Disclaimers:

1º) "Kingdom Hearts", bem como seus personagens, pertence a Square Enix, Walt Disney Co. e seus respectivos licenciados. Esta obra não visa nenhuma espécie de lucro (e não ia mesmo me pagarem nada se eu visasse ¬¬). Bem, mas eu viso o Riku, se o espaço me permitir. Estou planejando roubá-lo um dia... ;D

2º) "Le Portrait de Petite Cossette" é um mangá (e, mais tarde, OVA) que pertence a Asuka Katsura, Kodansha, Daume Studios e seus licenciados. A música-tema da fanfic, "Houseki" ("Jóia"), também pertence a este OVA, e é de composição de Yuki Kajiura (e cantada por Marina Inoue).


HOUSEKI
Petit Ange

Capítulo 3: Seu Medo.

Chiisana hikari wa kitto kurayami no fukaku ni shizunde iru kara
(Um pequeno raio de luz flutua dentro da mais profunda das trevas)
Tooku madoromu houseki no yume
(O sonho distante de uma jóia adormecida)
Yoru no soko ni futari de sagashiteru
(Faz com que nos procuremos na noite)

Ele devia estar feliz. Conseguiu fazer um bom negócio naquele dia com um senhor de aparência séria que se apresentou como um colecionador e que se interessou pela porcelana Francesa (ironicamente, bem onde achara o anel). Devia estar ainda mais feliz, também, por ter descoberto o paradeiro de um vaso da coleção, sem maiores esforços, apesar de saber que, se desejasse mesmo saber, seus contatos com outros antiquários e derivados certamente saberiam responder também.

Mas, a verdade é que não estava nem um pouco satisfeito. Deixou passar batido o óbvio, e isso o desgostava. Sempre foi muito orgulhoso de sua inteligência e sua oratória. Podia não ser como a de Zexion, mas sem dúvidas, também era boa. Mas deixara o detalhe infame de esquecer-se totalmente do vaso.

Conseguira engolir sua descrença e pedir para que o outro conseguisse falar com os pais e pedir o vaso emprestado. E seguiu-se uma discussão de que desculpa usar, até que a de simplesmente dizer que queria analisar o tal vaso, como um apreciador da arte da falecida artista, pareceu a mais interessante, sob certos aspectos. Depois, era só deixar com o rapaz de cabelos azuis, e ele saberia o que fazer para tornar a história ainda mais verossímil, até mesmo confiável em excesso, se precisasse.

Sabia que não era um mistério tão imenso assim. Era apenas achar a coleção "Heartless" e exorcizar, literalmente, aquele fantasma (bem, quem sabe sofreria um pouco mais, como a primeira vez). E, então, liberdade.

- O que é isso?

Axel desviou o olhar para o menino. Ele apontava para as máquinas de picolés que ficavam na rua.

Outra coisa que o deixava bastante desgostoso era ele. Roxas. Ninguém além dele podia vê-lo. Teve sua prova definitiva naquela mesma manhã, quando Zexion sequer percebeu sua presença (ao menos, o anel não era fantasma. Se é que isso podia ser um consolo... Quem sabe, no máximo, uma ironia). E era mesmo um fantasma vingativo atrás de sua pele. Só esse fato já era o suficiente para deixar o ruivo com o pé atrás. Mas o problema é que ele era uma criança tão estranha que acabava subestimando-o.

Talvez porque fosse um fantasma (precisava dizer várias vezes, nem que fosse mentalmente, essa palavra, para se convencer de que estava andando na companhia de um). Ou porque realmente fosse um pobre inocente. E isso o fazia pensar quantos anos tinha ele quando morreu, se era mesmo uma criança como aparentava, e há quanto tempo vagava buscando o tal "Lea".

- Isso é se chama 'picolé'. – ele respondeu, baixinho. Para os outros, era como se estivesse falando sozinho, por isso, precisava tomar cuidado.

- E por que é gelado como sorvete?

- ...Tá brincando ou falando sério? – ergueu a sobrancelha.

Roxas revirou os olhos. – Não é brincadeira.

- Bem... – era a primeira vez que alguém lhe fazia uma pergunta de tamanha obviedade. Pigarreou, antes de responder. – Porque... Porque acho que é uma espécie de sorvete, esses 'picolés'.

Se ele conhecia Nama Hikari e dizia que era sua mãe (se é que falava a verdade a respeito disso, apesar de não acreditar que um objeto, se tivesse mesmo alma, iria simplesmente tomar as dores de uma criança defunta assim, sem mais nem menos), então era porquê nascera nesta época. Não podia considerá-lo uma pobre criança vítima do período Edo ou ataque terrorista na Segunda Guerra Mundial.

Mas será que nunca vira mesmo um picolé em toda sua vida? Era um item tão comum quanto roupas.

Claro que não podia confiar muito em alguém que sequer lembrava do próprio nome ou de como morreu, por isso, talvez ele apenas não lembrasse que já comeu um.

- Ah. E é bom?

- Eu gostava. – Axel confessou, dando de ombros. – Mas agora, faz muito tempo que não como um.

- É muito caro?

Assim, daquele jeito, mais uma vez o ruivo foi enganado pela percepção de que aquele menino de cabelos loiros mais parecia uma criança normal.

Tal ilusão o fez aproximar-se, contendo um sorrisinho. – Quer um, Roxas?

Para um fantasma que ficava facilmente agressivo e tinha reações muito extremas, a ponto de ser até um tanto egocêntrico, ele ficara bastante humilde naquele instante.

- ...Eu posso?

- Compro um pra você. Quer de que sabor? – e, antes que ele perguntasse, mesmo sendo algo tão óbvio, depois que soube que lidava com alguém que não conhecia picolés, achou melhor já falar: – São todos doces como sorvete, entendeu? Escolha um.

Ele achou que o garoto ia reagir com aquela voz de ofensa, dizendo coisas como "eu já sabia disso!", mas ele parecia tão concentrado escolhendo um sabor que sequer ouviu-o, aparentemente.

- Vou querer esse. De limão.

Erguendo a sobrancelha de novo, o rapaz pôs as mãos nos bolsos do casaco preto que estava usando. – Gosta de limão?

- Não. Mas é um picolé branco. – ele sorriu de leve. – Gosto de branco.

"E isso lá é motivo para se comprar um?", pensava Axel. Mesmo que, no fim, apesar de saber que estava fresco e a chuva ameaçava desabar a qualquer momento, acabou comprando dois daqueles.

A primeira coisa que quis ver era se alguém enxergava um picolé flutuante ao lado dele. Respirou aliviado ao ver que ninguém o encarava como se fosse um louco, uma aberração ou um fantasma também. Não sabia que tipo de lei da Física ou da Biologia fazia aquele picolé de limão simplesmente sumir (e até pensou que devia usar esse fato para que Roxas, da próxima, simplesmente roubasse um, não o fizesse gastar dinheiro) no ar e nem ser mais notado, mesmo que o ruivo o visse claramente ser devorado por um menino muito satisfeito com a 'refeição'.

Se, afinal de contas, estava com companhia, decidiu arriscar, conversando baixinho com o garoto.

Conseguiu fazer alguma evolução, aparentemente, pois conseguira convencer o pequeno, de vez, que seu nome era "Axel" e que não havia necessidade nenhuma de chamá-lo de "Lea". E obrigou-o a repetir aquele nome em todo final de frase, até que se acostumasse a falar assim, naturalmente.

Percebera também, durante todo o tempo, que ele escondia alguma coisa. Não ousou perguntar, mas ele, naturalmente melancólico em suas ações (mesmo que um pouco infantil), parecia duas vezes mais estranho. Bem, talvez sempre fora daquele jeito. Mas, mesmo assim, era estranho.

Não que Axel convivera com muitas crianças na sua vida. Não era uma pessoa muito sociável, isso desde pequeno. Porém, não imaginava que alguém pudesse ser assim, tão taciturno (à exceção de Zexion, mas esse tinha seus motivos).

E, então, lembrava-se de que estava lidando, mesmo que fosse uma loucura, com um 'fantasma'. Um verdadeiro fantasma. Era fácil esquecer desse detalhe. Ele era tão parecido com um adolescente normal.

Depois de um certo tempo, quando ele já havia ouvido de tudo um pouco de Roxas (e cada vez mais o achava uma criaturinha estranha), percebeu que a noite já havia caído e tingido a cidade de luzes douradas e escarlates que encobriam as trevas de um azul profundo, placas em néon nas lojas e estabelecimentos e o som da vida que, enfim, podia ser livre para agir como quiser nas ruas geladas.

Seu bairro era bem tranqüilo, ao menos, onde ele morava. Mas, pela noite, parecia que tudo mudava. Assalariados, estudantes e todo o tipo de figura bizarra encontravam-se ali. Como havia muitos bares e departamentos, acabava sendo um local conhecido por proporcionar horas de lazer variado.

- Escuta, você tá com fome, Roxas? – perguntou, encarando o letreiro de um restaurante tradicional.

O menino sacudiu negativamente a cabeça.

- Já está tarde? – emendou.

"O tempo passa quando nos divertimos", o ruivo quis dizer.

- Sim. Eu estou faminto... – ao invés disso, confessou aquilo. Não com menos tom de familiaridade, porém.

- Mas você não trouxe muito dinheiro consigo, Axel. – replicou.

Droga, era verdade.

~*~*~

- Boa noite! Seja bem vindo ao Savage Nymph, amo!

Axel conferia o dinheiro em sua carteira. Poderia comer decentemente, ao menos, mais ou menos como fazia sempre que vinha ali.

- ...Oi, Larxene.

Enquanto a loira os conduzia até a mesa onde ele sentava geralmente, o rapaz dos olhos esmeraldinos observava, com uma diversão velada, o pânico de Roxas ao encarar aquele ambiente retrô, decorado como uma casa britânica antiga. Mesmo que tivesse, talvez, quinze ou dezesseis anos, se sequer conhecia um picolé, não devia mesmo conhecer um lugar como aquele (imaginava. Mas o fato dele estar sem muitas memórias também podia enganá-lo, simplesmente).

Sentiu-se um pouco culpado por levá-lo àquele lugar e estragar sua inocência mórbida infantil, mas sua fome falou mais alto e não queria comer mais sushi do mercado. Ultimamente, andava vindo muito àquele maid café. Isso iria deixar a maluca que sempre o atendia mal-acostumada. E, mais do que isso, deixaria sua carteira em uma condição não tão bonita assim.

Roxas, o tempo inteiro desde que sentaram, ficava encarando as pessoas que ali estavam, homens que ainda tinham o terno do serviço do escritório, com os rostos levemente vermelhos pela bebida. Alguns outros eram estudantes, mais jovens e mais afobados. E o tempo todo, sua sobrancelha permaneceu erguida, como se absorver aquele antro de mulheres vestidas de forma provocante e homens que aprovavam e até se aproveitavam dentro dos limites da lei daqueles serviços fosse, para dizer o mínimo, a experiência mais traumatizante que vivenciara desde sua própria morte.

- Tudo bem aí? – sussurrou, tomando cuidado para não ser ouvido por mais ninguém.

- Esse lugar... O que é isso? – Roxas perguntou, encolhido em sua cadeira.

- Se chama "maid café". É um lugar bem fetichista, como pode notar, mas tem uma boa comida e é mais barato que os restaurantes da região. Eu e o Zexion comemos aqui de vez em quando.

- "Zexion" é aquele seu amigo de cabelo azul, não?

- Esse mesmo.

- Ah. – e voltou a encarar o ambiente, intrigado.

(Não o culpava. Era muito difícil imaginar que alguém tão 'comportado' quanto o outro rapaz fosse, na verdade, um pervertido que ficava rindo o tempo inteiro, com um comportamento quase tão infantil quanto o da própria Larxene).

Por falar no diabo, a mesma sentara-se ao seu lado. Só isso foi o suficiente para que ele suspirasse pesadamente.

- E então? – sorriu, radiante.

- ...Como?

- Quando vai aceitar sair comigo?

Roxas desviou os olhos, chocado, para a cena à sua frente. Ao ver o choque do outro, Axel corou, nunca soube se muito ou pouco, sem controle sobre si próprio.

- Além de ser assédio, você está proibida de sair com um cliente.

Ela riu. – Mas sempre se pode abrir uma exceção.

- ...E perder o emprego.

Larxene fez um beicinho, cruzando as pernas. Serviu-o de mais bebida, provocante como era de se esperar de uma maid. Depois daquilo, voltou a se se encostar a seu ombro.

- Você é tão difícil! – sorriu. – Isso me deixa...

- Por favor, nem termine essa frase...

Dando uma rápida olhada em Roxas, Axel percebeu que o loiro estava encolhido em seu lugar, fuzilando-os com os olhos. Era incrível como aquele fantasma tinha um humor tão volúvel e, o pior, ficava assim sem praticamente nenhum motivo! Quem devia estar irritado era ele, pensava o mesmo.

- Tudo bem, vamos falar de coisas mais agradáveis: onde está o Zexion, hoje?

- ...E desde quando isso é agradável? – acabou rindo, sem evitar a piada.

- Você me entendeu, né! – ela também riu ao entendê-la. – Ele está na faculdade a essa hora, ainda?

- É sim. Volta bem tarde, na verdade. – e enfiou outra garfada na boca.

- Como será que ele consegue acordar tão cedo, se tem que fazer tanta coisa depois que chega em casa?... – pensativa, Larxene aproveitou e agarrou-se ainda mais ao ruivo.

Axel suspirou, tão logo engoliu a porção.

- É o que me pergunto desde que ele começou a estudar e consegue, mesmo tendo curso de tarde e de noite, vir me encher a paciência pela manhã quase sempre.

A loira riu ainda mais, mas contendo-se para não chamar a atenção de outras colegas ou do gerente (apesar dele compreender, mais ou menos, a situação).

- Gosto quando ele aparece, mas...

E inclinando-se, acariciou o rosto do ruivo.

- ...Gosto ainda mais quando você está assim, sozinho.

Axel estremeceu. Sentiu a canela doer como se houvesse sido chutado.

- Algum problema, querido? Machucou-se? Quer um beijinho para sarar? – Larxene perguntou, percebendo o movimento brusco.

- Só quero que tire as mãos de mim... – suspirou.

"E quero a cabeça desse moleque na minha loja, de troféu!", bradou, encarando-o firmemente. E percebeu a raiva incontida nos olhos do outro também.

~*~*~

"Onze e quinze, droga...", pensou, encarando o relógio.

O tempo era mesmo uma coisinha muito cruel. E ele achando que nem havia ficado muito tempo no maid café.

Lembrando-se do mesmo, Larxene, como sempre, flertou com ele até o último segundo. E, em seguida, despediu-se com aqueles seus gestos infantis de sempre. A canela doeu todo o trajeto até sua casa, adicionando mais uma dor àquelas que já sentia no corpo desde o encontro com o primeiro objeto da coleção de Nama Hikari. Nem mesmo um banho quente estava resolvendo.

Roxas também não estava ajudando em nada. Sentou-se na cama e ficou ali, de braços cruzados e um beicinho de insatisfação. Fazendo birra como uma criança mimada. Axel suspirou e deixou-o fazer como queria; tinha mais com o quê se preocupar, como, por exemplo, se não ia perder um membro da próxima vez, contas a pagar, até mesmo se Zexion conseguiu falar com sua família. Enfim, outras coisas.

Quando, depois do banho, percebeu que o menino continuava ali do mesmo jeito, a pele pálida reluzindo na luz prateada da lua, viu que ele realmente estava contrariado.

Parecia cada vez mais com um garoto normal. E isso, ao contrário do que achava no início, quando se conheceram, não lhe dava mais um certo medo. Apenas era... "Normal" como sua aparência.

- Você tá na minha cama. – ele disse.

- Não me diga! – rebateu o loiro.

Seria uma competição de "quem diz a coisa mais óbvia", agora? – Eu quero dormir...

- Pois durma! – continuou nem dando o braço a torcer.

- ...Não posso, com você bem aí em cima de tudo. – estava começando a perder a paciência com Roxas.

Mas ele parecia tão estranhamente engraçado daquele jeito que até estava dando corda para ver até onde podiam ir.

- Amanhã, vamos cedo procurar o próximo objeto da coleção. – ele respondeu, desviando do assunto.

- Tenha paciência, Roxas. Zexion disse que ele irá conseguir o vaso.

- Podemos procurar o quadro, enquanto isso.

- ...Você está começando a me irritar.

- Pois você também está me irritando muito! – e a voz dele subiu algumas oitavas naquele descarrego de palavras. – Não é "Lea", mas me trata com o mesmo desinteresse! E ficou se agarrando com aquela...

Os olhos azuis desviaram-se, subitamente envergonhados. O garoto encolheu-se ainda mais em seu próprio corpo.

Sem acreditar no que estava ouvindo, o ruivo precisou sentar-se na borda da cama, com um sorriso igualmente descrente no rosto.

- ...Você não está com ciúmes, está?

O silêncio foi a única resposta que recebeu. Roxas sequer se mexera.

- A Larxene é só uma velha conhecida. – ele explicou-se. Achou que suas atitudes falariam por ele porque, apesar de tratá-la relativamente bem, era indiferente aos avanços da mesma. – Além disso, já pedi pra parar de me comparar ao tal "Lea". Apesar de tudo, acho que até me importo bastante com você. Veio aqui do nada e, logo no começo, já me atacou. Estou dolorido até agora, sabia? – disse, massageando o pescoço tenso. – E, mesmo assim, não te expulsei, machuquei e nem nada. Compreendi sua situação e até aceitei, mesmo que, literalmente, me doa muito, em ajudá-lo a recuperar o resto de suas memórias e a alcançar o descanso eterno.

O silêncio permanecia como único contato.

- ...Roxas, você está sendo irracional. – ele suspirou.

- A solidão. – ele sussurrou, hesitante.

- Hum?

O adolescente parecia estar travando uma verdadeira batalha consigo mesmo. Axel o entendia, de certa forma.

Ele era bastante orgulhoso. Arrogante, temperamental e muito orgulhoso. Não devia ser fácil, para começar, depender de alguém que, supostamente, "o matou". E as coisas só pioravam a partir disso.

- Quero você só para mim, Axel. – ele confessou.

O ruivo engoliu em seco.

- ...Se você ficar se distraindo com outras coisas, vai esquecer de mim. – ele emendou, imediatamente. O outro percebeu um leve rubor nas faces angelicais.

- É claro que eu não vou esquecer de você. – ele sussurrou, com um meio sorriso, não soube se de diversão ou por ter simplesmente compreendido e até se sentido tocado por aquela reação tão... "Humana". – Até porque, Roxas, você é tão chato (no bom sentido, acho) que nunca sai do meu pé. Por exemplo, eu estou dormindo e, de repente, você aparece... Quem o esqueceria?

Ele não soube se aquilo convencera o pequeno fantasma. Mas, quando o menino moveu-se, soube que, afinal, 'vencera' a guerra.

Roxas encarou-o. E tinha nos olhos um ar frágil que Axel, até então, não vira. Ele estava sempre tão melancólico e sério, desejando apenas a vingança e sequer confessando-lhe muito mais do que a identidade da mãe. Foi difícil perceber que aquele menino tão humano, mais humano do que nunca, também era aquele que o encarava seriamente, quase como se desejasse lacerá-lo até a morte.

- Não quero ficar assim... – confessou, num tom tão baixo que o rapaz esforçou-se para entender. – Sozinho e sem memórias pra sempre.

Axel aproximou-se mais do pequenino, tocando-lhe no ombro.

- Lembra-se que você me disse, quando me encontrou, "eu estava esperando"?

Um lampejo de compreensão e, logo em seguida, uma enorme hesitação passou pelos olhos cianos, mas nada foi dito. Roxas apenas assentiu.

- Pois então. Você já encontrou. – permitiu-se sorrir calmamente. – E, agora que estamos juntos nessa, para o bem ou para o mal, você também não vai se ver livre de mim. Vamos terminar direito essa estória, para que você possa descansar, como deseja. Em paz e com muitas memórias.

E então, num impulso que foi somente seu, o garoto aproximou-se mais do corpo do outro, não recusando a mão que circundava seus ombros.

Aquela foi sua primeira "memória" de um abraço. E foi muito mais do que esperou.

Não soube por quanto tempo ficou encolhido, saboreando secretamente, com um contentamento quase que indecente aquele toque. Desde que encarara aqueles orbes verdes, teve a verdadeira impressão, como se marcassem a ferro e fogo em seu corpo, que odiaria aquela 'reencarnação' de seu assassino.

Ao contrário, tão logo passou a parar de vê-lo apenas como "Lea", a personificação de seu ódio, só aquilo que queria enxergar, e viu um pedaço de "Axel" lá dentro... Foi como um oásis. Um remédio para seu coração.

Soube que estava perdido. Roxas já não tinha mais forças para nadar contra a maré.

(E, ironicamente, com uma expressão sombria, lembrou-se que, tanto não tinha forças para tal, que morreu afogado).

- Sabe, Axel... Você é estranho. – comentou. – Aceitou tão rápido tudo isso. Achei que iria ter mais trabalho quando encontrasse "Lea". Achei até mesmo que teria de forçá-lo a me aceitar e a acalmar os objetos amaldiçoados.

Ele sorriu, aqueles braços quentes estremecendo delicadamente no abraço cúmplice.

- E, mesmo se eu fosse contra, você ia parar de me incomodar? – ergueu a sobrancelha, desviando o olhar para o menino.

Roxas também deixou escapar um sorriso. – Não.

- Apenas "siga o fluxo", Roxas. Não há ditado mais inteligente que esse, entendeu?