Kuroko tinha combinado com a irmã de irem comprar um celular para ela depois das aulas e Tetsuna logo concordou. Apesar do incidente felino da manhã, o restante do dia correu normalmente e o treino foi proveitoso e puxado como de costume. Riko tinha ficado sabendo da cena com o gato, mas não disse nada. Tetsuna ter medo de gatos era menos absurdo, e definitivamente menos ridículo, que Kagami ter medo de cachorros, mesmo os pequenos como Tetsu #2.
Os rapazes estavam se trocando quando Riko, em um dos raros momentos em que a presença de Tetsuna não tinha lhe assustado, se aproximou da visitante. Sua voz saía tranquila e ela sorria com certa animação. A mais nova ouvia com atenção, olhando a treinadora sempre com sua expressão apática.
- Tetsuna-san, você voltou já depois dos vestibulinhos para Tóquio, não foi? – a morena esperou a outra concordar antes de prosseguir – Mas já tem alguma escola em mente para o ano que vem?
- Meus pais disseram para ver várias escolas durante este ano e deixar para decidir no próximo semestre. – Tetsuna tinha um ar levemente pensativo – A Seirin está na lista.
Riko sorriu ao ouvir aquilo.
Kuroko e Tetsuna já tinham passado em algumas lojas de eletrônicos, mas não encontraram nada que atraísse a garota. Alguns modelos que viram lhe pareceram muito complexos e ela rapidamente os rejeitou, enquanto os muito simples a incomodavam pela falta de opções. Como não tinham pressa de voltar para casa, decidiram olhar mais algumas lojas. Estavam a caminho da próxima quando uma voz familiar soou a poucos metros de distância.
- Yo. – Aomine acenou para os gêmeos, levemente surpreso por se encontrarem.
Momoi, ao ver Kuroko, se adiantou e abraçou o rapaz com força, cumprimentando-o com empolgação. Ele nada respondeu, mas Tetsuna pareceu achar graça. Ao ouvir o risinho, Momoi se virou, sorrindo largamente ao ver a garota. Então soltou Kuroko e foi abraçar Tetsuna, cumprimentando-a com a mesma empolgação.
- Tetsuna! Você voltou! Isso é tão bom!
Aomine franziu o cenho.
- Desde quando vocês se conhecem?
- Nós nos vimos algumas vezes no começo do ginasial. – a resposta veio de Tetsuna, que parecia indiferente à empolgação da outra.
Aomine franziu o cenho e então se virou para Kuroko.
- O que vocês estão fazendo aqui, de qualquer forma?
- Viemos comprar um celular para a Tetsuna.
- Ah! – Momoi soltou a outra e olhou empolgada para os irmãos – Nós podemos ir junto para ajudar!
Kagami andava distraído pela rua, voltando para casa depois de passar na lanchonete a que sempre ia após os treinos. Estranhamente naquele dia, permitia que os pensamentos passassem livremente por sua mente, perdendo-se neles. O que mais lhe incomodava, mas não como ele estava acostumado, era a cena do início da tarde, depois de acharem o Tetsu #2. Ver Tetsuna tão aflita com um simples gato no começo lhe pareceu um pouco cômico, mas então ele começou a se preocupar. O que aconteceria se eles não tivessem aparecido? Se ninguém tivesse lhe chamado?
"Pior que isso, o que aconteceria se eu e o Kuroko estivéssemos trocados? Ok, eu não acho que ela erraria o irmão, mas… O que ia acontecer se ela tivesse corrido para outra pessoa?", Kagami colocou as mãos nos bolsos, franzindo o cenho ao se lembrar da expressão da garota quando Kuroko lhe afagou o cabelo. "Droga… Aquilo foi realmente bonitinho…", ele suspirou. "Não! Idiota! O que você está pensando?! Ela é uma cópia idêntica ao Kuroko! Isso é bizarro! Não tem nada bonitinho naqueles dois!", o ruivo sentiu as mãos se fecharem com certa força, obrigando-se a parar e respirar fundo para se recompor.
O rapaz estava tentando manter a compostura ao retomar a caminhada quando uma voz bastante familiar – e indesejada naquele momento – soou a suas costas. Assim que Kagami se virou, viu o ás da Kaijou correndo em sua direção e acenando como se fossem velhos amigos. A vontade do ruivo foi de dar meia-volta e continuar andando, mas ele sabia que Kise não desistiria tão fácil se tinha se dado ao trabalho de procurá-lo.
- Finalmente eu te achei, Kagamicchi! – o loiro sorriu – A Tetsuna-chan visitou vocês na Seirin hoje de novo, né?
O ruivo concordou com a cabeça.
- Então me diz! Você sabe o número do celular dela? – Kise sorria como se aquela fosse a coisa mais natural do mundo para se perguntar naquele momento.
- Você ficou louco? Hoje foi o segundo dia que eu vi a garota. E nós mal nos falamos. – Kagami franziu o cenho.
- Mas você deve saber! Você e o Kurokocchi são tão próximos! – o estudante da Kaijou tinha um ar frustrado – Por que você não me conta?
- Pelo simples motivo de que eu não faço ideia. E nunca a vi com um celular na mão. – ele suspirou – Você me procurou só por isso?
- Não é "só", mas sim. – o loiro pareceu incomodado com algo – O Kurokocchi deve saber! Você vai se encontrar com ele agora?
"Esse cara não vai me deixar em paz…?", Kagami suspirou.
Tetsuna olhava com certo interesse alguns dos aparelhos que o vendedor mostrava acompanhada de Momoi, que parecia mais empolgada que qualquer outro comprador. Aomine e Kuroko tinham se mantido em um canto, trocando algumas poucas palavras sobre assuntos cotidianos. Como sempre, Aomine faltava aos treinos e saber daquilo não surpreendeu o menor.
- Tetsu-nii-chan. – Tetsuna se virou para o irmão e indicou que ele se aproximasse – Pode mostrar ao vendedor o modelo do seu celular? Eu quero igual…
Ao ouvir aquilo, Momoi bateu as mãos de repente no tampo do balcão de atendimento, falando com um tom infantil e uma expressão levemente emburrada. Sua voz saía alta, atraindo a atenção de todos. O vendedor não sabia como lidar com aquilo, olhando desconcertado para a garota de cabelos rosados.
- Então eu quero um celular igual o do Tetsu-kun também!
Kuroko olhou para a amiga ao responder.
- Momoi-san, por favor, não faça tanto escândalo na loja.
Antes que a garota pudesse dizer algo, Aomine se aproximou. Ele tinha o cenho franzido e o tom repreendedor.
- Cê é idiota, Satsuki? Você nem tem dinheiro para comprar um sorvete e quer comprar um celular novo? O seu já ta mais do que ótimo.
Frustrada, ela se virou para o amigo de infância, apontando para seu rosto ao falar.
- Então compra um para mim, Dai-chan! – o apelido, que ela costumava usar só quando estavam sozinhos, acabou escapando e ela logo cobriu a boca com as mãos ao processar o que tinha acontecido.
Todos os presentes se voltaram para Aomine, que parecia ter travado. Quando o garoto se recuperou, sua voz saía alta e ele falava irritado com Momoi. Apesar de ter achado grosseiro e desagradável quando ela passou a chamá-lo de "Aomine-kun" no ginasial, já tinha se acostumado e ser chamado daquele jeito mais carinhoso na frente dos outros lhe foi estranho, causando certo constrangimento.
- CÊ FICOU LOUCA?! E NÃO ME CHAMA ASSIM! – no entanto, por dentro, ele não podia negar que se sentia feliz. Eram amigos de infância afinal. Então por que não poderiam se tratar com a intimidade que tinham?
A atitude que Momoi tomou em seguida apenas piorou a situação. Ela tinha se virado para Kuroko e lhe tomado uma das mãos, dizendo que só tinha chamado Aomine daquele jeito por serem amigos de infância, que ele não devia interpretar errado. O mais alto se sentiu ainda mais irritado com aquilo. Que necessidade poderia haver de explicar as coisas, especialmente para Kuroko? Sem pensar duas vezes, o ás da Touou se virou e foi em direção à saída, com as mãos afundadas nos bolsos.
- Ah, espera! – Momoi tentou alcançar o amigo, mas não conseguiu. Então se virou para os gêmeos e se desculpou, logo saindo no encalço do mais alto – Aomine-kun! Espera!
Mas ele não parecia ouvir, apenas continuando a andar. Sentia-se realmente irritado pelo jeito como a garota o tratara, porque parecia que ela estava negando a antiga relação que tinham. "E daí que ela gosta do Tetsu? Ele sabe que somos amigos de infância! Ela precisava ter feito aquela droga?! E ainda me pedir para comprar o celular só para ficar igual ao dele! Quanta idiotice! Satsuki, sua idiota!", ele chutou uma pedra que havia no caminho.
- Aomine-kun, espera! – ela correu para alcançá-lo – Escuta, droga!
O rapaz se virou, encarando-a com um ar pouco amigável.
- O que é?
Imediatamente, Satsuki parou onde estava e pressionou os braços contra o peito. Após alguns segundos necessários para se recompor, ela se endireitou, fitando o amigo nos olhos e se desculpando. Não tinha feito nada daquilo por mal e não achou que o rapaz fosse se incomodar tanto. Ela só se preocupava que entendessem errado o que eles tinham e isso acabasse se tornando uma limitação de alguma forma para eles.
- E aí você se justificou para o Tetsu? Cê é idiota ou o quê? – Aomine tirou uma das mãos dos bolsos e trocou o peso de perna.
- Também não precisa ser grosso! O idiota aqui é você, que fica se irritando com tudo! – ela cruzou os braços diante do peito e virou o rosto, ficando com uma expressão emburrada infantil.
Antes que os dois pudessem continuar a discussão, Kise apareceu e passou o braço ao redor dos ombros de Momoi, cumprimentando-a com um tom alegre e jovial. Ao notar o clima, no entanto, ele logo se ajeitou e perguntou o que estava acontecendo. Kagami, que estava junto por força das circunstâncias, apenas franziu o cenho ao ver a cena toda.
- A idiota da Satsuki fazendo escândalo à toa. – Aomine deu de ombros.
- Não jogue a culpa toda em mim! E o idiota é você! – ela apontou para o peito do rapaz de cabelo azul ao falar.
- Ah, eles continuam aqui fazendo escândalo. – a voz de Tetsuna soou atrás de Kagami, Kise e Momoi e todos se viraram automaticamente para os gêmeos – O vendedor ficou preocupado depois que vocês saíram porque ainda dava para ouvi-los gritando…
Momoi corou levemente com aquilo, desculpando-se com os amigos por causa da cena.
- E conseguiu comprar o celular que queria, Tetsuna? – ela sorriu para a irmã de Kuroko.
- Ah, então Tetsuna-chan ainda não tinha um celular? – Kise sorriu para a garota, que corou quase instantaneamente com o tratamento, apesar de não ter ficado muito aparente. Ela agradeceu pela pouca luminosidade também por esconder suas bochechas rosadas – Aqui, deixe-me colocar o meu número. – o rapaz estendeu a mão para a menor.
Tetsuna não protestou, apenas entregando o aparelho na mão do rapaz enquanto tentava se recuperar. Ninguém parecia prestar atenção em seu rosto, o que era bom. Momoi estava brigando com Kise por ele não "usar o tratamento adequado com uma dama" e Aomine apenas ria da situação. Kuroko fitava os amigos pedindo para eles não ficarem fazendo escândalo e Kagami olhava para o outro lado da rua. O que Tetsuna não sabia era que o ruivo a tinha visto corar.
"Por que raios ela tinha que ficar vermelha?! Não ajuda muito! Droga, ela ficou realmente bonitinha desse jeito! Mas por que tinha que ser o idiota do Kise?! Droga!", ele afundou uma das mãos no bolso, respirando fundo da forma mais discreta que conseguia. A atenção do rapaz foi puxada de volta para o grupo ao ouvir Kise devolvendo o aparelho para Tetsuna.
- Agora, sempre que precisar, você pode falar comigo! – ele sorria animadamente – Eu também coloquei o seu número na minha agenda, se você não se importa.
Tetsuna, já de volta à apatia de sempre, disse que não tinha problema.
- Ah! – Momoi bateu as mãos diante do peito, parecendo se lembrar de algo. Então se aproximou da outra e sussurrou como se não quisesse que ninguém mais ouvisse a conversa – Tetsuna, você tem tudo de que precisa agora que voltou? Digo, você cresceu e tudo. Se quiser, podemos fazer compras no final de semana. – ela sorriu.
- Ah, tudo bem. – Tetsuna, por sua vez, não parecia se incomodar que os rapazes ouvissem o que elas conversavam – Podemos ir aonde Momoi-san preferir.
- Tetsuna, por favor, não precisa ser tão formal! – Satsuki sorriu – Pode me chamar pelo nome mesmo, ok? – quando a outra concordou, ela continuou, virando-se para os amigos – Aomine-kun! Você também vai conosco para proteger a Tetsuna!
Aomine – assim como os demais – não entendeu o propósito daquilo.
- Proteger… Que? – ele franziu o cenho, olhando Momoi como se ela estivesse com algum parafuso a menos.
- Vamos fazer compras no final de semana. – Tetsuna tombou a cabeça levemente para o lado ao falar.
- Ah, eu e o Kurokocchi também vamos! – Kise se empolgou com a ideia.
- É claro que o Tetsu-kun vai! É da Tetsuna que estamos falando! – Momoi olhou para o loiro como se aquilo fosse mais do que óbvio – E você! – ela apontou e se virou para Kagami – Vai junto para ajudar o Aomine-kun como nossos guarda-costas!
- Eu não vou fazer nada disso. – Kagami tinha o tom pouco simpático ao falar.
- Momoi-san, não precisa de tudo isso. – Tetsuna apoiou uma mão suavemente no ombro da outra.
- Satsuki! Chame de Satsuki, Tetsuna! – a garota de cabelos rosados parecia realmente frustrada pelo tratamento tão formal – E é claro que precisa! Eu nunca vou me perdoar se algo acontecer a você!
- Tetsuna sabe se cuidar, Momoi-san. – Kuroko, que tinha se mantido quieto até então, decidiu que era melhor interferir.
- Bom, eles vão para carregar sacolas então. Parem de ser tão chatos! Qual o problema de sairmos todos juntos?! – Momoi cruzou os braços, frustrada com o rumo da conversa.
- Se era isso que você queria, podia ter dito desde o começo, Satsuki. – Aomine colocou uma das mãos sobre a cabeça da amiga, que apenas grunhiu em resposta.
De volta à casa, Tetsuna decidiu que olharia o aparelho. Assim, quando ela pediu o celular do irmão emprestado para adicionar os números que tinha em sua agenda, o rapaz não negou. Seria mais fácil que ela pedir a cada uma das pessoas e, a bem da verdade, ele estava se divertindo vendo-a tão concentrada escrevendo os nomes e seus respectivos números. Então Tetsuna lhe devolveu o celular e voltou a mexer no próprio. Kuroko não questionou, imaginando que ela estivesse explorando os recursos que vinham no aparelho.
Akashi não se importou quando ouviu o celular apitar à chegada de uma nova mensagem. Pela hora, provavelmente seria alguém da Rakuzan com dúvida em alguma matéria qualquer. Podia olhar quando acabasse o que estava fazendo. No entanto, quando outra mensagem chegou, com apenas alguns segundos de diferença, ele decidiu conferir. Não reconheceu o número do remetente, o que o fez franzir o cenho.
Sei-kun, eu voltei a Tóquio. O pessoal da Teikou marcou uma saída para o final de semana, você também vai? Onde você estuda agora?
Ele sorriu de canto com satisfação. Antes de responder, ele decidiu ver qual era a outra mensagem. O remetente era o mesmo e o rapaz riu com a ingenuidade de seu conteúdo. Não era necessário que o remetente se identificasse, pois o corpo da mensagem tinha deixado claro quem escrevia. Ele calmamente começou a digitar uma resposta, enviando-a assim que terminou. Em seguida, o ruivo mandou decidiu fazer uma ligação.
Quando Tetsuna pegou o aparelho para ver o motivo do aviso sonoro, sentiu-se feliz ao ver de quem era a mensagem que recebera, abrindo-a sem cerimônia e lendo seu conteúdo com a mesma inexpressividade de sempre. Kuroko, ao passar pelo quarto da irmã e ver que ela continuava concentrada no celular, estranhou.
- Tetsuna, está tudo bem? – seu tom era o de sempre e ele se aproximou da garota quando seus olhares se cruzaram.
- Un. – ela concordou com a cabeça – Sei-kun me respondeu e eu estava lendo. – ela mostrou a mensagem ao irmão.
Isso é bom. Estou na Rakuzan, em Kyoto, mas posso ir para Tóquio no fim de semana. Passe-me os detalhes tão logo os tenha.
