Apesar das desculpas, aquelas cenas não saiam da minha mente. Tentava entendê-lo, decifrá-lo.

"Você procurou por isso, não? Quer que eu te dê atenção? Minha atenção é toda sua neste momento"

Eu o provoquei e não suportei as conseqüências? Não, era mais do que isso. Procurei a única pessoa que poderia me ajudar ou então, arruinar de vez a minha vida, Akira.

Depois de tocar algumas vezes a campainha, alguém abria a porta da casa. O homem alto me observou, rígido. Era a primeira vez que ia visitá-lo.

- Desculpe, er... Meu nome é Hikaru Shinji e eu sou amigo do Akira. Será que eu podia falar com ele?

- Ele não está.

- Ah! Tudo bem, obrigado.

Estava indo embora quando me deparo com Akira e sua mãe saindo do carro.

- Akira - sorri aliviado.

Ele sorriu sem graça. A mãe dele me olhava como quem olha um bebê recém-nascido.

- Não vai me apresentar seu amigo?

- Ah, er... Esse é o Hikaru, também faz parte do time de basquete.

- É um prazer, Hikaru-kun - sorri - Eu sou Nishida Tomoe, mãe do Aki-chan.

- Mãe! - seu rosto corou. Não o culpo!!

- O prazer é meu, Nishida-san!

- Não quer entrar e comer alguma coisa? Não é querendo me gabar, mas, dizem que cozinho muito bem - pisca um dos olhos, estampando um sorriso no rosto.

- Ele... Não vai poder ficar! Nós combinamos de treinar hoje, né Hikaru?

- Hã?

- Por isso está aqui, né? - sorri com um olhar desafiador.

- Ah, é sim! Fica pra próxima vez - sorri sem graça enquanto Akira me puxava.

- Não se esqueça de voltar em tempo para o almoço! - a mãe falava de longe.

- Pode deixar!

Nos distanciamos, indo para a antiga quadra de basquete, como de costume. Ao chegarmos, exigi uma explicação.

- Ah, bem, é que... Seria desconfortável continuar lá.

- Por que seria desconfortável, Aki-chan? - perguntei com um tom de ironia

- Se me chamar assim mais uma vez....

- Desculpe, desculpe. Não resisti. Mas, por quê?

- É que... Sei lá, o clima ficaria estranho. Só isso - sorri sem graça

- Akira...

- Então, por que me procurou?

- Er... Nada demais. É que o sensei ia ficar o dia todo em casa e eu não queria...

- Sensei? Que sensei?

Percebi a desgraça que havia feito e tentei disfarçar

- Sensei? O quê que tem "sensei"?

- Você disse "sensei"

- Não disse não!

- Ah, disse sim.

- Eu não tô ficando louco, eu tenho certeza que não disse isso.

- Você disse que o sensei ia ficar o dia inteiro em casa. O que quis dizer com isso? E pára de me enrolar - encarou-me.

Droga, não funciono bem sob pressão.

- Er... É que, eu fui demitido.

- Demitido??

- É. Depois fui despejado.

- Despejado também??

- É, é. Então o Fujimoto Hiroki, meu professor de japonês deixou que eu morasse junto com ele até eu arranjar outro lugar.

Silêncio. Tempo para Akira digerir minha última fala. Aquilo estava me matando.

- Desde quando?

- Um dia antes do jogo.

- Isso tem alguma ligação com você ter faltado ao jogo?

- Er... Bem, é que... Ele ficou doente e eu não podia deixá-lo lá, afinal, a culpa foi minha.

Akira sorri, o que me deixou extremamente incomodado.

- O quê?

- "O quê" o quê?

- O que foi? Por que tá rindo?

- É que agora faz sentido.

- O quê?

- Tudo. Não era uma garota por quem estava com ciúmes e sim o professor!

- Pshii! Quer falar baixo? E até parece que eu ia ter ciúmes dele...

- Aconteceu alguma coisa entre vocês, não foi? Por isso quer ficar distante.

- Eu já disse que eu nã...

- Não tenho nada contra isso e acho que é melhor encarar as coisas do que ficar fugindo.

- Mas...

- Você é tão previsível.

- Akira.

É verdade... Não existe nada que eu possa esconder dele. Aliás, quanto mais tento omitir, mais deixo as coisas claras. Se eu pudesse ser assim, se eu pudesse decifrar as pessoas tão facilmente... Saberia o porquê de "ele" ter feito aquilo e quais as suas intenções comigo.

- Hikaru! Eu preciso ir - colocou a mão sobre meu ombro - Desculpa não poder ajudar.

- Obrigado. Você ajudou, eu acho - sorri desajeitado, mostrando a incerteza que fazia parte do meu ser. Ele tirou sua mão e me observou.

- Tô vendo sua confiança... - dizia sarcástico.

- Eu só, não sei como começar a mudança.

- Você já começou. Não disse nada hostil nem tentou disfarçar nada. Apenas disse o que lhe veio à mente. Não precisa se conter em pensamentos ou se preocupar com o que os outros vão pensar, apenas fale ou faça.

- Seguir meus instintos, né? - falei indiferente, lembrando-me do conselho do sensei.

- É, por aí. Amanhã te vejo no treino, tenho mesmo que ir.

- Tá.

- Se cuida, cara!

- Você também.

Desde que entrei para o time, ele me ajudou. Tinha algo nele que despertava conforto, confiança. Por mais que soubesse tudo sobre mim, eu pouco sabia sobre ele. Sua mãe me pareceu normal, mas, seu pai, seu pai me pareceu muito frio e desconfiado, totalmente o oposto de Akira. Confesso que tive medo.

Tentei enrolar o máximo possível na rua, o que não durou muito devido ao calor e a falta de dinheiro. Precisava arranjar um emprego o quanto antes...

- Encarar as coisas, né? Pff... Como se fosse fácil...

Antes de ir pra casa parei diante de uma praça próxima. Observei durante um tempo um casal de namorados sentados em um banco. Fiquei imaginando como seria ter uma vida mais "normal". Por estar sempre ocupado com os estudos, o trabalho e principalmente o time, eu nunca tive muito tempo para relações, não que eu nunca tenha namorado... Mas isso já fazia um bom tempo.

- Shinji-kun?

"Shinji?Sim, esse é meu nome. Quase ninguém me chama assim. Acho que minha mãe me chamava assim, deve ser..."

Estava tão perdido em meus pensamentos que só alertei-me quando a bela moça segurou meu braço.

- Shinji-kun?

Voltei-me à ela.

- Shinji-kun!! - seus olhos brilhavam

- Mi..Mika...chan, né?

Ficou ainda mais sorridente.

- Então lembra de mim?!

Na verdade, foi sorte acertar o nome dela. Se perguntasse o sobrenome, viixii!

- Er... É claro! O que faz aqui?

Mika-chan é uma das líderes de torcida e estudamos na mesma sala. Não é alguém que eu dê muita atenção, não que seja feia ou insuportável, apenas não acho interessante.

- Nada demais, só passeando. E você?

- O mesmo - forcei um sorriso.

- Quer tomar um sorvete?

Essa foi direta.

- Bem, eu, já tava indo pra casa e não tô com muita fome. Desculpe.

- Ah, entendo - vi claramente sua decepção.

Não queria me sentir mal por isso, então, resolvi fazer algo.

- Escuta, eu posso te levar em casa! Isso se você quiser...

- Não precisa.

- Eu posso te levar, é sério!

- Não precisa, tá tudo bem. Não se preocupe - sorriu.

Aquelas palavras lembraram-me dele. "Nem mesmo por um instante consigo parar de pensar"

- Droga... - falei baixo.

- Shinji-kun?

- O quê?

- Você tá bem?

- Tô sim! Sem problemas - retribuí a gentileza.

Voltei finalmente ao apartamento.

- Tadaima![1]

Mesmo quando morava sozinho, tinha o costume de avisar aos móveis que cheguei em casa. Não que eu tivesse muitos...

Estava tirando os sapatos e sua voz soou de repente.

- Okaeri!

Arrepiei-me.

- Hikaru-kun, diga "x"!

- Hein?

Um flash cegou temporariamente minha visão.

- Não é pra dizer "hein" e sim "x". Vamos, mais uma vez!

- Por que temos que tirar uma foto?

- Para recordar. É para isso que tiramos fotos, não? - sorri.

Quando menos esperava, ele apertou o botão e tirou mais uma foto.

- Bem, essa mostra bem sua personalidade - olha para a pequena tela da câmera digital, divertindo-se com minha expressão de "onde estou?" Aquilo realmente estava me definindo no momento.

- Haha!Muito engraçado - falei sério - agora apaga isso!

- Mas ficou tão boa!

- Só deve estar brincando...

Tentei pegar a câmera para que eu mesmo apagasse a foto constrangedora.

- Eu falo sério. Seu sensei não costuma mentir - sorria gentilmente enquanto afastava a máquina de mim.

- Sensei!

- Não.

- Droga...

Ele continua sorrindo.

- Aposto que consigo tirá-la de você!

- Tente - olhou-me desafiador.

Como num jogo de basquete onde eu precisava recuperar a bola das mãos do adversário, tentei roubá-la do sensei. Sim, eu me empolguei. Antes que pudesse continuar, escorreguei nos meus sapatos, ele caiu comigo, ou melhor dizendo, caiu em cima de mim.

- Você está bem?

Peguei a câmera quando ele se distraiu e a segurei, vitorioso.

- Muito bem

- Francamente...

Mais uma vez encontrava-me em uma situação complicada. Depois de me dar conta, comecei a transpirar. Aquela pessoa tão próxima à mim, era algo que me deixava nervoso, como se estivesse jogando como capitão pela primeira vez. Você se sente pressionado e tem medo, se sente perdido, mas, não quer nada além daquilo.

Enquanto eu ouvia meus batimentos acelerarem e tentava me manter são, aquele momento que parecia durar uma eternidade se esvaia. O que aconteceria? Eu não sabia. Ele me olhava tão profundamente... O que estaria pensando? O que estaria sentindo? Se eu pudesse decifrá-lo, tal como Akira faz comigo...

Sem mais nem menos, ele sorriu. Fiquei ainda mais envergonhado.

- Sensei...

O desespero preenchia-me. A coisa mais inesperada aconteceu. Ele saiu de cima de mim e sentou-se encostado à porta.

- Não quero causar nenhum mal à você. Se isto o encomoda, então não há porque continuar, não?!

- Sensei!

Desta vez não pensei. O abracei, com todas as minhas forças. Sua mão afagava minha cabeça e o braço oposto, lenta e cuidadosamente, envolvia-me.

- Tudo bem.