Cap

Olá!

Voltei com mais um capítulo! Tenho que me desculpar pelo atraso. Mas meu computador está horrível, travando o tempo inteiro. Vou ter que mandar arrumar. Só espero que isso não atrase ainda mais os próximos capítulos das minhas fics...

Bem, mais um capitulo para vocês. Nele algumas coisas são reveladas. Mas muita coisa ainda vai acontecer...

Espero que gostem. Aguardo reviews com as opiniões de vocês!

Um beijão a todos!

Priscila Black.

Cap. 3 – A segunda carta.

- Ellie, eu preciso da sua ajuda.

Ellie arregalou os olhos, surpresa. E perguntou.

- Minha ajuda? Com o que?

Sirius inspirou profundamente. E falou.

- É complicado... – ele tomou fôlego novamente, e completou. – É sobre a minha mãe. A minha mãe de verdade.

Ellie não esperava aquela resposta. Tinha certeza que Sirius a desprezava, pela forma que ele a tratava. Agora queria sua ajuda, em algo relacionado à sua mãe biológica?

- Sua mãe?

O rapaz concordou com a cabeça. Tomou coragem. E começou a falar.

- Eu quero... não, eu preciso vê-la.

Ellie ficou ainda mais confusa.

- Mas eu achei que ela estava naquele... naquela clínica.

Sirius concordou com a cabeça. Mas prosseguiu.

- Ela estava. Mas agora está internada no Royal London Hospital.

Ellie arregalou os olhos. A Sra. Black tinha sido internada numa clínica psiquiátrica, depois da morte prematura do marido. Ela entrou em choque com a morte dele, e nunca se recuperou totalmente. Ela já era instável emocionalmente antes da morte do Sr. Black. Mas, após a morte dele, ela ficou ainda pior. Não tinha condições de criar Sirius. Então, o resto da família optou por interná-la numa instituição apropriada para tratá-la. Mas, sem nenhuma melhora significativa, ela nunca mais deixou o local.

- O que aconteceu com ela?

Sirius inspirou profundamente. Demorou alguns segundos para responder.

- Ela teve uma... crise. E tentou... ela está internada na ala psiquiátrica, em alerta de suicídio.

Ellie levou uma das mãos à boca, assustada. Deu dois passos em direção à Sirius, e imediatamente esticou a mão para pegar a mão dele. Mas Sirius notou o movimento, e se afastou antes que ela pudesse tocá-lo.

Sirius começou a caminhar pelo quarto. Andava de um lado para o outro. Não queria admitir, mas estava com vergonha de fazer o pedido para Ellie. Mas a garota notou que ele parecia nervoso, e tentou incentiva-lo.

- Eu sinto muito, Sirius. Eu posso... fazer alguma coisa para ajudar?

Ele pareceu um pouco aliviado depois daquilo. Tanto que arranjou coragem para falar.

- Eu... pode sim. Você ainda é voluntária no hospital, não é?

Ellie concordou com a cabeça. Sirius prosseguiu.

- Você podia... tentar descobrir alguma forma... eu queria vê-la. Ou ter alguma notícia dela. Os médicos não disseram muita coisa quando eu estive lá, e ela não pode receber visitas.

Ellie franziu a testa.

- Você não pediu ajuda para a Lily? Ela também é voluntária como eu, poderia conseguir alguma informação para você.

Sirius ficou visivelmente incomodado com o comentário. E respondeu.

- Se você não quer ajudar...

Ele fez menção de ir embora, pela varanda. Mas Ellie avançou até ele, e o segurou pela mão.

- Não! É lógico que eu quero! – ela falou.

Sirius lentamente se virou. Ela ainda segurava sua mão. Seus olhares se encontraram. Ellie o olhava com uma expressão que misturava solidariedade e preocupação. E ele só queria se perder naqueles olhos. Mas não podia. Ela não era dele.

Sirius inspirou profundamente, e falou, ainda afetado pela proximidade dos dois.

- Certo.

Ellie lhe ofereceu um pequeno sorriso. Era um sorriso quase triste. Aquilo era ainda pior que ela estar segurando a mão dele. Mas a garota logo recomeçou a falar.

- Eu só perguntei por que... a Lily é sua irmã. Eu achei que você iria pedir para ela. Eu achei que você não...

Ela não terminou a frase. Aquilo incomodou Sirius por um instante. Mas a situação já era difícil o suficiente para ele arriscar a pergunta, e ouvir algo que pudesse lhe dar alguma esperança. Então ele prosseguiu a conversa.

- A Lily é minha irmã, mas você sabe como ela é... Ela é muito certinha. E você é mais...

Ellie sorriu brevemente, e falou.

- Errada?

- Não! – ele respondeu, muito rápido. Mas logo se recompôs, e continuou – Você é mais... descolada.

Ellie sorriu ao ouvir a opinião dele. E não resistiu, perguntando.

- Quer dizer que eu sou descolada?

A pergunta direta o deixou sem ação. Então ele ficou na defensiva.

- Eu só achei que você poderia me ajudar a entrar no hospital, de alguma forma...

A frase dele a fez rir. Ele não lembrava da última vez que a tinha feito rir. O som da risada dela era tão relaxante para ele, que Sirius sentiu seus ombros ficarem menos contraídos. E sua expressão se suavizou visivelmente. E ela passou a conversar de forma mais normal com ele. Ellie soltou a mão do rapaz. Apesar de sentir falta dos dedos mornos dela em sua pele, aquilo foi um alívio para ele. Aquela proximidade era angustiante.

- Relaxa. Eu acho que já tenho até uma idéia de como fazer tudo.

Sirius franziu um pouco a testa, e ela falou.

- Eu tenho um turno a cumprir no hospital depois de amanhã. Posso pedir para transferirem para o período noturno. O hospital fica mais vazio.

Sirius concordou com a cabeça. E perguntou.

- Então?

Ellie o encarou novamente, e falou.

- Amanhã eu te aviso se consegui. Aí combinamos tudo.

Sirius apenas concordou com a cabeça. O momento crítico estava se aproximando. O momento que ele iria embora. E ele não tinha idéia do que fazer para se despedir. Não queria ser mal educado, e simplesmente virar as costas. Mas qualquer proximidade entre eles era um risco. Então ele resolver acabar logo com aquilo.

- Eu... então já vou.

Ellie concordou com a cabeça. Ele foi caminhando até a varanda, e ela o seguiu. O problema se agravou. Eles dois estavam parados na varanda do quarto dela. O espaço era muito pequeno. Ela estava muito próxima.

- Amanhã nós conversamos mais. Quer que eu passe na sua casa de manhã? – Mas, no instante que ela terminou a frase, franziu a testa, e falou, um pouco sem graça – Quer dizer, eu não sei se você... se você vai dormir... ou... vai sair hoje...

O constrangimento dela era visível. Mas, mesmo se tivesse algum plano para sair naquela noite, Sirius teria desistido. Apenas pela expressão dela. E por ela ter dito que iria à casa dele durante a manhã.

- Não. Não vou sair não. Vou dormir em casa, já estou até indo.

Ellie abriu um pequeno sorriso, e falou.

- Que bom.

Novamente ela o desarmou com essa reação. Ele não esperava aquilo. Ficou mudo, parado. Ellie continuou olhando para ele com o semblante tranqüilo. Então ela finalmente falou.

- Então até amanhã.

Sirius viu naquilo a oportunidade de escapar logo. Falou, já se movendo para o parapeito, em direção à treliça que tinha escalado.

- Até amanhã. E... obrigado.

Ellie sorriu para ele. Ele sabia que ela não estava fazendo aquilo de propósito, mas o sorriso dela fazia tudo ficar mais difícil. E tornava particularmente difícil para ele ir embora. Respirou fundo, e lembrou de algo que não tinha falado. Algo muito importante.

- Ah, mais uma coisa. – ele falou, enquanto já começava a descer pela treliça – Não conta para ninguém sobre... isso tudo.

Ellie franziu a testa, e se aproximou do parapeito, se debruçando um pouco para vê-lo. E ela falou.

- Para ninguém? Nem para a Lily ou James?

Sirius, que já estava na metade do percurso até o chão, levantou a cabeça e a olhou.

- Para ninguém. Especialmente os dois.

Ellie o observou por um instante. A luz da lua iluminava o rosto dele. Eles ficaram parados, sem dizer nada, por alguns segundos. Até que Ellie quebrou o silêncio.

- Tudo bem. Não falarei com ninguém.

Sirius acenou com a cabeça, e agradeceu.

- Obrigado.

Mas Ellie não foi embora, continuou debruçada o observando. Ele recomeçou a descer. Assim que chegou ao chão, olhou novamente para cima. Ela permanecia ali, parada. O único movimento que ela fez foi acenar com uma das mãos. Sirius acenou de volta, e um pensamento lhe ocorreu.

Ele lembrou da famosa cena do balcão, de Romeu e Julieta. Ellie ali, parada em sua varanda. E ele embaixo, depois de ter escalado a treliça e entrado no quarto dela. Mas logo ele notou as óbvias diferenças entre o enredo da peça e a vida dele.

Ellie não era sua Julieta. Ela era a Julieta do melhor amigo dele. E Remus era o Romeu dela.

Ele era, no máximo, o Conde Páris. Na verdade, ele tinha certeza que não era nem isso...

--

Lily acordou depois de um sonho estranho. Ela ouvia vozes a chamando, mas não conseguia ver o rosto das pessoas que a chamavam. Fora que uma insistente voz masculina ficava declamando o poema que ela tinha recebido. E repetia ininterruptamente.

A garota viu que não adiantava ficar na cama deitada. Ela não lembraria de quem era a voz declamando o poema em seu sonho. Então decidiu levantar de uma vez.

Após lavar o rosto em seu banheiro, Lily trocou de roupa, e desceu as escadas para tomar seu café da manhã. Chegando lá, encontrou a mesa de jantar já posta. E a mesa tinha um ocupante.

- O que aconteceu, deu formiga na cama? – Lily perguntou, sentando na cadeira vaga mais próxima.

A pessoa que estava tomando café, apenas levantou a cabeça. Estava lendo uma revista.

- Bom dia para você também, Lily. Dormiu bem?

Lily revirou os olhos, e respondeu.

- Bom dia, James.

James continuou lendo sua revista. Lily serviu-se de leite, e alcançou uma torrada. Começou a despedaçar a torrada, enquanto prosseguia a conversa.

- Você não respondeu, deu formiga na cama? Por que você acordou tão cedo?

James não retirou os olhos da revista para responder.

- Você também não respondeu minha pergunta. Dormiu bem?

Lily olhou para o rapaz. Sabia exatamente aonde aquilo os levaria. Mas isso não a impediu de continuar.

- Eu perguntei primeiro.

James levantou os olhos. Uma sombra de sorriso passou rapidamente por seus lábios. E respondeu.

- Podemos ficar nesta até o fim do dia, se você quiser...

Lily deu um sorriso forçado, e rebateu.

- Ou você pode ser um cavalheiro, e me responder logo!

Os dois se encararam por um instante. Só que nenhum dos dois cedeu, já que eles foram interrompidos por uma voz que vinha da direção das escadas.

- Já brigando, logo de manhã cedo? Vocês dois não tem jeito mesmo...

Sirius vinha descendo as escadas. Estranhamente, ele aparentava quase estar de bom humor. Lily virou para observá-lo, e não escondeu o sorriso.

- Sirius? Que bom que você dormiu em casa hoje!

Sirius apenas olhou para a irmã, e não falou nada sobre o assunto. E virou para James, já perguntando.

- Vai ensaiar agora cedo?

James, que mastigava uma torrada, respondeu.

- Vou sim. O pessoal já está me esperando.

Lily olhou para James, indignada.

- Ah, ao Sirius você responde, não é?

James olhou para Lily, e falou, com um sorriso adorável no rosto.

- Lógico, ele é meu irmão!

Lily tinha uma resposta atravessada na ponta da língua. Mas não disse nada. Entreabriu os lábios, e ficou observando James. Ela não tinha absoluta idéia do que ele queria dizer com aquilo. Era só uma das brincadeiras bobas de James? Ou ele queria dizer algo com a frase?

O rapaz desviou o olhar dela, e levantou da mesa.

- Tenho que ir, já estou atrasado. Vejo vocês depois.

E, como num passe de mágica, ele desapareceu porta afora.

Lily ainda observava o lugar que James ocupara na mesa, agora vazio. E Sirius percebeu o olhar perdido da irmã.

- Lily, está tudo bem?

Ela voltou a si, e virou para o irmão.

- Ah... tudo bem sim.

Ele sacudiu a cabeça, e se serviu de café. Lily então voltou sua atenção para Sirius. Estava muito satisfeita de o irmão estar dormindo em casa pela segunda noite seguida. E ele ainda tinha acordado cedo, fora que parecia bem disposto.

- Você planejou alguma coisa para hoje? – ela perguntou, de forma delicada. Não queria forçá-lo a responder, nem fazer com que ele ficasse na defensiva.

Sirius demorou alguns segundos para responder. Ele não queria contar sobre o plano com Ellie. Não queria que ninguém soubesse sobre sua mãe. E isso incluía a família dele.

- Ah... nada de mais. Depois eu decido.

- Se você quiser companhia... – Lily falou, solícita.

Sirius não queria ser rude, mas também não podia incluir Lily em sua conversa com Ellie.

- Tudo bem, eu acho que vou ler um pouco... – ele falou, tentando desviar o assunto – Você pode voltar para a sua carta.

Lily arregalou os olhos. E prendeu a respiração. Sirius sabia que ela tinha recebido aquela carta? Como?

- Carta? – ela falou, sem se conter.

Sirius franziu um pouco a testa, e logo esclareceu.

- É, você não queria escrever uma carta para o Wilshire? Ficou tagarelando sobre isso a semana passada quase inteira.

Lily sentiu um enorme alívio. E respondeu muito rápido.

- Ah, sim. Claro.

Sirius ainda estranhou o comportamento da irmã, mas não falou nada. Continuou a tomar seu café da manhã em silêncio. Lily logo levantou da mesa, e falou.

- Bem, eu vou... voltar para minha carta.

Sirius acenou com a cabeça, e viu a irmã subindo as escadas para o segundo andar da casa.

O que nenhum dos dois sabia era que ambos esperavam pela mesma pessoa. Mas cada um deles a esperava por um motivo completamente diverso do outro.

--

Ellie acordou cedo no dia seguinte. Bem, cedo para os padrões dela. Arrumou-se rapidamente, engoliu três morangos como café da manhã, e logo partiu em direção à casa em frente à sua. A casa dos Potter.

Assim que ela chegou à porta da casa, demorou alguns segundos para tocar a campainha. Ficou com o dedo estendido no ar. Ela tinha combinado de ir à casa dos amigos para conversar com Lily, a respeito do poema misterioso que a amiga tinha recebido. Mas, naquela mesma noite, Sirius invadiu seu quarto. E pediu ajuda no problema com sua mãe.

Agora Ellie não sabia quem procurar primeiro.

Ela não podia contar para Lily a respeito de seu assunto com Sirius. E nem podia contar para Sirius sobre a carta de Lily.

A garota estava num pequeno dilema. Mas não ficou assim por muito tempo. Antes mesmo que seu dedo tocasse no botão da campainha, a porta da frente abriu. Ellie levou um susto enorme. Deu um pequeno pulo para trás, e deu de cara com sua melhor amiga.

- Ellie! Por que você não tocou a campainha logo? Eu estou desesperada!

Ellie não sabia o que responder. Mas nem precisou. Lily simplesmente a agarrou pelo braço, e a levou para dentro da casa. Falando muito rápido, mas num tom baixo.

- Eu fiquei um tempão pensando sobre a carta, mas não consigo chegar à conclusão nenhuma! Fico repassando a lista de rapazes que eu conheço em Hogwarts, mas acho que nenhum deles mandaria uma carta. Então eu finalmente tive uma boa idéia!

Ellie, bombardeada com mil palavras ao mesmo tempo, só conseguiu dizer.

- Qual?

Lily sorriu, e respondeu.

- Você vai ver.

As duas foram até o quarto de Lily. A garota vasculhou rapidamente várias gavetas do armário. Ellie até tentou perguntar o que a amiga buscava, mas Lily não lhe deu atenção. Logo Lily estava puxando Ellie novamente pelo braço. Elas foram até a biblioteca.

- Lily, será que dá pra você me explicar o que está havendo?

Lily revirava armário e estantes. Até que finalmente achou o que procurava. Ela exibiu o objeto, sorridente.

- Achei!

Ellie franziu a testa.

- Um binóculo?

--

Já fazia pelo menos duas horas que Lily e Ellie estavam debruçadas no sofá da sala dos Potter. Elas observavam pela janela.

Lily estava apoiada no encosto do sofá, e se escondia parcialmente atrás de uma das longas cortinas da janela. Como o sofá ficava exatamente embaixo da janela, Ellie ocupava a outra cortina. Ambas olhavam para a rua.

- Lily... ninguém apareceu até agora!

Mas Lily continuou não dando bola para os apelos da melhor amiga. Continuava com os olhos grudados no binóculo, rastreando toda a rua. Ao menor sinal de movimento, ela focalizava para ver se era alguma pessoa.

- Eu tenho que continuar olhando. E se o dito cujo aparecer de repente?

Ellie apenas suspirou, e continuou olhando pela janela. E tentou pelo menos puxar uma conversa com a amiga, que estava muda há pelo menos 20 minutos.

- Você já parou para pensar em quem poderia ter escrito a carta?

Lily confirmou com a cabeça, e respondeu.

- Já sim. Mas não consegui chegar à conclusão nenhuma.

Ellie riu baixinho, e falou.

- Acho que pode ter sido o Snape.

Lily rapidamente abandonou o binóculo, e olhou para Ellie.

- Snape? E por que diabos ele me escreveria um poema? Ele nem fala comigo direito!

Ellie continuou risonha, e explicou.

- Ah, mas ele vive olhando de longe... no início eu achava esquisito, mas agora... quem sabe ele não está a fim de você?

Lily bufou, e falou.

- Snape a fim de mim, até parece! Ele devia estar de olho nas suas pernas e você nem reparou!

Mas Ellie nem se abalou, e falou, ainda em tom risonho.

- Se ele estava olhando para as pernas de alguém, te garanto que não eram as minhas!

Lily pensou por um instante. Snape sempre fora um pouco esquisito. Vivia pelos cantos da escola, quase não falava com ninguém. Seria mesmo possível?

Ela logo sacudiu a cabeça. E argumentou, tentando encerrar o assunto.

- Mesmo assim, se ele fosse escrever um poema para mim, com certeza não mandaria um que dissesse que eu "não o odeio". Quem, em sã consciência, mandaria isso?

Ellie sacudiu os ombros, e falou.

- E eu sei lá o que ele pensa? O cara já é esquisito, não tenho idéia do que ele considera romântico...

As duas se olharam por um instante. E se largaram no sofá. Lily, desejando ardentemente que Snape não fosse o misterioso remetente do poema. E Ellie já cansada daquela tocaia inútil.

- Lily... será que dá para a gente fazer uma pausa? Meu pescoço está me matando!

Lily revirou os olhos, e falou.

- Você pode descansar se quiser. Eu vou continuar aqui.

Ellie inspirou profundamente. E olhou para a amiga, falando.

- Seu irmão está aí?

Lily, novamente debruçada no sofá, observando a janela, respondeu.

- O James saiu. Foi ensaiar com a banda, ou algo do tipo.

Ellie olhou para o chão por um instante, e falou.

- Não o James. Eu estava falando do Sirius.

Lily olhou para a amiga. Franziu a testa sem entender.

- O Sirius? Achei que vocês...

Ellie pensou rápido, e falou.

- Ah, eu só queria conversar um pouquinho. Sabe, colocar o assunto em dia...

Lily continuou com a testa franzida.

- E que assunto vocês dois poderiam ter para colocar em dia? Vocês mal se falam.

Ellie perdeu a paciência, e os argumentos para tentar enrolar Lily.

- Lily, eu preciso de um tempo dessa tocaia. Ele está ou não em casa?

Lily indicou a escada com a cabeça.

- Está no quarto. Disse que ia ler um pouco.

Ellie acenou com a cabeça, e falou.

- Daqui a pouco eu volto.

Lily concordou, e voltou a sua posição original. Olhos pregados na janela, esperando seu correspondente secreto aparecer com mais uma carta.

--

Ellie se aproximou da porta do quarto de Sirius, após subir as escadas. Como sempre, a porta estava fechada. Ela bateu de leve duas vezes, e esperou. Após alguns segundos, ouviu a voz de Sirius falar.

- Entra.

Ela girou a maçaneta delicadamente, e colocou a cabeça para dentro do quarto.

- Sirius?

O rapaz estava deitado em sua cama. Apoiava um livro no peito. Mas levantou imediatamente ao ouvir a voz dela.

- Ellie?

Ela abriu um sorriso tímido, e entrou no quarto. Como da última vez que ela entrou no quarto dele, ela novamente fechou a porta ao entrar. Sirius ficou observando o gesto dela. Ele estava sentado na cama, e largou o livro de lado.

Ellie foi até o rapaz. Mas ficou esperando ele convida-la para sentar. Ela achava que, mesmo Sirius tendo ido a sua casa no dia anterior, e pedido ajuda, isso não exatamente representava uma trégua da parte dele. Ellie ainda pensava que Sirius a desprezava. Se ela soubesse como estava enganada...

Sirius ficou alguns segundos apenas observando a garota. Ele, de certa forma, achava que ela não cumpriria o prometido da noite anterior. E estava tentando se convencer que era a melhor solução. Que eles não se encontrassem sem ninguém por perto. Mas ela manteve a palavra. Estava no quarto dele, na manhã seguinte. E parecia realmente disposta a ajudá-lo.

O momento ligeiramente constrangedor foi quebrado por Ellie. Ela olhou para a cama dele, e viu a capa do livro que ele estava lendo. Arregalou um pouco os olhos, e falou.

- "O Iluminado"?

Sirius alcançou o livro. Ele estava quase na metade da leitura. E logo olhou para Ellie, franzindo a testa.

- O que foi, você não gosta de livros de terror?

Ellie abriu um pequeno sorriso, meio sem graça.

- Não é isso. É que eu estou lendo o mesmo livro...

Sirius ficou um pouco impressionado por um instante. Ellie então simplesmente sentou ao lado dele na cama, já que ele não se manifestou em convidá-la. Ela esticou a mão e pegou o livro da mão do rapaz. Mas não percebeu que ele se encolheu imperceptivelmente quando seus dedos se tocaram brevemente.

Ellie observou o livro, e falou.

- Eu ainda não cheguei nessa parte que você está. Devo estar umas vinte páginas atrás. – ela então levantou os olhos, e olhou para ele, com um sorriso sincero nos lábios – Coincidência, não é? Nós dois lendo o mesmo livro.

Sirius apenas acenou com a cabeça. E tentou não imaginar que aquela coincidência pudesse ter algum significado oculto.

Ellie estendeu o livro novamente, e recomeçou a falar. Ela parecia muito mais à vontade no quarto dele agora. Como se o fato de estarem lendo o mesmo livro de alguma forma fizesse que eles tivessem algo em comum.

- Eu liguei para o hospital hoje mais cedo, e troquei meu turno. Vai ser amanhã à noite. Você está disponível?

Sirius concordou com a cabeça. Ele concordaria mesmo se não estivesse disponível. Mas, para ele, resolver a situação com sua mãe era prioridade. E ele ficou se convencendo mentalmente que esse era o único motivo que o levava a aceitar o que Ellie propunha.

- Ótimo. – ela falou, sorrindo. – Esse é o primeiro passo. Mas vamos ter que combinar mais algumas coisas.

- O que você quiser. – ele falou. Não conseguiu conter a frase. Ela simplesmente escapou.

Ellie demorou alguns segundos para continuar. Mas falou de forma segura quando prosseguiu.

- Eu vou entrar às sete da noite amanhã. E tenho que sair por volta das onze. Mas posso enrolar um pouco, e ficar até a meia noite. Mas, após esse horário, vai ser muito difícil convencer alguém de que estou fazendo trabalho voluntário no hospital. Eu geralmente fico na ala infantil...

Sirius apenas acenou com a cabeça. Por mais que soubesse que ela estava fazendo aquilo para ajudá-lo, tudo que ele ouvia o fazia pensar em como o acordo deles para o dia seguinte parecia com um encontro. Eles iam sair juntos, estavam marcando um horário, estariam sozinhos...

- Então você pode chegar por volta das dez da noite. Liga para o hospital, e pede para me chamar. Tem uma cabine telefônica em frente ao hospital. Aí eu te digo qual entrada você deve usar.

O rapaz novamente acenou com a cabeça. Não conseguia dizer mais nada. Temia não conseguir se segurar se abrisse a boca.

Ellie, aparentemente satisfeita com o acordo, sorriu. Ela na verdade estava satisfeita com ter conseguido conversar com Sirius sem nenhum atrito. E, principalmente, sem ele trata-la mal.

A garota manteve o sorriso delicado nos lábios. Sirius tentou, mas não conseguiu desviar o olhar. Então ela fez algo completamente inesperado.

Ellie se debruçou ligeiramente na direção de Sirius, e esticou a mão. Ela pegou uma das mãos de Sirius. Ele não conseguiu reagir a tempo. Ela segurou a mão dele com firmeza, mas mesmo assim de forma delicada. E o sorriso dela se manteve. Sirius prendeu a respiração por um segundo.

- Não se preocupe. – ela falou – Nós vamos conseguir. Você vai falar com ela.

Mas Sirius mal ouviu o que ela falou. Ouviu as palavras, mas o significado delas se perdeu quando as palavras entraram por seus ouvidos. Ele só conseguia pensar no contato entre as mãos dos dois. Não se importava se Ellie estava sendo apenas solidária com ele. Era a mão dela na dele. Era a pele dela. O calor dela.

Ele manteve seus olhos pregados nos dela. E, repentinamente, tudo mudou. O clima do ambiente ficou totalmente diferente.

Sirius viu o sorriso de Ellie morrendo em seus lábios. Ela ficou muito séria. Parecia até um pouco assustada. Entreabriu os lábios, e inspirou profundamente. Sirius então não se conteve. Movimentou levemente sua própria mão, fechando seus dedos na mão dela. E ouviu a própria voz escapando de seus lábios, sem o seu controle. E muito baixa.

- Ellie...

A garota pareceu ainda mais assustada. Expirou audivelmente, e franziu a testa ligeiramente. E no instante seguinte ela se levantou da cama tão rápido, que parecia ter dado um pulo. Imediatamente ela começou a falar, muito rápido.

- Então está combinado. Nós nos encontramos amanhã. Quer dizer... – ela se enrolava para falar, visivelmente nervosa – até... ah... bom dia! Ou melhor, boa tarde...

A garota ainda abriu e fechou a boca algumas vezes, mas sem emitir som algum. Virou-se repentinamente, e saiu do quarto sem olhar para trás. Quase correndo.

Sirius permaneceu sentado exatamente onde estava. Sem se mover. Ficou assim por alguns minutos. Até que finalmente largou-se de costas na cama, e encarou o teto. Ainda podia sentir o inebriante perfume da pele dela pelo quarto. E também o calor e a maciez da mão dela.

Ele tentou de todas as formas apagar da memória a expressão dela quando eles estavam de mãos dadas. Principalmente o instante em que ela parecia tão perturbada quanto ele com aquele contato.

Sirius não queria se iludir. Mas estava ficando cada vez mais difícil convencer sua cabeça de algo que seu coração gritava cada vez mais alto.

--

- Excelente trabalho, pessoal.

James Potter desconectou sua guitarra do amplificador. Estava realmente satisfeito com o ensaio da banda. Eles estavam cada vez mais afinados. Fora que os músicos melhoravam a cada ensaio.

O resto da banda guardava seus materiais. James colocou sua guitarra na maleta de transporte, e começou a enrolar os fios. Logo todos terminaram, e James saiu do estúdio improvisado que usavam. Na verdade, o estúdio era parte da garagem da casa de Frank Longbottom, baterista da banda.

- James. – ele ouviu Frank chamar.

Ele parou de caminhar, e falou com os outros membros da banda, que já estavam na rua.

- Podem ir, nos vemos no próximo ensaio!

James esperou Frank alcança-lo. Ele estava parado na calçada da casa do amigo.

- E aí, como estão as coisas? – Frank perguntou. E era uma pergunta estranha, já que eles tinham passado pelo menos duas horas tocando juntos. Mas mesmo assim James respondeu.

- Tudo bem.

Frank sorriu, e logo iniciou o assunto que pretendia.

- Sabe o que é, a Alice está no meu pé... ela está insistindo para marcar aquela saída.

James sorriu de lado. Frank tinha falado, desde a semana passada, que sua namorada, Alice, estava hospedando uma prima durante as férias. E Alice teve a idéia, sabe-se lá de onde, de juntar a garota e James.

- Eu imagino... – James falou, rindo. Ele sabia que a namorada do amigo conseguia ser bem insistente quando queria.

Frank também riu, e continuou.

- Pois é. Ela enfiou essa idéia na cabeça, e ninguém consegue tirar. E fica repetindo que você precisa de uma namorada, que anda muito sozinho...

James não respondeu nada. Levantou muito rapidamente as duas sobrancelhas, mas logo voltou à expressão normal.

- Eu disse que você podia estar saindo com alguma garota que nós não conhecemos. Então agora ele me "obrigou" a perguntar para você sobre o assunto. Nem sei como eu agüento...

James riu novamente. E ele, assim como Frank, sabia por que ele agüentava. Frank e Alice namoravam há um bom tempo, e eram o sinônimo de casal feliz.

- E aí? – perguntou Frank, tendo em vista que James não falou absolutamente nada.

- E aí o que? – James falou, franzindo a testa.

Desta vez quem riu foi Frank.

- Você está saindo com alguém?

A pergunta tinha uma resposta muito simples. Mas, para James, nada era simples em relação a esse assunto. Então ele demorou algum tempo para responder.

- Não. – e era verdade. Ele não estava saindo com ninguém. Ele demorou alguns segundos para acrescentar – Mas...

Frank o observou, visivelmente curioso. James demorou algum tempo para articular as palavras da forma correta. Ele mesmo não sabia como falar sobre aquilo.

- Estou... de olho em alguém.

Frank riu. E falou.

- Tranqüilo. Eu vou avisar para a Alice parar de tentar juntar você com a prima dela. Bem, quem sabe ela não arruma algum outro para a garota?

James confirmou com a cabeça, e falou.

- É bem provável...

Frank riu, e se despediu.

- Então tá. A gente se fala depois. E boa sorte com a tal garota!

James acenou com a cabeça, e recomeçou sua caminhada pela calçada. Pensando sobre a última frase que Frank falou, James concluiu que precisaria de muito mais que sorte, em relação à garota que tinha falado. Muito mais que sorte mesmo.

--

Emmeline Vance acordou cedo naquele dia. Ainda faltavam algumas poucas coisas em seu quarto para serem guardadas, e a garota logo terminou a arrumação.

Assim que se viu livre do trabalho, Emmeline trocou de roupa, e desceu para a primeiro andar da casa. Tomou um café da manhã leve, e foi correndo novamente para o quarto.

Ela pegou uma caixa que estava separada no chão. E abriu um pequeno sorriso. Era o seu material de balé.

A garota logo trocou de roupa, colocando seu usual collant de ensaio e meias. Prendeu os cabelos, e pegou uma das sapatilhas. Dando uma busca com os olhos pelo quarto, localizou alguns discos numa prateleira. Selecionou alguns deles, e logo estava descendo as escadas da casa novamente.

Ela se dirigiu ao porão da casa. O dono anterior da casa, pelo que ela lembrava Remus falando, o Sr. Winter, tinha transformado o porão da casa em uma sala de dança. E Emmeline estava morrendo de vontade de experimentar o local.

Ela desceu a pequena escada que dava acesso ao porão. O local, mesmo sendo abaixo do nível da rua, era bem iluminado. Tinham sido instaladas diversas luzes por toda a extensão do cômodo, para que nada atrapalhasse o desempenho de quem dançasse lá. Emmy observou as paredes cobertas de espelhos, em toda a extensão da sala, e as barras localizadas em duas das quatro paredes. Num canto, uma vitrola já estava instalada, e as caixas de som tinham sido colocadas nas duas laterais da sala. Tudo parecia perfeito.

A garota logo correu até a vitrola, e colocou um disco para tocar. Fez um alongamento rápido, preparando os músculos para o treino. Depois se sentou ao lado do aparelho, e colocou suas sapatilhas de ponta cuidadosamente. Assim que estava calçada, a garota selecionou uma das músicas do disco. Ela escolheu uma composição de Beethoven, Violin Romance n° 2.

Emmy posicionou-se no meio da sala, e começou a dançar. Seus movimentos eram suaves, e acompanhavam a música. Quando a melodia se intensificava, ela se movimentava mais rápido. A postura perfeita, o queixo para cima.

A garota estava se adaptando muito bem ao local. Sentiu que poderia usar a sala para seus treinos sem nenhum problema. Não era tão grande quanto um estúdio profissional, mas poderia usá-la para ensaios mais simples.

Ela estava concentrada em seus movimentos, tanto que nem ouviu uma pessoa descendo as escadas do porão. Só percebeu quando a pessoa falou.

- Seu braço está errado.

Emmy virou para trás, e viu sua mãe parada, aos pés da escada. A Sra. Vance logo percorreu a distância entre as duas, e segurou os braços da filha, colocando-a na postura correta.

- Assim está melhor. – ela falou, assim que consertou o erro.

Emmeline voltou a fazer sua seqüência de movimentos. E sua mãe ficou observando-a da lateral da sala. Assim que a garota terminou a rotina, a Sra. Vance começou a falar.

- Você ganhou peso, Emmy? Por que parece mais... pesada. Nem conseguiu executar o último salto de forma correta.

Emmeline abaixou ligeiramente a cabeça, e falou, com a voz baixa.

- Não. Pelo menos eu acho que não.

A Sra. Vance olhou em volta, e falou, num tom coloquial.

- Temos que comprar uma balança. Você deve é estar comendo muito chocolate.

Emmeline demorou alguns segundos para responder.

- Não é isso... é que eu estou sem treinar há alguns dias.

A Sra. Vance a olhou de forma séria. Mas seu tom de voz não se alterou.

- Sem treinar? E há quantos dias?

Emmeline olhou para o chão, e respondeu.

- Uma semana.

A mulher pareceu surpreendida. E franziu a testa.

- Uma semana? Mas por que você ficou sem treinar?

Emmeline abaixou-se, e sentou no chão. A mãe se aproximou lentamente, com seu sapato fazendo barulho a cada passo que ela dava.

- Eu... – a garota parecia não ter uma resposta exata para a pergunta – Eu... estava arrumando as minhas coisas para a mudança.

A Sra. Vance parou em frente à filha, e a olhou de forma séria. Não aparentava raiva, mas seu tom de voz mostrava que ela não estava brincando.

- E essa é sua prioridade na vida? Arrumar sua mudança?

Emmeline desviou o olhar, e falou.

- Não.

- Balé exige dedicação total. Você tem que se comprometer inteiramente. Você acha que todas as minhas conquistas vieram de forma fácil? E você acha que vai conseguir entrar no Royal Ballet se não treinar todos os dias?

Emmeline manteve sua cabeça baixa. E não respondeu nada. Mas a Sra. Vance continuou falando.

- Eu só falo essas coisas por que quero o melhor para você, Emmy. Você acha que seu pai comprou essa casa por quê? Ele sabia que precisava de um local para ensaiar.

Emmeline não levantou os olhos, mas concordou lentamente com a cabeça. A Sra. Vance foi se afastando, mas ainda falou, antes de sair.

- Se eu fosse você, aumentaria em uma hora o treino. Para recuperar o tempo perdido.

Emmeline continuou sentada no chão, mesmo após sua mãe subir as escadas. A garota respirou fundo, reuniu suas forças, e ergueu os olhos. Ficou observando a escada por alguns segundos. Em completo silêncio.

Então levantou, foi até a vitrola, e escolheu uma nova música. E recomeçou seu treino.

--

Ellie desceu as escadas da casa dos Potter correndo. Ela estava com os olhos um pouco arregalados, mas parecia não estar vendo nada em sua frente. Quando chegou à sala ela deu de cara com Lily, ainda pendurada no sofá, olhando pela janela. Se Ellie estivesse em seu estado normal, coisa que não estava, teria feito algum comentário sobre a aparente obsessão de Lily com sua carta. Mas ela simplesmente falou.

- Lily... eu já vou.

A garota foi seguindo em direção à porta. Lily viu a expressão da amiga, e seu rosto ligeiramente pálido. E falou.

- Ei, Ellie! Aonde você vai? O que aconteceu?

Mas Ellie mal virou o rosto para responder. Ela falou, deforma quase mecânica.

- Eu vou... no Remus. Depois eu passo aqui.

Lily ainda tentou argumentar com a amiga, mas Ellie saiu porta afora. Lily franziu a testa. Achou aquilo muito esquisito.

Ellie percorreu o pequeno caminho entre a casa de Lily e a casa de Remus numa velocidade incrível. Ela nem olhava para o chão. Foi andando como se flutuasse. Sem consciência completa do que acontecia. Assim que ela chegou à porta da casa do namorado, ela tocou a campainha.

Não demorou muito para alguém abrir a porta. Remus.

- Oi, baby! – ele falou, sorridente ao vê-la.

Ellie não respondeu nada. Ela levou as duas mãos ao rosto do rapaz, e o puxou para um beijo. Eles ficaram por alguns segundos com os lábios colados, até que ela o soltou, e se afastou. Remus riu, e falou.

- Bom dia para você também!

Mas Ellie ainda não estava realmente bem. Ela apenas entrou na casa do namorado, conforme ele indicou com o braço. Ela ficou calada, enquanto observava Remus trancar a porta, e o ouvia falar.

- Eu estava mesmo para ir à sua casa. Meus pais saíram agora a pouco, e eu acabei me distraindo ouvindo um disco...

Ellie imediatamente olhou para Remus. Ela estava muito séria.

- Seus pais saíram?

O rapaz continuava com o tom normal de conversa.

- Sim. Tinham algumas coisas para resolver na rua, e vão almoçar fora. E até ia perguntar se podia almoçar com você na...

Mas Remus não conseguiu terminar a frase. Ellie simplesmente pulou na frente do rapaz, e o beijou. De forma quase desesperada. E era quase desespero que ela sentia mesmo.

No instante seguinte, ele a abraçou, envolvendo-a em seus braços. O beijo ficava cada vez mais intenso. Eles caminharam, sem se separar do beijo, até os pés da escada da casa do rapaz. Por um instante Remus se afastou do beijo. Ele olhava para Ellie com uma expressão que misturava surpresa com expectativa. Ela abriu a boca, e tentou falar, da melhor forma possível.

- Ellie... você... nós...

A garota sabia o que ele queria dizer. Então apenas concordou com a cabeça, e o beijou novamente. Assim que ela se afastou do beijo, segurou a mão do namorado, e começou a subir as escadas. Remus, mesmo sem saber de onde ela tinha tirado aquela decisão, a seguiu sem contestar. Em direção ao quarto dele.

--

Lily não entendeu absolutamente nada. Ellie tinha saído como uma doida de sua casa, sem explicar direito o porque. Então ela pensou um pouco, e lembrou que Ellie disse que iria conversar um pouco com Sirius. E Lily concluiu que, pela milésima vez, Sirius devia ter sido grosso com a garota. Pelo menos era a melhor explicação que ela conseguiu arranjar.

Novamente ela voltou-se para a janela. Ela mesma tinha que admitir, aquilo estava ficando entediante. Nada acontecia na rua, e não havia sinal algum de seu admirador secreto.

Lily começou a cogitar abandonar seu posto. Já estava quase na hora do almoço, e a garota sentiu seu estômago roncar pelo menos duas vezes.

Então ela depositou o binóculo no sofá, e sentou de forma correta. Esticou a coluna por alguns segundos, e se espreguiçou. Estava toda esticada quando ouviu a porta de casa abrindo.

Ágil como uma gata, Lily simplesmente jogou a almofada mais próxima em cima do binóculo. Ela não tinha nenhuma justificativa boa o suficiente para estar com um binóculo, sentada no sofá da sala. E, com a sorte que ela tinha, a pessoa que estava entrando na casa seria James. E James nunca mais largaria do pé dela, até ela confessar o que estava fazendo com o binóculo.

Lily estava certa. A pessoa que entrou na casa era James.

O rapaz a viu sentada no sofá, e foi até ela. Ele colocou a caixa contendo sua guitarra no chão, e falou.

- Olá Lily.

Lily levantou num pulo. Não podia deixar o rapaz nem chegar perto do sofá. Era um risco muito grande, devido à enorme curiosidade de James.

- Oi James. – ela respondeu, tentando usar um tom de voz natural.

Mas aparentemente o tom de Lily não foi convincente o suficiente. James franziu a testa, e falou, com um pequeno sorriso aparecendo em seus lábios.

- Está... tudo bem, Lily? O que você estava fazendo?

Lily sentiu o estômago contorcendo por um instante. Mas ela pensou rápido, e logo respondeu, Com um sorriso nos lábios.

- Estava esperando você para almoçarmos!

Ela andou até o rapaz, mantendo o sorriso. Aquilo, por mais estranho que pudesse parecer para Lily, e fez parar de sorrir. Ele franziu a testa novamente, mas apenas por um breve momento. E não falou nada. Lily aproveitou-se daquele momento de silêncio. Ela, ainda sorrindo, encaixou seu braço no braço de James, e começou a conduzi-lo para a sala de jantar.

Ela só não percebeu a reação de James. Ele ficou ainda mais sério.

- Como foi o ensaio? Tudo tranqüilo? – ela perguntou, tentando desviar o assunto.

O assunto de Lily fez James voltar ao normal. Mas, como a garota não notou que ele estava estranho, também não notou a diferença.

- Tudo bem. Estamos cada vez mais entrosados.

Desta vez o sorriso de Lily foi sincero. E sua voz voltou ao tom normal quando ela falou.

- Que bom, James.

Assim que eles chegaram à sala de jantar, viram que a mesa já estava posta. E Lily anunciou.

- Papai e mamãe não vão almoçar conosco hoje. Mas o Sirius está lá no quarto.

James, que olhou muito rapidamente para o braço de Lily, ainda apoiado no seu, falou.

- Vou lá chamá-lo.

Ele se desvencilhou de Lily, mas assim que chegou à porta da sala, deu de cara com Sirius. Os dois quase trombaram, mas logo Sirius estava se juntando aos dois, na sala.

- O que tem para o almoço? – ele perguntou, esticando o olhar para a mesa.

Lily sorriu brevemente ao ver o irmão num humor melhor. Sirius não costumava se reunir à família com tanta freqüência. Mas, há alguns dias, Lily notou uma certa mudança no comportamento do irmão. Ele parecia mais animado. Quase... esperançoso.

- Eu não sei. – Lily respondeu.

Antes que ela pudesse responder, a governanta apareceu, já trazendo travessas com o almoço. Os três sentaram à mesa, e começaram a se servir.

- Vocês fizeram algo de bom hoje? – perguntou James, servindo uma enorme porção de salda em seu próprio prato.

A pergunta foi muito simples, mas tanto Lily quanto Sirius tiveram uma reação estranha a ela. Lily ficou ligeiramente corada, e Sirius quase engasgou com seu suco. James franziu a testa. Mas Sirius respondeu, já recomposto.

- Nada. Só li um pouco.

Lily observou o irmão por um instante. E pensou em perguntar sobre a conversa dele com Ellie mais tarde. Então ela mesma respondeu.

- Eu fiquei conversando com a Ellie.

Sirius imediatamente levantou o olhar, e ficou encarando Lily. Mas como a garota não falou mais nada, ele achou mais prudente ficar quieto.

- Pois eu tive um ótimo ensaio. – James falou – Mas não tenho nada para fazer hoje à tarde. Vocês querem fazer alguma coisa?

Lily e Sirius se entreolharam. Os dois pensaram, mas não falaram em voz alta, que gostariam sim de fazer alguma coisa bem específica. No caso de Lily, era continuar sua vigília esperando o remetente de seu poema. E, no caso de Sirius... bem, o que ele queria fazer o próprio rapaz considerava impossível. Então...

- Pode ser. – ele respondeu.

Lily sacudiu os ombros, e concordou com a cabeça. James sorriu brevemente, e falou.

- Ótimo. Vou pensar em alguma coisa.

--

Na casa ao lado, os dois únicos ocupantes não perdiam tempo com conversas. Eles estavam mais ocupados com beijos.

Remus e Ellie tinham subido as escadas da casa do rapaz. No corredor do segundo andar, os dois retomaram os beijos. Eles iam andando até o quarto do rapaz, sem se soltarem. Quando chegaram à porta do quarto, Remus já beijava o pescoço da garota.

Com um empurrão não muito gentil, Remus abriu a porta. Ele estava escutando música antes de Ellie chegar, e tinha esquecido de desligar o toca discos. Então eles entraram no quarto com trilha sonora.

Today I saw somebody
Who looked just like you
She walked like you do,
I thought it was you
As she turned the corner,
I called out your name
I felt so ashamed
When it wasn't you,
Wasn't you, oh

Ainda agarrados, se beijando vorazmente, os dois caminharam até a cama. No instante seguinte eles estavam deitados na cama.

Remus começou a beijar o pescoço de Ellie, e ela fechou os olhos. Não queria pensar em mais nada, só naquele momento. Queria se concentrar no que sentia.

Ela estava decidida. Não queria voltar atrás. Estava convencida que era aquilo que ela queria. Então ela empurrou Remus de lado, já que o rapaz estava por cima dela. E, voltou a beijá-lo, antes de levantar ligeiramente o tronco, e puxar sua camiseta de uma vez só.

Remus arregalou um pouco os olhos. Estava surpreso. Ellie nunca tinha tirado a blusa assim, tão rápido. Na verdade, ele não se lembrava de alguma vez que ela tivesse tido a iniciativa de se despir quando eles estavam juntos. Geralmente era ele que acabava tirando a blusa dela. E não era sempre que ele conseguia.

Ellie jogou a blusa no chão, sem se importar. E logo voltou a beijar Remus com o mesmo entusiasmo de antes. Até com mais entusiasmo, já que ela o empurrou, para que ele ficasse deitado com as costas na cama. E ela deitou por cima dele.

Remus novamente ficou surpreso. Mas não teve tempo de reagir, já que Ellie o beijava cada vez mais intensamente.

You are everything and everything is you
Oh, you are everything and everything is you
Oh, you are everything and everything is you

Ellie novamente interrompeu os beijos. Remus abriu novamente os olhos, e logo ele entendeu o motivo da interrupção. Ellie pegou a barra da blusa que ele vestia, e começou a puxar. Ele abriu a boca, mas ela foi mais esperta. Logo ele também estava sem camisa.

Os beijos foram retomados. Mas Remus, que estava achando aquele comportamento da namorada muito estranho, conseguiu falar, entre os lábios dela.

- Ellie...

A garota não fez menção de se afastar. Ela passou a beijar o pescoço do namorado. Remus, precisando cada vez de mais autocontrole, conseguiu falar, de forma meio falhada.

- Ellie...

Ela finalmente cedeu, e se afastou um instante. Olhou para Remus, e viu a dúvida nos olhos dele.

How can I forget
When each face that I see
Brings back memories of being with you?
I just can't go on living life as I do,
Comparing each girl to you,
Knowing they just won't do,
They're not you, oh

- Ellie… você… por que você está... assim?

Ellie franziu a testa ligeiramente. Não queria conversar. Não queria pensar. Então apenas falou.

- Você não quer?

Remus respondeu muito rápido.

- Claro que eu quero!

Essa era a única resposta que ela precisava. Ela voltou a beijá-lo. Só que, desta vez, Remus pareceu mais convencido de que ela estava fazendo aquilo de forma consciente. Então ele passou a participar ainda mais.

You are everything and everything is you
Oh, you are everything and everything is you
Oh, you are everything and everything is you

Num movimento preciso, Remus inverteu a posição dos dois. Ele passou a ficar por cima dela. Ellie respirou fundo, e o beijou.

Logo o rapaz estava descendo, percorrendo uma linha do rosto dela, descendo pelo pescoço, e chegando ao colo. Ellie novamente fechou os olhos, e tentou se deixar levar. Remus era tão carinhoso. Tão amável. Ela realmente queria se deixar levar.

As mãos dele desceram contornando o corpo dela. Mas, antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, Ellie levou as próprias mãos ao botão da calça jeans que estava vestindo, e o abriu.

Remus novamente parou de beijá-la. E fez a pergunta que estava martelando em sua cabeça desde que ela começara a atacá-lo, no hall de entrada de sua casa.

- Você tem certeza?

Ellie abriu a boca para responder. Mas nenhuma palavra saiu de sua boca. Então ela simplesmente concordou com a cabeça, e desabotoou a calça. Remus a ajudou a despir a peça de roupa, deixando-a apenas de calcinha e sutiã, deitada na cama.

You are everything and everything is you
Oh, you are everything and everything is you
Oh, you are everything and everything is you

Remus novamente se posicionou por cima dela. Os dois recomeçaram os beijos. Só que agora eles eram ainda mais intensos. Ele percorria as mãos por todo o corpo dela. E ouviu um suspiro escapar dos lábios dela.

Ellie Tinha seus olhos fechados. Apenas sentindo as mãos de seu namorado percorrendo seu corpo. Era uma sensação intensa, mas suave ao mesmo tempo. Ela se deixou levar. Virou ligeiramente a cabeça para o lado, para que Remus pudesse beijar a base de seu pescoço, quando aconteceu.

Ela ouviu nitidamente. Uma voz a chamou. Na verdade, a voz quase gemeu. "Ellie".

Um instante antes de ela abrir seus olhos, ela teve um flash muito rápido. Durou menos de um segundo, mas ela viu. Olhos claros nos seus olhos. Não claros como os castanhos de Remus. Olhos azuis.

A garota levantou num pulo.

- Ellie! – Remus falou, assustado com a ação repentina da garota.

Ellie olhou em volta, percorrendo todo o quarto com os olhos. Mas não havia nada ali. Somente Remus, agora sentado na cama, usando apenas sua calça, e ela.

Ela sentiu sua boca ficar seca. A voz que ela ouviu não era a voz de Remus. Era a mesma voz grave que ela tinha ouvido dias atrás, quando estava com Remus em seu quarto. Exatamente a mesma.

- O que foi? – Remus novamente perguntou, já que ela não falava nada.

Ela não podia continuar. Agora era impossível. Simplesmente impossível.

A garota levantou-se rapidamente da cama. Nem pensou no embaraço de estar apenas de calcinha e sutiã. Apenas pegou suas roupas jogadas no chão, e começou a vestir.

Remus levantou logo atrás dela. Ele estava preocupado com aquela reação.

- Ellie, me fala o que está acontecendo. Num instante nós estávamos... e de repente você levanta completamente pálida!

A garota se vestia muito rápido. Nem reparou se estava colocando a blusa do lado certo. Com um bolo na garganta.

Remus então segurou a namorada pelos braços, mas de foram gentil. E falou novamente.

- O que aconteceu? Eu por acaso...

Ellie imediatamente olhou para o rosto de Remus. E finalmente falou.

- Remus, me desculpa... eu... me desculpa!

Os dois se olharam por um instante. E ela falou novamente, se livrando dos braços dele.

- Eu tenho que ir. Desculpe!

Ela nem colocou os sapatos. Apenas os pegou, e saiu praticamente correndo do quarto do rapaz. Remus ainda conseguiu gritar.

- Ellie!

Mas ela já tinha desaparecido.

--

A tarde passou lentamente na casa dos Potter. Os três irmãos passaram o resto do dia juntos, mas parecia que nenhum deles estava fazendo exatamente o que queria naquele momento. Lily passou boa parte da tarde arranjando desculpas para se afastar, ou então para olhar discretamente pela janela. Mas ela não conseguiu despistar os irmãos o suficiente para manter sua vigília à caixa de correio da residência. E isso deixou a garota particularmente frustrada.

James passou boa parte do tempo com seu violão nas mãos, dedilhando alguma música, e cantarolando baixinho. Volta e meia ele observava discretamente os irmãos, mas não falava quase nada.

Sirius, em alguns momentos, parecia acometido do mesmo interesse de Lily pelas janelas da casa. Mas não era tão persistente quanto à irmã mais nova. No fim da tarde, ele estava praticamente com a mesma carranca que costumava apresentar no auge de seu mau humor.

Quando anoiteceu, James finalmente se manifestou.

- Ei, o que há de errado com vocês dois? – ele perguntou, largando o violão em cima da cama. Eles estavam reunidos no quaro de James.

Sirius e Lily imediatamente olharam para James. Nenhum dos dois teria coragem de revelar os próprios pensamentos. Então Sirius veio com a desculpa para o comportamento dele.

- Estou entediado.

Lily adorou a desculpa do irmão. E tratou de concordar.

- Eu também. – ela falou, rapidamente.

James franziu um pouco a testa, analisando as expressões dos dois. Não pareceu muito convencido. Mas, no momento que ele ia contestar, ouviu passos vindos da escada. E logo seus pais entraram no quarto.

- Olá queridos. – a Sra. Potter falou, de forma amável.

- Boa noite, meus filhos. – o Sr. Potter cumprimentou.

Os três responderam quase em coro.

- Boa noite.

O casal se entreolhou por um instante. Pareciam estar travando uma conversa silenciosa, Mas logo a Sra. Potter falou, com sua forma delicada.

- Queridos, eu e seu pai recebemos uma notícia ontem. A respeito da fábrica na Alemanha.

James e Sirius franziram a testa. O Sr. Potter tinha aberto uma filial da fábrica da família na Alemanha há alguns anos. Mas o pai não costumava falar muito sobre o assunto. Lily foi a primeira a se manifestar.

- O que aconteceu?

O Sr. Potter assumiu a conversa.

- Bem, não é nada de mais. Apenas estamos um pouco abaixo das metas estipuladas para esse ano. E com a produção para o Natal já começando, isso pode prejudicar o andamento da fábrica.

Os três filhos se entreolharam. Não entendiam como aquilo pudesse ser exatamente um assunto para uma reunião familiar.

Mas a Sra. Potter começou a esclarecer a situação.

- O que seu pai quer dizer é que ele precisa ir para a Alemanha. Para poder acompanhar as mudanças que vão ser implantadas na fábrica.

- Papai vai viajar? – perguntou James.

A Sra. Potter confirmou com a cabeça, mas continuou.

- Vai sim. E eu estou pensando em ir com ele. Quero visitar minha prima Martha, que mora em Hamburgo.

Lily novamente falou.

- E por quanto tempo?

O casal se entreolhou. Sabiam que aquele era o momento de testar a reação dos filhos.

- Algumas semanas. Não sei ao certo. – o Sr. Potter respondeu.

Os três jovens absorveram lentamente a informação. Desta vez foi Sirius que falou.

- E quando você deve ir?

- Amanhã.

O impacto da notícia fez os três abrirem a boca. Lily olhou brevemente para a mãe, e a ouviu falar.

- Então eu e seu pai queríamos saber se vocês querem...

Mas Sirius a interrompeu, respondendo de foram rápida.

- Eu quero ficar. Sou maior de idade, e posso ficar sozinho.

James se manifestou logo após Sirius.

- E eu tenho mil ensaios com a banda. Não posso largar os caras na mão.

Os pais novamente se entreolharam. E depois olharam para Lily. Mas a garota não se manifestou. Ela não sabia se seria melhor passar parte das férias na Alemanha, ou em casa.

A Sra. Potter então falou.

- Na verdade, eu queria saber o que você quer fazer, Lily. Eu já tinha imaginado que os dois iriam querer ficar em casa.

Lily franziu a testa.

- Eu... não sei.

A Sra. Potter sorriu muito levemente, e falou.

- Bem, eu e seu pai conversamos, e decidimos que vocês só vão poder ficar em casa sozinhos se os três concordarem.

James riu, e falou.

- Pode deixar que eu e o Sirius cuidamos da Lily, mãe.

Lily deu língua para James. Tanto o senhor quanto a senhora Potter riram. E ele respondeu.

- Acho que esse não é bem o caso...

James e Sirius franziram a testa. E a Sra. Potter esclareceu.

- Na verdade, quem tem que concordar é a Lily. Só vou deixá-los sozinhos se ela quiser ficar. Preciso ter certeza que vou encontrar a casa em pé, e inteira, quando voltar. Sem ter sido destruída por algum incêndio ou demolição acidental.

James abriu a boca, e falou.

- Você quer deixar a Lily cuidando de mim e do Sirius?

A Sra. Potter sorriu, e falou.

- Exatamente.

- Mas eu sou o mais velho! Ela é a caçula! – James retrucou.

- Tecnicamente você é só um mês mais velho que eu, Jay... – Sirius falou.

Lily sorria, vitoriosa. Os pais confiavam mais nela que nos dois irmãos mais velhos.

- Se a Lily quiser ficar, vocês dois também podem. – o Sr. Potter decretou.

Imediatamente os dois irmãos correram para perto de Lily, e a olharam com mútuas expressões de súplica. A garota se divertiu por um instante, vendo os irmãos dependendo de sua vontade. Mas logo ela falou.

- Ok. Eu fico.

James imediatamente abriu um enorme sorriso, e Sirius parecia genuinamente aliviado. Mas os pais ainda advertiram.

- Lily, você vai ter que controlar esses dois. E vocês dois, aceitem o que a Lily disser. Ela é a mais responsável entre vocês.

James revirou os olhos. Sirius pareceu não se importar em estar sob a vigilância da irmã mais nova. Ele tinha coisas mais importantes para se preocupar.

- Então está combinado. – falou a Sra. Potter. – E, por favor, rapazes, tentem não destruir tudo em nossa ausência.

- E quando eu destruí alguma coisa? – perguntou James, com expressão de falsa inocência.

- Você está perguntando no último mês? – a Sra. Potter perguntou, mas visivelmente parecia se divertir com aquilo – Bem, se eu me lembro teve aquele vaso de cristal, duas taças, fora os inúmeros danos em Hogwarts...

James desviou o olhar, contrariado. Lily caiu no riso. Isso fez o rapaz a encarar com um misto de raiva e indignação.

- Pode deixar que a Lily vai nos manter na linha. – assegurou Sirius. Ele era o maior interessado em ficar na cidade. E a ausência dos pais certamente facilitaria muito seus planos.

James olhou para Sirius, com um olhar que o acusava de ser um traidor. Mas Sirius não deu bola. Então o casal encerrou a conversa.

- Já que está tudo resolvido, nós temos que arrumar nossas malas. Nosso vôo sai amanhã de manhã.

Lily sorriu para os pais, e falou.

- Eu cuido de tudo. Podem ir tranqüilos.

O casal se despediu dos filhos, e saiu do quarto. Lily estava extremamente satisfeita. Os pais confiavam mais nela que nos dois irmãos mais velhos. O problema era que ela mal sabia a confusão em que tinha se metido...

--

Após uma noite sem maiores acontecimentos, Lily acordou de manhã sentindo-se bem disposta. Primeiro, por que ela seria a responsável pela casa nas próximas semanas. E, segundo, que ela via uma excelente melhora em sua situação a respeito do poema misterioso. Com seus pais viajando, ela previu que tanto Sirius quanto James iriam ficar mais tempo na rua. E isso significava total liberdade para ela vigiar a caixa de correio sem nenhum problema. Ela estava certa que desvendaria o mistério em breve.

Os Potter viajaram logo pela manhã. Após uma longa despedida, obviamente cheia de recomendações, lista de afazeres e uma boa quantia de dinheiro extra para os jovens (recusada por Sirius; ele já tinha dinheiro suficiente. Poderia ficar sem trabalhar por anos que não conseguiria gastar nem metade do que tinha), os pais finalmente partiram para o aeroporto. Assim que o táxi virou na esquina, James se largou no sofá. E bocejou lentamente.

Lily e Sirius ainda se mantinham em pé. Lily olhava pela janela, mesmo o carro já tendo sumido de vista faz tempo.

- E aí. – perguntou James, de forma displicente – Querem fazer alguma coisa?

Lily nem prestou atenção ao que James falou. Ela tinha agora uma boa desculpa para fazer o que tinha vontade desde que acordou. Como ela foi a última a acordar naquela manhã, ficou com medo de alguém ter ido à caixa de correio antes dela. Por sorte, ninguém da casa parecia tão interessado na correspondência quanto a garota.

- Vou... pegar a correspondência. – Lily falou, tentando soar o mais casual possível.

Sirius não deu muita bola para a frase da irmã. Mas James a olhou com um ar de leve curiosidade.

Mesmo assim, Lily saiu da casa andando em passos firmes. Olhou atentamente de um lado para o outro da rua. Mas não havia ninguém ali.

Ela parou em frente a caixa de correio. Abriu a portinha, e recolheu seu conteúdo. Eram poucas cartas. A garota passou uma a uma, observando os destinatários.

Duas cartas eram para sua mãe. Outras três eram para o pai. Um envelope trazia uma conta. E, a última era um envelope todo branco. E trazia um único nome datilografado.

Lily Evans.

Lily prendeu a respiração. Só podia ser mais uma carta. Imediatamente ela dobrou o envelope, e o enfiou no bolso. Sua mente fervilhava.

Ela voltou para a casa, tentando parecer o mais calma possível. E ficou se xingando mentalmente por ter deixado escapar a chance de descobrir que era seu admirador secreto.

Assim que a garota entrou novamente em casa, encontrou Sirius sentado no sofá, olhando para o nada, e James deitado no sofá ao lado. Mas James parecia estar esperando a garota voltar.

- E aí, alguma coisa pra mim? – ele perguntou, imediatamente.

Lily sentiu suas bochechas ficarem quente, mas tentou manter a calma.

- Não.

- Nem para o Sirius? – ele insistiu.

Sirius apenas virou a cabeça ou ouvir seu nome, mas Lily respondeu.

- Também não.

James abriu um pequenino sorriso.

- E pra você?

Lily desviou o olhar. Mas teve uma idéia brilhante. E falou.

- Eu vou na Ellie agora. Depois eu vejo vocês.

Sirius observou a irmã de forma curiosa, mas quem se manifestou foi James.

- Vou com você. Também quero conversar um pouco com ela.

Lily ficou quase desesperada. Mas se conteve, e falou, um pouco mais séria.

- Não. Você não pode ir.

James franziu a testa, e Sirius ergueu o corpo, agora definitivamente interessado na conversa.

- E por que não, posso saber? – James perguntou, com uma das sobrancelhas levantadas.

Lily teve que pensar muito rápido para responder. E ela conseguiu.

- Vamos conversar assuntos de mulher. Você não se interessaria.

James sorriu, e falou.

- Lógico que eu me interesso.

Lily estava perdendo a paciência. Então resolveu inventar.

- Acontece que a Ellie quer conversar um assunto particular comigo. Entoa acho que ela não iria querer que você estivesse junto. – ela falou, ácida.

Antes que James pudesse se manifestar, Sirius falou.

- Assunto particular? Que assunto?

Lily apenas virou as costas para os dois, e foi caminhando para a porta. E respondeu no meio do caminho.

- Não sei, é assunto dela. Tchau para vocês.

E logo ela alcançou a porta, e saiu da casa. James e Sirius se entreolharam. Cada um deles curioso por um motivo diferente.

--

Praticamente num piscar de olhos, Lily se encontrava na porta do quarto de Ellie. Ela bateu de leve, mas, como ninguém respondeu, ela abriu delicadamente a porta.

Ellie ainda dormia. Então Lily andou lentamente até a cama da amiga, e a cutucou, falando.

- Ellie...

A garota inspirou profundamente, e abriu os olhos aos poucos.

- Lily? – ela falou, com uma voz um pouco rouca.

Lily sentou na beirada da cama, e viu a amiga despertar lentamente. Mas logo Ellie levantou o tronco, e se ajeitou sentada na cama, colocando um travesseiro nas costas.

- Nós combinamos alguma coisa de manhã e eu esqueci? – ela perguntou, estranhando a presença da amiga ali.

- Não. – Lily respondeu. – Eu vim aqui por causa disso.

Lily tirou a carta do bolso, e a exibiu para Ellie. Imediatamente a garota acordou.

- Outra carta?

Lily concordou com a cabeça.

- E o que diz? – Ellie perguntou, mais animada.

- Não sei, ainda não abri.

Ellie riu, e falou.

- Está esperando o que, então?

Lily acenou com a cabeça, e abriu o envelope. Novamente o único conteúdo era uma folha de papel branca, com algo datilografado dentro. Lily abriu a folha, e leu em voz alta.

Como imperfeito ator que em meio à cena

O seu papel na indecisão recita,

Ou como o ser violento em fúria plena

A que o excesso de forças debilita;

Também eu, sem confiança em mim, me esqueço

No amor de os ritos próprios recitar,

E na força com que amo me enfraqueço

Rendido ao peso do poder de amar.

Oh! Sejam pois meus livros a eloqüência,

Augures mudos do expressivo peito,

Que amor implorem, peçam recompensa,

Mais do que a voz que muito mais tem feito.

Saibas ler o que o mudo amor escreve,

Que o fino amor ouvir com os olhos deve.

As duas ficaram mudas por vários segundos. Até que Ellie falou, quase suspirando.

- Nossa, que coisa mais romântica...

Lily ainda não conseguia reagir. Leu o poema novamente. Queria ter certeza de que tinha entendido tudo.

- Lily, fala alguma coisa.

Lily finalmente tirou os olhos da folha de papel. E olhou para Ellie. Sua voz saiu num fio.

- Acho que esse é um pouco diferente do outro...

Ellie sorriu, e falou.

- Não foi você que reclamou que o outro poema era estranho? Pois eu achei esse extremamente romântico!

Lily olhou novamente para a folha de papel.

- É, é sim...

Ellie franziu a testa.

- E por que você está agindo como se não tivesse gostado?

Lily inspirou profundamente. E finalmente falou o que a incomodava.

- Você... você continua achando que pode ter sido o Snape que enviou?

Ellie caiu na gargalhada. Mas logo respondeu.

- Depois desse poema? Acho que não. Você tem certeza que não foi o Kyle, Lily? Por que esse poema é tão lindo, e o Kyle é todo gentil e fofo...

Lily sorriu brevemente, mas logo respondeu.

- Não tem selo. E ele está na África, Ellie...

Ellie franziu a testa.

- E se ele pediu para alguém mandar no lugar dele. Tipo, alguém em Londres, que só coloca o envelope na sua caixa de correio?

Lily olhou para a amiga desconfiada.

- Ellie... você não está colocando essas cartas na minha caixa e correio para o Kyle, está?

Ellie revirou os olhos, e riu.

- E você acha que eu não te contaria? Se ele me pedisse para fazer isso, eu o convenceria a mandar as cartas assinadas. Pode ter certeza disso.

Lily teve que admitir, certamente Ellie iria conseguir convencer Kyle a assinar as cartas. A amiga era conhecida por sua persistência, que beirava a teimosia.

- Acho que voltamos à estaca zero. – ela finalmente falou.

Ellie franziu a testa. E falou.

- Eu acho que não. Esse poema foi muito mais esclarecedor que o anterior.

Lily olhou para Ellie, sem entender o que a amiga queria dizer. Mas Ellie logo completou.

- Bem, sabemos agora que seu admirador secreto, por algum motivo, não pode se declarar abertamente para você.

Lily olhou para o poema de novo, e o releu. Parou nas duas últimas linhas. "Saibas ler o que o mudo amor escreve, Que o fino amor ouvir com os olhos deve." Ellie tinha razão.

- Mas por que ele não poderia se declarar abertamente? – Lily questionou.

Ellie sacudiu os ombros. Mas logo veio com uma possibilidade.

- Ei, e se o cara for algum dos amigos do Kyle? Assim ele não poderia se declarar por que o Kyle está saindo com você.

- Saiu comigo, você quer dizer. Foi só um encontro. – Lily corrigiu. Mas ela mesma ficou surpresa ao notar que não estava tão frustrada com aquilo como imaginou que ficaria.

- Mesmo assim. Os amigos do Kyle sabem que ele está obviamente de caído por você.

Lily abriu um pequeno sorriso. Mas logo ele morreu em seus lábios. Ela se flagrou desejando que nenhum deles fosse o remetente da carta. Apenas não chegou a conclusão nenhuma quanto a quem ela queria que fosse o remetente.

- Bem, mesmo assim não descobri nada ontem. E provavelmente vou voltar à vigília hoje. Mas não vou poder ficar muito tempo, nós temos um turno no hospital hoje à tarde...

Ellie sorriu meia sem graça, e falou.

- Eu... vou cobrir o turno da noite hoje. Não vou à tarde com você.

Lily franziu a testa.

- Vai à noite? Por quê?

Ellie arranjou uma desculpa rapidamente.

- Não sei. Eles pediram para eu cobrir o turno de alguém que vai faltar, eu acho.

Por sorte, Lily não deu importância ao assunto. Ela logo mudou de assunto.

- Você podia ficar um pouco comigo hoje, me ajudando a vigiar a caixa de correio.

Ellie abriu a boca para responder, mas Lily logo completou.

- Ah, mas você vai fazer o turno da noite no hospital. Então vai querer ficar um pouco com o Remus antes, não é?

Os acontecimentos do dia anterior passaram pela mente de Ellie. E a garota logo falou, muito rápido.

- Não! Eu vou com você.

Lily franziu a testa ligeiramente, mas não falou nada. Ellie levantou da cama, e logo começou a se arrumar para acompanhar Lily. A garota estava escovando os dentes quando Lily falou, ainda deitada na cama da amiga.

- Ah, eu não te falei, meus pais viajaram para a Alemanha hoje de manhã.

--

Remus acordou um pouco mais tarde que o habitual naquela manhã. Ele tinha ido dormir tarde naquela noite. Ficou repassando o acontecimento em seu quarto mentalmente por algumas horas. E não conseguiu chegar à conclusão nenhuma sobre o que fez Ellie sair correndo de seu quarto.

O que Remus mais achava estranho era que Ellie apareceu na casa dele, simplesmente começou a beijá-lo desesperadamente, praticamente o atirou na cama, e depois saiu correndo sem nenhuma explicação. Ela parecia pronta, e ele achou que finalmente eles iriam fazer amor. Mas algo a fez recuar, e fugir.

Então ele resolveu ir à casa da namorada, e tentar esclarecer o ocorrido.

Ele vinha caminhando pela calçada de sua casa, quando notou uma pessoa saindo da casa ao lado. Uma garota loira.

- Oi Emmeline. – Remus cumprimentou.

A garota ficou surpresa com a aparição repentina do vizinho. Mas respondeu.

- Oi Remus.

Ele caminhou até a garota. Ela sorriu para ele, mas não falou nada. Então ele tomou iniciativa.

- Indo passear?

Emmeline sorriu, e falou.

- Eu estava pensando em dar uma volta pelas redondezas...

- E não está mais? – ele falou, com um sorriso nos lábios.

A garota franziu a testa por um instante, mas logo sorriu, entendendo a brincadeira dele.

- Não! Quer dizer, eu vou sim. Dar uma volta.

Remus a observou, e falou.

- Você vai sozinha?

A garota concordou com a cabeça. Mas logo perguntou.

- Você acha que eu devo chamar alguém? Não quero me perder. Seria um bocado embaraçoso ter que ligar para minha mãe de um telefone público e pedir para ela me buscar...

Remus riu. Ele achava a forma dela falar cada vez mais bonitinha. Ela parecia frágil, mas não de uma forma ruim.

- Se você quiser, eu posso te acompanhar. – ele falou. No instante seguinte lembrou que estava planejando confrontar Ellie sobre o dia anterior. Mas, por algum motivo, ele perdeu a vontade de fazer aquilo naquele instante.

- Mas você não está ocupado? Você estava saindo de casa por algum motivo, não é? – ela perguntou, de forma incerta.

Remus sorriu, e concluiu.

- Nada que eu não possa resolver depois.

Emmeline sorriu timidamente, e os dois começaram a caminhar de forma lenta pela calçada. E o rapaz finalmente falou.

- Depois desse passeio, eu duvido que você vá se perder pelas redondezas.

Emmeline olhou para Remus por alguns segundos, e desviou o olhar. Mas ela concordou intimamente com o rapaz. Certamente ela não se perderia depois daquele passeio.

--

Lily e Ellie se acomodaram novamente no sofá perto da janela da casa dos Potter. Lily não pegou o binóculo daquela vez. Ela percebeu que James e Sirius estavam em casa naquele dia, então não valia a pena arriscar.

As duas amigas ficaram um bom tempo sentadas no sofá. James apareceu logo quando elas chegaram em casa. Ele tentou arrancar das duas qual era o assunto que fez Lily ir à casa da amiga, mas as duas desconversaram, e não deram nenhuma resposta ao rapaz. Sirius apareceu discretamente um pouco mais tarde, mas Lily não flagrou a troca de olhares entre Ellie e ele. Ellie tentava assegurar que não tinha falado absolutamente nada sobre os planos dos dois para aquela noite, e aparentemente o rapaz entendeu.

Mas não demorou muito para os rapazes sumirem escada acima, e deixarem as duas sozinhas na sala. Lily olhava fixamente pela janela. E Ellie olhou para a amiga. Queria conversar sobre o acontecimento na casa de Remus, mas não sabia por onde começar. Ela olhou em volta se certificando que não havia ninguém por perto, e começou a falar.

- Lily...

Ela despregou os olhos da janela, e respondeu.

- Sim?

Ellie buscava as palavras corretas para falar o que queria. Então demorou alguns segundos para prosseguir.

- É que ontem... bem, aconteceu uma coisa...

Lily franziu a testa, e perguntou.

- O que?

Ellie desviou o olhar, e inspirou antes de falar.

- É que eu... bem, quando eu saí daqui da sua casa, eu fui na casa do Remus.

- Eu sei, você falou.

Ellie novamente inspirou, buscando forças para falar.

- Eu cheguei lá, e os pais dele não estavam em casa.

Lily se aproximou imperceptivelmente, mais interessada na conversa. Ellie prosseguiu.

- E a gente meio que... bem, nós começamos a nos...

Lily arregalou um pouquinho os olhos. E falou.

- Vocês o que?

Ellie tomou fôlego, e falou.

- Nós... eu meio que parti pra cima dele, sabe... nós já entramos no quarto praticamente tirando a roupa.

Lily não se conteve, e gritou.

- Vocês foram pra cama? Você e o Remus?

Ellie ficou vermelha como um pimentão. E falou, num tom envergonhado.

- Ótimo. Conta pra toda a vizinhança, Lily!

Lily franziu a testa, e falou, num tom mais baixo.

- Desculpe.

As duas ficaram em silêncio por alguns segundos, até que Lily não conteve a curiosidade.

- E como foi?

Ellie suspirou, desanimada.

- Não foi.

Lily ficou sem entender nada.

- Como assim não foi?

Ellie olhou para a amiga, e falou.

- Eu... não consegui.

Novo momento de silêncio entre as duas. Até que Ellie resolveu abrir o jogo com a amiga.

- Eu queria, sabe. Ou achava que queria. Mas na hora... não deu. Eu já estava de calcinha e sutiã quando... alguma coisa me fez parar. Eu saí correndo de lá, sem dar explicação nenhuma.

Ellie omitiu o fato de estar ouvindo uma voz em sua cabeça. Não queria que Lily achasse que ela estava ficando louca. E ela mesma queria acreditar nisso.

- Ellie...

Lily esticou a mão, e segurou a mão da amiga. Ellie deitou a cabeça no sofá. Então Lily falou.

- Vai ver não era a hora certa...

Ellie respondeu rapidamente.

- Lily, eu e o Remus namoramos há mais de um ano. Já passou da hora certa! Fora que... eu acho que não é justo com ele. Ele está me esperando desde que começamos a namorar.

- E você acha que é justo perder a virgindade só porque você acha que ele não quer esperar mais? Se você não quer, não deve fazer isso só para agradar seu namorado.

Ellie suspirou, vencida. Sabia que o argumento de Lily era correto. Mas ela não conseguia deixar de pensar que a situação não era justa para Remus. Ele tinha dezoito anos, e provavelmente estava no auge de seus hormônios.

Lily olhou para Ellie. Pela primeira vez ela percebeu que talvez a amiga não fosse tão feliz no namoro como ela sempre imaginou. Lily tinha a imagem que Ellie e Remus eram o casal perfeito. Ela apenas naquele momento imaginou que talvez eles não fossem tão perfeitos assim.

- Ellie... você não acha que...

Lily interrompeu a frase por um instante. Não queria magoar a amiga. Mas Ellie levantou a cabeça, e perguntou.

- Acho o que?

Lily inspirou, e falou.

- Que talvez o motivo de você não ter conseguido ir até o fim seja que o Remus não é... o cara certo?

Ellie não respondeu nada. Não tinha o que responder. Principalmente porque ela mesma já se perguntava se realmente Remus era o cara certo para ela. E a falta de uma resposta concreta para essa pergunta a deixava cada vez mais confusa.

Lily se solidarizou com a amiga. Tentando tranqüilizá-la, ela falou, com um pequeno sorriso nos lábios.

- Mas o que eu sei? Eu sou apenas uma virgem sem namorado!

--

O que nenhumas das duas amigas imaginavam, enquanto conversava, era que alguém estava ouvindo cada palavra que elas diziam.

James e Sirius tinham subido para o segundo andar da casa. James foi para o próprio quarto, enquanto Sirius disse que iria ler um pouco. O rapaz entrou em seu quarto, mas deixou a porta aberta. Ele pegou o livro que estava lendo, deitou na cama, e abriu na página marcada.

Começou a ler. Passava os olhos de linha a linha. Mas não estava conseguindo absorver nada.

Ele estava nervoso. Sabia que aquele dia seria crucial em sua vida. A conversa que ele teria com sua mãe serviria para esclarecer muitas dúvidas que ele tinha. Coisas que tiravam o seu sono. E que tinham tirado parte de sua alegria de viver nos últimos tempos.

Fora que ele ainda teria a companhia de Ellie naquela noite. Mais um motivo para deixá-lo nervoso. Imaginar a presença da garota, sozinha com ele, sem mais ninguém por perto, fazia sua imaginação fluir. Por mais que ele tentasse evitar esse tipo de pensamento.

Quando ele chegou ao fim da página, e percebeu que não tinha se concentrado em sequer uma palavra, percebeu que precisaria de alguma distração. Então resolveu ir ao quarto de James, para ver se o irmão conseguia faze-lo pensar em qualquer outra coisa.

Ele saiu de seu quarto, e ia começar a seguir pelo corredor quando um grito, vindo da sala, o fez parar.

- Vocês foram pra cama? Você e o Remus?

Sirius parou de andar imediatamente. Ouviu claramente a voz de Lily. E ele sabia que ela e Ellie estavam conversando na sala. Uma corrente gelada percorreu seu corpo inteiro em menos de um segundo. E não conseguiu ter outra reação que não fosse se aproximar ao máximo, para tentar ouvir a resposta da garota.

- Ótimo. Conta pra toda a vizinhança, Lily!

Sirius novamente tentou se aproximar. Silenciosamente, para que as duas garotas não interrompessem a conversa. Enquanto ele se movimentava, elas falaram alguma coisa que ele não ouviu. Então ele tratou de ficar bem quieto, e apurar os ouvidos. A frase que ele conseguiu ouvir foi.

- Eu... não consegui.

Sirius franziu a testa. Ela queria dizer mesmo o que ele estava imaginando? Mas ele não ficou em dúvida por muito tempo, já que Ellie completou.

- Eu queria, sabe. Ou achava que queria. Mas na hora... não deu. Eu já estava de calcinha e sutiã quando... alguma coisa me fez parar. Eu saí correndo de lá, sem dar explicação nenhuma.

Sirius não conseguiu evitar sentir um enorme alívio. Ele sabia que não tinha direito de se sentir daquela forma. Não podia interferir no namoro de seu melhor amigo. Mas era impossível reprimir a satisfação que teve ao ver que a garota por quem ele estava apaixonado não conseguiu ir para a cama com o namorado.

Ele nem sentiu o sorriso se formando em seus lábios. E também não percebeu a presença de James atrás dele. Sirius estava sentado no topo da escada, e o irmão chegou já falando.

- O que você está fazendo aí?

Sirius virou instantaneamente. E, com o dedo sobre os lábios, ele falou, sussurrando.

- Fica quieto!

James franziu a testa, mas logo compreendeu. Sentou ao lado do irmão, e falou, também sussurrando.

- Você está ouvindo a conversa das duas!

Sirius retrucou imediatamente.

- Cala a boca!

Os dois ficaram em silêncio. E já pegaram a conversa um pouco mais adiantada. Desta vez era Lily falando.

- E você acha que é justo perder a virgindade só porque você acha que ele não quer esperar mais? Se você não quer, não deve fazer isso só para agradar seu namorado.

James abriu a boca, mas logo começou a sorriu. Sirius deu um cutucão no irmão, e eles voltaram a prestar atenção na conversa das garotas.

- Ellie... você não acha que...

James olhou para Sirius por um instante. Ele mantia o sorriso nos lábios, como que se esperasse uma grande revelação naquele momento. Sirius só queria ouvir da boca de Ellie que ela não tentaria ir para a cama com Remus novamente.

- Acho o que?

Sirius prendeu a respiração por um instante. Mas Lily logo completou.

- Que talvez o motivo de você não ter conseguido ir até o fim seja que o Remus não é... o cara certo?

Sirius sentiu seu estômago revirando. Se o que Lily tinha acabado de falar fosse verdade, ele poderia ter um fio de esperança. E, naquele momento, ele resolveu se apegar a esse pensamento.

Já James parecia estar se divertindo como nunca ao ouvir a conversa das garotas. Ele já estava imaginando mil formas de utilizar o que estava ouvindo naquele momento. Imaginou que poderia convencer Lily a concordar com algumas mudanças na ordem da casa, enquanto seus pais estivessem viajando. O problema era que nada o preparou para a frase que ele ouviu em seguida. As palavras que saíram da boca de Lily.

- Mas o que eu sei? Eu sou apenas uma virgem sem namorado!

O sorriso sumiu do rosto de James. Ele ficou com o olhar perdido.

Como as duas logo mudaram de assunto, Sirius finalmente acordou de seu devaneio. Ele olhou para o lado, e viu James. O irmão parecia estar em órbita.

- James. Você tá legal?

Mas James não respondeu. Apenas levantou da escada, e foi caminhando até seu quarto. Sem dizer nenhuma palavra, ele entrou, e fechou a porta.

Sirius franziu a testa, sem entender nada. Mas logo a excitação de sua descoberta sobre Ellie o fez esquecer James. Ele só conseguia pensar em como era incrível a sensação de, por menor que fosse, sua esperança poderia não ser assim tão em vão como ele imaginava.

--

O resto do dia passou sem nenhum acontecimento marcante. Remus e Emmy passaram boa parte da manhã, e início da tarde passeando pelas redondezas. A conversa entre os dois fluía de forma tranqüila, e Remus notou que a garota estava cada vez menos constrangida em sua presença. Ele falou sobre Hogwarts, sobre os amigos, sobre piano. Mas, ele mesmo não conseguiu entender, ele não falou sobre seu namoro com Ellie. Ele se convenceu mentalmente que estava evitando esse assunto pela situação ocorrida no dia anterior. Em parte era verdade, mas em outra parte, ele não saberia responder tão claramente.

Boa parte do passeio foi gasta num pequeno parque, que ficava bem próximo à rua que ambos moravam. O local era agradável, e as alamedas floridas eram mais do que convidativas para um passeio.

Emmeline contou sobre sua vida em Leeds. Falou sobre sua escola antiga, seus amigos. Mencionou brevemente um ex-namorado, mas ficou tão corada ao falar sobre o assunto que logo engrenou outra conversa. E Remus percebeu que ficou extremamente satisfeito ao vê-la parar de falar sobre o ex.

Quando eles se despediram, já era de tarde. Remus achava que Ellie ia fazer seu turno como voluntária naquela tarde, então nem passou na casa da namorada. E, sinceramente, ele ficou aliviado em adiar a conversa que seria invariavelmente constrangedora.

Mas Ellie não foi ao hospital naquela tarde. Lily foi sozinha, e aproveitou o tempo lá para se distrair. Se tivesse ficado a toa, sozinha, ficaria o tempo inteiro lendo e relendo o novo poema que recebera. E até ela mesma achava que isso não era saudável.

James ficou trancado em seu quarto o resto do dia. Não queria conversar com ninguém, sequer desceu para almoçar. Aquele comportamento era tão estranho da parte de James que Sirius, que era quem costumava pular as refeições, foi até o quarto do irmão tentar convence-lo a almoçar. Mas James deu a desculpa de estar compondo, e que não queria perder a inspiração.

Lily não demorou muito a voltar do hospital. Ela entrou em casa no início da noite. E encontrou Sirius sentado no sofá que ela tinha ocupado durante o dia quase inteiro.

- Oi Sirius. – Lily falou, ao ver o irmão. E logo ela notou que ele estava arrumado para sair.

- Oi Lily. – ele respondeu, desviando o olhar da janela.

Lily parou por um instante. Não queria pressionar Sirius, mas estava com medo dele voltar ao comportamento anterior, de nunca dormir em casa, e passar as noites bebendo como um louco.

- Você... vai sair?

Sirius concordou com a cabeça. E ele viu o olhar de decepção no rosto da irmã. Então ele completou.

- Não devo demorar muito.

Lily franziu a testa, e perguntou.

- Aonde você vai?

Sirius fez uma expressão desinteressada.

- Sair com alguns amigos.

Lily concordou com a cabeça, e falou.

- Tá, mas tenta... não beber muito.

Sirius deu um pequenino sorriso de lado. Ele não pretendia beber absolutamente nada naquela noite.

- Pode deixar.

Lily sorriu brevemente, e falou.

- Vou tomar banho. Você vai sair que horas?

- Daqui a pouco. – Sirius respondeu – Ah, você dá uma olhada no Jay depois? Ele está meio... esquisito.

Lily franziu a testa. E respondeu, com uma voz um pouco mais baixa.

- Ah... está bem.

--

No início da noite, Ellie chegou ao Royal London Hospital. O hospital era bem grande, e estava um pouco movimentado daquele dia. Ela logo seguiu até a entrada dos funcionários, e seguiu até o vestiário.

Lá a garota tirou a calça e blusa que usava, e colocou o uniforme de voluntária. Era um vestido, que lembrava um pouco a roupa das enfermeiras do hospital. A principal diferença era a cor, e o comprimento um pouco menor. Fora que ela usava um crachá, que indicava sua função no local.

A garota seguiu imediatamente para a ala infantil. Ela costumava brincar com as crianças, e naquele dia ela tinha levando alguns livros infantis para ler para os garotos. Fora que era uma boa desculpa para ela ficar até mais tarde no hospital naquela noite.

Ela passou um bom tempo brincando com as crianças. Ajudou algumas enfermeiras a servir o jantar, e leu histórias para alguns deles dormirem. Mas volta e meia ela consultava seu relógio.

Quando ela já estava terminando a leitura de um livro, uma das enfermeiras entrou no quarto que ela ocupava, e falou, baixinho, para não acordar a pequena menina que já dormia. Enquanto Ellie lia a história da Branca de Neve.

- Ellie. – ela sussurrou – Telefone para você.

Ellie olhou para o relógio. Eram apenas nove da noite. Ela tinha combinado com Sirius às dez. Então imaginou que fosse alguma outra pessoa ligando.

Ela chegou à recepção da ala infantil, e pegou o telefone que a recepcionista lhe entregou. E falou.

- Alô.

Uma voz masculina respondeu.

- Oi. Sou eu.

Ela não precisou de maior identificação. Era Sirius.

- Oi.

- Eu estou aqui. Na cabine que você falou.

Ellie franziu a testa. E falou.

- Já? Achei que você só vinha às dez.

Sirius ficou mudo por algum tempo. Ele não queria falar que estava ali desde as sete e meia. Então desconversou.

- Vim mais cedo.

Ellie ficou sem ação por um instante. Mas antes que ela pudesse falar qualquer coisa, a enfermeira que a avisou da ligação, que ela conhecia muito superficialmente, falou.

- É seu namorado? Fala para ele entrar, e ficar te esperando aqui.

Ellie viu nisso uma possibilidade interessante. E certamente facilitaria um pouco a entrada de Sirius no hospital.

- Ah... então tá . – ela respondeu a enfermeira. Então, falando com Sirius, ela prosseguiu – Vem pra cá, segue pela lateral até a entrada dos funcionários. Eu vou te pegar lá.

Ela desligou o telefone. A enfermeira sorriu para ela, e falou.

- Vai lá buscar ele. E trás ele aqui para nós conhecermos!

Ellie sorriu amarelo, e saiu andando.

--

Logo ela chegou à entrada dos funcionários. E viu Sirius parado na porta, aparentando muita seriedade. Ela abriu a porta, e falou.

- Entra.

O segurança do local se aproximou, mas ela esclareceu.

- Ele vai ficar me esperando terminar o turno. Vai ficar na recepção.

O homem apenas acenou com a cabeça, e permitiu a passagem do rapaz. Logo os dois caminhavam pelos corredores do hospital.

Sirius mantinha a expressão séria. E mal falou durante todo o percurso. Apenas quebrou o silêncio para perguntar.

- Nós vamos direto lá?

Ellie negou com a cabeça, e respondeu.

- Temos que ir até a ala infantil. A enfermeira meio que pediu... bem, você vai ver.

O rapaz franziu a testa, mas ficou calado. E logo eles chegaram ao local.

A recepção da ala infantil agora estava bem vazia. Os pais e familiares das crianças internadas tinham ido para casa, e a maioria dos pacientes já estava dormindo. Sirius e Ellie se aproximaram do balcão, e a enfermeira que conversou com Ellie sorriu ao vê-los.

- Ellie, você nunca disse como seu namorado é bonito!

Sirius imediatamente olhou para Ellie com olhos arregalados. Como assim, namorado? Mas a garota, mesmo corada, falou.

- É... pois é.

A recepcionista se curvou um pouco para olhá-los. Ela também sorriu, e concordou.

- É verdade. Formam um belo casal.

Sirius continuava admirado. Ia abrir a boca para perguntar o que estava acontecendo, quando sentiu Ellie pegando a sua mão. Ela pareceu perceber que ele falaria alguma coisa, então ela mesma começou a falar.

- Obrigada.

Sirius ficou completamente mudo. Sentiu Ellie entrelaçando seus dedos nos dele, e segurando de forma firme. E ele ouviu a enfermeira falar novamente.

- E qual é seu nome?

Ele finalmente respondeu.

- Sirius. – ele falou sem pensar. Nem lembrou que havia uma possibilidade de alguém ali saber que Ellie tinha um namorado chamado Remus.

Mas enfermeira apenas sorriu, e falou.

- Nome bonito. Exótico.

Ellie abriu um pequeno sorriso, e falou.

- Bem, levando em conta que eu me chamo Elladora, acho que combina...

A enfermeira riu do comentário dela. E falou.

- Com certeza combina. Dá para ver.

Sirius não conseguiu evitar o olhar na direção de Ellie. A garota pareceu desconcertada por um instante, mas a enfermeira logo recomeçou a falar.

- Quer saber, Ellie? Por que você não vai trocar sua roupa, e vocês vão embora? Já não tem quase nada para fazer mais, e vocês podem aproveitar o resto da noite e namorar um pouco...

Ellie abriu a boca, mas nenhum som saiu dali. A enfermeira sorriu, e falou.

- Vai logo, garota. Vocês são jovens, merecem aproveitar um pouco. Se eu tivesse a idade de vocês...

Ellie abriu um sorriso incerto, mas agradeceu.

- Então eu vou. Obrigada!

Ela apenas sorriu, e falou.

- De nada. E aproveitem!

Ellie olhou para Sirius, e notou que ele a observava. Ela então começou a puxá-lo pela mão, e o conduziu pelo corredor comprido que eles tinham percorrido quando entraram. Logo eles viraram uma esquina, e ela parou de andar. Ela expirou, e falou.

- Acho que as enganamos.

Mas Sirius não respondeu nada. Ellie não tinha soltado a mão dele. Apenas concordou com a cabeça. Ela prosseguiu falando.

- Temos que pegar as escadas, e subir mais um andar. Pelo elevador é mais arriscado. E eu descobri que tem um segurança na ala psiquiátrica. Vamos ter que improvisar.

- Como assim? – ele perguntou, tentando não encarar as mãos unidas dos dois.

Ellie deu um pequeno sorriso de lado.

- Na hora a gente vê.

--

Lily tomou seu banho de forma tranqüila. Relaxou bastante, depois de ter passado uma tarde inteira correndo e brincando com as crianças do hospital. Não que ela não gostasse de fazer aquilo. Ela adorava. Mas isso não a impedia de se sentir acabada depois de um turno longo como aquele. E principalmente naquele dia, que Ellie não estava com ela para dividir a tarefa.

Ela trocou de roupa. Colocou seu pijama, que era uma calça de tecido fino, e uma camiseta justa. Calçou suas pantufas, e desceu em direção à cozinha.

Os empregados já tinham ido embora naquele dia. Nenhum deles dormia na casa dos Potter. Então ela circulou pela casa de pijamas sem se importar.

Lily abriu a geladeira, e retirou uma salada de frutas de dentro. A enorme vasilha parecia um exagero, ainda mais que os pais tinham viajado, e apenas ela, James e Sirius ocupavam a casa.

A garota retirou uma pequena porção, colocou numa tigela, pegou uma colher, e saiu em busca de algo para fazer.

Percorreu a sala com os olhos. Resistiu à tentação de sentar perto da janela. Ela estava achando que se ficasse muito tempo ali, ficaria doida. Então resolveu assistir um pouco de televisão.

Lily subiu as escadas, e foi andando até o cômodo. Mas, ao chegar à porta, viu que ele estava ocupado. James estava esparramado no sofá, assistindo um filme.

- Resolveu sair da toca? – a garota perguntou, se aproximando.

James virou a cabeça muito rápido. Ficou encarando Lily por alguns segundos antes de responder.

- Resolvi.

Lily andou até o sofá. James ocupava quase todo o móvel, então Lily reclamou, e o cutucou com o pé.

- Abre um espaço para mim.

James a olhou, contrariado.

- Vai sentar na poltrona!

Mas Lily não deu bola para ele, e foi sentando. Ela sentaria em cima das pernas dele, se o rapaz não fosse ágil o suficiente para retirá-las do caminho naquele instante.

- Deixa de ser espaçoso, James! – ela reclamou.

James se levantou, e se ajeitou melhor no sofá. O móvel era grande e largo, então eles se recostaram de foram confortável.

- O que você está assistindo? – Lily perguntou.

James, que a observava, respondeu.

- Um filme.

Lily revirou os olhos.

- Isso é obvio! Eu perguntei qual filme você está assistindo.

James olhou para ela, e falou.

- Sei lá, um filme velho qualquer. Liguei agora.

Lily constatou que o filme era realmente antigo. Era preto e branco, e parecia um daqueles filmes de terror bem velhos. Mas desta vez quem perguntou foi James.

- O que você está comendo?

Lily tinha começado a comer suas frutas naquele instante. Ela mastigou, engoliu, e respondeu.

- Salada de frutas.

James abriu um pequeno sorriso, e falou.

- Me dá um pouco?

Lily riu do tom que James usou, e falou.

- Você nunca é capaz de descer na cozinha e pegar um pouco para si mesmo, não é?

O sorriso dele aumentou.

- Não.

Lily riu. Mas mesmo assim ela encheu a colher, e lentamente a levou até James. Para se aproximar, ela debruçou um pouco o corpo na direção do rapaz.

James abriu a boca, e recebeu a colherada de Lily. Mas, no instante que ele fechou a boca na colher, ele olhou para a garota. E seu semblante mudou completamente.

O sorriso morreu no rosto de James. Ele ficou sério, e olhava diretamente nos olhos de Lily. A garota sentiu algo inesperado. Parecia um calor que subia do estômago, e que ela não conseguia controlar. Sentiu seus lábios se entreabrirem, e ela parou de respirar.

Os dois ficaram nessa posição por alguns segundos. Olhos nos olhos. Até que James se afastou, e levantou num pulo. Ele parecia um tanto perturbado.

- Você tem razão. – ele falou, já andando em direção à porta. – Eu vou pegar uma tigela de salada para mim.

A frase de James fez Lily acordar. Ela não entendeu porque, mas falou imediatamente.

- James!

A própria garota não reconheceu sua voz. Estava diferente, falhada e mais densa. James parou de andar, aparentemente notando a forma que ela falou.

Sem saber o que fazer, Lily apenas falou.

- Trás... um copo de água para mim?

James concordou com a cabeça, e sumiu porta afora.

--

Sirius e Ellie subiram silenciosamente as escadas do hospital. Ellie finalmente largou a mão do rapaz. Ele ficou aliviado por um lado, já que precisava se concentrar no que ia fazer, mas ficou decepcionado por outro, já que perdeu o contato com a mão morna da garota.

Assim que chegaram ao andar correto, Ellie empurrou muito de leve a porta, abrindo apenas uma fresta. Ela observou, e falou baixinho.

- Beleza. Está limpo.

Os dois saíram andando silenciosamente. Passaram por várias portas, corredores. A cada vez que tinha que virar numa esquina, Ellie colocava a cabeça para ver se não vinha alguma pessoa. Para ela era mais fácil justificar a presença naquele andar, já que ela era voluntária do hospital. Os dois estavam a uma esquina do corredor que levava à ala psiquiátrica. Ellie novamente esticou a cabeça, para ver se estava tudo tranqüilo. Ela se movia lentamente. Sirius estava logo atrás da garota, esperando o sinal para prosseguirem.

Mas, em um segundo, Ellie voltou para trás repentinamente. Ela olhou para Sirius com expressão de desespero, e sussurrou, muito baixo e rápido.

- Vem vindo alguém!

Sirius mal pensou. Simplesmente abriu a primeira porta que viu. Por sorte ela não estava trancada. Ele pegou Ellie pelo braço, e a puxou para dentro. Ele depois fechou a porta da forma mais silenciosa que conseguiu.

Foi só aí que ele percebeu onde estavam. Era um cubículo miúdo. O lugar não era iluminado, mas eles conseguiam enxergar alguma coisa pela iluminação que passava pelas frestas da porta. Ele notou que o lugar tinha algumas prateleiras, com baldes, produtos de limpeza, algumas vassouras e outros objetos para faxina. Era um armário.

E, como poderia se supor o local era ínfimo. Tão pequeno que os dois ficaram colados um no outro, para caberem ali. E Sirius só notou isso quando abaixou a cabeça, e deu de cara com o rosto de Ellie muito próximo.

Vozes vinham do corredor. Provavelmente das pessoas que Ellie avistou, quando espiou o corredor. Mas Sirius não pensava nisso naquele instante. Ele só pensava no que estava acontecendo no armário.

Os corpos dos dois estavam quase colados. Ele sentia a respiração acelerada de Ellie na base do seu pescoço. E viu, mesmo com a iluminação precária, a garota levantando o rosto, e olhando para ele.

Fazia bem mais de um ano que eles não ficavam assim tão próximos. E Sirius não lembrava de alguma vez que eles tivessem ficado próximos daquela maneira. Quando eles eram crianças eles costumavam sair rolando no chão, brigando. Mas aquilo era completamente diferente.

- Sirius...

A voz dela saiu tão baixa, que Sirius achou que ela simplesmente deixou a palavra escapar, sem ter a real intenção de falar. Aquilo o fez reagir sem pensar. Ele começou a abaixar a cabeça, se aproximando do rosto dela. Não conseguia mais raciocinar. Apenas precisava daquele momento. Precisava do contato com ela.

Mas o toque que ele tanto ansiava não aconteceu. As vozes que eles tinham ouvido estavam passando exatamente na frente do armário que eles ocupavam. Ellie arregalou os olhos, e agarrou a mão de Sirius instintivamente.

Isso fez Sirius parar de se aproximar dela. E também o fez notar que ele estava segurando o braço dela desde que ele a puxou para dentro do armário.

A tensão continuava. As pessoas que conversavam no corredor pareciam ter parado um instante, e conversavam bem próximas dali. Mas, para a sorte da dupla, logo eles começaram a se afastar.

Sirius sentiu Ellie diminuindo a aperto em sua mão. Ele não queria, mas acabou soltando o braço dela. Mas não deixou de notar que ela olhou para ele no instante que ele interrompeu o contato.

Quando eles pararam de ouvir as vozes, eles resolveram arriscar uma olhada. Sirius, que estava mais perto da porta, a abriu um pouco, e espiou. O caminho estava livre.

Os dois deixaram o armário, e voltaram para seu caminho. Lentamente avançaram, e não foram mais interrompidos. Até finalmente visualizarem a ala psiquiátrica.

A porta do local estava fechada. E, pelo que Ellie sabia, permanecia trancada. Apenas os médicos e os seguranças tinham acesso à chave. E um dos seguranças ficava de guarda perto da entrada.

Ellie novamente olhou pela esquina, e viu o segurança. Não existia possibilidade de passarem na frente do corredor sem serem vistos. Fora que a chave ficava na mesa do segurança, então de nada adiantava passar sem ser percebido.

Ellie voltou para trás da parede. Olhou para Sirius, e pensou por um instante. Então sorriu de leve, e se aproximou do rapaz, para falar no ouvido dele.

Sirius tentou ignorar o arrepio que sentiu quando ouviu a voz sussurrada de Ellie colada ao seu ouvido. Tentou se concentrar no que ela dizia.

- Você vai ter que entrar sozinho. Vou arrumar alguma forma de distrair o guarda.

Ele franziu a testa, e falou.

- Como?

Ellie olhou para o rapaz, e respondeu.

- Eu me viro. Apenas fique de olho, para você conseguir chegar à mesa, e pegar a chave.

Sirius concordou com a cabeça. Ellie então parou para pensar novamente. E um sorriso sacana apareceu em seus lábios.

A garota começou a desabotoar os primeiros botões do vestido. Sirius arregalou os olhos, mas ela apenas sorriu, e piscou para ele. Na seqüência ela soltou os cabelos que estavam presos, ajeitou o sutiã, e saiu andando em direção ao guarda.

Sirius ainda estava boquiaberto quando ouviu a voz de Ellie, falando em tom normal.

- Oi!

Imediatamente o rapaz esticou o pescoço para observar o que acontecia. Ellie chegou perto do segurança, e começou a conversar com ele.

- Eu sou nova aqui, e estou um pouco perdida... Será que você pode me ajudar?

Sirius viu o segurança dando uma olhada discreta na garota. Ellie exibia um sorriso enorme. Ela pegou uma mecha dos cabelos, e começou a brincar com ela entre os dedos. Sirius sentiu pena do guarda. Sabia que ele invariavelmente seria enganado pela garota.

- Ah. Claro. – o homem respondeu.

Mas Ellie ignorou a menção dele de seguir pelo corredor que ela veio. A garota abriu a boca, e rindo, falou.

- Oh meu Deus! Que vista fantástica!

Ela começou a andar em direção à janela. O segurança a seguiu, obviamente. E ela começou a tagarelar.

- Nossa, dá para ver tanta coisa aqui de cima! Eu nunca esperaria. E são tão bonitas as luzes da cidade...

Ela maliciosamente colocou a mão no ombro do guarda. Isso o obrigou a ficar de costas para a porta da ala psiquiátrica. Com a mão livre, Ellie fez sinal pelas costas, indicando para Sirius passar.

O rapaz se esgueirou silenciosamente até a mesa do guarda. Alcançou a chave, e foi até a porta. Fazendo o máximo de silêncio possível, ele abriu a porta. Antes de desaparecer, ele ainda ouviu Ellie falando, num tom mais alto, e fingindo estar se divertindo muito.

- E que prédio é aquele? Sabe, eu não conheço muita coisa por aqui...

--

Após longos minutos, James retornou da cozinha. Ele trazia uma tigela para ele, com as frutas, e um copo de água para Lily.

- Toma. – ele falou, estendendo o copo.

Ele ainda estava sério. Sentou de forma mais correta, e não esparramado com estava antes. E começou a comer em silêncio.

Lily estava mais recuperada. Ela estava prestando atenção no filme. Já tinha terminado de comer suas frutas. Bebeu um pouco de água, e depositou o copo numa mesinha que ficava ao lado do sofá.

Os dois ficaram em silêncio por longos minutos. Volta e meia Lily percebia que James desviava o olhar da televisão para observá-la. Mas logo voltava a encarar o filme.

Lily começou a ficar nervosa com aquela situação. Aquilo não era normal. James nunca ficava quieto, ele sempre estava falando ou fazendo alguma coisa. O fato de ele estar tão calado a estava incomodando. Então Lily criou coragem, e resolveu tentar descontrair o ambiente.

- Eu, você pede minha salada de frutas, mas não me oferece um pouco da sua?

James virou para ela, e falou.

- Você quer que eu pegue mais para você? Eu vou lá embaixo se você quiser.

Novamente uma reação estranha de James. Ele não costumava se oferecer para pegar nada para ela. Geralmente era ele enchendo a paciência da garota, pedindo para ela buscar algo para ele.

- Não... não precisa. – Lily falou.

Novo silêncio entre os dois. E Lily só fazia ficar cada vez mais nervosa com aquela situação. Ela passou a observar constantemente o rapaz. Até que finalmente falou.

- Você ficou chateado com o papai e a mamãe me deixarem no comando?

James franziu um pouco a testa quando ela falou "papai e mamãe", mas logo voltou à expressão original.

E demorou alguns instantes para responder.

- Não.

Desta vez quem franziu a testa foi Lily.

- Então qual é o problema?

James pareceu muito surpreso com a frase de Lily. Mas como ele não respondeu absolutamente nada, a garota prosseguiu.

- Você está muito estranho hoje. Pelos cantos, ficou o dia todo no quarto. A única coisa que eu consigo imaginar é que você ficou chateado com isso.

- Eu não estou chateado com isso.

Lily continuou olhando diretamente para ele.

- Então o que está te chateando?

- Nada está me chateando! – James retrucou.

Ele se voltou para a televisão, mas manteve a testa franzida. Lily suspirou, e ficou calada. Eles ficaram assistindo o filme por alguns minutos, até que Lily decidiu fazer algo. Sem pensar muito, ela simplesmente pulou para perto de James. O rapaz arregalou os olhos, e falou.

- Lily!

A garota sorriu, e falou.

- Não quer falar por bem, vai falar por mal!

Ela alcançou a almofada que estava ao lado dela, e começou a bater nele com ela. Ela ainda tentava intercalar algumas cosquinhas, mas não conseguiu muita coisa.

A reação de James foi imediata. Ele agarrou a primeira almofada que viu, e passou a revidar. Os dois riam, e tentavam acertar um ao outro. Até o momento que Lily, tentando ficar ajoelhada no sofá, perdeu o equilíbrio, e caiu por cima de James. Os dois acabaram rolando do sofá para o tapete grosso e macio da sala de televisão. Apesar de James ter caído com as costas no tapete, quando eles acabaram de rolar Lily estava por baixo, com as costas no tapete, e James estava meio deitado por cima dela.

Nenhum dos dois esperava por algo assim. James lentamente ergueu o corpo. Mas não saiu de cima de Lily. Ele estava apoiando seu peso nos dois antebraços. E seu rosto estava a centímetros do de Lily.

Lily sentiu não só seu rosto, mas seu corpo inteiro ficar vermelho. Ela prendeu a respiração. Achava que, se respirasse, iria explodir. Seus olhos estavam pregados nos olhos de James. Ela podia ver o contorno ligeiramente acinzentado da íris do rapaz.

James mal piscava. Ele parecia hipnotizado. Lily não era mais capaz de pensamentos coesos naquele momento. Apenas entreabriu seus lábios. Queria falar alguma coisa, qualquer coisa. Mas não era capaz. E parecia que James sofria do mesmo mal que ela.

Os dois ficaram naquela posição por alguns segundos. Para Lily, pareceram horas. Até que James, reagindo, simplesmente levantou, e falou, muito sério.

- Vou dormir. Boa noite.

Ele saiu andando pela sala de televisão. Lily levantou o tronco, mas permaneceu sentada no tapete. Ela só teve forças para uma palavra. E mesmo assim sua voz saiu falha e muito baixa.

- James...

Mas James desapareceu porta afora, sem olhar para trás.

Lily ficou alguns segundos estática. Apenas olhando a porta. Sem conseguir entender exatamente o que tinha acontecido. E, principalmente, sem entender o que ela estava sentindo.

--

Sirius aproximou-se da porta da ala psiquiátrica. Ele já tinha cumprido o seu objetivo naquele lugar. Tinha achado sua mãe. Mas essa era a última coisa que ele queria pensar naquele momento.

Novamente ele abriu a porta de foram silenciosa. Pode ouvir a voz de Ellie no corredor. A garota falava sem parar, provavelmente preocupada com algum eventual barulho que Sirius pudesse fazer. Ela já estava lá há alguns minutos, distraindo o guarda, e Sirius imaginou como ela conseguia inventar tanto assunto para entretê-lo. Mas, como era mais provável que o guarda estivesse entretido pelo decote da garota, o que ela falava era a menor preocupação naquele momento.

Ele visualizou a dupla ainda perto da janela. Ellie habilmente, tinha se colocado de frente para a porta da ala psiquiátrica. E o guarda continuava de costas. Ela estava recostada na janela, e tinha uma perna meia cruzada por cima da outra. O sorriso continuava inabalável.

- Eu vim para Londres tem pouco mais de um mês. Não conheço nada por aqui...

O guarda visivelmente encarava o decote da garota.

- Se você quiser eu te mostro a cidade. – ele falou.

Ellie sorriu novamente. Ela viu Sirius se aproximando da mesa da guarda, e depositando a chave no lugar. Lentamente, ele voltou para o corredor, e ficou esperando a garota por lá.

Ele só pode ouvir a conversa.

- Bem, querido... eu já vou.

- Mas já? – ele falou – Mas você nem me disse seu nome!

Sirius ouviu a risada de Ellie. E ela concluiu.

- Mas isso a gente deixa para nosso próximo encontro. Pode deixar que eu te procuro aqui...

E Sirius pode ouvir o barulho dos sapatos dela se aproximando. Ela virou a esquina, e encontrou Sirius com uma das sobrancelhas erguidas. E eles ouviram o guarda falando, do outro lado.

- Vou ficar esperando...

Ellie revirou os olhos, e rapidamente começou a percorrer o caminho de volta.

Assim que eles alcançaram as escadas, Sirius não se conteve, e perguntou.

- Você vai encontrar ele de novo?

Ellie olhou para o rapaz, que tinha um ar risonho no rosto. Por mais surpreendida que ela estivesse, já que ela não lembrava a ultima vez que Sirius sorriu perto dela, ela ainda assim retrucou.

- Tá louco? Ainda bem que ele é guarda noturno. Nunca mais troco um turno nesse hospital...

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Sirius e Ellie conseguiram fugir do hospital sem maiores problemas. A garota trocou de roupa numa velocidade incrível, já que não poderia ser flagrada por nenhuma das enfermeiras da ala infantil. Logo os dois estavam correndo pela rua. Ellie ria, carregando uma mochila com suas coisas nas costas, e seguindo Sirius que procurava sua moto no estacionamento.

Assim que eles chegaram à moto, pararam por um instante. Ellie ainda estava ofegante da corrida, mas sorria. Sirius olhou para a garota. Ele estava satisfeito. Era muito bom vê-la daquela forma.

Mas logo Ellie acalmou, e olhou para Sirius. E ela finalmente falou o que estava planejando desde que eles saíram do hospital.

- Sirius... e como foi... lá dentro?

Sirius ficou quieto por algum tempo. Seu bom humor desapareceu. Ele ficou muito sério.

- Não quero falar sobre isso.

Ellie recuou o corpo por um instante. Mas resolveu fazer uma nova tentativa.

- Sirius... quem sabe conversar um pouco não ajuda...

Mas Sirius respondeu de forma violenta.

- Já disse que não quero falar sobre isso!

Desta vez Ellie resolveu que bastava. Ela sempre relevava as grosserias de Sirius, já que Remus sempre pedia para ela não brigar com o amigo, e piorar ainda mais as coisas. Mas aquilo já era demais. Ela só queria ajudar, e tinha acabado de fazer um enorme favor para o rapaz. Não existia justificativa para aquela reação dele.

- Ei, não precisa gritar! – ela respondeu, elevando o tom de voz.

- Se eu estou gritando é por que você fica teimando no mesmo assunto! – ele respondeu, no mesmo tom.

Ellie estava ficando cada vez mais brava. E continuou.

- Eu só estou tentando ajudar!

- E quem pediu sua ajuda? – ele falou, novamente ríspido.

- Você! Você pediu minha ajuda, seu mal educado!

Sirius então percebeu o que estava fazendo. Ele estava agindo da mesma forma que sempre agia com ela. Ela só estava tentando ajudar. E ele evitava isso para não se envolver ainda mais com ela. Só que, nesse caso, ele mesmo a tinha envolvido. E conhecendo a persistência da garota, ela não ia desistir tão fácil.

Só que ele não se acalmou o suficiente para falar num tom de voz normal. Mesmo tendo passado vários segundos da última frase dela, ele ainda falou num tom bravo.

- Eu... ah, deixa para lá. Além do que, não existe motivo para essa discussão. Minha mãe nem é minha mãe mesmo, então eu nem ligo. Tanto faz se ela está viva ou morta.

Sirius estava falando aquilo apenas para evitar sentir o que sentiu ao ver a mãe deitava na cama do hospital. Era algo que ele esperava nunca mais sentir. Só que Ellie não sabia daquilo. Ela abriu a boca, chocada. E, quando falou, sua voz estava baixa e fraca.

- Você... não deveria dizer isso.

Sirius não entendeu imediatamente o que ela quis dizer com aquilo. Mas, quando a compreensão o atingiu, ele sentiu um enorme remorso. Imediatamente ele abriu a boca para falar, mas Ellie prosseguiu.

- Você tem idéia de como é afortunado por ter essa chance? Você pode... dizer adeus. Ela sobreviveu, Sirius. Você vai sempre ter essa chance.

Sirius sabia o que ela estava falando. Ellie tinha perdido os pais quando ela tinha apenas seis anos. E ele lembrava de como a garota ficou naquela época.

- Eu... não queria... – ele falava, mas não sabia o que dizer.

- E mesmo o seu pai. – ela continuou – Ele não te abandonou. Ele não teve essa escolha. Ele ficou doente. E sua mãe. Também não é culpa dela.

Sirius se aproximou da garota, e falou, baixo.

- Não foi culpa dos seus pais também.

Aquilo teve efeito imediato na garota. Ela parecia ter atingido um pico de raiva que ele nunca tinha visto. E explodiu, gritando.

- Não foi culpa deles! Lógico que foi! Por acaso não era escolha deles viver a vida daquela forma? Eles precisavam de tudo aquilo? Eles me largavam, Sirius! Preferiam passar o tempo deles explorando uma maldita montanha, ou num safári na África do que cuidar de mim!

Sirius se aproximou um pouco mais, só que ela continuava esbravejando.

- Aventureiros, Playboys! Todo mundo conhecia os dois, eles eram amigos de todo mundo! Passavam a vida de país em país. Mas me deixavam pra trás! Para meus avós cuidarem. Agora me responde, eles me amavam? Eu acho que não. Senão eu não teria que chorar em frente a túmulos vazios!

Sirius agora estava quase encostado nela. E viu que ela estava à beira das lágrimas. Ele falou, numa voz suave.

- Foi um acidente, Ellie. Eles não queriam morrer.

Sirius lentamente esticou os braços, e começou a envolvê-la. Ela resistiu por um instante, mas logo se deixou abraçar. Imediatamente as lágrimas correram pelos seus olhos, e ela começou a falar, desta vez sem gritar.

- Eu... eu não quero. Não quero ser igual a eles. – ela apoiou a cabeça no peito de Sirius, e continuou falando – Todas as vezes que eu faço algo... insensato... impensado... selvagem... eu fico... eu não posso ser igual a eles! Eu não quero... eu não quero deixar... ninguém para trás.

Sirius a apertou em seus braços. Passou suavemente a mãos pelos cabelos dela. Apenas sussurrou, bem baixinho.

- Você não é igual a ninguém. Você é única.

Ellie levantou um pouco a cabeça. Olhou para Sirius diretamente nos olhos. Ele sentiu um aperto enorme no peito. Era doloroso demais vê-la chorar. Mas ele acariciou mais uma vez os cabelos dela, e falou.

- E não deixe ninguém de dizer o contrário.

Ellie voltou a repousar a cabeça no ombro do rapaz. E percebeu que nunca tinha se sentido tão segura na vida.

--

Lily estava deitada em sua cama. Já passava, e muito, da meia noite. Mas ela simplesmente não conseguia pregar os olhos. Ela não estava preocupada com a ausência de Sirius, que ainda não tinha chegado em casa. Ela estava pensando no que aconteceu na sala de televisão. Com James.

Lily repassou a cena milhares de vezes em sua cabeça. Mas não conseguia chegar à conclusão nenhuma.

Ela e James eram irmãos. Bem, não biologicamente. Mas foram criados como irmãos. Mas, então, por que era tão difícil para ela chama-lo assim? E por que ela sentia que Sirius era seu irmão de verdade, e James, não?

Mas, obviamente, Lily não chegou à conclusão nenhuma a respeito do assunto.

A garota se revirou na cama. Abraçou seu ursinho de pelúcia favorito. E tentou fechar os olhos para dormir.

Sim, dormir era uma boa idéia. Pela manhã, certamente suas dúvidas seriam resolvidas, e ela provavelmente riria desse assunto.

Mas, assim que fechou os olhos, a única coisa que Lily conseguiu pensar foi nos olhos castanhos acinzentados de James Potter.

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Música do capítulo:

You are everything – The Stylistics

Espero que vocês tenham gostado! Um beijo a todos!

Pri.