Parte 4

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Jaime

O cavaleiro saltou do púlpito e correu pela alameda central do Septo. Escancarou a porta do vestíbulo, saindo para a luz da lua.

Cersei estava correndo na praça, ambas as mãos apertadas na adaga,a cabeça girando desvairadamente de um lado para outro, seus cabelos curtos e dourados balançando.

As crianças chegavam de todos os lados. Algumas riam alegremente. Empunhavam facas, machadinhas, martelos, espadas, pedras. Uma menina, talvez com

14 anos de idade, belos cabelos prateados e longos , brandia uma foice .

Jaime sentiu um desespero que jamais presenciara antes. Pensou em levar a mão até a espada, mas seus músculos estavam petrificados. Mal conseguia gritar o nome de Cersei.

Foi um erro.

Vinham das ruas transversais, do gramado seco da praça, através de portões e cercas. Algumas delas olhavam com indiferença para Jaime, em choque nos degraus do septo, e outras se cutucavam, apontavam e sorriam... o doce sorriso das crianças.

As meninas usavam vestidos longos de lã marrom . Os meninos, vestidos como septões sombrios, estavam todos de preto e usavam elmos da mesma cor,aço negro como a mais profunda escuridão. Vinham numa torrente em direção ao Cersei, atravessando a praça da cidade, andando pelos gramados; uns poucos atravessaram o jardim diante do septo. Um ou dois quase ao alcance da mão de Jaime.

Foi quando ele acordou, sacando a espada e correndo na direção de sua irmã.

- A adaga! - Berrou o Lannister. - Cersei!

Mas ela estava em pânico, talvez pensando em cortar a própria garganta antes que aquelas crianças conseguissem tocar nela . Duvidava até mesmo que ela conseguisse escutá-lo por detrás das ondas infantis que se a fechavam.

As crianças convergiram sobre Cersei. Tocando-a, jogando-a no chão. Os machados, machadinhas e pedaços de cadeira começaram a subir e descer. Jaime tentou correr mais rápido, mas era inútil .

Deuses, estarei mesmo vendo isso? Jaime pensou ,cruzando a praça . Ele viu o sangue de Cersei começar a escorrer pelo gramado seco. Vermelho carmesim. Brilhante a luz da lua. Como os cabelos de Cersei que eram puxados por dedinhos minúsculos .E como os olhos de Cersei, reluzentes em agonia, sem direção.

Facas furaram o corpo da Lannister, enquanto ela gritava e gritava. Crianças desorientadas não sabiam dar golpes de misericórdia. Por que Cersei tinha que correr para tão longe ?

Cersei mexia-se loucamente, tentando apunhalar as crianças com a adaga mediócre. Um último grito escapou de seus lábios e depois, cessou por completo.

Jaime correu pelas pedras em direção a Cersei, quase caindo. Foi um erro. Foi um erro. Cersei ,me perdoe, foi um erro.

Um deles surgiu a sua frente, um rapaz com cerca de dezesseis anos, cabelos ruivos compridos escorrendo por baixo do chapéu parou diante dele. O fazia lembrar de Robb Stark. Malditos Stark. Foram eles, Não foi culpa minha Cersei,Eles nos separaram, Eles...

O garoto ruivo voltou-se para o Lannister com um gesto quase despreocupado .Algo brilhou no ar.

O braço de Jaime foi puxado para trás e, por instante, ele teve a impressão absurda de haver levado um murro à distância. Então, sentiu a dor. Como uma espécie de espante estúpido, examinou o braço. Uma faca branca, feita com o osso de algum animal, estava ali cravado como uma sangue-suga inconveniente. A manga de sua camisa tornar-se vermelha. Eu deveria ter partido de armadura...Eu deveria ter posto Cersei em uma armadura...Eu.. Jaime fitou a faca por um tempo que pareceu uma eternidade, tentando entender . Eu e Cersei iramos nos casar em Dorne...Eu e Cersei.

Quando ergueu o olhar, o rapaz de cabelos ruivos estava quase sobre ele. Sorria,confiante.

- Filho da puta! - disse Jaime com voz engasgada pelo choque.

- Entregue a alma a Deus porque logo estarás diante do Seu trono- Disse o rapaz ruivo, tentando cravar as unhas no olhos de Jaime.

O cavaleiro recuou, cortando a cabeça do rapaz fora com sua espada. Aço valeriano, muito bom aço, Ned Stark. O jorro de sangue foi imediato, enorme. Jaime ficou coberto pelo líquido viscoso.

Os outros olhavam,aturdidos.

Isso não fazia parte do plano, pensou Jaime, aparvalhado. Cersei e eu, nós éramos o plano.

O corpo descabeçado do rapaz caiu de joelhos em um som abafado. A cabeça olhou um momento para Jaime, logo mais morta e incapacitada.

Se ao menos eu tivesse feito a mesma coisa com a cabeça de Robb Stark.

Um leve som suspirante partiu das crianças reunidas em torno de Cersei.

Olhavam para o Lannister e este os encarava, perguntando-se qual das cabeças infantis deveria cortar primeiro. Eram 40 crianças ? 40 crianças fizeram aquilo com sua querida irmã. Que fossem 40 cabeças a rolar. ..

E foi então que Jaime percebeu . Cersei desaparecera.

- Onde está ela? - perguntou o Lannister. - Para onde vocês a levaram?

Um dos rapazes ergueu uma faca de caça manchada com sangue brilhante e fez o gesto de degolar o próprio pescoço. Sorriu. Foi a única resposta.

De algum lugar no fundo do grupo, a voz de um rapaz mais velho disse mansamente:

- Agarrem-no.

Os rapazes começaram a avançar sobre Jaime. Este recuou cortou suas cabelas. Eles avançaram mais depressa. Jaime se viu obrigado a recuar. Eram mais de 40, eram muito mais de 40. E continuavam chegando e chegando, mais e mais...

A lua projetava as sombras escuras dos jovens no gramado seco em frente ao septo. Jaime viu-se diante de centenas de crianças,talvez milhares, mais do que uma espada em uma mão ruim poderia dar conta. O Lannister virou-se e correu.

- Matem-no! - berrou alguém.

E partiram atrás dele.

Jaime correu, mas não às cegas. Contornou a Torre - não adiantaria esconder-se ali; eles o encurralariam como a um rato - e continuou correndo por uma das ruas, que se abria na praça e tornava a ser a estrada dois quarteirões adiante. Se ao menos ele tivesse dado ouvido Cersei, estariam ambos agora naquela estrada, fazendo caminho para Cabo da Fúria. Chegariam logo a Dorne e se casariam.

Continuou correndo, sem olhar para trás, até chegar aos campos de trigo, que fechavam-se sobre as margens da estrada, uma imensa onda bege de trigo.

Jaime continuou correndo. Já estava sem fôlego e o ferimento no braço começava a doer. Deixava atrás de si um rastro de sangue. Enquanto corria, rasgou uma tira de sua camisa e começou a amarrar seu ferimento, de forma desajeitada.

Cersei podera fazer meus curativos, quando chegarmos juntos a Dorne- Ele mentiu a si mesmo.- Ela vai deixar minha cabeça em seu colo, acariciar meus cabelos para que eu durma .

Jaime corria. A respiração produzia um ruído áspero na garganta cada vez mais seca e quente. O braço começou a latejar com força. Uma parte mordaz de sua mente perguntava se ele seria capaz de correr todo o caminho até Ponta Tempestade.

Corria. Podia ouvi-los no seu encalço, quinze anos mais jovens e mais velozes, ganhando terreno. Os pés deles faziam barulho no solo. Soltavam berros e

gritavam uns para os outros. Divertem-se , refletiu Jaime desarticuladamente. Falarão no assunto durante anos.

O Lannister correu.

Passou correndo pela taberna onde Cersei queria ter entrado. Se eu a tivesse escutado. Se eu a tivesse escutado desde o início ...

A respiração arquejava e rugia no peito. A estrada acabou sob seus pés. E agora, restava apenas uma coisa a fazer, uma única oportunidade para ganhar deles e escapar com vida. As casas tinham ficado para trás, o vilarejo terminara. O trigo surgira como uma suave onda bege às beiras da estrada. As folhas pálidas, semelhantes a adagas, farfalhavam mansamente. Lá dentro seria profundo e fresco, à sombra dos pés de trigo enfileirados, da altura de um homem.

Jaime penetrou no campo de trigo e este se fechou às suas costas como as ondas de um mar de ossos, tragando-o. Ocultando-o. Sentiu-se invadido por um repentino e totalmente inesperado alívio e, ao mesmo tempo, recuperou o fôlego. Seus pulmões, que pareciam à beira da exaustão, deram a impressão de se dilatarem, fornecendo-lhe mais oxigênio.

Ele correu diretamente pela primeira fileira em que entrara, com a cabeça encolhida, os ombros largos roçando nas folhas e fazendo-as tremerem. Vinte metros mais adiante, virou à direita, novamente em sentido paralelo à estrada, e continuou a correr, mantendo-se abaixado a fim de que eles não pudessem ver seus cabelos loiros entre os pendões do trigo. Dobrou de volta na direção da estrada por alguns instantes, atravessando novas fileiras e depois virou as costas para a estrada, pulando aleatoriamente de fileira para fileira, sempre embrenhando-se cada vez mais nos campos de trigo.

No mais tardar, caiu de joelhos e encostou a testa no solo. Só conseguia ouvir a própria respiração arquejante e o pensamento que se repetia em sua cabeça: Oh, Cersei. Me perdoe.

E então podia escutá-los outra vez. Podia escutá-los, gritando uns para os outros, em alguns casos esbarrando-se ("Ei, esta fileira é minha!"), e aqueles sons lhe deram coragem. Achavam-se bem à sua esquerda e pareciam muito mal organizados.

Jaime retirou o lenço, dobrou-o e tornou a colocá-lo após examinar o ferimento. O sangue parecia ter parado de escorrer, a despeito do esforço que ele despendera. Descansou por mais alguns instantes e, de repente, percebeu que se sentia bem, fisicamente melhor do que se sentia há anos... a não ser pelo latejar do braço. Sentia-se bem excitado e subitamente capaz de enfrentar um problema .

Cersei virá a me odiar quando lhe contar isso. Ele então se culpou. Sua vida corria perigo mortal e sua querida irmã fora sequestrada. Tentou relembrar o rosto de Cersei e dissipar em parte aquela estranha sensação de bem-estar, mas a fisionomia dela se recusava a aparecer. O que surgiu foi o rapaz ruivo que se parecia com Robb Stark.

Deu-se conta do aroma do trigo nas narinas, cercando-o por todos os lados. O vento no topo dos pés de trigo produzia um som semelhante ao de vozes. Calmante. O que quer que tivesse sido perpetrado em nome do trigo, este agora era seu protetor.

Mas eles se aproximavam.

Correndo abaixado, Jaime seguiu pela fileira em que se encontrava, dobrou à direita, voltou em direção à estrada e, depois, tornou a atravessar outras fileiras em sentido paralelo a mesma estrada. Tentou manter as vozes sempre à sua esquerda, mas à medida que a noite avançava, isto se tornou cada vez mais difícil. As vozes ficaram longínquas e, por vezes, o farfalhar do trigo abafava-as por completo. Jaime corria, parava para escutar, tornava a correr.

Quando ele parou, muito mais tarde, o sol começava a nascer sobre os campos à sua esquerda, vermelho e inflamado. Inclinou a cabeça para o lado, escutando. Com a aproximação do pôr-do-sol,o vento cessara por completo e os campos de trigo estava imóvel, exalando seu aroma de crescimento no ar . Se eles ainda estivessem na plantação, achavam-se muito distantes ou simplesmente quietos, à escuta. Contudo, Jaime Lannister não acreditava que um bando de garotos, mesmo loucos, fosse capaz de se manter silencioso durante tanto tempo. Desconfiava de que eles tinham feito a coisa mais infantil, a despeito das consequências que pudessem sofrer: haviam abandonado a caçada humana e voltado para casa.

Jaime virou-se para o sol nascente e começou a andar. Se caminhasse em diagonal através dos campos de trigo sempre mantendo o sol à sua frente, devia chegar a nascente do rio do Vargo, mais cedo ou mais tarde.

A dor no braço transformara-se num latejar que era quase agradável e a sensação de bem-estar ainda não o abandonara. Decidiu que enquanto estivesse ali permitiria que a sensação de bem-estar continuasse a existir sem remorsos. O remorso retornaria quando ele fosse obrigado a encarar os Martell e explicar como sua irmã desaparecera na estrada, e de como precisava de um exército para resgatar Cersei das mãos de crianças com rostos de Stark . Mas isso podia esperar.

Caminhou através dos campos de trigo, refletindo que jamais se sentira tão agudamente alerta,nem mesmo durante as batalhas e disputas que enfrentara.

O dia correu mais rápido do que Jaime conseguira perceber. Logo o sol não passava de um semicírculo espiando por cima do horizonte e o Lannister tornou a parar, seu novo sentido de alerta assumindo um padrão de percepção que não lhe agradava. Era vagamente... era vagamente amedrontador de noite.

Inclinou a cabeça para o lado.

Os campos de trigo cantavam outra vez.

Havia algum tempo que Jaime percebera outra coisa, mas ele a tinha associado com outro fato. O ventos do inverno haviam cessado. Como é possível que se mexa ?

Olhou desconfiadamente em volta, quase esperando ver os meninos sorridentes vestidos de septões negros esgueirando-se por entre os pés de trigo, empunhando suas facas. Nada disso. O som farfalhante continuava. A esquerda.

O cavaleiro começou a andar naquela direção, não mais precisando atravessar as fileiras de pés de trigo. Aquela fileira o levava na direção que ele desejava, naturalmente. A fileira terminava lá adiante, não terminava?

Não.

A fileira desembocava numa espécie de clareira. O farfalhar vinha dali.

Jaime parou, repentinamente amedrontado.

O cheiro de trigo era bastante forte para ser sufocante. As fileiras da plantação conservavam um intenso calor por algum motivo irracional e o Lannister se deu conta de que transpirava abusivamente em pleno inverno.

Coberto de palha e de fios sedosos de pendões de trigo. Os insetos deveriam estar atacando em massa... mas não estavam.

Ficou imóvel, fitando o local onde o campo de trigo se abria no que aparentava ser um amplo círculo de terra nua.

Ali não havia micuins, nem mosquitos, nem qualquer outro tipo de inseto - o que ele e Cersei costumavam chamar de "mini dragões" nos tempos de criança, lembrou-se ele com repentina e inesperada nostalgia. E não avistara um único corvo.

Não é esquisito? Pensou que aquele corvo gigantesco empoleirado no tripé de madeira se alimentasse daquela plantação .

À última luz do dia, observou atentamente a fileira de pés de trigo à sua esquerda e reparou que cada folha e talo eram perfeitos, o que simplesmente não era possível.

Nenhum vestígio de ferrugem ou outra praga. Nenhuma folha roída, nenhum ovo de lagarta, nenhum buraco de animal, nenhum...Esbugalhou os olhos.

Deuses, não há grama. Nem uma só folha. A intervalos de quarenta e cinco centímetros os pés de trigo brotavam da terra. Nenhum capim, tiririca, estramônio, ou qualquer outra erva daninha.

Nada.

Jaime ergueu a cabeça, os olhos muito abertos. A luz no oeste estava sumindo. As nuvens

acumuladas tinham-se afastado. Abaixo delas, a luminosidade dourada assumira tons rosados e amarelo-escuro. Logo escureceria. Era tempo de ir à clareira na plantação e verificar o que lá existia. Não fora este o planto, desde o início? Durante todo o tempo em que julgara estar voltando à estrada, não vinha

sendo conduzido àquele local?

Sentindo o medo na barriga, seguiu ao longo da fileira e parou na orla da clareira. Havia luz suficiente para que ele visse o que lá estava.

Não conseguiu gritar. Teve a impressão de que não lhe restava ar nos pulmões. Cambaleou sobre pernas que pareciam feitas de galhos rachados. Lágrimas saltaram de seus olhos.

- Cersei - sussurrou. - Oh, Cersei...

Ela fora colocada num pau transversal, como um medonho troféu de caça, os braços amarrados pelos pulsos e as pernas pelos tornozelos com fios de corda comum, que poderia ser comprado em qualquer armazém ou feira de Porto Real por uma ou duas moedas de cobre.

Os olhos,seus lindos olhos de fogo-vivo, tinham sido arrancados e as órbitas estavam cheias com sedosos fiapos trigo. As mandíbulas escancaradas num grito silencioso, a boca cheia de grãos de trigo.

Foi então que O Lannister o ouviu chegando. Não as crianças, mas algo muito maior, avançando através do campo de trigo em direção à clareira. Não, não eram as crianças. As crianças não se aventurariam no campo de trigo naquela noite. Aquele era um lugar sagrado, o lugar onde seu Deus Estranho morava.

Num movimento trêmulo, Jaime virou-se para fugir. A fileira pela qual ele entrara na clareira desaparecera. Fechada. Todas as fileiras estavam fechadas. O Lannister podia ouvi-lo chegar, abrindo caminho por entre os pés de trigo. Sentiu-se dominado por êxtase de terror supersticioso. Ele está chegando, Cersei. Os pés de trigo no lado oposto da clareira tinham escurecido subitamente, como se cobertos por uma sombra gigantesca. Chegando, Cersei. O Deus deles.

Ele começou a entrar na clareira.

Jaime viu algo imenso no céu... Asas monstruosas, o corpo cheio de escamas douradas, olhos terríveis e gigantescos. Algo que cheirava como palha de trigo seca guardada durante anos num celeiro, misturado com sangue fresco,metal e carne queimada.

'Fogo e Sangue' - O Lannister ouviu o Rei Louco sussurrar mais uma vez em seu ouvido.

Jaime começou a gritar. Mas não gritou por muito tempo.

...