Capítulo III
Quando um novo dia chegou, ainda me sentia nostálgica em relação aos meus dias em um lugar chamado "mundo mágico".
Num suspiro, me deixei ficar na cama. A terça estava tão cinza, que parecia que minha morosidade a atingiu.
Meu rosto virou, para que eu pudesse encarar a janela.
Era verdade, eu estava distanciada do meu... Daquele lugar. Não pude nem reconhecer a voz daquele que há muitos anos foi meu melhor amigo.
Harry Potter poderia ter sido mais que um amigo... Poderia ter sido. Não foi.
Por que não posso esquecer isso? Uma das lembranças que não tive coragem de depositar na penseira.
Naquela época Rony e Hermione já haviam desistido da relação que tinham. Ele já não agüentava suas cobranças, ela já não dava o braço a torcer...
Harry Potter estava no saguão de entrada do seu apartamento, em sua boca, um cigarro, aquele vicio era realmente triste.
A mulher se posicionou a sua frente, - Já disse para não fumar – disse arrancando de seus lábios aquela coisa.
-Não gosto quando faz isso – retrucou franzindo o cenho, mas não voltou a tocar em seu maço, a procura de um outro.
-Acredite, é para seu bem.
-Acho que já podemos ir, agora.
-De certo. Toma – disse lhe estendendo um chiclete. – Odeio esse cheiro.
–Não deveria se importar com isso – ele retrucou aceitando, no entanto, o chiclete. – Você não vai me beijar – continuou erguendo uma de suas sobrancelhas.
Ela riu. - Não mesmo, ainda mais com esse cheiro. Não te beijaria mesmo que quisesse, Potter.
-Que você quisesse ou eu? – indagou sorrindo.
-Que eu quisesse, claro. Você! Humfp! Até parece que por você estar querendo me beijar eu o beijaria, seria muito atrevimento da sua parte pensar algo assim.
-Eu não pensei, você disse - ela virou os olhos enquanto ele abriu a porta do carro para que entrasse.
-Acho que estou lhe concedendo muita liberdade.
-Dependendo do que chama liberdade, Sra. Weasley - Hermione lhe olhou feio. – Não seja tola, é apenas uma brincadeira.
-Que já disse que não gosto. Sabe que terminamos.
-Merlim! Estou brincando contigo.
-Não está vendo que dispenso esse tipo de brincadeira? – indagou. Harry nada disse quando entrou, por sua vez, no carro. – Você não precisa ficar calado.
Ele a olhou de lado por alguns segundos antes de, novamente, voltar sua atenção para a pista. – Você nunca vai entender, talvez eu nem compreenda direito – ele falou lentamente. – Mas quando você está triste, eu fico triste e quando você está magoada, eu também fico. Assim como quando você está alegre, eu tento estar alegre, isso não é tão fácil, quando percebo que... – ele pausou. – Que talvez não tenha sido eu de verdade que lhe tenha feito feliz, sorridente ou mais disposta. Que não fui eu quem consolou você, como eu deveria fazer. E se quer saber, eu nunca achei que Rony fosse o cara certo para você, - ele suspirou. - eu nunca cheguei a encontrar alguém que pudesse deixá-la feliz todas as horas de seus dias...
-Acho que você sempre esteve certo em relação a Rony, mesmo não me falando sobre sua opinião – ela murmurou.
-Eu não me atreveria, você gostava tanto dele. Talvez, ainda tivesse a ilusão de que entre vocês pudesse dar certo, eu não tinha no que me intrometer... E também, não tinha certeza se me escutaria.
-Eu sempre escuto você!
-Você estava apaixonada!
Ela o olhou seriamente. – Então você quis me deixar ver por mim mesma?
-Você deveria ver por si só. E mesmo terrivelmente magoado com seus machucados, não podia fazer nada.
-Você podia sim!
Harry balançou a cabeça negativamente. – O que, exatamente, Hermione?! A menina tremendamente teimosa e apaixonada ouviria o rapaz "inconseqüente" que nem da própria vida amorosa sabia cuidar direito? – retrucou sarcástico. –Obedeceria a mim? Faça-me o favor.
-Você é o meu melhor amigo... Deveria ter me alertado.
-Não consegue, ao menos, escutar o que eu, nesses vinte minutos, estou falando com você não é mesmo? Tem coisas que nós precisamos ver sozinhos, nem que demore anos!
Hermione virou o rosto para a janela, não querendo discutir ou falar mais. O carro estacionou quinze minutos depois.
-Eu não poderia dizer também, - ele murmurou segurando seu braço. - Porque achava que era um ciúme tolo. Porque, de repente, eu era apaixonado por você e eu nunca poderia ferir meu amigo com meu sentimento. Rony e você, acima de tudo, eram mais importantes do que uma paixão adolescente pela melhor amiga. E talvez você nunca entenda o que eu estou falando.
Eu não poderia ser a mesma depois do que Harry havia dito. Eu nem sabia se me sentia tão à vontade ao seu lado.
Era um mal estar que chegava a parecer arrependimento e, por muitas vezes, quando eu pensava em mim e Rony no passado, me lembrava de Harry e o que poderia ter sido se eu tivesse reparado nele... Ou se eu tivesse pressentido que entre Rony e eu não daria certo. Eu seria mais feliz? Eu estaria com Harry? Eu deixaria de chorar por conta de brigas...?
De fato, acho que poderia ter sido feliz com Harry, pelo menos, com menos lágrimas. Não significa que eu tenha gostado dele – não depois que passei a gostar de Rony -, mas também não significa que eu não tenha pensado nessa possibilidade milhares de outras vezes, antes de mergulhar de cabeça no mundo trouxa.
A contra gosto, levantei, por fim, da minha cama, indo ao encontro do banheiro, escovar os dentes, tomar banho, tentar não pensar mais.
Logo estava na cozinha, preparando sem pretensão meu café. Aquela terça-feira prometia ser longa, eu não estava com vontade de fazer nada.
Deixei meu talher cair ao reparar numa coruja que batia na janela, hesitei antes de me levantar e abrir para ela entrar. Com a mesma velocidade que entrou, ela saiu, ao deixar sobre a mesa o que me pareceu uma carta.
Ao pegá-la, encontrei o símbolo de Hogwarts. Ao abri-la, percebi que era um convite para comparecer a festa em homenagem aos meus (e de muitos) dez anos de formatura...
Sem querer, deixei cair dois papeis no chão.
Um, era o próprio convite e outro... Eu reconheceria aquela caligrafia em qualquer lugar, a qualquer hora. Era de Harry.
"Bom dia,
Conseguimos encontrar seu endereço. Achei bom lhe entregar o convite, mesmo ainda não tendo certeza da sua presença na festa. Atenciosamente, P.s.: E espero não ter que ir buscá-la. Porque, não sei se você sabe (ou lembra), mas eu não costumo voltar atrás quando me proponho a fazer algo."
Como ainda é cedo, estou fazendo mais um convite, e sinto informar, mas nesse eu não aceito recusa.
Hoje, pela noite, alguns dos ex-formandos da grifinória estarão oferecendo um jantar em Hogsmead, no Três Vassouras. E como você é uma ex-formanda da grifinória...
De qualquer modo, foi bom falar com você ontem.
H. Potter
Dei um sorriso incrédulo antes de por sobre a mesa a carta e voltar a comer. É claro que não iria.
Lá pelas nove, recebi um telefonema de Nicolas, um colega de trabalho. Ele disse que hoje eu estaria à tarde, o que significava que eu não teria que passar a noite no hospital.
Às doze horas estava pronta e me sentia desanimada para ir até a garagem e pegar meu carro, era, depois de anos, a primeira vez que sentia falta de aparatar...
Sinceramente, aquelas lembranças não me fizeram nada bem, fico imaginando o que poderia acontecer se tivesse visto todas elas. Coisas involuntárias que passam em minha cabeça...
Para deixar de pensar nisso, decidi que quando saísse do hospital, iria ao supermercado próximo de lá, comprar algumas coisas que poderiam estar faltando (ou vir a faltar) no meu armário.
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(Continua)
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Obrigada pelos comentários! Espero que curtam a fic!
