Capítulo quatro: Você aqui

Por Kami-chan

E dormi bem como nunca tinha dormido dentro de um ônibus em movimento. É claro que fazer sexo com um moreno daqueles sem abrir a boca para um pio foi algo insano, mas não vem ao caso.

Lembro-me da cara de desaforado de Shiroyama ao jogar as camisinhas que usamos, para não fazer sujeira no ônibus, pela janela. E da expressão hilária que ele fez ao se colar no banco com força para segurar o riso após me dizer que uma delas tinha se colado no vidro dianteiro do carro de alguém. Dez minutos após o episódio, já estávamos vestidos, e do nada Yuu teve um ataque de riso que ele fez todo o possível para conter.

"Imagina se fosse um conversível". Foi o que ele disse a me ver olhar para o mesmo sem entender porra nenhuma.

Eu costumava duvidar que aquele rapaz educado e de sotaque pesado fosse a peste que ele mesmo afirmava ser em sua adolescência. Não mais. Agora que o vejo assim, tenho certo medo de conhecer esse Shiroyama que se autodenominava uma peste.

Adormecemos após falar muito sobre nada que tivesse alguma relevância pra mim. Nossos assuntos iam de piadas à provocações e de carícias ousadas à histórias mirabolantes de nossas adolescências.

Até sentir um tapa na minha bochecha, acompanhado de um sutil "Acorda porra". Agora, se até as pessoas que mais amamos tem algumas manias que não suportamos, imaginem só isso aplicado às pessoas com quem eu tenho que trabalhar. Uhum, e a minha cara adorável ao ver Uruha em pé no corredor.

Ao lado do meu banco. De braços cruzados. E uma cara azeda e psicoticamente assassina. Tal como se eu tivesse roubado sua caixinha de joias, com as joias junto, é claro.

− Qual é a tua, imbecil? Te fiz algo por acaso? – E eu não costumo discutir com Kouyou, mas pela manha meu amigo, evite até me dar bom dia.

− Sabe que hora é? – Me perguntou com sua voz grave e baixa, calmo, porém sério demais.

− Não, não faço ideia, mas com certeza não estou atrasado. Ainda estamos rodando.

− Toda a banda e toda a staff já acordou, só falta os dois.

Ele apontou pra mim, como assim dois? Uruha por acaso era estrábico? ... hum... É, ele é, mas isso não vem ao caso, ele deveria saber que eu sou apenas um. Com o ombro pesado demais, mas ainda assim... Um. Odeio dormir em ônibus.

− E claro que o que fazem não me diz respeito – disse mais azedo ainda – Mas deviam cuidar pelo menos dos membros da staff.

− Hum? – Eu não estava entendendo porra nenhuma mesmo, e Uruha olhou pra o meu ombro. – Porra caralho! – Me assustei com o moreno jogado no meu ombro, pior que isso, ele estava constrangedoramente agarrado em mim. – Acorda Aoi! – E o empurrei com as duas mãos em seus ombros.

Uruha riu, suavizando finalmente sua expressão. Não sei se ele gostou da minha cara de assustado, ou se por ver a forma como Yuu bateu com tudo no encosto do banco da frente.

− Ahh seu corno, isso doeu. – Yuu reclamou rindo, enquanto mantinha as duas mãos sobre o nariz.

− Tomara que tenha quebrado. – A voz de Kou é grave por natureza, mas dessa vez eu até senti frio após lhe ouvir.

Aoi parou de rir no mesmo momento, guiando os orbes escuros para cima. E eu parecia esquecido por ambos, fiquei olhando de um para o outro. Eles apenas se olhavam, Aoi abismado e Uruha quase o fuzilando com os olhos. Aquilo sim era esquisito.

Estranho mesmo, já que de uns tempos pra cá os dois estavam até mais próximos um do outro, quase como amigos de verdade. E sem mais nenhuma palavra Uruha se virou e nos deixou para trás.

− Vou ver com o motorista em que cidade estamos – Disse e me levantei deixando o moreno, anormalmente quieto, pra trás. – Uruha tem que deixar de ser tão bipolar – Disse mais para mim que para qualquer pessoa.

Que outros motivos ele teria para aquela encenação melodramática?

Ainda pude ver de relance o momento em que Aoi se ergueu e caminhou até o banco do loiro, ele parecia querer reverter o show de "bom humor" de Uruha, pois o encarava. Em pé abraçando o encosto do banco em sua frente.

Logo o contornou e se ajoelhou ao contrário no banco de frente para Takashima, sua barriga apoiada no encosto para as costas. Eu já estava longe demais para ouvir do que falavam.

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− E mais uma vez você é quem vai ficar sozinho no quarto, Kai-chan? – Questionou-me Aoi a me ver colocar um dos três chaveiros que trazia comigo em meu bolso e estender dos dois que sobravam, um para Reita e outro para si.

− Eu sempre acho que manter os quartos separados pela afinidade dos instrumentos é o melhor para a banda, dividiria com Reita se já não soubesse que o Ruki me mataria se o fizesse.

− Ainda bem que você sabe. − Disse Ruki em um falso tom de ameaça e todos nós rimos.

Percebi a mensagem latente por trás do comentário de Aoi, afinal era eu quem dividia os quartos e podia muito bem reservar um quarto para nós dois bem como sempre fizera para Ruki e Reita. Na verdade, isso até passou pela minha cabeça, mas de fato preciso de um tempo só para mim em um espaço que fosse só meu.

Meu espaço para poder organizar as coisas na minha cabeça. Também não estava conseguindo descansar direito e estava mentalmente desgastado, exausto e nem mesmo meu sono estava tranquilo. Não conseguia encontrar os motivos para explicar porque a aproximação com Aoi fazia a falta de Miyavi mais dolorosa. Não que eu não pensasse nele todos os dias, mas ao receber novos toques que não eram os seus, toda aquela avalanche de lembranças estava me soterrando.

Por que infernos eu não conseguia o esquecer? Quanto tempo mais teria que sofrer incapaz de deixar de lamentar essa perda irreversível?

− Kai-san − A voz de Sakai me tirou de meus pensamentos. Mundo este que tenho habitado com cada vez mais frequência e por cada vez mais tempo. − Podemos conversar um minuto?

− Claro Sakai-san − Sorri-lhe sincero, a perspectiva de que já havia trabalho para mim ali me animava.

Ocupar a mente é sempre uma boa saída. Aliás, trabalhar era o que eu mais tinha feito nesse um ano sempre preferindo a sala da PSC e o banquinho desconfortável da bateria a voltar para minha casa e constatar que ela estaria fria e vazia. Sem fotografias, sem a TV ligada mesmo que ninguém estivesse olhando, sem seu precioso notebook aberto e ligado sobre a mesa da sala de janta e seu terrível hábito de deixar suas coisas espalhadas, bem como todas as luzes acesas.

E mesmo que como migalhas se comparadas ao tamanho da minha dor, podia pelo menos dizer que estava tocando melhor, estava afiado. Tão afiado que muitas vezes abava inclusive cortando as pessoas que se aproximavam. O trabalho mascara a solidão, talvez seja também por isso que os grandes de sucesso eram sempre também grandes solitários. Não quero pensar nisso agora.

− Etto minna, não temos o que fazer agora, então se instalem com calma e quando eu tiver todo o cronograma passo pra vocês.

− Nee você sabe onde nos achar se precisar Kai-chan. − Disse Uruha sorrindo achando um meio de pendurar sua pesada mala de alça muito curta no ombro, dando um tapinha com a mão livre no braço de Aoi que imitou seus atos. Era bom ver que, aparentemente o humor de Uruha tinha voltado.

− Até mais minna. − Disse já dando as costas, me deixando com um sorriso para interpretar. Sorri-lhe de volta.

− Bom Kai, então agente também vai. − Disse Ruki enroscando seu braço livre da mala com o de Reita.

− Não hesite em chamar se precisar. − Disse o da faixa antes de se deixar levar por Ruki.

− Então Sakai-san o que há? − Lhe perguntei em um suspiro.

− Ahhhh Kai-san é um pouco complicado − Ele coçou a nuca num sinal de nervosismo, não, não era nervosismo, era aquela cara típica de quem fez merda e agora não sabia como dizer. Meu sorriso diminuiu. − Você sabe, o hotel foi completamente fechado apenas para as bandas do festival e suas staffs. Acontece que houve uma pequena confusãozinha. − Fechei os olhos e suspirei pesado.

− Você ficou sem quarto Sakai-san, não tem problema nós podemos dividir. − E é nessas horas que eu me pergunto por que eu não poderia ser um pouco mais parecido com o Ruki, ele teria dito um belo 'se vira Sakai' sem o menor remorso.

− É pior do que isso, eu e mais quatro membros da staff vamos nos dividir entre os quartos da equipe de suporte. Falta você apenas.

− Mas eu ganhei uma chave na recepção. − Tentei argumentar levando a mão ao chaveiro em meu bolso só para ter certeza de que não estava sonhando.

− Pois é, eu corri feito louco pra encaixar você em um quarto decente e por sorte mesmo consegui. Pedi pra recepcionista lhe entregar as chaves normalmente e só vim lhe avisar agora, pois sei que você não verá problemas já que são tão amigos, foi realmente uma sorte muito grande que...

− Sakai-san − Uma voz desconhecida por mim o cortou e me virei na direção da voz.

Muito bobamente a minha única reação foi travar enquanto minha mente formulava uma única resposta que meu corpo não teve condições de proferir. Não!

Eu estava mesmo pensando em ter paz, como ter paz? Estávamos agora eu e Sakai lado a lado, de frente para Miyavi e algum membro de sua staff, vasta staff. E todas as palavras enroladas do empresário fizeram sentido, ninguém sabia do relacionamento entre Myv e eu. Quem nos conhecia via apenas dois grandes amigos de longa data, o ano estava tão agitado, tanto para o Gazette para o então papai Miyavi, que seu eventual afastamento não fora se quer percebido.

Nem mesmo os membros da banda haviam percebido como Myv não constava mais nos meus assuntos, ou que não havia mais telefonemas em horários malucos devido à diferença de fuso entre os países onde cada artista estava se apresentando. Não perceberam também que eu não apenas evitava estar nos mesmos lugares que ele como também fiz questão de marcar uma centena de compromissos para manter ocupada toda a semana que precede a grandiosa festa de um aninho de sua filha, fato este que me rendeu dias ouvindo reclamações de Ruki que já havia recebido seu convite.

Eu também, o hipócrita também havia me convidado. Tudo para manter as aparências, é claro. Como não convidar seu maior amigo para um evento tão importante? Destramente dei um jeito nisso, mantendo o Gazette completamente ocupado. Álibis perfeitos.

− Kazome-san, quanto tempo. Miyavi-san, é realmente um prazer revê-lo. − disse Sakai com belo e grande sorriso na direção dos outros dois.

Meu sorriso também estava presente, mas não porque eu queria e sim porque eu havia congelado. Meus braços naturalmente cruzados como era meu hábito, não se desfizeram e apenas minhas mãos se moveram buscando em meu próprio corpo algo para se agarrar, para me dar suporte. E pela primeira vez em cerca de um ano me permiti olhar para o rosto que eu amava tanto e que agora estava desprovido de pircings.

Tentei ao máximo não esboçar expressão nenhuma, mas ele também me encarava. Me media dos pés à cabeça com um sorriso genuíno nos lábios, como que se admirasse satisfeito com minha imagem. E eu devia mesmo ser muito mais masoquista do que imaginava, pois bastou esse simples gesto para eu ter a mais dolorosa e humilhante certeza de que eu ainda o amava demais.

Poderia haver Aoi, poderia haver um corpo fisicamente igual ao de Miyavi ou até mesmo um artista com um talento semelhante ao seu e ainda assim NINGUÉM seria ele. Ninguém despertaria tanto meu interesse como ele e acima de tudo, ninguém me faria amar como ele. Estava ali, entre nós dois e eu podia sentir, minha essência fora feita a partir da sua. Não era um capricho e nem orgulho ferido, era apenas a certeza de que se Deus tivesse mesmo jogado as almas no mundo em pares, ali estava a minha.

− Realmente Sakai-san, essas agendas lotadas não estão mais se batendo para tomarmos aquele sake hm – Disse o homem ao lado de Miyavi dando um tapinha no ombro de Sakai.

− Ora essa, o bar do hotel está aberto e podemos afogar esse sake hoje mesmo Kazome-san, assim que alojarmos essa dupla é claro. Miyavi-san muito obrigada mesmo por dividir seu quarto com o Kai-san.

O QUE? E eu ainda estava dependendo da generosidade dele? Qual é, que diabo ele estava fazendo ali afinal se nem da companhia mais ele era? E mais, eu podia muito bem dormir no ônibus ou...

− Sakai-san eu não quero que haja incômodos, podemos por um colchão no quarto onde estão Aoi e Uruha e então não invadiremos a privacidade de Miyavi – Eu sei que devia usar um 'san' depois do nome, mas a ideia de agir com respeito com ele não era processada pela minha cabeça.

− O hotel está tão cheio que nem colchões de sobra tem. – Disse Sakai

− Ok eu não me importo em dormir em um dos colchonetes que temos no ônibus.

− Ahh os membros da staff que eu comentei com você que também ficaram sem quarto já os pegaram. – E eu estava pronto pra dizer que pediria pro Aoi e pro Uruha unirem as duas camas de solteiro para deixá-la do tamanho de uma de casal para nós três quando Myv abriu a boca pra falar.

− Hey Kai deixa de se escamar, a sua companhia nunca me incomoda. Além do mais, faz tempo que agente não coloca o assunto em dia. – Disse sorrindo sacana, ahh como eu conhecia bem aquele sorriso, bem o suficiente para temê-lo. – Não se preocupe Sakai-san eu vou cuidar bem do seu líder e baterista. – e me abraçou o desgraçado.

É... Na cara de pau, fazendo minha garganta fechar de ódio ou coisa parecida. Eu queria tirar o braço dele de cima dos meus ombros, quem sabe até sair correndo... Mas como me explicaria. Eu não merecia mais isso, além de todo sofrimento que me fez passar agora ainda fazia que nada tinha acontecido e eu teria que o aturar a noite inteira na cama ao lado. Amando-o mesmo que ele não merecesse, desejando-o mesmo sem poder tocá-lo. E também querendo matá-lo, mas havia uma penca de motivos óbvios e racionais pelos quais eu não poderia fazer isso.

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E fomos deixados para trás para seguirmos sozinhos até o nosso quarto. No mais sepulcral silêncio, no meu caso exclusivamente porque estava indo tomar o corredor da morte. Andando lado a lado, sorrindo e correspondendo aos comprimentos de nossos conhecidos e às brincadeiras que alguns deles faziam até finalmente avistar a porta do inferno, ou do quarto.

Fingi não perceber a forma como ele me olhou dos pés à cabeça depois de abrir a porta e dar passagem para que eu entrasse primeiro. E bastou apenas ele fechar a porta do quarto para ambas as máscaras caíssem.

− Eu fico com essa cama, você com aquela. – Disse simples e direto ao jogar minha mala em cima do colchão indicado por mim mesmo.

− Uhum.

Disse com a cabeça baixa se sentando sobre a outra cama, quase sem coragem de me olhar diretamente. Sentia como que se toda a ousadia que ele tinha demonstrado lá fora na frente das outras pessoas fosse apenas e somente apenas por que sabia que eu não faria nada que nos prejudicasse. Mas ali, apenas eu e ele, eu podia sentir de longe o quanto ele temia ser ousado daquele jeito.

Sem mais nada a dizer, Miyavi se ocupou em abrir a mala e começar a tirar as coisas de dentro. Aproveitei a forma com ele estava ocupado com suas coisas e me levantei para tomar um banho. Fingi não perceber a forma como ele me seguiu com os olhos enquanto seguia para o banheiro da suíte com minhas roupas, uma toalha de banho e frasqueira.

De alguma forma, senti como se só conseguisse respirar à vontade quando estava sozinho no aposento gelado, dei duas voltas na chave para ter certeza de que a porta estaria bem trancada, e ainda, a testei no final. E parecia o cúmulo da insegurança e da paranóia, mas pendurei a toalha de rosto que estava no banheiro na maçaneta, apenas para ter certeza que o espaço da chave no ferrolho estaria completamente coberto para quando eu fosse tirar minha roupa. Talvez fosse um pouco de vaidade também, achar que ele poderia me espionar.

Quando saí do banheiro Ishihara estava ao telefone, parado diante da TV, anotando apressadamente informações que lhe eram passadas, em sua agenda, que estava em cima do aparelho de TV. Ele se virou para me olhar rapidamente e continuou trocando informações com a pessoa do telefone. Do nada, alguém bateu na porta do quarto e fui atendê-la.

Então formou-se uma pequena confusão que eu até agora não entendi. Saori-san era uma das staff mais antigas de Miyavi, e ela praticamente invadiu o quarto quando abri a porta para ela. Myv ainda estava no telefone e tentou, inutilmente, dar atenção às duas conversas ao mesmo tempo. Saori estava falando coisas sobre malas extraviadas e afins, enquanto Takamasa ainda anotava coisas que lhe eram passadas pelo telefone na agenda. Até que ele se livrou da ligação às presas e se deixou ser carregado do quarto pela morena baixinha, mas muito competente.

E eu fiquei de espectador de tudo, a equipe dele era muito grande, e consequentemente, muito desorganizada. Quase ri com aquela cena típica, chegava quase ser nostálgica, a diferença é que agora eu não precisava me envolver nos problemas do cantor. Fechei a porta esquecida aberta pelos dois e ia me preparar para dormir quando me virei e vi ainda aberta em cima da TV, sua agenda. Eu tinha convido com ele tempo demais pra saber que seus compromissos eram agendados e organizados pelo tal Kazome-san, ter uma agenda pessoas era quase um luxo de Ishihara, um quase diário, misturado com suporte para anotações espontâneas ou inesperadas e folhas para se rabiscar quando está fora de casa ou do estúdio.

Como estaria a vida dele? Era só eu dar alguns passos até o pequeno objeto e eu descobrira. Invasão de privacidade? Eu to pouco me lixando, ele literalmente ferrou com a minha vida sem nem se importar com tudo que eu sentia, ou sinto por ele. Meu único receio era folhear aquela porcaria e descobrir o quanto ele estava feliz. E eu devo ser ruim de verdade, porque não consigo mentir para mim mesmo e desejar que ele estivesse feliz. Ele não pode ser feliz.

E como uma boa pessoa que gosta mesmo de se machucar, avancei até onde estava a pequena agenda. Ele estava anotando coisas sobre efeitos de palco do show, pude descobrir. Haviam páginas marcadas com clips pretos, e outras com clips rosas, me aventurei e abri uma marcada de rosa.

A foto anexada li era uma menininha, tão pequeninha e linda. Ela estava em pé, se agarrando em uma mesinha baixa, parecia ser o centro de uma sala. A legenda escrita na página da agenda dizia "Airi está ensaiando seus primeiros passinhos". Olhei mais uma vez para aquele monstrinho motivo do nosso fim, ela sorria tão docemente para a câmera, realmente muito feliz por ter o papai por perto.

Busquei mais um clip rosa e mais uma vez, a imagem da criança se fez destaque na página escolhida. Tomei como lei que todos os clips daquela cor fossem destinados a menina e troquei buscando uma página marcada por um clip preto, e eu preferia ter encontrado mais uma foto da bebe.

Mas era uma foto nossa que ele tinha ali, 14 de fevereiro. "Estou em Barcelona, mas não é essa distância a que me faz triste numa noite tão maravilhosa. Kami-sama me odeia pelo o que fiz, estava na praça mais cedo e um ambulante me parou ofertando chocolates para a data comemorativa. Eram os de sua marca favorita, comprei os que ele tinha, mas tive que os comer sozinho."

Fechei o objeto em minha mãos imediatamente, mas a curiosidade me fez abri-lo mais uma vez. Logo na contracapa havia outra foto de nós dois juntos, absolutamente íntima. A mulher dele não devia ter acesso aquele objeto, com certeza. E meus dedos coçaram para buscar mais alguma data marcada com um clip preto, uma em especial.

Era nosso aniversário de namoro e ali havia apenas uma foto minha. "Se serei privado de te-lo, nee Kami-sama nunca deixe que a lembrança se apague"

Fechei os olhos sentindo o calor de cada lágrima que cairia. Chega, aquilo já bastava para me machucar o suficiente, e deixei a agenda aberta na mesma página que ele tinha deixado, no mesmo lugar em cima da TV. E eu, ah eu tinha que dar um jeito de dormir antes que ele voltasse e eu o crivasse de perguntas indevidas. Miyavi tinha feito sua escolha, agora ele que arcasse com cada consequência.

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Narração de Miyavi

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Eu precisava urgentemente dar uma repaginada na minha equipe de suporte, eles estavam muito desorganizados e incompetentes. Viviam se atrasando, perdendo coisas por onde passávamos, até, eu camarim já havia sido invadido por pura imperícia da equipe. Kazome e Saori eram os únicos que pareciam estar fazendo um trabalho profissional. Os outros, infelizmente teria que me livrar e substituir muitos.

Entrei no quarto com cuidado, Kai já estava dormindo. Também, Kazome, Saori e eu levamos quase três horas pra conseguir fazer o que a staff devia ter feito. Até o Sakai se ofereceu pra ajudar, mas aí já seria abusar demais nee.

Vi minha agenda em cima da TV, merda, eu não poderia ter a deixado assim num lugar tão a vista. Principalmente na vista do Yutaka, mas parece que ele não se deu ao trabalho de vir aqui ver nada, esta tudo do jeito que eu deixei. Certamente o baterista ainda tem tanto ódio de mim que se quer se interessa mais por qualquer coisa relacionada a mim.

Ou não. Me aproximei com cuidado de sua cama e era visível, mesmo com ele dormindo, suas pálpebras inchadas e duas grandes bolsas sob seus olhos. Ele tinha chorado antes de dormir. Minha presença o fez chorar.

Pensei que brigaríamos, que discutiríamos, que ele acabasse moralmente comigo e fizesse de alguma forma eu o esquecer. Mas não pensei que ele ia se encolher dentro de sua própria concha e chorar quando eu desse as costas. Isso dói mais.

Eu não precisava ter aceitado ir àquele festival, eu não fazia mais parte da empresa. Mas ambos fugíamos da presença um do outro em todo e qualquer evento, eu queria ve-lo de perto mais uma vez e não pude refrear maus instintos ao aceitar aquela apresentação na comemoração de aniversário da minha antiga casa. Uma surpresa extra Sakai vir pedir justamente a mim, abrigo para o meu ex-namorado.

− Kai... Ahh... Para. Esse lugar é público demais.. Ahh – Eu o reprimia, mas não o impedia de continuar a tirar os botões de minha camisa de suas respectivas casas.

− Tá com medinho, é? Pensei que gostasse de uma situação perigosa.. – A altura de sua voz ia morrendo aos poucos na frase que se calou quando seus lábios voltaram a mordiscar a pele de meu peito.

− Isso não é uma situação perigosa é sexo explicito, nossas carreiras acabadas por sermos presos por atentado ao pudor. Gatinho, o estacionamento do supermercado é amplo e movimentado demais.

− Shhh fala menos e geme mais que logo os vidros embaçados vão deixar nossas identidades ocultas nee.. – Disse subindo ao meu ouvido, mordendo a cartilagem da orelha e fazendo com que meus dedos se enterrassem contra sua cintura com força.

− Desobediente.

Ele mordeu o próprio lábio para ocultar o riso. Arteiro e sapeca, como eu passava a descobrir que ele podia ser ainda mais a cada novo dia. O empurrei com força para longe de mim para que eu pudesse o observar, suas costas se chocaram com o volante do carro e a buzina soou fazendo o baterista rir. E desde o começo daquela relação eu já podia perceber como era regente e obediente de suas vontades, sempre as fazia, por mais absurdas que pudessem ser.

− Olha o que você me fez fazer. – Disse com um falso bico nos lábios – Você um gatinho desobediente que não aprende nunca, não é?

− Tente me educar então! – Disse sorrindo pervo levando os cotovelos para trás até os mesmos se acomodassem no console do carro.

Não seria preciso nem isso para que eu o tomasse para mim, enfim. O puxei de volta pela camiseta, nem um pouco preocupado se danificaria o produto de marca cara, minhas mãos não tiveram tempo de processar nenhuma informação e já haviam largado o tecido e se raspavam com real força e violência contra a pele macia.

O menor gemeu alto em resposta e logo mordeu meus lábios, talvez a fim de causar a mesma sensação que eu o tinha feito sentir. Mas não permiti que me mordesse por muito tempo, logo uma das mãos subia direto às mechas escuras, puxando-as com força, afastando sua cabeça da minha. E quando ele estava a mercê, sua boca se abriu para liberar um silvo de dor, invadi a mesma com volúpia.

Com cada ato brusco, como se cada segundo fosse essencial. O puxei mais uma vez pelos cabelos para guiar seu corpo, ergui-me ao mesmo tempo como mais um impulso e o joguei de costas no banco do carona ao meu lado.

− Ai.. – Gemeu arrastado com o impacto de suas costas contra a manopla de freio de mão, além da cabeça que devia ter se chocado contra o encosto para o braço da porta, o joelho esbarrado no câmbio de mudança de marchas e uma das pernas contra a direção do carro. Por hide, aquilo era mesmo desconfortável.

Ao mesmo tempo em que me gostava de atender a todos os seu desejos, eu não gostava de machucá-lo de verdade. Eu tinha o cuidado em nunca deixar passar dos limites. Ele mesmo pareceu encontrar um meio de se ajeitar, um pé posto sobre a direção e o console do carro e o outro apoiado no encosto do banco do motorista. Chamando-me com seus sorrisos.

− Não quer pelo menos ir pro banco de trás? – Perguntei

− Pra que perder tempo? – Ele próprio segurou a abertura na gola da camiseta com cada mão e puxou com força, mas do que eu imaginava que ele tivesse e a rasgou em duas. – Quer que eu comece sem você? – Perguntou impaciente descendo a mão por seu próprio corpo de forma insinuante.

Abusado, Kai estava a cada dia mais abusado. E tudo isso era sempre pelo mesmo motivo, instigar-me a dar-lhe ordens, rebaixa-lo até o posto de meu objeto de prazer. Insano? Não. Era isso que eu mais gostava nele, a brincadeira ia começar a ficar séria a partir dali, e era ele quem havia pedido por isso.

− Não! Foi para esquecê-lo que quis vir até aqui, e não para começar a devanear ainda mais sobre o passado que tínhamos. – Disse ao silêncio.

Kai parecia estar exausto demais para acordar antes que amanhecesse, e eu devia seguir o exemplo dele e ir dormir também. E assim fiz, logo depois de tomar um bom e relaxante banho, é claro.

NOTAS: Quando eu escrevi isso Lovelie ainda não tinha completado um ano de vida, logo, toda a história ficará desatualizada quanto a isso. Eu não faço a menor ideia de quando é o aniversário da PSC, apenas inventei um evento que unisse o povo todo.

Quando eu escrevi isso, Sakai ainda não tinha pulado fora.