Saiu uma imagem dos dois vestidos de yukata, vocês podem imaginar elas como base (mas nada de faixa na cabeça do Sasuke).
Tsumetai
"O próprio egoísmo de querer a paz causa guerras; assim nasce o ódio para proteger o amor" – (Uchiha Madara).
#4
Era ridículo que eles tenham acabado assim.
Uma mulher numa barraca olhava concentrada para os itens a sua frente, praticando silenciosamente sua ikebana com o objetivo vender seus arranjos mais tarde aos poucos turistas, se tivesse sorte. Com dedos ágeis, entrelaçava flores, galhos e folhas em ornamentações de acordo com diferentes propósitos e mensagens, sempre buscando uma harmonia e uma beleza tão únicas que tão somente com um olhar seriam capazes de encantar.
Concentrada na tarefa, a senhora não percebia Sakura acompanhar seus gestos quase religiosamente, cheia de curiosidade e admiração. Na academia ninja, as pequenas meninas eram ensinadas a fazerem o mesmo como um exercício inicial da camuflagem ao combinarem os diferentes tipos de folhagens. No entanto, nenhum de seus feitos poderia ser comparado com o que vinha das mãos da artesã que fazia tal ofício a vida toda.
— Isso é tão lindo... — Sakura suspirou, enquanto Sasuke parava ao seu lado com uma mão apoiada no obi roxo. Apesar de escutá-la, não estava prestando realmente atenção. — Eu costumava ser tão ruim nas aulas de ikebana... Ino me salvou mais de uma vez. Sorte, não?
— Creio que sim — comentou, direcionando um breve olhar desinteressado à barraca. A ele tais coisas não encantavam.
— Não sei se você está distraído ou... ranzinza.
A boca do Uchiha retorceu-se levemente, dando a ela o fim da dúvida. Ele era um rabugento, com certeza, e não faria o enorme esforço de negar.
— Ria disso, Sakura.
— Outch.
O café da manhã veio tão logo se apartaram, o ex-vingador desfrutou do arroz e do peixe, satisfeito pela comida em si, e ouviu distraidamente a serviçal comunicar à Sakura de um evento exclusivo próximo ao centro comercial, incentivando-a a comparecer e contando breves histórias. Como era típico, a kunoichi se empolgou e, agora, por causa disso, ele estava sendo arrastado a contragosto até ali.
O riso da Uchiha, antes cada vez mais espaçado, ainda compareceu durante o desjejum ao leve mexer de seus hashis, fazendo com que ele se limitasse a resmungar o quão irritante ela conseguia ser, apesar da garota ter argumentado que aquela era "a prova de sua humanidade" ou qualquer besteira do tipo. Que culpa tinha? Estava com fome e seu estômago fez o favor de lembrá-lo disso do jeito mais ridículo possível.
Sakura, por outro lado, zombava – ele categoricamente não veria isso de outra forma – com liberdade. Até mesmo quando ela não dizia nada parecia que a intenção de deixá-lo desconfortável perdurava. Possivelmente – no fundo daquela mente que ele não entendia – ela estava orgulhosa por ser a única pessoa no mundo que jamais seria ferida em troca por isso, se é que tal coisa possa ser considerada uma benção, uma vez que, eventualmente, a médica não poderia escapar das agulhas em seus olhos e do temperamento estragado direcionado a si.
— Eu não vou rir mais. — A kunoichi finalmente ficou séria, observando com atenção uma amaririsu¹ na mão da artesã. Quem ela queria enganar? Se Sasuke soubesse que sua brincadeira fora usada como um tipo de escudo, ele se chatearia?
No início, sim, ela fora espontânea. Não tinha nenhuma intenção de zombar dele ou envergonhá-lo. A situação inusitada a divertiu e ela simplesmente não conseguiu se controlar. Inclusive, suportou bem o mau-humor do marido. Com o tempo, entretanto, Sakura passou a ter plena ciência de que não fosse por sua interrupção desnecessária – mas não proposital –, deixaria de se importar com os funcionários do hotel e aquilo continuaria até o fim. Por pouco.
Quando pensava no assunto durante o café, não sabia o que fazer para retomar o clima, quando tomava coragem, olhava para Sasuke e aquele frio na barriga a fazia simplesmente desistir, no que sorria e falava sobre algo interessante ou leviano durante o desjejum. Contudo, qualquer diálogo não era suficiente para preencher o que ficou faltando.
Quem diria que um quase pode te deixar doente e frustrado, especialmente se a causa da existência da sensação de por um triz nasceu do seu próprio egoísmo? Estava gostando do que estavam fazendo. Teria sido aquele um bom momento para pular nele?
Se fosse do interesse dele, Sakura diria que estava ligeiramente aborrecida por romper tão brilhantemente a atmosfera agradável. É claro que se arrependia, ainda mais por não saber como reatá-la. A ideia, portanto, de camuflar-se naquela pilhéria inútil foi estúpida e uma escolha não muito boa. Uma esposa tão boba. O Uchiha tinha total razão, afinal, em sua insatisfação.
Cada sensação e pequena emoção eram novas, e é verdade que a médica estava gostando de sentir cada uma delas. Acostumar-se-ia com isso, uma vez que parecia tão natural que ele a desejasse, apesar de, no fim das contas, ser tão inatural a parte em que o Uchiha demonstrava isso. Mas se ela o deseja tanto ou mais, deveria ser suficiente... não é?
Oh, merda. A kunoichi gostaria de ser mais impulsiva com Sasuke como quando era com outros assuntos. Ele estava se esforçando. Sendo respeitoso mesmo ali, enquanto Sakura nada mais que se deixava ser guiada. Deus sabe que ela não queria apenas isso, mas ao seu desejo estava aliado o medo de estragar tudo, um talento que ela tinha em abundância e ninguém para ser mais consciente disso que a própria Sakura.
De um jeito ou outro, afinal, ela havia estragado. Genial.
Sabia que não funcionaria assim. Um apoio reservado e gentil deveria a base para a cumplicidade e intimidade de um verdadeiro casal, se quisessem levar aquilo adiante. Um primeiro passo. Mas Sakura, às vezes, ficava tão hesitante – e tão internamente pervertida – que Sasuke não devia sequer fazer ideia.
— Desculpe, Sasuke-kun — pediu, soando verdadeiramente sincera.
O Uchiha comprimiu os olhos. Aceitaria as desculpas, e não muito satisfeito, mas aquilo tudo não era coisa grave e Sakura não devia se preocupar tanto, uma hora seu estado amargo passaria. Um pouco de frustração, com efeito, não faz mal a ninguém; quem há de culpá-lo por ser um mimado sem humor só por agora?
Se ele a desejava, se ele a queria, se ele não podia tê-la... rápido demais? Ou talvez só muito lento? Se sua própria mente era um poço sem fundo de confusão, naturalmente, seria esperar muito que Sakura o decifrasse e lhe cedesse respostas quando ele mesmo não podia, ainda que quisesse muito que a garota trouxesse consigo todas as soluções.
Sakura abriu os lábios algumas vezes, encorajando-se a uma explicação que ela pensou ser necessária:
— Falando abertamente, estou me sentindo culpada por antes. Quero dizer, não exatamente isso, é mais por... — Ela vez um gesto vago indicando a ambos — nós dois. Acabei ficando com vergonha de você. Eu não sei o que há comigo... — a garota emendou num suspiro.
Sasuke apenas ouviu, por que Sakura tinha que sempre estar falando, insistindo e lembrando-o de coisas já passadas, arquivadas e, agora, irrelevantes? Era uma maneira quase obrigatória de fazer com que ele sustentasse o diálogo. Ao menos, seria uma oportunidade para dar o troco e dar a ela um motivo sólido para se envergonhar.
— Estranho para uma pessoa que fica animada com aquele tipo de jutsu do Naruto.
— Anim... o quê? — Sakura piscou, lívida. — Eu nunca fiquei animada! — Sasuke resmungando um "mn" de quem não parecia muito interessado em qualquer negativa que ela pudesse tentar verbalizar. — É sério, Sasuke-kun!
— Não disse que não era.
— Mas disse "mn", sabe Deus o que significa seus "mn".
— Suponho que não tenha tempo para tentar adivinhar, também. Não queria tanto vir e conhecer a vila?
— Está tentando me distrair do assunto... não seja estraga prazeres.
O Uchiha torceu a boca, a resposta veio num reflexo incalculado e conhecido por costumar empregá-lo com Naruto – mas nunca com Sakura.
— Como você é? — Literalmente. No entanto, o rapaz não demorou a perceber que não devia ter insinuado aquilo, voltou o rosto para o outro lado da rua, mais para ocultar sua mortificação do que por qualquer outra maldição.
— Isso foi... uma piada suja? — Sakura retrucou, surpresa.
Um duplo sentido era novidade.
— Não, Sakura.
— Como n... ouw. — Calmamente, voltou-se para o Uchiha, apenas para se sobressaltar.
Contrastando com o kimono vermelho vivo e floral dela, o dele era branco com estampas de finas chamas acinzentadas e contornos de escamas, ordenadas aleatoriamente em espaços no tecido. Além disso, Sakura tinha certeza da presença de um símbolo Uchiha nas costas. Contudo, não era o motivo de seu espanto.
— Você é um exibido — Sakura acusou-o simplesmente, encarando a pele do rapaz e tirando, incomodada, a própria franja dos olhos verdes.
— Exibido? — repetiu insultado, e, por outro lado, grato pela mudança de foco repentina.
— Sim. Por causa desta… — ela articulou com as mãos para cima e para baixo em direção à abertura no yukata do rapaz, cuja deixava à mostra o peito até a amarração do obi, que expunha um pouco da barriga elegante, resultado de treinamentos, missões e exercícios. Ele podia, ao menos, estar usando o haori, mas pelo visto não trouxera a peça azul. — Isto.
— O que tem? — Ele sempre se vestiu assim, qual o problema?
Sakura, em contrapartida, balançou a cabeça e olhou ao redor e para a quantidade regular de homens que vieram para as ruas, esses usavam suas vestes muito bem fechadas; além de tudo, algumas mocinhas lançavam um breve olhar a Sasuke, corando antes de desviarem, como se em Konoha, ironicamente, esse tipo de episódio já não fosse mais que suficiente.
A médica pouco se importava com esse tipo de atenção comum, pois ela mesma não estava em situação melhor que elas. Que culpa tinha? Sasuke continuamente lhe parecia mais bonito do que lhe era sadio – o bônus de qualidades acrescentadas e o namoro não a tornaram cega ou de libido incapaz –, de modo que o pensamento de que ele era seu ficava cada vez mais alarmante e perigoso a cada segundo.
Decidida a não ter sua atenção no que Sasuke era ou deixava de ser, puxou o Uchiha para andarem juntos entre as barracas de iguarias, serviria como distração; ele a acompanhou sem resistência.
Como dito pela recepcionista, por ser baixa temporada turística no conglomerado, a rotativa de pessoas se hospedando e circulando pelas ruas era muito menor que o normal, principalmente pela manhã.
A minoria presente – confortavelmente dentro de seus yukatas frescos – comprava bobagens alimentícias nos estandes ou, ainda, divertia-se com jogos ou nas pequenas lojas montadas provisoriamente. Exteriormente, havia alguns enfeites e faixas transversais entre um telhado e outro, cruzando-se e cromatizando a rua com tons pastéis e quentes. A decoração alegre da vila e o leve movimento nas ruelas chamou a atenção do Uchiha.
— Para que esse evento?
— Você não estava ouvindo, antes? — a Uchiha perguntou, olhando cobiçosamente para as maçãs carameladas num estande colorido. — É a semifinal de uma corrida. Momo, aquela garota, disse que alguns participantes são famosos.
— Mn... não parece grande coisa.
Ninjas corriam o tempo todo e faziam manobras impressionantes, que graça há em civis fazendo o mesmo da mesma coisa de uma maneira absurdamente patética e inferior? Contrariada, Sakura rolou os olhos.
— Então, você precisa me explicar o seu conceito de grande coisa.
— Bem. — Sasuke lançou um olhar estoico à volta. Apontou com o queixo para uma barraca delimitada com cordões de isolamento e uma fila minguada de pessoas. — Por exemplo.
A kunoichi considerou.
— Arco e flecha? É... diferente. — E traiçoeiramente imaginou-o livrando-se da parte superior do yukata por motivo nenhum e suspendendo um arco. Tão rawr... — Depois de conhecermos o lugar, que acha de ir lá, então?
— Não quer ver sua corrida?
— Isso é só lá pelas quatro da tarde, temos tempo de sobra.
Quatro? Por um instante, o shinobi parou de andar bruscamente, lançando um olhar mordaz à sua desmiolada esposa.
— Então por que raios estamos aqui às nove da manhã?
A médica soltou uma risada amarela.
— Eu queria dar uma volta, comprar umas coisas e comer outras — ela ampliou o sorriso. — A começar, por exemplo, por aquelas maçãs!
Você acabou de tomar café da manhã.
Tarde demais para impedi-la, momentos depois Sakura retornou mordiscando a maçã caramelada, mantendo a franja inquieta longe dos olhos ao segurá-la com a mão. A kunoichi chegou a oferecer-lhe a fruta, mas o Uchiha a afastou com uma careta de repugnância.
— Há mais açúcar aí do que um ser humano precisa.
— Está delicioso! — replicou, depois que se sentaram num banco. — Mas, você, que nunca comeu besteiras na vida, não entenderia. É até justificável que se sinta à vontade ao andar por aí vestido assim (sempre em forma e essas coisas), ainda que eu devesse sentir um pouquinho de ciúmes, mas então eu lembro que, você sabe, temos o mesmo sobrenome agora.
O shinobi mirou-a de soslaio.
— E o que tem?
— Isso legitima o fato de que podem te olhar, mas sou eu quem tem acesso.
Em resposta, o Uchiha unicamente balançou a cabeça, fazendo-a sorrir:
— ...Tem álcool na sua maçã.
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É claro, o tempo seguiu-se sem problemas, mas se a reencarnação de Indra soubesse que, mais tarde, teria que ficar sentado por quarenta minutos esperando Sakura se decidir entre um vestido branco, rosa ou um verde — logo após ela se mostrar insatisfeita com seu "tanto faz", ao pedir sua opinião — ele teria simplesmente escapado para o ryokan na primeira oportunidade.
— Sasuke-kun — Sakura cochichou seu nome, atraindo sua atenção para o provador; pois, ao que parece, apenas olhar para as peças e se decidir ainda não era suficiente. — Venha cá.
O shinobi dirigiu-se até ela devagar. E, assim, encontrou Sakura dentro do vestido branco de mangas longas que, estranhamente, evidenciava um decote mais generoso do que em qualquer situação que Sasuke houvesse visto.
— Ficou estranho? — Sakura perguntou receosa. No fundo, gostou de como seu busto pareceu repentinamente maior por algum milagre. Normalmente, ela preferiria Ino nessas situações, mas se ela não estava por perto...
Sasuke cruzou os braços antes da resposta. Parte do vale dos seios dela estava visível, céus! Ficou desconfortável ao tentar desviar os olhos e não obter muito sucesso. Não parecia certo que ela fosse tocada por alguém como ele – um ninja de modos nem um pouco leves. Por que raios Sakura veio lhe perguntar o que achava? Para ela, a provocação – talvez inconsciente – com o vestido azul não era suficiente?
Não estava sendo seu melhor dia. Quanto mais tomava consciência da feminilidade dela, mais com uma tirana terrível sua mente se parecia, transformando o mínimo num sufoco sem gentileza que o deixava absolutamente ansioso. Se mesmo o Uchiha – um completo simplório em seus desejos até então – ficava nervoso perto da própria mulher, que seria dos outros, certamente inferiores?
— Onde pretende vestir isso?
— Pretendo vestir isso no trabalho. Nos dias nublados, talvez.
— Mn. — A resposta não chegou bem aos seus ouvidos, bem no fundo parecia absurda. O rapaz encarou a esposa brevemente, sem nenhuma emoção perceptível. Fechando a cortina do vestiário, completou severamente: — Leve o verde.
—Mas você nem chegou a ver. Ei!
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Sakura nunca foi o tipo compulsivo por compras, principalmente por coisas que ela talvez nunca tivesse oportunidade de usar, em especial pela sua falta de tempo. Poucas vezes tinha dado um uso decente às peças em seu guarda-roupa, mas em Teien havia tantos itens bonitos que a kunoichi não resistiu e cedeu ao impulso.
Assim, cinco bolsas de compras depois, algumas pagas por Sasuke, porque ele apenas jogou as notas no balcão e saiu andando e fim; mais quinze visitas em barracas de petiscos e outras de diversão – sendo que a maioria era vetada para ninjas, uma vez que em brincadeiras do tipo arremesso e concentração estes eram imbatíveis – o casal Uchiha finalmente dedicou um tempo para o almoço num bom restaurante, por volta de uma da tarde.
Dos dois, é óbvio, Sakura foi a que comeu menos e, invariavelmente, a que falou mais. Ao saírem, chegou a convidá-lo para um banho no onsen do hotel por meia hora, mas o shinobi recusou com veemência.
— De qualquer forma eu preciso ir para tomar um remédio e me livrar das bolsas — a Uchiha informou-lhe, pegando das mãos do shinobi algumas das sacolas. Sasuke franziu as sobrancelhas à menção de remédios. —E não estou doente ou cois do tipo! Não devo demorar, mas... por que não vai naquele estande de arco? Eu te encontro lá.
Ele deu de ombros e olhou para as bolsas.
— Não quer ajuda?
— Um cavalheiro, não? — O Uchiha, todavia, fez uma careta de desdém, mas Sakura fingiu não ver. — Tudo bem, você sabe que não tenho problemas com pesos. Além de tudo, você pode conseguir para mim uma daquelas pelúcias fofas que estão como prêmio.
— Não vou gastar flechas com um bicho estúpido.
— Como um bom marido você deve me paparicar, Sasuke-kun. Eu não me importaria.
Sasuke olhou-a com interesse. Ele se importaria. A ideia do shinobi mimando qualquer pessoa lhe parecia um conceito muito incoerente e abusivo.
— Nem morto.
— É? Seria chocante se eu te revelasse que você faz isso inconscientemente, verdade? — ela sugeriu, erguendo um pouco as compras.
Sasuke cruzou os braços.
— Vá.
— Tch — ela imitou-o. — Não me expulse.
Certa de que estavam num local mais reservado na rua, Sakura apoiou-se na ponta dos pés e direcionou o rosto ao de Sasuke, planejando alcançar sua boca. Sobressaltou-se levemente, no entanto, por ele ter retirado a franja que frequentemente caía sobre seus olhos e tocado seus lábios antes que ela pudesse alcançar os dele, apoiando-a.
Durante, a Uchiha quase sorriu e sentiu um enregelo típico na barriga, ciente de que ela poderia beijá-lo e ser beijada a vida inteira e talvez nunca se acostumar com isso. Sakura fez uma leve pressão na boca do shinobi, mas temendo algum espectador, se afastou rapidamente.
Pensou em dizer algo, mas hesitou. Sasuke percebeu.
— Qual o problema?
— Hm... É que... Hoje — Sakura tomou coragem. Comprimiu ar nos pulmões e tentou ser mais clara: — Hoje à noite, Sasuke-kun, vamos ficar só no hotel, está bem?
Antes que ele pudesse perguntar o que ela o que era aquele tom tímido repentino, a Uchiha sorriu e se afastou para o ryokan, agitando suas bolsas ao andar o mais rápido que suas vestes deixavam.
Quanto a Sasuke, foi mais tarde – ao retesar da corda do arco em sua primeira tentativa – que discerniu o real significado por trás das palavras dela. Ah, Sakura! Foi suficiente para desconcentrá-lo pateticamente. A flecha deslizou de suas mãos quase que sem querer, a pena de ganso da haste resvalou em seus dedos enfaixados e atingiu um ponto longe do alvo… merda.
— Vo-você errou, mas ainda tem, oh, Kami-sama, mais duas tentativas — o pálido comerciante conseguiu falar, lançando um olhar magoado para a flecha cravada a insignificantes cinco centímetros de sua têmpora.
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Sakura olhou com atenção e curiosidade para as mãos vazias de Sasuke, ao retornar e encontrá-lo sozinho comendo uma carne no espeto.
— Não pegou nenhum prêmio?
O shinobi, porém, deu de ombros em silêncio, apertando um pequeníssimo pacote dentro de sua mão em punho. Fora único item que estivera disposto a escolher após acertar as flechas restantes e mais outras, depois de mais algumas rodadas, todas pontualmente no centro do alvo – por uma questão de honra.
O brinde escolhido, dentre todos, parecera o único útil – mais para Sakura do que para ele, notavelmente.
Pretendia repassar a ela com um desleixado "tome", por ser um pouco sem jeito; contudo, a kunoichi observava as pessoas da rua fluindo para um lugar-comum. Perdeu o momento.
— Parece que a corrida começará em breve, vamos!
— Ainda falta uma hora.
— Mas Momo disse antes que vão fazer apresentações de dança e música na largada, o que é muita sorte, nessa época do ano as coisas na vila são um pouco monótonas e não há festivais. Não podemos perder.
Rolando os olhos e terminando o espeto, Sasuke caminhou com ela, seguindo o fluxo de pessoas, guardando discretamente o brinde num bolso interno do yukata.
Na largada, espalhafatosamente decorada, havia de fato pessoas fazendo apresentações, mas não se via nada dos corredores. Surpreendentemente, muitos espectadores se aglomeravam no local, as poucas arquibancadas estavam completamente cheias e os últimos lugares acabavam de serem ocupados.
— Não tem lugares, vai ser cansativo acompanhar de pé.
— Pena. — Sua voz não denotava nem um pingo de lamentação. — Vamos voltar.
— Sasuke-kun, que desânimo! Aposto que encontraremos um bom lugar por perto.
O Uchiha resmungou.
A largada não se encontrava exatamente dentro de Teien, mas for da vila, com início no fim da rua central. A pista fazia uma meia lua para o sul do conglomerado e subia por uma trilha, sumindo montanha acima. A médica guiou-o pelo acostamento da pista de corrida e sondou com os olhos por algum espaço que permitisse uma boa vista. Ao mesmo tempo, anunciava-se entre uma apresentação e outra sobre os detalhes da semifinal.
Numa voz profunda, um homem informava sobre os vinte quilômetros de subida – com destino final o topo de um pico indicado – e explicou que os seis primeiros concorrentes estariam classificados para a final dali uma semana, em outra localidade. O verdadeiro desafio encontrava-se em fazer isso em duas horas e meia, no máximo.
Sasuke mordeu a língua, pois, tudo bem, aquilo não parecia coisa de civil.
Em alguns pontos, havia telas que exibiam pontos da trilha onde, naturalmente, nenhum olho nu conseguiria acompanhar.
— Ali! — Sakura exclamou, apontando para uma árvore sem flores e para um banco circular feito com restos do caule morto de outra. — É perfeito, podemos ver e ouvir a largada daqui, não tem gente amontoada e há vista para o telão.
— Desde quando você gosta de disso?
— Disso?
— Corridas.
— Sempre as achei nostálgicas de algum modo — Sakura explicou, tirando a poeira do banco ao chegarem. — Você senta, Sasuke-kun. Não tem muito espaço.
O shinobi cruzou os braços.
— Estou bem de pé.
— Não precisa se preocupar em ser gentil. — A kunoichi desviou da mirada de Sasuke, sussurrando: — eu pretendo usar o seu colo, se não se importar.
— Que?
— Seu. Colo. — Repetiu. — Céus, nã-não tem nada demais.
Para ela certamente não tinha importância, era só... contato físico casual. Ainda assim não importa quão normal isso seja, Sakura não deveria fazer isso com ele. Se uma mulher – a sua – fica próxima deste jeito, não é tão simples ignorá-la e se concentrar no resto. Principalmente com a perspectiva que ela sugeriu para hoje zumbindo em sua cabeça sempre que se distraía. Ao mesmo tempo, persistir na negativa poderia trazer um longo momento de desconforto.
Com certa hesitação, o Uchiha sentou-se no banco, usando a árvore como encosto. Sakura não veio até ele de imediato. Os outros espectadores tinham seus olhos pregados nas atrações ou estavam a uma distância considerável demais para notar o casal.
Foi com um discurso interminável de desculpas e um rosto muitíssimo vermelho que a médica se aproximou, aflita, pensando que sempre propunha coisas constrangedoras ao rapaz.
"Primeiro as termas, agora isso… mereço um diploma de insensibilidade."
Ignorando sua censura interna, ela passou um braço ao redor do pescoço de Sasuke lentamente, sem olhá-lo no rosto, e abaixou-se para se posicionar nas pernas dele o mais suavemente que conseguisse. Assustou-se quando, no meio da coisa toda, sentiu uma mão pegando em seu bumbum e cintura desajeitadamente e impedindo seus avanços.
— O qu—
— Espera — o Uchiha chiou e Sakura quis morrer, fizera algo errado? — Não tão para cima.
— Oh.
Sentiu-se grato por não ser necessário explicar seus motivos. Cauteloso, Sasuke ajudou-a a encontrar uma posição rapidamente e que não causasse nele, também, outro tipo de reação indesejável.
— Des-desculpa, eu nunca... desculpa — a Uchiha murmurou depois, rígida e nervosa como se estivesse perante uma autoridade, deixando o pescoço dele de lado e pousando ambas as mãos no colo. — Se eu incomodar me diz. Devo ser pesada.
— Sempre foi.
Sakura delineou um sorriso mínimo e acanhado.
— Oh, é verdade... você me disse isso um vez.
A médica se acalmou e, aproveitando o ensejo, Sasuke envolveu sua cintura e apoiou o queixo no ombro da kunoichi, assistindo distraidamente um grupo que agitava leques num ritmo doce perto das arquibancadas.
Aos poucos, Sakura esqueceu o constrangimento e tentou prestar atenção no evento também, mas, neste momento, ainda estava mais ciente do calor do corpo do marido e da respiração fresca que vinha de encontro ao seu pescoço em intervalos regulares, que absorvia seu perfume e provocava um arrepio que a fazia prender a boca entre os dentes.
Se felicidade cabe nisso, não havia mais nada. Ela era grata por Sasuke parecer um novo homem agora, livre das garras do passado, embora em alguns momentos o pegasse com o olhar obscuro e vago, talvez perdido em algum lugar remoto de sua mente. No entanto, ele, ainda que tivesse seus lapsos de neurose e rabugice, parecia mil anos mais leve.
Sasuke, é evidente, nunca fora de deixar seus sentimentos em exposto, ao ponto que alguns – não acostumados com os trejeitos inteligentemente discretos – achavam que tais estavam em falta no shinobi. Foi quase cômico o alívio que ela visualizou no rosto dele quando, há um mês, a médica o perguntou: "afinal, você planeja me pedir em casamento, não é?"
A partir dali foi muito fácil agir, bastou ele olhar para o anel enquanto murmurava um: "Algo assim" e evitava o curioso pedido, adiantado apenas porque Naruto, certa vez, encontrara o anel, indagando com malícia o motivo de sua existência.
— Está aí por estar — Sasuke dissera. Mas toda sua retórica não foi capaz de convencer ao Uzumaki.
— Oh, é mesmo? Dê a ela logo, seu maldito.
— Você supõe demais.
— Calma, eu sei como é. É uma decisão importante, e não sou nenhum especialista, mas por experiência é preciso ser homem e um pouco bêbado para fazer isso sem hesitar. Eu posso conseguir saquê, mas quanto à primeira parte tenho minhas dúvidas.
— Fora.
— Ei! Olha como fala com o futuro hokage, eu estou te ajudando!
— Não está.
É claro que estudou quase que religiosamente sobre o assunto até tomar a decisão, mas isso não a tornava mais fácil. E dois dias depois de muita tensão acumulada em gestos nervosos e uma única mensagem simples, Sakura percebeu por si mesma as intenções adiadas do Uchiha como quem lê um papel. Numa noite, a prova arredondada de sua desconfiança surgiu em sua escrivaninha. Suficiente. De certa forma, Sasuke foi quase... charmoso, na falta de palavra melhor.
Sorrindo com a memória, a médica inclinou-se e marcou um beijo na bochecha dele, pegando-o de surpresa.
— Deu vontade — ela se adiantou.
Sasuke não pensou em retrucar e de todo modo não poderia, pois o interlocutor anunciou a chegada dos corredores e que estes iniciariam a partida em dois minutos. Os rostos de cada um deles recebeu destaque. Sakura pareceu muito a favor do participante de camisa 8, de cabelo castanho escuro arrepiado e olhos negros, enquanto o Uchiha posicionou-se de modo contrário, havia uma aura arrogante nele e um autorreconhecimento estranho. Os nomes foram ditos, mas os aplausos eufóricos em alguns deles tornaram impossível a compreensão.
Depois disto, a corrida iniciou-se e Sakura ficou ainda mais entusiasmada quando oitavo corredor soltou os pesos de pernas na largada e levantou uma onda de poeira, atrasando alguns concorrentes.
Quase uma hora depois, quando a corrida passou para a etapa em que só se podia acompanhar o desenvolvimento pelos telões, a kunoichi, entusiasmada, saiu dos braços do Uchiha e acompanhou o evento de pé, ao passo que Sasuke não parecia nem um pouco envolvido com o espírito esportivo.
Na trilha havia armadilhas, perigos inesperados e confrontos entre os próprios corredores. O corredor oito e o três mostraram-se hábeis em superar todos os perigos. Quase no fim, depois de duas horas, um embate entre ambos fez Sakura pensar que seu favorito perderia, pois não conseguiu desviar do empecilho que o corredor três deixou em seu caminho e fora deixado para trás, logo ultrapassado por outros.
— Oh, meu Deus, pode ter se machucado! — Sakura exclamou penalizada e Sasuke resmungou em seu canto, não era hora para ela bancar a médica patológica.
No entanto, todos – quase – se surpreenderam quando, mesmo com um zoom em sua visível careta de dor, o homem de cabelos castanhos se ergueu e com coragem voltou a correr, ganhando os metros que perdera, transpondo adversários e atravessando a linha de chegada aos tropeços, conquistando, assim, a incrível terceira posição e classificação para a final.
Sakura exultou-se.
— Eu sabia! Só espero que esteja bem...
O Uchiha não respondeu, não havia nenhum motivo para alarde, ainda que agora o telão mostrasse o corredor mancando, mas agradecendo a torcida. Sobreviveria.
— Bom, eles devem ter sua própria equipe médica. Como ele se chama mesmo? Korino?
— Não dei atenção — Sasuke informou-lhe com desinteresse e Sakura desconfiou do óbvio.
— Não se divertiu?
— Um pouco de quase nada — Sasuke respondeu olhando o céu que tomava matizes azul-marinho mesclado com nuvens escuras, ficando de pé e vendo Sakura interpor-se a sua frente.
— Mesmo assim, obrigada por aguentar aqui comigo. — A kunoichi sorriu abertamente, sobressaltando-se quando Sasuke segurou em seu pulso e puxou-a pela primeira vez no dia, ao contrário de ser conduzido por aí. — Qual o problema?
— Nenhum. Só vamos comer algo quente e dar o fora.
No fundo, Sasuke estava quase que com saudades do batuque das shishi-odoshi, daquele incenso suave e do bendito narciso gravado num pedaço de madeira no Heisui. Contudo, acima de tudo isto, estava o desejo por um banho nem frio nem quente e da privacidade do quarto absolutamente cômodo – de onde não deveria ter saído.
— Ah! Que tal vinte minutos nas termas, Sasuke-kun? — Sakura propôs com inocência novamente.
Em seus planos, não utilizariam a mista como da última vez, cada um se dirigiria ao seu departamento próprio para desfrutarem de um banho mais à vontade.
O shinobi bufou e negou o pedido, sem condições de prever as intenções da médica.
— Nem pensar. — É claro, viu a esposa abrir a boca para contestar e logo a cortou: — Não insista.
No entanto, Sakura fingiu não escutá-lo.
— Você só pode estar brincando! Estamos no paraíso do onsen e só vamos usar uma vez?
— Bingo.
Se pudesse, o Uchiha passaria o mais distante possível dessas coisas até que superasse a vergonha que sentiria sempre que olhasse para uma.
#Continua...
¹ Amaririsu: é a "Flor da Imperatriz", no Japão significa timidez.
[Revisado em Dezembro/2017] Geropi dá um aceno: Ela sentou no colinho dele! Viram o Idate? Obviamente a aparência dele também mudou e por isso não foi reconhecido. O que o Sasuke pegou para Sakura? Mistério. Essa "vitamina" da Haruno é anticoncepcional (heuheu, quem falou de menstruação: é por isso que não vou sacanear a tal ponto).
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Comentários (Mas o beijo especial dessa vez vai para Koorime Hyuuga, uma das responsáveis por esse capítulo ter sido escrito. Obrigada.):
Mertriks: Perfeitamente, senhora, continuado. Obrigada!
Janab: É bom de ler e escrever capítulo quentes/leves. Gostei mesmo do anterior. Olha, eu planejava só três capítulos e veja só. O esboço que eu fiz rendeu até agora quatro e vai render mais, tanto que eu estou fazendo capítulos maiores a fim de otimizar a fanfic. Com certeza serão menos de 10.
Guest (a do perfil): heuheuhe, bem-vinda, anônima, se quiser crie uma conta, é um site excelente. Obrigada por acompanhar com amooor!
Guest (a do ''olha eu''): heuheue, como eu faço? Deixa uma inicial ou um apelido no final para eu saber me situar sobre quem é quem, heuheuheu. Mas Sasuke está pagando mesmo por tudo que fez com Sakura. Dó é pouco. xD Aliás, feliz natal e ano novo atrasado também. Muito obrigada por comentar!
Ari: Continuei! Com muito custo, mas continuei! Então não se doa, Ari, preciso de você inteira aqui. Aliás, está sendo um prazer escrever Tsumetai, de modo que trabalhar esse desenvolvimento e vigiar as personalidades chega a ser divertido, embora em alguns momentos eu fique receosa. xD Muito obrigada por comentar! Beijos!
Tiuni-chan: Oi! Não se preocupe, eu entendo, também faço isso de pular. xD Era meu sonho escrever algo assim, finalmente estou realizando, amando a recepção que está sendo dada e o seu comentário. heuheuheu, Sasuke mascara, disfarça, camufla, vira a cara... mas é evidente que ele quer, que deseja, que mesmo querendo dizer D, a Sakura sabe que na verdade é um A. Sim, subindo totalmente pelas paredes. xD DEsculpe não vir com capítulo duplo, mas esse está bem grande e os atrasos nao vão ocorrer mais. Beijos e obrigada por comentar!
Guest (a da pipoca): Olá, leitora musical, amei a letra! É a Natty, né? Porque falou em pipoca já relaciono com ela, heuheue. Sim, mais de sete dias, mas não vou abandonar, de jeito nenhum!
Suh: Muito obrigada, Suh, é escrita com muito entusiasmo e carinho, que bom que está gostando! beijos!
