuvens que carregavam o céu horas antes tinham debandado para dar lugar às estrelas brilhantes.
"-O que é que foste fazer à casa do Blaise?"
"-O que é que aqueles homens estavam lá a fazer?"
"-Eu perguntei primeiro…"
"-O Zabini estava preocupado que um bando de mulheres loucas lhe destruíssem o apartamento e aparentemente tinha razão. Agora, que homens eram aqueles?"
"-Coisas da Luna. É a noção dela de diversão pré-nupcial."
"-E é a tua noção de diversão pré-nupcial?"
"-Não! Claro que não! Mas e se fosse? Havia problema?"
"-Não por mim, estás à vontade para te divertires com dois armários fantasiados."
"-Obrigada pela permissão." – Respondeu sarcástica.
"-Queres ir beber alguma coisa? Se nos apressarmos ainda temos tempo para uma última bebida antes do 'Três Vassouras' fechar."
"-Só se for cerveja amanteigada!"
"-Está prometido."
Só que só se levantaram das mesas do bar uma cerveja amanteigada e dois Fire Whiskey depois.
"-Tu estás bem?"
"-Só um pouco tonta." – Disse mantendo-se muito parada no mesmo local.
"-Senta-te."
"-Não… eu estou bem." – Insistiu voltando a caminhar.
Mas na realidade ela não estava tão bem quanto isso e uma pequena pedra foi o suficiente para a fazer tropeçar. Draco só teve tempo de a agarrar pelo pulso, de uma forma nada delicada e graciosa, devolvendo-lhe o equilíbrio com um puxão.
"-Isto não é bom sinal, Ginevra. Estás bêbada."
"-Eu não estou bêbada." – Disse num tom vago deixando-se tombar para a frente, a sua testa pousada no ombro dele – "Estou tonta, só isso."
"-Da última vez que disseste isso caíste de cara no chão, lembras-te?"
"-Mas hoje não estou assim… já disse! Estou tonta!"
"-Anda, vem sentar-te."
As ruas estavam agora vazias para além deles e iluminadas apenas pelas estrelas, a lua cheia e um par de candeeiros velhos.
"-Porque é que nunca me beijaste?" – Perguntou a certa altura, afastando a sua testa do ombro dele para lhe fixar os olhos cinzentos.
"-Porque nunca o quis fazer Ginevra." – Disse num tom condescendente, como quem explica algo a uma criança.
"-Porquê?"
"-Porque nunca aconteceu Ginevra."
"-É porque eu sou uma Weasley?"
"-Ginevra, esta não é, de todo, uma conversa apropriada para ter a duas semanas do teu casamento com o Potter."
"-Não me achas atraente, é isso?"
"-O que importa o que eu acho? Não é comigo que vais casar, é com o teu heroizinho cicatrizado."
"-Responde-me!" – Exigiu.
A sua voz saiu nervosa e os seus cabelos agitaram-se em todas as direcções com o ímpeto da sua voz e a expressão do seu corpo.
"-O que queres que diga? Queres que minta e que te faça crer que sempre te desejei e amei secretamente?"
"-Quero a verdade!"
"-A verdade não importa Ginevra, não a duas semanas de seres uma Potter."
"-A verdade importa sempre."
"-A verdade é que estas bêbada, o suficiente para fazeres uma asneira mas não o bastante para evitar que te arrependas amanhã de manhã."
"-Não eras capaz de me beijar… nunca foste…"
"-É isso que queres?" – Perguntou num tom baixo, receando pela primeira vez uma resposta honesta dela.
"-Só disse que não eras capaz…"
E ele ignorou a sua consciência gritante, ignorou a razão e as leis da lógica. Ignorou o facto de ela estar prestes a casar, ignorou saber que tudo entre eles mudaria, ignorou o facto de que eram uma Weasley e um Malfoy. E no fim de tudo, mesmo antes dos seus lábios tocarem os dela com suavidade, ignorou o facto de saber que, pela manhã, ambos se arrependeriam daquilo.
Não sabia distinguir os efeitos do álcool dos efeitos do beijo dele. Nunca poderia dizer com certeza que os arrepios no fundo das costas se deviam ao roçar suave dos lábios dele nos seus, nunca poderia jurar que o calor que sentia na face era provocado pelas mãos dele inquietas à volta da sua cintura, como nunca poderia assegurar que o seu coração acelerado galopava mais do que o normal por causa do perfume forte dele.
"-Vais arrepender-te tanto pela manhã…" – Murmurou-lhe com os lábios ainda colados aos dela.
Ginny suspirou deixando todo o peso do seu corpo cair sobre o candeeiro velho, que tanto quanto ela tinha percebido não estava ali antes. Mas ela estava bêbeda e sabia que a sua percepção já tivera melhores momentos.
"-Eu devia ir…" – Murmurou, mantendo as mãos em torno do pescoço dele.
Outra coisa que não tinha percebido - as suas mãos a esgueirarem-se e a enrolarem-se em torno do pescoço de Draco.
"-Então começa por te mover, se é isso que queres."
Aparentemente não era isso que queria, pois o seu corpo manteve-se imóvel, prensado entre o corpo de Draco e o candeeiro.
"-É a tua vez Ginevra… É a tua vez de seres capaz de me beijar de volta…"
"-Pensei que nunca tivesses querido beijar-me."
"-Eras ou não capaz de me beijar de volta?"
Draco percebeu que ela se debatia ao observa-la a morder nervosamente o lábio inferior. Ela reflectiu por uns segundos. Então decidiu-se e num impulso irreflectido beijou-o com luxúria.
"-Isto é errado, tão errado…"
As suas mãos deixaram de estarem imóveis para aprofundar o beijos, passando pela parte de trás do pescoço dele, pelas laterais da sua face e ocasionalmente escorregando pelo seu peito para o puxar pela camisa.
"-Mas não sou eu que te vou impedir…" – Murmurou-lhe de volta.
Também as mãos dele vagueavam livremente pelo corpo dela, abrindo indiscriminadamente os botões da camisa fina que ela usava.
"-Onde é que arranjaste esta?" – Perguntou entre beijos afoitos, passando o dedo sobre uma fina cicatriz no ventre dela.
"-Jogo de Quidditch aos dez anos. Os gémeos ficaram de castigo um mês por causa dela…" – Respondeu afogueada e com a respiração irregular.
"-Sei…" – Ele inclinou-se para retomar o beijo mas as mãos dela no seu peito travaram-lhe os movimentos.
"-Isto é loucura…eu…eu…é loucura!" – Murmurou mais para si do que para ele aparatando de seguida, ignorando o facto de que se podia desfazer em milhentos pedaços caso a aparatação corresse mal.
Draco deixou-se ficar imóvel por uns segundos, observando o espaço vazio entre ele e o candeeiro. Depois passou a mão pelo cabelo, suspirou e ajeitou a camisa, aparatando também ele, pronto a esquecer aquele pequeno desatino.
[. . .]
Olhou-se uma última vez ao espelho grande, ignorando propositadamente a pequena caixa branca que continha apenas um dos seus bombons favoritos. Estava pronta – o vestido longo estava colocado, os cabelos ruivos presos de forma cuidada estavam seguros com uma bonita tiara de brilhantes e tinha afastado por fim os nervos de última hora. Mais uns minutos e, perante toda a sua família e amigos, deixaria de ser uma Weasley para ser uma Potter.
"-Calma…" – Murmurou para si própria abrindo a porta do seu quarto.
Estava sozinha e apenas o seu pai a esperava no interior da casa, na cozinha. Tinha mandado todos embora, principalmente Hermione e Luna que de tão excitavas só a faziam ficar mais nervosa. Assim, passara os últimos cinco minutos sozinha e era assim que esperava continuar até descer para se encontrar com o seu pai. Porém as suas expectativas foram desfeitas ao perceber Draco parado a meio das escadas, aparentemente à sua espera.
"-Devias estar lá em baixo com todos os outros convidados."
"-Precisava de te dizer algo."
"-Não há nada para dizer." – Respondeu friamente.
Não se falavam havia duas semanas, depois do pequeno momento de loucura em Hogsmead.
"-Há sim Ginevra."
"-Tens razão. Obrigada pelo bombom, foi muito simpático da tua parte."
Fez menção de continuar a descer as escadas mas Draco barrou-lhe o caminho.
"-Não eras capaz de dizer que não em frente de toda aquela gente, pois não?" – O seu tom parecia-se muito mais com o de um pedido do que propriamente o de um desafio.
"-O que me pedes não é justo! Nem plausível é!"
"-Ouve Ginevra…"
"-Não! Não quero ouvir. Não tens o direito de me desafiar com algo assim! Não tens! É o meu dia! O dia do meu casamento! Não vou ceder a um capricho teu apenas para que te possas vingar do Harry."
"-Não é isso, é…"
"-Não quero saber. Tanto me faz que seja por vingança ou por satisfação pessoal. Não tens o direito de me desafiar assim! E se fosses meu amigo, se realmente gostasses de mim e te preocupasses comigo nunca me pedirias para ser infeliz." – Respondeu irritada continuando a descer as escadas.
Draco não a impediu, nem mesmo com palavras, quando a viu parar por um segundo ao fim das escadas antes de avançar para o seu futuro como mulher casada.
"-Tudo bem querida?"
"-Está tudo óptimo pai." – Respondeu envolvendo o braço dele com o seu.
"-Que discussão foi aquela com o Malfoy?"
"-Nada de especial."
"-Preparada?"
"-Sim."
Mesmo agarrada a seu pai, sentiu os seus passos a vacilar, como se o seu corpo, contrariando a sua mente, não quisesse avançar mais.
As faces sorridentes da família e dos amigos fizeram com que ela própria sorrisse, apagando da sua memória a discussão com Draco. Tudo o que passava na sua cabeça agora era as expressões felizes dos que mais amava e o olhar terno que Harry lhe dirigia.
"-Sê feliz querida…" – Murmurou-lhe o seu pai antes de lhe beijar a face e soltar o braço.
A cerimónia, administrada por um homem baixinho com a aparência de um urso bebé, começou calmamente. Eram proferidas palavras de alegria e esperança, votos de felicidade e partilha entre eles que produziam olhares expressivos e sorrisos de felicidade não só em Harry e Ginny como em todos os presentes. Todos excepto Draco.
"-E agora quero que me respondam, que me digam da forma mais verdadeira e profunda que querem realmente estar um com o outro. Harry James Potter, é com todo o seu espírito que está aqui, perante os que o conhecem bem, que o respeitam e amam, para tomar esta mulher como sua esposa, jurando cuidar dela, respeitá-la e amá-la acima de qualquer outra coisa na sua vida?"
"-Sim."
"-Ginevra Molly Weasley, é com todo o seu espírito que está aqui, perante os que o conhecem bem, que o respeitam e amam, para tomar este homem como seu marido, jurando cuidar dele, respeitá-lo e amá-lo acima de qualquer outra coisa na sua vida?"
E para espanto geral, inclusive para seu próprio espanto, ela vacilou. O sim que quisera gritar durante anos estava agora preso no fundo da sua garganta, lutando para se libertar e se fazer ouvir. Olhou em volta, caras a espelhar antecipação e expectativa, sorriso desfeitos e lágrimas de felicidade congeladas antes da queda. E no fundo do jardim, bem após as decorações principais estava Draco, do qual só teve um vislumbre antes dele aparatar.
"-Tu nunca me desafiaste…" – Murmurou num tom embargado depois do que pareceu uma eternidade – "Nunca me chamaste pelo primeiro nome…"
"-É disso que se trata? O primeiro nome? Porque eu posso chamar-te Ginevra se é isso que queres…"- Sussurrou, o desespero a escorregar-lhe para a voz.
"-Nunca vais perceber…" – Murmurou antes de aparatar.
Sabia exactamente onde o encontrar, sabia perfeitamente que estaria sentado no banco de pedra fria, junto à Cabana dos Gritos, pronto a receber a raiva e a frustração dela.
"-Olha o que me fizeste! – Gritou, descontando a sua raiva no peito dele, batendo-lhe com os punhos bem fechados. A sua face estava coberta de lágrimas que escorriam em lençol.
"-Hei! Hei! Ginevra! Olha para mim." – Pediu, pousando as suas mãos na face dela – "Não podia deixar que deitasses a tua vida fora…"
"-Harry era a minha vida!"
"-E é porque ele é a tua vida que estás aqui e não estás com ele?"
"-Por causa do desafio!" – Respondeu furiosa, debatendo-se para se afastar do toque dele.
"-Ambos sabemos que esses desafios não nos prendem agora como nos prendiam antes. Corre para ele se ainda quiseres… Não te estou a impedir." – As mãos dele estavam no ar, em sinal de rendição – "Vai ter com ele se é isso que te tornará feliz para o resto da tua vida."
"- Só porque tu não és capaz de te casar com alguém não significa que eu não me possa casar!" – Gritou, a raiva espelhada em cada palavra proferida.
"-Casa comigo!"
"-Estás louco?"
"-Porquê? Não eras capaz?"
"-Estás louco. É a única explicação para…"
"-Não desvies a conversa Ginevra. Eu fiz a pergunta e tu só tens de responder, é simples. Além do que estamos ambos vestidos a rigor. Não há nada que realmente impeça uma resposta positiva."
"-E que tal o facto de eu ter fugido do meu próprio casamento há menos de dez minutos?" – Perguntou irritada afastando-se dele.
"-É uma resposta simples Ginevra. Sim ou não?" – Gritou ao vê-la afastar-se.
[. . .] END OF PART FOUR [. . .]
N/A:
Encurtando a história…. a faculdade deu-me cabo do tempo livre e só quando recebi uma review ontem a pedir para actualizar é que me lembrei que estava em falta com os meus leitores.
Então, espero que tenham gostado e que não me queiram matar pela demora. O epílogo estará no ar na próxima semana.
Beijos grandes e mil obrigados às meninas que comentaram (-Lanaaa; Veronica D.M; Jamelia Millian; Katie Christensen; Helena Malfoy; Srtas. Weasel).
Kika Felton 87
10/12/2008
