Capitulo 3: Voltando a ser criança

As recordações da infância são as que nos aprisionam no tempo tem gosto gostoso
e faz da saudade uma amiga.

O pano foi para cima e depois para baixo, impulsionado pela mão. A superfície dourada de um troféu voltou a brilhar e o movimento continuou, para cima e depois para baixo, com certa preguiça.

-Sério, de onde eles tiraram tantos troféus? – Mellani perguntou meio irritada.

-Shiu. Fica quieta diabinha. Ou separo os dois. – Filch resmungou. Sirius revirou os olhos e andou até Mellani, pegando o troféu da prateleira mais alta.

-Não vejo sentido nesse castigo. – sussurrou para Sirius – Como lustrar troféus de gente morta vai nos fazer não jogar mais terra na cara do Snape? – o Black sorriu de lábios fechados:

-É uma medida disciplinar. Dão algo que odiamos fazer para não fazermos de novo. – Mellani sorriu travessa e meneou a cabeça negativamente.

-Silêncio vocês dois. – Argus Filch reclamou de novo.

-Quer ver algo? – pegou a varinha do bolso – Muffiato.

-O que fez?

-NADA! – gritou e Mellani arregalou os olhos. O zelador continuou lendo sua revista – ELE NÃO NOS OUVE!

-Sério? Onde aprendeu esse feitiço?

-Ser um Black tem suas vantagens.

-Mas foi muito bem feito. – ela parecia escandalizada.

-Eu... Acho que tenho facilidade.

-Isso foi anormal. – murmurou com um sorriso de canto. Ele piscou e ela corou – Talvez Snape não tenha merecido aquela terra na cara.

-Ele é um fracassado.

-Deveríamos perder tempo com um fracassado? A vida dele já não horrível o bastante sem a gente? – Sirius piscou, impressionado.

-Lily te disse isso?

-Sim. – deu de ombros – Eu não sei como ela consegue gostar de mim. Eu apronto muito com o amigo dela.

-Mas não apronta com ela. – Mellani mordeu o canto do lábio.

-É tão legal ter uma amiga menina.

-Foi por isso que me odiou no trem?

-Não te odiei. Fiquei brava. Você é legal. Se eu perder minha única amiga menina eu vou... – suspirou.

-Vai ficar muito triste?

-Vou me sentir mal. Sabe, a Lily... – sorriu – Ela quer me conhecer, pelo o que eu sou. Mesmo eu sendo difícil.

-Você não é difícil.

-Mas... Nós somos parecidos. Por isso não me acha tão ruim. – Sirius sentiu algo forte em seu peito. Não conseguiu conter o estranhamento. As lembranças da pequena Mellani eram sempre com brigas, gritos e feitiços. Ele não conseguia associar aquela menina à encrenqueira que provocava no primeiro ano:

-Eu estou feliz por te conhecer antes. – murmurou impulsivamente – Não deve se sentir um lixo por ser você mesma. Se Lily for sua amiga ela vai saber contornar isso. – A loira sorriu de lábios fechados – E o que uma menina pode fazer que eu não posso?

-Pintar minhas unhas, arrumar meus cabelos...

-Bem, olha minha habilidade em feitiços. Acha que não tenho coordenação para essas coisas? É só me ensinar.

-Eu não sei. – confessou com deboche.

-Eu vou aprender.

-Sei.

-Vai, posso ser sua amiguinha se quiser.

-E vai falar de garotos comigo?

-O que? Eu sei tudo sobre garotos. Eu sou um. – eles riram – E sei sobre o James e o Remus e os mais velhos. Quer saber como somos tão espertos?

-Não. – ela murmurou vermelha. Os troféus estavam esquecidos no canto – É só... Um dia eu vou me apaixonar por alguém não é? E aí... Vou precisar de uma menina pra falar sobre isso porque...

-Você vai poder falar isso pra mim sem problemas. Até porque você não vai precisar se apaixonar por outra pessoa além de mim. – Mellani corou. De um jeito que fez Sirius sorrir.

-Não posso me apaixonar por você. É minha amiga. Esqueceu? – os dois começaram a rir.

-Em alguns anos eu serei irresistível. E aí você vai se arrepender dessa declaração. – ela deu de ombros.

-Vou pagar pra ver.

_/_

Sirius ajeitou-se melhor na poltrona do salão comunal. Virou novamente a página do livro, em busca de respostas para o fenômeno que lhe acometeu. Saber como um vira-tempo foi criado poderia ser alguma pista. James e Peter estavam jogados no tapete, quase aos pés de Sirius, brincando com um jogo de cartas.

-Olá meninos. – Judith sentou no sofá entre Josh e os outros garotos mais velhos. James e Peter quase entraram num buraco ao ver a morena e o Potter sorriu embasbacado. Sirius baixou o livro e sorriu para a mais velha.

-E sua priminha? – perguntou a Monitora.

-Está lá fora com a Evans. – resmungou meio a contra gosto.

-Então ela está aproveitando a tarde de sábado. Por que estão aqui dentro?

-Sirius está lendo. – Peter pareceu entediado com aquilo. Sirius olhou para o menino com raiva. Ele ainda sentia um engasgo ao encarar aquele projeto de gente. Toda a miséria de sua vida foi culpa do outro. Se imaginou tirando a varinha e lançando um feitiço da morte no garoto, mas voltou a si quando James o chamou meio irritado. Ele deveria separar aquele menino do futuro comensal. Teria de agir no momento certo, para mostrar a James quem o gordo era.

-Em?

-O que?

-Vamos lá fora.

-Quero terminar esse livro.

-Você e Remus parecem dois CDF's. – o Potter emburrou, mas pareceu ter uma ideia melhor do que fazer birra – A Mel está por lá. – Sirius parou de dar atenção ao livro e sorriu. Não seria má ideia conversar um pouco com sua garota.

-Vamos!

-Meu Merlim, a pequena Mellani tem o menino nas mãos. – Judith comentou. Sirius largou as coisas na poltrona e saiu puxando James pelo pulso. O Potter começou a rir. Ganharam o corredor em pouco tempo.

-Será que a mãe do Aluado está melhor? – James se preocupou. Sirius suspirou. Ele sabia muito bem que Remus não tinha mãe e queria ajudar o amigo naquela lua cheia. Ainda não tinha encontrado um jeito de fugir durante a noite sem que Peter e James percebessem. Precisaria revelar logo o segredo do amigo, deixando Peter de fora.

-Acho que não. Ele ainda não voltou.

-Tem razão. – murmurou James – Mas o que será que ela tem?

-Não sei, ele não explicou muito bem.

-Ele pareceu muito nervoso. Deve ser algo grave. – Peter comentou enquanto tirava uma barra de chocolate do bolso.

-Você está sempre comendo ô chupeta vulcão? – Sirius não fazia questão de disfarçar o desagrado para com o outro. Peter se encolheu.

-Pega leve, cara. – James chamou atenção e Sirius bufou, saindo andando na frente. Os dois logo o alcançaram. Ao chegarem ao jardim viram Mellani e Lílian empilhando muitas folhas secas num canto:

-Hey Evans, virou elfo agora?

-Certamente Potter. E aparentemente seu cabelo precisa de uma arrumadinha. – debochou de um jeito mais descontraído do que Sirius lembrava. James corou e Sirius revirou os olhos. O Black correu até Mellani e a agarrou com força. Ela soltou um gritinho risonho:

-O que estão fazendo?

-Brincando. – Mellani respondeu empolgada – Vamos fazer um feitiço amortecedor e pular.

-E se der errado? – Peter se aproximou meio inseguro. Lílian sorriu.

-Eu estou fazendo, não vai dar errado. – Mellani respondeu arrogante. Sirius sorriu largamente.

-Dá pra largar minha prima? – James debochou dando soquinhos amigáveis em Sirius. O Black se afastou e levantou as duas mãos:

-Inocente! Mas, podemos brincar também?

-Se esse aí se comportar. – Lílian apontou a varinha para James. Ele resmungou, imitando-a com uma voz fininha e ela revirou os olhos.

-Eu sou o primeiro. - James falou.

-A fazer o que?

-Testar. Não quero que se machuquem. – e piscou para Mellani que começou a rir.

-Sobe na árvore. – Lílian mandou com arrogância. Estava duvidando dele. O rapaz subiu no galho mais alto, bateu no peito e urrou. Olhou para Lílian com um sorriso bem humorado, ela estava segurando o riso e o menino ficou obviamente satisfeito. Jogou-se, o vento batendo no rosto e era visível que adorou a sensação, mas quando o chão foi chegando perto o medo o dominou. Arregalou os olhos e gritou, esperando o impacto. Folhas fofas o receberam, como um colchão, todas enfeitiçadas. Ele respirou aliviado e sentou com o cabelo cheio delas:

-Potter gritou feito uma menininha. – Lílian debochou morrendo de rir. Sirius gargalhava, porque ela tinha razão. Ele gritou desesperadamente fino.

-Minha vez! – a ruiva saiu correndo empolgada e com um pouco de dificuldade subiu na árvore. Jogou-se e enquanto caia gritava, um sorriso inocente e feliz estampado no rosto. Sirius suspirou, uma emoção nostálgica tomando conta de seu corpo. Lily afundou no meio das folhas fofas e levantou empolgada:

-Vocês viram isso? Viram só? – levantou a cabeça sacudindo-a e James a olhou divertido:

-O meu foi melhor.

-Você gritou, feito uma garota!

-Ser garota é uma ofensa? Acho que sim. – mediu-a de cima abaixo – Posso ver.

-Como consegue ser amiga desse garoto? – a pequena ruiva olhou para Mellani. Sirius encolheu os lábios para dentro, falhando em não rir e deixando a garota mais aborrecida.

-Minha vez. – Mellani ignorou os resmungos de Lílian e subiu rapidamente, feito uma macaquinha:

-Uou. - Sirius murmurou.

-Eu vou fazer melhor que os dois! – a loira gritou do alto do galho e abriu os braços. Ao pular ela girou no ar, mas sua manobra a fez sair da mira do monte de folha. A garota percebeu seu erro na hora e a expressão de pânico a dominou.

-Mellani! – James gritou correndo em direção à prima, mas Sirius foi mais rápido. Com o coração na boca ele sacou a varinha e lançou um levicorpos, fazendo-a parar no meio do caminho. Lílian franziu o cenho e olhou para Sirius com espanto. James parou sua corrida e Mellani o encarava de olhos arregalados. Ele andou preocupado até a loira e com habilidades não verbais a girou no ar e a pousou no chão. Segurou-a pelos ombros e com preocupação a olhou atentamente:

-Você quer me matar o coração? Presta atenção no que faz.

-Eu não perce...

-Chega, essa brincadeira acabou. – a menina se desviou dele enfezada:

-Você não é meu tio pra falar assim. – bufou – E enquanto não disser exatamente onde aprendeu esses feitiços pode manter sua opinião pra si.

-Já disse. A minha mãe me ensinou...

-É mentira! – Mellani acusou irritada, ainda estava tremula e com as bochechas rosadas de adrenalina – Eu ouvi a professora McGongall dizer que você é super dotado. O que é isso? Por que está escondendo? – Sirius teria uma piada na ponta da língua uns anos mais tarde, mas ficou calado:

-Super dotado é alguém com inteligência acima da média. – Lílian se intrometeu indo para perto deles. James seguiu a ruiva – Ele tem um cérebro que usa mais do que a capacidade que normalmente usamos. – Mellani ainda a olhava confusa – A gente só usa 10% da nossa capacidade cerebral. O dele por algum motivo usa mais e isso o faz tão habilidoso.

-Por que nunca nos disse isso? – James perguntou curioso.

-Eu não sabia. A minha mãe nunca ensinou nada. Eu li nos livros e consegui fazer. Não queria parecer arrogante. – Mellani se aproximou inocentemente interessada. Sirius nunca tinha visto a Mel de 11 anos tão perto então ele estranhou as sardas do nariz, que não existiriam mais tarde. Ele a olhou nos olhos, estranhando a ausência de malícia. Mellani sempre estava armada com mil barreiras para ele, aquilo era tão diferente. Sem se dar conta abriu levemente a boca:

-Você pode me ajudar?

-Com o que quiser.

-Pode me dar treinos? Para ficar boa igual você?

-Sim. – respondeu e em seguida sentiu alguém puxá-lo pela gola da camisa – Ai, ai!

-Muito perto da minha prima! – James resmungou ciumento e Lílian riu – O que foi, Evans?

-Nada. – deu de ombros e saiu arrastando Mellani pelo braço. James encarou Sirius com desconfiança:

-Mãos assanhadinhas, pode parar. – Sirius revirou os olhos e passou o braço pelo ombro do amigo:

-Vamos testar uma brincadeira no Ranhoso? – o sorriso de James aumentou. Sirius não tinha intenção alguma de beijar Mellani. Não naquele momento. Ela era só uma menina de 11 anos, nada atraente para os seus 35, por mais que fosse a pessoa que mais queria, no momento sentia apenas carinho.

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-Esse aqui é de pimenta. – os meninos estavam sentados no chão do dormitório, fazendo o desafio dos feijõezinhos de todos os sabores. Peter tinha acabado de correr para o banheiro por ter comido um de vômito. – Vai lá Jamisie. – Sirius tirou sarro e o menino torceu a boca:

-A última vez que comi pimenta fui parar na enfermaria. Eu sou alérgico!

-Vai James! – Remus incentivou. Sirius começou a rir – Se não for o de pimenta, come o titica de coruja. – Num pote, entre os meninos, apenas feijõezinhos de sabores bizarros.

-Dá essa porcaria aqui. – pegou o de titica e enfiou na boca. Engoliu direto, sem mastigar. Sirius abriu a boca indignado.

-NÃO VALE! NÃO VALE!

-Você falou pra comer, não mastigar.

-Vai pegar mais um e mastigar! – o pequeno Remus botou pilha e Sirius sorriu de canto. Era tão bom ter os amigos de volta. James enfiou outro feijãozinho na boca e mastigou. A careta que ele fez foi hilária. Remus e Sirius gargalharam. Em meio aos risos o Black ouviu batidas na porta. James arrotava quase vomitando e Remus não tinha escutado. Sirius levantou ainda enxugando as lágrimas de risos e abriu a porta. Seu sorriso morreu ao ver Mellani parada na porta com uma expressão chorosa. Ele ficou confuso. Mais cedo ela estava empolgada com a festa do pijama entre as garotas.

-O que houve?

-Elas... Elas me enganaram. – soluçou e as lágrimas começaram a cair – E-eu p-pensei que Lily fo-fosse minha ami...Amiga! – e debulhou-se em lágrimas. Sirius franziu o cenho e sem pensar duas vezes puxou-a para si. Ela deitou a cabeça no peito dele e começou a chorar. – Elas me enganaram... – James e Remus já estavam na porta a essa altura – Falaram que a festa tinha mudado de lugar, que seria no meu dormitório. Me deixaram arrumar tudo, comprar doces, escolher músicas... E está tudo lá. Deu oito horas elas não chegaram.

-E você ficou até agora lá? – James questionou – Por que não veio nos chamar? – ela apenas soluçou enquanto as lágrimas escorriam. Sirius passou a mão pelo cabelo dela.

-A Lily também não apareceu?

-Porque acha que ela está chorando Sirius? – James o olhou como se fosse burro.

-É que eu não acho que a Lily faria uma maldade dessas. Nem ela nem a Dorcas.

-A Dorcas me odeia. – Mellani se afastou de Sirius e limpou as lágrimas – E a Lily é amiga delas.

-É, mas ela gosta de você e se fosse cabecinha de vento já não seria mais amiga do Ranhoso. Provavelmente foi um mal entendido por parte da ruiva. – Mellani engoliu o choro e com um bico o olhou de baixo para cima:

-Vocês querem ir pra lá? – Sirius sorriu de canto. Aquela era a tática que ele usava quando queria alguma coisa.

-Claro que sim. – respondeu de pronto.

-Mas como vamos entrar? – Remus perguntou preocupado.

-Vassouras. – James respondeu sorrindo de maneira feliz. Os três saíram atrás de Mellani, esquecendo-se de Peter. Pegaram a vassoura de Josh emprestada e com dificuldade subiram até a janela de Mellani. A menina os ajudou a entrar. Sirius viu um rádio trouxa no criado mudo e apertou o botão. Qual não foi surpresa ao ouvir o som dos Stones.

-Que som é esse? – James perguntou se balançando ao ritmo da música. Mellani sorriu feliz.

-Rolling Stones. Lily me apresentou no começo do ano. Tem os Beatles também, mas eu gostei mais desses caras. – Sirius sorriu e puxou-a pelas mãos. Começou a se balançar ao ritmo da música conhecida e Mellani riu, acompanhando os movimentos dele. Logo ela puxou James e Remus e a dança se tornou uma guerra de almofadas. Eles passaram mais de quatro horas pulando nas camas, comendo doces e se batendo com almofadas. Mellani se divertiu como nunca e teve sua primeira festa do pijama. Sirius sentiu-se idiota por se incomodar quando viu, por mais de uma vez, os toques ocasionais entre ela e Remus. Sentiu-se mais idiota ainda por sentir ciúme quando os dois entravam em guerrinhas estúpidas de mão. Em meio à bagunça eles se cansaram e sentaram na cama da loira para dividir histórias de terror. Mellani foi a primeira a deitar. James deitou ao lado dela e a loira aconchegou-se ao primo, abraçando-o. Remus acabou se esticando, com a cabeça no colo da menina. Sirius, que narrava o conto mais assustador da noite, deitou do lado direito. Bem perto de Mellani. Sem perceber eles pegaram no sono e, no meio da noite, ela e Sirius se abraçaram.

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-Se eu for listar o quanto você estaria encrencada por isso eu nem... Nem... Argh! Você podia ter dito que não queria participar. – Mellani ouviu os protestos de Lílian completamente calada. Sirius franziu o cenho preocupado. A loira segurou o pulso da ruiva e saiu andando. James revirou os olhos.

-Essa Evans é meio chata não é? – Sirius deu de ombros. A manhã de domingo deixava o salão principal lotado – Peter não ficou chateado porque esquecemos dele.

-O que? – Remus revirou os olhos – Ele estava chorando hoje cedo. Você precisa se desculpar. Vocês dois!

-Não vou me desculpar com ele. Não é minha mulher. – o Black falou arrogante. James deu de ombros.