QUEBRANDO AS REGRAS

Madam Spooky

Capítulo 4

Ela já estava caminhando pelo corredor havia mais de duas horas. As pernas doíam e a mão que segurava o sabonete começava a suar. Logo o relógio marcaria dez da noite e todos seriam obrigados a permanecerem nos dormitórios, mas o último garoto no vestiário ainda não tinha saído.

Droga... Botan bateu o pé no chão como uma criança contrariada. Não queria ter que entrar lá para conferir se o garoto idiota ainda estava vivo. Não quando corria o risco de esbarrar com ele nada decente. O problema era que suas costas já estavam doendo do tempo que ficara de pé esperando e não estava segura de poder suportar por outra hora.

Já ia dar outra volta pelo corredor quando ouviu a porta do vestiário abrir e passos se afastarem apressados na direção dos quartos. Botan conteve um gritinho de triunfo e correu para a porta, fechando-a cuidadosamente atrás de si. Lá dentro havia uma fileira de chuveiros, separados apenas por uma pequena parede. Estavam todos desocupados, mas o ar quente ainda presente indicava que tinham acabado de ser usados.

A garota pendurou as roupas cuidadosamente em um dos armários perto da porta. Não sabia se os donos de cada um já tinham sido marcados, mas, uma vez que aquele estava aberto e vazio, e ninguém lhe dissera nada a respeito, não achava que alguém se importaria se o utilizasse só daquela vez. Despiu-se das roupas apressadamente, grata por finalmente estar se livrando da bendita calça de roqueiro. Se Touya realmente queria chegar a algum lugar com aquela banda, era melhor parar de confeccionar roupas ele mesmo e contratar alguém que entendesse um mínimo de moda.

Amontoou as roupas no mesmo armário, com cuidado para separá-las das limpas, então foi para um dos cubículos com chuveiro, pendurando a toalha bem ao alcance. Abriu a água e suspirou alegremente ao sentir o jato quente cair de encontro a seu corpo. Precisava ir depressa antes que alguém desse por sua falta no dormitório e fosse procurá-la. Molhou o rosto e o ensaboou rapidamente. A maldita poeira parecia ter se impregnado em cada canto de seu corpo. Estava com os olhos fechados de maneira a protegê-los da espuma, por isso não percebeu o outro estudante entrar no vestiário e começar a repetir todo o procedimento que fizera, até ouvir o chuveiro do último cubículo, o mais distante do seu, ser ligado.

Botan se agachou instintivamente. Lavou o rosto o mais depressa que pôde e só então se levantou, devagar, tendo o cuidado de manter-se o mais próxima possível da parede que servia de divisa. O estúpido cubículo não tinha porta. E se aquela pessoa decidisse passar por ali, o que faria? Respirou fundo, tentando se acalmar, então olhou na direção do barulho de água. Qual foi sua surpresa quando percebeu a cascata de cabelo ruivo caindo nas costas molhadas do estranho. Ele estava de costas para ela. Costas extremamente bem torneadas... Ora, mas o que estava pensando?

Ainda estava a encará-lo quando ele desligou o chuveiro e se virou para ela. Botan imediatamente abaixou a cabeça.

- É você, Touya?

Ela levantou-se devagar, colando o corpo ainda mais à divisória e passando a mão pelos cabelos, fazendo-os cair sobre o rosto de modo a camuflar-se sem o boné.

- Sou eu... – respondeu com a voz tremula de nervoso.

Shuuichi olhou diretamente para ela, com os olhos semicerrados por causa da espuma, e sorriu.

- Eu não aguentava mais aquela poeira toda, mas preferi vir quando o movimento diminuísse. Não estou acostumado a tomar banho na frente de outras pessoas.

- E eu menos... – Ainda mais na frente de garotos.

Ela tinha que encontrar uma maneira de fazer com que Shuuichi saísse dali e rápido. Se ele se aproximasse, acabaria por descobrir sobre ela e da maneira mais constrangedora possível. Se ele ao menos se virasse ao invés de ficar apontando o tórax em toda sua glória na direção exata dos olhos dela seria mais fácil pensar em alguma coisa.

Subidamente, uma ideia surgiu. Se pudesse dar um jeito de chegar até o interruptor de luz...

Abaixou-se novamente, fazendo com que a água caísse abundantemente pelas costas e pernas, de maneira a tirar toda espuma remanescente. Quando se levantou, viu que Shuuichi estava ensaboando os cabelos, novamente de costas para ela e com os olhos cerrados. Botan olhou para a parede. O interruptor não estava à vista. Devia ficar por trás do armário. Tinha uma chance de chegar lá sem ser vista se corresse, mas, no caso de estar enganada, era improvável que conseguisse voltar sem que o ruivo a visse.

- E agora...?

- Amanhã teremos mais uma seção na biblioteca – disse Shuuichi. – Você acha que Sensui vai pegar no nosso pé durante a aula dele por causa disso?

- Eu não faço a menor ideia... – Botan respondeu, trêmula.

Amaldiçoou mentalmente por não conseguir manter o tom de voz sob controle. Antes que pudesse mudar de ideia, respirou fundo e pegou a toalha que deixara pendurada na parede de separação dos chuveiros, cobrindo-se bem antes de começar a andar lentamente na direção dos armários.

- Eu espero que não. História não é uma das minhas matérias favoritas. Se o professor se dispuser a dificultar minha vida...

Ele continuou falando, mas ela mal escutava as palavras. Estava concentrada em chegar aos armários sem fazer barulho. Faltavam apenas alguns passos. Botan deu um salto para perto da parede bem a tempo de ouvir Shuuichi dizer:

- Droga, acho que esqueci a toalha no armário!

A garota gelou. Ouviu o chuveiro ser desligado e correu para a parede, procurando freneticamente pelo interruptor. O encontrou meio escondido, perto da porta. Avançou o mais rápido que podia com a mão esticada e o apertou. Imediatamente, escuridão tomou conta do lugar.

- Touya – Shuuichi chamou. – O que foi que aconteceu?

- Parece que faltou energia... – disse ela, respirando aliviada.

Mas em uma coisa Botan não tinha pensado: agora que estava tudo completamente escuro, como ela faria para encontrar suas roupas?

Tateou pela parede até alcançar o armário. Encontrar a porta certa estava saindo mais difícil do que esperava, mas tinha certeza de que a deixara entreaberta.

- Não, estou vendo luz nas frestas da porta – disse Shuuichi. – A lâmpada deve ter queimado.

Botan estava certa de ter encontrado as roupas quando ouviu a voz do garoto perigosamente perto. Ela tentou afastar-se, mas tudo o que conseguiu foi tropeçar e bater de cabeça no armário.

- Touya?

- Eu estou bem! – Apressou-se em dizer. Se ele viesse ajudá-la seria um verdadeiro desastre.

Tarde demais. Sentiu a mão de Shuuichi segura-la pelo pulso e puxa-la, ajudando-a a levantar. Botan corou furiosamente. Ali estava ela, com um rapaz usando provavelmente nada além de uma toalha e segurando-a pelo pulso. E como se não fosse pouca coisa, ela não conseguia parar de pensar na imagem dele instantes antes, com o cabelo molhado e o tórax completamente a mostra. Se Ayame ou Koenma sequer sonhassem com aquilo... Se Yusuke ficasse sabendo!

A imagem de Yusuke e Shuuichi brigando no pátio foi o que a fez se mover. Abriu o armário depressa, pegou as roupas e correu na direção oposta, quase não conseguindo parar ao chegar à parede.

- Touya, o que há com você? Não deve ficar correndo nessa escuridão, pode ser perigoso.

- Você não faz idéia do quanto... – disse Botan, vestindo-se da melhor maneira possível sem estar vendo o que fazia. Quando se viu mais ou menos decente, despediu-se de Shuuichi com um breve "até logo" e saiu correndo dali.

O ruivo a observou correr pela porta, sequer parando para fechá-la antes de se afastar, e começou a procurar pelas próprias roupas.

- Mas o que será que deu nele...?

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- Yusuke, não seja mau, eu já pedi desculpas...

- Eu já disse que não!

Yusuke dobrou os braços atrás da cabeça e continuou deitado na cama, olhando para o teto. Já tinha perdido a conta de quantas vezes Botan tinha implorado para que lhe emprestasse um boné aquela manhã, mas ela teria que fazer muito mais do que isso para conseguir qualquer coisa dele. Se não bastasse ter feito amizade com o tal Shuuichi Minamino, tinha desaparecido na noite anterior, deixando-o a mercê da imaginação que o fizera prever os piores resultados. Mesmo assim, ele não tinha ido atrás dela. Se por acaso descobrissem que seu primo Touya era na verdade sua prima Botan, ela teria que se virar sem ele. Não precisava de mais problemas do que os que arranjara sozinho.

- Você está sendo infantil – Botan cruzou os braços e sentou-se na própria cama, emburrada. – Se não me emprestar um boné, as pessoas vão olhar mais para o meu rosto que o necessário e alguém vai acabar desconfiando de algo.

- Problema seu. Devia ter pensado nisso antes de deixar o boné no vestiário.

Ele fez um som irritado com a garganta e virou de lado, não querendo encarar a prima. Se ela ao menos tivesse dado uma explicação sobre o que andara fazendo na noite anterior, mas se recusara terminantemente a falar a respeito.

- O que quer que eu diga? – Botan perguntou em um tom implorante. – Que você estava certo e que eu não deveria ter me aproximado do Minamino? Ou que eu não devia ter ido tomar banho sozinha? Tudo bem, você tinha razão, satisfeito? Eu prometo não fazer nenhuma das duas coisas novamente!

Yusuke se virou devagar, ainda irritado com Botan, mas começando a ficar irritado também consigo mesmo por não tê-la ajudado na noite anterior. E se alguma coisa tivesse realmente acontecido? Por um lado, ele não queria se envolver em problemas tão cedo; mas por outro, aquela era sua prima, os dois eram melhores amigos desde antes de deixarem as fraudas.

- Aconteceu alguma coisa ontem à noite, Botan? – ele perguntou com a voz mais suave.

Franziu a testa ao ver o rosto da garota adquirir um tom forte de vermelho. Será que alguém a tinha visto? Não, ele teria escutado os gritos. Então, pior: ela teria visto alguém?

- Olha lá, Botan. Esse negócio de você ficar usando o vestiário masculino não vai dar certo. Cedo ou tarde alguém vai acabar te descobrindo e ai eu quero ver o que você vai inventar. – Levantou-se da cama, indo até a mala e procurando pelos cadernos. – Nós temos aula daqui a pouco. Seu uniforme está junto com as outras coisas do Touya, por que não vai se trocar?

- Em primeiro lugar – respondeu Botan – eu tenho que usar o vestiário masculino porque, caso não tenha percebido, é o único nesse lugar. Em segundo... Como você quer que eu vista o uniforme se você não sai do quarto? Vamos acabar nos atrasando no primeiro dia de aula!

- Mulheres... – Yusuke resmungou. – E eu pensando que teria sossego aqui...

Botan ia responder, mas ele suspirou, olhando para ela com uma expressão vencida.

- Tudo bem, eu fico na porta. Assim você não corre o risco de ser flagrada trocando de roupa pelo idiota do Kuwabara. – Sorriu satisfeito ao ver o rosto de Botan se iluminar. – Mas depois teremos que fazer outro arranjo. Não vou querer bancar o porteiro todo dia não.

- Obrigada, Yusuke!

Botan correu e o abraçou, pendurando-se no pescoço dele até quase sufoca-lo.

- Você pode agradecer sem tentar me matar – ele disse com uma falsa carranca de dor, massageando o pescoço exageradamente. – Vê se não se atrasa, se não quiser mais uma detenção.

- Não mesmo. Acho que não quero competir com Hiei nessa modalidade.

Yusuke não entendeu, mas tampouco perguntou. Deixou-a sozinha e, como prometeu, ficou do outro lado da porta, observando o movimento dos estudantes que já saiam dos quartos na direção das salas de aula e pedindo silenciosamente que Kuwabara não voltasse ainda.

Para seu desagrado, nesse mesmo instante ouviu a voz do colega de quarto vindo do lado oposto ao que estava olhando:

- Por que você está ai parado como um porteiro, Urameshi? – o rapaz o encarou com sua já bem conhecida expressão confusa, então sorriu. – Já sei! Está enrolando para não ir para a aula, não é? Mas é bom que saiba que Yomi não tolera faltas. Se você não estiver quando ele fizer a chamada, certamente mandará alguém para vir checar se está vivo ou não.

- Eu não estou enrolando coisa nenhuma, ô estrupício – Yusuke resmungou. – Só estou aqui parado, cuidando da minha vida. Por que é que você tem mania de se meter comigo quando eu estou imerso em meditar sobre as coisas da vida?

Kuwabara o encarou desconfiadamente, parecendo ainda mais confuso com aquela atitude. Pensou por um segundo, então balançou a cabeça, desistindo de ficar para discutir. As aulas começariam em menos de quinze minutos e não tinham tempo para ficar batendo papo no corredor.

- Eu não estou interessado na sua meditação – disse, esticando a mão para a porta – só quero passar para pegar meu livro de química. Acho que esqueci em cima da cama...

- Não! – Yusuke gritou.

Kuwabara deu um salto para trás.

- E eu posso saber por que não?

- Porque... Porque... – Essa não. Tinha que inventar uma desculpa e boa. – Porque não – disse por fim, chutando-se mentalmente. Porque não? Ele tinha realmente se embrenhado muito na meditação para pensar em algo assim tão complexo.

- Eu não estou para brincadeiras, preciso do meu livro.

A mão de Kuwabara voltou a buscar a porta enquanto a outra empurrava Yusuke, mas este colou-se ainda mais à entrada e não se moveu.

- Eu já disse que não pode entrar!

- E por que não?

- Porque não, ora essa! Eu estou dizendo que não pode e você tem mais é que largar de ser chato e sumir da minha frente! – Mas por que raios Botan estava demorando tanto?

- Seu idiota! – Kuwabara o segurou pelo colarinho da camisa. – Eu vou te mostrar como eu passo por essa porta e vai ser agora!

Ele ergueu Yusuke e o atirou no chão do corredor. Então segurou a maçaneta e já começava a girá-la quando sentiu uma mão segura-lo pelo tornozelo.

- Eu não vou deixar! – Yusuke gritou.

- Larga! – o sapato de Kuwabara o atingiu bem no nariz.

- Ah, então você quer partir para a violência, não é?

Em um segundo os dois estavam de pé, praticamente rosnando um para o outro. Ergueram os punhos ao mesmo tempo, apontando para os respectivos narizes, mas, por sorte ou azar, antes que pudessem continuar Botan abriu a porta do quarto e saiu, já usando o uniforme azul escuro do colégio e segurando alguns livros.

Ela olhou de um para o outro interrogativamente, então sorriu e começou a andar para a sala o mais rápido que podia, sem dar tempo a Yusuke de perguntar o que estava fazendo usando seu boné favorito sem que ele tivesse dado autorização.

Na mesma hora, os dois garotos desfizeram a posição de ataque e a acompanharam.

- Touya, você estava no quarto? – perguntou Kuwabara.

- Pois é, eu me atrasei um pouco... – disse Botan, andando um pouco mais rápido.

- E eu posso saber quem te deu permissão para usar o meu boné com o Slogan dos X-Men?

Botan tirou o boné e deu uma boa olhada no slogan na frente. X-Men? Ela jurava que era um boné promocional do filme do Arquivo X... Colocou-o de volta e deu de ombros.

- O meu está perdido e eu precisava de outro. Sabe como eu odeio que vejam o meu cabelo...

- Ué, por quê? – Kuwabara perguntou. Os primos se entreolharam, aliviados pela inocência dele. – Se o Yusuke não tem vergonha de mostrar esse cabelo duro dele, então eu não sei por que... Ai!

Kuwabara massageou o pescoço onde Yusuke acabara de bater.

- Isso aqui se chama cuidado, meu filho – o ouviu explicar. – Não é como essa coisa cor de burro quando foge que você chama de madeixas. – Kuwabara ficou vermelho. Teria explodido se Yusuke não tivesse acrescentado: – Você não tinha ido buscar um livro de química?

- Ah, é mesmo... – Kuwabara saiu correndo de volta para o quarto, esquecendo completamente a discussão.

- Dá para acreditar nesse cara?

Yusuke balançou a cabeça e Botan apenas riu, grata pelas atenções do primo terem sido desviadas do boné que usava.

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Botan tinha passado tempo demais imaginando o que aconteceria caso fosse descoberta e acabou esquecendo-se completamente das aulas. Durante todo o tempo desde que Touya lhe fizera aquela proposta – e parecia muito mais do que apenas trinta horas – as coisas aconteceram em uma verdadeira montanha russa. Porém, agora, sentada na sala, ouvindo Yomi, professor de química, falando sobre divisão molecular e outras coisas complicadas do gênero, ela finalmente tinha acordado para a realidade: estava em um colégio interno se passando por seu primo Touya. Tudo o que fizesse ali seria como se ele estivesse fazendo. Não que ela achasse que ele tinha a mesma preocupação com reputação que Yusuke, mas estar na pele de outra pessoa começava a parecer uma grande responsabilidade.

- É só a estúpida química, não precisa fazer essa cara de quem está querendo morrer.

A garota se virou e deparou-se com Hiei ao lado dela, deslizando preguiçosamente pela cadeira até estar quase embaixo da mesa. Olhava para ela com curiosidade, como se estivesse querendo perguntar alguma coisa.

- Eu sei disso – respondeu, sentindo-se nervosa diante daquele olhar. Tinha que parar de ser tão paranoica. Desde que pisara naquela escola, qualquer pessoa que a olhasse fazia com que se imaginasse prestes a ser descoberta. – Não estou fazendo cara de quem quer morrer.

- Sou eu quem está olhando para a sua cara e não vejo nenhum espelho ai para que possa saber – disse Hiei secamente.

- Eu gosto de química – mentiu Botan. Ela odiava aquela matéria quase tanto quanto física e matemática.

- Ah, não gosta mesmo.

- E por que eu diria que gosto se eu não gostasse?

- Para que eu pare de fazer perguntas?

O baixinho era mais esperto do que parecia. Ela o imaginara como um aluno rebelde que não ligava para nada além de desafiar as regras, mas lá estava ele, a encarando como se soubesse mais do que estava dizendo e fazendo o que provavelmente eram as perguntas certas.

- Claro que eu quero que pare de fazer perguntas, estamos no meio da aula e você está atrapalhando minha concentração – respondeu entredentes.

- Sua concentração... – Hiei repetiu.

- Isso!

- Touya, não é?

- É o meu nome.

- Do que é que Yomi esteve falando nos últimos cinco minutos?

- De... De... – ela olhou para o quadro onde o homem de cabelos escuros e compridos estava de costas, copiando alguma coisa, e deixou escapar um suspiro vencido. Tinha se perdido em algum ponto entre as divisões moleculares e iônicas e realmente não fazia a menor ideia do que ele estava falando agora.

Hiei deu um sorriso debochado e virou-se para frente, sem fazer mais comentários. Botan ficou com a desagradável impressão de que fosse lá do que ele estivesse tentando se certificar quando começara aquela conversa, tinha conseguido. Olhou para frente outra vez, tentando prestar atenção na aula, mas não teve sucesso, então começou a estudar distraidamente os rostos dos outros alunos, a maioria deles muito atento em copiar a aula para captar sua inquietação.

- Tudo bem, Touya? – Kuwabara perguntou atrás dela.

- Isso vai demorar muito? – ela sussurrou de volta.

- Só o suficiente para você querer se atirar pela janela.

Resposta nem um pouco animadora. Pensou em falar mais alguma coisa, mas Kuwabara parecia realmente estar tentando aprender alguma coisa, ao contrário de Hiei que agora podia se dizer que estava abaixo dos limites de sua mesa, cochilando com os lábios entreabertos. Do outro lado, na fileira rente a parede, Yusuke ria disfarçadamente de uma de suas revistas (Botan esperava que nada menos decente que suas usuais publicações sobre carros) e Shuuichi, atrás dele, tinha a cabeça apoiada na mão aberta, olhando para a janela com ar entediado.

Botan abriu o caderno, resolvida a começar a matar o tempo rabiscando alguma coisa, quando Genkai apareceu na porta da sala, pedindo licença para entrar. Yomi carranqueou, visivelmente desgostoso pela interrupção, mas nada disse. A velha senhora o ignorou; posicionou-se na frente da turma e começou a falar:

- Como todo primeiro dia de aula, eu passo em todas as salas informando sobre o nosso calendário de eventos – ela desviou os olhos para Yusuke, lançando a ele um de seus olhares mais assustadores: – Senhor Urameshi, eu entendo que essa sua revista traga fotografias de mulheres bem mais interessantes do que eu, mas nesse exato momento é para mim que deveria estar olhando.

Yusuke imediatamente sumiu com a revista enbaixo da mesa e deu um de seus sorrisos inocentes.

- Eu sinto muito, senhora. Sabe como é... Primeiro dia de aula... A gente não sabe o que pode e o que não pode fazer...

Genkai por um momento pareceu que ia sorrir, mas logo voltou à expressão dura que usava frequentemente.

- Eu acho melhor dar um resumo das regras antes de continuar falando, apenas para que os mal informados, como o senhor Urameshi, possam deixar de cometer erros como o que eu acabei de flagrar. – Ela olhou para cada rosto na sala rapidamente antes de continuar: – A rotina aqui é muito simples: vocês acordam, assistem às aulas, estudam o que aprenderam nas aulas e dormem. Claro, com as devidas pausas para as refeições. Estão proibidos quaisquer materiais que não tenham a ver com as aulas. Vocês devem usar uniforme durante o tempo todo em que estiverem fora dos dormitórios e nada de circular depois das dez da noite, entenderam?

Ninguém respondeu.

- Entenderam? – ela gritou.

- Sim senhora – todos responderam, com exceção de Yusuke, que estava muito ocupado imaginando como seria divertido fazer exatamente o contrário; Hiei, que continuava dormindo; e Shuuichi, que mantinha o olhar na janela como se Genkai nem mesmo estivesse lá.

- Vocês têm permissão para assistir televisão aos domingos, obviamente os que se mantiverem no colégio. Imagino que a maioria voltará para casa nos fins de semana.

Botan conteve um gemido. Outra coisa na qual não tinha pensado. E se a mãe de Touya quisesse buscá-lo no fim de semana, o que ela faria? Olhou para Yusuke em busca de apoio, mas ele continuava a olhar para Genkai com um sorriso idiota. Teria que se lembrar de falar com ele sobre o assunto mais tarde.

- Concluindo essa questão – continuou Genkai – é bom que se lembrem bem: Não são permitidas revistas de conteúdo duvidoso dentro dessa instituição. Isso vale também para vídeos e outros tipos de material. E, principalmente, não é permitido que tragam garotas para cá como aconteceu o semestre passado – Botan pôde jurar que a diretora olhou diretamente para Kuwabara quando disse isso. – Alguma pergunta?

Como ninguém se manifestou, ela sorriu e voltou ao tópico principal:

- Como a maioria de vocês sabe, nossos eventos consistem unicamente no show de talentos duas vezes por ano e na formatura no final de dezembro. Eu vim principalmente para avisá-los que vocês já podem começar a se inscrever para o show, o nosso evento cultural. Para os que chegaram agora, é uma apresentação que fazemos para os alunos e familiares no meio do semestre, apenas para que eles possam ver os progressos que seus filhos fizeram em tão pouco tempo. – Ela deu um sorriso significativo. – Vocês têm liberdade para escolherem o número que quiserem desde que – olhou novamente para Yusuke – não seja nada de gosto duvidoso. Acho que isso é tudo, vou deixá-los assistirem sua aula de química em paz.

Ela acenou com a cabeça para o professor, que devolveu um aceno e voltou a copiar fórmulas no quadro.

Botan olhou novamente para o primo e o viu retirar a revista de debaixo da carteira e recomeçar a folheá-la. Mal fez isso, Genkai reapareceu na porta e fez um gesto com a mão na direção dele. Yusuke segurou a publicação com mais força, mas o olhar da diretora não admitia desafio. Contrariado, ele levantou-se e entregou a revista para ela, voltando ao lugar e cruzando os braços em seguida.

A garota riu. Parecia que Yusuke tinha encontrado alguém disposto a fazê-lo seguir as regras.

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- Sensui não vai dar aula hoje?

- E daí? Está reclamando por acaso?

Shuuichi teve que rir para não dar uma resposta mal educada. Era incrível como a cada segundo que passava Hiei parecia ficar mais simpático. Tudo bem, não tinha importância. Agora mesmo ele queria saber era o que faria com a detenção no caso do professor continuar sem aparecer. Os alunos estavam em sua maioria de pé na sala, conversando em voz alta; alguns parados perto da porta, esperando que alguém surgisse para dizer o que deveriam fazer.

- Não estou reclamando – disse tranquilamente. – Mas caso não lembre, estou pagando uma detenção, parte por sua culpa, e gostaria muito de saber se vou sair livre dela por hoje.

Hiei deu um meio sorriso.

- Sair livre de uma detenção dada por Genkai? Todo mundo tem o direito de sonhar.

- Mas Sensui...

- Vão mandar outra pessoa vir buscar você e o... – Hiei olhou para Botan que conversava alegremente com Kuwabara ao lado – rapaz ali. Sensui deve ter dado um de seus ataques hoje.

- Ataques? – Shuuichi cruzou os braços e perguntou distraidamente, tentando disfarçar seu desagrado com aquela resposta.

Hiei olhou para os lados, certificando-se de que não estava sendo ouvido e falou:

- Ataques sim. Dizem que ele é maluco e que tem várias personalidades. Quando uma das assassinas vem à tona, eles têm que amarra-lo no quarto e não o deixam dar aula de jeito nenhum. Você entende, não é? Ele poderia matar todos nós aqui.

Shuuichi não conseguiu conter uma gargalhada.

- Ora – disse Hiei – fico feliz com a sua tranquilidade na iminência da morte, Kurama. Talvez você não seja tão tonto quanto eu pensei que fosse.

- Eu fico feliz que você tenha mudado sua opinião sobre mim – o ruivo respondeu – mas não quer realmente que eu acredite que eles permitem um professor com uma segunda personalidade assassina dar aulas no colégio, quer?

- Seis personalidades assassinas. E se não acredita, por que não sai do quarto depois das dez? Nesse horário eles o soltam para ver se consegue capturar algum estudante quebrando as preciosas regras da velha. E sabe o que acontece quando ele consegue?

- Você acorda?

Shuuichi balançou a cabeça e decidiu voltar para seu lugar. Era melhor esperar que alguém aparecesse. Fez uma nota mental de sondar Kaitou mais tarde, uma vez que Hiei não seria de grande ajuda com questões acadêmicas. Virou-se na direção de Touya e deu um aceno de cabeça, mas este não o viu ou o ignorou. Engraçado... Ele parecia estar ficando vermelho... Talvez Kuwabara estivesse contando alguma história não aconselhável para menores naquele momento.

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Kuwabara estava falando alguma coisa, mas Botan não estava escutando. Shuuichi Minamino parado bem atrás dela, conversando qualquer coisa que ela não conseguia entender com Hiei, a estava deixando nervosa. Estivera a manhã inteira esquecida do incidente da noite anterior, mas agora que ele estava tão perto, a lembrança do risco que correra voltara com força total. Isso e algumas imagens interessantes do garoto ruivo não muito vestido.

Olhou para trás bem a tempo de ver Shuuichi acenar para ela com a cabeça. Sentiu o rosto corar, como se de alguma forma ele pudesse saber no que ela estava pensando. Talvez Yusuke tivesse razão sobre não dever mais se aproximar dele. Se continuasse se ruborizando daquela maneira, cedo ou tarde ele desconfiaria e então...

- Touya, você ouviu minha pergunta? – Kuwabara gritou.

Imediatamente, Botan olhou para ele e sorriu, desculpando-se.

- O que você disse mesmo?

- Eu perguntei se você não vai participar do festival – repetiu Kuwabara. – Nós podíamos formar uma dupla, sabe? Eu toco um pouco de bateria e como você é guitarrista, ganharíamos fácil.

Era só o que faltava... Por que Yusuke tinha que ter falado sobre a banda de Touya na frente de todo mundo? Ela nunca tinha tocado uma guitarra na vida! Sequer sabia a diferença de uma para outros instrumentos de corda. Olhou furiosamente para o primo que ainda parecia emburrado com o episódio da revista. Ele teria que ajuda-la a sair daquela querendo ou não.

- Sinto muito, Kuwabara, mas eu não posso – respondeu, procurando na mente uma desculpa convincente.

- Eu posso saber por que não? O show de talentos vai ser no fim do semestre, você só tem que me acompanhar em uma música e estará terminado.

Botan não soube o que dizer. Ia insistir que não era uma boa ideia, mas Kuwabara levantou-se, parecendo irritado.

- Já sei – disse ele. – Você acha que eu não sou bom o suficiente, não é? Só porque você tem uma banda a um passo do profissionalismo não quer dizer que possa menosprezar minhas habilidades na bateria!

Não, não, não... Não era nada daquilo. Mas como ela poderia explicar a Kuwabara sem ter que dizer que não tocava guitarra coisa nenhuma? E, espere... Os Shinobi a um passo do profissionalismo? Não sabia se revirava os olhos ou ria alto.

- Eu vou te mostrar do que sou capaz – disse Kuwabara, levantando o punho em um gesto simbólico de triunfo.

Botan sorriu.

- Eu prometo que vou pensar.


N/A: Oi, gente! Estou atualizando mais cedo dessa vez porque provavelmente não estarei aqui amanhã nem sexta, quando deveria estar fazendo isso.

Esse foi o capítulo mais chato até agora, mas eu prometo que o próximo estará melhor (pelo menos eu acho que está!). Peço desculpas também pela revisão corrida. Quando eu tiver mais tempo, vejo isso com mais calma.

Muito obrigada a Kisamadesu, Ayumi-tenshi, Kiki-chan, Botan Kitsune, Bianca Potter, caHh Kinomoto, Megawinsone, Teela, Heaven's Demon, yana e Elisa Li pelos comentários no último capítulo. Fico muito feliz que estejam gostando dessa história e agradeço muito por reservarem um pouco de seu tempo para me falarem o que estão achando. Eu não vou responder individualmente dessa vez porque as coisas estão meio corridas para mim, mas prometo fazer isso no próximo com certeza.

Com relação a Yukina, ela será sim irmã do Hiei, mas ainda não tenho certeza se aparecerá mais que em conversas entre Kuwabara e ele. Vai depender do rumo que as coisas tomarem a partir do que estou escrevendo agora.

Obrigada por lerem e até o próximo!