Part 3 – Morikuro's House

Mai ficou mais apática quando entraram em Morikuro. Tinha certeza de que ela estava em sincronia com o caso. Mais uma razão para tentar ser rápido. Será questão de tempo até que Mai amanhecesse com estigmas. Ou tivesse a sorte de ser apenas uma gripe. Mas se tratando de Mai, não podia contar com a sorte. Ela não sorria com frequência quando se tratava da menina.

Observou bem o caminho que seguiram. Logo na entrada da cidade havia um Torii negro com dizeres em kanji, teria de perguntar a Lin o que significavam.

A rua principal era o centro do comércio. Lojas esotéricas, têxteis e restaurantes se alinhavam por todo trajeto até chegarem á rua da praça e virarem a esquina, continuando ao redor do pequeno templo no centro da cidade. As outras ruas se ligavam á principal, como um emaranhado de caminhos que se ligavam. Imaginava o desenho que formavam do alto.

As casas se misturavam em harmonia do velho com o novo. As tradicionais, algumas de madeira e papel – tombadas como patrimônio – se relacionavam com as contemporâneas, de alvenaria e estilo ocidental. Todas assombradas. Ou, pelo menos, o terreno que ocupam.

Imaginou se a casa das Gêmeas era tradicional ou do estilo ocidental. Torcia para ser como as boas e velhas casas britânicas. Pelo menos uma vez queria não tirar os sapatos para entrar.

Lin contornou a praça do templo e seguiu para a praia. Passando por um cemitério a beira mar. Permitiu-se registrar o suspiro admirado de Mai. Permitiu-se observa-la, por um átimo, se espremendo contra o vidro do carro para aproveitar, o máximo possível, a visão do mar.

A van seguiu pela estrada arborizada a beira da praia. Viraram numa entrada de terra e continuaram em linha reta, se afastando da orla.

- Ei, Lin, falta muito? - Takigawa perguntou ansioso. Queria conhecer as mais novas celebridades.

- Não. Já estamos na propriedade.

- É meio longe, não acham?

- Quem quer que fosse o construtor, gostava do isolamento.

Aquela informação penetrou a mente de Mai como uma pancada, se alojou em algum lugar de seu cérebro e se escondeu ali, para análise futura. Tentou prestar atenção na paisagem da propriedade. Havia tantas arvores!

Parou de admirar quando algo chamou sua atenção: uma figura pequena, com um vestidinho branco e uma máscara cobrindo o rosto. A criança não devia ter mais de doze anos. Para o frio de outubro ela estava muito pouco vestida.

Cogitou em pedir para Lin parar e leva-la para a casa. Mas segurou o ar nos pulmões quando ela reapareceu alguns metros a frente. Ela trocou a mão que segurava a mascara e acenou. Por alguma razão estava impelida a retribuir o gesto. Levantou o braço e acenou.

- Mai? - Hoshou a chamou afagando-lhe os cabelos. - pra quem está acenando?

- Para... aquela criança... - sua voz saiu estranha.

Viu Bou-san olhar apreensivo para Lin e Naru na frente. E Kazuya, com uma expressão de cientista workaholic – que por acaso era isso mesmo que era – olhara para trás com aquela informação. Sentiu-se desconfortável com aqueles olhares. Até Lin a observava pelo retrovisor.

- O que foi?

- Não há crianças por aqui. - Lin informou. - a casa mais próxima fica na cidade.

A expressão da menina, já não bastasse o susto inicial pela pequena repulsão que a deixou mais pálida, se tornou ainda mais apavorada com o entendimento. Espremeu-se no vidro novamente procurando. Mesmo não querendo.

Noll tinha a perigosa sensação de certeza. Aquela aparição era o sinal de que Mai seria a próxima. Agora faltava saber: próxima para quê?

A van parou em frente do grande sobrado. Naru e os outros saíram do veículo enquanto Lin o guardava na garagem para oito carros.

Mai observou vários kanjis nas portas e janelas. Girou o corpo e viu grande ofudas nas árvores. Imaginou se eram feitiços de kekkai ou afastamento.

- Bou-san. - saiu de seus pensamentos quando Naru o chamou. - veja com Lin esses ofudas. Identifique falhas e as preencha.

- Não podemos chegar primeiro? - Hoshou se encolheu ao receber o olhar do chefe.

- Mal chagamos e já houve aparições. E, creio, que á noite a repulsão será mais intensa. Não concorda?

- Hmm... - engoliu a seco. - Já estou indo.

- Eu levo suas malas. - Mai se ofereceu.

- Não, não. Não se preocupe. - viu-o entrar levando todas as malas.

- Mai. - Noll a chamou e sentiu o coração pulsar.

- Hai?

- Antes de entrarmos, queria que me prometesse uma coisa. - Naru estava olhando-a fixamente.

Viu se estampar no rosto da assistente uma expressão de surpresa crônica. Por um instante, se sentiu ofendido. Ela o conhecia a tempo suficiente para saber que ele podia – e sim, ele podia e pode – pedir alguma coisa a alguém sem mandar.

Mai realmente não acreditava no que seus ouvidos tinham captado. Ele quer que ela faça uma promessa? O doutor Oliver Davis quer uma promessa? O céu está caindo.

- E então? - uma sobrancelha se ergueu elegante e impaciente.

- Hai! - sua voz ergueu-se alguns oitavos e pareceu esganiçada. Pigarreou tentando ameniza-la.

- Eu agradeceria se falasse mais baixo e deixasse isso em segredo.

- Desculpa... - disse após um rápido olhar raivoso. - o que quer que eu... faça?

- Quero que me prometa que irá contar qualquer coisa que acontecer. Independente do que seja. Prometa que não fará relevações e me dirá tudo.

- Naru... - sussurrou. Estava se fala. Nunca pensou que ele se preocupasse tanto assim com ela.

Estava emocionada. Não se sentia assim desde o dia em que Bou-san pediu sua guarda. Sempre estivera acostumada a solidão e saber que tinha alguém que se preocupava com ela lhe provocava emoção.

Mai viu no rosto do chefe a mesma expressão de quando ele propôs de serem as iscas no caso anterior. Tinha que admitir que desde aquele episódio, a relação entre eles mudou perceptivelmente para ambos, mas fora uma mudança bem sutil para os outros. Tinha certeza de que não perceberam. Ainda não se perdoara por ter perdido aquela chance.

- Mai. - a impaciência transbordou da voz dele. Mai sabia que devia uma resposta, e rápido.

Ela estava demorando a falar. Estava ansioso pela resposta dela. Não seria apenas coisas relacionadas ao caso que ela lhe contaria, mas também o que aconteceria a ela. Precisaria estar a par do que ela sentia. Até por que seria útil no caso, se realmente ela seja afetada também.

Mai abriu a boca para falar, mas em má hora. Levantou a mão, sinalizando para esperar. Bou-san e Lin saíram apressados da casa, e depois de lhe dizerem algo que não registrou, desapareceram nas arvores dos fundos.

- Então? - perguntou se aproximando.

- Prometo. - disse sentindo o coração pulsar.

- Ótimo. Comece. - ele cruzou os braços no peito e sua melhor expressão de superioridade brotou em seu rosto.

Aquilo foi um banho de agua fria. Sentiu o sentimento morno que a preencheu se dissipar com aquela visão. Com a certeza de que fora enganada. Viu a raiva lhe consumir. Por que ele tinha que fazer aquilo? Virou o rosto de pirraça. Não iria fazer sua vontade.

- Devo presumir que você vai quebrar a promessa?

- O que é que você quer saber, Naru? - perguntou irritada.

- Tudo. - era o que ele queria dizer, mas não foi isso o que saiu. - a criança. O que ela fez?

- Ah... - por alguma razão esperava outra resposta. - ela estava segurando uma mascara. Sabe aquelas que só cobrem a frente do rosto? Pois bem, ela só trocou a mão e acenou.

- O que mais?

- O que mais haveria?

- Como ela era?

- Doze anos, um e pouco, pálida, pescoço queimado, gaijin...

- Estrangeira? - Naru pareceu espantado com a revelação.

- É. Ruivinha. Com o cabelo meio alaranjado. - viu-o segurar o queixo em seu jeito pensativo. Perguntou-se se devia perguntar se corria algum perigo. - Naru...

- Vamos entrar. - foi tudo o que ele disse antes de se virar para porta.

Mai estava com um péssimo pressentimento. Por alguma razão sabia que Naru esconderia dela as informações mais preocupantes do caso. Sentia que a partir dali estaria excluída. Não queria isso. Queria ajudar de alguma maneira e para isso precisava estar a par de tudo.

- Naru... - chamou-o. Viu-o se virar com a mão na maçaneta. - quero...

- O que? - desceu os degraus e parou a frente dela.

- Quero... que... - hesitou. Como pedir isso a ele?

- Mai. - o tom impaciente de Naru terminou com a hesitação. Resolveu ser direta.

- Naru, não quero que me deixe de fora desse caso. - corou levemente ao dizer as palavras.

- O que a faz pensar...

- Você me fez prometer que te contaria tudo. - engoliu a seco ao admitir. - agora, eu te peço: não me prive de nada. Não esconda nada, mesmo que... que...

Mai se sentia uma idiota falando aquilo pra ele. Não acreditava que estava ali, na frente dele, numa atmosfera romântica – seria romântica se não houvesse a possibilidade de aparecer um fantasma e acabar com o clima. - num fim de tarde e com Naru a um passo de distância.

Baixou o olhar para os sapatos, esperando a reação do chefe. Foi algo bom ter desviado o olhar. Mai teria ficado constrangida ao ver a surpresa que, por um segundo, se apoderou do rosto de Naru.

- Mai... - Naru a chamou, resistindo a vontade de levantar-lhe o rosto.

- Onee-san. - ouviram um sussurro. - onii-san.

Naru virou-se e se colocou entre Mai e a sombra atrás da árvore. Não deviam ter ficado todo aquele tempo jogando conversa fora e desprotegidos. Deviam ter entrado logo que desceram do carro.

- Dare? - perguntou se pondo em guarda.

- Abunai... - a sombra se mostrou na pouca luz que tinha.

A pele estava desfigurada. Queimaduras horríveis se destacavam na pele pálida. O pijama que usava não era suficiente para protegê-la do frio. Arranhões avermelhados e hematomas azulados marcavam seu rosto. E era o mesmo rosto da Yoru. Eram idênticas, mas ao contrário da morena, essa era loura.

- Aiko. - Naru chamou depois de um momento de perplexidade.

- Devo chamar a Nakamura-san? - Mai perguntou assustada.

- Já deveria ter ido. - respondeu sem tirar os olhos da moça.

Mai se afastou e entrou na casa. Esperava encontrar Nakamura-san o mais rápido possível. Não imaginava o que aconteceria se demorasse.

Noll se plantou no lugar até os outros chegarem. Fez questão de não piscar, sabia que ao mínimo sinal de distração ela poderia sumir. E a última coisa que queria era Satiko lhe acusando de negligência.

- Quem é você? - perguntou.

- Minha onee-san chegou? - Aiko perguntou num jeito infantil. - me fala. Ela chegou?

- Não, e não vai. Você já deveria ter partido.

- Onii-san não sabe com o que está se metendo! - ela riu. - logo vai saber.

- É você a culpada? - continuou ignorando o deboche.

- A onee-san é quem pode te contar, onii-san. eu...

- AIKO! - todos na casa saíram afobados. Satiko e outra das irmãs se adiantaram e se colocaram ao lado de Kazuya.

- Vocês não são a onee-san... - Aiko choramingou depois de desmanchar o largo sorriso que abrira ao ver as gêmeas. - estou sozinha...

- Mariko-chan, ela não pode te ajudar! Solta ela, se não você pode machucá-la! - a outra gêmea implorou.

- Mas onee-san! Não vou machucar a onee-san, onee-san. - ela se abraçou. - não sou a dona Dechi.

E antes que pudessem fazer algo, um vento sobrenatural soprou, jogando poeira nos olhos de todos. Ao tornar a abrir os olhos, Aiko havia sumido.

- Reiko... - Satiko começou, alterada.

- Calma, Sati! - Reiko se afastou da irmã, gesticulando para os outros fazerem o mesmo.

- Reiko... - o ar em volta da PK se densificou.

- Satiko! Se acalma!

- Não adianta o quanto vocês tentarem me impedir! Vou praticar o Jorei! - as arvores começaram a se curvar. Masako ofegou. Ela, mais do que todos, abominava aquela prática.

- Então deixe para matar as almas! Não a gente! - Reiko impôs em tom definitivo e o Qigong sumiu tão de repente quanto surgiu. - vamos resolver o caso, salvar Aiko e, então, você pode praticar o Jorei, Jourei ou o raio que o parta! Mas tente não nos matar até lá. Entendeu?

- Eu... eu preciso de doce... - passou por todos e entrou.

- É difícil, Doutor Davis... - Reiko começou. - muito difícil...

- Vocês não podem fazer o Jorei! - Masako se fez ouvir em meio ao silêncio.

- Fique tranquila, Hara-san. Não vamos. Só disse aquilo para acalma-la. - ela sorriu cansada. - vou levá-los a seus quartos.

Reiko passou por todos e entrou na casa. O silêncio formado era funesto. E ficava mais pesado conforme emergiam nos próprios pensamentos ao passo do creúsculo.

- Vamos entrar e nos preparar. - Naru ordenou. - Hara-san, a kekkai está em pé?

- Qual delas? - a médium perguntou.

Mai e Naru se viraram pra ela surpresos. Tinham ouvido direito?

- Há mais de uma? - Mai perguntou antecipando Naru.

- São sete. Uma cúpula dentro da outra.

- Identificou-as? - Naru se adiantou.

- Duas são dos espíritos.

Noll ouviu aquilo em silêncio. Virou-se apressado e entrou na casa. Tinha que começar a trabalhar rápido. Tinha milhares de coisas para fazer em curto prazo. No dia seguinte, daria inicio aos depoimentos externos. Naquela noite pegaria o relato de todos envolvidos anteriormente com os exorcismos. Começando pelas Gêmeas.

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Gente, brigadão pelos comentários.
É gratificante saber que minhas alucinações estão agradando. Minha mãe acha que eu viajei legal nessa história (é ela tbm é fã). Valeu por lerem.

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Vocabulario

Torii: é um portão tradicional japonês, ligado à tradição xintoísta e assinala a entrada ou proximidade de um santuário. Aqui na fic é a entrada da cidade.

Kekkai: Barreira

Ofuda: talismã escrito em papel que carrega um feitiço.

Hai: sim.

Gaijin: estrangeiro

"Dare?": algo como "Quem é?"

Abunai: cuidado.

Onii-san: Irmão(mais velho), mano

Jorei: seria como "matar" um fantasma

Jourei: "falar" com o fantasma