SO RESTA O COMEÇO
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Quarto Ato: Lápides e Flores
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Dois anos.
Dois anos já se foram desde a última batalha entre Luz e Treva. Mais de setecentos dias sem as pessoas queridas. Mesmo a esperança não sobrevive a tanto tempo quando todos os fatos mostram de que nada ela adianta.
Num campo a quase se perder de vista, várias lápides em mármore branco se alinhavam formando uma perspectiva geométrica da grande tragédia que desestruturou completamente o mundo mágico. O vento frio corria entre os blocos de pedras, brincando com a relva rasteira e algumas flores que insistiam em surgir entre os túmulos.
As árvores seculares da Floresta Proibida faziam-se guaridas para aquele cemitério de pessoas e destroços. Heras cobriam as ruínas de Hogwarts. Pequeninas árvores cresciam protegidas pelos escombros. Pássaros e pequenos animais faziam ninho onde antes fora um templo milenar de aprendizado. Mesmo em meio à morte, ironicamente a vida sempre surge. A vida sempre encontra seus meios de resistir e insistir.
Um imenso bloco de mármore negro erguia-se onipotente no final daquele cemitério, como fosse um guardião a zelar pelo descanso eterno de seus habitantes. Impresso em ouro havia o brasão de Hogwarts que encabeçava uma lista quase interminável de nomes... de todas as vítimas daquela guerra, dos que habitavam ou não aquele cemitério.¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤
Ao menos junto dos mortos pode a gente
Crer e esperar n'alguma suavidade:
Crer no doce consolo da saudade
E esperar do descanso eternamente.
Junto aos mortos, por certo, a fé ardente
Não perde a sua viva claridade;
Cantam as aves do céu na intimidade
Do coração o mais indiferente.
Os mortos dão-nos paz imensa à vida,
Dão a lembrança vaga, indefinida
Dos seus feitos gentis, nobres, altivos.
Nas lutas vãs do tenebroso mundo
Os mortos são ainda o bem profundo
Que nos faz esquecer o horror dos vivos.
(Os Mortos – Cruz e Sousa)
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Diante daquele onipotente bloco de mármore, ajoelha-se sobre a grama, depositando aos seus pés um grande buquê de flores brancas, erguendo-se novamente e postando-se firme diante daquela pedra negra e fria.
Seus delicados dedos percorriam pelas letras auto-relevadas em ouro, que formavam os nomes daqueles que lhe foram mais queridos em vida. Os nomes dispostos em ordem alfabética, e ela os lia seguida de lembranças de momentos que compartilhou com cada um deles.
Harry Potter . . . Minerva McGonagall . . . Neville Longbotton . . . Remus Lupin . . . Ronald Weasley . . . . . Severus Snape.. seu nome sequer ali estava impresso, nem ali ela o encontraria... seria isso algo bom, um tênue fio de esperança? Ou seria o vago que lhe restara, o nada para lembrar de sua existência, uma existência que se evaporou como uma leve neblina que sequer era perceptível...?
Recostou a testa no frio do mármore, cerrando os olhos, deixando sua mente e seu espírito vagar junto à brisa que soprava insistentemente, que brincava com seus longos cabelos e seu vestido negro que lhe cobria todo o corpo.
Mas as suas costas parecia surgir uma brisa morna, aconchegante. Rastos leves roçavam a gramínea. Uma áurea que transbordava luz preenchia de calor aquele ambiente frio e triste, silencioso e vago. Uma voz macia e terna a chamar seu nome...
—Hermione...
A garota postou-se ereta e virou-se para voz. Um leve sorriso formou-se em seu rosto e ela precipitou-se até a pessoa que ali estava, também lhe sorrindo. Abraçou-lhe com fervor, como se abraça um pai ou irmão que há muito não se vê. E ambos permaneceram ali, um nos braços do outro, por eternos segundos.
E o vento corria cada vez mais voraz, farfalhando as copas das árvores, varrendo a relva ondulante, espalhando pétalas e folhas por todos os lugares. No horizonte onde surgiam montanhas azuladas, o sol enviava seus últimos raios dourados naquele fim de tarde de outono, derretendo em ouro densas nuvens que cobriam como um manto o topo dessas mesmas montanhas.
Como se dançasse em volta, a brisa brincava de ir e vir com as vestes e cabelos longos daqueles dois personagens que destoavam naquela paisagem melancólica entre lápides e flores.
Dumbledore beija a testa da menina, pousando-lhe as mãos sobre sua cabeça. Hermione sorri um sorriso triste, lágrimas davam um brilho adiamantado aos olhos cor de mel da moça.
—Que bom revê-la, criança...
—Eu digo o mesmo, Professor... e como vão as flores?
—Oh, belas, belas... germinando, crescendo, desabrochando para a vida. Se deixarmos que a Natureza faça seu trabalho sossegada, a vida é realmente bela e simples de compreender...
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—Eu sabia que o acaso me arranjaria um meio, uma vez que lhe dei todas as bases.. embora eu tenha esperado mais do que gostaria de ter feito.
Um homem esbelto de cabelos negros e curtos olhava atentamente para a placa sobre um consultório, com um sorriso maroto nos lábios. No andar de cima da loja, outra placa na janela indicava que a sala estava sendo alugada. Era tudo o que queria.
O bairro quase totalmente residencial era calmo e hospitaleiro. Havia pouco tráfego nas ruas e poucas lojas existiam naquele quarteirão, cuja maioria das construções era em estilo vitoriano. Algumas árvores bem podadas encarregavam-se de dar um pouco de cor e beleza às ruas. O dourado das folhas oxidadas formava um degrade que se repetia também no chão de pedras bem postas que formavam desenhos circulares nas calçadas.
Enquanto aquecia as mãos nos bolsos do sobretudo bege que trajava, o homem, ainda sorridente, continuava a apreciar aquele nome escrito em letras pequenas na placa que indicava que a loja abaixo tratava-se de um consultório dentário... "Dr Granger – Cirurgião Dentista".
Granger... o sobrenome que lhe trazia recordações, o sobrenome que aprendeu a apreciar, o sobrenome da única pessoa que amou profundamente em toda a sua vida.
—Se isso não for obra de Merlin, eu não sei mais o que poderia ser... mas essa loja será minha, nem que eu tenha que usar magia para persuadir o proprietário.
Anotando o número do telefone indicado na placa do aluguel num pequeno caderno com capa em couro, o homem, antes de se retirar, ainda dá uma última olhada para a placa do consultório dentário, e partindo logo em seguida, ainda com um sorriso em seu rosto.
Sentia que finalmente havia chegado a hora de recomeçar de fato sua vida... sentia que se aproximava o dia em que teria Hermione Granger finalmente para si. Era tudo novo, outros tempos, e não havia nada que pudesse impedir de ambos se aproximarem.
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O tempo estava nublado e frio. Uma chuvinha fina e insistente caia sem parar, mas isso parecia não tirar o ânimo daqueles trabalhadores que carregavam pesadas peças de móveis a serem montados para o segundo andar do pequeno prédio comercial.
Um homem alto e magro, de cabelos negros e curtos, observava de perto toda a movimentação, aparentemente satisfeito com a forma eficiente que os trabalhadores faziam o serviço. Afinal, ele não poderia exigir muito daquelas pobres criaturas infelizes que eram obrigadas a trabalhos braçais por não disporem de magia.
Quando os dois últimos homens subiam cautelosamente carregando algumas vidraças para o que viria a ser o balcão e as prateleiras, Severus Snape preparava-se para também subir e fiscalizar a montagem de seus móveis, quando um carro pára próximo ao caminhão de mudança apenas para deixar seu passageiro e segue novamente seu rumo.
O homem que havia saltado do carro, aparentando entre 45 e 50 anos, trajando roupas brancas debaixo de um casaco de lã marrom, observa com curiosidade o caminhão parado em frente ao seu consultório, vendo que a movimentação era na loja do segundo andar, logo acima da sua.
Snape ainda observava o homem, notando algumas familiaridades, como a forma curiosa de observar as coisas, o olhar aguçado que dava um ar inteligente e o sorriso otimista no rosto de quem já sabe dos fatos apenas por ver meras pistas.
Ele já tinha quase certeza de que se tratava do pai dela... no mínimo, algum parente próximo, mas com certeza com o mesmo sangue que o dela.
E aquilo lhe deu uma sensação de alegria que há muito tempo não sentia.
Dr Granger finalmente focalizou o homem esbelto e sisudo que parecia observar-lhe. Sem se intimidar, aproximou-se do estranho, com um sorriso cortês no rosto e a voz amigável.
—Bom dia! Então é o senhor que será o nosso novo vizinho?
—Oh, sim.. creio que sim.
—Bem, sou Hermes Granger, o cirurgião dentista daquele consultório ali... – dito isso, o Dr Granger aponta com o polegar para sua loja, estendendo a mão em cumprimento a Snape, logo em seguida. —É bom saber que o velho Robert Fish finalmente encontrou um inquilino que corresponde as suas exigências.. essa loja estava já há muito tempo para ser alugada.
—É, sim, Sr Fish, o proprietário, é um homem muito exigente sim, mas não foi tão difícil convencê-lo de que eu seria um bom inquilino... "não quando se é persuadido com um pouco de magia, aquele velho gagá!". A propósito, sou Severus Snape, boticário.
—Oh, um boticário? Isso é excelente! Muitos de meus pacientes me pedem que eu receite medicamentos homeopáticos aos alopáticos... é um ramo que tem se desenvolvido muito. Tenho certeza que terá muitos clientes. Há um clínico geral que só trabalha com homeopatia, há uns dois quarteirões daqui.. seria interessante conhecê-lo qualquer hora dessas.
"— Incrível, até a loquacidade é a mesma!" —É, eu realmente espero ter muitos clientes...
—E terá, meu caro, com certeza. Agora, se me der licença, preciso ir para o consultório antes que minha assistente tenha um chilique com meu atraso. Ela é terrível, mas muito eficiente! Qualquer coisa, estamos aqui. Seja bem vindo e boa sorte com a arrumação! – O Dr Granger já se adiantava para seu consultório, dando um tchauzinho para Snape por sobre o ombro, sem esperar pela resposta do novo vizinho.
Snape ficou observando o dentista até que ele desaparecesse porta adentro de seu consultório, quando girou em seus calcanhares rumo a pequena escadaria do prédio. Com um sorriso satisfeito no rosto, murmurou para si próprio...
—Certamente que Hermes Granger é o pai de Hermione... o começo está cada vez mais próximo... muito obrigado, Merlin.
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Fim do Quarto Ato – continua...
By Snake Eye's – 2004
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N/A: Robert Fish é o nome do personagem da série de animação canadense "Bob & Margaret", do qual usei como referência. Na série, Robert Fish – Bob – é um cirurgião dentista medíocre e quarentão.
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♥ Agradecendo aos reviews ♥
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Oi, Avoada! Faz tempo que não aparece... sua linha estancou? Brincadeirinha...
Parece muito interessante o livro que está lendo... se for um e-book, poderia me enviar???
Trágico e nada feliz? É muita bondade a sua comparar essa ficzinha com um livro, mas... bem, para você ver se nada vai dar certo mesmo nessa fic, não deixe de ler o cap 5, que é o último... aí você verá (XD fazendo inutilmente suspense)
Quanto a senhorita.. por acaso abandonou as suas fics???
Beijusss!!
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Oi, Shadow Maid! Mas suas fics - pelo menos a que li - deixam as pessoas nervosas sim! Deixa a gente tensa! Eu li com os punhos cerrados, os ombros tensos e acho que nem respirava... heheh, talvez eu esteja exagerando, mas é como eu me sentia.
Bem, quem eu não matei nessa fic? Dexovê: Hermione, Dumbledore, Sra Longbottom e.. e... Snape! Eeeh! O resto eu não sei porque não vi esse povo por aí.
É que tá todo mundo interessado em saber em qual time eu jogo, se eu sou homi ou mulé... então, democraticamente, cada um decide o que sou, aí pode ser na moedinha, ou no tarot, ou no pedra-papel-tesoura, no par-ou-ímpar... tá valendo tudo, não me ofendo.
É isssuu!
Beijus!!
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