O aquariano remexeu-se na cadeira do Café, onde havia parado para tomar um chá gelado, com as últimas lembranças que teve. Miro, certamente, estaria rindo dele se o visse daquela forma, tão incomodado com uma mísera lembrança e ainda diria, com a cara mais lavada do mundo, todo convencido:
– E olha que essa nem foi a melhor noite que passamos juntos...
Ele era assim mesmo, adorava ficar testando os poderes que tinha sobre o aquariano, que quase sempre correspondia às suas expectativas. Camus já não conseguia se imaginar sem aquele escorpiano temperamental.
Assim, foi inevitável continuar puxando a linha do tempo até o dia em que começaram a namorar.
FlashBack
Camus sentia a água correndo pelo corpo enquanto se esforçava para recolocar os pensamentos em ordem. Agora estava feito... não tinha mais volta.
– Como eu fui me deixar envolver por ele? – o aquariano se questionava sem conseguir responder.
Desde que se conheceram, aos 5 anos de idade, assim que chagaram no Santuário para serem treinados, tornaram-se amigos. Foi "amor" à primeira vista, uma afinidade imediata e inexplicável que os fazia ficarem juntos apesar de todas as brigas que tinham, de todas as diferenças de temperamento e personalidade. Se Miro, muitas vezes, preferia brincar de pique com os outros a ficar observando, com Camus, as formigas de correição carregando folhas para o formigueiro, era para a cama do aquariano que corria quando relampeava, assim como era apenas no colo de Miro que Camus chorava de saudades dos pais, mortos poucos meses antes dele chegar ao Santuário em um acidente de trem.
E essa amizade infantil só fez se fortalecer com o tempo, claro que, apenas poucos anos depois, Miro já não tinha mais medo de relâmpagos e Camus já superara a morte prematura dos pais, mas os laços que os uniam permaneciam fortes, indestrutíveis, assim como eles próprios com o decorrer dos treinamentos.
E como comemoraram juntos quando vestiram, pela primeira vez, as suas armaduras de Ouro! Sabiam que dali para frente as suas responsabilidades aumentariam, mas não reclamavam, esse fora o destino que, de alguma forma, escolheram, e estavam muito orgulhosos do posto que, agora, ocupavam.
Alguns meses passaram e Camus foi convocado para treinar o Cavaleiro de Cisne na Sibéria. Na ocasião o aquariano sentiu-se muito inseguro frente à tamanha responsabilidade e Miro, percebendo a angústia nos olhos do amigo, o questionou sobre o motivo. O jovem escorpiano, depois de ser colocado à par da situação e mesmo sabendo que ficaria anos afastado do amigo caso ele aceitasse a missão, o encorajou.
"O destemido Cavaleiro de Aquário com medo de treinar um moleque? Ora, Camus, se você não for capaz de ser um excelente Mestre, ninguém aqui é. E, por favor, não tente me convencer de que isso não é o seu maior desejo, maior do que subjugar os inimigos, maior do que ser poderoso, temido e forte. Diferentemente da maioria dos Cavaleiros, o que você mais quer é poder passar tudo o que você sabe, a maravilhosa técnica que você desenvolveu, para alguém."
E depois dessa conversa, um dos poucos puxões de orelha que o aquariano recebeu de Miro, Camus embarcou para a Sibéria, ficando por lá 6 anos, período no qual apareceu muito poucas vezes no Santuário. E quando voltou, por ironia do destino, apenas poucos dias depois acabou morrendo pelas mãos do próprio discípulo, gastando as suas últimas energias para ensiná-lo o seu último e mais poderoso golpe.
Quando Miro o tomou nos braços e conferiu que estava realmente morto, odiou o destino, por reservar àquele brilhante homem uma morte tão prematura, odiou também o jovem Cavaleiro de Bronze, assim como a própria Deusa Athena, já que fora para salvar a vida dela que ele não acabou com a raça do moleque na Casa de Escorpião. Em pensar que não tivera nem tempo de desfrutar da companhia de Camus, quando ele voltara da Sibéria o Santuário já vivia um clima de guerra iminente, ele mesmo fora enviado para destruir a Ilha de Andrômeda. Tanto tempo, tantas vidas perdidas, em vão...? Os olhos já estavam inundados de lágrimas quando percebeu que Camus apresentava um sorriso nos lábios, morrera exatamente da forma como gostaria, vencido pelo seu aluno. Claro que Miro lamentava a morte de todos os Cavaleiros de Ouro, mas era por Camus que ele chorava.
Com o passar do tempo a tristeza se transformou em saudade. De todos os laços que se formaram entre os Cavaleiros, era o que o unia a Camus o mais forte de todos e, ainda depois da morte, assim como quando eram crianças, era inviolável.
Até que veio a batalha contra Hades e eles acabaram se encontrando em uma situação completamente nova, estavam em lados opostos quando os Sopros de Athena foram disparados, destruindo quase todo o Santuário e as suas próprias vidas. Apesar de ter enfrentado o aquariano, apesar de não ter hesitado em aplicar o Sopro de Athena contra ele, dentro do seu coração sabia que Camus não era um traidor, verdade que viria, felizmente, a descobrir depois. Ficaram mortos até que a Deusa, não só por bondade, mas também por absoluta necessidade, os trouxesse de volta à Terra. Depois de tanto tempo Camus voltava a desfilar sua beleza e brilhantismo por aquelas terras sagradas e a alegria estava de volta ao rosto do escorpiano.
Mas depois de terem vivido tudo isso, depois de tantas demonstrações de que podiam confiar na amizade um do outro, estragaram tudo por conta de um momento de prazer.
Camus já terminava de enxaguar o corpo. Logo teria que sair daquele banheiro e enfrentar a realidade, enfrentar a sua nova condição. Depois da transa, as únicas palavras que dirigira à Miro foram "posso usar o seu banheiro?", o que ele respondeu com um simples aceno de cabeça. Como se encarariam dali para frente?
Nunca fora fácil para Camus compreender a lógica envolvida nos relacionamentos relâmpago que Miro vivia. Parecia incrível ao aquariano como ele podia se dedicar a uma conquista diferente por semana, como conseguia se relacionar com tantas pessoas e não se envolver verdadeiramente com ninguém. Quanto a fama de amante perfeito, Camus comprovara ser verdadeira há poucos instantes.
Mas, apesar do incrível prazer que parecia obter desses relacionamentos, podia se lembrar claramente de como Miro reclamava e odiava quando as suas companhias acabavam por passar a noite na Casa de Escorpião. Até esquecia de elogiar os belos corpos, se colocava a reclamar que detestava a bagunça que faziam em seu banheiro, que detestava não poder se espalhar pela cama, ocupando-a inteira, que detestava ter que olhar para a cara delas pela manhã, com a maquiagem toda borrada, muitas vezes até se perguntando o que vira naquele ser para ter passado a noite na sua companhia.
Realmente não dava para compreender, se esforçava tanto na conquista e depois, apenas fazia reclamar dela, da sua imperfeição, salientando cada defeito como se quisesse uma desculpa para expulsá-la solenemente da sua vida. Esse seria o fim dele próprio e, por isso, já considerava a amizade como perdida. O que Camus não sabia era que o único, e verdadeiro, motivo para aquele comportamento do escorpiano era que cada uma daquelas pessoas não era a pessoa por quem Miro procurava cegamente, desesperadamente. E que, quando ele encontrasse essa pessoa, se revelaria um companheiro dedicado, apaixonado e fiel.
Mas foi por estar certo da reação do escorpiano depois daquela noite que tomou a decisão de não se enganar com a aparente entrega, iria embora daquela casa o quanto antes.
Enxugou-se sem ainda conseguir formular uma frase de despedida ou algo que o valesse, estava tenso, detestava se sentir pressionado daquele jeito. Respirou fundo e abriu a porta do banheiro, ainda ouvindo dentro da sua mente uma das clássicas frases de Miro.
"Eu não prometo nada pra ninguém, Camus, não posso ser responsabilizado por essas pessoas gostarem de mergulhar em ilusões."
Mas Camus não estava disposto a entrar para essa lista. Já havia perdido o amigo, mas não queria perder o orgulho. Jogou-se para fora do banheiro, pisando no tapete cor de creme que cobria o quarto do escorpiano e olhando em volta em busca da bela figura de cabelos azuis cacheados. Encontrou-o sobre a imensa cama, o corpo nu que possuíra minutos atrás aparentava estar já em um sono profundo.
Agradeceu por dentro, podia parecer um pouco covarde, mas seria melhor assim. Aquela noite ficaria gravada como um sonho, nada mais do que isso, sem despedidas, sem explicações, sem constrangimento. Vestiu-se e saiu, fazendo o mínimo de barulho, em direção à 11a Casa Zodiacal.
Miro acordou no dia seguinte exatamente na mesma posição em que deitara para esperar Camus sair do seu banho. Atravessado na cama, do jeito que estava, era impossível que outra pessoa tivesse passado a noite ali com ele. Mas procurou instintivamente pelo aquariano e, só depois de conferir se ele não estava na cozinha lhe preparando um delicioso café da manhã foi que voltou ao quarto, jogando-se novamente sobre o leito.
– Idiota... você realmente achou, Miro de Escorpião, que ele passaria a noite com você? – perguntou-se olhando para o teto.
Não conseguia evitar as lembranças da noite anterior, da química perfeita que parecia haver entre eles, dos toques, dos gemidos...
– O Cavaleiro de Aquário tem muitos "problemas para resolver", que não são da sua conta. Merda... – lembrou-se de Camus chegando em casa com a camisa pólo preta, nunca saberia de onde estava voltando.
Por incontáveis momentos, na noite anterior, pensou em Camus não apenas como mais um de seus numerosos amantes, mas sim como alguém para dividir sua vida, alguém para quem dedicasse a sua fidelidade, alguém para quem entregasse todos aqueles sentimentos que o corroíam por dentro. Mas Camus jamais estaria disposto à algo daquela magnitude. Por que da mesma forma que Miro o entregaria sem medo a sua vida, não exigiria menos dele. E Camus sempre demonstrou não gostar dessa idéia, uma paixão insana, um amor infinito... nada disso o seduzia.
Os pensamentos giravam em uma velocidade vertiginosa, mas sempre retornavam a solidão da sua cama de lençóis macios e cheirosos, que não passavam disso, por que ele não havia se deitado nela.
– Merda... Mas quem disse que eu queria que ele tivesse acordado do meu lado? Certamente se tivesse passado a noite aqui eu mal teria conseguido dormir, aquele maldito se mexe a noite inteira.
Mas as lembranças vieram desmenti-lo, nisso combinavam perfeitamente. Suas memórias o levaram para as noites de tempestade em que, sem a mínima cerimônia, se aninhava nos braços do garoto francês, obrigando-o a dividir consigo a sua cama. Na época Camus era, não só mais alto, como também mais forte que ele, e sentia-se seguro dentro do seu abraço. Mas bastava que Camus pegasse no sono para que começasse rolar de um lado para o outro, acotovelando-o muitas vezes. Acontece que Miro dormia tão pesado que só tomava conhecimento do quanto apanhava do aquariano durante a noite pelos hematomas que lhe cobriam o corpo pela manhã.
O escorpiano não pôde evitar um sorriso triste ao se lembrar de tudo isso. E uma lágrima solitária rolou pelo rosto.
– Droga, Afrodite... que merda de problema você me arrumou...
Mas talvez o "problema" já estivesse há muito tempo lá, apenas esperando para ser descoberto. Talvez Afrodite estivesse certo desde o início, ele sempre amara Camus. Levantou-se, indo em direção ao banheiro.
– Nem para bagunçar uma porcaria de banheiro você serve... merda... merda...
E, num ataque repentino de fúria, atirou tudo o que havia sobre a bancada da pia no chão. Já não podia mais controlar as lágrimas. Sentou-se no chão frio do banheiro e chorou como uma criança que deixa uma bala cair no chão tão logo a tenha desembrulhado.
Passou o resto do dia trancado em casa, ninguém o procurou, nem mesmo Afrodite. Fora melhor assim, precisava ficar um tempo sozinho para que pudesse organizar novamente os seus sentimentos e pregar novamente no rosto o sorriso que era sua característica. No dia seguinte os treinos seriam reiniciados depois dos dois dias de folga concedidos por Athena e ninguém podia perceber que havia chorado, principalmente Camus.
Acordou no dia seguinte bem cedo, não queria que passasse pela mente do aquariano, nem por um segundo, que ele estava fugindo ou abalado por tudo o que acontecera. Depois de um dia inteiro de solidão, chegara a conclusão de que não exigiria de Camus mais do que ele estava disposto a oferecer, e isso se resumia em uma companhia que ele sabia ser agradável e um amante que ele descobrira ser muito quente. Essa era a única forma de se entenderem e Miro estava disposto a se conformar com ela. Para isso, precisava fazer Camus acreditar que seria realmente apenas isso, se bem que essa parte não era difícil. Ao contrário de Camus, que tinha o isolamento como único recurso para salvaguardar os seus sentimentos, Miro conseguia modular com precisão o que seria mostrado e o que ficaria escondido, a essa incrível capacidade se devia boa parte da sua maestria nos jogos de sedução. Saiu decidido e apressado em direção ao campo de treinamento, onde encontraria, não apenas o seu aluno, como também o francês.
Os Cavaleiros de Ouro haviam sido informados por Athena há apenas poucas semanas atrás do real motivo de terem sido trazidos de volta à vida. A Deusa lhes disse, em uma solene reunião, que a última missão deles, e também a mais longa, seria a de treinarem garotos para os substituírem.
O curso natural dos acontecimentos seria de que, com a morte deles, novos aprendizes fossem treinados para proteger cada uma das 12 Casas, porém, com as sucessivas batalhas, já não havia no Santuário quem estivesse capacitado para treinar as 12 crianças que utilizariam as 12 mais poderosas armaduras concedidas por Athena. Então, após consultar seu pai, Zeus, sobre a possibilidade de trazê-los de volta e explicando à ele seus motivos, conseguiu autorização e poder suficiente para realizar tal empreitada. Agora todos já começavam a treinar seus aprendizes, uns com mais desenvoltura que outros. Mu, Shaka e Camus, que já possuíam esse tipo de experiência ajudavam os outros, marinheiros de primeira viagem.
Quando Miro chegou, poucos segundos depois de Camus, este já estava na companhia do seu aluno, Amadon. Abaixado em frente ao garoto, de forma que ficassem mais ou menos da mesma altura, falava alguma coisa em que o pequeno prestava atenção. Como ele ficava à vontade na posição de Mestre, Miro não pode deixar de perceber isso. Próximo aos dois havia mais dois meninos, um deles Miro identificou como seu próprio aluno, Buller, o outro era Crovell, aluno de Saga, que também ainda não chegara. Aquela seria a prova de fogo, teria que se aproximar de Camus.
– Mestre! – Buller gritou quando avistou o escorpiano, fazendo com que Camus também desviasse sua atenção para ele.
Os olhares se cruzaram, mas imediatamente os dois desviaram.
– Bom dia, Buller – e, voltando novamente os olhos para o aquariano, ainda abaixado – Bom dia, Camus.
– Bom dia, Miro – disse levantando-se.
– Camus, eu gostaria de conversar com você depois dos treinamentos – disse sério.
– Claro, Miro – fez um esforço sobre-humano para não deixar transparecer na voz nenhum sentimento, mas se perguntava o que Miro podia querer falar ainda com ele? – o primeiro turno do nosso treinamento vai terminar às 11, depois disso o sol fica muito alto...
– Estarei aqui às 11 então, até mais – e saiu conversando com Buller.
– Amadon, vamos?
– Vamos, Mestre Camus.
A manhã correu lenta para Camus, estava inquieto com a conversa que teria com Miro em breve. O menino, percebendo a desconcentração do Mestre, o que era muito raro, não se empenhou o suficiente nos treinamentos e Camus teve que repreendê-lo muitas vezes para que conseguisse completar a série de exercícios programada pelo aquariano para aquela manhã.
Acabou liberando o garoto às 15 pras 11 e, lentamente, retornou para o campo de treinamento.
Chegando lá, encontrou Miro ainda demonstrando para Buller um golpe, ele era um dos Mestres mais exigentes e rígidos entre os Cavaleiros de Ouro, treinava cada movimento até a exaustão. Porém o menino foi logo liberado pelo escorpiano para almoçar assim que este notou a aproximação de Camus.
– O menino te cansou muito hoje? – perguntou com um leve sorriso nos lábios, era um sorriso fingido, mas Camus não percebeu.
– Não muito – mentiu – E você, sabe que se precisar de alguma coisa... – como já era esperado, ao contrário de Miro, Camus não estava conseguindo disfarçar a inquietação.
– Sim, sei que posso contar com você... e isso não é pouco – agora abrindo o seu sorriso característico, carismático.
Camus estava confuso, parecia que nada havia acontecido. Ficou em silêncio.
– Espero que você não tenha esquecido que ainda me deve um encontro.
Camus não conseguia acreditar que aquele jogo de sedução ia recomeçar, esperava tudo, menos isso.
– Miro, anteontem eu...
– Eu sei, você devia ter as suas coisas para resolver de manhã cedo e eu ainda estava com o sono atrasado da festa do Aioria.
Não era isso que Camus ia falar, ia dizer justamente que resolveu ir embora por que imaginava que Miro preferiria assim. Mas até que conseguisse explicar os seus motivos, certamente discutiriam muito. E Camus não se sentiria bem sendo o relacionamento dele e de Miro o foco da discussão.
E no meio de toda aquela instabilidade causada pelo escorpiano, Camus se fez uma intrigante pergunta pela primeira vez. E se eu tivesse ficado lá? Em seguida se fez uma outra pergunta, ainda mais cabeluda que a primeira. Eu queria ter ficado lá?
Como Camus não dizia nada, Miro continuou firme em seu trabalho de convencimento.
– Olha, Camus, somos adultos, temos uma amizade de mais de 15 anos. Sem promessas, sem cobranças... o que você acha?
Camus compreendia muito bem o que o escorpiano queria dizer com aquilo. Afinal, Miro não o estava surpreendendo tanto assim, continuava apresentando o padrão de comportamento de um conquistador incorrigível, apenas com uma pequena variação, que sequer poderia ser encarada como uma modificação na sua forma de encarar os relacionamentos amorosos. A vontade de Camus era de dizer para ele que não, que não ia participar daquele jogo, porém não conseguia expulsar essas palavras da sua boca. Refez mentalmente a pergunta, e se ele tivesse passado a noite com Miro? Jamais saberia o que teria acontecido mas, certamente, em momento nenhum teria acreditado que conseguiria se afastar facilmente do escorpiano.
– Não faremos nada diferente do que já fizemos até hoje – disse Miro, por fim, ainda sem demonstrar muito do que estava sentindo. Se demonstrasse Camus ia perceber que ele estava super-ansioso por uma resposta positiva.
A companhia dele era ótima, o sexo, descobrira recentemente, idem... sem promessas e sem cobranças... era uma proposta tentadora, pelo menos Miro estava fazendo um jogo aberto. Afinal, não podia se considerar traído se não exigisse fidelidade, não podia se considerar usado se ele próprio também estivesse usando, Camus pensava. Mas a verdade é que estava apenas tentando justificar racionalmente a vontade inexplicável de não se afastar de Miro.
– Amanhã? – perguntou o aquariano quase sem se dar conta de que aquilo significava um aceite. A tensão que permanecia no ar até aquele instante se dissipou como uma nuvem sob o vento.
– Ok, amanhã. Eu faço questão de te buscar em casa... – disse rindo, lembrando do encontro marcado dois dias antes e que acabou não acontecendo, pelo menos não da forma como ele havia planejado, justamente por que Camus resolveu ir para a 8a Casa e não esperar Miro na 11a.
Camus apenas riu com a brincadeira. Ainda estava assustado com a reação de Miro e com a dele próprio.
– Às 8 então?
– Combinado.
E no dia seguinte, pontualmente às 8 horas, Miro estava batendo na porta de Camus, que se apressou em abri-la. O escorpiano não demorou a mostrar para o outro qual seria o clima do encontro.
– Que produção, hein! Pretende conquistar alguém? – disse rindo enquanto observava o francês, realmente estava lindo.
Camus apenas sacudiu a cabeça também rindo. Logo Miro estava guiando para um elegante barzinho distante do centro de Athenas.
A noite foi um sucesso. Os dois, muito bem humorados, conversaram como há muito, muito mesmo, não faziam. Quem os via de longe podia acreditar facilmente que se tratavam de dois amigos que não se viam há bastante tempo, mas havia sim um clima de sedução no ar. E, conforme a noite ia avançando, os assuntos iam se tornando mais picantes. Lá pelas tantas, Miro, já não agüentando mais de vontade de ficar com o aquariano fez a proposta que Camus nunca recusaria.
– O que você acha de finalizarmos essa maravilhosa noite lá em casa? – perguntou fixando os olhos expressivos sobre o aquariano
– Prefiro um campo neutro – disse sorvendo, sensualmente, o último gole do seu chopp.
– Como quiser, lindinho.
Miro fez questão de pagar a conta, afinal fora ele quem convidara Camus. Uma vez dentro do carro foi impossível controlar o desejo acumulado desde que se encontraram às 8 da noite. Mal fecharam as portas do esportivo preto de Miro e começaram a se beijar e acariciar como se tivessem passado dias sem tocarem um no outro e como se já fizessem isso há muito tempo.
Só depois de muita insistência do aquariano, que já começava a perceber olhares curiosos para o carro, foi que Miro arrancou em direção ao Motel. O clima continuava descontraído. Parecia que nenhum dos dois sequer se lembrava dos acontecimentos de dois dias antes e nem das dúvidas que passaram a martelar seus pensamentos depois disso. Estavam se entendendo estranhamente bem.
Chegando ao Motel, tudo aconteceu naturalmente, apenas reforçando em ambos a certeza de que não estavam fazendo nada condenável. Novamente os beijos atordoantes, as carícias enlouquecedoras, as súplicas, os gemidos e, por fim, o gozo. Recomeçando tudo novamente em seguida, e novamente até que, às três da manhã, já estavam esgotados e saciados. Camus, além de tudo isso, estava preocupado com os treinamentos do dia seguinte, afinal os dois Mestres acabariam dormindo pouco.
– Eu tenho certeza que estaremos muito bem dispostos amanhã – Miro discordou com um sorriso iluminando o rosto, dando a partida no carro.
– Miro, só queria te pedir uma coisa – a voz do aquariano soou, pela primeira vez aquela noite, realmente séria.
– Fala, Camus – também ficou sério.
– É que... Se você puder não contar isso pra ninguém...
Desviou os olhos, da direção para o aquariano, sentado no banco do carona, soltando uma gostosa gargalhada e passando a mão pelos fios lisos que escorriam pelos ombros dele.
– O segredo é a alma do negócio, lindinho.
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Nossa, esse capítulo, apesar de relativamente pequeno, foi bastante difícil de ser escrito. Cada frase foi muito pensada antes de ser colocada para que o perfil dos personagens não saísse diferente do que eu havia planejado. Espero que esteja tudo coerente. Se alguém achar algum erro de continuidade, me avisa, por favor!
Quanto mais eu to escrevendo sobre eles, mais idéias estão surgindo! To tendo até que anotar por que senão vou esquecer. Demorei tanto pra ter coragem de escrever com esse, que é o meu casal preferido, que agora acho que não vou mais conseguir parar.
Respondendo aos comentários:
Pipe, Pandora/Suindara mandou agradecer ao elogio. E já adianto que ela vai fazer mais uma pontinha no próximo capítulo e que vai ser fundamental para que os dois comecem a namorar.
Ilia-chan, a idéia era realmente essa, humanizar os personagens. Por isso não quis colocá-los em situações incríveis, apesar de não ser uma fic em UA. Que bom que to conseguindo!
Anna-Malfoy, o Miro também adora quando o Camus fica descontrolado... rs.
Eloarden Dragoon, Shuny Amamiya e Carola Weasley, prometo que vou tentar escrever o dark-lemon, mas só depois que eu terminar essa fic.
Ia-Chan, se você achou esse capítulo romântico, vai ter uma crise hiperglicêmica com o próximo... rs.
Hokuto, cá está o quarto capítulo!
Nana, eu juro que também achei que seriam alguns poucos capítulos (lembrando que a intenção original era de one-shot... hahaha), mas aí eu tive a idéia de colocar o começo do relacionamento dos dois e já gastei 3 capítulos nisso (ainda falta 1). Ainda quero colocar mais 2 memórias e só depois o dia do aniversario do Miro. Contabilizando isso tudo, mais uns 4 ou 5 capítulos.
Até o próximo, pessoal! Excelente 2005 para todos!
Bjinhos!
Lola Carilla Spixii
# Lola e Miro no sex-shop #
– O que você acha desse aqui, Lolita?
A garota de curtos cabelos castanhos, que revirava uma pilha de lingeries de vinil, olha para o chicote de couro preto com tachas prateadas no cabo que o belo grego tinha nas mãos e não consegue evitar dar um sorrisinho malicioso.
– Acho que o seu lindinho vai adorar ficar do lado de lá desse chicote!
– Pode embrulhar para presente – o grego disse para a vendedora com um olhar sádico.
