LEMBRANÇAS DE LUZ
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Capítulo Três – Nuvens que Cobrem a Lua
Uchiha Sasuke detestava ser acordado, ainda mais quando quem lhe fazia isso era o sol, porque simplesmente não podia socá-lo como fazia com Naruto, nem dar-lhe uma resposta ríspida e um olhar gelado, como fazia com Sakura. Só abria os olhos, sentava-se na cama e sentia raiva. Através da janela o sol não estava muito alto, apenas o suficiente para alcançar seu quarto no primeiro andar. Naruto ainda deveria estar dormindo, provavelmente.
"Que servo mais atencioso com seu senhor" pensou o moreno ironicamente e levantou-se da cama. Colocou as calças e calçou as sandálias ninja, atou o cinto vermelho à cintura e colocou Kusanagi presa a ele antes de pegar o quimono e as luvas e sair do quarto.
Não encontrou muitas pessoas, apenas duas servas que limpavam o chão quando passou por um corredor, mas não as olhou nem cumprimentou e elas não se importaram de ser ignoradas. Ele saiu para um dos corredores laterais que o levariam ao fundo da mansão e sentiu um cheiro bom de comida vindo da cozinha quando passou por ela em direção ao poço. Içou um balde cheio de água sem dificuldade e, deixando suas coisas ao lado, incluindo sua espada, virou o balde sobre sua cabeça, pescoço e um pouco das costas.
O jardim da mansão era grande e de muito bom gosto. Havia muitas plantas exóticas e as quais os nomes Sasuke não conhecia e caminhos construídos ao redor e entre elas. Rente ao muro mais afastado um carvalho enorme e muito grosso fazia sombra por todo o fundo do jardim e, abaixo dele, um banco de pedra com aparência abandonada, o musgo subia por suas pernas e se estendia pelo assento. Sasuke ouviu passos, fechou os olhos e respirou fundo, de volta com a postura de mercenário.
- Bom dia, Sasuke-san – a voz de Ren veio de trás, mas não surpreendeu Sasuke. Essa era uma façanha difícil de conseguir – Onde está seu servo, Nai?
- Dormindo – respondeu Sasuke vestindo o quimono sem retribuir o cumprimento – Não gosto de ser acordado, então não preciso dele pela manhã.
- Muito generoso da sua parte.
O Uchiha não gostava daquele tom de voz. Nem daquele sorriso velado e nem dos seus olhos amigáveis. Definitivamente, não gostava de nada em Masaru, porque tudo aparentava uma normalidade anormal, algo que passava confiança para qualquer um, mas a última coisa que podia acontecer era confiar naquele homem, naquela voz macia.
Sasuke se virou e Ren tinha Kusanagi nas mãos, olhava para a espada deliciado, como se nunca tivesse visto coisa mais preciosa. Ele segurou-a na altura dos olhos e desembainhou até a metade para ver a lâmina reluzir com a luz do sol da manhã. Fechou-a de novo produzindo um estalido metálico e a estendeu para Sasuke.
- Esta espada é lendária – disse o senhor feudal – Tem muita sorte de possuí-la, Sasuke-san.
O moreno não respondeu, fez um muxoxo e sustentou seu olhar.
- Enviei mensagens a todos os meus aliados, em duas semanas eles estarão aqui e poderemos realizar a última reunião referente aos assuntos com a Vila da Folha – Ren virou-se de costas e começou a andar de volta para dentro da mansão – Por hora, me acompanha no café da manhã?
Sasuke o seguiu como consentimentos e Ren pareceu satisfeito.
Fizeram o mesmo caminho que Sasuke havia feito, mas com Ren na frente eles chegaram a uma sala espaçosa onde uma mesa baixa e comprida estava posicionada sobre o tatame e duas almofadas posicionadas perto dela. Ren ficou na ponta, Sasuke na esquerda.
- Diga-me, Sasuke-san, está de acordo que resolveremos os assuntos referentes à Folha quando meus aliados chegarem, então passemos para o segundo assunto que o trouxe aqui – o senhor feudal apoiou os cotovelos na mesa e o queixo sobre as mãos, encarou Sasuke – Minhas gueixas.
- É uma arte que me interessa – Uchiha respondeu simplesmente, retribuindo seu olhar. Normalmente, em conversas com esse tipo de pessoa, nesses tipos de transações, o contato visual é importante. Desviar os olhos é puro sinal de medo e fraqueza. Qualidades que Uchiha Sasuke se orgulhava ao dizer não possuir.
- Consegui uma nova gueixa ontem, lembra-se? Aquela mulher que veio me dizer isso durante nossa conversa é a matriarca da okia do feudo, Hae – um criado entrou e mais outro atrás dele, então Naruto. Todos os três carregando bandejas com o café da manhã. Nenhum dos dois, Ren e Sasuke, olharam para nenhum deles – Vou averiguar se ela é boa amanhã e, se for, direi a Hae para colocar seu mizuage a venda para meus aliados daqui duas semanas, assim também poderá dar um lance, Sasuke-san.
Silêncio.
- Quero que as pessoas que se colocam ao meu lado recebam somente o melhor – foi a última sentença de Masaru antes de começarem a tomar o café da manhã.
- Hinata – Sakura abriu devagar a porta de correr do quarto de Hinata onde a kunoichi estava ajoelhada a um canto e guardou rapidamente as armas ninja que estava arrumando escondidas entre suas coisas – Desculpe, não queria te assustar.
- Não, tudo bem – a morena lhe sorriu – Algum problema, Sakura-chan?
- Nenhum, só vim perguntar se você quer que eu te espere, sabe, hoje à noite? – a rósea chegara muito perto de Hinata e sussurrava as palavras. Descobrira muito rápido que ali as paredes realmente podiam ter ouvidos.
- Não, você pode ir primeiro – respondeu a Hyuuga – Talvez seja mais difícil para eu sair daqui, se pelo menos você for, poderá informar a Naruto-kun e Sasuke-san da situação.
- Certo – Sakura se preparou para sair, mas antes disso voltou-se para Hinata com os olhos esmeraldinos preocupados – Você está nervosa?
- Oh, você soube – a morena desviou os olhos para as mãos quase desaparecidas sobre a manga comprida do quimono da okia que okaa-san lhe dera, na barra vermelha da manga caiam pétalas rosadas de cerejeira, o símbolo do feudo. Hinata detestou aquele quimono.
- Sim, as outras criadas me disseram que dançar particularmente para Masaru Ren é quase um ritual de aceitação aqui – Hinata assentiu, ainda sem olhar para a Haruno – Você vai se sair bem, Hinata-chan. Eu nunca te vi dançando de fato, mas deve ser incrível.
A moça ruborizou e sorriu de volta em agradecimento, mas não compartilhou com Sakura sua opinião deveras oposta ao que dissera a rósea. Sakura saiu de fininho, assim como entrou, e Hinata voltou a arrumar suas coisas. O quarto que recebera era um dos menores, apenas grande o suficiente para caber um futón aberto e uma penteadeira baixa com espelho onde ficava o carvão, o pó de arroz e a tintura carmim para os lábios. Mas Hinata não esperava nada melhor para uma recém chegada. Na verdade, esperava até bem menos que aquilo, algo como um cubículo compartilhado com outras gueixas ou mesmo um quarto de cerva, mas se fosse assim as gueixas daquele feudo não seriam tão prestigiadas por sua magnitude. Sua janela redonda não era muito grande, porém, tinha uma boa vista, a linda paisagem do jardim dos fundos da mansão do senhor feudal.
As noites no feudo das gueixas famosas podiam ser bem frias, especialmente quando o céu ficava tão cheio de nuvens a ponto de cobrir a lua e só haver sombras e escuridão e neblina. Não havia vento, então as folhas das árvores estavam silenciosas e quietas, de acordo com os ninjas que precisavam de toda a sutileza que seu trabalho exigia para se encontrarem naquela noite. Os animais na floresta ficaram em suas tocas, escondidos por causa da noite sem lua.
Okaa-san havia seqüestrado Hinata por todo o dia falando-lhe e dando avisos e ordens do que ela deveria, poderia fazer ou não na casa de chá, quer quando estivesse atendendo a um cliente, quer quando chegasse à hora dela ser leiloada. A morena Hyuuga ouvia tudo atentamente e também tentava não notar os olhares terríveis que as outras gueixas lançavam-lhe. Aparentemente nenhuma delas iria ser sua "irmã mais velha", aquela que lhe ensinaria e guiaria por aqueles caminhos traiçoeiros e tortuosos dais quais ela queria escapar o quanto antes. Também ficava atenta sempre que okaa-san falava qualquer coisa sobre Masaru Ren e sobre os homens que ele convidava para vir ao feudo e, conseqüentemente, a casa de chá, mas okaa-san não era muito fácil de arrancar informações por ser uma mulher que já há muitos anos acostumada a manter segredos.
Sakura lhe dissera que, logo depois que terminasse de distribuir a água para as gueixas que não iam trabalhar naquela noite se lavarem antes de dormir, ela iria sair, já era pouco mais de onze horas. Hinata assentiu, mas não disse nada. Sua saída, com todas aquelas gueixas curiosas por ali, poderia ser um pouco mais difícil. Esperou em silêncio deitada em seu futón e levantou-se assim que a última chama, aquela que fica perto da escada, foi assoprada. Abriu a janela e olhou por ela a ruela mal iluminada entre a casa de chá e a mansão feudal, pensou de novo se conseguiria passar, então segurou com as duas mãos no batente acima dela e impulsionou suas pernas para fora. Soltou suas mãos e se preparou para a queda, mas avistou uma sombra embaixo de si. Deveria ser um guarda ou um cidadão atrasado para chegar em casa.
"Não dá pra desviar agora" pensou, aflita. Fechou os olhos e deixou-se cair.
- Peguei você! – exclamou a figura embaixo e Hinata sentiu braços a fecharem perto de um corpo forte o suficiente para carregá-la. Abriu os olhos para encontrar um Naruto moreno sorrindo-lhe – Que perigo fazer isso, Hinata-chan, dattebayo.
- O-obrigada, Naruto-kun – a garota corou e sorriu ao mesmo tempo. Mexeu-se incômoda até o loiro perceber que deveria colocá-la no chão – Não havia ninguém aqui embaixo quando eu olhei.
- Desculpa, eu te atrapalhei – ele coçou a parte de trás da cabeça e seus olhos foram juntos para baixo.
- Não... Não, Naruto-kun... – Hinata espalmou as mãos para deixar ainda mais enfática sua negativa, mas Naruto não ligou para o assunto.
- Já é quase meia-noite, vamos indo? – ele chamou, a kunoichi assentiu e eles começaram a correr em surdina até um dos muros mais afastados, onde Naruto disse ter observado e que não ia quase ninguém, especialmente durante a noite. Quase toparam com um guarda em uma esquina, conseguiram desviar antes que a luz da lanterna a óleo dele os visse.
O Uzumaki insistiu e ajudou Hinata a pular o muro, ele veio atrás. Na floresta eles mantiveram a mesma discrição que usaram dentro do feudo, assim se houvessem guardas fazendo rondas por ali, também não seriam pegos. Ou Hinata simplesmente podia desacordá-los com o Jyuuken. Aproximaram-se do local de encontro, mas antes de avistarem a pequena clareira, Naruto imitou os três pios de coruja e o barulho de sapo, deram alguns passos a frente e nenhuma kunai foi lançada em direção aos olhos dos dois, então estava tudo bem. Desenroscaram-se de umas moitas espinhentas e entraram na clareira onde os olhos de Sakura e Sasuke os encarava.
- Oi, Sakura-chan! – exclamou Naruto e aproximou-se da amiga.
- Naruto, porque vocês demoraram? – a rósea perguntou.
- Encontramos um guarda e fizemos um desvio, dattebayo.
Hinata cumprimentou com um discreto 'boa noite' a qual foi respondido por Sakura, mas captado indiferentemente por Sasuke.
- Relatem – foi à única palavra dita pelo líder olhando para Sakura.
- Nossa entrada no feudo e na okia se deu sem problemas. Hinata foi escolhida como gueixa, eu não. Estou trabalhando lá como criada – então os olhos de Sakura, até aquele momento tão calmos, ficaram praticamente em chamas e ela apertou os punhos na altura do rosto – Aquela Hae idiota disse que eu não sou encorpada!
- Ren não causou transtornos com a minha entrada no seu círculo de alianças e já enviou cartas para os outros contatos. As insinuações que eu tenho feito sobre os assuntos dele ser a destruição da Folha têm sido recebidos, mas ele não fala muito comigo sobre isso. Ele não confia em mim – começou Sasuke, uma das mãos flexionada ao lado do corpo, apoiada em seu quadril – Em duas semanas os outros aliados chegarão.
O moreno preferiu não dizer o que Masaru Ren queria fazer com a nova gueixa que a mulher da casa de chá tinha lhe dito que chegara. Encarou firmemente os olhos de Hinata até ela ficar desconfortável e desviar os olhos. Naruto não gostou muito daquela informação.
- Eu vou ter que dormir naquele futón fedido por mais duas semanas, teme?
- Não reclame – respondeu o moreno.
- Você diz isso porque a sua cama é macia e não cheira a rato morto.
Sakura e Hinata deram um passo discreto para longe do loiro.
- Mais alguma coisa? – perguntou Sasuke querendo finalizar com aquela reunião. Os outros três ninjas balançaram as cabeças em negativa.
- Como você vai enviar as informações para Tsunade-baa-chan? Já tá provado que esse Ren quer atacar a Vila, dattebayo.
- Vou mandar uma serpente até ela, mas quero saber quem são os aliados dele, assim não corremos o risco de outra pessoa continuar os planos de Masaru.
- Você pensa em tudo, Sasuke-kun!
A reunião se findou ali, não havia mais pontos cruciais a se discutir, porque em dois dias não há como se reunir muitas informações, as pessoas locais não costumam ir abrindo a boca e contando coisas para recém-chegados como eles. Naruto abriu umas moitas esperando Sakura e Hinata passarem, Sasuke não se moveu.
- Não vai voltar, teme?
- Vãos vocês na frente e quero que você também fique, Hinata – a morena se virou olhando-o sem entender – Preciso conversar uma coisa com você.
Naruto e Sakura se entreolharam desconfiados, mas não abriram a boca para contrariar a decisão do líder da missão. Despediram-se e deixaram Hinata e Sasuke na clareira. A Hyuuga não encarou Sasuke e nem ele fazia questão de ter os olhos perolados sobre si. Olhava para cima, para nuvens encobrindo a lua.
- Eu nunca trabalhei em missões com você antes, Hinata, então eu precisava de algumas informações sobre você antes de começarmos. Roubei o seu histórico do arquivo da Hokage.
Hinata arregalou levemente os olhos. Ele tinha feito o quê?
O Uzumaki e a rósea andavam devagar de volta ao feudo. Naruto ia à frente e Sakura, mais afastada, não parava de olhar por cima do ombro esperando que a conversa entre Hinata e Sasuke já tivesse terminado. Não havia gostado nada daquilo.
- Sasuke-kun te disse alguma coisa sobre precisar conversar com a Hinata, Naruto?
- Não, mas deve ser algo sobre a missão, dattebayo.
- Sim, mas porque ele não pode falar pra gente também?
- Porque deve ser algo secreto para a Hinata-chan.
- Não gosto disso – a nin-médica finalizou e cruzou os braços, as sobrancelhas franzidas.
- Você está sendo boba, Sakura-chan – Sakura parou. A voz de Naruto estava dura quando disse isso e ele não se virou – Hinata-chan é a última pessoa da qual você pode sentir ciúme, dattebayo.
Ele voltou a caminhar e, assim como as palavras dele, a Haruno realmente sentiu-se boba. Olhou para trás uma última vez e continuou seu caminho.
- Isso é contra a lei! – ela exclamou meio aflita.
O Uchiha não fez nenhuma menção de estar abalado, continuou olhando para cima esperando que o céu, a qualquer momento, pudesse cair.
- Você tem inúmeras missões incompletas no seu histórico, missões de nível B para cima.
- Missões incompletas?
- Inimigos poupados.
- Você considera uma missão completa quando aniquila todos os seus inimigos? – ela não o esperou responder, nem esperou para cogitar se ele o faria. Aquela forma de pensar a enojou. Sua voz musicada, mesmo quando ela queria gritar, não se elevava muito, apenas o suficiente para Sasuke perceber a mudança no tom – Você não tem piedade?
- Piedade é a última palavra que deve existir no vocabulário de um ninja.
- Mas esses inimigos... Eles podem mudar, Sasuke-san! – o tom dela passou do acusatório para algo mais suave, condescendente – Você mudou.
Ele se calou, sem saber o que responder perante aquilo. Abandonou o olhar para o céu e encarou a moça. Ela o olhava cravando seus olhos perolados nele como nunca esperou que Hyuuga Hinata pudesse fazer, quase como ele mesmo quando queria pressionar alguém. A kunoichi, porém, não queria pressioná-lo, apesar fazê-lo perceber a semelhança das situações.
- Eu acredito que as pessoas podem mudar, sim, Sasuke-san. Matar todos os seus inimigos não te transforma em um bom shinobi, apenas em um assassino.
- Ninjas são assassinos pagos para isso – a garganta de Hinata deu um nó quando ela pensou em retrucar essa última sentença, mas não disse nada. Mudar o pensamento de outra pessoa não era sua função – Depois a sua ficha estagnou e não foram adicionadas novas missões, pode explicar isso?
- Não.
- Na área das missões de grupo você apresenta várias falhas. Isso não vai acontecer aqui, sob meu comando, Hyuuga Hinata. Seu erro pode destruir a Vila, esteja ciente – ela balançou a cabeça em afirmação e então sorriu encarando seus próprios pés e não controlou as palavras quando tornou a falar.
- Sasuke-san, você ouviu o que disse? Salvar a Vila da Folha... Isso é muito parecido com Naruto-kun.
O que aquela garota estava insinuando? Que a sua mudança tivera muito a ver com Naruto isso era fato, fora a loiro que o convencera a voltar para a Vila depois de tudo, mas ele tinha mudado tanto assim?
- Minha ficha... Dizia... Mais alguma coisa? - de novo seu tom de voz mudou, era a voz musicada e límpida, com um tom dissimulado de preocupação que Hinata esperava que Sasuke não percebesse. Ele percebeu e estreitou os olhos ao responder, querendo adivinhar o sentido daquela preocupação.
- Não, mais nada.
- Certo, vou me esforçar nesta missão – o peito da Hyuuga inflou quando se encheu de ar aliviado – Mais alguma coisa, Sasuke-san?
Ele negou com a cabeça e, sem dizer nada nem esperar por Hinata, ele desapareceu numa nuvem de fumaça branca que se dissolveu mais rápido que a neblina que engrossava. A moça inspirou fundo a bruma gélida e colocou-se a andar, não para a direção do feudo, para a direção paralela a ele. Pulou para um galho alto e ativou sua linhagem. Verificou os arredores procurando guardas e pessoas indesejadas, depois focou seu destino e saltou para uma árvore mais baixa e outra e outra. Não demorou muito para chegar a uma cascata enorme que caia em um lago irregular a qual o leito, alguns quilômetros depois, passava por dentro do feudo.
Saltou da árvore para o chão e checou mais uma vez a sua volta antes de começar a desatar o quimono da okia. Dobrou-o e colocou embaixo de uma árvore. Retirou a atadura de cima do braço esquerdo e, com um pouco de água, retirou a pintura da cor de sua pele que a ocultava a marca ali. Pisou na água com cuidado e tentou se manter firme mesmo sentindo frio. Posicionou-se no centro do lago e fechou os olhos, concentrou o chakra. Quando os abriu de novo, com sua linhagem ativada, começou seu treino.
Ren admitiu cedo que sentia grande apreço pela companhia de Sasuke, que sentia que poderia confiar nele muito em breve. O Uchiha, porém, com seu jeito reservado e sério, não compartilhava dos mesmos pensamentos e não respondia nada. O senhor feudal chamou Sasuke, logo depois do café, para caminharem pelo seu feudo, queria mostrar ao rapaz toda a prosperidade que conseguira e, o moreno tinha que admitir, era uma prosperidade harmoniosa e arguta. Quando atravessaram, de volta para a mansão, o campo de arroz, uma garota chamou-lhes a atenção.
- Ren-sama? Hae-san pediu para avisar que já está tudo pronto na casa de chá.
- Certo, avise-a que já estou indo, Mizuno-chan – o homem lhe sorriu e muito ruborizada a garota se afastou com uma mesura desajeitada. Voltou-se para Sasuke, então – Preciso resolver uns assuntos na casa de chá, se importa em ficar sozinho ou prefere que eu arranje alguém para lhe fazer companhia, Sasuke-san?
- Vou ficar sozinho.
- Como queira.
Hinata estava em seu quarto. Fez uma careta de dor quando Hae-san puxou seu cabelo com o pente pela terceira vez seguida com muita força, então prendeu com um enfeite prateado e cheio de pequenas ametistas. Não combinavam muito com o quimono lilás que a moça vestia, um dos muitos quimonos da okia, mas as jóias também foram escolhidas por okaa-san. A Hyuuga, quando a matriarca terminou de arrumar seu cabelo, sem conseguir prender a franja farta, começou a passar o pó de arroz na face, sem pressa. Depois o carvão nas sobrancelhas e em volta dos olhos. Por último, o carmim.
- Mostre a Ren-sama o que sabe e fiquei de cabeça baixa, a menos que ele peça para vê-la – Hinata levantou-se e a mulher com olhos de mosca rodou em volta dela checando mínimos detalhes enquanto falava – Não faça gracinhas!
- Sim, okaa-san.
- Bom – finalizou a mulher ajudando Hinata a descer a escada. As suas costas, gueixas abriram as portas de deslizar de seus quartos para espiarem a Hyuuga passar, depois as fecharam com raiva. A novata era mesmo bonita.
Uma das salas fora preparada especialmente para aquela ocasião, o sol que iluminava o corredor vinha das outras salas que estavam sendo limpas. A sala onde Masaru Ren se encontrava estava com as portas fechadas e nelas haviam ninfas de vento desenhadas. Antes de chegarem à porta, Hae pegou duas pedras e chocou-as produzindo faíscas duas vezes as costas de Hinata. Para dar sorte e ela ter uma nova gueixa a lhe trazer dinheiro. Depois, se afastou.
Hyuuga Hinata respirou fundo e viu a cabeleira rosada de Sakura sair de uma das outras salas de chá, uma em que estava limpando e lhe fazer um sinal de jóia. A morena sorriu e encarou a porta tentando ver através dela sem seu Byakugan. Impossível, chamou:
- Co-com licença, Ren-sama?
- Entre – seu coração acelerou e seu estômago esmagou-se em nervosismo. Abriu a porta com ambas as mãos, não encarou o homem sentado ereto no outro extremo, adentrou a sala, voltou a se ajoelhar e fechar a porta, de novo com ambas as mãos em movimentos delicados. Voltou os joelhos para a direção dele e apoiou a ponta dos dedos no chão em uma mesura singela – Como se chama? – mesmo que ele já soubesse, queria ouvir dos lábios dela.
- Hinata.
- Muito prazer em conhecê-la, Hinata – de certa forma, a morena fez uma coisa que não podia: gostou do tom de voz dele, pois não parecia nem um pouco com o tom de voz de alguém que quer destruir sua Vila, sua casa, a vida de seus amigos e entes queridos. A voz dele, na verdade, lhe lembrava uma carícia – Como uma gueixa pode ter um nome tão iluminado?
- Este é... Meu nome de nascença. Nã-não quis trocá-lo.
- Sim, entendo – ele sorriu – É muito bonito.
A Hyuuga corou e fez uma mesura de agradecimento.
- Levante seu rosto e dance para mim, Hinata-chan.
E ela obedeceu.
"- Quando você dançar, Hinata-chan, não pense, apenas sinta. Sinta a maciez da seda acariciando seus braços, sinta o vento produzido pelos leques, sinta os olhos de quem assiste seus movimentos. Dance, somente."
Focou em sua mente as palavras suaves de sua mãe, retirou os leques da cintura e deixou a franja cobrindo seus olhos até estar completamente em pé. Não havia música para que pudesse se guiar, não se importou, tampouco. De seus lábios fechados começou uma melodia cantarolada e Ren-sama sorriu quando ela levantou o queixo e deixou-o ver seus olhos. Os movimentos começaram.
A sala desapareceu e ela estava sobre o lago, o som da cachoeira ao fundo. De seus lábios fechados, a melodia antiga. Havia vento e com seus leques ela devia conduzi-lo para lugar nenhum. Rodou em movimentos controlados e fluídos, ficou com os braços esticados, tacou um leque para a outra mão, bateu no leque e voltou. Rodou novamente e agachou-se, trazendo um leque para frente de seu rosto. Fechou-os com brusquidão ao batê-los nas coxas. Equilibrou um no outro e o que estava em cima abriu sozinho e caiu. Hinata o pegou quase rente ao chão e o fez subir. Deu uma volta em si mesma e o pegou com a mão nas costas. Uma mecha de seus cabelos soltou e caiu sobre a têmpora, a mesma mecha que Neji tinha-lhe segurado antes de parti. Girou nos pés e cometeu o erro que disse milhões de vezes para Sakura tomar cuidado e que, antes disso, sua mãe também lhe dissera milhões de vezes. Tropeçou na barra do quimono e soltou uma exclamação antes de cair, interrompendo a melodia cantarolada. Suas mãos espalmaram no chão com o tombo, os leques caíram mais longe e o prendedor em seus cabelos quicou duas vezes com um som metálico no tatame. Por suas costas, ombros e nas laterais do rosto envergonhado ficou espalhado o contraste negro-azulado.
"Seu erro pode destruir a Vila, esteja ciente" as palavras de Sasuke voltaram.
Seus olhos marejaram quando, a sua frente, Masaru se levantou. As mãos espalmadas no chão fecharam-se em punho e as unhas curtas se cravaram na pele marcando a alvura nas palmas. Não iria chorar, era admitir derrota. Nem conseguiu se levantar e apresentar uma mesura como desculpa apropriada quando o senhor feudal ajoelhou-se a sua frente, pronto para lhe estapear, era o que ela pensava. Não houve tapa, nem reprimenda. Pela terceira vez em pouco tempo o seu queixo foi segurado e levantado. Os olhos verdes e aquosos fixaram-se nos perolados vítreos. O carmim das faces de Hinata foi disfarçado pela maquiagem muito branca, mas ela não pode deixar de ficar nervosa em constatar que a beleza e juventude da foto de Masaru Ren também se faziam presentes na realidade.
- Você se machucou, Hinata-chan? – ela negou com a cabeça – Que bom, agora me deixe ajudá-la.
Mesmo em pé, Hinata não pronunciou palavra nem se moveu. Ele colocou o enfeite de prata e ametistas sobre a palma marcada pelas unhas e fechou os dedos alvos sobre ele. As mãos da primogênita Hyuuga tremiam.
- É uma ótima dançarina, Hinata-chan – ele não cansava de repetir seu nome, de saborear as letras todas – Preciso que Hae-san cuide muito bem de você. Diga-me, posso chamá-la de Princesa da Lua?
- Nã... Não, por favor – seus olhos suplicantes só fizeram o sorriso do homem aumentar. Ele lhe soltou as mãos pequenas que foram se encontrar a frente das pernas. Receber um apelido do homem mais poderoso e o cobiçado na okia não era bom sinal, especialmente se isso fosse causar brigas entre as outras gueixas, coisa que Hinata menos queria.
- Muito bem, então – a kunoichi se ajoelhou e abriu a porta de correr mantendo a reverência até ele se afastar pelo corredor. Hae e seus olhos de mosca esperavam pelo senhor feudal quando ele chegou à porta da frente da casa de chá.
- O que achou, meu senhor?
- Ela é perfeita, cuide dela, Hae, vou querer essa.
- Sim, Ren-sama – sorriu a mulher.
Olá!
Já sei, já sei, não posso pedir desculpas, isso seria muita hipocrisia. Eu demorei, de fato. Mas agora eu to de férias e pronta para escrever um monte! Viva a liberdade de julho!
Espero que vocês tenham gostado desse capítulo, muitas coisas aconteceram... Quero dizer, Ren agora quer a Hinata só para ele, acho que isso não vai ficar assim e que história é essa de ficar roubando o histórico dos outros, Sasuke? Coisas mal explicadas, muitas perguntas.
Obrigada a quem mandou review, favoritou, colocou em alerta e essas coisas ou só leu mesmo e espero que eu possa compensar a demora de algum jeito.
AGRADECIMENTOS:
Hana-Lis, Hachi-chan2, Amandy-san, Kinha Oliver, Emy, Camila, Gesy, Marcy Bolger, Elara-chan, Sazame Hyuuga, Carol, Lust Lotu's, H. Whore(2) e Mona.
OBRIGADA POR LEREM!
Beijos, Tilim! :)
