Capitulo especial
Dez anos de saudade...
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.:: Blood Lust ::.
By Dama 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Alexia Colfer, Jéssica Belmonte e Diana Rossini são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.
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Capitulo 3: Um legado de sangue.
.I.
Mais ou menos vinte anos atrás...
Os passos eram silenciosos e precisos, o sobretudo bordô caia até pouco abaixo dos joelhos, enquanto com ar imponente ultrapassava os últimos obstáculos, para entrar naquela sala.
As paredes de pedra pareciam sussurrar avisos para manter-se afastado, os orbes vermelhos brilharam na escuridão quando a avistou. Tão bela e deslumbrante quanto a exatos duzentos anos atrás.
Gabriel jamais deveria ter lhe subestimado, mas agora aquele bastado iria pagar, como todos que tinham seu sangue correndo nas veias.
Aproximou-se de um trono prateado no meio da sala, uma barreira vermelha envolveu o objeto de sua obsessão. Não seria aquele um empecilho para seu triunfo.
Tocou-a com a ponta dos dedos, sentindo uma forte descarga elétrica correr por se corpo, os orbes tornaram-se ainda mais vermelhos e finos caninos tão brancos quanto o leite tornaram-se salientes em seus lábios.
Não, agora voltara para vencer sobre aqueles que lhe tiraram à vitória no passado, tinha um legado para levar adiante e não se permitiria fracassar novamente.
As unhas bem cortadas e delicadas aos poucos tornaram-se mais longas e tão afiadas como laminas de navalha. Com apenas um golpe, que mortal comum conseguiria notar com precisão seu efeito, a barreira caiu como fragmentos de cristais vermelhos sobre o chão.
-Agora você é minha criança, como deveria ter sido há muito tempo; Aidan sussurrou, antes que uma nuvem negra envolvesse a ambos e momentos depois, vampiro e armadura desaparecessem.
.::A História Dentro da História – O Legado::.
Com um sorriso carinhoso, chamou a criança para sentar-se em seu colo, enquanto deixava o livro que tinha em mãos numa mesa a sua esquerda. A garotinha sorriu, pulando no sofá e engatinhando até si.
Os cabelos castanhos avermelhados brilharam refletindo as chamas da lareira, enquanto os orbes intensos pareciam lhe sorrir tão intensamente quanto os lábios finos e bem traçados.
-Querida, hoje quero lhe contar uma história; o homem de traços refinados e sutis falou, acomodando-a entre seus braços.
-Sobre? –ela indagou, com expectativa.
-Lembra-se quando me perguntou sobre aquela sala que eu lhe proibi de entrar? –Abel indagou, com os orbes acinzentados, quase num tom azulado a fitando intensamente.
-...; Jéssica assentiu.
-É sobre ela que vou lhe contar; ele continuou.
A criança assentiu, esperando ansiosa pelo relato que viria a seguir.
Há muitos anos atrás, dois milênios se não mais, uma batalha ferrenha teve inicio. O mundo era de longe um lugar calmo para se viver, mas mesmo em meio a tanto caos, existiam lugares bons para se viver com tranqüilidade onde se era possível estudar, evoluir e de alguma forma contribuir para um bem comum.
Assim era Lemúria, a terra daqueles que construíram com suas próprias mãos a herança de Athena, as sagradas armaduras. Ao todo eram oitenta e oito, divididas pelos minerais usados em sua confecção. Doze representavam as estrelas zodiacais, cujo mineral utilizado era o ouro. Vinte e quatro eram feitas de prata e as demais, de bronze.
Entretanto, havia uma última armadura, que continha todos os minerais em sua estrutura de maneira equilibrada e perfeita. Não existiam falhas. Somente outra poderia se comparar a ela e essa armadura era a de Fênix, a ave imortal que com asas flamejantes, incendeia os desertos intocáveis.
Uma armadura, com semelhantes poderes a de Fênix, não seria dada a um guardião qualquer, mesmo porque, essa era a herança dos deuses, a obra prima de Hefésto criada na Terra.
Naquela armadura, aparentemente frágil diante do poder divino, forças conflitantes foram depositadas, a luz e a escuridão, o que a tornou objeto de desejo de muitos seres cujo caráter era dos mais baixos.
A armadura de Vampiro. Como assim ela foi chamada, já que dava ao portador, o poder de canalizar o cosmo e potencializá-lo, tornando a armadura impenetrável e tão imortal quanto ao ser que representava. Ninguém que a usasse seria vencido, os poderes ocultos nela jamais permitiriam.
Por isso ela era um perigo...
Desesperados para se livrarem de uma arma que poderia trazer a desgraça a todo um povo, os lemurianos permitiram que um homem do ocidente a levasse e a lacrasse num local onde jamais seria achada, já que, ninguém conseguiria destruí-la.
Assim, a armadura de Vampiro foi lacrada em Constanta, um condado no interior da Romênia – quando a mesma ainda nem se chamava Romênia, próximo ao Mar Negro, mas contam que séculos depois ela foi encontrada por Lord Aidan Dracul, último descendente dos Dracul de Vlad Tepes, da Transilvânia.
Sedento por vingança, devido ao seu predecessor ter perdido o trono, por causa de um bastado traidor, Aidan jurou usar todos os recursos de que dispunha para trazer o poder da Romênia de volta à família, mesmo que chegasse a extremos, como o fez.
Descobrindo a localização da armadura, convocou um grupo de mercenários para encontrá-la nas entranhas da montanha e matar qualquer um que tentasse impedir. Cruel e sem piedade, devastou muitas cidades até começar a colocar seus planos em andamento, mas jamais pensou que ele fosse entrar em seu caminho.
Filho único e herdeiro do legado dos caçadores, Gabriel Van Helsing, atual guardião da sagrada armadura, estava disposto a correr os mesmos riscos que Aidan, para detê-lo.
A batalha foi sangrenta, Constanta foi banhada de sangue e devastada pelo poder ameaçador daqueles dois extremos. Aidan pereceu, prometendo vingar-se e um dia voltar. Gabriel saiu vitorioso, conseguindo lacrar novamente a armadura.
Segurança nunca era de mais; esse era o lema que o caçador carregava consigo, sempre. Por isso, garantiu que seus descendentes fossem treinados e se tornassem dignos do legado que carregavam. Mesmo que fosse uma herança manchada por sangue, principalmente a do clã Dracul.
Aidan um dia voltaria, ele sabia disso. Mesmo porque, ele era um Dracul, descendente de Vald e ninguém jamais esqueceu a forma como o corpo do antigo empalador desapareceu após sua morte, quando o mesmo, pouco antes disso, dissera que um dia voltaria para vingar-se daqueles que lhe deportaram do trono.
Mesmo que indiretamente, ele o fez. Durante vários dias, o pequeno povoado da Transilvânia, passara por maus momentos, vendo monstros e assombrações em cada canto escuro que encontravam pelo caminho. Até que tudo ficou silencioso e o prenuncio de tempestade chegou, quando mais de vinte anos depois Aidan apareceu, disposto a retomar aquilo que lhe era de direito.
Pensando que Constanta não seria mais um local seguro para abrigar a armadura, Gabriel a tirou da Romênia, levando-a para a Inglaterra, onde numa fortaleza no interior do país, poderia erguer suas defesas e, apesar de tudo, buscar um pouco de paz em meio a tanto caos.
Assim, continuou a linhagem dos caçadores, até os tempos de hoje...
-E eles, somos nós? –a pequena perguntou, depois de ouvir a história até o fim.
-...; Abel assentiu. –Sim pequena, nós temos que levar esse legado até o fim, já que ela jamais será destruída;
-Mas porque o senhor esta me contando isso? –ela indagou, confusa.
-Um dia, não estarei mais aqui; ele falou um tanto quanto hesitante.
-Por quê? –Jéssica perguntou chorosa, ao compreender de imediato o que aquilo significava.
-Você sabe, sou um cavaleiro a serviço de Athena, alem de guardião dessa fortaleza; ele explicou, tentando acalmá-la. –Alem do mais, não posso ir contra meu destino;
-Não concordo; ela falou, cruzando os braços na frente do corpo, com ar enfezado.
-Mas um dia irá... Eu sei que, apesar de tudo, irá; Abel falou, afagando-lhe os cachinhos.
Envolveu-a entre os braços, fazendo-a acomodar-se melhor, pousando a cabeça sobre seu peito. Era melhor esperar um pouco mais de tempo, antes de contar a ela o resto da história.
Aquela parte em que lhe diria que seu destino para com a família já estava traçado e que, quando chegasse à hora, somente ela poderia levar isso adiante.
Um dos maiores temores de Gabriel, quando constituiu sua própria família era esse, que todos, sem exceção, um dia viessem a ser prejudicados pelo legado, já que Aidan, não deixaria de cumprir sua promessa quando chegasse a hora.
Agora só lhe restava esperar que sua pequena caçadora, estivesse pronta para ele. E que soubesse enfrentar o que o destino lhe reservava.
.II.
Um grito feminino ecoou pelas paredes de pedra, enquanto o som de coisas se quebrando foi ouvido. Empregados saiam dos mais variados lugares, seguindo o som, para saberem o que estava acontecendo.
-MALDIÇÃO; ela berrou, antes de quebrar mais uma ânfora que jazia sobre um aparador dourado num canto da parede.
Aquele castelo era conhecido como um ambiente tranqüilo e pacifico, porém todos já haviam se acostumado com o temperamento intempestivo da jovem herdeira.
A fortaleza de Arshet localizava-se numa pequena cidade, ao interior da Inglaterra, num lugar tradicional, com poucas pessoas, onde todos sempre se conhecem de longas datas, por isso, não era necessário maiores explicações sobre a rotina dos moradores do castelo.
-O que aconteceu, milady? –um senhor já de idade indagou, vendo a jovem de melenas flamejantes bufar, com os orbes serrados de maneira perigosa.
-Quem veio aqui enquanto estive fora? –Jéssica perguntou, contendo-se para não quebrar mais alguma coisa.
-Ninguém; ele respondeu, olhando para os lados, buscando a origem de tudo aquilo.
-Mas o que aconteceu? –uma senhora indagou, enxugando as mãos em um guardanapo, provavelmente vinha da cozinha.
-Roubaram minha armadura; ela falou, voltando-se para a senhora com um olhar frio.
-Mas milady, ninguém entrou aqui; Alfonce respondeu, aflito.
Como alguém poderia ter roubado uma armadura qualquer, mesmo na fortaleza, era impossível, embora não estivessem mais na era medieval, onde ela era repleta de soldados, a segurança ali era impecável.
-Alem do mais, essa sala esta repleta de armaduras e-...;
-Alfonce, foi a minha armadura que roubaram; Jéssica falou pausadamente, com o punho tão serrado, que finos cortes começaram a formar-se na palma de sua mão pelas cunhas afiadas. –A minha;
Um pesado silêncio caiu sobre a sala quando o mordomo compreendeu em que implicavam aquelas palavras. Não era nenhuma das armaduras de ferro fundido que estavam enfeitando a sala. Era a armadura que estava no legado da família a gerações. A armadura que o primeiro patriarca da família resgatara e protegera de mãos vis, passando esse legado por todas as gerações.
-A culpa não é de vocês; a garota falou, quebrando aquele silêncio. –E sim minha por ter demorado tanto a voltar; ela completou.
Se não tivesse demorado tanto para retornar do santuário, talvez a armadura não tivesse sido roubada, o pior, é que teria sérios problemas se alguém pouco 'bem intencionado' colocasse as mãos nela.
A armadura de vampiro estava no legado da família Belmonte há muitos séculos, desde quando ainda nem se chamavam Belmonte. Não poderia permitir que o pior acontecesse.
-O que fará milady? –Marisa perguntou, preocupada.
-Vou ao santuário avisar o que aconteceu, de lá, não sei. Vou encontrar o bastardo que se atreveu a entrar aqui e decapitá-lo será pouco; ela falou antes de deixar a sala das armas.
Olharam em volta preocupados, seria realmente muito perigoso se aquela armadura caísse mãos estranhas.
-O que será que vai acontecer? –Marisa perguntou, temerosa.
-Lady Belmonte sabe o que faz, mas tenho medo que ela possa se colocar em risco, por causa do legado de Gabriel; Alfonce falou, sério.
-Enquanto Lorde Abel estava aqui ela era bem mais passiva; a senhora comentou com pesar. –Mas tudo mudou muito de uns tempos para cá não?
-...; o mordomo assentiu. –É um legado muito pesado para se levar adiante, sendo tão jovem;
-Minha mãe contava histórias interessantes sobre os primeiros caçadores; Marisa comentou. -Ela dizia que a avó dela havia servido lorde Gabriel e que ele já havia enfrentado muitas coisas antes de casar-se com lady Kara;
-Lady Kara era uma amazona, pelo que sei; Alfonce comentou.
-...; a senhora assentiu. –Mesmo para a época, ela dizia que lorde Gabriel não ficou decepcionado quando lady Kara deu-lhe apenas uma filha e assim, começou o legado das caçadoras, até lorde Abel;
-Ele também tornou-se um cavaleiro a serviço do santuário, mas jamais abandonou suas funções para com o legado Belmonte; o mordomo falou.
-Agora Jéssica segue o mesmo caminho; a senhora murmurou pensativa. –Mas será que essa armadura, vale mesmo tudo isso? –ela indagou.
.III.
Sentou-se em uma cadeira, colocando o elmo sobre o colo, enquanto com uma flanela começava a polir a armadura, já passara uma semana no santuário e estava ficando entediado.
Sempre que podia saia com Aioros fazer as rondas pelo santuário, ou ia até o último templo ajudar o Grande Mestre com aquela imensa biblioteca desorganizada, mas sentia falta de algo; ele pensou dando um baixo suspiro.
Por um segundo, seus sentidos ficaram em alerta, havia alguma coisa errada. Um cosmo nem um pouco calmo aproximava-se. Deixou o elmo sobre o banco e foi rapidamente até a entrada do templo.
Foi com surpresa que viu uma jovem de melenas vermelhas subir as escadas, porém vê-la não foi tanto o motivo do choque e sim, vê-la sem mascara, os orbes castanhos pareciam avermelhados devido ao sol que chocava-se sobre eles, engoliu em seco por um segundo, todas as mulheres que freqüentavam o santuário eram amazonas e usavam mascaras porque ela não?
-Quem é você? –Saga perguntou.
Ela parou, voltando os orbes em sua direção, estremeceu tendo a tenra sensação de que seria mais saudável ficar quieto.
-Suponho que você seja o novo guardião de Gêmeos? –ela falou fitando-o dos pés a cabeça, sem um pingo de descrição.
-Algum problema quanto a isso? –ele perguntou, indignado com o sorriso nada inocente que surgiu nos lábios da jovem.
-Problema algum? –Jéssica respondeu continuando a subir.
-Você ainda não disse quem é? –o geminiano falou, barrando-lhe o caminho.
-Quem sabe outra hora, estou com presa agora e nem um pouco disposta a ficar e conversar; ela falou dando a volta e continuando.
Estava irritada, impaciente e com muita, mas muita vontade de matar alguém, então quanto menos tempo demorasse melhor iria ser; ela pensou passando pelos corredores que levavam ao próximo templo, quando sentiu o cosmo do geminiano expandir-se e as paredes do corredor tornarem-se brancas e pretas.
-Podemos fazer isso do jeito fácil, ou difícil? Você decide? –Saga perguntou, enquanto sua voz ecoava pelas paredes, sem lhe dar uma localização exata.
-Tudo bem; Jéssica deu de ombros. –Vamos pelo jeito difícil então;
Uma nuvem escura caiu sobre o templo de Gêmeos, alertando os demais guardiões para algo muito errado que iria acontecer.
Elevou seu cosmo, mantendo o labirinto, ela não iria passar, não enquanto não lhe dissesse quais eram suas pretensões e quem era; Saga pensou convicto. Não sabia como Touro havia deixado que ela passasse, mas ele não permitiria isso.
-É melhor desistir garota; ele falou.
Não gostava da idéia de estar lutando contra uma mulher, mas se fosse necessário, era um cavaleiro em nome de Athena e sua função era impedir a passagem de estranhos por seu tempo.
-Vai sonhando; ela respondeu em tom debochado.
Se alguém lhe perguntasse, jamais seria capaz de explicar o que aconteceu naquele labirinto, ou como em um momento ouvia a voz dela e no seguinte, o farfalhar de aças por toda a parte;
Aquilo era apenas uma ilusão ou algo real? –ele se indagou, tentando manter-se na defensiva, entretanto um vento forte envolveu-lhe o corpo como correntes de aço. Um fraco gemido escapou de seus lábios, enquanto lutava para se soltar, mas era em vão. Seu corpo caiu contra o chão num baque seco, mas mesmo assim, teve a impressão de ouvir asas finas baterem em seus ouvidos antes de se afastar.
O labirinto se desfez como por mágica...
-Eu realmente não queria ter apelado para a ignorância; Jéssica falou, aproximando-se do cavaleiro. –Bem... Só um pouquinho; ela brincou, antes de ajoelhar-se a seu lado. –Como você está?
-Você é louca, ou o que? –Saga vociferou. Ela ainda tinha coragem de lhe perguntar como estava? Onde já se viu, agora era ele com vontade de matar alguém.
-É melhor controlar a língua garoto; ela falou fitando-o com os orbes serrados, mas antes que pudesse reagir, levou um golpe forte por trás de suas pernas que a jogou contra o chão. O pilantra havia lhe passado a perna, literalmente.
-Elas por elas; Saga rebateu sarcástico. Entretanto não esperava por uma nova investida, nem que no momento seguinte, estivessem quase se engalfinhando no chão do templo de Gêmeos.
-Idiota;
-Petulante; ele falou segurando-lhe as mãos no alto da cabeça, antes que a mesma lhe arranhasse, ou fizesse coisa pior.
-Oras seu; ela vociferou, antes de se darem conta da situação um tanto quanto constrangedora em que se encontravam.
Um silêncio pesado caiu entre ambos, às respirações eram ofegantes devido ao cansaço. Voltou-se para a jovem, vendo os orbes castanhos nublados pela irritação, enquanto ainda detinha-lhe o movimento das mãos.
Ela poderia voltar a lhe atacar a qualquer momento, mesmo tendo o peso de seu corpo para deter-lhe os movimentos, entretanto seu olhar lhe desafiava a dar o primeiro passado, como se duvidasse que no próximo round ele teria alguma chance.
Não conseguia entender como uma garota como aquela conseguia ser pior que um cavaleiro de ouro, parecendo ser tão frágil e delicada. Agora conseguia lembrar-se dela, era a garota que acabara com Lucien há uma semana atrás, permitindo que Aioros ficasse com a guarda da armadura de Leão, mas naquele dia ela estava de mascara; ele pensou surpreso.
-Jéssica;
Mal teve tempo de ver quem estava chegando, quando uma dor aguda fé-lo perder a noção do tempo e de seus sentidos. Conseguia até mesmo ouvir seu coração batendo num lugar inadequado.
Tombou para o lado, com a respiração presa na garganta e os orbes serrados, enquanto ela agilmente se levantava, ignorando-lhe completamente.
-Tio; ela falou reconhecendo o cavaleiro do templo seguinte.
-Esta com algum problema? –o canceriano perguntou curioso, ao ver Saga levantar-se um pouco cambaleante do chão, resmungando algumas imprecações.
-Não, apenas aquele idiota que não me deixava passar; a jovem falou como se fosse à coisa mais normal do mundo.
-Certo... Mas o que veio fazer aqui? –ele perguntou curioso.
-Vim falar com o velho; Jéssica respondeu com um sorriso travesso. –Não posso demorar;
-Aconteceu alguma coisa em Arshet? –Giovanni perguntou serio. Para ela mal ter ido para casa e já voltado, era porque as havia algo errado.
-...; ela assentiu. –Mas eu vou resolver, não precisa se preocupar. Só quero avisar o velho que vou sair em missão;
-Então eu lhe acompanho; Giovanni falou e antes que ela pudesse responder, ele adiantou-se. –Venha conosco Saga;
-O que? –o cavaleiro falou espantado.
-Tem mesmo? –Jéssica perguntou arqueando a sobrancelha.
Serrou os orbes na direção da jovem, vendo-a dar de ombros, como se sua presença fosse insignificante. Entretanto, só para aporrinhar, decidiu seguir com o canceriano até o último templo.
-o-o-o-o-o-o-
Fitou atentamente a taça de vinho semi-cheia que tinha nas mãos, a noite caia sobre o castelo, mas não se importava com isso. Seus planos aos poucos estavam se encaminhando como queria e ninguém iria impedi-lo; Aidan pensou.
Agora que Abel já não estava mais lá para proteger a armadura, foi muito fácil recuperá-la. Era uma pena que Gabriel já não estivesse ali, gostaria de mostrar a ele o quanto seus descendentes são fracos, já que nem uma simples armadura foram capazes de proteger; ele pensou com um sorriso de escárnio.
Em breve iria vesti-la e ninguém se atreveria a ir contra suas ordens, o império Dracul iria reinar novamente e ninguém, mas ninguém se atreveria a lhe desafiar.
-o-o-o-o-o-o-
Olhou-a de soslaio, vendo-a cumprimentar todos que encontravam pelo caminho com cordialidade, diferente da forma como haviam se tratado em Gêmeos. Bufou, garota irritante;
-Saga, você esta com cara de que quer matar alguém; Giovanni comentou, enquanto a jovem andava mais a frente, distraída conversando com Aioros. Já que o sagitariano decidira seguir com eles até o ultimo templo.
O amigo sempre fora bastante comunicativo e até mesmo com aquela garota ele parecia estar se dando bem. O que a tornava ainda mais irritante; Saga concluiu.
-Não é nada; ele resmungou.
-Espero que não esteja bravo com a Jéssica; o canceriano falou calmamente.
-Não, imagina? Mas você não esta querendo começar a colecionar cabeças, não? Posso lhe ajudar, começando a cortar algumas; ele sugeriu, com um olhar envenenado, porém parou ao ouvir o cavaleiro rir.
-Uhn! Isso me cheira a ciúme; Giovanni falou em tom de provocação.
-O que? Ficou louco?
-Oras, já percebi a forma como esta olhando para os dois. De duas uma, ou você não gosta de dividir a amizade do Aioros com outra pessoa, ou realmente, não esta gostando nada nada de ver a Jéssica se dando tão bem com ele; o canceriano falou.
-Que absurdo; o geminiano falou consternado.
-Talvez... Mas convenhamos, tem lógica. Não? –ele rebateu.
Resmungou em protesto. Ele, com ciúme daquela garota? Realmente, um grande absurdo; o cavaleiro pensou, enquanto continuavam a subir. Passaram por Peixes e até mesmo o devasso do Alister ela cumprimentou com cordialidade. Trincou os dentes irritado. Garota petulante.
-Então, você é inglesa? –Aioros perguntou, enquanto subiam.
Estava empolgado com a idéia de conversar com a garota, no dia da entrega das armaduras ela saira muito rápido deixando o santuário e não pode lhe agradecer pelo que fez.
-E italiana; ela completou sorrindo. –A maior parte da família esta concentrada na Itália, por parte de mãe, o outro lado, é da Inglaterra;
-Ahn! Me desculpe a curiosidade, mas porque você não usa mascara como as demais amazonas? –Aioros perguntou hesitante.
-Porque não gosto; Jéssica respondeu com simplicidade.
-Mas pensei que houvesse uma regra; ele comentou surpreso.
-É, já ouvi alguma coisa assim sobre - ; ela falou, gesticulando displicente.
-Matar ou amar; Aioros completou.
-Deve ser algo assim, mas eu realmente não me importo, só a uso de vez em quanto, por pouco tempo se possível. Detesto aquela porcaria; a amazona falou torcendo o nariz.
Entreabriu os lábios para falar, porém não conseguiu colocar os pensamentos em palavras. Definitivamente nunca conhecera alguém assim.
-Gostei de você; Jéssica falou, chamando-lhe a atenção. -Pelo menos agora sei que Eraen fez uma boa escolha ao treiná-lo para Sagitário; ela comentou, chamando-lhe a atenção.
-Obrigado... Eu acho; Aioros balbuciou corando levemente, enquanto tinha a leve impressão de ouvir um rosnado atrás de si.
.IV.
Sentou-se em seu trono na sala principal, nem em seus duzentos e tantos anos conseguira se preparar para o que estava acontecendo agora. Viu quatro pessoas entrando no templo principal e sua respiração ficou presa na garganta.
Quando sentira o cosmo dela nas imediações do santuário, surpreendeu-se com o fato, já que ela não deveria estar ali, mas recebera uma mensagem perturbadora de um dos agentes do santuário o que talvez explicasse a presença dela ali.
-Grande Mestre; Giovanni falou, prestando uma breve reverencia antes de dar passagem aos outros.
-Jéssica, pensei que estivesse em Arshet; Shion comentou, aborrecido com o fato de vê-la sem mascara. Onde já se viu, uma amazona não se preocupar com esses detalhes, ainda não conseguia entender como alguém tão rebelde conseguia ser filha de Abel.
-Também estou feliz em lhe ver velho; ela falou em tom de provocação.
-Jéssica, por favor; o canceriano pediu, sentindo o olhar dardejante do Grande Mestre, mesmo por baixo da mascara.
A garota deu de ombros, enquanto se aproximava.
-Só vim lhe avisar que um bastardo roubou minha armadura, como você gosta de estar a par das fofocas, é isso; Jéssica falou de uma vez, deixando-o ainda mais indignado. –Estou partindo agora para buscá-la, mas perdi algum tempo com o fedelho ali; ela completou indicando o geminiano, que pretendia reclamar indignado, mas Shion adiantou-se.
-Já chegou ao meu conhecimento o roubo; ele falou.
-É? –ela falou, arqueando a sobrancelha.
-Imagino que você já saiba quem esta por trás disso; o ariano comentou, cruzando as pernas elegantemente e recostando-se no estofado das costas da cadeira.
-Sei... Por isso estou com pressa; Jéssica avisou.
-Então, você também deve saber que ir até lá é perigoso; ele continuou, não dando importância a evasiva dela.
-Sei me virar muito bem sozinha; a amazona rebateu com um olhar gélido.
-Não duvido, mas Saga vai com você; Shion falou indicando o cavaleiro.
-O QUE? –os dois berraram.
-Isso mesmo, essa é a primeira missão dele e você não pode ir sozinha;
-Posso muito bem ir sozinha, em vez de ficar bancando a baba; ela vociferou.
-Imagino que seja eu que tenha de dizer isso, pirralha; o geminiano falou parando ao lado dela, irritado. Olhando para baixo, deixando evidente a diferença de alturas, já que ela batia pouco abaixo de seus ombros, mas mesmo tão poucos centímetros, já lhe davam uma boa vantagem.
-Pirralha é a-...;
-Jéssica; Giovanni a cortou, pousando a mão sobre seu ombro, impedindo-a de pular em cima do geminiano e esganá-lo. –O Grande Mestre tem razão, é melhor que não vá sozinha, sei que você pode se virar, mas é perigoso; ele falou sério.
-Mas...;
-Eu posso ir no lugar dele se for o caso; Aioros sugeriu, manifestando-se pela primeira vez.
-Não; Saga e o canceriano falaram ao mesmo tempo, surpreendendo a todos.
-Algo a dizer sobre isso, Giovanni? –Shion perguntou, arqueando a sobrancelha por baixo da mascara.
-Acho que Saga ainda precisa de experiência de campo e nada melhor do que ir com Jéssica nessa missão, para conseguir isso; o canceriano falou com um sorriso carinhoso para a jovem de melenas cor de fogo.
Ele e Abel eram grandes amigos e sua partida fora a pior das perdas que o santuário já sofrera, principalmente por ter deixado a filha ainda muito jovem com um legado muito pesado a carregar, mas que aos poucos ela ia conseguindo. Agora o roubo da armadura, poderia acarretar coisas que ninguém jamais imaginou.
-Apesar de ter de agüentar a pirralha ai, eu prefiro sair logo em missão, estou ficando entediado naquele templo; o geminiano falou aborrecido.
-Saga; Aioros falou, com um olhar de repreensão.
-É verdade; Saga rebateu.
-Eu prefiro ir sozinha; Jéssica falou, respirando fundo.
-Giovanni está certo, vocês vão juntos; Shion falou por fim, antes que eles tentassem se matar. Se bem que, não era uma boa idéia viajarem juntos, acidentes poderiam acontecer a qualquer minuto; ele pensou engolindo em seco ao pensar nas possibilidades;
-Mas...;
-Vou mandar Ares arrumar as passagens e o mais breve possível vocês estarão saindo; ele avisou, levantando-se.
Numa reverencia forçada, ela fitou-o sair do templo. Com os punhos serrados e com um olhar que faria nevar no inferno.
-Você sabe que essa é a melhor alternativa; a voz suave do canceriano chegou a seus ouvidos.
Suavizou a expressão, Giovanni era um bom mentor, alem de ser o melhor amigo de seu pai. Era a única pessoa que ainda conseguia confiar, talvez ele estivesse certo e aquele fedelho poderia ser útil em alguma coisa; ela pensou, observando o geminiano discutir com Aioros.
-É, parece que sim; ela balbuciou pensativa.
-o-o-o-o-o-
Saiu das sombras, encontrando-o em frente à janela. Em menos de uma semana conhecia muito bem aquele lugar para andar livremente sem ser importunado. Já que agora, era obrigado a ser a sombra; ele pensou, com os orbes verdes fixos na figura mascarada.
-Desculpe por chamá-lo assim tão de repente; Shion falou, seu tom de voz denotava seriedade, diferente da onda de nervosismo que o assolava por dentro.
-Aconteceu alguma coisa com meu irmão? –ele perguntou em tom neutro. Apesar de tudo que acontecera, não conseguia simplesmente se desligar da idéia de que agora era seu irmão que tinha mais possibilidades de morrer em uma guerra do que ele, que não era nada ali; ele pensou, com os punhos serrados.
-Vai haver uma missão; Shion falou virando-se. –Para Constanta;
-Romênia? –o jovem falou arqueando a sobrancelha.
-Exato, Saga vai em missão com uma amazona, mas por ser a primeira pode ser perigoso;
-E suponho que você queira que eu banque a baba? –Kanon perguntou com escárnio ao constatar as intenções do Grande Mestre.
-Kanon, sei que as coisas entre você e Saga estã-...;
-Nada; ele o cortou friamente. –Saga é o cavaleiro de Gêmeos agora e eu não tenho nada a ver com o santuário;
-...; ele assentiu. Fora Eraen a escolher um dos gêmeos para a armadura, ela lhe falara os motivos que a fizeram escolher Saga e o fato dele enfrentar o irmão e vencer, apenas reforçaram a certeza da escolha certa, mas sabia que Kanon não iria aceitar isso com tanta facilidade. –É muito perigoso, só que Jéssica preferia ir sozinha e-...;
-Jéssica? –Kanon perguntou arqueando a sobrancelha e denotando um leve tom interessado.
-A amazona de vampiro, aquela que lutou contra Lucien há uma semana atrás; Shion explicou.
-Uhn! Interessante; ele murmurou pensativo. –E o que quer que eu faça?
-Vai até Constanta com eles, mas seja discreto;
-Ou melhor a sombra; ele o corrigiu mordaz.
-Kanon-;
-Já entendi Grande Mestre, não se preocupe, vou ser um bom irmãozinho e impedir que aquele idiota se meta em problemas, só não posso garantir nada pela garota; Kanon avisou.
-Aqui esta a passagem e o que você vai precisar para manter-se no ritmo deles; ele falou entregando-lhe uma pasta.
-...; Kanon assentiu, antes de desaparecer entre as sombras novamente. A primeira missão, seria interessante; ele pensou com um sorriso que estava longe de ser inocente.
.V.
Dizer que seu olhar era assassino, era ser gentil. Em seus quinze anos de vida, nunca pensou que fosse ter um desejo tão insano, como o que sobrepujava a razão naquele momento. A vontade de mandar o Grande Mestre para o tártaro era tão grande que já não sabia que queria segura-la ou extravasá-la de uma vez.
-Pense pelo lado positivo; Giovani falou acompanhando-os até o porto, onde pegariam o primeiro navio, que atravessaria o Mar Negro.
-Vou poder afogá-lo, quando partirmos? –Jéssica perguntou com um sorriso letal.
-Hei! – Saga resmungou, sabendo que era dele que ela estava se referindo, alem do Grande Mestre é claro, já que tal desejo assassino com relação ao ariano, era compartilhado por ambos, devido a situação que se encontravam agora.
-O Grande Mestre deve ter enlouquecido; ela bufou.
-Pelo menos nisso concordamos; o geminiano falou, arrumando a laça da mala no ombro.
-Lembrem-se, vocês estão em missão. Sejam ao menos profissionais; Giovanni falou, tentando não rir do olhar assassino que um lançava ao outro.
Shion decidira que a forma mais discreta de fazê-los chegarem a Constanta, era garantir que a identidade de ambos fosse preservada. Com isso, o mais novo casal feliz da Grécia nascera. Senhor e Senhora Caridis. Criar documentos e histórias engenhosas era uma das especialidades do santuário, quando era preciso mandar algum cavaleiro ou amazona em missão, por vezes fora do país.
Entretanto, os dois não pareciam nada felizes em ter de posar de casal, para todos que os vissem; Giovanni pensou.
-Tomem cuidado; ele falou sério voltando-se para a jovem. –No caminho vocês encontraram alguns contatos, usem-nos se necessário, mas não corram risco a toa;
-Você manda tio; ela brincou.
-Boa viajem; o canceriano falou abraçando-a fortemente. –Tome cuidado com Aidan; ele sussurrou.
-Não se preocupe tio, vou trazer a cabeça dele numa bandeja para o senhor começar aquela coleção bizarra; ela brincou, piscando-lhe o olho. –Anda logo, fedelho; a amazona falou lançando um olhar envenenado para Saga, antes de embarcar.
-Oras, sua-...;
-Saga; Giovanni falou, lançando-lhe um olhar de aviso. –Você é um cavaleiro de ouro, mas tome cuidado. Voltem pra casa bem;
-...; ele assentiu silenciosamente, antes de embarcar.
Seria uma longa viajem; ele pensou, mal conseguindo imaginar o quão certo estava disso.
Continua...
