A vida seguia normal para Harry e Hermione. Ao contrário do que qualquer um diria se os encontrassem dormindo abraçados no sofá, sob a mesma coberta, nenhum dos dois fez caso do fato quando acordaram no dia seguinte. Harry com o braço dormente, por ter suportado o peso do corpo da amiga, e Hermione com dor no pescoço, por ter dormido de mau jeito.
Meses depois...
Hum... Barrinhas de chocolate. – Hermione murmurou. – Adoro isso! – ela pegou meia dúzia dos pequenos doces e os colocou no carrinho enquanto continuava olhando as prateleiras.
Ela e Harry estavam fazendo compras, numa calma e normal tarde de sábado. Ela já havia pego metade das coisas em sua lista, enquanto Harry se distraía na seção de eletro-eletrônicos do supermercado em que estavam.
Também sou louco por essas barras. – um homem parou ao lado de Hermione e comentou.
Hum... – ela sorriu, simpática.
Oliver Random. Muito prazer. – ele estendeu a mão para cumprimentá-la.
Hermione Weasley. – ela respondeu, confusa, retribuindo o gesto do homem.
Você sempre vem fazer compras sozinha? Precisa de ajuda? – ele falou, apontando para o carrinho lotado que ela empurrava.
Oh, não eu...
Ela não está sozinha. – Harry chegou, de repente, empurrando o carrinho dos bebês.
Oh... – o homem falou, meio sem jeito. – Sinto muito... Eu só pretendia ajudar.
Sei. – Harry falou, calmo. – Já podemos ir, Mione. Acho que as crianças estão com fome!
Ainda não peguei todos os itens da lista. – ela falou. – Mas faltam poucos. – ela sorriu. – Com licença. – ela acenou para Oliver. – Foi um prazer. – e entrou no corredor do lado, para terminar as compras.
Harry ia segui-la, mas o homem o interrompeu: - Sinto muito, amigo. – falou, pacífico. – Eu não vi que ela era casada.
Hum. – Harry fez, apenas, e seguiu pelo corredor com os dois bebês.
Hermione não demorou muito tempo para pegar tudo que precisava. Os dois se encontraram no caixa e, enquanto Harry colocava as compras sobre o balcão, Hermione, que o esperava com os bebês do outro lado, perguntou:
Por que você não disse ao homem que não éramos casados?
O quê? – Harry desconversou.
Eu estava no corredor ao lado. Ouvi quando ele pediu desculpas. Por que você não explicou que não somos casados? – ela repetiu, paciente.
Seria uma história muito longa, e eu estava com pressa. – ele falou de uma vez, entretido em olhar dentro do carrinho vazio para saber se não havia esquecido nada. – Além disso, achei que ele estivesse te incomodando. – ele parou na frente do caixa já com a carteira na mão.
Até que não. – Hermione falou, displicente, enquanto tirava também sua carteira da bolsa. – Sou eu que pago esse mês.
Pode deixar. – ele falou, mais sério, entregando as notas à moça do caixa. – Desculpe se atrapalhei! – ele fechou a cara, nem esperou pelo troco, e começou a colocar as sacolas no carrinho para levar ao carro.
Não é isso! – Hermione apressou-se em explicar, depois de pegar o troco que ele esquecera. – É que você sempre fez tanta questão de explicar a todo mundo que não somos casados que eu achei estranho. – ela apertou o passo para acompanhá-lo.
Eu cansei de explicar, só isso! – ele falou, num tom que ela sabia ser o usado para encerrar qualquer assunto.
Ok. – ela pegou a chave no bolso dele. Enquanto ele guardava as compras no porta-malas ela colocou os bebês nas cadeirinhas e tomou seu lugar no banco do passageiro.
Olha mamãe! São gêmeos! – ela ouviu uma menininha gritar, apontando para o banco de trás do carro.
Não aponte, Marina, é feio! – a mãe ralhou, envergonhada. – Marina! Volte aqui, menina!
Mas Marina já ia em direção ao carro, encorajada pelo sorriso que Hermione dispensava à ela.
Oh, me desculpe! – a mãe pediu. – Ela não pode ver um bebê!
Não tem problema. – Hermione falou. – Esses são Jordan e Catherine.
A menina espichou o pescoço para olhar os bebês: - Um menino e uma menina? Eu achei que gêmeos tinham que ser iguais! – ela exclamou.
Nem sempre são iguais, querida. Agora vamos embora. Você já viu os bebês. – a mãe puxou a garotinha pela mão.
Tchau. – ela acenou para Hermione, depois para Harry, que observava tudo encostado na lateral do carro, com um sorriso bobo na cara.
Imagine explicar para ela, não? – Hermione provocou, sorrindo.
A mulher estava com pressa! – Harry falou. Deu a volta no carro e tomou o volante.
hr
Hermione amamentava Catherine, enquanto Harry distraía Jordan, fazendo uma minivassoura voar perto de suas mãos. O menino ria entusiasmado enquanto, ainda sem coordenação motora, tentava pegar o objeto voador.
Acho que vou comprar um pomo de ouro para ele. – Harry comentou então. – Quem sabe ele não se torna um apanhador, não?
Catherine também pode se tornar apanhadora. Gina era muito boa. Você mesmo admitiu.
Era mesmo. – ele concordou. – Talvez Rony preferisse que Jordan se tornasse goleiro, não é? Como ele?
Acho que ele ficaria satisfeito só de Jordan entrar para o time da escola, independente da posição em que jogar.
É. – Harry sorriu quando, por um descuido seu, Jordan pegou a vassoura. – Muito bom!
Pronto. – Hermione falou. – Ela não quer mais. – ela colocou a menina sentada em seu colo e começou a dar leves palmadinhas em suas costas para que arrotasse. – Dá para acreditar que já faz cinco meses?
Não... – Harry respondeu. – Não dá mesmo.
Você está procurando alguma babá para cuidar da Cath, Harry? – Hermione perguntou, agitando a varinha e fazendo uma série de jornais voarem de seu quarto para a sala.
Babá? – Harry perguntou, confuso.
É. Uma babá. Mês que vem acaba minha licença, se lembra? Não vou mais poder cuidar deles. Eu já tinha anotado alguns nomes dos anúncios do Profeta. Tem que ser uma babá bruxa, né, ou alguém que saiba sobre o nosso mundo. Vou começar a fazer as entrevistas essa semana. Você poderia assistir algumas e escolher uma para a Cath também.
Por que não pode ser a mesma? – Harry perguntou, confuso.
Hum... Não sei se uma babá daria conta dos dois e, além do mais, mês que vem eu volto para casa, não é? – ela deitou Cath em seu colo e tentou fazê-la dormir, mas a menina estava bem acordada.
Você vai? – Harry perguntou, assustado.
Vou. – Hermione respondeu, casual. – Foi o que combinamos, lembra-se?
Hum... Na verdade, estou tão acostumado com você aqui que nem me lembrava que isso era apenas temporário. – ele falou, desanimado.
É. – Hermione sorriu. – Também estava bem acostumada, mas já fiz o que me propus a fazer, não é? Você já está bem melhor, as crianças estão ótimas, é hora de voltar para casa, não?
É... – ele concordou com um sorriso amarelo.
Veja! – ela passou os jornais para ele. – Eu circulei alguns nomes com caneta vermelha. Dei preferência para as que tinham alguma referência.
Hum... Talvez você pudesse escolhê-la para mim. Você tem mais jeito com isso.
Mas Harry! A mulher vai ficar na i sua /i casa, cuidar da i sua /i filha. Acho que seria melhor se você a conhecesse antes, não?
Confio em você, Hermione. Sei que você saberá escolher muito melhor que eu... – respondeu, desanimado.
Hermione aceitou a incumbência de escolher a babá que cuidaria de Catherine também, o que não deixou Harry menos preocupado, ou confuso. Ele não sabia explicar o que lhe causava tanto incômodo no fato de Hermione estar se preparando para ir embora, mas, ainda assim, ficava remoendo o assunto em sua cabeça. Principalmente durante a noite, quando ia dormir e a casa caía naquele silêncio solitário.
Hermione também estava se sentindo estranha, mas estava decidida. Era esquisito estar arrumando as malas depois de passar tanto tempo morando ali. Não raro ela se pegava pensando em como seria voltar a morar apenas com um bebê, sem ter com quem conversar, sem nenhum barulho na casa além daquele que o bebê fizesse quando acordasse, mas era o que ela tinha que fazer, para o bem de Harry. Ele tinha que aprender a se virar sozinho e, quem sabe, encontrar outra pessoa.
A semana começou e acabou sem nenhuma novidade a respeito de quem cuidaria dos bebês. Hermione havia ouvido várias babás, mas não simpatizara com nenhuma delas. Os currículos eram bons, mas ela sabia que seria difícil encontrar alguém em quem confiar seus filhos, ou melhor, filho. Aquilo a estava preocupando muito.
Harry, por sua vez, estava torcendo para que ela não encontrasse ninguém. Ele sabia que Hermione se sentia entediada ficando em casa tanto tempo, e que ela estava morrendo de saudades do trabalho, mas não conseguia evitar o fato de que se sentia aflito de saber que não a veria mais todos os dias, de que não teria mais com quem jantar e passar os finais de semana. Estava tão acostumado com ela. Não sabia se acostumaria a viver sozinho novamente.
Harry? – Hermione o tirou de seus devaneios. – As crianças dormiram. Eu também já estou indo. Boa noite.
Boa noite. – Harry respondeu, educadamente.
Hermione virou as costas e começou a subir as escadas, mas foi interrompida pela voz de Harry.
Hermione? Você já conseguiu encontrar a babá? – perguntou, casual.
Selecionei três, mas ainda não decidi nada. – ela apoiou-se no corrimão e comentou.
Hum... – ele se remexeu no sofá, inseguro. - Eu estive pensando... Será que as crianças não vão estranhar não? Estão tão acostumados um com o outro. – ele cruzou os braços e perguntou, como quem não quer nada.
Você acha? – ela se preocupou. – Mas eles são tão novinhos ainda. Acho que nem se dão conta realmente de quem os cerca.
Pode ser, mas, com certeza, Cath vai sentir sua falta... – ele falou, sincero. – Você é como... A mãe dela... A única referência que ela tem...
É... – Hermione desceu as escadas novamente e sentou-se ao lado dele. – Mas eu não vou poder continuar cuidando deles o dia inteiro, Harry. E Jordan também vai sentir minha falta, porque eu também não vou mais estar sempre com ele.
Mas ele ainda vai te ver todos os dias. – Harry argumentou. – E como vai ser com o leite?
Como era antes de eu vir para cá. – ela respondeu. – Quanto a isso não se preocupe! – sorriu. – Vai dar tudo certo, Harry. – ela colocou uma das mãos sobre o joelho dele. – Eu vou dormir. Boa noite.
Boa. Hermione? – ele a interrompeu novamente. – E se você deixasse o Jordan aqui? Quer dizer... Para que separar os dois? Você não vai estar em casa mesmo! Aqui tem muito mais espaço. Imagine quando eles começarem a andar!
Nossa! Mas isso ainda vai demorar tanto Harry! – ela sorriu.
Mas vai acontecer um dia. – ele levantou-se. – Só estou pensando no que é bom para nossos... filhos... – a frase soou estranha, mas ele continuou: - Aqui pelo menos eles farão companhia um para o outro.
É... – Hermione cruzou os braços e olhou para o nada, pensativa. – De certo modo você tem razão. E a babá também terá mais companhia aqui do que lá em casa. Além do mais... – ela se aproximou dele novamente. – Aqui tem o Dobby, não é? Eu sei o quanto ele gosta dos meninos e é fiel a você. Aposto como ele vai ficar de olho para saber se elas estão fazendo tudo direitinho, não é?
Exatamente! – ele sorriu, não acreditando que não tivesse, ele mesmo, se lembrado desse trunfo.
É! Acho que você tem razão, Harry! – ela sorriu, satisfeita. – Eu posso deixar o Jordan aqui durante a semana e passar para pegá-lo sempre que eu sair do trabalho! Depois vamos para casa!
Hum... – Harry desanimou de novo. Não era exatamente o que ele estava pensando, mas já era alguma coisa. – Não há... A menor chance de você... Ficar?
Hum... Eu não sei, Harry... – Hermione ficou séria. – Acho que seria o melhor para nós dois, sabe? Que eu volte para casa, que você volte a ter sua liberdade aqui...
Mas eu não perdi minha liberdade com você aqui, Mione! – ele protestou. – Eu goste de ter você aqui! – ele falou, meio sem pensar.
Eu também gosto da sua companhia, Harry. Sua amizade é muito importante para mim, principalmente agora. – ela sorriu, agradecida.
É... Eu também acho e...
Mas não podemos continuar vivendo assim, quer dizer... Você vai querer refazer sua vida um dia, quem sabe se casar de novo. Vai ser um pouco difícil arrumar uma namorada se a sua melhor amiga estiver morando com você, não é? – ela explicou.
Mas é por isso que você vai embora? – ele perguntou. – Eu não estou pensando em me casar de novo. Você está?
Não! – Hermione respondeu, séria. – É tudo tão recente... Você não está pensando nisso agora, mas um dia...
Então é isso... – ele falou, meio chateado. – Olha, Hermione, me desculpe por aquele cara lá no mercado é que...
Cara no mercado? – ela perguntou, confusa. – Ah, não! Não se preocupe, Harry! Eu nem me lembrava mais disso. – sorriu.
Mas, então? Por que esse assunto?
Ora, Harry... – ela se sentou de frente para ele. – Nós dois sabemos que dificilmente um homem fica pouco tempo sozinho, não é? Uma hora você vai acabar se interessando por alguém e, se eu estiver aqui, só vou te atrapalhar. Além do mais, não tem nada a ver morarmos juntos agora que estamos mais conformados em relação ao que aconteceu. Eu vim para cá porque estava realmente preocupada com você. Tinha medo que você não desse conta, ou não agüentasse a barra sozinho. Eu te vi sofrer muitas vezes com as perdas de pessoas amadas, Harry, não queria te deixar sozinho. Amigo é para essas coisa, não é?
É sim. – Harry respondeu, se sentindo mal por parecer tão frágil. – E eu te agradeço pelo que você fez.
Não foi nada. – Hermione respondeu. - Bom! Agora eu vou dormir mesmo, Harry. Boa noite.
Boa noite... Eu também já vou subir.
Hermione subiu as escadas novamente, mas dessa vez conseguiu chegar até o fim. Harry ainda ficou na sala por alguns instantes, mas não tinha nada de interessante para fazer por lá, então também foi para o quarto.
O quarto dele ficava no fim do corredor, de modo que ele, obrigatoriamente, passava pelo quarto de Hermione. Nunca tinha, realmente, feito caso disso, mas também nunca tinha dado de cara com a porta do quarto semi-aberta. Foi por impulso, não por curiosidade, que ele olhou lá para dentro e depois não conseguiu recuar.
Hermione já estava com sua roupa de dormir: uma camisola branca de seda. Por cima ela ainda vestia um robe semitransparente. Ela estava em pé, de frente para a cama, uma das pernas dobradas e apoiadas sobre o móvel. Numa das mãos um pote de creme, a outra massageava a perna dobrada.
Harry não conseguiu se mover dali. Estava, simplesmente, hipnotizado por aquela visão. Nunca tinha visto Hermione numa situação tão íntima, nem em trajes tão provocantes. Nunca a tinha visto como uma mulher, realmente.
Hermione colocou dois dedos no frasco e tirou mais uma camada de creme. Esticou uma perna e colocou a outra sobre a cama, dando a Harry uma visão muito mais "privilegiada" de seu corpo. Depois, com as duas mãos, começou a massageá-la de cima a baixo, levantando um pouco mais a camisola para alcançar a parte interna da coxa.
Harry segurou a respiração do outro lado da porta. Sentiu um comichão engraçado no baixo ventre e, do nada, se lembrou que há cinco meses não dormia com ninguém. Como se tivesse apertado o 'on', sentiu seu corpo responder àquele pensamento e, assustado se afastou da porta dela.
i "O que você pensa que está fazendo? É a Hermione!" /i – ele dizia a si mesmo.
i "E é uma mulher! Há quanto tempo você não tem uma mulher?" /i – uma voz disse em sua cabeça.
i "Mas e o Rony?!" /i - ele tentava se convencer.
i "Ele está morto!" /i – a voz respondia.
i "Mas foi meu melhor amigo!" /i - ele pensava, pasmado. – i "Ele a amava, e ela ainda o ama!" /i
i "E você ainda ama a Gina, mas eles estão mortos! E você e a Hermione estão muito vivos!" /i
i "Mas ela é minha melhor amiga!" /i – pensava, atordoado.
i "Dã! E também era a melhor amiga do Rony!" /i
AAHHH! – ele gritou, completamente confuso, apertando a cabeça com as mãos.
Harry? – Hermione saiu do quarto, assustada. – Algum problema?
Hum? Problema? Não! – ele sorriu, sentindo o rosto esquentar como um caldeirão fervente e tentando não ficar de frente para ela.
Ah, bom... É que você gritou. – ela falou, achando-o esquisito.
É... – ele sorriu, sem graça. – Hum... Besteira minha! Boa noite, Mione! – ele se apressou em dizer.
Boa noite. – ela respondeu, completamente sem entender nada.
Não é preciso dizer que Harry demorou a dormir naquela noite e, quando conseguiu, não parava de ter sonhos estranhos. Em todos eles Hermione aparecia de camisola, só para provocá-lo. Harry estava se sentindo confuso e mal agora, por ter, mesmo que por um instante, desejado Hermione.
N/A: Mais um cap, galera. Essa semana foi um pouco mais fácil de escrever, embora eu não saiba se o capítulo vá agradar. Eu gostei... Espero que gostem também. Espero os comentários, hein? Até o próximo!
