A Floresta da Folha é solo sagrado para a A.N.B.U, principalmente para mim. Foi lá que cometi meu primeiro homicídio e que, junto de Kakashi, enterrei o primeiro corpo a sete palmos do chão. Danzou provavelmente se pergunta até hoje o que o acertou por trás. Aquele velho nojento, um cafetão que escravizava mulheres em situação de risco, mereceu cada tacada que recebeu no crânio. Eu poderia tomar banho com seu sangue todos os dias.
Mas, voltando a floresta:
A Floresta da Folha fica em uma das divisas entre Konoha e Sunagakure. Aquela é uma área quase isolada, uma vez que seu acesso é difícil e as lendas urbanas que a cercam são de arrepiar qualquer ser humano normal. O que não é o meu caso.
Usávamos aquela terra não-habitada para dar o descanso eterno do inferno às nossas vítimas. Lá eram enterrados como indigentes, sem uma lágrima mais ser derramada. Aquelas árvores carregavam em suas raízes o sangue e a decomposição desses lixos, crescendo e se fortalecendo, deixando a floresta ainda mais densa para que pudéssemos cada vez mais nos esconder às sombras de suas folhas.
Nosso solo sagrado, porém, foi manchado em heresia por sangue de inocentes.
Nosso solo foi violentado por um grupo de marginaizinhos de quinta, autodenominados Akatsuki.
Eu e Gaara enterravámos o corpo de Baki, um policial corrupto que usava suas influências para dominar o tráfico em um bairro bastante pobre, quando escutamos as risadas descontroladas de um idiota e os gritos pavorosos de uma vítima.
Como ninguém, conhecíamos aqueles gritos. Era a súplica da morte iminente.
Nos escondemos e observamos o que podíamos, coletando informações e presenciando cenas pavorosas para olhos comuns. Só o que conseguimos enxergar foram os mantos negros com nuvens vermelhas bordadas, bastante clichê para um grupo de idiotas metidos a psicopatas.
Naquela madrugada, presenciamos a Akatsuki em atividades e, após reportamos à Kakashi o ocorrido, iniciamos nossas investigações. Levaram alguns meses para que pudéssemos estabelecer o padrão de vítimas e descobrirmos quem eram os quatro babacas por trás daqueles mantos.
Para nossa surpresa, eles estavam mais próximos do que pensávamos. Na mesma universidade em que estávamos infiltrados, para ser mais específica. E, para nossa satisfação, eu me encaixava perfeitamente no padrão de vítimas da Akatsuki.
Ao que parece, o líder deles tem um fraco por loiras.
E a maior defesa de Yahiko Pain era sua popularidade.
Qualquer um pode achar que isso o coloca no topo da lista de suspeitos, mas não há como suspeitar de um jogador de baseball que é mais ignorante que uma porta. Pain é a estrela da universidade, seu recorde estadual de strikes o colocaram no topo da cadeia alimentar acadêmica. Ele apenas sai publicamente com as líderes de torcida mais conhecidas, afinal elas não faziam o padrão da Akatsuki.
Por trás dos panos, ele jogava aquela conversa mole de "eu nunca senti isso antes" para as meninas que eram apagadas demais para serem sequer notadas.
Seu fraco era por loiras e seu faro escolhia as presas das quais ninguém sentiria falta.
— E para o trabalho do semestre, vocês devem se juntar em duplas. — A voz de Kakashi, que aqui era nosso professor, soou alta e grave no meio dos cochichos dos alunos. — Vocês deverão traçar o perfil psicológico um do outro, finalizando com um relatório individual, que deverá ser entregue em três semanas.
Olhei brevemente para o lado, onde meu amiguinho ruivo permanecia sentado. Gaara travou a mandíbula, ciente do que estava por vir.
— Já pré-selecionei as duplas. — Kakashi indicou um papel, colocando-o sobre o quadro branco. — Verifiquem seu parceiro e usem esses últimos minutos para iniciarem a primeira interação.
Senti Gaara bufar ao meu lado, visivelmente irritado. Vi também o olhar de Kakashi cravado em nós dois, como uma águia observando seus filhotes. Tenho certeza de que meu amigo ruivo aqui está em probatória.
Desde que o nosso novo colega mudou-se para o Sanatório no mês anterior, eu sabia que, em um momento ou outro, Gaara seria colocado em cheque. Sai era um cachorrinho perfeito para Kakashi, totalmente bem adestrado e submisso. Aquele boneco humano sem expressões faria todo o trabalho sujo sem perder a compostura ou levantar suspeitas. Sai tinha a mesma capacidade de uma cadeira de sentir algo e tinha um autocontrole de dar inveja. Ele conseguia, inclusive, fazer eu, o Sabaku e todos os nossos colegas de A.N.B.U parecermos adolescentes apaixonados em crise existencial.
Resumindo: minha missão com a Akatsuki era também uma espingarda apontada para a testa de Gaara. Se ele conseguir se controlar enquanto me ofereço como uma virgem em sacrifício à Pain, ele continua vivo. Senão, é bom ele começar a escolher o sabor do chá que vai tomar com Satanás no inferno.
Antes de vestir a carapuça de sonsa, virei meu rosto em direção ao meu amiguinho, que olhava fixamente para a lista lá longe. Gaara exalava por seus olhos verdes a raiva da falta de controle, e esse era um dos poucos momentos que esse maníaco me parecia verdadeiramente atrativo. Talvez mais tarde eu aliviasse sua tensão.
— Quem será que vai ser sua duplinha, ruivinho da vovó? — Até lá, eu me contentaria em dar umas risadas às suas custas.
Ele ignorou meu comentário, permanecendo da mesma forma.
Dei de ombros e segui à frente da sala, a fim de confirmar o que eu já sabia.
Em uma das linhas daquela lista, Yamanaka Ino e Yahiko Pain formavam a dupla número três.
