Lembranças de uma Escuridão Eterna
3ª Lembraça
Treinamento
-Vamos lá suas fadinhas!- gritou Vincent- Só mais duas voltas e vocês podem tomar café da manhã!
Todos os dias eram assim, éramos acordados duas horas mais cedo que os veteranos e ficávamos sob o julgo do Coronel Vincent, o Lobo, como era chamado. Tinhamos que correr ao redor do Lago Negro. Não só a praia, que por si só já era enorme, havia um trecho que deveriamos atravessar nadando, mesmo no verão era congelante, imagine no outono. Podia sentir meus ossos rancherem de frio.
Lembro-me da primeira vez que fizemos aquele percurso, Draco nos orientava, e ele estava junto com Vincent e Erik. Draco ficou parado na borda que era para chegarmos a água, deveria ter uns 3 metros de altura, e disse para os novatos.
- Teremos de nadar 3km. Esse tipo de treinamento serve para aumentar a resistencia de vocês, tanto para folego quanto para frio. Não fiquem muito para trás...
-Se sentirem algo pegando no pé de vocês, não se preocupem são só as Serias. Elas são lindas e adoram carne humana, lembrem-se disso para lutarem pelas suas vidas –acrecentou Vincent. Draco o reprovou com o olhar.
-Quando sentirem que seus braços e pernas estão dormentes, que em seus pulmões estão pequenos, e que o coração está contraído, vocês estão na metade do caminho.- completou Erik que também recebeu um orlhar reprovador.
-Não os assustem, não é tão ruim quanto parece. –disse Draco.
-Para você! –os dois disseram ao mesmo tempo, depois se encaranram e bufaram.
Sem dizer mais nada Draco pulou. Tomou impulso e mergulhou na agua gelada. Alguns segundos depois só pude ouvir as braçadas. Erik e Vincent pularam logo atrás, ao chegarem na água ouvi Vincent gritando:
-Estão esperando o que para entrar, um Crucius?
E como um bando de pinguins todos nós entramos na água. Preciso informar que estamos todos apenas de calção e camisa? Pois bem, agora imaginem que estão entrando na piscina mais gelada do mundo. Multiplique isso por cem. A água estava congelante, na mesma hora que entrei senti meus musculos se contrairem, tentando esquentar meu corpo. Não demorou muito para começar a tremer. Mesmo tendo dificuladade para respirar, comecei a nadar, parecia a coisa mais dificil do mundo. Eu senti meu peito ficar menor, como se não conseguisse respirar direito. E Erik estava certo, pareceu levar uma eternidade para chegarmos no meio do caminho.
Não sentia meus cotovelos e joelhos, a temperatura da água era tão baixa que meu corpo estava fazendo esforço para me manter aquecido. Ouvimos, então, um grito e o som de alguém se afogando. Era Silverwater, ele se debatia feito louco, como se algo tivesse se agarrado ao seu pé. Quase ninguém parou para ver a cena, pareceram não notar ou consentrandos demais para notar. Não os culpo é realmente dificil nadar na agua gelada e respirar ao mesmo tempo.
Apenas uma pessoa parou para ajudar o menino. O General passou por mim tão rápido que fiquei imprecionado dele nadar tão rápido naquela água gelada, puxou o pé de Silverwater, que foi jogado para trás, como se estivesse plantando bananeira, e preso no calcanhar direito dele havia um animal parecido com um polvo, era um grindylow, com os tentáculos enlaçados fortemente no calcanhar dele. O grindylow sibilou quando Draco o arrancou com a outra mão, não sabia que força ele tinha aplicado, porque o animal foi retirado facilmente, e arremechado a uns três metros de distancia.
O calcanhar de Silverwater ficou com as marcas das ventosas do animal no calcanhar, como se tivessem sido queimadas lá. Pareceu doloroso, pois ele contraiu a face quando seu pé fora mergulhado de volta na água.
-Não fique muito longe do grupo. Consegue nadar?
-Acho que, sim. Obrigado General.
-Potter, ajude-o. –Draco ignorou a responta de Silverwater. Nadei para perto dos dois, e quando cheguei, Draco disparou para tomar a dianteira do grupo outra vez.
O menino loiro que havia ficado para trás nadava com dificuldade, a cada braçada que dava parecia que ia afundar na agua escura. a distancia até a margem nunca parecia diminuir e o frio da água só intensificava tudo, quando finamente chegamos a margem de cascalhos quase fiquei feliz ao sentir os cascalhos afados espetarem meus pés. Ajudei Silverwater a andar até onde era seco. Olhei para ver onde Draco estava, e bem na hora que eu o vi, ele deu um soco na cabeça de Vincent, que se apoiava nos joelhos recuperando o folego.
-Já disse que não deve deixar os novatos para trás. -Vincent soltou uma exclamação e xingou Draco.
-Filho da puta!-disse masageando a area golpeada.
- Quando eu dou uma ordem e espero que ela seja comprida. -ele deu enfase no "espero".
Draco olhava sério para o moreno, que apenas se endireitou e ficou com a cabeça abaixada, Vincent era muito mais alto que Draco, mas era claro que tinha autoridade no local.
x.x.x
Depois do exaustivo treinamento daquele dia, achei que teria um momento para descansar. Já era noite, mas os mundos dentro e fora do castelo trabalhavam a todo vapor; via enfermeiras atravessando os corredores numa velocidade impressionante, homens com uniformes formais andando para todos os lados com papéis nas mãos, dois deles me pararam perguntado se tinha visto o General, mas respondi que não sabia onde ele estava.
Do lado de fora a floresta parecia da mesma forma que o interior do castelo, luzes passavam pelas copas das árvores fazendo parecer que a floresta era um imenso abajur. Via anões, duendes, fadas, animais como tigres, ursos e leões, unicórnios. O lago negro parecia o lugar mais calmo, mas haviam me contado que Draco havia realizado uma aliança com as Serias, e que era melhor ficar longe dali, mas era difícil ficar longe do lago, essa parecia ser a diversão do Coronel Owen, ver os recrutas nadando num lago praticamente congelado.
Fui caminhando para o meu quarto, na esperança de descansar, mas fui barrado na porta.
-Bambu, venha comigo. – quem esperava era o próprio Coronel Owen. Não pude questionar aquele apelido, apenas respondi:
-Sim, senhor. –não podia desobedecer a uma ordem, mas não posso negar que fiquei curioso, para onde ele poderia estar me levando? Depois de um tempo de caminhada, percebi que me levava para onde ficava o campo de Quadribol, que fora completamente desmontado e onde era agora um campo de treinamento. – Senhor, se me permite a pergunta, para onde está me levando?
- O general quer trocar algumas palavras com você, Bambu. - disse sem se virar, decidi ficar calado, e se segui o caminho que me indicava.
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Quando chegamos ao campo de treinamento, Erik estava nos esperando, apoiando o braço no espaldar de uma poltrona vermelha, esta se encontrava vazia. Erik me pegou olhando para o assento vazio e disse:
-Ele já vem.
Vincent me indicou para que ficasse a alguns metros de distância e foi se juntar a Erik, porém no lado oposto. Não demorou muito para o general chegasse, não o encarei, esperei que ele se sentasse para apenas fazer continência.
-Potter, você tem se esforçando, e quero que treine duro para não morrer em campo de batalha. Você ainda não sabe, mas é uma peça muito importante nesta guerra, por isso ficara onde meus olhos podem te ver. – ele não me encarava, parecia cansado, fitando algum lugar bem distante. - Porém, não posso ficar sempre no Quartel, tampouco posso deixá-lo aqui, por isso vou lhe conceder um treinamento especial.
- Que você vai desejar nunca ter nascido. –completou Vincent.
-Não seja não ruim. –disse Erik.
-Se ser ruim é um adjetivo por falar a verdade, então eu sou a pessoa mais maligna do mundo.
-Crianças... –suspirou Draco, ambos se calaram. – Enfim Potter, você ficará nas mãos de um dos meus tenentes, não se preocupe, pois ele é de confiança. –ele parecia muito cansado, parecia perdido em pensamentos, fiquei um tanto preocupado com o que se passava na mente dele.
-General? –não consegui me segurar. Ele olhou para mim, parecendo me dar permissão para falar. –Está tudo bem com o senhor?
Todos os três superiores pareceram surpresos com a minha pergunta. Draco me olhou nos olhos, vi que ele parecia preocupado com varias coisas, só não sabia que coisas eram.
-Estou...-seu olhar se perdeu novamente. – estou apenas cansado. Ficou um momento em silencio, depois voltou a falar, como se tivesse retomado um pensamento que estava pairando em sua mente. - Irei deixa-lo nas mãos de Dalton Scoffano. –ele gesticulou com a mão para algo atrás de mim, depois massageou as pálpebras.
Olhei para trás e vi um homem na minha estatura, Vincent era uma cabeça mais alto que Erik, e eu era uma cabeça mais alto que Vincent; com cabelos negros, salpicado com fios grisalhos, seus olhos eram azuis, com alguns riscos azuis-escuros e leve com um suave tom de pardo. Seu rosto era alongado com contornos suaves, seu nariz parecia que fora quebrado algumas vezes, mas tirava a serenidade de seu rosto. Seu queixo era forte, e sua barba por fazer o deixava com aparecia de mais velho, somado as rugas de expressão que possuía. Seu rosto, porém não era imaculado, do lado direito havia quatro marcas profundas e rosadas de garras, parecendo que foram feitas por um felino furioso. Em sua boca um cigarro pendia, e um halo de fumaça se formava atrás da cabeça dele. Agora, mais velho, me lembrando de Dalton, nunca o vi sem aquele halo de fumaça.
-Prazer. –disse ele, tirando o cigarro da boca, colocando-o entre os dedos. Sua voz parecia um trovão de tão forte, minha primeira reação foi ter medo. –Então, você é o famoso Harry Potter?- ele me estendeu a mão livre, eu a apertei, lembro que ela era fria, rígida, mas de algum jeito paternal.
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Todo o meu corpo doía, meus músculos pareciam totalmente rígidos. Meus pulmões não conseguiam inflar, meu cérebro parecia que ia explodir. Tinha a sensação que ia desmaiar a qualquer segundo.
-Vamos lá, Potter, você consegue! São só mais cem flexões, você aguenta!- gritava Dalton em meus ouvidos, sua voz parecia um sussurro por cima do zumbido que preenchia meu cérebro. –Você tem duas opções, ou você desafia o General para entrar no Exército da Fênix, ou você fica aqui e chama pela sua mãe!
Além do rigoroso treinamento que tinha com Vincent, ainda tinha o de Dalton que era ainda mais rigoroso, ele triplicava a carga de exercícios que Vincent dava, quando aquela tortura acabava eu só lembro que deitava com a cara no chão e respirava profundamente até conseguir ouvir meu coração. Minhas horas de sono foram reduzidas, e estava demorando a me acostumar a esse estilo de vida, mas sabia que dali para frente tudo iria ficar pior.
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Depois de algumas semanas com aquele treinamento todo, meu corpo ficou condicionado a aguentar tudo, desde temperaturas baixas ou altas, a corridas de horas. Meu corpo havia se modificado, também tive que aprender a me virar com o que tinha, como por exemplo, transformar uma escova de dente numa arma. Dalton havia me ensinado a analisar o inimigo, prever seus movimentos e havia me dito que já estava em condições de desafiar o General.
Teve um dia que reuniram todos os recrutas no campo de treinamento, o Draco havia voltado de uma missão, estava com um braço enfaixado, e com alguns curativos no rosto, e disse que estava na hora de dividir os novatos para terem uma função no Exercito.
Ele pegou uma prancheta, e começou a falar os nomes e os devidos esquadrões.
-Silverwater, esquadrão 4. –chamou mais alguns e finalmente disse o meu, o ultimo. –Potter, esquadrão 5. Algum pronunciamento? – perguntou como se houvesse um protesto. Com meu coração batendo nos meus ouvidos, dei um passo a frente.
-General, eu te desafio. –um silêncio tenso se instalou, eu fiquei ainda mais nervoso, mas mantive a postura de firme.
-Você pode até tentar. –disse ele com um sorriso nos lábios, não um sorriso cálido, um sorriso malicioso e maldoso.
A partir daquele momento soube que não havia mais volta.
o.o.o
Na noite antes da chagada dos novatos, Vincent chegou na minha sala com um pedaço de papel amassado nas mãos.
-Oh, Draco, olha só o que eu achei!- chegou gritando.
Ele se jogou na minha mesa, apenas tive tempo de puxar o papel que eu estava assinando para cima, antes dele se jogar e derrubar livros, outros papéis e o tinteiro no chão. Vincent colocou a foto amassada entre meus olhos. Irritado peguei a foto e a analisei. Era Vincent abraçado com uma jovem, ambos sorriam. Ela era bem mais baixa que ele, cabelos longos e loiros, rosto redondo, olhos grandes e azuis, lábios carnudos e vermelhos. Pareciam jovens apaixonados.
-Quem é?
-Celeste, minha futura esposa. -disse Vincent orgulhoso de si mesmo. Fiquei imaginando o que ele faria se ela entrasse no exército, mas esperei que isso fosse apenas imaginação minha.
