Nota da autora: Há muitos meses não escrevo, apesar de sempre desejar e ideias surgiram e partiram sem eu nada fazer para retê-las em minha mente.

Agora, com a brisa suave das férias e a leitura intensiva da emocionante história O Destino de Muitos da Mestra Sadie, o desejo e a criatividade voltou a palpitar na minha mente e no meu coração. O resultado segue em dois novos capítulos, sendo este nessa adorável (ao menos para mim) história noir tendo como inspiração, o fantástico universo de Tolkien.

Um pequeno flashback: a história tem como cenário a década de trinta do século passado, e uma trama inocente: a investigação de David Ithilien sobre o desaparecimento de Viggo Elessar. Vários personagens ao quais adoro já apareceram na trama Miranda Edoras como a secretária e noiva do detetive, Liv Elessar , esposa e responsável pela contratação do detetive.

Sean Ithilien, irmão do detetive, surge como um escritor em potencial que sempre se mete em confusões e busca o tempo todo aborrecer a futura cunhada de pavio curto.

O segundo capítulo trouxe como cenário o Cerin Amroth, um clube elegante e ilegal que pertence ao irmão de Miranda, no clube conhecemos, a esposa de Dernhelm, Alana Lothíriel e sua doce melodia, os irmãos de Liv Elessar, chamados de Thomas e Anderson Rivendel também surgem para apimentar a trama e confundir um pouco mais os leitores desta fic.

Muitos personagens ainda surgirão, mas nenhum capítulo, ao menos para mim, será tão apaixonante quanto esse, pois os meus personagens mais queridos e ao quais espero tratar com extrema dedicação irão surgir.

Ao Grupo Tolkien, que já me conhece há muitos anos, sabe da minha louca paixão pelo filho caçula de Denethor, em geral, minhas fics são sobre e para ele, mas essa é uma deliciosa brincadeira com todo o universo de Tolkien.

Cada cena foi pensada em preto e branco, cada detalhe estudado dos filmes noir, e adicione uma pitada de senso de humor.

Agradecimentos aos que lerem este capítulo há tanto tempo abandonado, meu carinho todo especial para aqueles que usarem um pouco do seu precioso tempo para enviar uma review.

Dani de Rohan

Os Anjos de Cara Suja

Eles estavam correndo, correndo desesperadamente pelas avenidas, quando Elijah encontrou a segunda esquina, ele sentiu uma dor profunda nas costas, ele havia sido pego.

- Hora, hora, seu delinquente, ladrão. – o oficial vociferava a ponto de salivar. – Você vai aprender um pouco de tortura para não roubar nunca mais!

- Isso é o que você pensa! – disse uma voz zangada atrás do oficial, antes de dar seu melhor golpe e derruba-lo.

O outro rapaz era jovem como Elijah e tinha um rosto inteligente e observador,

- Dominic, não acredito que você acertou o policial! Pensei que você só tivesse conversa.

O rapaz deu com os ombros.

- Sabe muito bem, o que penso, respeito a polícia quando ela cumpre seu papel, e não quando persegue pobres coitados como nós.

- Vamos continuar correndo até despista-los.

Eles continuarem correndo, percorrendo as ruas das mais belas até o local onde moravam: um bairro feio e sujo, a maioria das casas havia sido destruída, ou abrigava bêbados e mulheres histéricas, outros eram seres patéticos, ou ainda nobres e embrutecidos com a vida que levavam, uma batalha a cada dia para sobreviver. Esse era o universo deles.

Ao ver a casa minúscula e com a pintura desgastada, Elijah e Dominic olharam ao redor buscando a certeza que não haviam sido seguidos. E entraram.

O aspecto interior da casa era surpreendente, não havia nada de valor ,lógico, apenas duas beliches reformadas, um guarda roupa velho e recém pintado com o dinheiro de alguma carteira que Billy havia batido. Um fogão com apenas duas bocas e uma pia roubada. Mas era extremamente limpa, e o cheiro da comida caprichosa de Sam. Além de seu mais novo projeto, uma planta que ele tentava a todo custo salvar.

- Graças a Deus, é a vez de Sam cozinhar, eu pensei que o Billy fosse nos matar ontem com aquela lavagem - comentou Elijah, com o primeiro sorriso.

- Aconteceu alguma coisa? – Sam questionou ao reparar nas faces vermelhas dos amigos, mesmo sabendo da resposta. Os quatro eram órfãos e talvez por isso tornaram-se amigos. E infelizmente apesar de Dominic e Elijah serem muito inteligentes, suas roupas, o endereço nada nobre impedia o acesso a um bom emprego. Seus melhores amigos Dominic, Elijah e Billy buscavam trabalho todo dia, e único que conseguiram foi o de bater carteiras. Não era nada digno, mas pior era passar fome.

Dos quatro, Sam era o único que tinha emprego, mas seu salário não era o suficiente para si, e mesmo assim, eles dividiam para se manter, sem queixas.

Um dia... um dia... tudo mudaria.

O frio é ruim de qualquer jeito, mas quando se é pobre, ele é bem pior – ao menos era esse o pensamento de Billy. O dia fora fraco, cinco carteiras, ele era um ladrão e sabia disso, talvez isso fosse o que ele soubesse fazer de melhor, não era inteligente como Elijah ou Dominic, ou com talento especial para plantas e cozinha como Sam, mas seus dedos eram habilidosos e sua leveza acentuada pela fome, transformava Billy em um excelente ladrão. Ele tinha uma regra: não roubava ninguém que fosse pobre como ele e seus amigos. Elijah dizia que era uma forma de resguardar alguma integridade, Sam não o julgava, mas era possível ver sua tristeza com sua profissão, apenas Dominic entendia-o totalmente. Eles eram amigos, mas Dominic era praticamente um irmão. E ele não roubava de pessoas como eles, amigos e irmãos.

Por isso, quando Billy encontrou aquele carro bonito, seu alarme de algo ilegal e desonesto soou ao máximo volume.

Ele encontrou uma oportunidade, Billy sabia que Sam discordaria afinal ele estava dentro do carro, esperando o momento certo, para "suavizar a riqueza" dos proprietários.

Billy era o caçula do grupo, ao dezesseis anos, era baixo para a idade e devido a pobreza todos eles eram muito magros, mãos pequenas e ágeis eram os atributos necessários para sua função. E saber ouvir, isso também era importante no ofício.

O jovem ouviu as vozes mais próximas e o que diziam.

- Vamos coloca-lo aqui dentro e despachá-lo naquele rio Baradûr, ninguém ligará o crime a nós. Demos a sorte grande, o chefe vai adorar saber que não precisa mais se preocupar com Viggo Elessar.

- Cale-se, idiota, quer anunciar para o mundo quem ele é? A última coisa que eu quero e ver a expressão de adoração que surge quando se fala no nome desse cara, para mim, ele só deu um jeito de fazer as coisas bem escondidas, apenas isso, ninguém é tão bom! Isso não existe! – com um safanão no parceiro, abriu a porta do carro.

A porta se abriu e Billy jogou o seu corpo franzino para trás, e sentiu o baque de um outro corpo sendo depositado. Ele se encolheu ao máximo, o outro corpo pertencia a um homem alto que para o alívio de Billy estava desacordado e não morto.

Ouviu os homens fecharem a porta com força e guiarem o carro.

- ah, merda, olha só, como vou sair daqui com esse outro infeliz aqui dentro? – perguntou o jovem. – não conseguia ver nada, estava muito escuro, mas de repente suas memórias trouxeram pequenas imagens, imagens que ele julgou esquecida.

Diferente dos amigos, ele conheceu os pais, apenas para vê-los perderem tudo e naufragarem no desespero. Eles tentaram manter a honestidade e morreram.

E se aquele homem fosse como seus pais, fosse alguém decente, mesmo assim, como ele poderia salvá-lo?

A resposta chegou junto com a pausa dos desconhecidos no rio Baradûr, Billy ouviu os homens se embebedarem. E muito. Ah! Como ele adorava quando seus inimigos bebiam pois isso tornava Billy mais alto e bem mais rápido e se ele fosse fazer isso, ele precisaria de muita bebida e muita sorte.

O cheiro estava forte, e atingia mesmo a porta fechada, mas Billy ouvi-os se aproximar e abrir a porta do carro.

- Você... hemm certesa... essa homem... ele vai trazer encrenca para gente...

- Billy viu-os debatendo sobre o que fazer com o pobre coitado.

Os dois retiraram o homem do carro com extrema lerdeza e jogando o corpo de qualquer jeito e foi nesse momento certo. Billy saltou da porta mala derrubando os homens ébrios, aproveitou sua juventude e sua mente clara para golpear o primeiro fazendo uso de um jogo de punhos que sempre ganhava de Elijah, o homem estava bêbado demais para reagir e acabou tombando.

O segundo deu mais trabalho, ele parecia temer mais o corpo do homem que jogara no chão e para descuido, Billy utilizou seu talento especial, seu soco inglês conquistando duramente com um roubo ousado, capaz de baquear o inimigo, e Billy foi impiedoso, era uma luta que cabia a ele, ou ele ajudava o dorminhoco, ou os dois morriam, e ele queria chegar a casa para comer a comida de Sam. Aquele jardineiro sabia cozinhar como poucos.

O homem finalmente caiu, Billy mandou um pequeno beijo para o céu, agradecendo sua boa sorte, sim, ele sabia que tinha sido sorte um desfecho tão positivo. Agora era só roubar em carro e se mandar...

- Liv... – o homem sequestrado balbuciou.

Billy lançou um olhar para ele, e soube o que devia fazer.

- Ah, droga, ele deve pesar uma tonelada! E ainda chama pelo nome de uma dona! Tanto açúcar deve fazê-lo mais pesado ainda. Mas eu vou carrega-lo e roubar dignamente esse carro. Por que? Porque eu sou uma besta quadrada, capaz de acreditar nas fábulas do bendito jardineiro!

Reclamando cada passo do caminho, o jovem Billy de dezesseis anos puxou o corpo do homem, e entrou no carro.

- Vamos a experiência, disse sorrindo, e olhou para o homem desacordado, vamos aprender a dirigir.

Aos trancos e barrancos, Billy e Elessar se afastaram de Baradûr e do destino que estava preparado para eles.

A sorte parecia estar do seu lado, talvez fosse o horário, mas nenhuma viatura estava ao redor, nem ao menos para uma simples multa, era como se houvesse um arranjo para não haver polícia naquela noite.

- Ah, droga! Quem será você? Sabe quantas viaturas eram para ter parado um pobretão como eu nesse carro? Eu não deveria ter conseguido dar uma marcha! E olha só, vamos jogar essa droga em algum lugar e levar você para casa, quer dizer para minha.

Com a benção das estrelas e com a ignorância completa da polícia, o larápio e leal Billy chegou até sua casa, carregando o homem!

- Dominic, acorda, Elijah, Sam, acordem! Olha só a novidade que eu trouxe.

O barulho e o pequeno especial despertaram os jovens.

- O que você roubou desse vez? – Sam bocejou e esperou a resposta, pois estava acostumado com os excessos de Billy.

-ah, meu Deus, ah, meu Deus – Dominic expressou. – O que você fez? Você sabe no que se envolveu? – Ele se aproximou do homem semi-consciente. E olhou para Billy e deu soco em seu ombro – Billy, sua besta, esse é Viggo Elessar.

- Eu não fiz nada, se querem saber, o tal seria despachado dessa para melhor no rio Baradûr. Eu sou um herói! – Billy narrou com um sorriso enquanto mexia nas panelas, um sempre cuidou do outro e ele sabia que Sam não havia esquecido de sua alimentação. Amigos, os melhores.

Um silêncio pairou entre eles, e Billy percebendo a situação decidiu contar os fatos desde sua intenção de roubar o carro, até os homens bêbados demais como se temessem algo.

- E o carro? – perguntou Elijah.

- Ah, está aqui na frente! – Os três arregalaram os olhos.

Foi Sam quem quebrou o silêncio.

- Billy, Dominic, vocês vêm comigo, vamos dar um fim nesse carro, Elijah fique aqui com o tal Elessar, vamos aquecê-lo, essa noite ainda não acabou e já que ele caiu em nossas mãos, nós sabemos o que é isso. Falta de sorte e longe da família.

Elijah sorriu e os quatro disseram juntos – mas nunca sem amigos!

Elijah sabia que seus amigos demorariam, qualquer um poderia dedurá-los ou encontra-los.

O homem, Viggo Elessar, como Dominic identificara estava com um pouco de febre, mas graças as ervas e a conversa incessante de Sam, ele sabia exatamente o que fazer, e viu animado horas depois a febre cessar e o homem dormir aliviado. E ele próprio repousou, a noite foi longa.

Viggo Elessar abriu os olhos tentando vencer a imensa dor que sentia na cabeça, sua última lembrança era sua conversa com Sean Ithilien, a conversa com o chefe da polícia e da sua espera pelo marchand ao qual nunca viu apesar da sua insistência em vê-lo.

Ele esperava ver muitas coisas boas ou ruins ao abrir olhos, menos a casa incrivelmente pobre no qual estava. E viu um rapaz muito jovem, talvez dezesseis anos, com segurando um pano e um prato com ervas medicinais.

Ao seu menor movimento, o rapaz despertou, e se por um momento ele pensou que aquela casa era um cativeiro ao ver os olhos do rapaz teve certeza que não havia a menor maldade na alma do garoto.

- Bom dia, meu nome é Elijah. – o rapaz disse com uma voz educada, porém decidida – espero que esteja bem, não sou bom ervas, mas Sam me ensinou o que fazer em caso de febre e você estava mal. Muito mal. – Elijah observou Elessar tentando compreender o que aconteceu.

- Quando acordar, eu vou explicar como chegou aqui, mas só tenho parte da história e você provavelmente pode nem acreditar.

Sentindo a cabeça pesada, Viggo ergueu-se vagarosamente, e percebeu o movimento do garoto em ajeitar o fiapo que ele chamava de travesseiro.

Os três amigos entraram e ao vê-lo acordado Billy logo disparou:

- Cara, você é grande, nossa casa já era ruim, ficou pior agora, olha só parece o King Kong aqui dentro! – e mandou seu melhor sorriso.

- Cale a boca, Billy , o homem nem acordou ainda, está atordoado. – Dominic cortou Billy.

Sam olhou para Elessar desconfiado, Dominic e Billy disseram que o moço era boa gente, mas os amigos confiavam muito, e talvez por isso ambos viviam em rolos com a polícia ou praticamente todo mundo.

Contudo todos precisam de uma refeição, e graças a boa criatividade ele podia preparar uma. E ouviu Billy e Dominic se revezando para contar a história de como Billy o encontrara e como os três livraram-se do carro. Elijah apenas olhava os amigos. Sam podia perceber que o amigo gostava de Elessar, a forma respeitosa que ele olhava ou se ofereceu para lavar o copo do convalescente, cedia espaço, como se o reconhecesse como um igual e um rei ao mesmo tempo.

- Então você acredita em nós? – perguntou Dominic, aguardando uma resposta.

Viggo Elessar ainda sentia os golpes que levara dos seus sequestradores e um gosto ruim na boca, e não era do café dos garotos, provavelmente era o café da pior qualidade que já havia bebido, mas nunca um foi tão bem feito. Ele foi drogado. Quando era a verdadeira questão, entre o encontro com Sean Ithilien e Christopher Curandír, chefe da polícia.

Os garotos deviam ter entre quatorze e dezesseis anos e todos eles eram incrivelmente magros, naquela casa minúscula cada um parecia ceder e organizar o espaço, um cuidava do outro, Sam ficava na retaguarda, Dominic e Billy eram abertos e inocentes, mas Viggo pode perceber o movimento bem trabalhado de pugilistas, ao que parece os três eram. E Elijah, o último garoto era um combinação interessante, olhos inteligentes e astutos e ao mesmo tempo, limpos e claros como a alma de uma criança.

- Agradeço a hospitalidade e o café, acho que é o melhor que já tomei – viu Samj corar com seu comentário - quero fazer uma pergunta antes. Estou em Vale de Osgiliath? – viu os garotos concordarem com a cabeça. – O ano passado o governo destinou uma quantia generosa após uma intensa campanha para empregar jovens e reformular as casas. Vocês ficaram fora da estimativa? – Viggo temeu que a pergunta ofendesse os garotos e a última coisa que espera era o som da gargalhada coletiva e contagiante dos garotos, era como se aquele riso apagasse a miséria. Elessar percebeu naquele instante que os meninos eram a família que sua mãe Gillian sentia falta em sua mansão. E como sua linda esposa os amaria.

Elijah respondeu com um sorriso nos olhos e nos lábios.

- Acho que pagou dinheiro demais em um jantar de caridade! Pois a grana foi para o bolso de algum político.

Os quatro riram novamente, imaginando aquele ricaço pagando a maior grana para ajudar alguém sem ter certeza do que era feito com seu dinheiro.

Billy, incapaz de conter a língua e dizendo o pensamento de todos.

- Dessa forma, algum dia você estará nos fazendo companhia nesse palácio.

O riso foi acompanhado por Elessar e uma promessa interna, nasceu: ele tinha que descobrir exatamente o que estava acontecendo. E iria. Talvez, seu fracassado sequestro tivesse alguma utilidade.

E cabia a ele descobrir. E assim como contava com os irmãos de Liv, ele teve certeza que podia contar com os garotos.

- Sim, eu acredito vocês. E quero ajuda. Como posso avisar a minha esposa e continuar desaparecido ao mesmo tempo. Vocês sabem como? – Viggo Elessar perguntou, e por um momento teve dúvidas, eles eram jovens demais.

Elijah olhou para os amigos: - Sei que posso responder por eles, estamos com você, afinal, agora irão procura-lo, e a melhor defesa é o ataque.

Sam concordou com a cabeça.

Billy e Dominic coçavam as mãos sentindo a adrenalina bombardear o sangue.

- Não é como se tivéssemos empregos ? E não queremos enganar. Somos ladrões, tudo bem por você?

Elessar olhou para os quatro. - Não, vocês são anjos!

E os cinco compartilharam a gargalhada. Era o começo de uma grande amizade. E muitas encrencas.

Próximo capítulo: A Morte em um Beijo

Notas Especiais

Anjos da Cara Suja – um filme de 1938, dirigido por Michael Curtiz ( o diretor do inesquecível Casablanca), conta a história de dois amigos pobres que crescem e seguem caminhos distantes, um se torna padre e outro um criminoso.

A trama do filme tornou-se a inspiração desse capítulo, a intervenção de Viggo Elessar, apesar dos garotos terem salvado sua pele, irá mudar esse destino.