Capítulo 3 – Potter-Frango-Assado
"Na minha opinião, nós não desenvolvemos pesquisas científicas suficientes para encontrar a cura para os idiotas."
Calvin e Haroldo.
Eu culpo meus pais. Meus pais e os pais deles. E os pais deles. E todas as gerações da família Evans que vieram antes de mim. É por culpa deles que eu fui amaldiçoada. A única da família! Petúnia poderia ter sido amaldiçoada, ela sempre tem algo para falar mesmo, então não faria muita diferença. Ela gosta de atenção. Não eu. Eu sempre fui a tímida da família, que fica sentada num canto nas festas de fim de ano sem falar com ninguém, só sorrindo de volta pra quem sorria pra mim.
Certo, algumas pessoas cismavam em dizer que eu era metida, principalmente na família de papai, já que nenhum deles ia muito com a cara de mamãe e, então, conseqüentemente, com a minha e de Petúnia. A diferença é que Petúnia consegue muito bem ser falsa, juntando-se com nossas primas e ficando de cochichos com elas, enquanto mamãe e eu somos excluídas pelo resto da família.
Mas eu não sou. Metida, eu quero dizer.
Só não entendo essa obsessão que os familiares têm de abraçar todas as pessoas que dividem com elas um grama de sangue. A campainha toca, você atende e é sufocado por braços e mais braços, e palavras falsas de saudades e "oh, como você está bem!", e todo esse tipo de hipocrisia que ninguém gosta, exceto quando é em família.
A família de mamãe mora por perto, então sou muito mais acostumada com eles. A de papai mora bem longe, no norte da Inglaterra, na Escócia, alguns na Irlanda, o que significa que sempre que eles vêm é aquela festa. Mamãe sempre me chama de canto antes de eles chegarem e diz que papai ficaria muito agradecido se eu os tratasse com um pouco mais de receptividade.
Devo ter puxado da família de mamãe. Todos eles falam bastante, são extrovertidos. Tenho uma tia que, por Merlin, como fala! E fala alto! Deve ter sido dela.
De qualquer jeito, estava tudo lá. Todos os sinais. Primeiro, mamãe sempre diz que dormir de barriga cheia dá pesadelos. Segundo... hum... Certo, um sinal, mas, mesmo assim, todos sabem que mãe entende dessas coisas.
E eu sempre exagero. Durante os sete anos, eu sempre exagerei.
E depois que eu exagerava, prometia que não faria aquilo novamente, que era loucura, que iria acabar morrendo quando uma de minhas artérias entupisse e causasse um ataque cardíaco em mim. Audrey nunca exagerava muito, porque estava quase sempre de dieta. Mas Trillian e eu éramos gulosas demais pra pensar em algo assim.
O banquete de abertura do ano letivo.
Combinávamos de correr em volta do castelo no dia seguinte, pra queimar as calorias e tudo mais, mas a gente sempre acordava meio mal. Você sabe, quando você se enche de comida até ela sair pelo buraco dos seus ouvidos e no dia seguinte você ainda se sente meio cheia, estufada, com um pouco de azia. Audrey então perguntava se aquele exagero todo realmente valia a pena, e nenhuma de nós duas respondia, porque com certeza nossa resposta seria sim, o que levaria Audrey a um discurso sobre alimentação saudável. Sério, não é o tipo de coisa que você quer ouvir às sete da manhã do primeiro dia de aula, principalmente quando você ainda está digerindo os montes de comida que comeu no dia anterior.
Nossa sorte é que depois do quarto ano, Trillian ficou um pouco mais esperta e começou a trazer de casa uma poção que ajuda na digestão, e a tomávamos de manhã. A azia instantaneamente passava, nossos estômagos esvaziavam e – como sempre dizíamos – estávamos prontas pro café-da-manhã.
Não me perguntem quando minha vida começou a girar em volta de comida, porque eu não sei.
Em casa, mamãe sempre compra biscoitos recheados e salgadinhos industrializados. Também tenho uma fraqueza por frituras. Ela desistiu de tentar me alimentar adeqüadamente mais ou menos quando eu tinha quinze anos.
Nunca gostei de salada, nem de nada do tipo, então ela sempre tentava me tapear colocando cenoura e ervilha no arroz, fazendo lasanha vegetariana e até bolos de frutas. Enchia as comidas de queijo e molho com carne moída e batata frita. Nunca caí nessa. Honestamente, me sentia até um pouco ofendida. Com quem ela pensava que estava lidando? Eu conseguia enxergar uma cebola a quilômetros de distância.
Nunca comia exageradamente de uma vez só (com exceção do banquete), mas comia o dia inteiro. Uma das razões que fez mamãe desistir de me alimentar adeqüadamente foi quando eu sugeri que vendêssemos nossa casa e fôssemos morar três ruas abaixo. Ela perguntou o porquê, e eu respondi que não havia nenhuma razão, havia apenas me cansado da nossa casa, e naquela rua tinham umas casa bonitas e uma em particular – que eu disse achar muito bonita – estava à venda.
Não acho que ela realmente considerou o meu pedido, mas, de qualquer jeito, passamos de carro lá uns dias depois. Paramos em frente à casa com a placa "a venda" e, tanto mamãe quanto papai e Petúnia me olharam abismados.
"Lily, francamente", foi tudo que mamãe disse. Papai riu e Petúnia continuou calada, mas me olhou como se tivesse crescido outra cabeça no meu pescoço.
A casa era em frente a uma lanchonete. Que ficava dentro de um mercado.
Não nos mudamos. Toda vez que queria comer algo (o que acontecia mais ou menos a cada hora), tinha que descer as escadas até a cozinha. Numa noite, então, algum tempo depois de passarmos em frente à casa para a qual eu queria que nos mudássemos, reclamei que talvez nossa casa precisasse de algumas reformas. Papai concordou e me perguntou o que eu achava que precisava ser reformado. Dei alguns palpites e falei algumas coisas sem sentido, até chegar aonde eu queria de fato. Meu quarto e o de Petúnia eram um do lado do outro e sempre nos esbarrávamos, o que geralmente causava brigas. Inocentemente, sugeri que meu quarto ficasse no andar de baixo, ao lado da cozinha. Quem pensa essas coisas?
Eles desistiram da reforma.
Logo em seguida, viajamos durante as férias de verão para a Itália, e, cara, eu nem preciso dizer que aquelas foram as melhores férias da minha vida. Não há lugar melhor no mundo para comer o dia inteiro as comidas mais deliciosas que você já provou na sua vida.
Acordava cedo todos os dias e ia sozinha tomar café da manhã, cada dia num lugar diferente. Andava um pouco pela cidade e voltava pro hotel um pouco antes dos meus pais e Petúnia acordarem e então ia tomar café da manhã no hotel com eles. No almoço, íamos os quatro em restaurantes ou pizzarias ou pequenos cafés que eu sempre recomendava, que eram sempre muito bons, e papai e mamãe não sabiam como eu sabia deles.
Durante minhas caminhadas pela manhã, eu sempre procurava um nativo pra lhe perguntar onde se comia a melhor comida da cidade. Cada um dizia um lugar diferente, e, cada vez que eu comia uma de suas sugestões, pensava "Essa é a melhor comida da cidade".
Até a refeição seguinte, quando eu pensava "Essa é definitivamente a melhor comida da cidade".
Engordei cinco quilos nessas férias. Me sentia tão feliz que até puxava papo com Petúnia (ela não se sentia tão feliz assim – não queria engordar, portanto não aproveitou a Itália como eu aproveitei). Estava bronzeada por causa do sol italiano. Me olhava no espelho e realmente me achava bonita, e pensava que eu talvez não fosse de todo mal, talvez minha beleza interior realmente combinasse com minha beleza exterior. Meus pais estavam felizes de me ver feliz e animada. Mas o que mais os animou – principalmente mamãe – foi que a culinária italiana conseguiu o que parecia inatingível: me fez comer saudavelmente.
Talvez não completamente saudável, mas os pratos eram tão bonitos, bem feitos, suculentos, que eu tinha dó de colocar o tomate, repolho, pepino, vagem, ou o que seja, do lado do prato, enquanto comia o resto da comida. Eles todos faziam parte da comida e a comida sempre parecia deliciosa, e não comê-los seria como se eu não realmente comesse aquele prato preparado com tanta dedicação.
Não me lembro de ter me sentido tão feliz como eu me senti na Itália nunca antes na minha vida.
De qualquer maneira, o meu vício (que é uma palavra que não acho que combine exatamente com o que eu sinto por comida, porque vício parece ser algo ruim, que te deixa mal, e comida sempre me alegra) por comida e os genes da minha família que são os culpados. Se não tivesse sido amaldiçoada e não fosse tão idiotamente obcecada por comida, nada disso teria acontecido.
***
Lily se sentia cansada. Enquanto arrastava os pés desajeitadamente pelos corredores, pendia a cabeça levemente pro lado, os olhos quase fechando. Parecia estar dez quilos mais pesada. O banquete de abertura do ano letivo sempre fazia com que ela exagerasse. Os elfos deviam se dedicar em dobro ás refeições nesse dia, pois não havia nenhum outro dia que a comida fosse tão boa, ou tão farta. Durante o terceiro ano, Lily, Trillian e Audrey, espantadas com a qualidade da comida no dia de abertura, passaram um mês inteiro comparando as refeições com a do dia do banquete, então Lily sabia de fato que esse era o melhor dia pra encher a barriga como se não houvesse amanhã.
- Droga...
Murmurou, passando a mão pela barriga. Havia comido muito frango assado com batatas no banquete.
Encarou a Mulher Gorda e levou um pedaço de pergaminho que segurava em uma das mãos aos olhos.
- Garra de dragão.
- Pra você também, querida – a Mulher Gorda lhe respondeu, virando-se e abrindo passagem para o salão comunal da Grifinória.
Audrey e Trillian estavam sentadas na mesa mais afastada de todas e o salão estava apinhado de alunos que não se viam há dois meses e queriam colocar a conversa em dia. Lily já estava pensando em maneiras de mandar todo mundo pra cama para que pudesse dormir em silêncio, quando ouviu alguém lhe chamando.
- Lily! Foi tudo bem nos deveres de monitoria?
- Foi, sim, Remo. E você?
O garoto de cabelos castanhos lhe sorriu, passando uma das mãos nos cabelos num gesto extremamente familiar para Lily.
- É, na medida do possível. Peguei alguns sonserinos mais velhos tentando azarar os primeiranistas, o monitor da Sonserina era um deles inclusive.
- Não acredito! E agora?
- Bom, agora nós temos que falar com ele, quem sabe dar uma detenção, ainda não sei. Temos que conversar sobre isso.
- Ok, Remo – Lily o olhou mais profundamente e percebeu que ele parecia extremamente cansado – Você está bem? Parece cansado. Vai dormir que se acontecer qualquer coisa eu resolvo.
Ela pousou uma das mãos em seu ombro e o garoto a olhou.
- É, acho que estou bem cansado mesmo. Só vou ali falar com os marotos e depois vou subir.
Ele sorriu e Lily tentou ao máximo fazer o mesmo, mas só conseguiu forçar os lábios numa curvatura esquisita, deixando seu rosto com uma expressão como se estivesse com algo mal-cheiroso debaixo do nariz.
- Tá bom.
O garoto saiu e Lily nem se deu ao trabalho de ver para que direção ele estava indo. Podia ouvi-los dali, na frente da passagem para os corredores, quando eles estavam no outro extremo do salão. Riam e conversavam alto, tacavam coisas uns nos outros, mexiam com as pessoas que passavam. Revirando os olhos, dirigiu-se a mesa na qual as amigas estavam, um pouco receosa.
Audrey a olhava convidativa, mas Audrey era sempre assim. Lily se preocupava agora era com Trillian, que encarava a mesa de madeira a sua frente. Puxou uma cadeira e sentou-se ao seu lado, e nenhuma das três falou por um momento.
- Lily...
Trillian ainda não a encarava, mas parecia se esforçar para dizer algo que Lily já sabia muito bem o que era. Achava que a amiga não precisava se desculpar, pois não havia nada de errado no que ela falara no trem. De fato, Lily seria apenas uma bonita garota trouxa, sem nada de especial, se não houvesse algo além disso que os olhos não conseguissem enxergar.
- Trillian, você não precisa fazer isso. Está tudo bem.
Os grandes olhos negros da amiga lhe encararam. Ela parecia culpada.
- Aquilo foi uma coisa horrível pra se dizer.
- Não foi nada mais que a verdade.
- Lily! De maneira nenhuma! – Audrey meteu-se na conversa.
- Audrey, é sério. Não estou tentando criar desculpas pra você, Trillian, de maneira nenhuma. Acho inclusive que faltou um pouco de tato da sua parte dizer algo assim, mas isso não tira a verdade do que você falou.
- Ah, Lily, que bom que você resolveu dar uma chance ao James, ele é realmente uma pessoa...
- Não! – Lily quase gritou ao ouvir as palavras de Trillian – Ninguém aqui está falando do Potter, Trillian, não desvie o assunto!
- Mas Lily...
- Nada de mas! Só estou falando que você não precisa se preocupar em pedir desculpas e que eu entendo o que você disse sobre mim. Aquele monte de baboseira que você disse do Potter eu não quero nem saber!
- Lily, você está sendo completamente irracional, sabia? Primeiro diz que entende o que eu quis dizer, o que me leva a crer que você entendeu também sobre o James, que ele não é só o que você acha que ele é; depois diz que o James não tem nada a ver com a história e que não quer nem saber dele!
Lily encarou Trillian, depois Audrey, que parecia concordar com as palavras de Trillian, mas não queria se comprometer perante Lily.
- Nem comecem, vocês duas! Estou morta de cansaço, três quilos mais gorda e com um pouco de dor de cabeça. Vou dormir e é melhor esse assunto já ter sido esquecido amanhã de manhã.
Levantou-se, deixando as duas amigas a olhando, ainda sentadas na mesa sem dizer nada. Foi em direção as escadas e passou pelo grupo dos quatro garotos mais barulhentos do salão. Pensou ter visto de relance os olhos de Potter lhe seguindo. Apressou o passo e quando seu rosto encontrou a fronha macia do seu travesseiro de pena de ganso, adormeceu imediatamente.
***
Era Potter, isso ela podia ver claramente. Mas havia algo de diferente... Um frango assado... e a cabeça do Potter...
A cabeça de Potter no frango assado parecia falar alguma coisa. Não conseguia distinguir o quê, sua vista estava embaçada, e estava ocupada prestando atenção em uma de suas asas, que tentava alcançar um dos óculos redondos feitos de batata que voavam por ali. A boca de Potter abriu e fechou, agitando as asas pra lá e pra cá. Depois de alguns segundos, o frango assado com a cara de Potter alcançou um dos óculos e colocou-os no rosto; magicamente se transformou. Era agora a cabeça de um frango assado no corpo musculoso de um jovem garoto de dezessete anos, que Lily reconheceu ser James Potter. Mas estava sem os óculos novamente. Seria muito mais fácil alcançar um dos óculos com braços e pernas humanas, mas aparentemente sua visão de frango não era muito boa. Tateou às cegas por um minuto e a vista de Lily desembaçou quando Potter cabeça de frango colocou os óculos novamente. Podia ouvir claramente o que ele dizia, agora. "Acorde, sua preguiçosa, antes que eu te jogue um balde d'água!"
Lily acordou num pulo. Seu despertador enfeitiçado berrava ameaças do que faria se a garota não acordasse imediatamente. Não sabia por que Audrey o havia lhe dado de presente, quando a garota sempre fora tão ridiculamente responsável. Talvez porque ela achasse que era engraçadinho. Era bem típico de Audrey achar algo tão sem sentido engraçadinho.
Sentou-se na cama, esfregando os olhos e imagens de um frango assado com uma cabeça humana e uma cabeça de frango num corpo humano lhe encheram a mente: quase caiu na gargalhada.
Não havia ninguém no dormitório além dela. Todas as camas estavam arrumadas, mas havia toalhas molhadas jogadas em um canto do quarto e mais um monte de roupas espalhadas por todos os lados. Alguém havia deixado cair no chão pó de arroz, uma maquiagem trouxa que Lily não sabia porque bruxos usavam, se feitiços para maquiar eram tão mais fáceis.
Levantou-se e se espreguiçou. Chacoalhou da mente imagens do Potter-Frango-Assado, se arrumou e desceu em direção ao Salão Principal pra ver se ainda conseguia tomar café da manhã antes da primeira aula.
O Salão Principal ainda estava parcialmente lotado; talvez Lily não estivesse tão atrasada como pensou. Avistou Trillian e Audrey sentadas na mesa da Grifinória, e Tyler abraçado com uma menina na mesa da Corvinal. Nada de novo até aqui.
Ao se aproximar das amigas, porém, Lily percebeu algo novo. Na verdade, não exatamente novo, mas com certeza incomum. Potter, Black, Pettigrew e Lupin estavam sentados com elas, os seis rindo abertamente sobre algo que Lily não podia imaginar o que seria.
Por um momento, sentiu raiva. As amigas sabiam que Lily não era exatamente a pessoa favorita dos Marotos – já havia lhes dado detenção muitas vezes – então porque se sentavam com eles na mesa do café, se sabiam que Lily teria que sentar lá também?
Depois, um turbilhão de imagens lhe encheu a mente. Potter-Frango-Assado.
"Certo, Lily, controle-se. Você não pode chegar na mesa rindo que nem uma maluca."
Caminhou lentamente em direção a eles, esperando não ser notada até o último minuto. Mas a quem ela estava tentando enganar? Com aqueles estúpidos cabelos vermelhos e altura de quase um meio-gigante, passar despercebida não era uma de suas melhores qualidades. Antes que conseguisse chegar na metade do caminho, a voz de Sirius Black – o mais espevitado dos quatro Marotos – encheu o salão.
- Evans!
A cabeça de James Potter virou-se em sua direção num piscar de olhos; instantaneamente, ele passou uma das mãos pelos cabelos.
Lily, então, imaginou o corpo de um frango assado debaixo de seu pescoço.
Sentou-se entre Trillian e Audrey, dando bom-dia a todos á mesa. Potter mantinha um sorriso bobo nos lábios e Sirius olhava de um para outro com uma expressão de malícia, esperando algo acontecer.
- Evans, como foi o verão?
- Ótimo, Black.
Ela sabia que a coisa educada a se fazer seria perguntar como havia sido o verão do garoto. Mas até aí, Lily sabia de muitas coisas.
Começou a comer em silêncio, enquanto a conversa na mesa voltava a crescer, Sirius Black falando mais alto do que todos, gesticulando e levantando-se da cadeira de vez em quando para dramatizar o que quer que fosse que ele estava falando.
- Lily...
Potter-Frango-Assado. Ótimo.
Lily não respondeu de imediato. Talvez ele pensasse que ela não o havia escutado e desistisse de querer falar com ela. Não tinha problema. Lily não estava interessada. Não seria nada importante, de qualquer jeito. Mas ele não desistiu.
- Lily...
Depois de alguns segundos, balançou a cabeça levemente – ainda sem olhá-lo – indicando que sim, Potter, ela estava ouvindo.
- Queria te perguntar uma coisa...
- Pode ser mais tarde? Tenho alguns deveres de monitoria pra cumprir. Remo, você vem?
O garoto olhou-a, depois para Potter, que ainda não tinha tido nenhuma reação. Enfiou um último pedaço de torrada na boca e se levantou da mesa. Saiu andando sem esperar resposta e sem se despedir dos demais. Torceu as mãos; Potter sempre a deixava estranhamente nervosa.
***
A primeira aula do ano letivo era Transfiguração, matéria na qual Lily falhava miseravelmente. Sentou-se numa cadeira perto da janela, esperando que Trillian ou Audrey aparecessem. Havia chegado cedo demais – como sempre chegava a todas as aulas; além dela, somente um aluno da Sonserina estava na sala.
Passados alguns minutos, a sala começou a encher e suas duas amigas apareceram, sentando-se ao seu lado. Soltou um suspiro resignado, celebrando sua chamada sorte, ao perceber que as carteiras atrás delas foram ocupadas pelos quatro Marotos de Hogwarts.
A Prof. McGonnagal entrou na sala, seu olhar severo passando por todos e desejando leves boas-vindas aos alunos. Ficou parada em frente à sala; agitou sua varinha em direção ao quadro-negro e cinco letras formaram-se na superfície do objeto. As cinco letras mais temidas pelos estudantes do sétimo ano; quem sabe até por qualquer estudante, que sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que passar por isso também: N.I.E.M's.
Ouviu Black e Potter rindo atrás de si. É claro que isso era motivo de piada para eles, eram os melhores alunos da escola! Mas para Lily, que mal e mal conseguia passar de ano com as provas normais, isso era motivo de pânico.
McGonnagal começou a discursar sobre a importância dos N.I.E.M's tanto na carreira escolar como na profissional, porque, afinal – disse ela – uma depende da outra. Disse que esse ano seria o ano em que mais teriam que se dedicar aos estudos, que deveriam deixar de lado besteiras e concentrarem-se cem por cento em obter o máximo de N.I.E.M's que conseguissem, se quisessem se tornar um bruxo ou uma bruxa bem sucedidos.
Tá certo, como se isso fosse acontecer.
Depois do que pareceu serem horas, McGonnagal interrompeu seu discurso sobre os N.I.E.M's e começou a falar da matéria. Lily preferia mil vezes ficar o ano inteiro escutando sobre como a vida deles dependia dessa prova, do que ouvir McGonnagal dizer que esse ano o foco de Transfiguração seria transfiguração humana.
Sirius Black, James Potter, Remo Lupin e Peter Pettigrew riram e murmuraram um "É isso aí" atrás dela. A garota enfiou o rosto entre as mãos para esconder a gargalhada que insistia em sair de sua boca; Potter-Frango-Assado definitivamente entrava na categoria de transfiguração humana.
- Bom, esse ano, vocês terão pares de Transfiguração, já que a matéria é bem difícil e toda ajuda será necessária.
Os alunos começaram a murmurar e combinar seus pares, quando McGonnagal interrompeu-os e voltou a falar.
- Como sei quem tem dificuldades e facilidades na minha matéria, achei que seria uma boa idéia misturá-los, para que ninguém saia prejudicado. Preparei então uma lista com os pares que acho que seriam perfeitos para um melhor aprendizado de ambas as partes. Um de cada vez, vocês irão levantar-se e sentar-se ao lado do par escolhido. Audrey Anderson e Robert Packard.
Um a um, os alunos foram se levantando e se juntando aos seus pares. Depois de quase todos terem sido escolhidos – Trillian Montgomery e Jordan Jensen; Remo Lupin e Samuel Snott; Peter Pettigrew e Zoey Dent – Lily estava se sentindo apreensiva.
Não conversava com muitas pessoas, e todas elas já haviam sido escolhidas. Tanto Audrey quanto Trillian eram muito boas em Transfiguração; Lily teve esperança de ficar com uma delas. Remo Lupin também se dava bem. Não era tão bom quanto Potter ou Black, mas sempre conseguia boas notas. Torcia para não cair com ninguém da Sonserina, afinal sua reputação de ser nascida trouxa já era conhecida por toda a escola e os sonserinos nunca perdiam uma oportunidade de zombar disso.
- Lily Evans – seu coração deu um salto – e James Potter – indo parar logo em seguida em seu pé.
Só podia ser brincadeira.
Olhou pra trás e encarou os olhos castanhos de James Potter lhe encarando. Estava com um sorriso do tamanho do mundo; ao seu lado, Sirius Black sorria com satisfação. "Até que enfim, Pontas!", ele disse para o amigo, que o olhou ainda sorrindo e voltou-se para Lily. O garoto levantou-se, apanhou suas coisas e, em vez de dar a volta pela fileira como qualquer pessoa decente faria, pulou por cima de sua carteira e aterrissou ao lado de Lily, se sentando ao seu lado.
- Que coincidência, hein, Lily?
A garota não respondeu. Sentia que se ao menos se mexesse, todo o seu corpo explodiria de tensão. Isso era mais do que seus nervos podiam agüentar.
- Bom, você tem dificuldades em Transfiguração?
- O que você acha?
Arrependeu-se. Não era pra ter sido tão grossa. Potter, porém, pareceu não se importar. Pelo que conhecia do garoto, ele não devia nem escutar algo que não sua própria voz, não importava o que Trillian dissesse.
- Não se preocupe, eu te ajudo.
Isso não ia dar certo. Encarar aqueles olhos durante um ano não lhe fariam nenhum bem. Sentiu seu rosto corando – porque diabos ele não olha pra outro lugar? – e suas mãos estavam começando a suar. E então, magicamente, toda a tensão se dissipou. Potter-Frango-Assado. Riu, mas foi mal-interpretada. Como sempre, achando que o sol girava em torno dele e não da Terra, Potter também riu e, achando que era uma abertura, voltou a falar.
- O que você acha mais difícil em Transfiguração? – o moreno lhe perguntou, apoiando os cotovelos na carteira.
- Hum...
Lily odiava falar sobre essas coisas. Só o pensamento de que dependeria de alguém para se dar bem na matéria, ainda mais de Potter, fazia seu estômago se revirar.
- Não acho muito difícil. Só não me dedico á ela como me dedico á Poções, por exemplo.
Seria mentir a solução para afastar Potter? Então, era isso que Lily faria.
- Certo... Se você quiser, nós poderíamos marcar algum dia para revisarmos a matéria da semana, ou algo assim.
- Não será necessário.
Ela tentou sorrir, mas não conseguiu muito bem. Não conseguia encarar Potter, de maneira nenhuma. Ele, em compensação, não parecia ter nenhum problema em ficar olhando-a persistentemente. Apoiou a cabeça sobre uma das mãos e continuou a olhá-la. De súbito, Lily começou a achar muito interessante a paisagem dos jardins de Hogwarts, ou os alunos sentados a sua frente, ou qualquer outra coisa que não envolvesse James Potter.
Devia estar parecendo um tomate agora.
- Lily, deve ter algum motivo pra McGonnagal nos colocar como pares. Não querendo me gabar, mas eu não tenho nenhum tipo de dificuldade em Transfiguração. Já você... bem, vamos apenas dizer que eu lembro quando você deu a Anderson um bico de um pássaro.
De repente, Lily não conseguia respirar muito bem. Começou a suar, e suas mãos tremiam levemente. Seu coração batia em seu peito como se quisesse sair dele. Olhou pelo canto do olho para Potter. Ele ainda mantinha aquela expressão de calma em seu rosto, como se não estivesse fazendo nada de mais. Seu rosto queimava. Por que ele tinha que fazer isso?
- Hum...
Lily resmungou. Não sabia o que dizer e, mesmo se soubesse, nunca o diria. Devia estar parecendo uma retardada repetindo "hum..." milhares de vezes. Olhou ao redor á procura de uma face amiga, mas tanto Trillian quanto Audrey estavam conversando animadamente com seus pares. Traíras. Sentiu algo em seu peito lutando pra sair; uma sensação muito conhecida, especialmente naquelas ocasiões – coincidentemente, Potter estava na maioria delas. Aquele monstro que ela tanto se esforçava para manter quietinho, no seu devido lugar, estava se remexendo em seu estômago, rugindo, furioso, querendo respirar ar puro. "Oh, droga..."
- Bom, não foi de propósito que eu fiz aquilo. Quero dizer, eu estava no segundo ano, tinha doze anos, pelas barbas de Merlin, é claro que iria fazer algo errado. Nunca quis machucar Audrey ou nada do tipo, mas a lição que a Profa. McGonnagal estava passando era muito difícil, e eu não tinha entendido exatamente os movimentos com a varinha, então sem querer a apontei para Audrey e aquela coisa começou a crescer e crescer e crescer e eu não sabia o que fazer. Então, Audrey começou a chorar e você sabe como ela tem aqueles imensos olhos castanhos de cachorro perdido e eu fiquei desesperada! Depois, aprendi que quanto mais nervosos ficamos, pior os nossos feitiços saem, então deve ter sido por isso que o bico ficou tão grande, mas não tenho certeza, também não sou muito boa em Feitiços, a minha melhor matéria é Poções, porque não é preciso fazer muita coisa com a varinha, sabe? É uma coisa mais com o cérebro e eu prefiro isso, porque sempre fui meio desajeitada. Petúnia sempre fez o favor de me lembrar durante toda a minha vida e mamãe nunca me deixa lavar a louça, então isso deve significar algo, apesar dela nunca ter me dito, talvez com medo de magoar meus sentimentos. Mamãe quero dizer, Petúnia não se importa com ninguém além dela mesma. Se bem que, pensando bem, você também precisa usar as mãos pra fazer poções, mas é diferente, você entende? Tem gente que sabe usar as mãos pra algumas coisas, mas não pra outras. Você, por exemplo, sabe usar suas mãos para capturar o pomo, mas sua cabeça de frango não enxergava muito bem sem os óculos, então suas mãos não serviam pra muita coisa...
Opa, estava se desviando do assunto aqui.
Calou-se imediatamente, o rosto mais vermelho do que já estivera antes.
As pessoas ao redor estavam olhando, McGonnagal inclusive; sua voz devia estar nas alturas. Seus olhos se arregalaram – como podia ser tão burra? Não sabia controlar sua própria boca? "Burra, burra, burra."
Potter continuava a olhando, com um quê de admiração em seus olhos. Pôde perceber que ele estava segurando o riso.
- Algum problema, Srta. Evans?
Lily apenas balançou a cabeça negativamente, afinal, estava muito ocupada encarando seus sapatos para olhar para a professora.
- Minha cabeça de frango? – James perguntou. Lily queria pular pela janela.
- Cabeça de frango? – Lily perguntou, tentando parecer inocente, mas sem muito sucesso – Não... Não foi isso que eu...
Calou-se. Potter riu.
- Lily, você disse que a minha cabeça de frango não enxergava muito bem sem os óculos.
Continuou encarando os sapatos.
- Quero dizer, tecnicamente, se eu tivesse uma cabeça de frango, obviamente que ela não enxergaria bem sem os óculos, se nem a humana faz isso direito.
Droga. Ele era engraçado.
- Mas o que eu não estou entendendo aqui – Potter continuou – é o porquê de eu ter uma cabeça de frango.
- É, eu também não estou entendendo.
Forçou-se a dizer e, honestamente, não soube como conseguiu. Porque era assim? Ou ficava estupidamente calada, ou começava a falar coisas estupidamente sem sentido. Teria que se fazer de idiota para se safar dessa. Ele, porém, riu, balançando a cabeça e cruzou os braços.
- Sério?
Lily olhou para ele, concordando com a cabeça, fingindo inocência e esperando, por Merlin, que fosse uma boa atriz. Ele ia falar alguma coisa, mas sua voz foi abafada pelo som da sineta indicando que a aula havia acabado. Lily agradeceu a Merlin mentalmente, enquanto juntava suas coisas o mais rápido que podia e saía apressada da sala, sem nem ao menos esperar Trillian e Audrey.
