Capítulo 4

Uma Nova Postura

(***)

Minerva olhava distraidamente pelo grande vitral de uma das janelas do dormitório. Dali de onde estava, tinha pleno acesso à parte frontal do castelo. Foi com um olhar minuciosamente espantado que ela observou Abraxas saindo do castelo com Hermione. Via as duas figuras andando com certo foco na parte térrea, atravessando rapidamente o gramado. Talvez ele tivesse desistido da ideia de não contar a ela sobre suas origens e estivesse indo lhe mandar ter cuidado, mas havia algo diferente em seu namorado. Algo no andar. Não parecia os passos serpenteantes e graciosos dignos de um Malfoy. Ela não sabia identificar ao certo, mas havia algo de muito errado naquela cena. Foi com espanto redobrado que ela observou os dois atravessando o grande portão de ferro na entrada de Hogwarts enquanto eles paravam para conversar mais alguma coisa.

Enquanto observava atentamente, viu a porta da sala comunal compartilhada abrir-se e virou-se por reflexo para ver quem ela. Abraxas e Tom entraram no ambiente com seus novos – e não tão costumeiros – sorrisos felizes. Sua cabeça virou-se rapidamente para a janela e de volta para eles, e novamente para a janela. Viu com um terror evidente os dois aparatarem.

— Ah! — ela falou engasgada levantando enquanto via os olhos assustados dos dois sonserinos lhe fitando. — Abraxas?! — ela perguntou aproximando-se, segurando firmemente em seu rosto e olhando profundamente em seus olhos para ter certeza que era ele.

— O que houve?! — ele perguntou assustado pelo comportamento estranho da namorada.

Tom mantinha a sobrancelha arqueada, também percebendo toda a confusão que emanava de Minerva. Ela piscou os olhos e a cabeça rapidamente fez as conexões. Retaliações. Ex comensais furiosos. Planos infalíveis. Todas as infinitas recomendações que o loiro havia lhe dado para que tivesse cuidado.

— Eles pegaram a Hermione! — ela exclamou aflita. — Eles a pegaram!

Os olhos de Tom arregalaram-se de modo a parecer que saltariam a qualquer momento de suas órbitas. A respiração ficou suspensa.

— Onde?! Quando?! — ele segurou Minerva pelo braço exigindo explicações mais razoáveis. — Ela disse que estaria ocupada hoje. Ela disse que tomaria cuidado! — ele praticamente rugiu, não podia deixar a incoerência tomar conta dele naquele momento. Ele era um sonserino afinal, tinha que pensar friamente.

— Tom, eu a vi agora, não foi uma ilusão. Ela foi enganada. Achei que Abraxas tinha saído com ela para lhe contar sobre suas origens. Mas não era o Abby! Não era! Alguém usando polissuco acabou de aparatar com ela! — ela explicou praticamente embolando as palavras.

— Origens?! Do que diabos vocês estão falando?! — ele perguntou prendendo-se aquele ponto especificamente, embora estivesse louco para ir atrás de Hermione. Ele precisava de um ponto de partida, por isso precisava manter a calma. Não sairia correndo sem uma rota, com um ato impensado que ao invés de ajuda-lo a encontra-la poderia arruinar tudo irremediavelmente.

— Ela é metade náiade. — Abraxas falou rapidamente. Seu rosto impassível demonstrando sua natural superioridade. — Descobrimos ontem a noite, mas não pretendíamos lhe contar, ou a ela. — ele falou olhando sugestivamente para Minerva que sentiu o rosto corando pela vergonha de sua indiscrição. Nunca entenderia a dinâmica da cabeça de um sonserino. — O Nott sabe. — o loiro completou sombriamente.

Tom sentiu todo o sangue repentinamente ser varrido do seu rosto. Metade náiade... Metade náiade... Ele sabia tudo sobre elas. Quantas vezes se viu devaneando sobre ter uma náiade a seu dispor, sobre praticar especificamente um ritual que traria uma força inimaginável para seu corpo com uma delas e sobre como isso o deixaria em vantagem em relação aos outros bruxos? O ritual. O maldito ritual. Nott sabia. Nott os conhecia.

O moreno reuniu toda a sua força de vontade para não curvar-se e vomitar naquele exato instante. Ele podia apostar a sua varinha que Hermione desconhecia o fato. Ela não teria se permitido uma ligação tão profunda com ele se soubesse de suas origens. E ele era o seu escolhido. Ele sabia agora o quanto ela precisava dele. O quanto ela estava indefesa.

Deixou os pensamentos sórdidos de lado e colocou a sua cabeça para funcionar.

— Nott está com Cedrella agora. Ela é uma Black... — ele andava de um lado a outro no ambiente tão pessoal e conhecido, como uma serpente acuada, mas ainda assim seus movimentos eram fluidos, escondendo todo o seu terror e impaciência. Ele não poderia deixar-se tomar conta pelo desespero e tornar-se burro exatamente no momento em que mais precisava do seu cérebro privilegiado. Era por amor a Hermione que ele deixou aqueles sentimentos fluírem. O rosto endureceu. O brilho homicida tomou posse de seus olhos e Abraxás sentiu o seu pulso arder sem que necessariamente Tom estivesse pronunciando qualquer feitiço.

Automaticamente, num gesto protetor, ele colocou Minerva atrás de seu corpo e falou rispidamente para ela. — Suba. Entre no quarto, tranque-se e não saia de lá.

Ela não entendeu o motivo por trás daquelas ordens duras. — Porque?! Eu quero ajudar! — ela falou questionando o namorado

Ele olhou para ela e ela se assustou com o gelo cortante em seus olhos. Ele arqueou uma sobrancelha loira. As narinas inflaram levemente e ele nada falou enquanto ela desistiu de enchê-los de perguntas.

— Tomem cuidado... — ela ouviu-se sussurrar enquanto deu as costas para os sonserinos e subiu as escadas entrando no quarto comunal da grifinória.

Tom ainda andava com a expressão dura enquanto fazia as suas conexões mentais.

O loiro sabia no entanto, que a sua namorada não tinha a pretensão de obedecê-lo. Ele subiu as escadas um minuto depois e trancou-a com um feitiço pela parte externa. Ele não sabia o que faria se acaso houvessem pegado a sua Minerva. Não podia correr o risco. Ela era toda a sua vida agora e ele não arriscaria a sua vida em nenhum nível. Sob nenhuma hipótese. O loiro voltou a descer as escadas, e a cada passo distanciado um novo Abraxas tomava conta de seu corpo. Aquele que tinha capacidade de matar. Aquele que tinha a frieza para fazer qualquer coisa. Aquele que estava indo em direção à pessoa que mais admirava.

Chegou na frente do moreno e quando o mesmo levantou a cabeça ele percebeu instantaneamente enquanto ainda sentia a sua marca arder. Não era Tom Riddle que estava ali. Aqueles olhos pertenciam a uma outra pessoa, pertenciam ao ser que somente Hermione conseguia manter sob controle. Pertenciam a Voldemort.

(...)

Os dois sonserinos agora andavam rapidamente em direção a sala comunal da sonserina, nas masmorras. Foi com uma pitada de sorte que avistaram Lisbeth Bullstrode. Ela girava algo em suas mãos. A sua varinha. Não tinham tempo e nem queriam perde-lo. Cada minuto perdido deixava a vida de Hermione em risco maior.

— Expeliarmus! — Abraxas falou a passos decididos. Ela não teve sequer tempo de pensar.

Tom a apanhou apertando fortemente o seu queixo fazendo-a protestar em dor enquanto a empurrava na parede mais próxima. O olhar do moreno fez com que todo o corpo de Lisbeth enregelasse instantaneamente.

— Eu só vou te perguntar uma vez, e eu não me importo com as consequências. Onde está Cedrella Black e Nott? — ela sabia o que significava "não se importar com as consequências". Significava que ele a mataria sem sentir uma única gota de remorso.

— Não estão aqui. Os vi saindo mais cedo. — ela falou. A voz estava trêmula e as lágrimas começaram a escorrer por sua face assustada.

— O que mais você sabe? — ele perguntou apertando-a mais contra a parede.

Ela gemeu em dor e agonia devido ao aperto férreo em sua mandíbula. As palavras saíam apertadas, quase inteligíveis.

— Eu ouvi Ella dizer algo sobre a Black Manor. É a casa de campo dos Blacks. Não sei onde fi-fica. — ela falou choramingando. Ainda assim aquilo era melhor do que um crucio.

Tom a largou com violência e ela caiu no chão segurando o queixo machucado. Tom parecia um touro acuado. Sua raiva emanando dele como uma segunda pele. Aderindo e expandindo. A magia negra fluindo de seus poros. Tornando-o indubitavelmente perigoso.

Ele lhe lançou um obliviate e estuporou-a, Foi com força de vontade que ele não sabia possuir que ele lançou um estupore ao invés de um Avada Kedavra na ex amante inútil.

Como Voldemort agia quando queria que seus Comensais viessem até ele?! Ele usava a marca negra. E foi desse modo que ele tocou a ponta da sua varinha em sua marca mentalizando Callidora Black. Não demorou três minutos e ele a viu sair do dormitório feminino, assustada e acuada, esfregando a marca que ardia em sua pele clara. Ela viu Lisbeth no chão. Seus olhos negros arregalaram-se. Tom meneou a cabeça de forma avaliativa arqueando a sua sobrancelha perfeita e negra enquanto Callidora sentia todo o seu corpo arrepiar-se de maneira dolorosa. Ela nunca havia visto as feições do Lorde tão perigosas e hostis. Ele abriu a boca e estava em sua frente mais rápido do que ela julgou ser possível.

— Eu só vou perguntar uma única vez... — ele disse impassível.

(...)