Capítulo 4 – Lar.
A N J O
A chuva caía forte, as ruas estavam escuras e vazias. Os raios que cortavam o céu iluminavam os três anjos que estavam completamente molhados e que caminhavam com os pés descalços no asfalto molhado.
Kakashi estava um pouco à frente, os outros dois anjos o seguiam lado a lado. Nenhum deles disse nada o caminho todo.
Sasuke olhava ao redor por onde passava, apesar de estar escuro, ele podia ver algumas casas com as luzes acesas. O silêncio da noite onde só o barulho da chuva podia ser ouvido, era uma sensação nova para ele sentir.
Hinata não era diferente, a pequeno anjo estava maravilhada pela chuva que molhava sua pele. Era molhado e gelado. Era muito bom. Uma sensação maravilhosa que ela estava tendo a oportunidade de sentir. E naquele momento, soube que amava a chuva.
Algumas horas depois, os três começaram a subir uma colina deserta, ladeada por árvores com folhagens amareladas pelos dois cantos. A rua era estreita e de paralelepípedo. Apesar da beleza daquele local onde eles passavam, para muitos davam uma sensação de sufocamento. Não havia casas naquela parte da cidade, só uma que ficava no topo daquela enorme colina.
Depois de alguns minutos subindo a colina embaixo da chuva, os três anjos pararam em frente a um portão de ferro com a tintura branca e descascada com ferrugem consumindo-o. O anjo Kakashi levou sua mão ao trinco e o abriu, dando passagem para ele e os anjos jovens entrassem. Assim que todos passaram ele fechou, voltando a caminhar, guiando os outros que estavam atrás de si.
A casa era grande, de uma arquitetura antiga, assim como as demais casas de Konoha. Mas a casa estava decaída, a tintura verde-lodo estava desbotada e descascada. O quintal era grande, com a grama alta e morta, o caminho de pedras quebradas os levava até uma escada com cinco degraus que dava até a varanda larga e estreita com pilares redondos que sustentavam o telhado.
Pararam em frente à porta que era de madeira com várias lascas soltando. Kakashi abriu, fazendo as dobradiças ranger com ferrugem que a consumia. O cheiro de mofo impregnava o local fechado por séculos.
Ele lembrava a última vez que esteve naquele lugar, há trezentos anos. Parecia que tudo estava do jeito que ele havia deixado.
Hinata tossiu, colocando a mão na boca por causa da poeira que circulava aquele casarão. Era a primeira vez que ela tossia.
Sasuke também sentia o incômodo na garganta, mas não emitiu nenhuma demonstração. Apenas fitava o local que ficara mais escuro depois que fecharam a porta.
- Irei procurar uma vela para iluminar o local. - a voz de Kakashi soou baixa e perdida pelos cômodos.
- Ve-Vela? - Hinata ainda estranhava a sua voz fina e doce. Ela teria que sempre se lembrar de falar com a boca e não pelos pensamentos.
Sasuke que estava atrás de si, começou a andar pelos cômodos sem enxergar nada, até esbarrar em alguma coisa, causando um leve susto em Hinata.
- Daniel?
"Eu estou bem." Sasuke disse telepaticamente, tateando com a mão o objeto macio.
Kakashi apareceu com uma lamparina acesa, iluminando a todos. Ele viu os dois anjos jovens. Sasuke com a mão em cima de um sofá antigo no meio daquela sala, com o cenho levemente franzido, e Hinata ainda próxima da porta com a cara assustada e completamente molhada, encharcava o carpete marrom, assim como ele.
- Finalmente encontrei uma lamparina. Estava no mesmo lugar onde deixei. - Kakashi caminhou com a lamparina acesa na mão direita e algumas velas na outra, entregou uma para cada um. - Vocês colocarão uma de reserva nos seus quartos. Ficaremos assim até nós conseguirmos energia. Acho que é isso que os humanos chamam.
"E agora Miguel? O que iremos fazer?" Sasuke perguntou usando novamente seus poderes telepáticos.
- Sasuke, não o quero ver você falando por telepatia, se não for algo importante. - Kakashi o repreendeu, com sua atenção no mais jovem. - Você tem que aprender a usar sua voz. Nós não estamos nos céus, e sim na terra. Temos que nos interagir para que nossa missão seja concluída com sucesso.
Sasuke. Ele achava estranho ser chamado daquele jeito. Ele sabia que era o anjo Daniel, mas naquele momento ele tinha que colocar em mente que é Sasuke agora. Usar a voz para ele era estranho. A sua voz era estranha. Tudo o que estava ao seu redor era estranho. Mas ele iria fazer de tudo para que aquela missão fosse um sucesso, e para que assim voltasse para a paz nos céus.
- Tu... - ele travou, sentindo sua garganta seca e arranhada. Levou a mão ao pescoço, num modo de aliviar aquele incômodo.
- O que foi? - Kakashi perguntou se aproximando do rapaz.
- Uma... - Sasuke arfou, abrindo e fechando a boca.
- O que... ele tem? - Hinata estava ao lado e mantinha uma aparência preocupada.
- Sasuke. - chamou Kakashi, colocando uma mão no ombro do anjo que parecia estar com sufocamento. Ele olhou para a pequeno anjo. - Hinata, procure um recipiente e o encha com água, rápido!
Hinata começando a se desesperar, correu pela casa à procura de alguma coisa. A claridade era pouca, mas ela conseguiu achar uma vasilha de alumínio que estava jogada no chão. Olhou para os lados. Onde poderia enchê-la? Sua respiração estava afobada, e o coração batia forte. Olhou para a janela embaçada pela chuva forte que castigava a cidade, e correu para a sala. Abriu a porta, sentindo o vento frio bater em seu rosto e em suas roupas molhadas, lhe causando arrepios de frio.
Viu a água escorrer pela calha e colocou a vasilha de alumínio e aparando a água. Quando encheu, ela correu para dentro novamente, esquecendo a porta aberta e entregou a vasilha para Kakashi que o pegou e fez Sasuke beber.
- Beba, Sasuke. - ele despejou a água na boca do outro anjo. - Isso.
Sasuke bebia aquele líquido sem gosto. E como um milagre, o ressecamento de sua garganta desaparecia, assim como o arrannhamento. Com as suas duas mãos ele terminou de virar sozinho toda à água, bebendo tudo.
Sasuke sentiu um grande alívio, fechando os olhos em satisfação. Quando os abriu, encontrou um Kakashi lhe fitando, esperando alguma resposta. Desviou o olhar para a pequeno anjo que ainda o olhava preocupada.
- Melhorou? - a voz de Kakashi fez fitá-lo.
Ele balançou a cabeça para cima e para baixo.
- Sim.
- O que ele teve Kakashi? - Hinata perguntou, ainda sentindo os batimentos fortes de seu coração, enquanto suas pálpebras pesavam.
Kakashi a fitou, e depois olhou o outro anjo que o olhava curioso por uma resposta.
- Ele estava com sede. - os dois ergueram mais o olhar diante da resposta do mais velho.
- Sede? - Sasuke perguntou, apesar de sentir a sua voz estranha, mas ele tinha que se acostumar.
- Sim. Agora nós não somos mais anjos, espíritos de luz. Agora somos anjos com o corpo de humano. E como todos os humanos, nós temos suas necessidades. E o que você sentiu foi uma necessidade humana. Assim como a fome, o sono, o cansaço, a sede e assim se vai.
- Então... eu também sentirei sede? - Perguntou Hinata.
Kakashi a fitou de ombro.
- Sim. E assim como Sasuke fez, acho melhor nós tomarmos água também. Para não acontecer o mesmo que ele.
Ela assentiu e saiu com Kakashi para fora da casa, onde encheu o recipiente de água que Sasuke haviam lhe entregado e bebendo em seguida.
Sasuke caminhou pela casa, molhando o carpete com a água que caía de suas roupas molhadas. Olhou aquela sala com estruturas antigas. A poeira estava por todos os cantos. Uma escada onde dava acesso ao andar de cima postava no meio da sala. Sasuke colocou um pé no primeiro degrau, fazendo a madeira ranger.
Tudo aquilo era novo. Tudo aquilo era diferente.
Kakashi e Hinata assim que se satisfizeram suas vontades, entraram novamente para dentro de casa, fechando a porta logo em seguida. Eles encontraram Sasuke no primeiro degrau da escada, olhando a sua mão que estava no corrimão empoeirado.
- Lá em cima ficam os quartos onde vamos dormir.
Sasuke virou sua cabeça para trás quando escutou a voz de Kakashi, e assentiu. Kakashi continuou:
- Temos que tirar essas roupas antes que fiquemos doentes.
- Doentes?
- Sim. Não ficamos doentes que nem os humanos, pois nós podemos nos curar, mas é desconfortável. - Hinata assentiu com a explicação. - Vamos para cima que mostrarei o quarto de vocês.
Kakashi começou a andar, subindo as escadas em passos firmes, passando por Sasuke que ainda estava de pé, parado no primeiro degrau, mas começou a segui-lo. Hinata não ficou atrás e os seguiu também.
O estado do andar de cima estava à mesma coisa que o andar debaixo. A poeira estava por todos os lados, e o cheiro de mofo era mais forte.
Hinata soltou um espirro, e depois outro, e mais outro. Seu nariz coçava, e aquilo estava lhe incomodando.
Kakashi parou em frente a uma porta fechada. Levou a mão na maçaneta e a abriu. Olhou para a menina anjo que ainda espirrava.
- Saúde. - disse ele, fazendo Hinata o fitar com o nariz vermelho. - Aqui é o seu quarto. Entre.
Hinata passou a mão no nariz, tentando aliviar aquele formigamento, e entrou no cômodo quase escuro com a pouca iluminação da lamparina que Kakashi segurava. O mais velho entrou também, caminhando até uma cômoda onde outra lamparina estava, e o acendeu com o fósforo, iluminado o local.
O quarto era grande e espaçoso. A grande cama de casal ficava ao lado da janela com as cortinas fechadas. Um grande guarda-roupa ficava no canto esquerdo do quarto, e ao lado da porta uma cômoda.
Hinata olhou tudo aquilo. Fungou, fitando a penteadeira vazia onde um espelho jazia colado na parede. Ela viu seu reflexo refletido nele. Abriu a boca, levando uma mão fechada até o peito.
A imagem refletida era de uma garota jovem baixa, e linda. Os cabelos molhados e grudados no rosto não diminuíam a beleza estonteante e angelical que ela possuía. Os olhos eram de um azul tão claro que mal podiam ver as pupilas. A pele clara de porcelana constatava com os lábios vermelhos e corados.
Aquela era ela.
Piscou duas vezes. Levou sua mão ao rosto, tocando-o, sentindo a maciez de sua pele lisa e fina.
- Hinata. - ela olhou rapidamente para Kakashi que estava postado no portal, ao lado de Sasuke, que fitava suas ações.
- Sim?
- Dentro daquele guarda-roupa, tem roupas para você se trocar. Ali... - ele apontou para a porta do lado direito. – é o banheiro, onde você vai poder fazer suas necessidades e se banhar. Não fique muito tempo com as roupas molhadas.
- Entendi.
- Vou mostrar o quarto de Sasuke. Quando se trocar, deite naquela cama. - ele apontou. - Feche os olhos e durma. Você precisa descansar para amanhã. Assim como nós.
Hinata assentiu com a cabeça, e Kakashi saiu do quarto com Sasuke.
Ela voltou novamente sua atenção para o espelho, levando novamente sua mão ao seu rosto.
- Essa sou eu.
Um pequeno sorriso brotou de seus lábios, sorriso que aumentava a cada segundo.
.
Kakashi parou na porta ao lado, e a abriu, revelando outro quarto.
- Entre, este é o seu quarto.
Sasuke passou por ele e entrou no cômodo escuro. Kakashi entrou também com sua lamparina, iluminado tudo. Ele fez o mesmo processo que fez no quarto de Hinata. Acendeu a lamparina de seu quarto que estava ao lado de sua cama, postado no lado direito da parede.
Sasuke percebeu que o grande quarto era parecido com o quarto ao lado. Caminhou até a janela. Abriu um pouco a cortina empoeirada e olhou a chuva lá fora, caindo naquela noite fria de final de outono.
- Como disse para Hinata, no guarda-roupas tem roupas que servirão em você. Tire essas e coloque as secas. - Sasuke o fitou. - A porta ao lado é o banheiro. Você sentirá necessidades e é para lá que você vai ir.
- Entendi. - ele respondeu, apesar de não entender o que realmente são essas necessidades.
- Troque de roupa e deite na cama e durma.
- Dormir?
- Sim. Só feche os olhos e deixe a mente limpa, pois assim o sono virá e você vai relaxar e amanhã acordará mais disposto.
Sasuke assentiu.
- Boa Noite. Qualquer coisa, meu quarto é de frente ao de vocês.
Kakashi saiu, o deixando sozinho.
Sasuke olhou em volta, escutando o barulho da chuva caindo pela janela. Ignorando, ele caminhou até o guarda-roupas e o abriu. Tinham roupas como calças e camisas, todas brancas. Pegou uma calça e uma camisa igual ao que ele vestia.
Levou suas mãos a barra da camisa e o levantou, revelando seu peito definido. Ele fitou seu peito que subia e descia diante de sua respiração. Ele podia ver alguns sinais marrões espalhados em seu corpo. Ignorando tudo, levou suas mãos até a barra da calça de elástico e a desceu, ficando totalmente nu.
Sua atenção foi para a sua masculinidade que estava no meio de suas pernas. Franziu o cenho.
- O que é isso? - sua voz saiu tão baixa que mal podia ser ouvida.
Levou a mão até seu membro e o pegou, segurando. Ele não entendia o porquê daquilo, e para que aquilo servia. Humanos são estranhos. Eram seus pensamentos.
Largou seu membro flácido e pegou a calça e a colocou, em seguida a camisa. Ainda de cenho levemente franzido, resolveu vasculhar o local. Abriu todas as gavetas da cômoda encontrando nada. Caminhou até a cama e sentou-se, sentindo a maciez do colchão, espalmando com a mão em volta. A poeira subiu fazendo-o torci levemente.
Levantou-se da cama, ficando de frente para ela. Passou a mão novamente no colchão empoeirado, sujando sua palma. Fechou os olhos e usou seus poderes. Sua mão tomou uma tonalidade amarelada, misturada com um azul caríssimo. Quando abriu os olhos novamente, a cama, assim como o quarto todo, não tinha um pingo de pó. Estava totalmente limpo e arejado.
O canto de sua boca se elevou minimamente para cima, satisfeito com o que havia feito.
Caminhou até a porta onde ficava o banheiro, e a abriu. O banheiro não era grande, mas também não era pequeno. Uma banheira grande de mármore estava ao lado esquerdo, e uma pia pequena estava logo a sua frente, com um armário com espelho médio.
Assim como Hinata, Sasuke se prendeu aquela imagem que estava refletida ali. Aproximou-se mais e permitiu se observar. A má iluminação não lhe permitia enxergar sua fisionomia perfeitamente.
Ele fechou os olhos e se concentrou. Uma hora o banheiro estava escuro e na outra, o banheiro estava iluminado com um clarão ceguento por causa das asas brancas que ele tinha a liberado.
Sasuke abriu os olhos e agora podia visualizar sua imagem luminosa diante daquele claro angelical.
O cabelo preto e curto atrás e grande com duas franjas a frente, moldurava os lados de seu rosto. Os olhos eram pretos como a noite de trevas, demostrando sua origem oriental. A pele era pálida, o nariz arrebitado, e a boca estava numa linha reta.
Sasuke era a perfeição de todas as perfeições. A beleza era inteiramente angelical, onde aquela luz azulada que emanava de suas asas o deixava como um ser divino.
Ele ainda estava atônito com aquela situação. Aquele era ele em sua forma humana, com as asas fechadas atrás de suas costas. Parecia uma pintura divina. Tocou seu rosto, sentido sua pele gelada, devido à chuva fria que havia pegado. Sentiu os fios de seus cabelos molhados, e tocou em suas asas, sentindo as penas macias.
Mas uma coisa lhe chamou atenção. Sua asa direita estava com uma réstia vermelha.
Era sangue.
Com o cenho levemente franzido, Sasuke abriu suas asas, tomando todo o banheiro com elas. O clarão se intensificou, mas ele não se importou. Virou sua cabeça para a asa direita, e viu com perfeição o sangue seco que tinha brotado nela.
O sangue da pena que ele havia deixado para trás.
