Capitulo 4

A tormenta denunciou a presença de Isabella; e não foi uma tormenta tão grave, pelo menos nesse momento. Mas mal a nave começou a balançar-se sobre as ondas encrespadas, ela sentiu vontade incontrolável de vomitar. Bela marinheira que era ela! Tinha esquecido que tinha sucedido da última vez que navegou. A mínima agitação do mar, e já não podia reter o conteúdo de seu estômago.

Alguém a ouviu vomitar, e abriu a escotilha do porão. Depois de dar uma olhada, o marinheiro fechou a escotilha com um forte golpe. Isabella nem sequer soube quem era, e no momento não importava, pois o balanço do barco era cada vez mais intenso.

Até esse momento tinha tido sorte. Conseguiu deslizar-se em segredo à habitação de seus irmãos, por trás do estábulo, e tomar um conjunto de prendas de Eric, com o fim de usá-las na viagem; mas também levou algumas de suas próprias túnicas, para vesti-las quando chegassem aos mercados. Introduzir-se no porão do barco tinha sido a parte mais fácil, pois só tinha ficado um homem como guardião, e ainda que estivesse sentado próximo do porão, o via cabeceando e adormecido. Isabella, ágil e destra apesar de sua altura, tinha aproveitado a oportunidade. E em seu esconderijo tinha se sentido bastante cômoda, apesar da escuridão que ali reinava. O lugar estava ocupado por pilhas de suaves peles que permitiam ocultar-se e preparar uma cama agradável.

Assim tinham passado dois dias. Tinha confiado que disporia pelo menos de um dia a mais antes de revelar sua presença, pois o alimento que levava duraria esse tempo. Mas não sucedeu assim. A tormenta a tinha denunciado. E ainda que ninguém tivesse ido procurá-la, o fariam mais cedo ou mais tarde.

Isabella tinha a sensação de que o terceiro dia tinha passado antes que abrissem novamente a escotilha e a luz do dia entrasse. Preparou-se para lutar, pelo menos na medida em que seu corpo debilitado permitisse, o que não era muito. Ainda se sentia mal, apesar da tormenta ter se acalmado.

Jasper desceu ao porão. Isabella estava no lugar onde tinha caído depois do último vaivém da nave, praticamente aos pés de seu irmão. A luz feria os olhos, e não podia levantar a cabeça e olhar Jasper. A voz de seu irmão, áspera por causa da cólera, revelou quem era.

— Isabella, sabes o que fizeste?

— Sei – respondeu ela com voz débil.

— Não, não o sabes!

Ela protegeu os olhos num esforço para ver a expressão de seu irmão, mas não conseguiu ver nada.

— Jasper, por favor, ainda não posso suportar a luz.

Ele se pôs de joelhos ao lado de sua irmã, e segurou a grossa jaqueta de pele que ela se tinha posto sobre a túnica de couro, uma peça que conseguia dissimular-lhe os peitos. Com gesto sombrio os olhos de Jasper percorreram as perneiras bem asseguradas e as botas altas de suave pele. Isabella se tinha posto um largo cinto, a grande fivela enfeitada com esmeraldas.

— Onde conseguiste estas coisas? – perguntou, referindo-se às roupas.

— Não são tuas – assegurou Isabella — Tomei-as emprestadas de Eric, porque sua estatura é parecida à minha, e...

— Cala-te, Isabella! – rugiu Jasper — Sabes o que pareces?

— Um homem de tua tripulação? – aventurou-se dizer ela, tratando de suavizar a cólera de seu irmão.

Mas não teve efeito. Tinha os olhos tão cinzas como a tormenta que acabavam de enfrentar. Parecia que desejava golpeá-la, e que tinha que apelar a todas suas reservas para conter-se.

— Por que, Isabella? Nunca fizeste nada tão absurdo!

— Há várias razões. – já podia ver claramente seu irmão, que tinha se inclinado e estava do mesmo nível que ela, mas evitou o olhar do jovem quando acrescentou — uma razão foi à aventura. Essa foi só uma razão. Também tem o fato de que desejo casar-me, mas em nossa região não quero ninguém. Abrigava a esperança de conhecer muitos homens novos nos grandes mercados.

— Nosso pai te teria levado – afirmou ele friamente.

— Já sei. Nossa mãe me disse que poderia fazê-lo quando regressasses, ou pelo menos na primavera.

— Mas decidiste que não podias esperar. E isso é tudo! – estalou os dedos. – desafias...

— Espera, Jasper. Tinha outra razão. Teve alguém, não direi o nome, de maneira que não o perguntes, decidido a forçar-me ao casamento e decidido também a apoderar-se de mim.

— Jacob! – explodiu Jasper.

— Não disse nomes, Jasper. Mas não podia revelar a ninguém à atitude deste homem, porque se o fazia nunca poderia fazer nada por mim mesma. Meu pai se teria ocupado dele, mas não o teria matado, porque ainda não fez nenhum dano. E falar-lhe ou castigá-lo... Bem, não creio que isso o tivesse convencido. E teria perdido minha liberdade, de maneira que me pareceu que o mais conveniente era afastar-me um tempo, e se desse modo podia encontrar marido, tanto melhor.

— Odín nos ajude! – exclamou Jasper — não podia esperar-se melhor raciocínio de uma mulher.

— És injusto, Jasper! Disse que a soma de todas estas razões foi o que me decidiu – afirmou Isabella em atitude defensiva.

— É mais provável que o que te decidiu fosse só a excitação da aventura, pois há modos de tratar um homem como o que tu descreves, e o sabes bem.

— Meu pai não o teria matado só porque ele me ameaçou.

— Mas eu o teria feito.

Ela o olhou com os olhos semicerrados.

— O terias matado só porque me deseja? Estás disposto a matar a todos os homens que me desejem?

— A todos os que crêem que podem ter-te à margem de que digas sim ou não.

Ela lhe dirigiu um sorriso, consciente de que tinha falado como seu verdadeiro irmão.

— Nesse caso, não há problema. Tu serás toda a proteção que preciso nas cidades comerciais.

— Se fosses ali, mas não o farás – replicou ele —. Voltarás para casa.

— Oh, não, Jasper! Os homens não me perdoariam se perdesses tanto tempo nisto.

— Todos concordarão que deves voltar para casa!

— Mas, por quê? Em que os prejudica minha companhia? A única coisa que desejais é comerciar. – ante a expressão de fúria de Jasper, os olhos de Isabella se abriram porque de repente concebeu uma idéia, e a excitação a dominou. — é uma expedição viking!

Nesse momento apareceu Quil, primo de ambos, que se tinha assomado à abertura da escotilha.

— Disseste, Jasper? Thor! Foi uma tolice – exclamou o gigante loiro.

— Idiota! – Jasper se pôs de pé e olhou hostil ao homem mais jovem. — Tu sim disseste! Antes só suspeitava.

Quil desceu ao porão e olhou nos olhos de Jasper.

— E agora que farás? A devolverá a casa para que diga a teu pai?

Jasper elevou os olhos ao céu.

— Juro, Quil, que és um verdadeiro tesouro de informação. Como encantaria nossos inimigos apoderar-se de tua pessoa.

— Que disse?

Jasper não se dignou a responder isso, e olhou Isabella, que sorria.

— Não dirá a nosso pai a verdade? – perguntou com o tom mais esperançoso de que ela jamais tinha ouvido.

— Que te parece?

Ele gemeu ao ouvir essa resposta, mas descarregou sua cólera sobre Quil, e deu um murro que enviou o homem mais jovem sobre a pilha de peles. Complementou o golpe arrojando-se sobre Quil, que replicou no autêntico estilo viking.

Isabella permitiu que o combate prosseguisse por vários minutos antes de interrompê-lo num tom suficientemente alto, de maneira que a escutassem acima dos rosnados de dor.

— Se Crêem que me sentirei culpada, quando amanhã ver as caras de ambos golpeadas, vos desiludirei, pois não vos atribuirei mérito pelo esporte que estavam praticando.

Jasper se afastou de seu antagonista e rosnou a Isabella.

— Isabella, te jogaria ao mar, e depois diria a nossos pais que te afogaste, em lugar de ter que confessar que te levei a uma expedição viking. Creio que prefeririam saber que te afogaste.

Ela avançou de joelhos até Jasper, e deu um beijo na bochecha que já começava a inchar-se. Depois se pôs de cócoras e sorriu.

— Reconhece tua derrota, irmão, e diga aonde vamos.

— Isso é algo que não precisas saber de maneira que não voltes a perguntar. Permanecerás no barco e fora da vista de todos.

— Jasper! – mas Jasper ignorou o rogo e saiu do porão. Isabella se voltou para Quil, que começava a levantar

— Tu me dirás?

— E que me repreenda o resto da viagem? Tem coração, Isabella.

— Oh, que injustos! – exclamou Isabella às costas de Quil que já começava a subir à coberta.