No dia seguinte, levantei um pouco mais cedo, porém me sentindo bem melhor. Haruhi já estava na minha frente, mas dessa vez eu tomei um susto com a proximidade...

"Peguei você!"

"Por favor, não faça essas brincadeiras sem graça..."

"Veja só, você já está sendo enjoado...Dessa vez eu não trouxe seu café aqui pra cima, pois sabia que você estaria bem melhor hoje..." – E como você poderia saber disso? - "Vamos, levante, troque de roupa e venha comer na cozinha..." – Ela falou já se colocando para fora do meu quarto.

Eu já tinha mencionado isso antes, mas a comida de Haruhi é soberba e, ela não tem talento pra ficar repetindo o cardápio, todo dia tem alguma coisa nova. Hoje nós tínhamos uma espécie de café americanizado. Torradas, geleias, ovos, bacon, suco de frutas e café. Comparada a comida da minha mãe...melhor nem comentar...

Comemos em silêncio, e novamente, eu não havia reparado em Haruhi. Ela usava o mesmo cabelo preso em uma espécie de mini rabo de cavalo. Com o pico do verão se aproximando, a camiseta verde clara e folgada combinava com os shorts brancos. Uma leve gota de suor se formava no pescoço dela...ela me encarou repentinamente...

"O que foi? Tem alguma coisa no meu rosto?" – Me senti levemente febril novamente...

"N-nada, eu só estava..." – Minha atitude foi um pouco ridícula, e eu deixei um pouco de geleia cair no chão.

"Ah Kyon! o que você está fazendo?"

"Desculpe, pode deixar que eu limpo..." - Falei polidamente, mas ela se aproximou e disse:

"Sigh, me dá esse pano aqui. Kyon você gosta de viajar de vez em quando né?" – Não pude responder, pois não consegui afastar minha visão enquanto ela se movimentava com aquele pano de chão nas mãos. Acho que estou me sentindo mal...

"Eu vou pra sala, e..."

"Espera, já que você está melhor, eu trouxe alguns livros pra você estudar comigo" – Apenas grunhi em reprovação.

Eu realmente não estava no humor para estudos. Mas isso não impediria Haruhi de me forçar a querer. Depois de uma hora de aulas de reforço, ela foi para a cozinha preparar o almoço. Aproveitei para distrair minha mente com a péssima programação da TV.

Nada de bom estava passando. Talvez por falta do que fazer, eu fui até a cozinha e me sentei na mesa.

"O que foi Kyon? Não tem nada de bom na TV?"

"Não...eu não sei o que se passa na cabeça de quem faz essas programações..."

"Então concordamos, pois eu também não consigo mais ficar assistindo televisão. Salvo raríssimas exceções, sempre acho uma perda de tempo tremenda." – Haruhi estava com o avental florido de ontem.

"Eu nem consigo imaginar você vendo TV. Eu quero dizer você gosta de atividades práticas não é?" – Ela virou e me olhou de rabo de olho...

"Sim, eu prefiro, é muito mais divertido. Você não concorda?"

"Acho que sim. De qualquer forma, sei que é pedir muito, mas você poderia dar uma variada nas nossas atividades no fim de semana não? Eu gostaria de fazer alguma coisa mais leve de vez em quando..."

"Tipo o que?"

"Não sei, eu apenas divaguei, mas não pensei profundamente..."

"Vamos lá Kyon, pare de ser preguiçoso. Pode ser que eu ria da sua sugestão, mas pode ter certeza que eu vou considera-la antes de fazer isso..." – Eu sorri levemente, e me coloquei de pés. O cheiro da comida já estava tentador. Andei até o fogão onde Haruhi estava e questionei:

"O que você está cozinhando aí?" – Ela se assustou, provavelmente por não perceber que eu tinha me aproximado...

"Vem aqui ver..." – Eu beirei o fogão. Haruhi então pegou um punhado de algo e fez sinal para eu abrir a boca...Fiquei um pouco incomodado com a cena, mas participei por vontade própria... - "E então?"

Eu fitei aquele rosto perfeito e seu sorriso vitorioso enquanto mastigava e, posso estar enganado, mas acho que confundi as impressões: "Maravilhoso..." – Eu congelei ao perceber o significado duplo do que eu estava dizendo. Haruhi pareceu entender assim também, já que ela ficou levemente corada e desviou seu olhar. – "esse sabor está maravilhoso" remedei antes que atmosfera ficasse demasiadamente madura...


Apesar da minha recuperação rápida, não adiantou. Durante o almoço ficamos em silêncio e eu comecei a ficar um pouco constrangido. Eu queria saber no que Haruhi estava pensando. Por isso quebrei o gelo...

"Sobre minha proposta anterior, vou pensar seriamente nela. E espero que você não desdenhe de tudo que eu recomendar..."

"Ponha empenho nisso então, quem sabe eu não te promova a alguma coisa..." – Ela falou com o jeito animado que sempre a acompanhava nos assuntos sobre a Brigada SOS.

"E o que a Brigada SOS vai fazer nesse fim de semana?"

"Eu cancelei as atividades desse fim de semana..." – Ela falou com uma expressão não usual...

"Por que?"

"Bem...acho que não podemos fazer muita coisa se estivermos incompletos..." – Haruhi pareceu se irritar com a própria resposta.

Aproveitando a deixa para provocá-la...

"Quer dizer que eu sou um membro importante também?" – Perguntei ceticamente.

"Ah Por favor Kyon, você é...você é..." – Ela começou a ficar nervosa e começou a escorregar nas palavras. Eu fitei Haruhi com uma expressão curiosa, o que pareceu fazê-la tropeçar cada vez mais... – "Você é só um idiota estúpido...e não fique achando que foi só por causa de você que eu cancelei nossas atividades. Eu tenho outras coisas pra fazer nesse fim de semana..." - E fim de assunto. Essas "outras coisas" com certeza não existiam, mas não quis mais ficar testando a paciência de Haruhi. Pelo menos ela voltou a ser ela mesma...


Após o almoço, comecei a me sentir um pouco sonolento novamente. Haruhi lavou louça e logo se juntou a mim. Nós ficamos assistindo TV durante um tempo, mas eu caí no sono.

Não sei por quanto tempo dormi, mas em algum momento, eu abri os olhos levemente apenas pra perceber que Haruhi estava sentada a alguns centímetros de mim. Eu iria gritar, mas como ela estava virada para outra direção, eu não pude saber qual era suas intenções. Por isso, com uma ponta de medo e desconfiança, fingi estar dormindo. Para minha surpresa imediata, Haruhi se virou na minha direção e começou a passar uma das mãos nos meus cabelos. Seria sujeira? Só que não parou por aí, após um minuto de uma espécie de alisamento, as mãos dela começaram a descer. Eu comecei a ficar nervoso. Haruhi estava acariciando meu rosto!? Eu estava sonhando? O que diabos era isso? Eu ia abrir os olhos rapidamente pra assustá-la e confrontá-la. Mas não tive coragem. Por um lado, aquilo era uma espantosa demonstração de algo que eu nunca esperaria de Haruhi, por outro, eu realmente não soube como me avaliar naquela situação.

Independente de todo o meu choque e da necessidade de terapia, eu percebi que embaixo daquela casca de dureza total, Haruhi escondia esse tipo de bondade. Em especial, para momentos em que ninguém estivesse vendo...

De qualquer modo, enquanto eu ainda fingia dormir, a vi arrumando as coisas para ir embora na calada novamente. Era o último dia dela comigo. Depois de alguns instantes, Haruhi passou na ponta dos pés pelo meio da sala...

"Você já está indo?" – Questionei, ainda deitado e mirando o teto.

Ela se virou rapidamente como se estivesse sido pega roubando algo...

"Há quanto tempo você está acordado?" – Não se preocupe, apesar de saber do seu segredo, não vou embaraçar você agora. Quem sabe eu precise usar isso no futuro...

"Acordei ainda agora. Você ia sair sem se despedir?"

"Bem...eu fiz assim nos outros dias. Você sem importa com isso?

Eu comecei a sorrir levemente:

"Eu acho que sim...afinal hoje é o último dia em que estou aos seus cuidados."

"Idiota...Então está bem, te vejo segunda na escola" – Ela falou sorrindo.

Nesse momento eu me coloquei de pé e comecei a segui-la até a porta da frente. Eu não sei por que, mas quando vi Haruhi indo embora, eu senti uma languescida vulnerabilidade emanando das costas dela. Tomado por algo, eu coloquei a minha mão esquerda no ombro dela, o que a fez parar...

"Espera Haruhi..."

"O que foi? Eu esqueci algo?"

Eu então a abracei...

"Obrigado por ter ficado comigo e desculpe preocupar você"

Após eu soltá-la, ela me encarou levemente enrubescida e com os olhos arregalados. Por cerca de um minuto ela continuou me observando, e eu comecei a ficar um pouco preocupado. De repente Haruhi começou com a disparar seu nonsense padrão:

"É-é claro, mas não se acostume a fazer isso e você deve se preparar para ser punido, pois temos muito o que fazer e perdemos muito tempo." – Pra falar a verdade, não entendi sobre o que exatamente ela estava falando, apenas concordei com a cabeça e sorri.

Assim, vi Haruhi desaparecer na esquina da rua que dava para a minha casa.


No dia seguinte ao levantar, eu me espantei comigo mesmo...

"Haruhi, o que você está fazendo?" – Eu falei isso sorrindo como um idiota...

"Não é a Haru-nyan, sou eu e por que você está sorrindo assim?"

"Ah é-é você irmã." – Lamentável...

"Quanta decepção na sua voz Kyon-kun, você já está sentindo falta da Haru-nyan?" – Por favor, pare de me analisar, isso é assustador...

O fim se semana foi, em uma palavra, chato. Eu fiquei preso em casa, e nem toda a mordomia proporcionada por minha mãe e por minha irmãzinha, estavam acabando com o tédio infinito que prolongava imensamente o tempo. Eu tentei dormir, mas nem isso estava funcionando. Se Haruhi estivesse aqui...Céus no que eu estou pensando?!

Pra que mentir pra mim mesmo. Essa era a verdade, a comida dela era melhor, a conversa era melhor, até as ordens não eram tão ruins assim...Droga...Eu até mesmo queria ligar pra ela.

Mas sendo a pessoa segura que sou, não fiz isso. Apenas naveguei nas marés tranquilas até o dia de voltar à escola.


Enfim segunda feira. Comecei minha escalada matinal, agora 100% recuperado do mal que havia me acometido. Infelizmente eu logo iria ficar doente novamente. Não literalmente, mas...

"Yo Kyon!" – Esse era Taniguchi que tentava me dar uma chave de braço enquanto carregava um sorriso desproporcional.

"Olá Kyon" – Kunikida vinha carregando um sorriso esquisito também, mas esse parecia mais com o de alguém culpado...

"E aí Taniguchi, Kunikida, o que há de errado com vocês dois?" – Perguntei já desconfiado...

"Qual é Kyon, como foi ficar em casa todos esses dias com a Suzumiya?" – Eu parei de andar nesse momento...

"Não sei do que você está falando"

"Não precisa ser modesto, vamos lá. Vocês sumiram juntos desde a quarta passada e Kunikida viu ela entrando na sua casa na quinta..." – Então era isso. Eu olhei de relance pra Kunikida e ele parecia estar realmente arrependido...Não sei, mas toda vez que Taniguchi fazia algo do tipo, minha parte ruim parecia querer se destacar de mim...

"Sim, ela ficou comigo o restante da semana, você tem algum problema com isso? Inveja, recalque ou o que?" – Acho que peguei pesado, mas logo percebi que não. Taniguchi a princípio ficou boquiaberto e sem palavras, mas assim que comecei a andar novamente...

"Tsc...eu não sabia que vocês já estava se dando tão bem assim..." – Ele retrucou, com um tom de provocação...

"Agora você já sabe" – Depois dessa vi Taniguchi se contorcer e ficar com o rosto praticamente murcho...Esse era o efeito que eu queria.

Pensando bem, eu não tinha percebido o que eu havia acabado de confirmar, mas não é como se metade do mundo não pensasse assim. Na minha turma, em especial, ninguém tinha dúvidas de que eu tinha algo com Haruhi. Em certo ponto eu até cansei de desmentir. Ela também nunca pareceu estar interessada no assunto. Dificilmente Haruhi se importava com o que os outros falavam, e essa não era uma exceção. Enquanto eu refletia sobre isso, Kunikida me alcançou...

"Desculpe Kyon, eu não devia ter contado pra Taniguchi sobre ter visto Suzumiya-san entrar na sua casa. Eu ia te visitar naquele dia, mas como ela chegou primeiro, eu preferi não me intrometer..."

"Não se preocupe e você não iria atrapalhar nada..."

"Então você estava blefando para o Taniguchi?"

"É claro que sim"

"Você é bom nisso Kyon, eu quase acreditei..." – Não soube argumentar, apenas fiquei meditando naquelas palavras por algum tempo...


Ao chegar na sala, Haruhi me recebeu com um dos seus sorrisos malignos favoritos. Eu me sentei de maneira despreocupada e decidi gastar tempo...

"YoHaruhi"

"E aí Kyon, como você está?"

"100%. De qualquer forma, eu estou curioso com uma coisa?"

"E o que seria?"

"Seus pais sabiam que você estava indo para minha casa ao invés da escola?"

"Não" – Como você consegue falar esse tipo de coisa sem nem esboçar reação?

"E então como você fez para que não ligassem na sua casa perguntando sobre você?"

"Pra que você precisa saber disso? Mas eu vou te contar...Todo dia eu fingia vir para escola e quando eu chegava na sua casa, trocava o uniforme." - Você se trocava na minha casa todo dia? – "Por favor não faça essa cara, é ridículo. Claro que nada daria certo se eu não contasse com a ajuda do Okabe. Inclinado pelo altruísmo da minha tarefa, ele me permitiu faltar as aulas e prometeu não contar a ninguém. Por isso, todos acham que nós faltarmos juntos foi uma coincidência..." – Você é realmente inocente de acreditar nisso?

"Eu acho que seu plano foi muito bem executado, porém, você não está ouvindo os rumores circulando por aí?"

"E você se importa com isso?" – Bem... – "Eu não estou nem aí. Eu não dou a mínima pra quem está no meu caminho. Além disso, rumores são como a névoa que se dispersa e no máximo prejudicam nossa visão em direção ao real objetivo..." – Isso é tão Haruhi, que eu não consegui me impedir de sorrir. – "Do que você está rindo?" – Ela falou um pouco incomodada.

"Nada, deixa pra lá...Mudando de assunto, você já planejou alguma coisa para as férias de verão?"

"É claro que sim, a lista é enorme, por isso não vá inventar de adoecer de novo..."

"Uhn...e eu posso ver essa lista?" – Falei de maneira desacreditada.

"Não, qual seria a graça se você já se antecipasse aos meus planos? Dessa forma, não haveria surpresa..." – Eu acho que eu gostaria de evitar surpresas, principalmente as desagradáveis.

Nossa conversação se encerrou ali. Okabe-sensei chegou à sala e logo começou com a sua empolgação matutina...