CAPÍTULO QUATRO
– Mi... lo... – Shina gemia, de olhos fechados, as unhas cravadas nos ombros do escorpiano que se movia freneticamente dentro de seu corpo. Era enlouquecedor, sim, ela estava à beira do gozo... os olhos da italiana reviravam, por vezes, seu corpo simplesmente não obedecia! Mas havia algo errado. Os olhos de Milo, sempre tão cheios de carinho, mesmo quando faziam sexo, agora pareciam desfocados e distantes... o que estava acontecendo?
O grego mordeu o ombro de Shina com força, fechando os olhos. Maldito fosse por estar fazendo aquilo com uma mulher como ela! Shina não viera a ele só por vontade física. Não, Milo sabia que havia sentimentos por parte da ariana, sentimentos que só poderiam magoá-la no final, e isso era inadmissível! Devia tê-la mantido longe, falado claramente que seu coração pertencia a um ruivo imbecil que fugia e nem sequer era homem suficiente para dizer que não o queria.
Os pensamentos começaram a se embaralhar na cabeça loira enquanto sentia o gozo se aproximar. Deus, como Shina era boa nisso! Quando gozava, parecia suga-lo pra dentro do corpo, apertava-o de um jeito ao qual era impossível resistir... deixou-se levar pelo prazer que o corpo lhe impunha, por alguns segundos esqueceu-se até de quem era, ou porque estava se sentindo um canalha. Vários minutos se passaram antes que a voz da moça fizesse seus músculos ligeiramente cansados se enrijecerem.
– Agora você vai me dizer que diabo está acontecendo ou vou ter mesmo que adivinhar?
– Como? Shina, gatinha, o que quer dizer? – enquanto se movia para o outro lado da cama, Milo forjou um meio sorriso, tentando disfarçar o medo que realmente sentiu diante das palavras da moça. De onde essa conversa tinha saído?
– Milo, pelo amor de Deus, fale sério! Quando você me ligou, sua voz estava mais desesperada que a de uma criança perdida! E quando eu cheguei aqui, você estava uma bagunça! Ou pensa que a sua encenação "olhe como eu sou sexy cozinhando" me convenceu? E só pra piorar, Milo... – a voz da italiana diminuiu até quase se tornar só um sussurro. – Você estava fazendo amor comigo como se quisesse fugir de alguma coisa... você nem sequer estava me vendo... então, sim, tem algo errado com você e eu acho que mereço saber do que se trata.
O queixo de Milo caiu. Como no inferno aquela mulher tinha visto tanto? Seria ela uma telepata e ele não estava informado? Suspirou pesadamente, dando o primeiro sorriso verdadeiro da noite, embora fosse um sorriso extremamente triste. Shina era uma mulher. Lógico que ela veria sinais de algo errado, estúpida ela não era!
– É o Camus, não é?
Os olhos azuis se arregalaram. Era segunda vez na vida que uma mulher o desarmava tão completamente com uma verdade tão simples. Era Camus, era o imbecil do francês, tinha que ser! As palavras de Shina foram o estopim para as emoções tão bem guardadas do rapaz irromperem num choro convulsivo, desesperado. E Shina o abraçou, desiludida, magoada, mas ainda assim procurando forças para fazer o devia ser feito.
– Shh, Milucho, tudo bem... eu estou aqui, pode chorar...
– Ah, Shina, eu sou um merda, um idiota... o que foi que fiz com você...?
– Amato, a quem achou que estava enganando? Hm? Eu sempre soube que era ali que seu coração estava, só que... por algum tempo eu pensei que podia... – Um sorriso triste interrompeu a moça, que simplesmente passou a afagar os cachos loiros agora desfeitos.
A voz de Milo era um murmúrio entrecortado pelos soluços lacrimosos.
– Queria... tanto... esquecer... porra... eu só queria que ele me amasse também! Mas ele... foge...
– Você já disse a ele que o ama?
– Acredite, gatinha... ele não quer me ouvir... mas... gatinha... e você? Gosta mesmo de mim?
– Não banque o bobo agora, querido. Eu estou apaixonada por você, sim, mas isso não vai dar certo. Não consigo fazer esse papel.
– Queria ter me apaixonado por você. A vida seria bem mais simples.
– É, querido, eu sei...
E assim ficaram os dois, deitados, consolando a desilusão um do outro até que a manhã chegou e os surpreendeu ainda acordados, chorando ocasionalmente.
-oOo-
O barulho de pipoca estourando finalmente cessara. Afrodite, numa preguiça infeliz, se arrastou em direção à cozinha para apagar o fogo, sentindo o leve cheiro de queimado. Bosta de pipoqueira quebrada, pensou o loiro. Tivera que apelar para uma panela comum, já que o carcamano maledetto tinha arruinado sua pipoqueira numa briga, semanas atrás. A pobre cozinha tinha sido o campo de batalha... mas, enfim, lembrar dessas coisas nunca era agradável. E o amor tinha voltado a reinar entre os dois.
De volta à sala com um enorme balde de pipoca, Dido sentou-se no sofá e ligou o DVD. Sabia que devia esperar Máscara da Morte para assistir o seriado, mas estava ansioso demais. Era o último episódio da quinta temporada! A decisão de Sam e Dean! E o italiano estava demorando demais a chegar. Antes que pudesse dar play, o telefone tocou ao seu lado. Logo agora? Bufando, atendeu.
– Hej [1]...
– Oi, deusa, liguei pra te dar spoilers!
– Vá à merda, Milo!
– Mas Dido, o Sam vai dizer...
– – E assim Afrodite continuou até que percebeu o silêncio do outro loiro. – Calou a boca? Ótimo! Não quero spoilers, tchauzinho, e diga ao francês imbecil que ele me paga por te mandar ligar!
– Er...
...
Opa... que silêncio constrangedor era aquele?
– O Camus não está aí com você, né, Milo?
– Não.
– Que merda é essa! Você assistiram TODOS os episódios de Supernatural juntos, ele quase se mudou pra sua casa quando estavam fazendo maratona da terceira temporada e o último episódio da temporada vocês não viram juntos? Ok, Senhor eu me rendo. É o apocalipse mesmo, o mundo vai acabar!
A risada falsa do outro lado da linha fez o sueco suspirar. Deus, Milo estava piorando dia após dia...
– Milucho?
– É a mãe – respondeu o outro, por reflexo.
– Por que o francês metido não tá aí contigo?
– E eu é que sei? Desde aquele maldito dia ele não me dá mais carona, não me xinga quando eu erro um passo difícil, não rouba meus cigarros, ele... Merda, Dido, ele não me quer por perto...
– Você é um imbecil.
– É o quê?
– É isso aí! Ele tá fugindo de você porque você não faz nada, anta!
– Se você não se lembra, gênio, eu BEIJEI ele. E olha no que deu.
A chave girou na porta, despertando a atenção de Afrodite. Máscara da Morte tinha chegado, finalmente. Bom. Não iria continuar aquela conversa, sob pena de dizer verdades piores ao escorpiano.
– Milo, tudo bem, eu entendi. Desculpa, tá legal?
– Não, deusa, eu é que peço desculpa. To uma merda esses dias...
– Faz dois meses que você tá uma merda, Milo. Sem ofensa. Mas, enfim... vou lá ver meu episódio, antes que você resolva mesmo me dar spoiler. E deusa é a senhora sua...
– Respeite os mortos, Dido, respeite os mortos. E manda um beijo pro maledetto, que eu sei que ele tá aí.
– Ok. E vê se dorme, tua cara anda horrível!
– Vá a... – O pisciano desligou o telefone antes de ouvir a resposta. Não valia a pena, certo? Tinha um balde de pipoca para comer, um seriado para assistir e o amor da sua vida para... bem, todo o resto. Do que mais precisava?
– Ciao, amore. – O italiano jogou-se ao lado do sofá, ao lado do namorado. Ia começar sem mim, é?
– Você estava demorando, amore... – Afrodite roubou um beijo rápido do outro – Pipoca?
-oOo-
Máscara da Morte estava amolecido no sofá. Afrodite, passada a histeria do episódio (gigantesca, diga-se de passagem), olhava para o rosto do amado, com um sorriso nos lábios.
– Amore? O que foi? – Como se não soubesse a resposta. Depois de certa hora, a não ser que estivessem na rua, as baterias do italiano começavam a desligar.
– Soono – respondeu o outro, quase grunhindo.
– Dorme aqui no meu colo...
– E se eu roncar? – Afrodite revirou os olhos. Como se ele roncasse...
– Eu te beijo e cesso o ronco...
– Ah, assim eu quero. – Máscara da Morte se aninhou no colo do namorado, todo folgado. Como todo canceriano, podia ser marrento e "malvado", mas não resistia ao carinho do seu homem.
Ficaram os dois em silêncio por um tempo, se beijando levemente, até que o italiano parou de se mexer. Afrodite riu baixinho, os dedos enroscados nos cabelos ondulados do seu amor. Queria só ver como estaria a coluna daquele italiano reclamão no dia seguinte...
[1] - Alô, em Sueco.
