O.o.O.o.O Londres O.o.O.o.O

A família estava sentada à mesa. Era uma luxuosa mansão. Jantavam calmamente. O patriarca, cabelos negros, bem penteados, cortados militarmente, tomava o assento à cabeceira. Mostrava autoridade sobre toda a família. A mãe, cabelos castanhos, olhos azuis, sentava-se à sua direita. Sorvia, delicadamente, o vinho tinto italiano. Folheava o jornal noturno. Diante dela, as feições impassíveis, estava uma garota. Encontrava-se no auge dos 16 anos. Cabelos longos e castanhos. A pele pálida cor de citrino. Os olhos de um azul acinzentado, tipicamente russo. O silêncio reinava em todo ambiente.

Mecanicamente, Anya levantava a colher de sopa até a boca e sorvia o conteúdo sem qualquer vontade. Parecia estar sentada na cadeira elétrica. Não olhava os outros integrantes da família. Sequer tinha qualquer intenção de lhes dar a possibilidade de interpelá-la. Não queria escutá-los. Não queria olhá-los. Não queria nem mesmo estar ali sentada àquela mesa. Se pudesse gritar, o seu berro teria enchido toda a cidade com um urro ensurdecedor.

– Como está indo no colégio, dochka?

Perguntou, repentinamente, a voz severa do pai. Isso tirou-a dos pensamentos distantes.

- Falei com seu professor de música semana passada. Disse que suas notas estão excelentes e que, neste próximo semestre, até poderia entrar em disciplinas extras, para adiantar melhor os seus estudos. Também poderá avançar em francês e em alemão. São línguas importantes e que deve saber.

– Principalmente o francês!

Retrucou a mãe. Olhou para a filha com um sorriso de orgulho.

- Todas as importantes famílias e as mais distintas damas sabem falar o francês. Na Rússia, na época do Império, bons tempos aqueles...

Suspirou.

– Toda a corte Romanov falava francês.

- Se falou com meu professor, por que me pergunta como estou na escola, papai? Não é suficiente o que aquele tratante possa dizer de mim?

Indagou, furiosa. Sentiu raiva pelo o que ocorrera mais cedo. Levantou os olhos para o pai com um sorriso algo irônico no rosto. Porém, sem demonstrá-lo completamente, baixou a vista para o prato.

– E eu não suporto francês, mamãe! Dão-me náuseas aqueles verbos idiotas com aquela pronúncia chata!

– Anya!

A mãe levou a mão ao peito. Parecia assustada pelas palavras da filha.

– Como pode dizer um absurdo desses? Chato ou não, é algo importante na sociedade em que vivemos.

E comeu uma torrada com um pouco de caviar em cima.

– Falando em sociedade, querido, o nosso motorista passará a usar gravata. Os motoristas de todas as minhas amigas usam gravata, só o nosso que não!

Disse a esposa, com uma entonação absurda.

– É muito elegante que os motoristas particulares usem gravata. Está na moda agora! É muito chique!

E sorriu.

- Faça como quiser, Irina. Não presto atenção se o espanhol sequer usa as calças, quanto mais gravatas!

Respondeu Nikolay. Deu um suspiro cansado e virou-se para a filha. Observou-a por um momento e disse:

- Se eu falo com o seu professor, mocinha, é porque se dependesse de você, não saberia nem o seu nome!

Exclamou. Logo, limpou os lábios com um guardanapo.

- Além disso, me preocupo com seu futuro, Anya. Não pode desperdiçar o talento que tem! Toca piano divinamente e quero que saia uma musicista clássica profissional. Está estudando em um dos mais conceituados conservatórios de toda Europa. Ali, tocaram Tchaikovisky, Prokofiev, Rachmaninoff, entre outros nomes conhecidos da música de nosso país.

– Deveria sentir-me feliz por isso?

Ela tornou-se séria. Com atrevimento na expressão, a menina ousou perguntar. Os olhos estavam baixos, enfiados no prato. O rosto, apoiado à mão. Um dos cotovelos sobre a mesa.

- Afinal de contas, este é um sonho seu, papai. Não fui eu quem o escolhi para mim! Nunca quis tocar piano, nem falar francês e acho alemão uma merda!

– Olha como fala com o seu pai, menina!

Repreendeu a mãe. Largou, por fim, o jornal e pegou dos talheres para partir a salada tailandesa.

– Anda com modos muito malcriados, Anya. Não sei onde está aprendendo isso. Minha filha falando como se fosse uma peixeira, uma mucama, uma mulher qualquer!

E revirou os olhos.

– E retire seu braço de cima da mesa. Sente-se reta e pegue direito no seu talher! Esses não são os melhores modos à mesa!

– A comida descerá igual, mamãe! Tenho certeza disso!

Rebateu a jovem. Deu um suspiro entediado. Sem alterar a voz, remexeu a sopa dentro do prato, sem a mínima vontade de comer.

- Deixe-a, Irina!

Nikolay Ivanovich abriu um sorriso sarcástico. Fez um gesto indiferente de mão para a esposa.

– Não quero brigas durante o jantar. Além disso, receio que esse seja o desejo de nossa querida filha, que ultimamente tem feito tudo para que nos aborreçamos com ela. Portanto, não vamos dar a ela o gosto de nos estressarmos com algo que ela fará, querendo ou não!

– Tem razão, querido, você sempre tem razão!

Disse a mulher, com um sorriso ao marido. Pegou-lhe da mão, que estava apoiada à mesa, e a apertou. Ele lhe correspondeu. Apertou a mesma e também sorriu para ela. A mãe, então, perguntou à adolescente:

– Então, querida filha, se não quer ser música nem falar francês, o que vai ser? Ainda com aquela ideia ridícula de ser atriz?

– Quem quer estudar teatro hoje em dia?

Desdenhou o pai, com uma sonora gargalhada. Recostou-se à cadeira.

- Por acaso você quer morrer de fome, terminar seus dias em cima de um escritório sujo, quando não nos braços de um qualquer, que não tem onde cair morto? Essa profissão é consideravelmente inferior a qualquer outra do mesmo nível. Se ao menos fosse uma engenharia!

E pronunciou aquele nome com orgulho.

– Sempre quis ter um filho homem para fazer dele um engenheiro!

– Ela pode ser o que nós quisermos, querido!

Atalhou a mãe, e sorriu.

– Anya é inteligente. Em qualquer curso superior que a coloquemos, se sairá bem. Tenho certeza disso!

– As engenharias não foram feitas para as mentes femininas, minha querida!

Respondeu o pai e voltou-se para provar do vinho.

– Vocês, mulheres, nunca são boas o suficiente para os números, exceto claro, o extrato bancário de um homem!

Comentou com sarcasmo.

– Mas uma coisa é certa: enquanto eu viver, Anya, você não desperdiçará a vida aprendendo a ser uma puta!

– Ao menos eu estaria feliz, papai!

Disse ela. Sentiu o peito subir e descer com a respiração. Esta tornara-se acelerada pela revolta que sentia.

– Eu queria poder estudar o que eu gosto.

– Você não sabe o que é a felicidade, fedelha. Nem muito menos sabe do que gosta! Nós, seus pais, sabemos o que é melhor para você.

Retrucou o pai, asperamente. E bateu com os talheres em cima da mesa. Fez a esposa, que observava a cena, sobressaltar-se.

- Pago caro para que tenha a melhor educação e é assim que me agradece? Quantas não queriam estar no seu lugar?

– Querido...

A mãe tentou acalmá-lo.

- Será que não podemos ter uma hora em família na qual estejamos em paz? Todos os dias é a mesma coisa, a mesma discussão...

Irina apertou o canto interno dos olhos com os dedos, nervosa e irritada.

- Por que não deixa que essa tola estude o que ela quiser, Nikki? Ao menos teremos paz nesta casa!

– Porque esta tola é minha filha e não permitirei que manche o bom nome da nossa família! Você, Ira, deveria se preocupar também com ela, ao invés de só pensar em joias e vestidos, sapatos e bolsas!

– Agora você está pedindo demais!

Rebateu a mãe, indignada com a imposição.

– A Anya vive sem mim, respira sem mim, mas minhas belas joias infelizmente precisam de mim para viver!

E tocou o belo colar de turmalina que trazia naquele momento.

– Olhe para isso, querido, encontrei essa preciosidade quando estava caminhando pela praça de alimentação! Custou barato, 200 mil euros. De vez em quando achamos coisas extraordinárias em lojas menores!

– Gastou tudo isso nessa porcaria de colar, Irina?

O marido parou com a taça de champanhe a meio caminha da boca. Olhou para a sorridente mulher com uma mirada assustada e os sobrolhos franzidos.

– Sabe quanto me custa juntar todo este dinheiro? Você sabe quantos dias eu tenho que trabalhar para juntar esta quantia que você gastou neste maldito colar? E você pega e dá numa joia, enquanto eu não tenho mais uma cartola que preste! Tenho que me apresentar de casaca puída porque a minha esposa gasta a fortuna da família em ninharias!

– Ah, querido, não seja egoísta! Comprei presentes para você também!

E aproximou o rosto do dele. Beijou-o nos lábios.

– Eu sempre me lembro do meu maridinho que trabalha tão duro, assinando papéis, para manter esta família!

– Não sei o que seria de você sem mim, Irina!

Disse ele e balançou a cabeça negativamente.

– Por que não levou a sua filha para que escolhesse o vestido que usará amanhã no almoço com as famílias Al Shahi e Schummacher?

– Eu comprei o vestido dela!

E ambos olharam para a filha. Esta levantou os olhos para eles de forma séria e nada satisfeita. Ainda mexia a colher dentro da sopa.

– Um belo modelo do Dolce&Gabbana. Também trouxe sapatos, maquiagem e uma linda bolsa, tudo caro, claro! Está tudo no seu quarto, Anya!

– Vocês não têm o direito de escolher a minha vida!

Disse Anya, lívida por falarem dela como se não estivesse ali.

- Sou eu quem vai vivê-la, tenho direito de tomar as minhas decisões, de estudar o que quero, de comprar as minhas roupas, de escolher o meu marido!

– Não quando suas decisões põem em risco a reputação de seus pais!

Volveu-lhe o pai, encarando-a.

– Seu pai é uma pessoa pública, minha querida. Quase todos os dias sai na televisão. Não podemos ter manchas no nosso nome, por nada nesse mundo ou então, as instituições das quais retiramos grande parte de impostos, se arruinariam no dia seguinte.

Disse a mãe, sorrindo sempre.

– Você vai terminar o conservatório e o balé, vai ser pianista profissional e bailarina clássica. Usará amanhã o vestido que sua devotada mãe lhe comprou. Casará com quem eu determinar como melhor pretendente para você e depois fará o que quiser da sua miserável vida. Mas até lá, fará o que eu mandar!

O pai concluiu a frase desferindo o punho sobre a mesa. Fez levantar os pratos e as taças.

Anya bufou. Apertou, com força, o guardanapo na mão. Com lágrimas nos olhos, levantou, desastradamente, da mesa. Quase derrubou a cadeira. Precipitou-se para as escadas. Subiu, rapidamente, os degraus. Trancou-se no quarto. O último que puderam escutar do andar de cima, foi a porta sendo batida violentamente. Irina, com um fundo suspiro de tédio, atirou em cima da mesa o guardanapo que usara na refeição noturna. Fez uma pose de austeridade e levantou-se.

– Aonde vai?

Perguntou Nikolay, tomando do vinho com tranquilidade, embora com uma expressão severa.

– Ao meu quarto, preciso de um banho de sais minerais belgas! Esta briga me fez perder a fome!

A mulher retirou-se.

- Necessito de ar fresco antes que comece a passar mal nessa casa!

No quarto, Anya estava vestida em um confortável vestido bem feminino. Havia-se jogado sobre a imensa cama, muito bem arrumada. Chorava convulsivamente. As suas costas, cobertas pelo longo cabelo, sacudiam-se pelo pranto inconformado. O rosto, afundado nos braços. Naquele momento, a ama da família, uma senhora branca, de cabelos loiros já pintados de grisalho, entrou com cuidado no quarto. Foi até ela. Havia escutado a briga, como acontecia todos os dias.

Devushka...

Chamou-a com carinho.

- Vamos, menina, não fique assim. Chorar não vai adiantar nada, tem que reagir!

Acariciava-a nos cabelos. Sentou-se ao seu lado, sobre o colchão.

- Levante-se dessa cama, Anushka. Escove os dentes e venha deitar ou vai perder a hora do colégio amanhã e o seu pai vai ficar uma fera!

– Não quero mais ir ao colégio, nem ao balé, nem ao conservatório! Não quero mais ver o vestido que minha mãe me arranjou. Não quero mais viver, Gasha!

Dizia, com a cabeça enfiada no travesseiro. Estava aos soluços. A voz embargada por estar sendo abafada.

– E você acha que desafiar o seu pai é o melhor caminho? Escute a voz da experiência. Faça o que o seu pai manda. Seis anos passam rápidos. Terá a sua maior idade, será livre e poderá fazer o que quiser!

Anya sentara-se. Enxugara as lágrimas com as mãos pálidas. Agáfia a olhou com um sorriso. Tinha-a visto nascer, queria-a como a uma filha; a filha que nunca tivera.

– Não o faça zangar-se mais. É capaz de mandá-la a um colégio interno, devushka!

– Não é justo que decida minha vida...

Estava indignada.

- Eu sei que só tenho 16 anos, mas já tenho querer próprio. Por que não posso viver como eu quero? Por que não posso ter a vida que quero?

– Ele só quer o melhor para você, liubov'. Aproveite as oportunidades que a vida lhe dá. Tem tudo o que quer, Anya Nikolayevna. Vive como uma tzarina, muitas queriam ter ao menos metade do que você tem!

– De que adianta ter tanto se não posso decidir nada, nem sequer a roupa que visto?

Falou e baixou a cabeça.

– Não o desafie, querida, e verá que logo estará fora dessa casa!

Ela rendeu-se. Deitou-se com a cabeça no colo da senhora. Deixou-se acariciar ternamente. Costumava fazer aquilo quando era pequena e sofria uma retaliação dos pais por alguma travessura. Agáfia começou a cantar-lhe uma canção que lhe costumava cantar quando era só uma menina e ainda estavam em Moscou, no auge do inverno russo. Rapidamente, um sorriso surgiu no rosto afogueado de Anya. Ela encolheu-se ainda mais sobre o colchão.

– Já decidiu o que vai vestir amanhã?

Perguntou, de repente, a governanta.

– O que terá amanhã de especial para que me vista diferente?

Indagou a menina, apática, olhando para o nada.

– Não me diga que esqueceu? Amanhã é o jantar onde seu pai fechará o negócio que tanto espera. Precisa estar linda e sei que não precisará esforços para isso!

Sorriu.

– Sua amiga Zafirah e a sua prima Charlote virão também com a família. Afinal de contas, o pai dela também é acionista das empresas.

– Não desafiar meu pai também inclui aguentar esse jantar irritante com essas garotas chatas?

Anya a olhou. Ainda deitada no colo da ama. Parecia aflita e amargurada.

– A Zafirah é metida, acha que sabe de tudo e me trata como bobona e a Llote fica o tempo todo grudada com as coisas dela e nem me dá atenção!

Cruzou os braços, emburrada.

– A Zafirah é algo especial, tem um caráter forte e difícil, mas é uma boa menina. Tenho certeza que gosta muito de você. E a sua prima é mais silenciosa, prefere ficar no canto dela do que metida com as outras pessoas. Mas não significa que não te queira!

– Mas eu não quero ir ao almoço! Não quero ver ninguém, Gasha!

Decretou a menina e levantou-se rapidamente. Pôs-se de quatro sobre a cama. Encarou a ama com seriedade.

- Eu prefiro me atirar em um buraco no gelo do que ter que vestir o vestido ridículo que a minha mãe deve ter comprado!

– Tenho certeza que não é ridículo. Mesmo sua mãe sendo expansiva com dinheiro, eu reconheço que ela tem bom gosto! Mas, depois pensamos nisso, Anya. Agora vou descer, porque devem estar me amaldiçoando na cozinha!

Ergueu-se.

- E a senhorita deveria se apressar, ande logo a escovar os dentes e deitar-se. Vamos, não crie mais problemas, Anya. Seja obediente e durma antes que seu pai suba para verificar!

– Eu já irei, prometo.

Disse a menina e forçou um sorriso.

– É assim que se faz.

Agáfia beijou-lhe nos cabelos e saiu. Deixou a garota com os próprios pensamentos.

O.o.O.o.O

O ambiente estava obscurecido pela falta de iluminação elétrica. Algumas velas estavam acesas e clareavam, sombriamente, o local. Era uma bela sala no décimo segundo andar de um simples edifício em um dos bairros mais afastados de Londres. Uma música sensual tocava em uma sonoridade ambiente. Preenchia o local com um ritmo frenético. Os golpes lentos e ritmados. A escala subindo e descendo, em uma tortuosa sinfonia que acendia os desejos. Um aroma adocicado e forte de verbena enchia o apartamento.

Estava sentado sobre o sofá. Uma calça jeans confortável, sem camisa. Olhava na direção da porta ao final do corredor, que ficava de frente para ele. Aquela espera abria todas as cortinas dos seus mais pervertidos desvios sexuais. Ele sabia o que sairia dali de dentro. Por isso, esboçou no rosto amorenado um semblante satisfeito e ansioso. A respiração tornou-se sôfrega. Alterou-se. Os olhos azuis esverdeados tornaram-se somente verdes. Fitavam aquela direção com a mais sacana das intenções.

Diante da sua realidade cotidiana, que não era nenhum conto de fadas, Aioros Christakos, renomado historiador grego, de 36 anos, levava a vida como podia. Era professor da universidade de Londres e de alguns colégios bem conceituados da capital inglesa, aonde ensinava também mitologia greco-romana. Depois que a esposa, Marin Christakos, professora de balé clássico e também de japonês para o consulado do Japão, no centro da cidade, descobrira a gravidez, ela havia perdido um pouco da antiga formosura e vitalidade que antes possuía. Estava longe de ter o corpo quase perfeito que o havia deixado louco e que o afastara de numerosos perigos que o rodeavam nas instituições por onde dava aulas.

Não duvidava de seus sentimentos com relação à sua companheira. Realmente a estimava, a amava e a respeitava. A família era a sua base, era quem o segurava e o mantinha sob controle. Mas, com a autoestima baixa, parecendo verdadeiramente transparecer a idade que de fato possuía quando antes aparentava ser bem mais nova do que era, serena em uma expressão agora maternal, a mulher abandonou-o quase que completamente em prol da gestação que ainda estava no início. Marin deixou de ser para ele o paliativo ao qual ele recorria para refrear seus desejos e, portanto, não lhe restava nada mais do que se apegar aos verdadeiros objetos de sua concupiscência naqueles últimos dois meses: as adolescentes profissionais. Não eram difíceis de serem achadas em Londres.

– Vamos, Josephine...

Ele sorriu por aquele nome profissional que a garota lhe havia dado ao chegar ao apartamento. Ele mantinha aquela casa para aqueles encontros clandestinos.

– Venha para o papai...

A porta abriu-se e ele se retesou sobre o sofá. A garota saiu vestida em um espartilho completo coberto de rendas. Todo negro e com as cintas ligas apertando as coxas grossas. Não sabia quem era ela. Tampouco lhe interessava saber. Mas, aquelas peças lhe propunham um prazer sem igual, quase uma enxurrada de estímulo sexual ao ver a sua vítima vestida naqueles trajes. E deu-se conta de que antes cabia a Marin a tarefa de realizar as suas desviadas fantasias sexuais, algo que ela realmente não terminava de entender. Sempre revirava os olhos quando ele pedia para que pusesse aquele tipo de roupa, pois as mesmas facilmente ficavam belas em seu corpo. Porém, após a gravidez, ela tornara-se mais larga e mais torneada e dificilmente tinha vontade de vestir algo como aquilo e nem lhe cairia tão bem como outrora.

A jovem parou na porta do aposento do qual havia saído. Os cabelos longos e aloirados. Divididos em duas tranças, uma de cada lado. Caindo pelos ombros. Fitou-o com os profundos olhos castanhos repletos de malícia. Não era o primeiro cliente, para quem o cafetão italiano a mandava, que apreciava um sexo mais violento. Estava acostumada a lidar com aquele tipo de situação e se saia muitíssimo bem com homens dominadores e mais velhos. Ela sabia exatamente o que ele esperava. O que queria que ela fizesse. Que tipo de comportamento ela tivesse. Ou o que ele desejava escutar. E por isso ela o viu levantar-se do sofá. Encarou-a como encararia um lobo à sua presa. E ela relanceou os olhos pelo corpo masculino. Expressava um semblante sarcástico, como só uma profissional faria.

E, então, ela caminhou para ele, que permaneceu parado. Parecia seriamente contrito. Fitou a garota de programa que bem poderia ser uma filha. Embora a visse se aproximar cada vez mais, Aioros era simplesmente incapaz de mover um só músculo do corpo. Escutava os saltos negros e finos teclando forte o piso de madeira do apartamento. Sentiu o pênis enrijecer-se e expandir-se, de tal forma que quase o fez perder os sentidos.

Ela chegou até ele, nas suas meias sete oitavos transparentes. Pisava forte, sorria profissionalmente, ofegante. De repente, se enlaçou nos braços másculos, sem que ele esperasse. Os lábios pintados pressionaram a boca masculina contra si. Ele havia previamente combinado que desejava beijar. Com a ponta do sapato de salto alto, ela o tocou no abdômen bem definido. Levantou a perna e o empurrou para trás. Era muito sensual. Fê-lo cair sentado em cima do sofá atrás de si. Logo, sentou-se sobre ele. Rodeou o corpo masculino com as pernas. Ele apertou forte a curvatura da cintura fina. Ela deteve o beijo, algo superficial, para olhá-lo nos olhos. Colocou o semblante mais selvagem que foi capaz de forjar. Novamente espremeu a boca contra as mandíbulas masculinas, enquanto o homem entreabria os lábios para receber os dela em um beijo quente, profundo, intenso.

Ele virou-se na direção do quarto. Caminhou, com ela nos braços, até a cama de casal. As pernas femininas vestidas nas meias que lhe iam até a metade das coxas e estas em volta da cintura masculina. Deitou-a na cama, ficando ele mesmo por cima dela. Beijou-a ferozmente. Deixou que os dedos finos percorressem o tórax bem trabalhado. As pernas haviam afrouxado em volta do seu corpo. Entreabriram-se mais para as laterais. Interrompendo o beijo. Aioros desabotoou, com certa rapidez, as mãos trêmulas para a obtenção da satisfação plena, o pequeno zíper do corpete e expôs os seios.

Estava tomado pelos mais impulsivos instintos masculinos, de homem maduro e experiente. E era, precisamente, naquele momento, que sempre o atingiam o receio, os conflitos, o medo, as incertezas, o pânico por estar ali, entre as pernas de uma menor que não conhecia. De estar em um relacionamento clandestino fora do casamento, ao qual ele julgava sagrado. Por estar beijando a uma mulher que não era a sua esposa. Pela possibilidade, pelos riscos que ele conhecia daquele mundo onde lhe era dado o dever de aceitar a distância de sua mulher, mas não o direito de trepar com outras para refrear suas necessidades masculinas.

O tempo todo em que tinha a menina sob o peso do corpo, as mãos grandes alisavam as coxas grossas. Apertavam a carne pálida. Deixava-o totalmente louco com a situação. A adrenalina de estar com uma jovem prostituta o enchia de tesão. Terminando de retirar o corpete negro de rendas que ela trazia, ele principiou a chupar os pequenos mamilos rosados, com uma vontade louca, como se estivesse com uma fome de dias e não estava longe da verdade. O último encontro com uma adolescente havia sido três dias antes. Com Marin, a coisa era bem mais complicada. Ela, simplesmente, havia se abdicado das relações íntimas com medo de machucar a criança. Por mais que o médico lhe dissesse que o sexo não tinha problema algum.

Os dedos ágeis adentraram por debaixo da cinta-liga. Arrancaram a peça íntima que ela levava. Puxou o tecido delicado para baixo, com tal força que este arrebentou. Tocou-a na região íntima, acariciou-a com tanta destreza que a sentiu, rapidamente, molhada, lubrificada para recebê-lo. Ele, então, deteve os movimentos. Ficou de joelhos sobre o colchão e abriu a própria calça.

Trouxe para fora o pau rígido. O mesmo foi abocanhando pela garotinha em cima da cama. Ela começou a chupá-lo, em um vai e vem tão intenso que Aioros julgava não aguentar mais. Ela descia os lábios experimentados por toda a extensão do pênis, indo e vindo; sôfrega, gemendo sensualmente, enquanto punha quase todo aquele pau dentro da boca. Passava a língua pela cabeça enrijecida. Apertava a base com a mão branca e olhava para cima. Buscava o rosto transfigurado do cliente, que ardia de prazer.

– Que pau grande!

Dizia ela, entre uma chupada e outra, gemendo sensualmente.

– É muito gostoso. Sempre quis chupar um pau assim, grande e grosso!

– Então chupa, vadia! Dá uma mamada gostosa!

Ela caiu de boca. Chupava-o com vontade, enfiando todo o pau, quase engasgando, enquanto ele começou a penetrá-la com dedos ágeis.

– Enfia, vai, mete esse dedo no meu rabo!

Ela gemia de tesão. Sentia ser penetrada em todas as suas áreas.

– Ai, que gostoso! Mete mais, mete!

– Já basta...

Disse ele, com a voz enrouquecida.

– Chega, eu não quero gozar aqui...

Sorriu com malícia.

Pegou-a pelo braço, com força. Virou-a de costas para si. Deitou-a de bruços sobre a cama e separou as pernas femininas violentamente, com agressividade, tamanho era o desejo de estar dentro dela. Rapidamente, colocou o preservativo e a penetrou com vontade, sem pressa; porém, com vigor, com um desejo tão grande que chegou a gemer alto de tanto tesão. A jovem embaixo de si principiou a gritar palavras vulgares de encorajamento. Passou a língua pelos lábios vermelhos e inchados. Ele fodia com força aquela boceta molhada.

– Enfia tudo, mete esse pau gostoso!

Gritava ela, no auge do êxtase.

– Você é apertada!

Disse ele, no momento em que a agarrou pelos cabelos e a puxou para trás a fim de lhe falar no ouvido.

– Deve fazer pouco tempo que perdeu o cabaço, não é?

E apertou mais a pressão nas investidas e nos cabelos. Fê-la contrair um pouco o rosto.

– Diz, Josephine...

Ele dramatizou o nome, escarnecendo da alcunha que ela tinha.

– Eu sou o segundo, o terceiro, o décimo. Em qual número da sua lista eu entro?

– É o meu quarto cliente!

Respondeu ela, e sentiu os dedos masculinos repuxarem com mais força o seu cabelo.

– Isso, que gostoso que você mete! Fode mais! Fode mais!

– Qual é a sua idade, piranha?

Perguntou ele, conduzindo o pau naquele entra e sai vigoroso do corpo feminino.

– Dezoito!

Mentiu ela.

– Ai!

Gemeu, quando sentiu que ele a imprensara fortemente contra a cama. Apertara os peitos flácidos com olhar de desejo.

– Está gostando, vagabunda?

– Muito. Fode minha xoxota bem gostoso!

Respondeu ela. Gritava cada vez mais escandalosamente.

Ele começou a investir nela devagar. Diminuiu, por um instante, a força das estocadas. Sentia-se entrar e sair daquela concavidade úmida, enquanto abria ainda mais a entrada com a mão. Ela seguia gemendo de tesão em cima da cama.

– Mais rápido.

Pedia ela.

– Mais forte! Me fode gostoso, quero o seu pau dentro de mim!

A mão masculina escorregou pelo ventre reto. Apertou as nádegas com força. Deslizou para a coxa, onde se deteve. O toque sobre a pele o fez estremecer enquanto ouvia ainda aquela voz feminina falando coisas vulgares com uma entonação jovial, misturada com as gírias do submundo que ela despejava naquele momento, entre um gemido e outro. E o resfolegar dele, a respiração quente e sedutora na nuca da garota, metendo fortemente naquela boceta, o fazia delirar.

E os dedos masculinos buscaram a união entre as pernas dela. Tocaram aquele lugar úmido de desejo, enquanto a outra mão desenhava, com as pontas dos dedos, as auréolas em volta dos peitos. Ele apertou, forte, o bico entre o polegar e o indicador. Lambeu os lábios. Sentiu que a própria boca estava ali, chupando e mordendo aqueles bicos.

– Eu gosto de garotas como você.

Disse ele, com uma voz sussurrada, na orelha da jovem. Ela sorriu alto e devassamente.

– Adoro meter o meu pau em uma putinha gostosa e safada igual a você!

Ela soltou um gemido alto de dor por conta de uma estocada mais forte.

– Cala a boca, vadia, quer acordar o prédio inteiro?

E os dedos seguiam massageando a carne tenra, o clitóris inchado, os fluidos que se desfaziam entre as unhas, enquanto a virilidade o fazia jogar-se contra ela, nos últimos espasmos que antecediam o ápice total. Ele a ouvia sussurrar contra o colchão, ordenando-o:

– Mete mais... fode bem dentro...

Falava a garota, com a voz alterada e soltando gemidos agudos.

– Então gosta de meninas submissas, professor?

– Você não sabe o quanto!

Ele continuou metendo de forma rápida. Sentiu os dedos molharem-se do prazer dela naquele instante. Entrava e saía com o pênis da concavidade molhada. Até que, por fim, sentiu que os membros inferiores estremeceram. Um gemido algo animalesco se desprendeu dos lábios do professor, enquanto espremia a jovem entre o corpo robusto e a cama. Quase a fez sufocar por imprensa-la de tal forma. Os pulmões se contraíram com o peso dele sobre as delicadas costas. Resfolegante, ele rolou para o lado. Saiu de cima dela e libertou-a, finalmente, do julgo. Ordenou:

– Agora chupa tudo! Quero o meu pau brilhando!

A prostituta atirou-se para ele. Ajoelhou-se sobre a cama e deu inteira atenção ao pênis lambuzado. Retirou o preservativo que ele havia usado e começou lambê-lo completamente. Passava a língua em toda a extensão da pele sensível e inchada, enquanto ele sorria de satisfação pelo desempenho dela. Ela lhe retribuía com o mais malicioso sorriso que era capaz de forjar. Mamava gostoso, sentindo o sabor dele. Lambeu os testículos, beijou a glande vermelha, chupou vigorosamente. Até que ele levantou-se, após ela ter finalizado a "limpeza". Olhou-a e disse, com a voz entrecortada pelo cansaço que o abateu, enquanto se dirigia ao banheiro para se limpar:

– O seu dinheiro está em cima da mesa da cozinha. Saia sem mexer em nada ou reclamarei com o italiano e ele ficará bem irritado com isso.

O.o.O.o.O

Kanon andava de um lado a outro da sala do pequeno apartamento que havia comprado junto com o irmão, quando ainda eram solteiros. Localizava-se em um bairro não tão tradicional quanto o que Saga vivia ao lado da esposa, mas, ainda assim, era bonito, bem localizado, com excelentes restaurantes e uma considerável gama de opções para quem quer se divertir.

– Porra, será que ele decidiu não vir e ficar de babá daquela mulher histérica?

Dizia, impaciente. Olhou, novamente, para um grande relógio de metal cinza, na parede da sala. Notara que o ponteiro dos segundos mal tinha se movido. Esse fato aumentou ainda mais a ansiedade, mesmo que essa característica não pertencesse àquela personalidade fria e racional.

Suspirou. Passou, nervosamente, as mãos pelos cabelos. Deixou-os cair, algo bagunçados, pelos ombros. Caminhou na direção de um pequeno e discreto bar no canto do cômodo. O apartamento tinha um design moderno e frio, não transmitindo uma sensação aconchegante a quem ali entrasse. O sofá era de couro negro; as estantes, assim como as prateleiras, eram de vidro e metal. Os quadros eram fotografias noturnas em preto e branco da cidade londrina. O piso, de uma cerâmica escura, onde um tapete vinho, posto embaixo da mesa de centro e de frente para o sofá, dava um pouco de cor àquele lugar.

Serviu-se de whisky puro. Virou-o de uma só vez. Conteve a tremedeira que sentia nas mãos pela abstinência de horas sem droga em que se encontrava. Precisava de mais dinheiro para sustentar o vício. Nos últimos tempos, havia consumido boa parte do que tinha na conta bancária. Restava-lhe apenas o suficiente para que pudesse pagar as dívidas exorbitantes dos cartões de créditos. Levava um padrão que ele, Kanon, não era capaz de manter.

Mesmo sendo um homem sensato, apesar de alguns atos que, aos olhos do irmão, eram completamente irresponsáveis, levava no íntimo uma obsessiva competição com o gêmeo mais velho, que o corroía. Negava-se, constantemente, em acreditar ser possuidor de tal sentimento. Porém, agia normalmente movido por um impulso em que ele deveria ser melhor, fosse no que fosse, que Saga.

Um barulho de chave na porta anunciou a chegada do irmão. Kanon voltou os orbes para a direção daquele que era fisicamente igual a si e que, naquele momento, adentrava a casa.

– Até que enfim.

Disse, mal humorado, o gêmeo mais novo. As sobrancelhas franzidas. Depositou em cima do balcão do pequeno bar um copo vazio.

– Eu tive uma reunião de última hora.

Explicou Saga. Afrouxou a gravada de cetim marinho que parecia enforcá-lo. Ignorou o estado de espírito do outro, que não era dos melhores. Serviu-se de um copo da mesma bebida que o irmão recém tinha sorvido. Mas, diferente dele, colocou duas pedras de gelo. Toda a sua ação fora observada.

– E então?

Tomou um gole.

– O que quer?

Foi direto ao ponto. Viu uma careta de contrariedade na face do outro. Kanon detestava sentir que o mais velho estava, de algum jeito, por cima. E ele, na posição de pedinte. O que naquele momento não deixava de ser a verdade.

Engoliu a seco aquela pergunta. Por um segundo, titubeou em recuar naquele pedido. A curta frase que ouvira feriu seu ego. Pensou em voltar atrás. Entretanto, devido ao prazo estipulado pelo italiano no pagamento da dívida que, agora, ultrapassava dez mil euros, não poderia se dar ao luxo de mostrar-se orgulhoso.

– Preciso de dinheiro, irmão.

Disse. Recebeu, no mesmo instante, um olhar de reprovação.

– De novo?

Falou Saga, com um tom de voz baixo. Fitou o irmão com uma profunda seriedade e preocupação.

– E agora é para que? Para pagar suas prostitutas, sua ostentação ou seu vício?

– Eu tenho direitos, Saga, em boa parte das ações! Não tenho que te dar satisfações!

Disse, alterado, com os olhos vidrados no rosto do outro.

– Sim, você tem direito na empresa, mas isso não te dá o direito de destruir a parte que lhe cabe!

Rebateu o mais velho, no mesmo tom.

– Além disso, irmão, não tem aparecido por lá já faz alguns dias. Na reunião de hoje deveria estar presente, mas onde se encontrava? Hein? Provavelmente enfiado em alguma zona em busca de droga e diversão. Kanon, ultimamente, é só isso que busca. Nada mais!

Terminou de falar. Pronunciou as últimas palavras quase aos berros. As atitudes do mais novo andavam engasgadas na garganta.

– E você? Acaso se esqueceu do tempo que segurei sozinho aquela merda em um dos piores momentos financeiros da empresa e que só não faliu porque eu dormia e acordava naquela sala, com aqueles assessores imbecis, enquanto você, querido irmão, estava lá, atendendo aos caprichos da sua esposa que nem para gerar uma cria serve!

– Cale-se! Você não tem o direito de falar assim da Shina! Você não sabe pelo que estamos passando por ela não poder engravidar.

– E nem quero saber! Para mim foda-se você e seu casamento falido! O que interessa é que eu te ajudei, levantei aquela porra com acordos com o Oriente e graças a minha competência, hoje você ocupa o cargo que ocupa. Então, essa é a hora para que me recompense pelo meu esforço. Caso contrário, lutarei pelo meu direito à vice-presidência e sabe que quando eu quero algo, eu consigo, não é?

Saga engoliu aquelas palavras de ameaça. Sabia que o irmão mais novo era astuto e caprichoso o suficiente para dar uma perfeita volta que o tiraria daquele cargo. Justamente no momento que estava prestes a ocupar a direção de uma filial próspera.

– Quanto precisa?

Perguntou Saga. Resolveu não arriscar a entrar em uma competição com o irmão menor. Não que tivesse medo de Kanon, mas sabia que este tinha pessoas influentes, capazes de agir ao seu favor em troca de algumas notas. Kanon sorriu ao ver que conseguira vencer novamente em um debate. Saíra por cima, como sempre gostava.

– Quinze mil euros.

Respondeu uma quantia maior da que realmente precisava. Isso evitaria um novo pedido de dinheiro por um tempo maior.

– Quinze mil?

Exclamou Saga. Pegou no bolso do blazer uma caneta para preencher o cheque que já tinha em mãos.

– Está se superando, irmão.

Falava enquanto escrevia, apoiado em cima do balcão do mini bar.

– A próxima quantia será de quanto? Trinta mil?

Debochou. Arrancou a folha do talão e a entregou ao outro com um semblante fechado. Kanon pegou o cheque e logo o guardou no bolso. Serviu-se, em seguida, de mais uma dose de whisky.

– Teremos, em breve, um almoço importante na casa de um dos nossos clientes. Gostaria que fosse, pois seria interessante que participasse dessa transação que estamos perto de concluir.

Kanon o observava com atenção. Ainda que uma agitação, pela abstinência, o tomasse gradativamente.

– Eu tenho uns relatórios que eu poderia te passar por e-mail, caso queira entender o andamento do que perdeu, enquanto esteve afastado.

– Me passa que eu leio.

Falou com um tom tranquilo, quase displicente. O que incomodou o irmão mais velho.

– Passarei logo pela manhã e espero mesmo, irmão, que leia. Como falou, você levantou essa empresa enquanto eu estava imerso em meus problemas pessoais. Sei que tem potencial e um invejável senso para negócios. Você persuade com maestria quem quer que seja. Gostaria de tê-lo novamente ao meu lado, na empresa e...

Fez uma pausa.

– Longe do seu maldito vicio.

Kanon parou, pensativo. Refletiu sobre aquelas palavras sinceras ditas pelo irmão. Concordou e, ao mesmo tempo, discordou do que ouvira. Sabia que sua presença era fundamental naquela empresa, mesmo sendo Saga a levar grande parte dos créditos no fechamento de acordos. Fato este que o irritava profundamente. Porém, se afastar do vício lhe soava como algo ridículo e desnecessário. Ao seu ver, tal coisa não lhe atrapalhava em absolutamente nada. Via-se no controle. Bastava apenas ter a droga para manter a serenidade da mente. Porque, sem ela, parava de funcionar.

– Está de saída, não?

Perguntou Kanon, dando as costas para Saga. Caminhou com passos algo descoordenados até uma poltrona iluminada por um abajur, que oferecia uma iluminação focal a meia luz.

– Sim, estou.

Disse Saga. Entendera que a sua presença ali não era mais necessária.

– Amanhã nos falamos. Ligarei para saber a sua opinião quanto ao negócio com os empresários.

Kanon, acomodado na poltrona de couro negro, assim como no sofá, nada disse ou expressou em resposta ao que fora dito pelo irmão. Viu este rendido pela sua falta de interesse no assunto. Saga saiu porta afora. Deixou-o ali, livre para que buscasse, em poucos minutos, a cura para o seu mal.

Pegou um pacote de plástico com uma quantidade mínima de cocaína. Porém, suficiente para aquele momento de desespero, no qual o corpo clamava por aquela substância. Kanon, com as mãos trêmulas, espalhou o pó sobre o braço da poltrona. Cheirava com ansiedade, fome... Sabia que, no dia seguinte, poderia comprar mais.

O.o.O.o.O

Manhã de quarta-feira era sempre chata. Como todas as outras manhãs dos dias da semana. Em qualquer parte do mundo. Ele chegava a dizer que em qualquer século da breve história da humanidade: chata! Sim, desde que inventaram a chatice, as suas manhãs já estavam sendo gestadas e não sabia. E ali estava ele, se levantando após uma noite de terça de muito trabalho. Havia sido escalado para plantão no hospital onde era médico cirurgião justamente no fim de semana, findando a alegria.

Com uma expressão bastante séria, Camus levantou-se com o short de dormir e uma camisa básica de algodão, mangas curtas. Dirigiu-se ao banheiro. Fez a costumeira toalete da manhã, escovou os dentes, tomou um bom banho, a água quente caía sobre a pele branca e o fazia lembrar-se do dia em que transou com uma companheira dentro do banheiro do hospital. Logo, ficou excitado com aquele pensamento. Não que tivesse qualquer sentimento por aquela mulher, muito bonita por sinal, mas era somente um remédio assaz eficaz para que ele pudesse se manter controlado diante dos reais impulsos amorosos e sexuais que lhe confrangiam.

Fechou o chuveiro. Pegou de uma toalha branca e felpuda para secar-se. Saiu do quarto com a mesma amarrada na cintura. Pôs-se a buscar uma camisa no bem organizado guarda-roupa. Precisava chegar cedo ao hospital, era dia de plantão. Seria obrigado a ficar acordado, em pé, durante todo aquele dia, a noite e a madrugada e só voltaria a pregar os olhos às sete horas da manhã seguinte. Ele odiava dar plantões! Principalmente porque, nas noites em que tinha que estar no hospital, perdia de ver a sua aventura clandestina através das cortinas do quarto.

Aliás, um belo quarto. O apartamento ficava em um dos mais luxuosos edifícios do centro de Londres, em um bairro de classe alta, onde figurava a nata da sociedade londrina. O prédio se dividia em duas partes contíguas de apartamentos, com trinta andares cada metade, encontrando-se no centro onde os moradores de ambos os lados compartilhavam elevadores, recepção, piscinas, salas de jogos, salões de festas, entre outras particularidades oferecidas aos condôminos. E ele particularmente apreciava a pequena biblioteca que havia no primeiro piso. E esboçou um sorriso cínico ao lembrar-se daquele lugar.

Camus terminou de vestir a calça e com a camisa negra de botões já posta, principiava agora a calçar os sapatos e o sobretudo, que o vestia belamente. Deixava-o com aquela aparência arrogante e tranquila de francês, como de fato era e por isso mesmo era um suplício ter que viver em um país que, por tanto tempo, foi um reconhecido inimigo de sua pátria. Antigos rancores históricos permeavam a sua cabeça e era inevitável soltar alguma imprecação em língua materna diante de alguns fatos.

Terminada a toalete, saiu do quarto e dirigiu-se até a mesa de café da manhã, posta impecavelmente pela empregada. Uma jovem vinda de Arles e que ele tinha encontrado por acaso. Odiava as faxineiras inglesas com as caras masculinizadas e o jeito sempre tão prepotente de fazer as coisas. Sem sentar-se, pegou da xícara de café, preto, puro e forte, como apreciava pela manhã. Sorveu um gole enquanto folheava o jornal francês, Le Mond, que assinava para ter o que apreciar em seu idioma logo pela manhã. Além de ficar sempre a par do que se passava em seu país.

Após tomar o desjejum, caminhou até os aposentos a fim de juntar as coisas e partir rumo ao hospital. Mas, ao entrar no quarto, enquanto rebuscava a pasta pessoal a fim de verificar se todos os papéis estavam ali, algo chamou a sua atenção através da janela. As cortinas brancas revoavam naquele momento pelo vento fresco que corria naquela primavera inglesa. Ele aproximou-se pé ante pé. Abandonou tudo que estava fazendo e se acercou à janela. Olhou para fora com profunda atenção. Afastou um pouco a borda da cortina a fim de que os olhos azuis, fixamente pousados sobre o objeto de desejo, pudessem ter maior liberdade de apreciar aquela linda aparição. Era ela... era a sua Lúthien

V...v...V

Ela estava sentada na mesa da sala jantar, fartamente preparada para um café da manhã de um batalhão, embora somente três pessoas estivessem presentes naquele momento. Tinha o fone de ouvidos nas orelhas. Uma voz gutural gritava nos tímpanos alguma música cuja melodia doom chegava até os terceiros. Nas mãos, um exemplar de A Balada de Leithian. A jovem estava vestida rebeldemente. Calça cargo, um cinto de couro negro repleto de taxas prateadas, uma blusinha delicada de alças finas, também preta. Parecia completamente alheia ao agitado início de manhã de seus pais.

Seu pai, Johann Schummacher, dono de metade das ações da empresa petrolífera liderada também pelo cunhado da esposa, Nikolay Kyznetsov, um magnata russo que viera se estabelecer em Londres para melhor cuidar dos negócios da família. Johann fora militar na juventude e ainda conservava costumes, físicos e morais, dessa época, a qual ele se referia com bastante orgulho. Levava cabelos claros bem cortados, bem penteados e o rosto muito bem barbeado, com dois olhos azuis claros.

– Eu já entendi, Hans, sei exatamente sobre quantos barris de petróleo estamos falando.

Dizia ele, com o celular no ouvido, enquanto tentava mexer o café.

– Mas, você sabe exatamente como funciona a cabeça dos árabes, não se pode confiar muito neles. Árabes e judeus são duas raças que só querem se aproveitar da bondade alheia. A segunda grande guerra está ai para provar isso.

Ao ouvir aquelas palavras, a garota levantou os olhos do texto para fitar o rosto, quase avermelhado, do pai, no calor da discussão telefônica. Ela suspirou em repreensão, mesmo sabendo que não seria ouvida. Logo, voltou a pousar os orbes azuis esverdeados, muito bem delineados de preto, nas linhas que lia com ligeira satisfação. Diante dela, a mãe, cabelos escuros e olhos de um azul cinzento tipicamente russo, a observava com uma calma atenção.

– Não dê ouvidos ao seu pai, Llote. Sabe como os alemães encaram o holocausto. Embora as pessoas tentem velar constantemente o que ocorreu, chamando essa guerra de "A página negra da história alemã", o fato é que muitos ainda vêm com bons olhos as ideias insanas que queria pregar Hitler.

– Eu não dou ouvidos a ele, mamãe. Na verdade, pouco me importa o que vocês pensam, contanto que não afete a minha vida ou a minha rotina. Poderiam até declarar uma terceira guerra mundial, eu não estaria nem aí para ninguém. Não entendo essa gente que adora se matar por vaidade. Hitler convocou toda uma nação para que lutasse pela ambição de um só homem!

– Hitler fez o que era certo!

Disse Johann, que havia acabado de desligar o celular após fazer algumas recomendações para o almoço daquela tarde, na mansão dos Kyznetsovi.

– Se não fosse por ele expulsar os judeus do nosso país, ainda estaríamos sendo roubados por aqueles patifes. Muito bem fez ele em obrigá-los a usar aquela maldita estrela de Davi no braço, assim podíamos identificar os ladrões.

– Acha certo marcar as pessoas como se fosse gado, papai?

Ela franziu o cenho diante da figura paterna. Olhava-o com profundo interesse e incredulidade.

– Milhões de pessoas morreram de forma covarde em campos de concentração. Não acho que era somente uma questão de salvar o país da bancarrota por conta dos bancos judeus. Era algo muito mais profundo, motivado por ideais racistas e vulgares.

– Estou atrasado!

Disse o homem, sem nem ao menos voltar os olhos, uma única vez, para o rosto irritado da filha. Olhava o relógio no pulso.

– Preciso ir para a empresa. Teremos um encontro importante antes de fecharmos o negócio hoje.

Comentou enquanto se levantava.

– Quero vocês duas prontas antes do meio dia e sem nenhum atraso!

Beijou a esposa nos lábios, que lhe sorria.

– Charlotte!

Chamou a filha que, muito contrariada, o fitou.

– Não faça nenhuma cena hoje. Não quero misturar suas opiniões sobre política, religião ou que quer que seja com meus negócios sobre petróleo. Sabe o quanto este acordo nos dará...

– Mais dinheiro e prestígio.

Ela bufou, voltando a pousar os olhos no livro.

– Já estou cansada de ouvir o senhor falar sempre a mesma coisa, papai! Não se preocupe, não farei ninguém passar vergonha essa tarde, eu prometo.

– Excelente!

Disse, beijando o topo dos cabelos loiros da filha, que tentou escapar quando ele se aproximou.

– Que tenham um bom dia!

Completou. Saiu ao olhar novamente as horas no relógio.

– Oksana...

Chamou a esposa, como se tivesse lembrado de algo. Ela prontamente o olhou, esperando ansiosa o que ele poderia lhe dizer.

– Ponha aquele vestido bege que eu tanto gosto e também as suas belas safiras, que combinam com a cor dos seus olhos.

Ela sorriu, corada pelos comentários.

– E não tome aquele seu remedinho! Quero a minha esposa bastante lúcida durante esta reunião social.

E saiu, desaparecendo pelo corredor.

Sozinhas, mãe e filha permaneceram à mesa, porém cada uma em seu próprio mundo. Do seu canto, diante da xícara de chá, sempre preferira chá ao café que os europeus costumavam tomar, Oksana observava a filha de maneira quase beatífica, como se não a enxergasse. Os olhos azuis, doces e amáveis, estavam pousados sobre a figura jovem que estava diante de si, com os lábios abrindo-se e fechando-se a cada linha que descobria naquele interessante livro.

– Essa sua rebeldia nunca vai levar a nada, minha filha.

Disse, por fim, chamando a atenção da outra. Charlote levantou os olhos para ela.

– Enfrentar os adultos nunca foi a melhor forma de reivindicar algo.

E sorriu, docemente, com uma expressão algo aérea no rosto.

– Por que não põe essas suas ideias excêntricas no papel? Seria um bom modo de fazer história.

– O que acontece, mamãe, é que não terei leitores para os meus livros. Eles serão demasiado inteligentes para o tipo de mentalidade fútil que vejo ao meu redor. Para que escrever livros quando não terei quem os leiam?

Ela fechou o volume que trazia e suspirou.

– Não. A mediocridade realmente triunfou na nossa sociedade atual.

Levantou-se do lugar onde estava. Saiu na direção do quarto a fim de se trocar para ir ao cursinho. Havia terminado o colegial e já estava certa sobre o que pretendia estudar na universidade: ornitologia. Simplesmente adorava aves, principalmente as de rapina. Os falcões eram as suas paixões e era por isso que ela tinha um imenso pôster dessa ave no quarto, em forma de quadro. Colocou o livro sobre a escrivaninha e começou a juntar na mochila o que precisaria levar naquela manhã. Quando terminou de guardar todo o material, principiou a trocar de roupa. Foi exatamente nesse ponto que ela parou.

O movimento das cortinas cor de lavanda na janela chamaram a sua atenção. De súbito, a imagem dele veio à mente. Sua expressão tornou-se ligeiramente séria, mas não de irritação ou contrariedade, como sempre costumava colocar-se quando era irritada. Antes era um semblante de temor misturado à curiosidade, excitação, nervosismo e, principalmente, fantasia. Ela sabia que aquilo era algo clandestino, que muitos considerariam errado, que os pais veriam como inaceitável. Mas, para ela, era somente uma forma bastante interessante e empolgante de se relacionar com alguém.

Mordendo o lábio inferior, na dúvida que a assaltara sobre se ir ou não até aquele local, ela esboçou um sorriso algo travesso nos lábios finos e caminhou até as cortinas que voavam pelo vento frio que entrava por elas. Embora o vidro da janela estivesse metade aberto, era possível ver com nitidez quem estava dentro e quem estava do lado de fora. Foi com um repelão firme que ela abriu as cortinas, cada uma para um lado, e deixou entrar a luz do sol.

Como sempre, como costumava fazer todas as manhãs desde que haviam falado a primeira vez, na biblioteca do primeiro andar do edifício onde eles moravam, aquele misterioso homem, seu vizinho, estava ali. Ficava sempre na janela dos aposentos, que se abria exatamente para a habitação dela, na mesma altura devido a estarem no mesmo piso. Um pouco oculto atrás das cortinas alvas que o escondiam um pouco, porém deixando visível a sua máscula silhueta, Charlote sentia sobre si aquele par de olhos sedutores, azuis, frios, pousados sobre a carne de sua pele e parecendo impingir ali a sua marca.

Ela sabia que era observada e gostava. Sentia quase como um desejo ardente lhe subir pelo corpo ao perceber que era o foco da atenção daquele homem a quem tanto desejava em segredo, desde que o tinha encontrado com um exemplar de O Silmarillion nas mãos. Havia sido meses antes. Esse fato suscitara uma curta conversa pela coincidência, ou não, daquele episódio. Ele, em um determinado momento, chamou-a Lúthien, ao compará-la com a bela elfa, a mais linda filha dos filhos de Llúvatar, o que a fez avermelhar-se de imediato. E ela, por conseguinte, lhe havia respondido que se era a jovem imortal, então ele teria que ser Beren, o mortal por quem Lúthien se apaixonava. Encararam-se por um momento diante daquelas palavras.

Charlotte olhou para fora através do vidro. Deixou os dedos escorregarem pela superfície lisa e fria. Olhava na direção da sombra semioculta da janela diante de si. Ele, por sua vez, deixou-se sair mais à luz. Mostrou-se, sem qualquer timidez ou medo de ser rechaçado. Sabia bem que isso não passaria. Sério, com os olhos azuis fixos na janela dela, pálido de êxtase, Camus observava os movimentos femininos com devassa atenção. Entreabriu os lábios. Passou a língua pela pele ressequida. Ela afastou-se um pouco e retirou a camiseta. Deixou à mostra os pequenos seios apertados em um sutiã também negro, que contrastava com a pele.

Ele costumava irritar-se quando ficava perdido no meio do caos de carros, poluição, ruídos, buzinas e exclamações de raiva e fúria. Ou seja, ingredientes que não faltavam naquela manhã na movimentada avenida sobre a qual moravam. Porém, aquela visão, da sua musa inspiradora, daquela sobre quem estava a escrever um livro erótico, o fazia descontrair. A respiração tornou-se mais ofegante ao acompanhar os movimentos sensuais que o faziam arrepiar-se, tal como a lembrança dela.

Sempre se recordava daquela vez em que tinham se encontrado, conversado por mais de uma hora. Dos encontros fortuitos dentro do elevador ao descerem ou subirem. Do suave que era o toque da pele dela sobre a sua ao lhe estender a mão. Do perfume daquele corpo pequeno. Do toque daqueles lábios em seu rosto quando lhe cumprimentava com um beijo e que ele ainda sentia por muitas horas depois da despedida.

E enquanto ela se despia, de frente para ele, olhando-o ao longe, ele abriu a própria veste e começou a se tocar, masturbando-se com pavoroso desejo. A mão trabalhando, célere, sobre o pênis rígido. Ele fechou os olhos por um momento e logo voltou a abri-los. Fitava-a ao longe. Mordeu os lábios no ardor que sentiu tomá-lo por completo. Imaginava que seria ela, ali, masturbando-o, com ferocidade e satisfação.

Por seu lado, Charlotte havia apanhado a blusa. Havia-a posto, porém não fechado os botões. Com gestos sensuais, levantava os cabelos e mostrava-se para ele. O sutiã negro aparecendo. Os pequenos seios encerrados lá dentro. Essa visão fez com que o homem tivesse o ímpeto de tomá-los na boca. Ela descia as mãos pelo pescoço. Sentia que era ele a tocá-la naquele instante. Apertava os peitos com suavidade, como se fossem as mãos masculinas a massageá-los. Sentia como eles se espremiam entre os dedos. E o fato daquele encontro ser sigiloso só fazia acender ainda mais os sentidos de ambos.

Ela abria a blusa para ele. Sorria com satisfação ao perceber os dois orbes fixos sobre o seu corpo. Atirou a cabeça para trás, vestida em uma saia colegial. Charlote permitia que ele tivesse a plena satisfação com o ventre reto e delicado. Porém, algo aconteceu. Escutou, de súbito, o trinco da porta do quarto girar. Rapidamente, menos de um segundo antes da mãe entrar pela porta, ela fechou a camisa e principiou a abotoar os botões. Virou-se de costas para a janela.

– Charlote, ainda assim, minha filha!

Disse a senhora, entrando no quarto e percebendo-a ainda semivestida.

– Droga, mamãe, não dá para bater na porcaria da porta? Elas foram feitas para isso!

Irritou-se a loira, fechando a blusa rapidamente, com dedos ágeis.

– Não sei que maldita ideia é essa de deixar as portas sem chave dentro desta casa! Até parece que estamos em um acampamento do exército.

– Vai chegar atrasada novamente.

Falou a mãe, sem prestar atenção ao tom brusco da filha.

- Todas as manhãs agora é isso, Llote!

Reclamava Oksana, porém com uma entonação calma e amistosa.

– Todo dia você toma café, sobe ao quarto e leva horas para se vestir. Daqui a pouco chegará uma reclamação por seus atrasos. Vamos, pedirei ao John que traga o carro e eu mesma a levarei.

– Já estou indo, mamãe!

Bufou a menina, terminando de se vestir e pegando a mochila.

– Mas que droga de vida!

Xingava.

– Nem uma puta privacidade se pode ter dentro desta casa. Não vejo a hora de começar a trabalhar e poder viver sozinha, sem ninguém para me encher o saco!

E relanceou os olhos pela janela. Porém, o seu Beren já não estava mais ali. Com certeza dera-se conta de que alguém chegara. Ela suspirou. Naquela manhã, infelizmente, fora obrigada a deter o show particular mais cedo do que de costume. Fechou as cortinas e saiu do quarto batendo a porta atrás de si.

O.o.O.o.O Continua O.o.O.o.O