Milo abriu com um pouco de nervosismo a porta da frente de sua casa, aquele ato o enchia de lembranças de sua infância.
"Fique à vontade. Faça de conta que nunca deixou de visitar o lugar." Murmurou, indicando o sofá a Camus, que sentou imediatamente, rindo.
"Milo, seu senso de humor continua inigualável." O loiro corou levemente e, ignorando o comentário, se encaminhou para o único quarto da casa.
Abriu o armário, tudo repousava na mais serena organização. No fundo, ele guardava uma caixa cujo conteúdo não conseguia jogar fora. Conteúdo esse que era feito de aparentes trastes, mas já tinham sido verdadeiros tesouros.
Uma foto da família Portokalos e todos os seus quatro filhos; – três mortos, apenas Milo vivo – um pião quebrado; uma jaqueta de couro – Milo corou ao vê-la e espantou-se ao constatar que não restava nem um pouco de seu cheiro original – e um envelope pardo. Foi este último que ele pegou, com delicadeza e saudade.
Ao entrar na sala, Camus levantou-se e só sentou-se novamente quando Milo fez o mesmo. O loiro deu um pequeno sorriso, Camus ainda conservava aquela mania de cavalheirismo. Mas ele não era uma donzela. Camus o seria, essa noite.
/
No bar onde levaram Hyoga, a música era principalmente antiga, música negra antiga. Jazz, blues, soul.
Quando Milo e Camus entraram, era uma gravação de Nat "King" Cole que começava a preencher o local.
As atenções se voltaram para a "menina" e seu "acompanhante" que entraram no bar. Mesmo em um submundo como aquele, era necessária muita coragem para travestir-se em 1967.
O vestido de Athina servira perfeitamente em Camus, para desespero de Milo. Longo, negro, brilhante, com uma sugestiva fenda lateral.
O grego nunca entendera a ausência de pelos na maior parte do corpo de Camus, suas pernas finas eram quase femininas. Talvez tenha sido por isso que os pais dele desistiram tão imediatamente do filho. Talvez tenha sido por isso que seus pais não tenham perdido a fé em Milo tão depressa.
Mas a música já começara e Milo nem percebera quando Camus agarrara seu pescoço e começara a dançar com ele. Mais perto, cada vez mais perto da mesa de Saga e Kanon.
"Siempre que te pregunto
Que, cuándo, cómo y dónde
Tú siempre me respondes
Quizás, quizás, quizás"
Por que aquela música? Logo aquela? Logo uma que parecia ter sido feita sob medida? Por que não Beatles?
Mas parecia estar fazendo algum efeito, Saga – ou Kanon – reparou rapidamente em Camus naquele vestido justo e tirou-o para dançar ainda mais rápido, todos seus comparsas imitaram-no e logo Hyoga estava sozinho na mesa, desprezado. Tal como Milo.
"Y así pasan los dias
Y yo, desesperando
Y tú, tú contestando
Quizás, quizás, quizás"
O calor morno de suas mãos colocadas hesitantes em sua cintura ainda persistia, mesmo sob o efeito do aperto brusco de um dos gêmeos marginais. Dançar aquele bolero evocava lembranças não muito agradáveis para Camus. Quase tão desagradáveis quanto usar vestido.
"Eu te conheço de algum lugar...?" Perguntou, hesitante, seu par, com o hálito de álcool batendo em seu rosto maquiado.
Camus aproveitou a deixa da música e respondeu, com um sorriso:
"¿Quizás, quizás, quizás?"
Kanon – seria Saga? – riu alto e suas mãos desceram para as nádegas firmes do francês. Um apertão firme, apenas um. Mas o bastante para Camus desejar que Milo se apressasse. Se Saga continuasse afobado como era há alguns anos, logo ele não teria mais como enrolá-lo.
"Estás perdiendo el tiempo
Pensando, pensando
Por lo más que tú quieras
¿Hasta cuándo? ¿Hasta cuándo?"
Milo rosnou baixo ao ver aquele folgado do Kanon apalpando o maldito parisiense. O vestido da sua irmã não deveria ser usado para tamanha pouca-vergonha! Mas Camus lhe lançou um olhar significativo por cima do ombro de Saga e o grego lembrou-se do que foram fazer ali. Hyoga.
Esgueirando-se pela multidão, chegou até a mesa de Hyoga, que olhava tudo meio assustado.
"Pronto para ser resgatado?" Sussurrou em grego com um tom moleque ao pé do ouvido de seu afilhado.
Até que aquela peste tinha nervos de aço, afinal, não gritou de susto com a surpresa de encontrar o tio ali, naqueles trajes que mais pareciam de um cafetão.
Puxou o menino pela mão e foi arrastando-o entre os convivas daquele inferninho.
"Y así pasan los dias
Y yo, desesperando
Y tú, tú contestando
Quizás, quizás, quizás"
Camus exasperou-se ao sentir a mão áspera de Kanon baixando a alça esquerda de seu vestido e deixando seu ombro completamente nu. Xingou baixinho em francês no momento em que Saga exclamou:
"Camus!" Mesmo com o cérebro embotado de álcool, um segundo foi o bastante para raciocinar o que o francês fazia ali vestido de mulher.
Ao não encontrar Hyoga na mesa, o raciocínio completou-se e gritou:
"Mano! O moleque!" Mal terminou aquelas palavras e recebeu uma cabeçada de seu antigo comparsa de gangue.
O bar inteiro virou uma confusão, com socos para todos os lados e ninguém sabia muito bem quem era o inimigo e quem não era.
"Estás perdiendo el tiempo
Pensando, pensando
Por lo más que tú quieras
¿Hasta cuándo? ¿Hasta cuándo?"
Chovia quando chegaram a um hotel de beira de estrada para descansar. Saíram naquela mesma noite de Nova Iorque com as malas em um dos braços e Hyoga em outro.
Milo não tirou a compressa do galo em sua cabeça ou abriu os olhos quando Camus sentou-se ao lado no sofá – Hyoga ficara com a única cama do quarto – e estendeu-lhe uma caneca de chá.
"Sinto muito pelo vestido da sua irmã." Murmurou o ruivo, sem saber se o tocava ou não. Aquela reaproximação forçada colocava em xeque muitas questões do passado.
Milo deu de ombros.
"Entendeu agora por que ele precisa ir embora?" Rosnou. "Nem eu nem você temos capacidade de cuidar dele. E Saga e Kanon não são nem de longe o menor perigo que esse garoto corre. E a sua influência não é exatamente..."
"Shh..." Sussurrou Camus, colocando um dedo nos próprios lábios e roubando a compressa de Milo para colocar em seu próprio galo. "Fale baixo, você vai acordar o garoto. Ele teve um dia cheio, todos tivemos. Na realidade, ele até que é bem safo. Parece comigo."
O grego fez um barulho de desgosto com a boca.
"Safo? Até parece. Que porcaria de ideia foi aquela? Vestir-se de mulher e se esfregar no Kanon? Aliás, como foi que ele o reconheceu mesmo?"
Camus não respondeu, levantou-se e foi cobrir melhor Hyoga, que se mexera e resmungara alguma coisa em seu sonho.
Quando fez isso, o peito de Milo encheu-se de raiva – não era ciúme, de jeito nenhum – e mágoa.
"Deixa para lá." Resmungou.
"Y así pasan los dias
Y yo, desesperando
Y tú, tú contestando
Quizás, quizás, quizás"
