O RETORNO DOS CINCO ANOS

Cap 2 – EM ITHILIEN

- Por que me impediu de afastar-me daquele homem quando me tocou?

- Porque seria uma demonstração de medo, o que certamente não era o caso, ou de descortesia, o que não era adequado.

- Inadequado é um homem, desconhecido, pôr as mãos no ventre de uma gestante.

Faramir sorriu para Éowyn.

Mal haviam chegado à tenda de seu próprio acampamento, e ela lhe lançara o questionamento que ele sabia que estivera fervendo em sua garganta por todo o caminho desde a clareira em que trabalhavam naquele dia, extraindo madeira.

Questionamento, aliás, seria uma classificação inadequada para o que sua senhora branca lhe expressava agora: o gesto do marido certamente desagradara por demais à sobrinha que vira o arbítrio do tio ser conduzido por outrem.

A donzela de Rohan prezava por sua liberdade e decisões próprias. Amava cavalgar tanto quanto repudiava a idéia de ver-se sob rédeas.

Não fosse sua esposa uma filha de reis, palavras ainda menos contidas poderiam fluir de sua boca.

Faramir, contudo, além de amá-la muito, era um homem de compreensão e interesse para com todo ser vivente, assim como para com ela, e geralmente alcançava muito além das palavras, pois escutava tanto com a mente quanto com o coração.

- Inadequado entre nós, talvez – e seu amor correto e justo jamais temeria justificar-se - mas pareceu-me que, dentre o povo do qual provinha, tratava-se exatamente do oposto – argumentaram o sorriso compassivo e a mão estendida.

Éowyn fitou-o longamente, antes de lhe entregar a própria mão, suspirando.

- Ah, Faramir – correu-lhe a outra mão pelo rosto. Por isso era tão amado, porque também devotava grande amor ao mundo, e a tudo que havia nele – já vejo que está encantado e curioso acerca dessa gente também – sorriu por sua vez.

- Senhora branca do meu coração, nada lhe posso esconder, nem o desejaria.

- Entretanto, mais que tudo, uma coisa me deixou aborrecida.

- Diga, senhora de Ithílien.

- O crescimento do meu ventre ... já está tão perceptível assim?


...

- Confundiram-me com um homem, estou horrenda.

- Ai que exagero, mulher, estás a usar roupas de homem.

- Se nada mais me cabe, oras!

- Continuas bela aos meus olhos.

- Então por que Daror não me procura mais?

- Está bem, Míriel, está bem: vamos precipitar o parto e ter esse filho logo aqui, e aí termos que esperar uma lua, até que possamos partir novamente. Arre, mulher! Não ouviu o príncipe de tua terra comentar que estamos atrasados?

- Minha terra é o Harad, Daror, e na tradição de Harad marido e mulher continuam coabitando até a hora do parto.

- Mas não em plena estrada no meio de uma viagem, mulher louca...


Assim era entre Faramir e Éowyn então, que seus corações e mentes, tão diferentes, nunca deixavam de enternecer-se um pelos outro.

O espírito nobre e guerreiro que outrora sentira-se aprisionado no corpo de donzela admirava-se e aprendia com o amor ao conhecimento e aos homens que emanava de Faramir.

E o senhor que nunca amara a glória ou o perigo por si mesmos, agora amava a mulher que em busca deles cavalgara.

Contudo, ainda que de quando em vez, sucedia eventualmente de uma sombra ainda encobrir o sol radiante do sorriso da dama branca.

Tal não passava despercebido a Faramir, a quem, se a tristeza de sua bela senhora um dia comovera, agora mais que então entristecia-o também,

Não deveria ser assim, pensava Éowyn. Sabia que, antes que preocupação, a semente que germinara em seu ventre deveria ser motivo da maior alegria a ela, que jurara, ao aceitar casar-se com ele, despir-se de sua armadura e tornar-se uma jardineira, sob cujas mãos tudo o que era vida floresceria.

Não eram, nunca foram, está claro, os labores da maternidade que a faziam recear. Contudo, a promessa de uma modificação tão imensa, exigia-lhe o rompimento com a história de uma vida inteira.

Separada da mãe precocemente, a batalha animara seu coração desde muito jovem, junto ao tio, ao irmão e ao primo, e uma tal mudança, a ser operada de dentro para fora, encontrara nela mesma inesperadas resistências.

Pois Éowyn não ignorava que lhe seria muito mais fácil criar um menino que uma menina.

O destino de um homem era a rédea em uma das mãos e a espada na outra.

Mas o que era o destino de uma mulher?

E se ardesse no peito de uma sua eventual filha o desejo de grandes e inalcançáveis feitos, como os que a queimaram por dentro durante tanto tempo e tão intensamente que ela jamais poderia esquecer?

Como também, por outro lado, e se não ardessem em absoluto?

As angústias de Éowyn, contudo, não lhe ocorriam em palavras, entristecendo-a ainda mais ao perceber que o coração de Faramir era atingido pela agonia confusa que renovara-se nela, sem, entretanto conseguir ajudá-la, pois Éowyn não se exporia, qual uma criança tola, de expressar um temor vago.

O espírito gentil, apaixonado e sem resposta do marido então, só podia entregar-se às próprias conjeturas, desta rara feita vendado ao motivo que havia convertido o entusiasmo inicial da esposa quando da chegada em Ithilien naquela melancolia por vezes contrafeita.

Chegava a imaginar, inclusive, se o mero lidar diário com uma rotina corriqueira – e naquele momento extremamente precária - na vida que lhe oferecia agora, não haveria solapado a escolha que a senhora branca fizera nas Casas de Cura, e a nostalgia de ser rainha e pertencer a um rei nobre, estando associada aos seus feitos maiores, não lhe teria voltado ao coração.

A sombra de tais impasses, entretanto, cedeu à chegada do Senhor de Harad.

Para Éowyn, porque suplantar os próprios sentimentos e recebê-lo, parecia-lhe o tipo de sacrifício que demonstraria a Faramir sua vontade de ser uma boa esposa, seu amor pelo marido e seu desejo de agradá-lo.

A Faramir, por óbvio, a possibilidade de travar conhecimento com um outro povo, por si só, despertava-lhe um interesse benfazejo, inerente à sua essência e renovador da mesma.

Pois àquele em que o Príncipe de Ithilien anteriormente tivera de enxergar somente um inimigo, agora parecia-lhe sobretudo um homem.

Um homem que, como ele, também amava sua esposa, também se preocupava com os seus.

E, embora fisicamente tão diverso e temível, em sua alegria à mesa, bebendo e partilhando com Faramir do assado rústico que trinchavam e comiam com suas próprias facas – e que, providencialmente, não fora preparado pela Senhora Éowyn – lembrou-lhe de alguma maneira dos pequenos com que outrora se encontrara.

Da mesma forma Daror, sendo ele mesmo um coração nobre, desenvolveu logo grande empatia pelo príncipe de Ithilien, não se furtando a contar aos ouvidos atentos, de si, de Harad, ou mesmo da Sombra e de sua convivência com ela.

- Vejo aqueles anos todos agora como se os tivesse vivido na névoa de um dos seus amanheceres frios aqui do Norte. A ferida provocada em todas as Casas do Harad pela morte a traição de centenas de nossos familiares – falsamente então atribuída a Gondor – foi o caminho pelo qual o maligno infiltrou em nosso povo seu veneno. Eu era muito jovem então, e em meu coração um ódio permanente era alimentado por emissários que meu Pai jamais havia permitido aproximarem-se dos palácios de minha Casa e crescia tirando o espaço de tudo o mais que deveria ocupar o coração de um homem: amor, família, cuidado, ponderação, e assim acontecia com todo o meu povo.

Sob esse sentimento, teríamos perecido todos: não pelo Olho, mas contra Gondor, não fosse minha irmã ter-nos levado, na hora derradeira, a verdade que nos libertou.

- É fato.

- Contudo, os grandes animais sabiam, e recusaram-se a entrar em Mordor, fazendo com que mesmo as forças de Harad que já se encontravam lá tivessem de retirar-se, para nos reagrupar-mos em outro lugar: e só por isso, ao finalmente voltar-mo-nos contra os exércitos da Sombra, trazíamos conosco nossa própria retaguarda, por não termos podido constituir base para ela nos territórios dele.

- Que está a dizer o Senhor Daror, que a contingência de seus grandes animais conduziu-lhes o destino?

- O destino dos homens volta e meia é conduzido por contingências, e os grandes animais são tanto o Harad quanto nós ... Se ao final restassem apenas um mûmak e um menino, ainda assim o Harad estaria vivo. E, na verdade, não foi muito diferente do que sucedeu, pois pouquíssimos dos animais sobreviveram.

A esse ponto Éowyn já mal continha sua vontade de gritar que, para ela que vira tantos dos seus, do seu povo de Rohan, sucumbirem pelos pés de tais monstros, bem feliz ficaria em saber que o último se fora.

Mas não o fez, presa aos olhos cristalinos da mulher que sentava-se em frente a ela, ao lado do próprio marido.

Sentada, sem véus, os cabelos dourados semi-presos, sua beleza não era comprometida pelo volume que o corpo assumira.

Sem receio de enfeitar-se graciosamente, parecia-lhe uma mulher mais confortável no papel coadjuvante de esposa do que ela mesma.

O brilho de adoração nos olhares que voltava para o marido, inclusive, ressaltavam o contentamento com o próprio destino.

Contudo, aquela mulher, mesmo em sua condição atual, a perseguira à cavalo, a ela, uma filha de Rohan, enchendo-a de um medo terrível.

E agora, subitamente, desviara-se da conversa dos homens para fitá-la.

Será que transparecera, sua indignação àquela conversa?

Mas os olhos cristalinos, não se poderia dizer se verdes ou azuis, buscavam por empatia, com um meio sorriso que se abriu cúmplice, como a advertir "deixe os homens conversarem".

Advertir sim, pois, ao final da mensagem, tais olhos faiscaram, como se a avisá-la de que não se atravessasse no caminho daquele homem.

Ou ela se atravessaria no seu.

Decerto que tal troca de olhares não tomara mais que um momento, mas, quando Éowyn retornou sua atenção à conversa – que só não era mais precariamente conduzida na língua comum por que toda vez que a palavra faltava a Daror, era fornecida por Míriel, quando não adivinhada por Faramir – o rumo desta já mudara.

- Não desagradou, ao Olho e às forças dele, a retirada das tropas de Harad que já se encontravam em Mordor, sua resistência em permanecer no local?

- Nada era ou pretendia ser agradável naqueles tempos e paragens, nem estariam os haradrim preocupados em agradar ou desagradar a quem quer que fosse, mas certamente há coisas que são tão óbvias quando observadas sob nova perspectiva no tempo, que simplesmente não há como atinar o motivo de terem passado desapercebidas no momento de sua ocorrência.

Grande desagrado externou aquele que falava por Sauron ao ser comunicado de minha decisão de estabelecer acampamento fora dos limites do Portão Negro. Enquanto ele sibilava ameaças, palavras também surgiam em meus ouvidos, como a pretender esgueirar-se para dentro de minha cabeça e guiar a vontade de Harad por meio de algum sortilégio.

Mas meu animal zurrava a cada tentativa de conduzi-lo pelos portões, e eu respondi que, naquele estado, não haveria como controlá-los no espaço confinado. – Revelou. - Foi então que, estando eu sobre Murdug, portanto ao mesmo nível daquela criatura, que se encontrava sobre o Portão, esta me apontou, ao longe, mas imensos, os grilhões que já lá estavam preparados para eles, e posso dizer que a perspectiva de qualquer aliança com aquelas forças morreu para Daror naquele momento. Declarei ali que os haradrim haviam vindo para combater Gondor e o fariam, mas que nenhum elo outro nos uniria aos seus exércitos.

Nesse momento as vozes que zumbiam em meus ouvidos calaram-se, e aquela criatura vil silenciou-se um momento, como se escutasse, para depois, em tom de voz bem diverso, tratar-me então por Senhor e aos meus por nobre povo, e sugerir que, se fosse do nosso agrado poderíamos acampar além, adiantando-nos na direção de sua cidade branca, e foi o que fizemos ... – Continuava Daror.

E assim a narrativa seguiu noite adentro, já que, tendo encontrado no príncipe de Ithilien um ouvinte atento, Daror prazeirosamente discorreu durante horas e horas sobre o Harad, sua geografia, sua organização e sua história, até que por fim, supôs de bom tom também fazer-se ouvinte de seu anfitrião, pedindo que este lhe contasse das disposições do Rei de Gondor para aquela terra bela porém erma de Ithilien, e de seus próprios planos para isso.

Outros povos da Terra Média haviam prometido contribuir. Elfos viriam reverdecê-la, e a promessa de uma eterna primavera não era menos do que aquela linda terra merecia. Anões comprometeram-se com as construções que viriam a guarnecê-la. Mas a providência primeva a tantos intentos era a de dispor da alvenaria necessária ao soerguer do casario nas Emyn Arnen; a madeira que seria base para o trabalho em Pedra, e cujo arrastar montanha acima haveria de deixar maltratadas as encostas que depois seriam cuidadas pelos primogênitos.

- É uma tarefa e tanto que dar cabo sem mûmak – ponderou Daror.

- É fato – acedeu Faramir – ainda mais agora, próximo o inverno; mas havemos de encontrar forças e maneira de levá-la a cabo – deu de ombros – a providência dos Poderes de Arda nos há de alcançar.

- É fato – Daror utilizou-se das palavras do anfitrião, achara-as bem sonoras, solenes e distintas. – Amanhã organizo meu acampamento. Depois de amanhã venho com meus homens e meus animais ao seu serviço.

- Como? – Espantou-se Faramir – Agradeço, é muito gentil, mas ...

Porém o Senhor de Harad já se retirava, após haver proferido sua sentença, dias de labuta o aguardavam.

- Daror falou – sorriu Míriel a Faramir – e as palavras de um Senhor de Harad não acolhem objeções, meu nobre primo – sim, se havia alguém em toda Gondor de quem Míriel podia considerar-se prima, ainda que relativamente distante, alguém com quem guardava algum traço de parentesco, esse alguém era Faramir – Depois de amanhã homens e animais de Harad estarão ao dispor da necessidade de Ithilien, e isso é um fato consumado. Agora temos de ir, pois já começa a clarear: conversamos a noite inteira, mas muito trabalho temos a nos esperar. Passem bem até nosso reencontro, que espero dê-se em breve – despediu-se enfim do casal de Ithilien com a ponderação cortês que não cabia a Daror.

- Essa esperança é sobretudo minha, Senhora de Harad, haja vista que há tempos o sono não me era roubado de forma tão agradável, nem nossa necessidade socorrida por tão surpreendente e majestoso auxílio. – respondeu-lhe o filho de Denethor com espirituosa e grata mesura.

- Então até mais ver primo – acenou-lhes Míriel.

- Até mais ver ... prima – respondeu-lhe Faramir.

- Aquela mulher é sua prima? – estranhou Éowyn, tão logo o haradrim e sua esposa afastaram-se.

- Bem, sim, sem dúvida as árvores genealógicas de nossas famílias têm intersecções – entretanto um indisfaçável ar de dúvida perspassava o semblante e as palavras do outrora regente de Gondor.

- Mas? – inquiriu-o Éowyn.

Faramir sorriu-lhe ... como poderia explicar à esposa o que se passava em sua cabeça?

- É que ... embora não possa dizer que a conhecesse muito, sem dúvida Míriel mudou bastante ...


Pouco após o alvorescer, as passadas gigantescas começaram a ecoar ... E agora estava ali, quase tão alto quanto a muralha externa da Cidade Branca.

Temerosos, os homens, prevenidos para não atirar nos que vinham em paz, ainda assim sobraçavam seus arcos, afastados da inconcebível criatura, Faramir o único a restar no centro da grande clareira.

- Quer subir? – ribombou Daror em cima da cabeçorra.

Faramir susteve a respiração.

Subir a um olifante!

- Como? – gritou de volta, pois seus olhos não lhe revelavam escada ou corda pendendo daquele portento.

A imensa tromba o envolveu – para consternação de seus homens – para logo ver-se Faramir no topo do mundo, a tempo de sinalizar para os seus que estava tudo bem.

- Murdug é um animal muito antigo, está há várias vidas de homem em minha Casa.

- É o maior que já vi – admitiu o capitão que, sem dúvida de muito mais distância, observara a passagem de vários por aquela terra, em tempos negros.

- É fato – assentiu Daror, solenemente divertido. Ante a fascinação do grande animal, o experiente capitão Faramir chegava a não parecer mais que um menino.

Não que mesmo Daror, decerto, parecesse algo diferente ao grande animal cuja tromba agora brincava em seus ombros ... Aquele era o garoto que cuidava de Murdug ... sempre havia um garoto a cuidar de Murdug ... e sempre havia um garoto que Murdug cuidar ...

Sobre o crânio em cima do qual se poderia valsar – sem que os lentos pensamentos que o ocupavam fossem perturbados – Faramir mirava o mundo abaixo, realmente com olhar de criança e, enquanto aquela montanha se movia, ao comando de Daror, empilhando com a tromba imensas toras de madeira nas estruturas de transporte em suas costas – para tal devidamente desguarnecidas de suas coberturas – adiantando em muitos meses o trabalho de seus homens, o príncipe de Ithílien não conseguia deixar de pensar:

"- Ah, se o mestre Samwise Gamgi me visse agora!"