- Vou comprar uma casa. - Sasuke anunciou para Menma enquanto degustavam cervejas na cozinha do Namikaze, mais tarde naquele dia. Sasuke já estava próximo de estar bêbado.
- O quê? O vadio de Konoha finalmente vai sossegar? Engravidou uma garota, não foi? Sempre soube que começaria sua família assim.
- Bom ver que seu humor melhorou, cara.
Menma não respondeu. Seu humor não estava melhor em nada. Ele só estava tão acostumado a fingir que não sentia nada, que as vezes não sabia como parar. Um meio sorriso surgiu em seu rosto.
- Hinata me disse a mesma coisa. - Sasuke disse. Viu o sorriso de Menma se desfazer.
- Hinata te disse que você começaria sua família engravidando uma garota? Parece o tipo de coisa que ela diria. - Menma deu de ombros. Sua ex sempre tivera seus problemas com Sasuke.
- Bem, não exatamente a mesma coisa. Ela me disse que eu deveria ter um lar, uma família.
Menma, com riso irônico e abafado, tomou mais um gole da sua cerveja. Tossiu quando se engasgou.
- Sinceramente, sempre pensei que você já devia ter alguns filhos espalhados pela vila.
- E eu pensei que você se reproduziria através de mitose, depois de comer ramen demais.
- Olha, você sabe o que é mitose, Sasuke. - Sasuke revirou os olhos.
- De qualquer forma, eu não quero uma esposa - ou um marido. - Sasuke disse, não dando tempo para as velhas piadas que Menma fazia para questionar sua sexualidade (Que ele, particularmente, achava inquestionável.). O meio-sorriso do Namikaze voltou.
- Por que? Estar casado é ótimo. - Sasuke jurou ter ouvido um pouco de ironia naquela frase.
- É tão bom que você está divorciado aos vinte e cinco.
- Isso... É uma situação completamente diferente.
- Por que?
- Não é da sua conta.
- Como o padrinho do seu filho morto, acho que mereço saber, depois desse dois anos e meio, o que aconteceu entre você e a Hina.
Sasuke sentiu antes de ver. Menma podia estar sustentando o sorriso, mas seu chakra deu um pulo com a menção de seu "filho morto".
- Não, teme. Você não tem direito de saber e pronto. Eu estava casado com ela, não você.
- Justo, justo. Mas... Tenho certeza que quem estragou tudo foi você.
- Nós dois estragamos. - Ele murmurou para sua cerveja.
Era uma conversa que Sasuke tentava sustentar pela enésima vez e, como sempre, se sentia mais perto da resposta. Se perguntou se a fusão de álcool, arrependimento e seu genjutsu mais forte faria o hokage abrir o livro dessa história. Ele ativou seu sharingan.
A porta se abriu e entrou Sakura com os meninos gêmeos dormindo pacificamente em suas cadeirinhas. Menma se levantou para ajudá-la, afastando imediatamente os pensamentos nefastos de Sasuke.
- Sasuke-kun.
Na maioria das vezes, Sasuke não gostava de como Sakura pronunciava seu nome. Era o tipo de sussurro desesperado em um misto de admiração e busca de atenção que não o deixava confortável, agora que ela era a mulher de Menma. Sua política de solteirão não o permitia "atacar" mulheres comprometidas. Pensou, inclusive, que Sakura tinha superado o passado. Pensou, também, que ela podia ter dito seu nome daquele modo por causa de sua presença inesperada. Ou, ela simplesmente estava cansada de cuidar dos dois mini-Menmas. Ele tentava evitá-la, não que ela fizesse o mesmo. Os olhares dela alternavam entre algo que ele identificaria como culpa e perdão. Perdão pelo quê ele não sabia. Ele levantou-se para sair.
- Já está indo embora? -Menma perguntou, enquanto Sakura continuava encarando-o com aquele olhar intenso e sua boca ligeiramente aberta. Era por isso que ele não os visitava muito. Sasuke se perguntou se Menma não percebia. Claro que percebia. Era Menma.
- Vou remarcar a reunião com Chouji para amanhã. - Ele disse, como sua despedida, e deixou a casa dos Namikaze, sentindo a estranha sensação de seu sangue esquentar.
O ar gelado da noite era nítido enquanto Sasuke caminhava em passos largos para seu apartamento naufragado. Por que ele estava caminhando tão rápido? O apartamento estava vazio. Tinha acabado de se despedir de seus amigos mais próximos. Bem, seu amigo Menma. Com a filha dos heróis da vila tinha... Uma convivência incômoda. E pensar que ele realmente chegou a pensar que eles haviam se tornado apenas amigos e deixado a coisa de "Sasuke-eu-te-amo" e "Sakura-entra-na-fila" pra trás. De qualquer forma, ninguém da sua horda de fãs estaria em sua casa, também.
Diminuiu a velocidade de seu andar e se perguntou o que Hinata estaria fazendo. O pensamento fez parar. Da onde viera aquilo? Por que raios importava o que ela estava fazendo? Sasuke, tome cuidado.
Ainda sim, ele andou vinte minutos fora de seu percurso, chegando no complexo Hyuuga.
Ele esperou alguns minutos, no portão do pátio do equilíbrio. Hinata estava treinando, mais uma vez. Ela já devia ter percebido a presença dele, mas não se interrompeu até acabar a sequência de golpes. Quando acabou, olhou diretamente pra ele. Só então, ele foi ao seu encontro.
- São oito horas e você caiu hoje. Não seria melhor estar descansando? Hina, suas costas...
- Estão um pouco doloridas, só isso. Não tenho tempo pra descansar, Uchiha.
Ela se enxugou com sua toalha, inutilmente. Aquele suor só iria embora com um bom banho. Sasuke se pegou olhando para o corpo dela. Velhos hábitos, velhos hábitos.
- Ahn... É... - Despertou-se quando viu os olhos perolados encarando-o. - Desculpe pela queda. Mesmo.
- Poderia ter sido pior.
O silêncio que se formou era constrangedor. Ela sentou em um dos bancos do pátio e ele segui-a. Ele observava com cuidado as ações da Hyuuga. O olhar impaciente para o céu, depois para a água do canal, depois para o centro do pátio e depois para as próprias mãos, feridas. Sasuke não sabia bem por onde começar. Hinata só queria saber que diabos ele estava fazendo ali. Algumas trocas de palavras nos últimos dias e ele já achava que eram amiguinhos.
- Você está bem? - Ele finalmente disse, internamente indignado por essa ter sido a melhor sentença que formulou em sua mente.
- Claro. Já sofri lesões bem piores que essa.
- Eu não estava me referindo a isso.
Ela olhou para ele com um olhar vazio. Ela fechou os olhos para retomar a sua postura habitual e abriu a boca para falar, mas foi interrompida.
- Seja honesta comigo, Hinata.
- É sobre isso, então? Você não se importou ano passado, Uchiha. - Ela olhou para a direção contrária a dele. Sasuke reconheceu aquilo como sendo a versão Hyuuga Hinata de linguagem corporal defensiva. Em um interrogatório com tortura, ela provavelmente daria trabalho ao torturador.
- Eu não vi o quanto você estava mal ano passado.
- Então não tem motivo pra ligar pra isso. Nem antes, nem agora. - Ela disse, olhando para o centro do pátio. Sasuke não sabia qual era o foco dela. Mas, sabia em que ponto chegar.
- Não adianta ficar trancada nessa casa entre papeladas e treino, chafurdando na dor. Vamos tomar umas cervejas comigo.
Hinata olhou para ele, desconfiada. Um convite para beber vindo de Uchiha Sasuke nunca era só um convite para beber. E, a intenção que ele queria passar, com certeza não era essa. Ele devia ter dito de outra maneira. Devia parar de beber com Menma, também, mas esse assunto era outro.
- Eu tenho que treinar. - Ela se levantou do banco.
- Treinar?
- É.
- A essa hora? Com dor? Mais treino?
- Sério, Uchiha, você não prestou muita atenção nas aulas da academia, não é? - Incrível que quando ela zombava dele, sua postura era maior, mais projetada.
- Você sabe que todo esse esforço não vai te deixar mais forte emocionalmente, Hinata. - Sasuke estava em um dos seus raros momentos de seriedade.
Hinata, por outro, foi atingida por aquele baque de palavras. E, como ele esperava dela, houve o troco na mesma moeda.
- Assim como sair com todas as mulheres de Konoha não vão fazer de você um homem menos solitário, Sasuke. - Ela olhou pra ele, raivosa pela leitura que ele fizera dela. Deixou até escapar o primeiro nome dele. Aquilo não passou despercebido.
- Pode ser verdade. Mas, você sabe que eu estou certo. Eu te conheço.
Ele viu os punhos dela se serrarem. Sua base estava posicionada como se fosse atacar a qualquer momento. Sasuke estava pronto para ser atacado.
- Me conhece?! Depois que comecei a namorar com o Hokage, que é seu único amigo verdadeiro, você nunca mais falou comigo. Não tem como me conhecer, idiota.
- Quando você estava com ele, não falava comigo também. Estávamos ignorando um ao outro, ao que parece.
Hinata perdeu seus argumentos. Ela normalmente estava de mal humor, mas parecia que essa característica estava acentuada naquela noite. Fazia semanas que ela não discutia realmente com alguém.
- Menma ainda está apaixonado por você. - Ele disse de repente. Hinata olhou para ele.
- O-o quê?! - Da onde ele havia tirado isso?
- Eu vi ele hoje no cemitério. Ele ainda te ama. E você nem consegue dizer o nome dele. O que aconteceu pra que você, Hyuuga Hinata, a mulher que o admira desde sempre, não consiga nem ficar na presença dele agora?
- Não. Olha, eu quero treinar, mesmo.
- Você se culpa pela morte do seu filho. - Ela o encarou com força, uma aura negra em volta dela, como uma armadura.
- Foi um acidente. Não há ninguém para culpar.
- Mesmo assim, você se culpa e, em alguns dias, como hoje, você culpa Menma.
- Foi um acidente. - Ele pôde ver sua mandíbula travando.
- Mas, a coisa é que você provavelmente está certa. Alguém tem de ser culpado.
- Foi um acidente! - O som do grito e da bofetada soou pelo complexo Hyuuga.
Uma luz da casa principal se acendeu.
- Saia daqui.
Ele obedeceu com facilidade e uma marca de dedos em sua face. Enquanto passava pelos portões, se decidiu que nunca beberia antes de falar com Hinata novamente. Ele não gostou do que fez. Seu irmão estaria decepcionado com ele.
