N.A.: O capítulo mais comprido, agora!

Ganhei o Bronze com essa fic no IV Chall Triângulo Amoroso. Detalhe: tinha três fics concorrendo. T.T

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Capítulo 3: Quero rir-me de tudo que eu sonhava!

As batidas na porta da casa de James Potter foram ritmadas e cuidadosas.

Remus se instalara ali na noite anterior. Lily e James o receberam de braços abertos, oferecendo-lhe o quarto de hóspedes, o informe de tudo o que havia acontecido nos anos que passara longe de Londres, além de enchê-lo de perguntas sobre o desaparecimento de sete anos atrás. Remus distraiu James com uma história sobre como tinha sido assaltado e levado para Liverpool; não queria colocá-lo na vingança que planejava.

O poeta foi o primeiro a ouvir as batidas na porta. James, que, distraído, observava seu filho desenhar sentado numa poltrona próxima à lareira apagada, não notou; foi preciso que Remus lhe chamasse a atenção para que mandasse o criado atender à porta.

Ele voltou anunciando:

— A Sra. Lestrange e seu filho.

James arregalou os olhos para Remus — era bem ciente do caso dele com a mais velha das irmãs Black —, e este sentiu, ao contrário do que julgava, uma calma extraordinária invadir-lhe o corpo. Relaxado, observou quando, sem esperar a ordem, Bellatrix adentrou a casa dos Potter.

— Bom dia, James, eu…

Os olhos dela correram de James para Remus.

Foi um instante quase infinito. Olhos negros como ônix e calculistas como os de um animal prestes a atacar encararam dois túneis ambarinos onde antes tinha repousado o brilho de um amor puro e ingênuo — o amor de um poeta. Ela reconheceu no mesmo instante o fantasma que assombrava seus sonhos havia sete anos, e sua garganta afogou um grito.

Não estivesse Remus ali, na frente de James e Harry Potter, ela julgaria estar diante de um morto.

— Lupin?… — a voz que saiu não foi mais que um sussurro.

— Harry!

Rompendo a tensão no ambiente com um grito alegre, um garotinho correu de trás de Bellatrix para o outro sentado na poltrona, mas escorregou no tapete e caiu no chão.

Harry, de olhos verdes como os de Lily e cabelos bagunçados como os de James, riu e pulou da poltrona, ajudando o outro a levantar com um:

— Oi, Antares!

Os olhos de Remus fixaram-se no garoto no mesmo instante.

Rabastan não mentira. Ele era o próprio retrato de Sirius: nos cabelos negros e lustrosos; na pele clara, quase branca; no riso despreocupado que agitava seu rosto e no modo quase imperceptível como seu nariz se franzia num sorriso. Mas o que mais o impressionou o garoto foram os olhos.

Não eram cinza, como ele esperava, ou negros, como os da mãe; as janelas da alma do pequeno Antares eram de uma tonalidade mel. Dourados, faiscantes, como se, na hora de esculpir aquele pequeno ídolo, o artesão tivesse usado de puro ouro ao fazê-los; olhos iluminados por relâmpagos de doçura e inocência.

Olhos como haviam sido os seus.

— Antares, não se comporte como um animal.

Remus voltou a olhar para Bellatrix, a autora da frase.

Num instante, ela recuperara a frieza e o autocontrole de uma Black. Havia em sua alma um poço de dúvidas e receios, e de ódio. Um milhão de perguntas atravessavam sua mente, velozes como balas. Mas ela não demonstrava.

Ela era uma Black, e Blacks não demonstravam fraqueza.

— Desculpe, mãe — disse Antares, cheio de arrependimento infantil.

A palavra soou estranha aos ouvidos de Remus.

Como alguém poderia chamar aquela estátua de gelo de "mãe"?

— Comporte-se — disse Bellatrix duramente. — Você é um Lestrange, e não um cão doméstico para se atirar ao chão desse jeito.

Ela sabia destruir só com palavras.

— Tenho certeza que foi só um acidente — disse James, se levantando do sofá. — São apenas crianças. Harry, leve Antares para o seu quarto e lhe mostre aquele modelo de cavalo que ganhou de Sirius.

Com toda sua solicitude infantil, Harry segurou Antares pela mão e lhe indicou o caminho das escadas. Alegremente, os dois correram até os degraus, e, em segundos, estavam fora de vista.

— É um prazer revê-la, Bellatrix — disse James com seu sorriso mais maroto. — Continua "Bella", como sempre.

Um sorriso torcido surgiu no rosto da mulher.

— Não creio que nosso nível de intimidade permita trocadilhos, James, mas também é um prazer revê-lo. Onde está Lily?

— Foi visitar uma amiga que está para ter filhos.

— Entendo.

— Creio que se lembre de Remus Lupin, não? — Os olhos ágeis de James corriam de um para o outro.

Ela o encarou. Remus quase riu. Como não lembrar do amante que lhe dedicara sonetos e amores, tanto como vivia? Como não lembrar daquele que visitara sua alcova e a tratou como nenhum outro, como uma deusa do amor?

— Claro — Bellatrix foi fria. — Pensei que tinha morrido.

— Sou forte, acho — disse Remus docilmente.

— Credo, Bellatrix, quem a ouve falar assim pensa que você mandou matá-lo!

O gracejo impensado de James fez os olhos negros de Bellatrix se arregalarem e os ambarinos de Remus se estreitarem. Por um momento, foi como se a faísca de um desafio percorresse os dois corpos — um choque elétrico passando de um olhar a outro.

Bellatrix olhou para Remus e entendeu.

Ele queria vingança.

— Então, Bella, o que a traz à minha humilde morada?

— Nada de especial — disse a dama, recobrando-se. — Vim apenas convidá-lo para o jantar que haverá em minha casa daqui a uma semana, no aniversário de Rodolphus.

— Oh, claro! Havia me esquecido que seu marido faz aniversário por essa época. Quem vai estar presente?

— Você e sua família estão convidados. Minha irmã, Cissy, e sua família… e Sirius. Só.

— Só? O que é que aconteceu, as contas dos Lestrange andam mal?

Bellatrix quase riu.

— Rodolphus ainda está abalado com a partida de Rabastan para Paris.

— Ah, sim. Entendo. Bem, Bellatrix, pode contar com a presença dos Potter no jantar.

— Encantada — ela disse com indiferença.

Virou-se para a escada e gritou:

— ANTARES! VAMOS!

— Mas já? — espantou-se James. — Fique para tomarmos um chá.

— Não posso, tenho que ir à casa de Narcissa. ANTARES! VOU DEIXÁ-LO PARA TRÁS!

Passos apressados fizeram o teto estremecer acima deles, e, de repente, Antares e Harry desciam a escada como malucos, apostando corrida.

Tão logo o filho parou a seus pés, ofegante, Bellatrix disse entre dentes:

— Antares, sabe que eu odeio demoras.

— Me desculpe, mãe — disse o pequeno, seriamente.

Bellatrix torceu os lábios.

— Pensarei no assunto. Vamos embora, ainda temos que passar na casa de Narcissa.

Antares suspirou, e apertou a mão de Harry em despedida. Acenou com a cabeça para James e Remus, e seguiu a mãe.

— Tenham um bom dia, cavalheiros.

— Um bom dia, Bellatrix — sorriu James com displicência.

Mas, quando ela se virou para a saída, ele pareceu se lembrar de alguma coisa:

— Espere!

— Sim? — ela se voltou quase forçada, olhando inflexivelmente para o outro.

— Esqueci de perguntar… Remus está convidado para o jantar?

Remus olhou surpreso para James, e Bellatrix o fitou com quase ódio.

Não havia como se esquivar.

Até que ponto a volta de Remus poderia afetá-la?

— Sim, Lupin está convidado.

Remus sorriu. Bellatrix também.

E eram sorrisos idênticos.

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A Mansão Black nem de longe tinha o mesmo garbo de antigamente.

Desde a morte de Walburga Black, levada por uma pneumonia anormal antes de poder ver o nascimento dos sobrinhos-netos, a casa estava nas mãos de Sirius. Este pouco ou nada se importava com ela e com os cuidados a tomar — estava sempre envolvido demais com os seus próprios problemas.

O resultado era uma casa abandonada ao léu, com a sujeira tomando conta das paredes e camadas grossas de pó cobrindo móveis como tapetes. Kreacher, o velho mordomo, já não mais limpava, perdido nos resmungos da velhice e no respeito à falecida senhora.

De modo que a mansão, lentamente, perdia o ar elegante e senhorial que tanto a caracterizara em seu auge, para se transformar em construção em ruínas.

E foi na frente dessa mansão que Bellatrix Lestrange e seu filho desceram da carruagem.

— Não íamos visitar tia Cissy, mamãe? — perguntou Antares, olhando para a casa.

— Primeiro tenho que falar com Sirius — a voz dela era dura, e o menino não ousou questioná-la novamente.

Com sua imponência natural, Bellatrix avançou pelo portão com o filho em seu encalço, subindo os degraus da entrada da casa com segurança. Bateu à porta.

Uma voz rouca se ouviu de dentro:

— Kreacher, seu imprestável! Atenda a porta!

Um instante de silêncio, seguido de resmungos e passos, e, logo, Sirius mesmo abria a porta, cheio de contrariedade:

— Esse Kreacher, mais inútil a cada dia… Bella, Antares!

Sem sequer olhar direito para a amante, Sirius ergueu o menino no ar, fazendo-o gritar de riso.

— Estava morrendo de saudades! — riu o homem também, colocando o garoto sentado em seus ombros.

— Eu também estava com saudades! — exclamou o menino, afundando os dedos de criança nos cabelos do outro.

Bellatrix, a expressão pétrea, fitou aquela demonstração de amor paterno sem qualquer comoção.

— Então — disse —, posso entrar ou preferem ficar fazendo palhaçadas aqui na frente?

— Sua mãe está de mau-humor hoje, Antares — gracejou Sirius para o menino que tinha na garupa.

— É — concordou Antares, ficando sério, porém, ao confrontar os olhos gélidos de Bellatrix.

— Tenho um assunto importante a tratar com você, Sirius — ela disse.

A voz era pausada. Fria. Cortante. Estranhamente controlada.

Havia algo realmente errado.

— Certo. Entre.

Sirius os guiou pelo hall, levando-os a uma sala poeirenta onde a única coisa que parecia inteira era o sofá onde ele depositou Antares.

— Sente-se, Bellatrix — Sirius disse apenas, sem fazer um único comentário a respeito do péssimo estado da casa que ambos tinham compartilhado por anos.

— Preciso lhe falar em particular — A mulher lançou um olhar ao filho como se ele fosse uma partícula de mofo desprezível.

Com carinho, Sirius afagou a cabeça do menino.

— KREACHER! MORDOMO SURDO!

Um barulho de algo se arrastando surgiu em algum lugar da casa, e, de repente, a figura assustadora do mordomo Kreacher surgiu pela porta da cozinha.

Os anos que trouxeram mais vigor e elegância à figura de Sirius não foram tão benevolentes com seu mordomo Kreacher. A pele sobrava pelo rosto, formando rugas, e tufos de pêlos brancos saíam pelas orelhas. Estava mais velho do que nunca e não parava de resmungar.

— Ah, minha senhora… Como lamentaria, a minha senhora… Senhoritas Narcissa e Bellatrix longe, a casa abandonada e esse filho indigno… Ah, como lamentaria a minha senhora…

— Kreacher, venha aqui — disse Sirius.

Sua voz perdera toda a indolência, e era firme como se fosse seu próprio pai a falar.

— Leve Antares até a cozinha, e sirva-lhe um chá. Claro, se você ainda souber como fazer chá.

— Kreacher sempre soube como fazer chá — queixou-se o mordomo, a voz lenta e lamentosa.

— Se sabe, faça. — Se voltou a Antares, e, como que atingido por uma súbita mudança, sua voz recuperou toda a ternura: — Antares, por favor, acompanhe Kreacher.

— Certo! — disse o menino, seguindo o mordomo com toda sua petulância infantil.

Bellatrix esperou até não poder mais ouvir os passos dos dois.

— Temos sérios problemas.

— Para trazê-la aqui, devem ser realmente sérios — comentou Sirius, mordaz. — O que foi? Rabastan voltou a Londres?

A mulher fez uma careta, incomodada pela lembrança do cunhado que o amante fazia questão de lhe atirar à cara.

— Pior.

— Pior que Rabastan? A coisa está feia, então! Eu diria que é um fantasma, se eu não soubesse que você jamais cometeria o deslize de deixar alguém vivo o suficiente para pensar em voltar.

— E eu diria que cometi um deslize. Um deslize imperdoável.

— O que houve, afinal de contas?

— Ele voltou.

Não foram precisos maiores esclarecimentos. Dentro dos olhos cinzas de Sirius, um velho brilho obsessivo despertou novamente; um riso jovial — coisa que há muito não tinha lugar naqueles lábios vermelhos — rompeu a seriedade de seu semblante e um gosto amargo de ironia tomou sua boca.

— Quando?

— Não sei. Rodolphus vai organizar um jantar para seu aniversário, e sugeriu que convidássemos os potter. Mal entrei, deparei-me com aquela figura vinda diretamente do inferno.

— Ele te tratou bem?

— Como se tivesse acabado de me conhecer. Está mudado.

— Mudado?

— Sim. Como se houvesse morrido e ressuscitado. Seus olhos parecem feitos de pedra. E parece constantemente irônico. Como você.

Sirius suspirou. Sabia que, um dia, chegaria a hora de pagar por aquele crime. Aquela omissão.

— Qual é o objetivo dele?

— O que você acha? Vingança. Pude ver claramente em seus olhos.

— Pode ter sido só a vaidade de provar-se vivo depois de tudo.

— Você sabe tão bem quanto eu que está dizendo idiotices, Sirius. Ele não é mais o poeta romântico e fácil de enganar de antigamente. É um inimigo em potencial.

— "Inimigo em potencial" — Sirius riu. — O que vai fazer com ele, então? Fazer com que o Rodolphus o mande para a França? Ou mandar matá-lo de novo? Parece que não deu muito certo da primeira vez, não é?

Bellatrix lançou-lhe um olhar de secar planta.

— Por ora, Sirius, não há o que fazer. Teremos que esperar.

— Esperar? O quê? Esperar que ele invada sua casa de noite e atire em sua cabeça?

— Esperar seu primeiro passo. Há certas coisas que não mudam, e Lupin não deixou de ser inteligente e cauteloso. Certamente pensará antes de dar um passo.

— Se eu não estivesse vendo, não acreditaria que Bellatrix Lestrange contenta-se em esperar.

— Você acha que estou feliz? Só estou sendo precavida. Mandei matá-lo no passado e ele voltou, então, preciso revisar minha estratégia.

Sirius se esticou no sofá.

— Lupin vai ao jantarzinho do seu marido?

— Vai. Seu amado Potter fez o favor de convidá-lo na frente do próprio. Não tive como negar.

— É bem a cara do James. Eu estou convidado também?

— Claro que está, tolo.

— Ótimo. Quero dar uma boa olhada nele.

Os olhos de Sirius resplandeceram. Bellatrix estremeceu.

Sem pensar muito, ela enlaçou o pescoço dele e puxou-o para um beijo voraz, que ele, mesmo surpreso, correspondeu com fervor.

A língua de Sirius, agilmente esperta, adentrou os lábios de Bellatrix, explorando cada recanto daquela boca tão conhecida, mas que sempre possuía um encanto diferente, novo. Ela era imprevisível e ele amava isso nela.

— O que foi esse acesso repentino? — perguntou, após se afastarem para respirar.

— Diga que me ama mais que a ele.

— Hã?

Diga que me ama mais que a ele!

A voz era quase súplice.

Sirius encostou Bellatrix junto ao peito, acariciando seus longos cabelos negros.

— Eu te amo, Bellatrix.

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Rodolphus vestiu seu melhor terno.

Era certo que os Malfoy apareceriam logo, assim como os Potter. Os supostamente amigos que vinham comemorar seu aniversário. Ele deveria estar feliz.

Na verdade, era estranho que, naquele instante, só conseguisse pensar em Rabastan e em como queria que ele estivesse ali.

Por que sentia tanta falta da sua presença?

— Rodolphus, está pronto?

A voz de Bellatrix era tensa como uma corda de violino esticada.

Ela estava usando um belíssimo vestido de veludo vinho, e a armação de sua saia erguia uma verdadeira obra de arte dos tecidos. Estava bela, incomparavelmente bela, os cabelos negros emoldurando o rosto moreno de olhos faiscantes. Incapaz de sustentar seu olhar, Rodolphus desviou seus olhos.

Bellatrix era ofuscante demais.

— Estou pronto, Bella.

— Certo — ela disse. — Cissy e Lucius estão a caminho, pela hora. James e Lily Potter também, e… eles vão trazer outro rapaz, um hóspede.

— Quem? — surpreendeu-se Rodolphus. — Não sabia que os Potter estavam hospedando alguém.

— O nome dele é Remus Lupin. Você não o conhece, mas é um amigo de James, que desapareceu há sete anos e voltou de repente. Sirius gostava dele — acrescentou levianamente.

— Bem… não há problema. A não ser que seja uma daquelas companhias de bordel de James Potter.

— Não é.

Foi uma resposta curta e seca, e Rodolphus decidiu aceitá-la sem questionar.

Foram para a sala, onde já se encontrava Sirius. Ele segurava Antares no sofá e fazia cócegas nele. O menino gritava bastante, rindo, como o primo. Bellatrix franziu o cenho, mas Rodolphus riu abertamente.

— Ora, meu caro Sirius, você se dá tão bem com meu filho, que eu poderia julgar que você e Bella foram amantes antes do nosso casamento!

A idéia pareceu engraçadíssima ao autor, mas nem Sirius nem Bellatrix gostaram muito, trocando um leve olhar apreensivo.

Nesse instante, salvando Sirius de uma resposta ao gracejo, a campinha tocou com seu tilintar fúnebre.

— Ora, chegaram! — comentou o anfitrião, com algo que mal podia ser definido como um sorriso.

Os Malfoy eram uma das famílias mais respeitadas da sociedade inglesa. Dizia-se, por aí, que eram tão perfeitos que pareciam de mentira. E talvez fossem mesmo. Lucius tinha um porte majestoso, indubitável, imponente por si só. Narcissa, uma beleza tão assustadora que doía olhar. E Draco, o filho deles, era bonito como só as crianças podem ser.

Tanta perfeição provavelmente explicava os lábios contraídos de Bellatrix e o olhar soturno de Sirius.

Estavam trocando os cumprimentos — medidos, calculados, todos exaustivamente ensaiados — quando a campainha tocou novamente, e dessa vez Sirius teve que conter um arrepio.

James Potter estava trajando um terno negro muito elegante, que quase ofuscava o brilho da esposa, Lily. Esta, porém, usava um lindo vestido verde-esmeralda, que cintilava com sua passagem e harmonizava-se completamente com o par de olhos verdes que possuía. Harry vinha logo atrás, em seu passo hesitante, usando terno também e olhando a toda hora para o rapaz que segurava sua mão.

Era evidente que as roupas que Remus usava eram emprestadas de James. Porém, seu olhar tinha uma tal melancolia, e era tão seguro o modo como andava e segurava a mão do menino, que ele transmitia um ar de respeito inevitável.

— Olá a todos — disse James cordial. — Lucius, Narcissa, Sirius, Bella… e, claro, o aniversariante. Parabéns, Rodolphus.

— Obrigado — agradeceu Rodolphus sem nem mesmo olhar para James.

Estava concentrado demais em fitar Remus com firmeza, sendo retribuído com a mesma intensidade de olhar. Os olhos de Rodolphus se detiveram nos precocemente grisalhos cabelos castanhos e nas linhas suaves que delineavam as orbes castanhas — e foi nessas orbes, opacas e fundas como túneis sem fim, que eles se fixaram.

— Remus Lupin — apresentou James, seguindo o olhar do outro. — Meu amigo poeta.

— Ah, é poeta? — questionou Narcissa sem real interesse.

— Poeta sem inspiração, infelizmente — disse Remus em tom conciliador. — Feliz aniversário, Sr. Lestrange. Desde minha antiga época de Londres que tenho querido conhecê-lo. Que bom que isso se torna possível agora.

Mas olhava para Bellatrix enquanto o dizia.

— Agradeço a cortesia — disse Rodolphus, sério. — Presumo que já conheça minha esposa, Bellatrix…

— Encantado em revê-la — Remus soltou delicadamente a mão de Harry e tomou a mão de Bellatrix entre as suas, beijando-a suavemente.

Ela sentiu como se os lábios dele deixassem um rastro de fogo.

— Estes são meus cunhados, Narcissa e Lucius Malfoy — continuou Rodolphus, sem notar o fascínio que o convidado provocava em sua mulher. — E, aqui, o primo de Bella, Sirius.

Os olhos castanhos correram para a figura no sofá.

Sirius o encarava com um misto de ressentimento e interesse. Era visível que seu olhar o analisava, passando por todos os pontos de seu corpo, intimidando, e, secretamente, tão secretamente que nem ele mesmo ousava admitir, mexendo com alguma coisa em seu íntimo. Como se, de alguma maneira, os anos tivessem retrocedido. Como se ele ainda fosse aquele menino ingênuo que um dia se perdera no cinza daqueles olhos.

Mas aquele tempo havia passado.

E ele não precisava repetir isso para si mesmo.

— Remus — Sirius se levantou, estendendo a mão.

Black — sublinhou o rapaz, deixando bem clara a sua intenção.

Como se tivesse vergonha daquele nome, o outro desviou os olhos. Remus sentiu um frio prazer lhe invadindo as entranhas.

— O jantar já está pronto, Bella? — perguntou Rodolphus, que parecia não ter notado nada.

— Está — respondeu Bellatrix, lacônica, interessada em observar a interação entre os dois rapazes.

— Então, acho que já podemos servi-lo.

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Os Lestrange, antigamente, haviam sido uma família sólida e respeitável.

Desde o primeiro Lestrange vindo da França para a Inglaterra, a família se estabelecera em bases sólidas de comércio e serviços, formando quase um clã. A tendência de casar-se entre primos, além da propensão para os negócios e a avareza inata, tinham contribuído para a formação de uma das maiores fortunas de toda a Inglaterra.

Porém, a pouca mistura de genes e a tradição de casar-se entre parentes, nunca realmente superada, acabou enfraquecendo o sistema dos Lestrange, que acabaram se tornando suscetíveis a todo tipo de doença. Isto e o hábito de beber — introduzido na família por Darius Lestrange — resultou na morte prematura de muitas gerações.

Assim, morrendo cada vez mais cedo, a família foi se extinguindo, e os herdeiros foram se tornando cada vez mais escassos. Agora, em toda a Inglaterra, restavam apenas duas pessoas que poderiam gabar-se de ter o nome Lestrange atrás do nome de batismo: Rodolphus e Rabastan.

O resultado era que Rodolphus, o mais velho dos irmãos, tinha reunido uma fortuna e tanto em mãos, algo evidente em toda a sua mansão.

Sentado na ponta da mesa de jantar, Rodolphus parecia mesmo o chefe de uma casa senhorial. Lucius, quase tão imponente quanto, sentara-se ao seu lado, e Bellatrix do outro lado. Do lado de Lucius, James, Lily, Narcissa e o pequeno Draco — que fazia caretas para os outros meninos — estavam alinhados, enquanto que, ao lado de Bellatrix, estavam Sirius, Remus, Harry e Antares.

Bellatrix fingia não sentir a mão de Sirius, que se esgueirava por baixo da toalha de mesa para tocar sua perna — despertando sensações complexas e excitantes.

Sirius gostava particularmente de provocar a prima em público, no que parecia uma manifestação inconsciente de um desejo de ser descoberto. Era apaixonado pelo risco, pela adrenalina circulando nas veias. Pela vaidade de manter o relacionamento em segredo.

Uma criada começou a servir o jantar.

Eram pratos dos mais finos — a boa culinária francesa, desde sempre apreciada pelos Lestrange —, regado a vinho tinto e excelentes iguarias.

Era belo de ser o requinte com que todos, até mesmo as crianças, se serviam. Antares, pacientemente, ensinava Harry a segurar a faca, enquanto Draco se exibia para os dois, cortando a comida com distinção natural.

O jantar foi todo pontuado com conversas amenas sobre política, negócios e o movimento dos navios. Lucius discursava com intensidade sobre como a escravidão nos países sul-americanos prejudicava o mercado consumidor da Inglaterra, enquanto James fazia uma preleção sobre as inovações dos americanos e a república. Lily e Narcissa conversavam animadamente sobre filhos, e Rodolphus parecia estar numa realidade alheia, onde Rabastan ria de suas ironias e dizia frases ácidas.

Bellatrix, Sirius e Remus ainda não haviam trocado uma palavra.

Era como se o equilíbrio entre os três fosse apenas um suave e frágil fio, que poderia ser rompido ao menor toque. Se encaravam sem se olhar, se vigiavam sem falar, esperavam sem demonstrar.

E, no fim, Lily foi quem rompeu o fio.

Ela acabara de contar a Narcissa sobre como Harry e Antares tinham jogado chá numa senhora da sociedade que não parava de apertar suas bochechas. Olhou então para as duas crianças, que riam conversando, e refletiu em voz alta:

— São idênticos a James e Sirius!

Crack.

A taça na mão de Bellatrix se estilhaçou.

Rodolphus, que até então estivera imerso em devaneios, se sobressaltou, vendo a mão da esposa ensangüentada:

— Bella!

— Tudo bem, foi só um acidente — disse a mulher, o rosto contraído, a mão pingando vinho e sangue. — Foram só alguns cortes…

Alguns cortes? — repetiu Sirius, incrédulo. — Bella, sua mão está vertendo tanto sangue que poderia encher uma taça!

Bellatrix lhe lançou um olhar cortante.

— Não foi nada, já disse.

— Eu aconselharia a lavar a mão, ao menos.

A última frase foi de Remus.

Ela não pôde deixar de olhá-lo.

— Certo. Vou lavá-la.

Levantou-se da mesa com uma suavidade impetuosa, ganhando o corredor.

Apenas alguns segundos depois, Remus voltou-se para Rodolphus:

— Creio que preciso ir ao toalete. Pode me indicar o caminho?

— Primeira porta à direita no corredor em frente.

Remus agradeceu, e saiu da mesa também.

Sirius ficou olhando sua figura se afastar.

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Bellatrix sentiu o sereno da noite resvalar contra suas faces, provocando um prazer estranho. Então, pensou há quanto tempo não permitia-se esse tipo de experiência.

Caminhou pelos jardins da mansão, solitária, os pés afundando na grama e o frio do outono esfriando seus ossos. Até ouvi-lo chegar.

— Você não é nada discreto, sabia? — ela disse.

— Não era minha intenção ser discreto — respondeu Remus.

Como se o ignorasse, Bellatrix continuou a andar, sentindo-o segui-la em cada passo, até pararem diante de uma roseira. Então, ela se virou:

— Por que me seguiu?

— Preciso mesmo dizer?

— Quero ter certeza — ela disse, colhendo uma rosa distraidamente.

Ele ficou em silêncio e ela lhe ofereceu a rosa.

Os dedos suaves de poeta não eram mais os mesmos, calejados pelo trabalho e embrutecidos pela realidade. Mas ainda conservavam o poder de segurar delicadamente uma rosa.

— Queria poder olhar para uma rosa e sentir as mesmas coisas — ele murmurou, tocando as pétalas tenras. — Admirá-la do mesmo jeito.

— As pessoas mudam, Remus.

— Eu não queria ter mudado.

— Mas mudou. E, talvez, não seja tão ruim não poder mais admirar uma rosa. Será que você ainda poderia agüentar seus espinhos?

Remus riu amargo.

Pressionou com força o cabo da rosa. Sem sequer emitir um gemido, estendeu a mão para Bellatrix e ofereceu a flor, suja com o sangue das feridas.

— Estou sempre pronto para aceitar as conseqüências, Bella.

Foi instantâneo.

Ela se aproximou dele e beijou-o com lascívia, tocando seus lábios com a língua e buscando um contato almejado há muito tempo.

De uma janela da sala, dois olhos cinza estavam à espreita.

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N.A.: Well, that's here!

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