A sineta logo tocou anunciando o fim da aula dupla de artesanato. Ryan trancou a maleta de ferramentas e se juntou ao aglomerado de alunos que se dirigiam ao grande armário de alumínio ao fundo da classe, onde suas várias maletas plásticas idênticas seriam guardadas lado a lado, espremidas e sobrepostas. Retornou á mesa onde estivera trabalhando e, recolhendo o material restante, despediu-se de uns poucos ali próximos. Não suportaria assistir mais aula alguma aquela manhã. Já era o bastante, ele iria para casa.

Cruzou os corredores e pela janela de vidro mais próxima viu, satisfeito, que uma chuva fina ainda insistia em cair. Seria melhor assim, ele pensou. Que venha então a neve. Sacou o celular do bolso da calça e mandou, em alguns segundos, um torpedo explicando-se com a irmã:

Não me espere, estou indo para casa. Dor de cabeça.


Drake era filho único de um empresário Italiano, herdeiro de uma das empresas petrolíferas mais promissoras da atualidade a nível mundial. Nascido na França, um dos solteiros mais cobiçados na Europa, era a razão das noites mal dormidas de Ryan, das olheiras em volta de seus olhos, das lágrimas compulsivas no meio da madrugada, era o motivo até mesmo de suas roupas folgadas e desleixadas, tão diferentes de suas habituais peças trendy e engomadinhas.

Tudo por que haviam se conhecido nas férias de verão antes do início das aulas, em um dos hotéis dos Evans, na Itália, onde ocasionalmente Ryan e Sharpay decidiram passar alguns dias de suas férias. É claro que Ryan o conhecia, não pessoalmente, mas já havia escutado muitas historias a respeito do famoso herdeiro dos Mutande. Quem afinal não havia escutado?

Drake Mutande, diziam os tablóides, o egocêntrico e fanfarrão herdeiro do petróleo. Não era de se espantar a existência de bilhões de meninas correndo ao seu redor, em qualquer canto do mundo em que ele estivesse, jurando-lhe amor ou rastejando-se por uma noite em sua cama. Ele parecia a perfeição personificada com suas roupas folgadas, seus cabelos despenteados e seus óculos blasé enquadrado no rosto aristocrata (pois era assim que Drake Mutande vestia-se quando não estava sob os olhos estreitos da mídia e era obrigado a espremer-se em ternos de marca), escutando música enlatada, pop fabricado ou latino, rock dos anos 80 e trilhas sonoras de musicais fracassados, pouco se lixando para o bom lixo que seu gosto musical soaria para estranhos. Ele era um Mutande, escutaria o que quisesse, onde quisesse e quando quisesse. Não se importava com o que diziam e muito menos com o que pensavam. Ele faria o que quisesse e ninguém ousaria não engolir prontamente suas ordens.

Não levaria mais de dois dias para Drake notar o emaranhado de sentimentos confusos que era Ryan perambulando solitário pelo hotel: deitado sozinho em uma espreguiçadeira próximo a piscina, atrás de sua irmã com uma deprimente expressão de derrota no rosto, sentado em uma mesa reservada no Salão lendo dezenas de livros ou bronzeando-se em uma enorme bóia azul bebe atirada na piscina. Era justamente aquele pacote de sentimentos intocados que Drake desejava em sua cama, e se ele viesse com um rostinho angelical e um corpinho firme como o de Ryan, bem, aquilo tudo seria um extra.

Ele aproximou-se com cautela, "cercava-o ocasionalmente" por todos os cantos, e usando todo o charme que sabia ter, envolveu mais um, mais um projeto de sentimentos confusos e singulares que se distinguia da multidão ao seu redor, mais um qualquer que não parecesse um idiota superficial capaz de tudo por uma noite de sexo com ele.

Passar uma noite inteira em companhia de Drake em seu jacuzzi particular aquelas férias definitivamente não era o que Ryan esperava, muito menos passaria por sua cabeça a insanidade e deleite de fazer o que fez no jacuzzi, na suíte ou na cozinha de Drake. Ele nunca havia feito sexo antes e aquilo tudo tornava-se bastante surreal. Primeiro, por nunca haver feito aquilo com qualquer pessoa antes, segundo, por tudo ter acontecido tão surpreendentemente rápido e terceiro, é claro, DRAKE MUTANDE. Ele estava na suíte do milionário mais famoso e cobiçado de toda a Europa, tomando champanha em sua jacuzzi e não importa o que isso significasse, sua mão parecia ter passe livre e V.I.P por todo o corpo do outro.

Foi um de seus momentos mais gloriosos, ver a mistura de horror, inveja e deslumbre no rosto pálido de Sharpay quando, em um final de tarde na piscina, a apresentou a Drake e suspirou sorrateiramente em seu ouvido que estava transando com ele. Ele não desejava ser mais que a irmã ou vê-la de certa forma abaixo dele, mais aquilo era algo com que Sharpay adoraria gabar-se e espalhar com irritante extravagância entre seu circulo íntimo de amigos.

A questão não era a sorte de Ryan, sua beleza convencional ou quaisquer de seus atributos físicos. Drake Mutande não era de impressionar-se com esse tipo de coisa, pois a tinha nas mãos a qualquer momento.Era a essência, o algo a mais que ele sempre levava para cama, e naquelas férias, fora a essência de Ryan a escolhida. Talvez por exigência ou gênio forte, e por que não dizer crueldade, essência era algo passageiro para Drake Mutande.

Algumas semanas bastaram para Ryan encontrar-se perdidamente apaixonado, sua primeira e única grande paixão até ali. Havia algo no ar que o entorpecia sempre que Drake adentrava sua mente, como se a mirabolante imagem de seu rosto flutuando por entre fumaça branca como névoa em sua mente fosse capaz de tornar o mundo e o que quer que fosse melhor. Como se sua voz de timbre calmo e descontraído silenciasse dezenas de potentes alto-falantes em volume máximo.

A essência de Ryan parecia agora algo banal e até mesmo irritadiça para Drake. Já era mais que hora de sugar outras experiências, viver outras almas, amar ocasionalmente outras mentes. Ryan precisava seguir seu caminho bobo e previsível, e Drake encarregaria-se de assegura-lo disso.

Regressar ao colégio fora algo tão prazeroso, como se o insulto de vagar pelos corredores sendo capaz de pensar em Drake e ninguém mais ter conhecimento disso fosse a coisa mais espetacular de todo a galáxia, e sorrir sem motivo ou em horas impróprias, não pentear os cabelos e fazer caretas fossem tão normais como a inalação de oxigênio. Até a cruel chegada da ausência. Das ligações sem retorno. Das notícias de noitadas com companheiros famosos, Drake saindo de uma boite recém inaugurada bem acompanhado por uma bela ruiva e um moreno da Calvin Klein ,banheiros vomitados, drogas, papparazzis e "Ele está bem, deixem o rapaz em paz, seus cretinos".

Ele não entendia muito bem. Alias, não entendia coisa alguma. Não sabia que tudo o que tinha, tudo o que pensava atar-lo a Drake seria bom o suficiente somente para algumas semanas (o que pode se considerar um extremo avanço tratando-se de um Mutande). Era como se toda aquela semana de férias fosse uma lembrança vivida bem distante. Ele pensara (como não poderia pensar?) que continuariam se vendo, apesar da distancia e da vida tumultuada de Drake. Ele o veria nos finais de semana, iria para onde ele estivesse, divertiriam-se nas suítes luxuosas dos melhores hotéis do mundo, e pela primeira vez ele teria alguém para entende-lo e ama-lo de verdade.

Drake não parecia compartilhar das mesmas idéias de Ryan. Não retornava os inúmeros telefonemas, e-mails, não parecia sentir falta dos dias mais surpreendentemente maravilhosos da vida de Ryan, como se aquela semana fosse mais uma entre as quatro semanas de um mês. Ele não queria acreditar que poderia estar enganado. Era difícil e dolorido. Sharpay o havia alertado, com todos os telefonemas não respondidos, todas as notícias voando de canais em canais, de tablóides em tablóides. Ryan Evans fora mais um na suíte de Drake. E agora ele viera vê-lo. Com suas roupas sociais, o cabelo devidamente moldado com gel, seus olhos vazios e suas olheiras, Ryan havia percebido, não estavam tão acentuadas como antes.

- Ryan.

- Drake.

Abraço.

Ele podia sentir cada partícula de seu corpo formigar. Pequenas agulhas o perfuravam, sem piedade, todo o seu corpo, peito, pernas, braços, rapidamente.

- E então, Drake? – ele continuou.

- Como anda a vida, bonequinho?

- Não me chame de bonequinho, Drake.

- Ah, bonequinho! Gostei da roupa!

- E eu do cabelo.

- Sem gozações, bonequinho, por favor. Meu pai assina um contrato aqui hoje e pensei em te ligar. Surpreso?

Ele sorria com um ar satisfeito. Deu um soquinho no peito de Ryan como se para afirmar que sentia saudades.

- Bastante.

- O que foi? Não gostou?

Suspiro.

- Sabe, bonequinho, você é muito ingrato! Dá um beijinho no Drake aqui, vai.

Ryan sentiu a cintura envolvida por braços longos. Sentiu o perfume da pele de Drake e as agulhas pareceram intensificar seu trabalho em sua pele. Seu rosto sentiu o calor da aproximação do rosto do outro e uma voz que soava como sua consciência explodiu em sua mente.

"Ryan! Estamos falando de Drake Mutande! Drake Mutande, irmãozinho! Você não lê a OK? Ou a People? NY Times? Drake Mutande. O maior fanfarrão de toda a Europa, não para quieto nem mesmo um segundo com todas essas vadiazinhas estranhas e modelinhos intelectuais, você realmente esperava que... ah, Ryan, não! Não, não, não! Você não pensou que... Ryan Evans! Você é um completo imbecil!"

A voz de Sharpay alcançava mais uma vez seus ouvidos aquela manhã. Se havia algo que Sharpay o fazia bem era dizer verdades sem pestanejar em sua cara. Quando seu número em qualquer musical estivesse ruim, ou ele desafinasse, errasse a coreografia, usasse algo suspeitamente brega ou fora de moda, ela estaria sempre lá para lança-lo um olhar de irritação e esfregar a verdade em sua cara. E não era diferente de maneira alguma com Drake. Sharpay estava certa mais uma vez.

Seus lábios umedeceram-se antes de toca-lo. Ele sabia que o outro pouco se importava com o que ele poderia estar sentido, mas perder a oportunidade de tocar Drake, senti-lo emanar calor, mesmo que tão distante, parecia algo tão tolo e absurdo.

- Devo ficar uns dias por aqui acompanhando meu pai. Posso contar com você?

Ele tinha ambas as mãos nos ombros de Ryan, de frente, mirando-o com um sorriso fino e frio.

- Claro, Drake. Claro.


A chuva fraca e insistente caia lenta manchando o asfalto e molhando seus tênis. Ele perguntou-se, quando cruzou mais uma esquina, a mochila jogada sobre um dos ombros, quando a neve enfim chegaria.

O inverno sempre fora acolhedor. Seria sempre assim para Ryan. Mesmo com toda a dor ou qualquer problema, o inverno fazia-se notar. Ele lembrava-se perfeitamente, quando criança, do frio envolvente, o vento cortante e gelado, das chuvas finas e trombas d'água, dos casacos grossos que cobriam seu pescoço, das luvas e cachecóis e das tão deslumbrantes grandes nevascas. Neve, e apenas a neve. A grande estrela do inverno. Ver os pequenos flocos debaterem-se contra a janela, pousarem nas superfícies felpudas dos casacos e luvas, derreterem lentamente como mínimos seres sutis na palma de uma mão. Sentir o toque da neve na pele, a excitação, a liberdade, o sentimento de preenchimento que o obrigava a sorrir, mesmo não tendo motivo algum para faze-lo. A neve sempre o comovia, como a interpretação dramática da estrela principal de um grande musical. Toda aquela chuva e vento simplesmente não o convenciam, eram todos coadjuvantes, figurantes, papéis mínimos cujas falas resumiam-se a meras linhas, linhas que davam deixas para a triunfante chegada da neve. Era como se o inverno só se tornasse inverno com a chegada do primeiro floco de neve. Perguntou-se novamente quando ela chegaria. De uma forma estranha, era como se ele precisasse da neve.

Tocou o interfone e em segundos o grande portão de ferro moveu-se em uma fina brecha para que passasse. Surpreso com a idéia de uma casa enorme, completamente vazia e só para si, ele cruzou o jardim, pensando mesmo sem muita convicção, quando destrancou a porta da frente, que talvez um bom musical no home theater da sala de visitas (raras eram a oportunidades de desfrutar algo em paz e sozinho tendo Sharpay como irmã) o fizesse sentir-se melhor.

O ranger da pesada porta de madeira da sala o fez desgrudar os olhos da tela da enorme TV, enquanto Nikki Blonsky rodopiava e cantarolava em companhia de John Travolta em uma rua do subúrbio americano em uma das cenas do aclamado Hairspray. Sharpay, visivelmente irritada, arremessou a bolsa de couro Prada ao sofá, logo depois de escancarar a porta e entrar marchando, as bochechas um tanto coradas e o cenho levemente enrugado.

- Um completo imbecil, aquele... careca! - ela disparou.

Ryan podia dizer, pela expressão de ameaça pintada nos olhos a sua frente, que mais uma vez a irmã falhara ao tentar organizar, como ela própria o chamava, suas notas no boletim bimestral. Tinha as mãos fechadas em punho e os olhos estreitos e ameaçadores.

- Ele foi o único! O único! A-! A-, Ryan!

Ryan abaixou o volume dos alto falantes e espreguiçou o corpo no sofá. Pousou a cabeça no colo de Sharpay e encolheu as pernas por entre as enormes almofadas acolchoadas. O fato de Sharpay não ter obtido as notas que queria em todas as matérias no boletim não era de muita importância no momento, ou momento algum, sinceramente. Ele se apaixonara. Apaixonara-se por um louco prepotente, cujo único vinculo que desejava compartilhar com ele era o sexo. Que se exploda o A- de Sharpay, droga!

- E então? – ela perguntou um pouco contrariada pela falta de tato do irmão para com suas notas. Ajeitou o cabelo levando-o para as costas para logo depois acariciar os de Ryan.

- Hum? – ele perguntou aéreo.

- Mutande! O que ele queria?

Ryan fechou os olhos. Não iria encarar a irmã quando dissesse aquilo. O fato em si de Sharpay estar certa mais uma vez não o magoava ou o perturbava, já estava acostumado. Era a esperança que teimara em demonstrar ao confronta-la dizendo que Drake o amava que acabava por arruiná-lo em pedaços diante da garota. Apertou os olhos com força, completamente em silêncio.

- Ryan? – ela o chamou mais uma vez.

Um soluço fraco e quase imperceptível.

- Você estava certa. Certa mais uma vez...– ele disparou não contendo as lágrimas.

Tinha vergonha das lágrimas manchando-lhe o rosto. Eram lágrimas de vergonha, aquelas lágrimas. Às vezes pensava ser verdade tudo o que Sharpay o dizia. Ele não seria ninguém sem ela. Ninguém. Seria um espectro sem rumo, enganado por todos os obstáculos que a vida lhe infligisse.

Sentiu as mãos da irmã chegarem em seu coro cabeludo, e como sempre, agradeceu intimamente aos céus por aquela mão que o consolava. Eles nunca entenderiam Sharpay, ele pensava. Muito menos ela deixaria-se ser compreendida.

Secou os olhos e o rosto e levantou a cabeça do colo da outra. Com um sorriso tímido e os olhos ligeiramente vermelhos beijou-lhe a testa.

- Vou tomar um banho – disse levantando-se – Para almoçarmos, okay?

O almoço fora servido na sala de jantar, como sempre, na enorme mesa de madeira escura e polida, tendo somente dois lugares postos: as duas extremidades da mesa ocupadas pelos irmãos Evans. Como as aulas terminavam na parte da tarde e os dois eram os únicos na casa além dos criados, os Evans faziam suas refeições de forma rápida e despreocupada, levando-se também em conta o fato da cerimônia do almoço ser uma tradição, um momento obrigatório na casa. Aquela tarde havia frutos do mar de todas as variedades e em várias especialidades diferentes. Ryan achava uma perda de tempo tudo aquilo, vendo que Sharpay mal tocava em seus pratos e seu próprio apetite por sua vez, embora grande, não era o suficiente para toda aquela fartura.

Serviu-se de caldeirada com fatias finas de pão francês enquanto mirava a irmã a alguns metros na outra extremidade da mesa. Havia algo a perturbando e não era de agora. Não suas notas na escola ou qualquer professor, ele sabia. Troy Bolton. Era esse o seu problema. Tratando-se de Shapay, Troy Bolton sempre fora o seu único problema sem solução.

Ryan levantou-se da mesa e levando consigo o prato e a cestinha de pães sentou-se ao lado da irmã. Com os olhos ainda vermelhos riu-se da expressão de espanto em seu rosto.

- O que foi? Não posso me sentar aqui?

Resmungo.

- Chateada?

Rosnado.

- Bolton?

CLANG

Sharpay deixara cair o grande garfo de prata com estrondo no prato de porcelana.

- Sharpay, você sa...

- Ryan, nem mais uma palavra!

- Eu só...

- Ryan!

- Mas...

- Ryan, cale a boca!

- Se você...

- RY- AN!

- Okay, nada de Bolton por hoje. Entendi, tudo certo.

- A questão não é o Troy, idiota. Ele..., ele está okay e tudo mais, no musical, sabe?

- E então, se você acha que realmente não vê problema com ele no musical, qual é o problema Bolton da vez?

- Não há problema Bolton, estúpido! Estou falando, nunca houve problemas Bolton! A questão é... a questão é que nós merecemos papéis decentes no musical! Meros coadjuvantes? O que a Senhora Darbus pensa que está fazendo? Temos praticamente quase o mesmo número de falas e aparições que todos os outros! Isso é inaceitável! Com todas as peças e musicais que estrelamos, merecemos algo que preste!

Ryan mirou-a paciente e com uma olhadela de desdém.

- Não há nada com Bolton se quer saber! – Sharpay vociferou.

- Hum... certo.

Ela voltou a atenção para a salada de camarão a sua frente. A mão direita espalmada na bochecha enquanto a esquerda brincava com o garfo. Ryan pegou mais uma fatia de pão e molhou no caldo encorpado da caldeirada ainda olhando para a irmã. Seus olhos cruzaram-se e ele soube o que estava por vir.

- Tudo bem! Okay! ELA PENSA QUE PRESTA PARA O PAPEL, DEIXE-ME FALAR: ELA ESTÁ ERRADA! SIM, ERRADA! – ela gesticulava as mãos, o garfo ainda na esquerda, ameaçadoramente apontado para Ryan - aquele sorrisinho sonso de boa moça e "EU SOU A BOA SAMARITANA, OLHEM PARA MIM! MEU NAMORADO É IRRESISTÍVEL E INTELINGENTE E PERFEITO!" E a senhora Darbus está cega, é isso? A VOZ DELA É IRRITANTE E A LINGUAGEM CORPORAL COMPLETAMENTE RUIM! Ryan, escute-me, EU DEVERIA SER O PAR DE BOLTON! EU DEVERIA ESTRELAR ESSE MUSICAL IDIOTA DO LADO DELE! EU DEVERIA ANDAR POR AÍ COM AQUELAS BOCHECHAS CORADAS DELA E AQUELE SORRISO BRILHANTE E RETO! ARGH!

Ela largara o talher perigosa e propositalmente mais uma vez na louça. Suas bochechas estavam mais uma vez vermelhas e os fios de sua franja desalinhavam-se na testa enquanto um estranho silêncio tomava conta da sala e jantar.

As mãos de Ryan suavam em seus talheres e seu olhar era vago em direção a irmã. Parecia irreal cada minuto dos repentinos ataques "Montez Bolton" de Sharpay. Ryan sabia o quanto aquele musical passara a significar pra ela. Toda aquela confusão com a chegada de Gabriella e Troy ao Clube de Teatro e os irmãos Evans recebendo papéis secundários, totalmente sombreados pelos atos e musicais dos protagonistas. Era como se para Sharpay, Ryan pensava, a confirmação de que Troy Bolton nunca seria seu acabasse de aterrissar em sua cabeça com a surpreendente escolha dois papéis de destaque no musical da Senhora Darbus. Ele não a julgava. Troy nunca fora visto em um namoro sério, sem a menor sombra de dúvida, sempre fora o solteiro mais cobiçado de todo o colégio. As esperanças de Shapay não pareciam abaladas com as demonstrações diárias de não interesse por conta de Bolton, mas a chegada de Gabriella mudava a situação de forma brusca, e Sharpay parecia notar isso.

- Ela não é tão bonita como dizem – ele mordeu uma fatia do pão tentando parecer natural com a intenção de animar a irmã – e o cabelo dela não tem aquele brilho todo, aquilo parece um tanto artificial.

- Avise isso ao Bolton!

- Sabe, está na hora de deixarmos essa história Bolton e Mutande um pouco de lado.

Suspiro.

- O que exatamente você pretende com isso, Ryan?

- Talvez, pelo fato de estarmos, digamos que o ocupados demais com tais histórias, acabamos com esses papéis secundários no musical, o que você há de concordar, não foi exatamente o que planejamos para o inverno.

- Mas é claro que não, Ryan! – ela bufou sem paciência - E você está certo, creio eu - empurrou os talheres de prata para longe do prato, um sorriso audacioso formando-se nos lábios – temos que mostrar a Senhora Darbus que todo esse tempo de devoção ao Teatro não pode simplesmente ser rebaixado a papéis secundários de maneira tão fácil e estúpida. Mostraremos a ela amanhã que um Evans nunca se satisfaz com menos do que pode conseguir.

Ryan sorriu, esperando sinceramente que seu sorriso tivesse um efeito encorajador na irmã. Não pretendia, na realidade, conseguir um papel melhor no musical, vendo que para aquela situação, Troy e Gabriella eram o casal perfeito para estrelarem o projeto de inverno. Estava certo de que seu conselho de aprofundarem-se nos preparativos do musical para desligarem-se de "histórias mal resolvidas" não poderia funcionar para Sharpay, e certo de que, aquela baboseira sem fim que parecia ter se tornado o musical de inverno, de maneira alguma seria capaz de tirar Drake Mutande por um só minuto de sua cabeça.


O frio de Dezembro começara a notar-se com a chegada de cada tarde. Uma neblina fraca pairava a meio ar, envolvendo carros, prédios e pessoas onde quer que estivessem fora de suas casas, mas a neve de fato, estranhamente ainda não havia chegado. Após o almoço, Ryan subira para o quarto e trancara-se enquanto Sharpay rumara para a aula de tênnis no clube.

Com as cortinas fechadas e janelas trancadas, ele sentou-se na cadeira acolchoada a um canto e conectou o laptop logo a sua frente em um ato mecânico. Espreguiçou-se na cadeira de couro negro e iniciou o programa de mensagens instantâneas, acolhendo-se no casaco grosso de moletom para escapar do frio.

O vento lá fora castigava as janelas e invadia o quarto, mesmo sem nenhum caminho para entrada. A chuva cessara após o almoço, mas a cheiro de asfalto molhado ainda era vivo por todo o ambiente.

Inclinou-se confortavelmente na cadeira enquanto meia dúzia de contatos fazia o serão virtual de sempre. Suas horas on-line não eram as mais produtivas. O número de pessoas que o aturdiam com suas conversas vazias era enorme, e Ryan simplesmente não sabia como reverter a situação. Hesitou quando viu, entre os pedidos de autorização no programa de mensagens instantâneas, o e-mail de Troy Bolton.

T. Bolton adicionou o seu nome em sua lista de contatos.

Deseja adicioná-lo?

Não era de certa forma algo impossível. Sharpay certamente teria o e-mail de Troy há séculos e afinal, ele e Troy agora eram parceiros no Clube de Teatro, era mais que natural que trocassem e-mails. Clicou na janela do outro e pôs-se a digitar uma mensagem.

Ryan: Hey!

Esperou alguns segundos até ver a luz característica do programa, captando sua atenção.

T. B.: Ryan! Tudo certo se eu adicioná-lo aqui?

Ryan: Sem problemas... tudo certo.

Endireitou-se na cadeira e puxou o casaco para mais próximo do corpo.

Ryan: Sabe, acho que Sharpay está com algo em mente para amanhã. Na reunião do Clube de Teatro.

T.B.: Algo em mente? O que você quer dizer?

Ryan: Algo... um tanto trapaceiro, se a conheço bem. Ela não está habituada com a idéia de não ser a estrela de qualquer coisa em que se meta.

Ele pode sentir e enxergar a cara de desconfiança do outro, mas afinal, não sabia mesmo o porque de querer alertar Troy sobre uma possível armação da irmã.

T.B.:Hum... entendo. Obrigado de qualquer jeito. Está tudo certo?

Ryan: Tudo certo comigo? Acho que sim.

T.B.: Não parecia muito bem quando conversamos hoje pela manhã. Algum problema?

Ryan: Algumas coisas não saíram como o planejado. Acho que foi isso.

Ele indagou-se desde exatamente quando Troy Bolton mostrava interesse em seu estado de espírito e se ele fora a única pessoa a perceber que algo não ia muito bem. Ele estava tão mal a ponto de notarem a decepção em seu rosto? Bolton e ele nunca foram muito amigos antes do musical e mesmo depois, os dois não tornaram-se amigos confidentes e inseparáveis. Eram colegas formais cujos amigos em comum em demasia acabavam por obriga-los a estarem perto um do outro.

T.B.: Algo a respeito do musical? Acho que estamos começando a pegar a essência da coisa, não acha?

Ryan: Não, não é o musical. É, estamos começando bem.

Se Troy, um amigo um tanto distante, havia percebido que algo acontecia e de fato mostrara-se preocupado, Ryan tinha razões para perceber-se preocupado, afinal, toda a suspeita de angustia e decepção que tivera transparecia de fato em seu rosto.

T.B.: Algum problema com alguém? Alguma garota?

Pensou em Drake e em tudo antes de Drake. Se ele agora estava diferente, tão diferente a ponto de atrair a atenção de pessoas que usualmente não atraia, era culpa de Drake. Como pode uma pessoa arruinar os planos de outra sem ao menos mover um dedo? Como pode alguém fazer tão mal a um indivíduo sem ao menos perceber? Ele desejava agora nunca ter encontrado Drake, nunca ter saído de férias e encontra-lo, seu rosto tão mágico capaz de entorpecer. Ele queria ser como antes, quando o teatro e o colégio eram as únicas coisas que consumiam seu tempo, mesmo consciente de que sem Drake não teria vivido paixão nenhuma. Estaria sozinho como sempre esteve.

T.B.: Ryan?

Everyday it's getting worse not better
Maybe we should sit and finally talk
'Cause where we were at it's hard to measure
When I'm standing in front of a wall

Ele queria deitar-se à noite e por uma vez não pensar em nada, absolutamente nada. Era tão difícil vagar sem rumo, jogado na cama, perguntando-se o porque de tanta fragilidade e estupidez, o porque de tanta paixão e obsessão.

T.B.: Ryan?

You wanna know why I look sad an lonely
You wanna know why I can barely talk, well
It's not your fault so let me say I'm sorry
For making you the reason for my fall

Ele era feliz antes de Drake. Mesmo sozinho, sem alguém especial. Tinha a irmã, e por mais que especulassem, ele a considerava ótima, a amava. Tinha os pais, os amigos e o teatro.

T.B.: Ryan? Você está aí? Ryan?

I wish that I could be like I was before
I was riding high but now I'm feeling so low
I wish that you could make my world feel better
And take away the hurt so I won't be so far gone

O teatro sempre estivera lá, disposto a ajuda-lo quando necessário, mas agora, a essência do palco parecia banal. Drake, mesmo que inconsciente, fizera com que não houvesse mais teatro. Não havia mais luzes, figurinos, atos, falas, não havia ao menos platéia, magia, não havia se quer sentimentos.

I wish, I wish, I wish, I wish
I wish, I wish, I wish


N.A.: A música é uma parte de I wish, Hilary Duff. Desculpas pela demora e o capítulo é meio bobinho mesmo. Só para explicar a história do Drake e do Ryan e o quanto o Troy vai ter que suar para tentar fazer o Ryan superar isso. Obrigado pelos comentários e até o próximo capítulo.