04 - Queimando
Ela ficou em silêncio por vários segundos.
- Não achei que fosse atender. – ela comentou, surpresa.
- Então por que ligou? – demandei. Não estava com paciência para conversa fiada.
- Preciso falar com você... sobre... – ela não continuou. Seu tom de voz soou estranho.
- O que você quer, Rosalie? – demandei novamente.
- Bom, como disse, preciso dizer... lhe colocar a par dos últimos acontecimentos.
- Está tudo bem? Carlisle, Esme? – perguntei um pouco preocupado. Não ligava para ele havia várias semanas.
- Sim, está tudo bem com eles.
Respirei fundo, tentando manter a calma. Não havia motivos para explodir com ela, mas não conseguia imaginar as motivações por trás de sua ligação. Rosalie provavelmente seria a pessoa que mais aproveitaria minha ausência.
- Então, diga logo o que quer. – falei mais rispidamente.
- Como disse, queria te colocar a par dos acontecimentos. Talvez dessa forma você pudesse reconsiderar... e voltar.
Reconsiderar? Não podia fazer isso. Me afastar foi a única coisa boa que fiz em meses de puro egoísmo.
Não poderia voltar, nem mesmo para minha família. Não nesse momento.
- Rosalie, não posso voltar...
- Mas precisa, Esme sente muito a sua falta, você não está sendo justo com ela.
- Ela entende. – sussurrei.
- Ela está sofrendo mesmo assim.
- Não posso voltar... – falei sem saber por onde continuar, ou mesmo como continuar sem saber onde Vitória estava.
- Sei por que acha que não pode, mas não precisa se preocupar mais com isso.
Suas palavras me confundiram.
Vitória havia aparecido por lá? Por que? Não havia motivos para ela ir até o Alasca. Será que Emmett e Jasper a pegaram? Eles sabiam de minha missão e não perderiam a oportunidade de ajudar...
Além de confuso, me sentia extremamente ansioso.
- Você não precisa mais se preocupar com a ruiva.
- Por que não? – cuspi a pergunta entre os dentes. Estava a cada segundo mais difícil me manter "paciente".
- O problema não estava no fato dela possivelmente ir atrás de Bella, que por algum motivo ridículo ela perderia tempo tentando se vingar de uma humana?
Ouvir o nome de Bella ser dito em voz alta me fez perder a voz por vários segundos. Senti meu rosto se contorcer e o ar desaparecer de meus pulmões.
Desespero tomou conta de mim. Vitória havia voltado... Bella!
Essa foi a única conclusão que cheguei, mas não disse nada – completamente incapacitado de encontrar minha voz.
Se Vitória tiver encostado um dedo sequer em...
- Ok, vou ser direta agora. Não existe maneira adequada para dizer o que vou dizer... – sua voz se tornou um pouco mais macia, porém acelerou. Ela suspirou com ardor - Edward, Bella se foi. Alice a viu pulando de um precipício ontem... e correu para socorrer Charlie. Claro, não há muito o que fazer com relação a Bella, considerando que ela não a viu sair da água. Sinto muito. De verdade. Você pode achar que não, mas nunca desejei a morte da humana...
Ela continuou, mas o telefone caiu de minha mão. Era como se não pudesse sentir mais, suas palavras me anestesiaram por alguns segundos e depois... dor.
Bella... morta. Não!
Muita dor. Como se meu corpo estivesse sendo partido em pequenos pedaços e sendo queimado lentamente.
Meu maior medo se tornou realidade. Bella não existia... não mais.
Minha mente considerou – rapidamente - que aquilo poderia ter sido apenas um artifício cruel de Rosalie para me fazer voltar e esquecer do que me fizera partir. Ela era egoísta e cruel o suficiente para fazer isso.
Peguei o telefone novamente – Rosalie ainda falava – e pressionei a tecla "end". Com um suspiro doloroso, disquei os números...
O telefone tocou poucas vezes.
- Residência Swan. – uma voz jovem, rouca e desconhecida atendeu.
- Gostaria de falar com Charlie. – imitei perfeitamente o sotaque e o timbre de voz de Carlisle.
Não pode ser verdade. Não pode ser verdade.
Ouvi a respiração do jovem se acelerar do outro lado da linha.
- Charlie não está em casa.
Seu tom me irritou, precisava de mais informação que isso.
- Onde ele está? Preciso falar com ele, é urgente.
- Ele está planejando o funeral. – a voz não familiar cuspiu as palavras e foi como se algo pontiagudo tivesse acabado de atingir meu peito.
Foi como se o mundo em que estava vivendo – destruído, vazio, sem vida – tivesse acabado de desabar completamente.
Era verdade. Era verdade.
Nada mais existia. Estava sozinho na escuridão e a dor que sentia antes, pareceu querer destruir meu corpo. Como se estivesse sendo puxado em sentidos opostos por uma força arrebatadora.
Bella estava morta. Ela tirou sua própria vida.
Por que?
Achei que a estaria libertando da morte quando me afastei, nunca imaginei...
O que fiz?
Eu a destruí. Destruí sua vida, mesmo sem estar presente, fui capaz de matá-la.
Não consegui expressar o ódio que sentia de mim mesmo. Estava paralisado...
Vitória não importava mais. Minha família... não importava mais. Minha vida significava nada.
Eu não estava mais perdido.
O telefone começou a vibrar incansavelmente. Não olhei para ver quem era, apenas o joguei em uma lixeira, ouvindo apenas meu destino chamar.
Eternidade... foi o que pareceu levar para chegar. O tempo, que antes parecia ter parado, agora, parecia estar se movimentando, dolorosamente devagar... para me torturar.
Mais uma prova de que mereço a dor... dor que me impede de respirar de tão intensa.
Sim. Eu mereço. Eu! Ela não.
Bella não!
Era estranhamente mais doloroso... a mistura... de dor, perda, luto e determinação.
Esse último sentimento era o que me impulsionava, o que fazia minhas pernas se moverem, sem me arrepender ou mesmo reconsiderar por um segundo a decisão que havia tomado.
Estava atento, concentrado. Nem mesmo meus irmãos seriam capazes de me deter.
Tenho que agir rápido para que eles nem sequer tentem.
A melhor forma era ser direto. Pedir para morrer. Por que eles se negariam a me conceder esse desejo? Conhecia bem os Volturi através da memória de Carlisle. Alguns de seus seguidores cessariam minha vida com prazer, sem ao menos ouvir o motivo por trás de minha decisão.
O motivo por trás de minha decisão...
Podia ver seu rosto com tanta perfeição a minha frente, que minha mão automaticamente começou a se mover, erguendo-se para tocá-la.
Claro... não pude. Bella não pertencia mais a esse mundo. Mas meu subconsciente conseguiu conjurar sua voz com tamanha perfeição, que podia jurar que ela estava comigo. Desde o início de meu novo trajeto, venho escutando sua voz – como se acariciasse meus ouvidos – pedindo para parar. Para pensar em Esme e o que minha morte poderia significar para minha família.
Ainda não havia enlouquecido pela dor que sentia.
Ainda.
O que estava sentindo era tão extremo, tão dominador quanto qualquer outra coisa. Meus pensamentos só se mantinham coerentes porque estava determinado e sabia que minha dor, iria em breve encontrar seu fim.
Não merecia viver.
Ao entrar nos limites da pequena cidade italiana, na calada da noite, percebi pela movimentação – discreta - ao redor do grande portão que era apenas questão de minutos antes de ser abordado pelos seres que clamavam esse território como deles.
Esperei – pacientemente – ao lado de um dos grandes muros. Longe o suficiente de qualquer possível olhar humano.
Faltavam poucas horas para o sol se levantar e os olhos que estavam – discretamente – me observando e imaginando o que eu estava fazendo ali, começaram a considerar o que fazer comigo.
A entrada de vampiros em Voltera não era proíbida – desde que a discrição fosse mantida - as leis eram claras e todos de nossa espécie as conheciam. Foi por esse motivo que não fui abordado imediatamente por nenhum membro da guarda. Mas claro, estava sendo observado. Cuidadosamente observado.
Poucos minutos depois, um dos guardas internos se aproximou decidido e me tirar dali.
Não me movi. Ele me arrastou até um local "seguro".
- Não conhece as regras ou é apenas suicida? – sua pergunta não precisava de resposta. Sua mão posicionada estrategicamente em meu pescoço.
Aquilo poderia ser mais fácil do que imaginei.
- Preciso falar com seus mestres. – anunciei em uma voz completamente sem vida.
Ele considerou aquilo por um segundo.
- Então você conhece as regras. – ele afirmou, se perguntando por que não havia tentando os métodos mais tradicionais de contato.
- É de meu conhecimento que seus mestres não recebem qualquer um e eu gostaria muito de falar pessoalmente com eles... ou um deles. – falei, respondendo sua pergunta silênciosa.
Ele franziu a testa e me olhou curiosamente.
Esse vampiro hostil, não tinha a menor intenção de cessar com minha vida ali. Ele não podia. Não sem a autorização de Aro.
Ele considerou minhas palavras...
- E você não se considera importante? – ele questionou ironicamente.
- Nem um pouco.
Sua mão deixou meu pescoço. Ele havia chegado à conclusão que eu estava fraco demais para fugir ou tentar qualquer coisa.
- Conhece as regras e tem desejo de morte. – murmurou ele para si mesmo. – O que o faz pensar que meus Senhores perderiam tempo... – ele me olhou criticamente, tentando entender minha expressão – pude ver meu rosto em sua mente.
- Temos uma pessoa em comum... Aro e eu.
Seus olhos que estavam presos a mim se apertaram ligeiramente. Continuei.
- Pode dizer a seus Senhores que Edward Cullen, filho de Carlisle Cullen, deseja vê-los. Tenho certeza que Aro ficará muito contente em ter notícias de seu velho amigo, Carlisle.
Após ponderar por alguns segundos...
- Espere aqui. – ele ordenou.
Os pensamentos ao meu redor eram como um sussuro. Fiquei ali, queimando e esperando para que tudo corresse da forma mais rápida possível.
Algum tempo depois, outro vampiro retornou.
- Sr. Cullen? – ele chamou educadamente.
Não respondi, apenas o olhei.
- Me acompanhe, por favor.
O segui em silêncio para o interior do grande e elegante castelo, no centro de Voltera.
Não pude deixar de contar os segundos.
Respirar parecia ficar a cada segundo mais difícil. Tão difícil quanto ignorar a mais linda e doce voz em minha mente, implorando para que reconsiderasse.
Sorri sem humor nenhum.
Minha própria mente tentando me convencer do contrário.
O alívio e a punição estavam próximos.
Não fiz esforço nenhum para ignorar aquela imagem e som. Meu sofrimento era maior quando escutava seus apelos inúteis. E eu merecia sofrer.
Queimar.
Meus olhos estavam presos a minha frente, apenas seguindo o vampiro. Os arredores não importavam. Minhas pernas se moviam automaticamente.
Assim que as duas maiores portas se abriram, eu os vi.
Sentados em tronos – ornamentado em ouro, prata e diamantes, bem no final do enorme ambiente. Outros vampiros se mantinham casualmente ao redor dos três. Os protegendo.
Aro – que se sentava ao centro - sorriu para mim, apesar de confuso devido a minha expressão.
- Aqui está ele, mestre. – falou o jovem vampiro.
- Obrigado, Alec.
Com um aceno de cabeça, o jovem vampiro se virou, retirando-se.
- Edward Cullen. Devo admitir... é uma grande surpresa. – falou Aro, agradavelmente.
E ele estava surpreso. Aro nunca acreditou que Carlisle pudesse conseguir encontrar outros que considerassem seguir seu estilo de vida. Mesmo que esses "outros" fossem criados por ele.
- É um prazer imenso, conhecê-lo. – ele continuou animadamente, descendo de seu trono com a mão estendida para mim.
O grupo de vampiros que estavam casualmente ao seu lado, se agitou. Guarda-costas. Sabia que eles existiam, mas era patético ver como se comportavam. Também conhecia a habilidade e o potencial de Aro, então sem uma palavra sequer, extendi minha mão para que ele pudesse ver tudo.
Ele a pegou com fervor e assistir todos meus pensamentos, através dos seus, era ainda mais doloroso. Ele conseguiu entender isso.
Choque cruzou por sua face e após vários minutos em silêncio ele disse:
- Isso é diferente. Muito diferente. – seus olhos em meu rosto. Um sorriso impressionado nos lábios. - Tantas coisas... mal posso acreditar que Carlisle criou tantos...
Um grunido se formou nos lábios dos vampiros que estavam esquecidos atrás de Aro.
- Não se preocupem... todos já estão devidamente cientes e incrivelmente talentosos. – seus olhos brilharam.
Suspirei impaciente.
Aro sabia o que eu queria, mas estava decidido a ignorar naquele momento.
- Seu talento é impressionante. – ele disse olhando para mim e depois virou-se em direção a seus irmãos. – Este jovem também possui a habilidade de ler pensamentos, mas contato não é necessário.
- Impossível. – murmurou Caius, agora parecendo mais interessado. Marcus permaneceu em seu assento, completamente desinteressado.
- Aparentemente não.
- Você não fala? – demandou Caius.
Antes mesmo que pudesse abrir minha boca, Aro respondeu.
- Não é necessário. Ele deseja ser julgado...
- E punido. – completei.
- Um vampiro com consciência? – Caius riu.
- Um vampiro que a pouco perdeu sua alma. – Aro afirmou. – Seu amor.
Marcus me olhou – seus olhos tão mortos como os meus.
- De fato, a lei foi quebrada. – Aro continuou e Caius gruniu.
- Paciência, irmão. Iremos conversar em instantes... mas primeiro. – ele se voltou a mim. – Você está fraco. Meses sem se alimentar... não deseja...
- Não.
Só queria ser punido por tudo que fiz. Era tudo o que queria. O que mais queria.
- Que crime...
- Ele revelou nossa existência a humanos... para uma humana, para ser mais exato. Isabella.
Meu corpo tremeu. Com muita dificuldade me mantive de pé.
Por favor! Volte, volte para sua família.
Respirei fundo. Aquela voz, naquele momento, fazia tudo mais fácil, fazia a espera por meu fim valer a pena.
Aro, Caius e Marcus me olhavam. Aro com cobiça, Caius com nojo e Marcus... bom, Marcus de certa forma não se importava.
- Mas a humana não se encontra mais entre nós. – Aro completou. – Ela se foi. E é por isso que ele está aqui.
- O que? – demandou Caius mais uma vez sem entender.
- Ele a amava.
O verbo não deveria estar no passado. Eu ainda a amo, mais do que qualquer coisa...
- Uma humana? – então todos começaram a rir. Todos menos Aro e Marcus.
- Silêncio! – ele ordenou com um tom mais autoritário. – Perdoe meu irmão, isso é absolutamente novo para nós, mesmo depois de tantos séculos.
- Se a lei foi realmente violada, ele deverá ser punido, Aro.
Sim. Deveria. Mas Aro não tinha a menor intenção de fazê-lo. Não depois de conhecer minha habilidade, não depois de saber da existência de Alice. Sua amizade com Carlisle não exercia qualquer poder na decisão que ele já havia tomado.
Inveja. Esse sentimento passou por sua cabeça e ele instantaneamente mudou sua linha de raciocínio.
- Você está sofrendo por uma humana... e quer morrer por isso.
- Sim. – respondi, mesmo sabendo que ele não havia feito uma pergunta.
- A lei, de fato foi violada, mas em nome de nosso carinho por seu pai eu ofereço...
Ele havia consultado Caius silenciosamente. Com um simples olhar.
- Junta-se a nós. Sua habilidade será muito útil e nós temos... – ele apontou para as mulheres – vampiras – que estavam ao lado de Caius. – muitas distrações mais do que necessárias. Posso garantir que em breve, a memória de sua humana estará no passado.
Grunhi, enojado por sua proposta.
Eu não quero esquecê-la. De forma alguma. Só quero que essa dor vá embora. Quero descobrir se mesmo após virar cinza, ainda pensaria nela, descobrir se o que Carlisle acreditava, era verdade.
- Não. Isso não é o que quero.
- Que pena...
- Aro, se ele cometeu o crime que relata... – Caius começou a protestar.
- Não é tão simples assim, irmão. Tenho grande consideração por seu criador, por seu pai, assim como tenho certeza... você também tem.
Aro virou-se para mim, andando lentamente em minha direção.
- Não acredito que o crime que cometeu tenha sido tão grave, afinal, a humana não se encontra mais entre nós. E você parece estar sofrendo o suficiente por seus erros. Pense em nossa proposta...
Estava cansado daquilo, daquele teatro. Não queria ter que recorrer a outros métodos, mas parece que aquela era minha única opção.
- Não. Vai acontecer de uma maneira ou de outra.
O grande salão estava mais cheio do que antes. Alec havia retornado com sua irmã.
- Você não está em condições de tomar nenhuma grande decisão no momento, meu caro, Edward.
Balancei a cabeça lentamente. Aquilo estava provando ser muito complicado.
- Tudo bem. – ele disse. – é sua decisão, mas eu não posso tirar sua vida sem um motivo válido. Me perdoe.
Sem dizer nem mais uma palavra – não iria mais perder tempo com esse teatrinho – me virei e segui em direção a saída.
Nenhum deles tentou me impedir. Pude ver a imagem de minha figura se afastando na mente de Aro.
Ele estava decepcionado.
O pouco tempo que fiquei ali, deixou claro que os Volturi realmente colecionavam talentos. Eram tantos e de tantas formas... em outra época ficaria impressionado.
Não queria perder tempo. Aro se prenderia a qualquer pequena razão para me manter com ele.
Me refugiei nas sombras das ruas ao redor do grande castelo, para pensar. Pensar em exatamente o que fazer. Existia tantas formas de chamar atenção dos humanos – que agora andavam calmamente pelas ruas da cidade, se preparando para as festividades do dia.
Irônico.
O dia que escolhi para morrer é tão apropriado que chega a ser ridículo.
Os humanos estavam comemorando a expulsão dos vampiros da cidade.
Talvez devesse ver isso como um sinal. Seria mais fácil chamar atenção hoje. Ou pelo menos tentar.
Dezenas de idéias passaram por minha cabeça quando percebi que tudo podia ser mais simples do nunca foram...
Olhei para o sol e minha mente foi tomada para imagem de Bella na campina. Olhando para mim, para o anormal brilho de minha pele. Para o monstro que era.
Ela não parecia me ver dessa forma. Bella pareceu... encantada. O vento soprava e seus cabelos se emaranhavam enquanto ela observava cuidadosamente as facetas escondidas de minha pele.
Ela sorriu para mim e o sol a deixou ainda mais linda
Naquele momento, percebi que a solução para o problema estava diante de meus olhos. Tudo que precisava fazer era esperar para garantir meu fim.
Fiquei imóvel nas sombras de Voltera até que o sol alcançasse o ponto mais alto no céu. Respirei fundo para absorver o perfume – que não estava ali, mas que minha mente reproduzia com perfeição. Eu tentei ouvi-la uma última vez, mas não consegui. Minha mente não conseguiu reproduzir sua voz, apenas seu rosto permanecia...
Eu não merecia ouvir a voz do anjo, cuja vida eu destruí.
Só podia esperar para saber se eu conseguiria vê-la novamente. Se o que meu pai acreditava era verdade.
Queria tanto acreditar no mesmo que ele. Era difícil aceitar que um monstro poderia ter um lugar especial após essa vida.
Não merecia... mas desejava tanto vê-la, tocar seu rosto, seu cabelo, seus lábios...
Com mais um suspiro, olhei para a luz que escondia o meu destino.
Para que não houvesse o menor espaço para desculpas, desabotoei minha camisa e a deixei cair no chão. Estava sozinho na escuridão do longo beco, mas me sentia preso na multidão. Eram tantas vozes ao mesmo tempo. Fiquei surpreso e satisfeito por não reconhecer nenhum dos pensamentos. Talvez Alice tenha visto que nada me impediria... talvez ela entendesse minha dor.
Com os passos de um homem morto me aproximei da linha que separava a escuridão da luz do sol. Havia muito movimento a minha frente, na praça central. A guarda estava espalhada por toda a cidade.
- Isso será rápido... – murmurei sozinho.
A luz se aproximava milimetricamente. Podia sentir os olhos em mim... esperando que eu cometesse algum erro. Bom... eles não teriam que esperar por muito tempo.
O som do grande relógio ecoou pelas paredes, pelo solo.
Podia escutar os pensamentos de cada humano e de cada imortal nas proximidades. Procurei pela última vez por pensamentos familiares... de qualquer pessoa que possa tentar me impedir.
- Edward! – finalmente... escutei sua voz – como para me impulsionar. Eu precisava ver, precisava saber se algo me esperava.
Ela gritava, tentando me conter.
O relógio soou de novo e de novo.
Somente mais alguns segundos.
- Edward, não!
Era como se ela estivesse ali. Fechei os meus olhos – aproveitando o que minha mente reproduzia, aproveitando o som de sua voz. Era um som desesperado, quase sem fôlego.
Só mais uma batida...
Assim que o som ecoou pela cidade, iniciei o passo para o desconhecido.
- Não! Edward, olhe para mim!
Eu estava olhando. Seu rosto estava em todos os meus pensamentos.
Sorri ao perceber que agora podia também sentir seu perfume. Tão doce, tão concentrado... aquele cheiro tão atraente e delicioso parecia ficar mais forte como passar dos segundos. Até mesmo sua voz parecia estar mais próxima.
Minha garganta queimou. A alucinação era mais do que perfeita.
Antes que pudesse me colocar a mercê do sol, algo me atingiu. Eu esperava pela dor física, o que não aconteceu. Talvez estivesse imune a ela, talvez a dor que já sentia fosse pior do que os Volturi pudessem infringir.
O som da batida do relógio ecoou novamente.
O perfume era real demais, sua pele era real demais.
Abri meus olhos lentamente, não sabia o que esperar... então a vi.
Paraíso.
...
NOTA
Segue mais um capítulo de um dos períodos mais sombrios da vida de nosso Edward.
Não deixem de comentar, Ok?
Por enquanto é só.
Valeu pelos recadinhos...
E mais uma vez... COMENTEM...
