Foi difícil para Rachel começar os treinamentos junto a equipe de atletismo sentindo muitas dores pelo corpo após uma noite aventureira e tensa. Os tornozelos ardiam e ela precisou ir mais devagar do que planejava. Por certo não impressionou a treinadora. Competir não era o objetivo dela. Ganhar força física era. E também convencer Santana a deixá-la participar mais das atividades dos círculos internos os botões. Ela sabia que a líder trabalhava no serviço de correios, que era considerado um dos mais importantes, e tinha alguma noção do quanto era perigoso passar as correspondências mais importantes ou comprometedoras pela fronteira. Era no velho método coiote que eles faziam isso com certas coisas que não podiam ser disfarçadas em produtos de exportação. O Texas era um dos poucos locais do que um dia foi os Estados Unidos a permanecer com os mercados abertos. Era por lá que as correspondências eram enviadas disfarçadas em produtos de exportação. Do Texas, os agentes trabalhavam na redistribuição. O mesmo acontecia para receber: a encomenda vinha do Texas.
Rachel sabia que Santana era uma das responsáveis em pegar e levar as cartas para serem embaladas. E que ela fazia isso a cada 15 dias. Era um trabalho que parecia fascinante aos olhos de Rachel. E ela sabia que quanto mais fosse lembrada pelos botões, mais rápida seria a saída dela daquele país. O que não era simples. Algumas pessoas se arriscavam com coiotes e havia alguns grupos de botões que também usavam esse método. Era extremamente perigoso. Mas os botões tinham como fazer as pessoas saírem ou entrarem pelo aeroporto, o que demandava tempo, dinheiro, documentos falsificados e alguma abertura política.
"Assim você vai longe, Frodo!" – Rachel ouviu a voz de Santana pelas costas e mais risadas de outras cheerios.
"Bela aquisição da equipe de atletismo. Agora é que as cheerios vão ficar absolutas como a única equipe vencedora de Mckinley High" – Quinn completou e Rachel virou-se para encarar o grupo. Além das duas tops, ainda estavam presentes Brittany, embora ela não participasse das provocações, e outras duas – "Tem algo a dizer, RuPaul?"
"Só quero agradecer por essa incrível audiência. Se soubesse que o meu primeiro dia de treinamento atrairia fãs, teria entrado para o time há mais tempo."
"Vigie essa sua boca, manhands" – Quinn deu um passo a diante e ficou a frente das outras cheerios. Rachel olhou para Santana que estava atenta, mas sabia que a líder não faria nada para defendê-la. Pelo menos não em público.
"Não sou eu a insegura aqui, Quinn Fabray. Não sou eu que tenho a necessidade de se impor a quem é invisível nesta escola só para não se sentir tão miserável."
Brittany levou a mão à boca para não rir alto. Quinn avançou em Rachel, mas Santana segurou a capitã pelo braço.
"Você vai se comprometer na escola por causa de um lixo qualquer? Acho que não vale o esforço, Q."
Rachel sabia que Santana fazia o trabalho dela e que o contato social amigável das duas na escola se limitava ao coral. Mesmo assim, doía saber que a pessoa que a orientou e se preocupou com ela duas noites antes, que era a líder dela dentro de um círculo entre dezenas de uma sociedade secreta, a destratava de forma tão cruel. As cheerios viraram as costas e saíram do gramado. Brittany permaneceu.
"Fiquei preocupada quando não te vi na escola ontem. San disse que você estava cansada demais porque precisou pregar um botão" – era uma gíria para qualquer atividade realizada dentro da sociedade – "Ela me garantiu que não era nada demais, mas eu posso sentir quando ela está mentindo."
"Não foi nada demais mesmo, Brit. Eu recebi uma carta e passei a noite toda trabalhando na resposta. Então não consegui acordar a tempo e resolvi matar o resto das classes. Só isso."
"Por que você está mancando?"
"Porque eu fui limpar o meu quarto e deixei aquele livro gigante cair no meu pé."
"Oh" – Brittany não parecia tão convencida assim – "San colocou um botão branco nos nossos armários. O círculo completo. O encontro será lá em casa depois do coral."
"Sabe do que se trata?" – Santana raramente convocava todos para uma reunião.
"Não faço idéia. Mas vou preparar lanches. Espero que goste de sanduíches de pasta de atum."
Brittany sorriu e virou as costas. Rachel balançou a cabeça com um pequeno sorriso no rosto. Mesmo antes dos botões, mesmo quando Brittany já participava do círculo das populares enquanto ela era a mesma ninguém, só que sem o algo mais misterioso que a fazia se sentir importante, Rachel nunca conseguiu ficar brava com os insultos descoordenados da amiga. Era adorável e humana demais para se detestar. Santana, por outro lado, demorou a crescer em Rachel, que teve dificuldades em associar a imagem da bitch impiedosa com a de líder zelosa. O dia passou lentamente. Culpa da rotina tediosa que havia se tornado aquela escola: o teatro com Kurt, as aulas monótonas, o coral que não lhe desafiava, mas que ela permanecia porque ao menos era a hora mais relaxante do dia. Era também o momento em que ela podia ficar perto da paixonite Finn com a desculpa dos ensaios e dos duetos. Depois, o que é uma história de aventuras sem um bom romance? Ou um quase bom romance?
Rachel pegou carona com Kurt até a casa de Brittany após a escola, mais ou menos na hora combinada. Encontraram o casal de cheerios às risadinhas, como se estivessem acabado de fazer uma traquinagem. Tanto Kurt quanto Rachel sabiam muito bem o tipo. As duas sempre namoravam pelos cantos nos encontros sociais dos botões.
"Entrem!" – Santana os recebeu com um sorriso no rosto. Coisa rara.
Poucos minutos depois, o círculo estava completo: chegaram Blaine, Matt e Seban, que estudava na mesma escola que Blaine e era um botão raso. Todos sentaram-se confortavelmente pela sala de televisão que ficava no porão da casa dos Pierce com uma bandeja de sanduíches à disposição, uma tigela com chips de batata frita e botes de sucos e água.
"Ok, agradeço pelo comparecimento de todos os ilustres integrantes do nosso círculo" – Santana foi à frente – "Tenho três coisas importantes a passar. A primeira diz respeito a Samuel Evans..."
"O que tem ele?" – Rachel interrompeu ao ver o nome do bom amigo ser mencionado.
"Ele está em observação."
"Você diz em observação do botão azul?" – Kurt também ficou excitado e Blaine franziu a testa por causa do comportamento do namorado.
"Sim Kurt. Sam tem o perfil e tem motivos. Mas eu ainda não posso apresentá-lo ao círculo sem antes ter certeza, por isso peço a ajuda de vocês. E eu sei que isso seria pedir algo quase irreal, mas Rachel, você é a pessoa mais próxima dele..."
"Não foi o que soube..." – Rachel provocou.
"O quê? Uma noite não me faz íntima de ninguém..." – olhou para Brittany, que abaixou a cabeça. Santana mataria Rachel depois – "enfim... o que eu quero é que você seja o mais imparcial que puder. Adicionar um novo integrante é sempre importante, mas requer todos os cuidados que conhecemos. Se a gente fizer o nosso trabalho, como uma equipe, pretendo apresentá-lo em, no máximo duas semanas."
"Tão longe assim?" – Kurt questionou – "os testes da equipe não levam mais do que cinco dias... pelo menos entre nós..."
"Isso me leva ao segundo recado. Chegou a informação que o governo recrutou alguns dedos-duros nas escolas como uma forma de controlar melhor a juventude ou algo assim" – Santana revirou os olhos com a própria notícia – "Sei que atuamos abaixo do radar e nos comportamos normalmente na escola. Não tenho preocupações quanto a isso, mas eu me sentiria segura e sei que vocês também, se souber quem são esses dedos-duros pré-selecionados. "
"Eu tenho uma lista de prováveis candidatos: Quinn Fabray, Karofsky, Azimio..."
"Isso são suposições, Rachel. Preciso ter algo mais consistente do que nossas antipatias e pré-conceitos. Por isso Brittany vai dar uma festa aqui no sábado depois da competição local dos corais. Todas as cheerios e os atletas serão convidados. E também todos do coral. Vai ser uma festa bem alcoólica e nós vamos tirar proveito disso. Sei que é impossível falar com todos, mas ao menos vamos poder construir um quadro melhor. Isso inclui Sam."
"Mas isso é só McKinley."
"Eu sei Blaine. McKinley é que tem mais integrantes deste círculo e isso nos torna mais vulneráveis de certo modo. Mas sabendo que existem dedos-duros institucionalizados, você, Seban e Matt vão ter mais cuidado. Além disso, existem os outros círculos que vão também estar de olho nisso e logo teremos mais informações. Não quero que fiquem paranóicos. Ok? Se continuarem a se comportarem com a mesma normalidade, nunca terão problemas."
"Ok... você ainda vai ser a minha beard, certo?" – Blaine franziu a testa.
"Sempre que precisar!" – Santana sorriu para o comandado.
"E o terceiro recado?" – Matt pontuou.
"Que eu desafio todos vocês a me derrotar no Mario Kart!" – Santana apontou para todos com a melhor pose bitch – "Eu vou destroçar e humilhar cada um de vocês!"
Gritinhos e urros de reprovação e excitação tomaram conta do porão. Santana também reuniu o círculo para eles também passem um bom tempo juntos antes de enfrentarem tempos mais complicados. Matt, Seban e Blaine eram os mais entusiasmados com o desafio de vídeo-game. As meninas e Kurt mais apoiavam do que pegavam no controle. Santana jogou três rodadas seguidas (e de fato derrotou todos) antes de dar espaço para outra pessoa. Só então se recolheu no sofá e relaxou um pouco a mente e o corpo. Rachel sentou-se ao lado da líder e a encarou com ansiedade. Esperava que Santana dissesse algo a ela. Qualquer coisa.
"Você fez um bom trabalho!" – Santana comentou baixinho – "E foi muito corajosa em fazer aquilo que disse. Sei que a primeira vez não é fácil."
"Adrenalina e o medo ajudaram bastante. Obrigada por estar lá comigo... de certa forma."
"Rachel..." – Santana a encarou nos olhos com uma certeza e no segundo seguinte mudou de idéia e decidiu manter para si. Disse outra coisa para não deixar a menina da expectativa – "Continue no atletismo!"
"Ok!"
Brittany ligou o rádio. Estava passando uma música das Crystals. O clássico "Then He Kissed Me". Brittany pegou a mão de Santana e a puxou para fora do sofá. Começou a dançar em volta dela. Aos poucos Santana foi cedendo e começou a acompanhar os movimentos da namorada secreta. Rachel observou o casal e pensou com certa melancolia e alguma inveja. Aquela história precisava sim de algum romance. Mas talvez isso não dissesse respeito a ela. Talvez o romance fosse para outras pessoas. Viu Santana e Brittany se beijando e virou o rosto.
I knew that he was mine so I gave him all the love that I had/ And one day he took me home to/ meet his mon and his dad/ Then he asked me to be his Bride/ And always be right by his side/ I felt so happy I almost cried/ And then he kissed me/ Then he asked me to be his Bride/ And always be right by his side/ I felt so happy I almost cried/ And then he kissed me.
