Parte I

Quando Dohko voltou com a resposta para o mistério do alarme cor de rosa, viu que Aiolia piscava em preto. Suspirando, digitou uma mensagem para Milo e Shura no grupo do whatsapp que dividiam, Chioria 4ever, nomeado por Shura.

Mi, o Aiolia tá piscando preto. Shura, o Chiara tá piscando fúcsia. Achei que era cor-de-rosa, mas é fúcsia.
Tem que tomar cuidado aí.

Desligando o celular, Dohko encheu a xícara de café. Tinha passado a noite em claro e ao que parece não dormiria tão cedo. Ao menos não enquanto Aiolia e Chiara parassem de piscar alarmes.

Parte II

Quando saiu do quarto e foi para a cozinha, Aiolia viu uma cena que acontecia todas as manhãs e que agradecia aos céus por não acordar no susto à noite, por não ter paz enquanto de dia, por ir dormir com medo. Agora vivia no silêncio total e, se isso significava um pouco de paz, na verdade não se importava tanto. Desviou os olhos da cena, não queria ver o que seu pai vociferava e nem a cara de pudim malemolente de sua mãe. Pegando um pedaço de pão e uma maçã, saiu.

Milo roncava quando recebeu a notificação de Dohko. Abriu os olhos indisposto e soltou o cabelo anelado, preso em coque abacaxi, que desceu lindo, macio e definido. Se levantou da cama, colocou uma cueca, já que dormia nu, e só depois foi ver a mensagem. Imediatamente arrependido e desesperado, pensou em ligar para Aiolia, lembrando só depois que o filho da puta era surdo.

Falaí, cara. Quer sair para dar uma volta?

Não tinha melhor maneira de evitar um alarme preto que estar perto de Aiolia, mas não queria ir na casa dele pela manhã, seria até melhor tirar ele de lá. Aiolia dava alarmes pretos com uma freqüência absurda, mais até que almas conhecidas por serem praticantes de esportes radicais. Não recebendo uma mensagem de volta em cinco minutos, Milo ligou para Aiolos.

- Olos, seu irmão tá aí? Mandei mensagem, mas ele não respondeu.

- Ele acordou e saiu, eu topar com ele eu falo que você ligou

- Ah, ok. Valeu.

Milo ouvira vozes altas ao fundo e o barulho de algo quebrando. Sabia que esse era o motivo do alarme preto constante na vida de Aiolia e que Aiolos tinha o mesmo problema. Esperava que o de hoje tivesse um motivo parecido, mas não podia descuidar. Foi se descuidando que Aiolia quase morrera uma vez e acabou ficando surdo. Desesperado, vestiu uma roupa e pôs-se a procurar o protegido.

Alguns quilômetros a noroeste, Shura demorou horas até ver a mensagem de Dohko. Não lembrava o quê o alarme fúcsia significava e jurava ser "período fértil", mas sabia ser virtualmente impossível soar um alarme desses para Chiara agora. Conferindo no livro de regras, fúcsia significava "prestes a ter um arrependimento enorme na vida" e Shura arqueou a sobrancelha, em dúvida. Como cargas d'água evitaria aquilo? Decidido, atualizou a planilha e voltou a dormir. Não adiantava fazer muita coisa com Chiara dormindo.

Neste exato momento, Milo corria as ruas de Atenas procurando Aiolia, que se sentou em um banco em frente à praia, profundamente chateado com a vida, Mu trabalhava em pingentes em forma de peixinhos de ouro¹, Kanon dava aulas na universidade, Saga tentava ser útil para a sociedade fazendo um artigo científico sobre a influência da crise econômica grega na legislação atual, Aiolos dirigia até o cais para trabalhar e, mais importante, Shaka ia ao oftalmologista conseguir outra receita.

No oftalmologista, Shaka entrava na sala de espera com os olhos acirrados, tentando enxergar, quando deu de cara com o tal japonês de cicatriz que quebrara seus óculos. Ele era bastante alto e tinha acabado de levantar da cadeira da sala, olhando Shaka, mal humorado.

- Tch. Tá me perseguindo, taruira?

Os dentes de Shaka rangeram de raiva ao ouvir a voz do outro e só não voou nas fuças dele por que era uma pessoa muito educada e não dada a demonstrações gratuitas de violência.

- Com licença – disse contido, se sentando no primeiro lugar vago que viu. O japonês não teve muito tempo de reação e Shaka bem sabia que não ia parar por aí, mas ele foi interrompido a meio caminho pela voz da recepcionista o chamando, Ikki Amamiya, compareça à sala 12. Shaka bufou, irritado, pegando o celular,

O nome do tal japonês que pisou no meu óculos é Iki Amamia. Não sei se escreve assim. Mas é esse o nome.

sendo tal mensagem direcionada ao grupo do whatsapp que dividia com os amigos. Horas depois Shaka se arrependeria de espalhar a informação, levando em conta que recebeu intermináveis mensagens de como ele era um ótimo stalker e estava escondendo ouro, que ele precisava receber permissão dos amigos antes de fazer investidas românticas e de que ele precisava conferir se o japonês fazia jus à lenda de pênis pequenos.

De qualquer forma, enquanto em Roma todos dormiam por trabalhar até de manhã, as coisas em Atenas estavam meio animadas. Por mais que Milo se esforçasse e tenha mandado exatos 37 emails e mensagens para Aiolia e estivesse louco de desespero procurando o protegido, Aiolia havia deixado o celular em casa e foi encontrado, andando sem rumo pelo cais, por Aiolos, que chegava para trabalhar dando aulas de mergulho.

- Fazendo o quê aqui? Por que essa cara triste? – disse Aiolos, puxando Aiolia para se sentarem em um banco e pensando em como Atenas é pequeno por ter trombado com Aiolia do nada – Milo está te procurando, aliás.

- Nada, só não queria ficar em casa. – suspirou – Devia ter trago o celular, daí ao menos entrava no Sanctuary Online...

- ...E conversava com o tal cara? – Aiolos sorriu – Fala pra mim, ele existe, não é?

- Existe, mas só conheço ele pela internet, não tem nada de mais – girou os olhos e continuou – Milo que fica aumentando as coisas. Nem sei se o cara é um cara mesmo. Hoje mesmo ele me disse que é mulher, mas é homem.

- Tipo, trans?

- É, isso.

- Olha, não conheço o cara, mas, vai na minha, se ele pediu pra tratar como homem, trata como homem. É bem simples, na verdade – Aiolos se levantou, sorrindo – O Milo tem uma intuição boa, você sabe. Foi ele quem te disse que namorar aquele Baldr seria uma má idéia. O Shaka se gaba de vetar todos os seus namoros ruins, mas ele ficou com o cu aceso por causa do Baldr, que fez o quê fez.

Para maior entendimento do acontecido, tanto Shaka quanto Aiolia ficaram a fim de Baldr, que deu em cima dos dois e, sem que nenhum dos dois amigos soubesse, manteve um relacionamento de cerca de dois meses com ambos. Milo foi terminantemente contra desde o momento em que bateu o olho em Baldr.

Aiolia não gostava de falar de Baldr e nem o considerava seu ex, então não delongou o assunto com Aiolos, mas decidiu dar crédito à intuição de Milo. E, falando nele, foi correndo para casa pegar o celular e gastar preciosos dez minutos lendo todos os emails e mensagens, se sentando na cama de camisa e cueca e respondendo em seguida.

Que foi? Saí sem celular, mas agora to em casa.

Milo estancou no meio da rua, controlando os impulsos de mandar mensagens xingando Aiolia. Ele estava bem, seu emprego estava bem e era isso que importava.

Vem aqui em casa, to com uma garrafa de ouzo esperando ser tomada

Aiolia ergueu a sobrancelha em dúvida se iria ou não. Tinha uma relação de animizade com Milo e o conhecia desde que se entendia por gente, mas nunca tinha ido na casa dele. Por outro lado, Milo se arrependeu de imediato de ter chamado Aiolia. Milo, assim como Shura, morava sozinho, em um apartamento pequeno cheio de runas de proteção contra demônios e essas coisas que mais pareciam ter saído de Constantine e, em regra, não podia deixar entrar em sua casa nenhum humano que não fosse seu protegido e mesmo assim apenas em hipóteses de perigo de vida.

Milo deu de ombros. Não era como se um alarme preto significasse outra coisa muito diferente.

(só para ressaltar, alguns anjos da guarda reencarnam na Terra sem pais, vêm como bebês humanos e são criados por outros anjos até os quinze, que é quando são deixados sozinhos a, literalmente, Deus dará)

Como, evidentemente, Aiolia não sabia onde Milo morava, Milo foi de moto buscar o protegido, buzinando na entrada da casa para depois se estapear mentalmente e mandar uma mensagem.

Chega aí.

Foi nessa hora aproximadamente que Chiara acordava, tomaria banho e se distraía tomando um capuccino sobre ir ou não visitar o pai. Foi também nessa hora que Máscara da Morte recebeu na sua porta uma das pessoas que não gostaria muito de ver.

Shina era sua prima e, coincidentemente ou não, morou em Atenas nos últimos cinco anos. Foram criados juntos e, apesar de serem inseparáveis até Chiara ser expulso de casa aos 15, não se viam há cerca de três anos, que foi a última vez que Shina havia visitado a família. Nessa ocasião Shina e Máscara tiveram uma discussão colossal sobre responsabilidade, o que era uma discussão hipócrita de ambos os lados e, depois que Shina vociferou um "nem pinto você tem e fica pagando de homem", palavras arrependidas assim que soltas, nunca mais se falaram ou se viram.

Esse dia foi a primeira vez que Chiara foi preso (e na cela feminina), por "tentativa de assassinado". Shina foi parar no hospital, com a mandíbula deslocada e três costelas quebradas.

Então Máscara da Morte, ao abrir a porta, franziu o cenho, irritado. Shina o olhou entre irritada e com vergonha. Pedir arrego requeria muita engolição de sapo.

Verdade seja dita, Shina só não foi parar no hospital novamente por que estava obviamente grávida. Uma barriga redonda enorme, rosto e pés inchados e seios fartos. Ao ver o estado avançado de prenhez da prima, Máscara conteve toda sua raiva e de imediato já sabia o motivo da visita dela.

- Antes de mais nada, me desculpa, cara.

Erguendo a sobrancelha em dúvida e rindo, Máscara da Morte sorveu mais do capuccino e respondeu cínico – Prossiga.

- Eu não devia ter dito aquilo pra você.

- É, eu sei, você sabe, mas você disse. – terminou de tomar o capuccino e se sentou na mesa, puxando uma cadeira para que Shina fizesse o mesmo – Mas não é por isso que você está aqui.

- É, não é – Shina se acomodou na cadeira e começou a falar – Eu tô morando com uma ex atual namorada, a Marin.

- Como assim? Achei que vocês tinham terminado quando você teve que ir para Atenas.

-Pois é, mas agora que voltei pra Roma nós voltamos – Shina suspirou fundo antes de continuar – Eu fugi de Atenas por que descobri que estava grávida – ao ver que Máscara da Morte anuía em silêncio com os braços cruzados, continuou – Papa nunca vai perdoar uma filha dele engravidar sem casar.

- Casasse com o cara, caralho.

- Eu não amo o Aiolia! Ele só é gostoso pra cacete e não me incomoda, não pega no pé e não me liga! Não quero ter que me casar com ele por causa de bebê, ele nem sabe que engravidei! Eu e Marin decidimos criar o bebê juntas.

- Sei. – Chiara estava absorto com a quantidade de gregos chamados Aiolia que surgiam no momento sendo que ontem nem sabia que o nome existia – E aí?

- O Aiolia não sabe que eu estou grávida, eu o larguei sem contar.

- Uhum.

- Eu queria que você fingisse ser o pai do bebê. Sabe, para ele não achar que o bebê é dele.

Chiara arqueou uma sobrancelha e riu. Era o pedido mais estapafúrdio que já tinha ouvido – Mas eu nem tenho pinto! – riu – Quer tanto se livrar dele assim?

- Justamente! É biologicamente improvável você me engravidar, então se der merda tem como o Aiolia acreditar e eu provar que não o traí e que você não é o pai!

- Você só queria me ver e fica arranjando desculpa, fala a verdade.

Shina corou e desviou o olhar. Certo, estava ensaiando pedir desculpas e ir visitar Chiara já tinha meses... Mas era um bom plano, não era?

- Vai me ajudar ou não?

- Pode ser – deu de ombros. A única coisa que o prendia na idéia era pagar de homem cis. Ia adorar ver as pessoas acreditando nisso – Vou ter que viajar para Atenas?

- Vai.

Em casa, Shura via que o alarme de Chiara gritava fúcsia. À noite daria um jeito de tentar fazê-lo se abrir e tentar reverter a situação, mas por enquanto não podia fazer nada que fosse efetivo. Pelo monitor, ficou sabendo que um dos planos diretores para fazer Aiolia e Chiara se conhecerem, o plano a, estava dando prosseguimento, isto é, através da Shina, mas não sabia em quê níveis isso acontecia. Mas o plano b, o Sanctuary Online, também estava dando um retorno bom e Shura coçou a cabeça se perguntando se daria merda caso os dois planos se encontrassem.

No apartamento de Milo, Aiolia olhava curioso aquele amontoado de bagunça sem sentido e riu de si mesmo por ter passado anos a fio acreditando que Milo seria tão caxias e organizado com a casa como era com o restante da vida. Tirando um amontoado de roupas de cima do sofá, se sentou e ficou observando Milo desenterrar dois copos e uma garrafa de ouzo da pilha de coisas que indicava a cozinha. Milo olhou para si, o servindo, e foi quando começou um dos maiores porres que tomaria na vida.


¹ Andei lendo muito Cem Anos de Solidão