OLÁ! Vejam só, estou trazendo um capítulo GRANDE de verdade! Essa fic está tomando proporções arrasadoras na minha cabeça, então, preparem-se!
Espero que gostem do capítulo de bem... exploração. Fiquem atentos aos detalhes!
Quando saí de casa para ir viver a minha vida, longe de tantos dramas internos e familiares, eu já era maior de idade. Pode parecer, então, que isso não foi de fato uma fuga, que eu só estava indo viver minha vida, mas não foi tão simples assim só pelo fato de ninguém poder mandar a polícia atrás de mim. Isso se deve ao fato de eu não ter nascido como uma anonima, minha família não era desconhecida e meu sobrenome não passava despercebido assim tão fácil. Tomoyo não é um nome incomum no Japão, mas Daidouji… Bem. Já comentamos sobre minha mãe ser influente, não é mesmo? Por isso minha saída de casa foi uma fuga. Eu literalmente, fugi das vistas dela.
Ela deve ter tentado me procurar até no inferno - e nem eu sei se me encontrou em algum momento e, se não, como eu consegui me esconder de maneira tão eficiente. Fui para a cidade grande justamente porque é um lugar onde todos estão tão ocupados e apressados que não viram o rosto para ver a cara de alguém uma segunda vez. Tentei mudar meu visual, na época, e só depois de alguns anos é que voltei a deixar meu cabelo da cor original. Eu acredito que mesmo assim teriam me encontrado, se, em um momento de remorso, eu não tivesse escrito uma carta. Foi algo bem simples, endereçada para a minha mãe. Eu tinha medo de que ela pensasse que eu saí de casa e fui morta - eu precisava dar a ela a tranquilidade de que eu estava saindo da vida dela viva, jovem e saudável. Acredito que isso deva ter deixado ela magoada o bastante para diminuir os esforços em me encontrar fosse lá onde eu estivesse.
Entretanto, por mais que ela soubesse que eu tinha sumido por conta própria, isso não quer dizer que ela não me quisesse na barra da saia dela de novo e que desistiria de me procurar. Deve ter ficado furiosa, porque sempre foi muito controladora - e eu não estava mais no raio de controle dela. Yamazaki era um amigo meu ainda de Tomoeda, que eu encontrei por acaso quando fugi. Graças aos céus, ele é um excelente mentiroso e soube me encobrir e, ainda, plantar e colher informações que eu precisava. Me ajudou a encontrar alguém pra forjar alguns documentos, para quando eu não quisesse usar meu sobrenome pudesse assinar por outro (o que era bem frequente). Em alguma medida isso tudo contribuiu para que eu aceitasse a oferta de emprego dele, mais tarde.
Outra refúgio que eu tive foi me afastar o melhor que pude da nata da sociedade à qual minha mãe pertencia e dos grupos mais conservadores de japoneses. Com isso quero dizer que passei a andar mais com gente alternativa, estrangeiros, as minorias de uma maneira geral. Além de serem pessoas, num geral, muito mais legais do que aquelas com a minha mãe me fazia conviver, eles não acompanhavam notícias sobre o mundo dela e, sinceramente, não se importavam com de onde eu tinha saído desde que fosse uma boa pessoa. Eu me sentia mais livre, porque não me sentia recriminada por não seguir os padrões heterossexuais, e também por fazer parte de uma cultura mundial do mundo de verdade. Aprendi muito mais sobre o mundo fora do Japão do que em qualquer aula de comércio exterior.
Enfim, tudo isso para dizer que além de abandonar características comportamentais da minha antiga vida em Tomoeda, eu tinha abandonado também meu nome e minhas possibilidades (e provavelmente heranças) de Daidouji. Mas mesmo depois de muito tempo, eu tinha certeza de que se eu fizesse uma aparição pública ou acabasse chamando a atenção, alguém poderia me reconhecer e minha vida antiga viria correndo atrás de mim - ou eu acabaria me vendo na obrigação de ir ter com ela, por algum motivo. Eu provavelmente não voltaria a assinar meu nome verdadeiro ou deixar alguma ambulância me levar até o momento em que minha mãe não estivesse morta. E eu sabia que ela não estava.
Isso me colocou em uma situação muito complicada em vários momentos da minha vida, e aquele onde eu acordei na casa de um estranho com quem tinha tido relações DE NOVO, foi um deles. Veja bem, naquele tempo eu não tinha força física para quebrar uma porta, eu não tinha telefone, o cabo de internet do computador não estava lá, e era o (fucking) nono andar. Para sair da lá ou eu precisaria cometer suicídio, ou eu tentar pegar aquelas garrafas de bebida e fazer um coquetel molotov. Mas alguém jogando bombas no meio da rua do nono andar provavelmente chamaria a atenção daqueles canais sensacionalistas - e quando focassem no meu rosto alguém ia perceber uma existência que eu não queria que fosse percebida. E, de toda forma, eu ainda teria que quebrar as janelas, o que não seria nada fácil.
Eu estava nervosa. Para caramba. Eu estava medindo cada ato e cada escolha que eu poderia tomar. Não toquei na comida que ele deixou na escrivaninha - fui para a cozinha e preparei algo (vai que ele tivesse envenenado aquela lá). Pode parecer fútil eu sentar e comer enquanto estava sendo feita de prisioneira, mas não dá para pensar com fome, muito menos quebrar portas e janelas. Depois de pensar muito no que fazer, eu decidi protelar a decisão de fazer um escândalo fazendo um trabalho investigativo. Se eu não encontrasse uma chave reserva, ao menos poderia encontrar algo que 1. me tirasse daquela situação 2. eu pudesse usar de arma física ou psicológica contra aquele cara, quando ele voltasse. Ele não tinha me trancado no apartamento dele? Agora aguente as consequências. Comecei pela sala.
Era, sem dúvidas, um ambiente muito bonito - os dois ambientes, a sala de estar e o barzinho do outro lado (perto da cozinha) já tornavam aquele apartamento bem mais interessante por dentro do que por fora. As paredes intercalavam tons mais claros e mais escuros de vermelho (como praticamente em toda a casa). Eu me lembro que naqueles tempos ainda era tudo bastante limpo, e pelo nível dos móveis e da decoração, provavelmente ele tinha dinheiro o bastante para não fazer aquela faxina toda sozinho. Antes de qualquer coisa, eu ataquei as gavetas de um pequeno móvel que ficava ao lado da porta. Vai que ele tivesse esquecido alguma chave reserva ali? Eu quase gritei quando vi que a primeira gaveta era repleta de chaves - em diferentes molhos e chaveiros. Tentei uma por uma, as vezes testando até as improváveis (por que alguém teria uma chave tão grande e majestosa só para a porta de um apartamento?), mas nenhuma delas funcionou. Ou aquele cara era um colecionador de chaves velhas e inúteis, ou tinha uma memória muito boa para guardar tantas chaves sem etiqueta. Havia pelo menos umas 50 - imaginem a quantidade de tempo que eu passei tentando testar todas elas? É. Um bom tempo.
Mas vamos aqui relembrar que: eu estava receosa em precisar fazer escândalo e AINDA estava ponderando o que era mais importante para mim naquela época: morrer anônima esfaqueada na casa de um cara canibal, louco, compulsivo por chaves; ou ser retida, a pedido da minha mãe, no prédio da polícia até ela mandar seguranças atrás de mim com a desculpa da necessidade de me acompanhar até a minha casa, depois de ter me visto naqueles programas sensacionalistas queimando um lençol na janela. Não cheguei a uma conclusão dentro de 50 chaves, então fui para a próxima gaveta.
AQUI! Finalmente uma informação inútil daquele desgraçado. A gaveta das contas. O titular da maior parte das contas era Hiiragizawa Eriol . Como uma das contas era o condomínio e a luz daquele mesmo apartamento, eu imaginei que seria o nome do cretino. A não ser que ele estivesse me mantendo cativa em um apartamento que não fosse dele, me atraindo para ele só para me entregar a outro criminoso, e é melhor eu parar de imaginar tanto nos seriados que eu assisto. O fato é que seria muito difícil ter certeza acerca do nome dele causa ainda daquele maldito meio cartão que só tinha o endereço. Hiiragizawa parece ser o dono do apartamento, mas não quer dizer que seja o mesmo homem com quem fiz sexo naquela noite.
Continuando, além daquelas contas no nome desse sujeito, tinha uma em nome de Akizuki Nakuru - isso não era o nome de uma cidade africana? Será que aquele homem era casado? Aliás, esse nome poderia ser masculino também, não? Muitas questões sobre Nakuru - que poderia ser até ele mesmo, que dividia o apartamento com o tal de Eriol e estavam me deixando trancada até a hora derradeira. Eu sabia que um dia gostar tanto de investigação criminal ia me fazer mal.
Continuando, mais uma vez, a conta dessa pessoa chamada Akizuki Nakuru era de uma loja de roupas na Inglaterra. Bizarro. Mas ainda tinha mais uma conta em nome de outra pessoa. Essa conta já estava aberta, então não me julgue quando eu tirei do envelope. O destinatário era um cara chamado Clow Read, e era uma cobrança de imposto sobre um terreno - pasmem - em Tomoeda. Estremeci. Se esse cara fosse alguma sombra do meu passado na qual eu não prestei atenção, talvez estivesse valendo a pena aparecer no noticiário de atrocidades me atirando por aquela janela.
Antes que eu realmente fizesse isso, coloquei a carta no envelope, joguei na gaveta, fechei a gaveta, e me afastei como se eu e a gaveta estivéssemos nos repelindo. Me virei para averiguar a sala. Odeio momentos em que preciso confrontar as coisas que eu fiz questão de abandonar por conta própria.
Haviam muitas (muitas mesmo) prateleiras naquele ambiente e todas elas pareciam estar preenchidas de partes diferentes do mundo. As hipóteses eram: ou ele (eles?) viajava bastante, ou tinha conhecidos que o faziam. Boa parte desses artigos faziam referência a música e instrumentos musicais. Além desses artigos, havia três porta retratos: um deles carregava uma foto onde várias pessoas em roupas de gala escuras sorriam em volta daquele homem com quem eu havia passado a noite, que segurava uma batuta. Hm. Regente? Eu devo estar afastada do mundo culto há muito tempo, mesmo. Ou então o teria conhecido. Mas isso me fez lembrar que minha mãe adora ir a concertos, e isso fez minha barriga gelar. Era perigoso eu andar perto desse tipo de pessoa… No bar não tinha problema porque as pessoas estavam sempre bêbadas de álcool e de luxúria - não importava quem eu era. Mas eu estava na casa daquele homem, e isso me colocava perto de um mundo do qual eu havia saído fugida. Será que ele tinha me descoberto naquele dia do bordel?
O próximo porta retrato também trazia aquele homem - dessa vez ao lado de uma mulher mais baixa que ele, de cabelos castanhos claros e olhos azuis. Algo na feição dela lembrava algo na dele. Ele parecia muito mais novo do que quando o conheci, e vestia roupas de formatura. Parabéns pela sobrevivência, campeão. Sinto muito pela alma que você deixou para trás.
A última foto da sala era composta por quatro pessoas sentadas em uma mesa de bar. Uma delas era a desgraça que tinha me trancado naquele apartamento, já mais velho (talvez a foto fosse mais recente). O braço dele estava apoiado no encosto da pessoa do lado - uma mulher ruiva e muito bonita e elegante (mesmo para um bar). Do outro lado dele havia um outro homem, de cabelos negros, olhos negros e expressão fechada e séria. Aparentemente aquele dia não foi louco para ele. Do outro lado da mulher ruiva, havia outra moça, que na verdade poderia até ser mais velha que todo mundo, mas tinha um sorriso e porte joviais… me lembrou um pouco da alegria da Sakura. Ela tinha os cabelos castanhos, e era, em alguma coisa, parecida com os outros dois homens da foto - principalmente aquele de cabelo preto.
Ao fim dos trabalhos investigativos na sala do apartamento no qual estava cativa, pude concluir que aquele homem poderia se chamar Hiiragizawa Eriol, Akizuki Nakuru, ou Clow Read. Além disso, quem havia me sequestrado (seja o nome que for), trabalhava como Regente, aparentemente, tinha alguma vida social e possuía mais chaves na gaveta do que era permitido por lei. Tudo isso me deixou mais curiosa, então fui para a sala de jantar - mas lá não tinha nada além de um quadro bonito e um barzinho. A cozinha eu já tinha revistado - e ele não tinha lá a melhor dieta do mundo, a geladeira era abarrotada de doces. A área de serviço tinha alguma roupa suja, mas nada mais perigoso que um álcool. Para todos os efeitos, eu escondi a embalagem. E também todas as facas que eu encontrei na cozinha. Melhor prevenir do que remediar.
O medo do que aconteceria quando aquele cara voltasse estava quase ganhando o medo de ver minha mãe de novo. Abri mais uma porta no corredor - e a nostalgia tomou conta de mim, estabilizando os dois medos de novo. Eu estava em uma sala com abafamento sonoro e muitos - quando eu digo muitos, eram muitos - instrumentos musicais. Eu tocava piano na minha infância e também cantava no coral da escola, mais tarde, na adolescência, comecei a estudar violino, e minha mãe montou um quarto como aquele para mim (pois não queria ouvir o estudo, só o resultado final). Muitas vezes passava tardes e mais tardes lá, principalmente quando estava triste. Era um lugar onde ninguém me incomodava.
Aquele era o único cômodo da casa que não possuía paredes vermelhas. Mas, talvez para lembrar o restante da casa, havia uma pequena mesinha de canto vermelho vivo, do lado de um sofá de dois lugares. Além disso, não havia nada de útil para uma fuga ou interessante em termos informativos - a não ser o fato de que, por todos os papéis espalhados, a suspeita de que ele fosse regente havia se confirmado. Ele comandava um grupo de uma universidade de artes daquela região. Hm. Interessante. Mas eu ainda queria poder ir embora - pena que não tinha coragem para tentar quebrar a janela com um violino. Seria quase poético.
Queria deixar o quarto dele por último, então visitei ainda um quarto de visitas, onde vasculhei os armários vazios e a cômoda vazia, exceto por uma pequena corrente que estava lá no fundo de uma das gavetas. A corrente era de ouro e continha inscrições chinesas que eu não sabia ler porque larguei comércio exterior muito cedo e não praticava mandarim há algum tempo. Devolvi ela e fui para a próxima porta.
Mais um sentimento de conforto: biblioteca. Não era muuuito grande - a que eu havia deixado no meu passado era maior, mas não tão íntima. Não sei se isso é um bom adjetivo para uma biblioteca, mas foi a impressão que eu tive ao ver a organização e disposição das coisas. Havia uma escrivaninha e um baú no fundo da sala, que eu pretendia investigar. Mas antes de chegar até lá, eu comecei a passar os olhos pelas estantes, que cobriam as outras paredes do cômodo, deixando o meio para um tapete de aparência confortável, uma mesinha de centro e uma poltrona vermelha. Muitas coisas vermelhas nessa casa, eu estava já começando a pensar que isso era um artifício para tornar mais difícil a detecção de manchas de sangue. Talvez eu devesse mesmo jogar um coquetel molotov lá em baixo. Mas não joguei, porque, bem, vocês sabem. Não tem nada que um jovem tema mais que a própria mãe furiosa.
Eu continuei olhando as estantes e lendo alguns dos títulos. Uma delas era dedicada apenas a livros de teoria musical, o que fez bastante sentido. Outra era para romances policiais! Mas a minha coleção era maior, dane-se. A diferença é que eu tinha muitos livros de edições simples, que cabiam no meu orçamento e lotavam a minha casa, enquanto todos os livros ali eram lindos e caros - as edições com as quais eu sonhava mas deixava para quando comprasse umas prateleiras novas e maiores (e mais seguras, porque meu gatinho Fye gostava de jogar coisas lá de cima). Muitos dos livros naquela biblioteca eram de versões estrangeiras - principalmente britânicas e algumas chinesas. A estante que possuía mais livros chineses parecia ser dedicada a magia - em variados aspectos e vertentes.
O tipo de livro que ele tinha era assustador porque: eu gostar de mistérios, magia e policial é uma coisa - eu nunca tinha nem pretendia atentar a vida de alguém (até aquele momento). Agora, aquele cara tinha aparecido no meu trabalho, me feito sentir coisas estranhas, me conduzido a fazer outras tantas coisas estranhas e depois disso me trancado no apartamento dele. Se tem uma coisa que os romances policiais ensinam é como não deixar pistas. Se ele lia livros sobre magia e livros policiais, não parecia mais tão por acaso tudo o que havia acontecido. Eu passava a me perguntar se um dia conseguiria sair daquela casa - porque ao que parece, ele tinha pensado em todas as coisas para que eu ficasse aprisionada ali.
Eu estava praticamente decidida a fazer algum barraco e chamar a atenção das autoridades, quando percebi que uma das estantes estava muito bagunçada. Desculpem por isso, mas uma estante onde os livros simplesmente foram deixados, sem cuidado e sob nenhum método de organização, me irritavam um pouquinho e eu decidi dar uma olhada.
Uma parcela dos livros daquela estante eram títulos que ele já tinha nas outras, mesmo que as vezes em um idioma diferente. Abri alguns deles e descobri que eram deixados ali os presentes - e que talvez (assim eu esperava) fossem ser organizados depois. Devo ter aberto cerca de quinze livros, e todos eles eram para Eriol, Hiiragizawa ou simplesmente Hiiragizawa Eriol. Podemos concluir disso que as chances daquele homem se chamar Eriol (como realmente se chama), pareciam altas.
Parte daqueles livros eram assinados, e entre essas inscrições eu encontrei "Para Eriol, de M. L." com bastante frequência, e esses eram os mais variados, desde receitas até alguns livros mofados, sem nome e em línguas que eu não conhecia. Outros traziam "Para Eriol, de Nakuru. Feliz Aniversário!". Encontrei um livro chamado JuuJuukkankei que tinha na contracapa as palavras "To Hiiragizawa Eriol, from Akizuki." seguido pela data. Mas a dedicatória mais curiosa foi de um livro que se destacava dos demais pela falta de contexto - era o único de auto-ajuda em todo aquele ambiente intelectual. Era aquele tipo de livro que pretende ensinar as pessoas a ter sucesso na vida. Em uma caligrafia que queria ser bonita mas só conseguia ser forçada, estava escrito "Espero que esse livro te ajude a realizar seus sonhos, garoto. Ass: Grandioso K." O último livro que abri fora enviado por Kaho Mizuki, como presente de aniversário a Eriol, há cerca de cinco anos antes de eu tê-lo aberto naquela biblioteca.
Consegui conter por uns instantes o meu instinto de organização, para que em vez de eu perder mais tempo arrumando uma estante que não era minha, eu pudesse terminar minha olhada na biblioteca, tentar quebrar uma janela e fazer algum sinal para fora. Fui até o baú, que me chamava mais a atenção do que a escrivaninha. Ele era velho, e assim que levantei a tampa senti o cheiro de livro antigo que me fascinava na infância. Sorte que não tinha rinite. Eu já ia pegando um daqueles volumes velhos, sem título nem autor na cara (porque todos os livros daquele baú pareciam ter no mínimo uns cem anos), quando congelei.
Foi aí que eu percebi o quanto procrastinei minhas próprias decisões, tentei me esconder dentro da minha curiosidade e isso me atrasou. Eu não sei, hoje em dia, se realmente PODERIA ter feito alguma coisa para escapar daquele apartamento. Quero dizer, eu não poderia fazer nada que colocasse outra pessoa em risco - eu não jogaria de verdade uma bomba caseira na rua (por mais que tenha aprendido a fazer em um dos livros que li). Eu posso dizer para mim mesma que tinha mais era medo da minha mãe, mas hoje em dia eu não sei mais dizer de verdade o motivo de não ter tentado quebrar a porta e ir embora. Tenho lá minhas teorias, que envolvem muita coisa do que eu ainda vou contar para vocês, mas o fato é que eu fiquei ocupando meu tempo procurando pistas e objetos chave como se estivesse naqueles jogos onde você precisa escapar de um quarto. Mas daqui não tinha escapatória, física ou mental, porque no fim o meu tempo se esgotou e Eriol tinha voltado. Naquela hora, eu não tinha ideia do que me esperaria - se eu tivesse, talvez tivesse preferido me jogar por uma janela quebrada.
O tempo acabou e eu saí muito de vagar e sem fazer barulho da biblioteca. Verifiquei se ele tinha entrado no corredor, mas estava vazio. Andei até perto da sala, sempre tentando aumentar meu campo de visão sem que ele me notasse facilmente. Na época eu ainda não tinha atinado que se ele sentiu que eu estava nove andares abaixo dele, perceberia que eu estava me aproximando dentro da casa dele. Quando saí do corredor o vi sentado em um dos banquinhos do bar, abrindo uma sacola que estava sobre o balcão.
- Espero que goste de comida italiana. Eu ia preparar alguma coisa hoje, mas demorei mais do que o esperado. - ele disse, de costas para mim, enquanto separava duas porções.
Eu não pretendia comer aquela comida.
Eu estava apavorada, nervosa, preocupada e todas as coisas que eu não estava mais acostumada e nem queria sentir mas que sentia quando aquele homem chegava perto de mim. Eu tive todos os avisos - o primeiro olhar que ele me lançou era devorador e eu deveria ter percebido o quão perigoso seria isso. Naquele momento, eu estava disposta a gritar e brigar com ele, fisicamente se necessário, e fazer por onde pela minha liberdade porque não há nada nesse mundo que justificasse ele ter me trancado ali sem comunicação externa. Não haviam e não há dúvidas de que aquele homem era e é louco. E foi naquele momento em que eu assistia ele colocando vinho despreocupadamente em duas taças que eu comecei a querer dar o troco de alguma maneira. Ele não valia nem minha falta no trabalho no dia anterior.
- Isso está ficando perigoso, sabe. - eu nunca tinha o visto falar tantas palavras e formular tantas frases, então nunca tinha percebido que ele tinha algo diferente no sotaque. Mas naquela hora eu não sabia muito bem o que era. - Toda essa energia assassina que você está emanando.
Dizendo isso ele levantou os olhos e me encarou. No início foi muito fácil encarar de volta, o odiando de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Depois disso meu corpo foi amolecendo, se tornando menos tenso, e meus pensamentos começaram a ficar anuviados, em uma espécie de estado de torpor, como quando estamos com sono demais para conseguir pensar. Isso era muito frustrante, porque eu SABIA que estava com raiva dele, com medo dele, mas não conseguia ter a resposta corporal adequada. Ele veio até mim, e tudo o que eu pude fazer foi dar uns passos para trás - só que ele pegou minha mão e me puxou até a bancada para comer. Daquela forma eu oferecia pouca resistência. Cada segundo era terrível.
- Comer não te fará mal, Tomoyo. Nem eu o farei.
- Você está fazendo. - respondi.
Ele se sentou do meu lado como quem se sente muito confortável e comeu uma garfada de macarrão. Eu o encarava, ainda.
- É uma questão de ponto de vista. Estou te dando um pouco de folga do trabalho. Você realmente gosta de trabalhar em um puteiro?
- Não tente me distrair. Porque me trancou aqui? - eu poderia estar entorpecida por sabe-se lá o que ele fazia comigo, mas ainda era eu. Eu ainda queria saber, e ainda ia resistir por meio de palavras então não adiantava tentar enfiar comida na minha boca e fazer perguntas banais. Isso não adianta comigo - a não ser que ele resolvesse fazer aquela coisa de me deixar excitada e tentar me dar uns beijos. Isso talvez funcionasse. Mas não tenho certeza naquele nível de nojo e irritação.
- Desculpe por isso, querida Tomoyo. Só queria me certificar de que você não desapareceria, está bem? - respondeu calmamente, comendo mais um pouco, tomando um gole de vinho. - Hm. Além disso eu creio que vou precisar da sua ajuda durante alguns dias, se não se importar.
- Eu me importo. Eu quero ir pra minha casa. - Fye deveria estar morrendo de fome (era o que eu pensava). Só de pensar em ele lá e eu aqui era algo terrível. Era uma das coisas que eu tentei bloquear na minha cabeça o dia inteiro. Com alguma sorte ele sentiria fome o bastante para miar bem alto e chamar a atenção dos vizinhos que eu estava desaparecida.
- Não seja precipitada, minha cara. Se…
- Não quero saber. - e olha que eu nunca pensei que diria essa frase algum dia na minha vida. Estava conseguindo reaver minha irritação corporal, e já estava conseguindo expressar minha indignação em alguns movimentos lentos. - Escuta aqui, Hiiragizawa ou seja lá que nome você tem! - apontei um dedo para o rosto dele, porque não importa a importância de alguém e o quão infantil seja apontar dedos, é sempre provisoriamente libertador - Eu não vou ficar aqui, nem te ver de novo, nunca mais na minha vida! Eu tenho um emprego, um gato para alimentar e nenhuma vontade de olhar nessa sua cara!
Eriol pousou os braços na mesa, perfeitamente tranquilo, mas com evidente desapontamento no rosto. Respirou fundo, e foi naquele segundo eu pude sentir a barreira de sentimentos que ele me impunha sendo desfeita e refeita. Em um segundo eu senti toda a raiva transbordar para cada parte de mim, toda a energia de querer espancar alguém, e em outro segundo ser aprisionada novamente naquele mesmo torpor - e a desesperança. Ele me ganharia. Injusto, mas real. Eu perderia por ser fraca, por ter sido jovem demais e por Eriol ser um trapaceiro, desgraçado e doentio.
- Coma primeiro. Ou não poderemos conversar de maneira adequada. - e voltou a comer como se nada tivesse acontecido. Não que eu não seja uma boa atriz e não faça isso de vez em quando, mas eu detesto gente que finge desse jeito. Eu não ia obedecer ele, não era obrigada. Morreria de fome, como o Fye morreria. Greve de fome, greve de silêncio. Ele não teria nada de mim - não mais do que já teve. Ledo engano.
- Veja, se você não comer, eu terei que alimentá-la. Vai querer esse tipo de cena? - o sotaque dele era de alguém que tinha como língua materna o inglês. Ouvindo melhor dava para pegar a diferença no som dos r's. Tinha convivido o bastante com estrangeiros para reconhecer. Bem, pro inferno. Meus braços continuavam onde estavam, jogados dos lados do meu corpo. Eu queria me levantar e me afastar dele, ficar longe daquela presença e influência dele. Estava me odiando também, começando a detestar todas as escolhas e consequências da minha vida. Maldita hora em que eu saí de casa no dia anterior e não queimei aquela bosta daquele cartão enquanto ainda tinha tempo.
Continuei esperando ele comer. As vezes ele parava e me observava - e então balançava os ombros e voltava a comer. Eu não estava com fome, realmente. Estava com muito nojo e muitos sentimentos ruins para querer comer. Então só esperei. Quando ele finalmente acabou, bebeu o resto de seu vinho, limpou a boca no guardanapo e puxou o banco para mais perto de mim. Ele realmente ia tentar me dar comida?
- Eu, sinceramente, gostaria de poder deixá-la com fome da mesma maneira que a deixo excitada. - não podemos ter tudo na vida, não é mesmo? Ele me olhou nos olhos, e depois pegou o garfo e começou a enrolar um pouco da massa - Mas não posso fazer isso. Talvez esse seu pequeno ato de rebeldia me estimule a trabalhar mais nisso. Realmente, deixaria tudo mais fácil.
Então ele tinha algum controle sobre o meu corpo. Eu já desconfiava, mas era estarrecedor ter certeza. Isso tinha limites, mas ainda acontecia. Ele colocou a mão desocupada no meu queixo, eu quis me afastar mas não tive forças. Aquele controle físico estava agindo de alguma forma, eu conseguia perceber. Do queixo foi ao maxilar. Ele me olhava nos olhos e eu tentava transmitir por eles toda a raiva que estava sentindo por ele 1. ter me dado aquele cartão e ido embora 2. ter me feito subir até esse maldito apartamento 3. ter me atiçado a ter transado com ele 4. ter me deixado aqui trancada 5. estar tentando me obrigar a comer 6. deixar meu gato passando fome.
Eu não sei se estava conseguindo passar toda a raiva que queria. O fato é que ele conseguiu abrir meu maxilar e enfiar macarrão dentro da minha boca e eu queria minha dignidade de volta, mas não tive. Quando consegui mastigar percebi que ele tinha desfeito qualquer coisa que havia me impedido de afastar minha cabeça das mãos dele antes, e então procurei o garfo na mão dele porque não queria ter a experiência terrível de ter ele me tocando depois de me sequestrar.
Eu comi. Não bebi o vinho porque mesmo sendo forte com bebidas, não queria dar chance a outras influências que aquele cara pudesse ter em mim. E, talvez, se eu comesse ele ficasse satisfeito o bastante para eu convencer ele, de alguma forma, que eu precisava voltar para casa.
- Acho que ainda não me apresentei para você, Tomoyo. - disse ele enquanto eu limpava os lábios - Me chamo Hiiragizawa Eriol. Pode me chamar só de Eriol.
- Creio que descobri isso sozinha. - retruquei. Penso que não seja uma maneira muito boa de tentar convencer alguém a alguma coisa, mas foi o que eu disse. - O que quer comigo?
- Sua presença. - respondeu ele, tão direto quanto eu, o que foi perto de uma vitória para mim, fazer com que ele parasse com os floreios. - Preciso de sua presença para alguns… estudos. Nada que precisa comprometê-la física ou psicologicamente. Não há necessidade de prejudicar sua vida social. Se quiser voltar ao seu trabalho… eu posso entender. Embora precise que você volte para cá, para me ajudar.
- Você é doente. - e louco, e fora da realidade, e um cuzão, e muitas outras coisas que eu não vou perder meu tempo dizendo - Eu não aceito. Me deixe ir embora. Não me importa o que você precisa, eu preciso ir para a minha casa. - eu falava isso em um tom baixo e contido porque ele estava operando em mim: me contendo para que eu não explodisse e voasse no pescoço dele.
- Você vai perceber, Tomoyo, - ele ignorou o que eu disse e continuou no mesmo tom quase otimista e com aquele sorriso do qual tinha falado antes (o da falsa gentileza) - que podemos nos dar muito bem. Temos muito em comum, pelo que pude perceber. Tomei, inclusive, a liberdade de lhe trazer algumas coisas para que possa ficar mais confortável aqui. Coisas suas.
Meu coração ficou gelado. Eu entendo o bastante de biologia para saber que o coração de ninguém fica de verdade gelado. Mas o peito fica, não fica? Quando você sabe que as coisas estão muito, muito erradas? Aquilo tudo estava tomando proporções assustadoras, e não ter forças para reagir, nem maneiras de sair de perto de Eriol me fez fechar os olhos e rezar muito para que ele não tivesse entrado no meu apartamento, mexido nas minhas coisas, e feito exatamente o que eu havia feito com ele naquela tarde.
Até porque, eu fiz isso porque ele me trancou aqui. Eu não fiz nada para ele além de passar por ele com uma bandeja vazia.
Percebi que ele levantou da cadeira e o abri os olhos para ver o que ele estava fazendo. Ele estava olhando para a sala. Me virei para seguir o olhar dele.
Em cima de um dos sofás eu identifiquei a minha única mala de viagem e outra que não me pertencia. Ao lado delas a caixinha do Fye. Fye! Ele tinha trazido o Fye para aquele inferno! Eu não sabia se ficava contente por ter meu gatinho ou irritada por ele estar correndo o mesmo perigo que eu. Aparentemente, Fye estava dormindo. Me levantei devagar e fui até a caixinha dele, abrindo e o pegando no colo, para ver se estava tudo bem. Percebi que na mesa de centro tinha mais uma sacola com a comida dele, uma caixa de areia e a areia - em casa ele não usava essas coisas, eu o havia ensinado a usar o vaso porque ele era um gato muito refinado. De qualquer maneira, eu não pretendia ficar ali. Então me levantei com o Fye no colo e olhei nos olhos do Eriol, juntando toda a convicção que pude para dizer de uma vez por todas a decisão tomada:
- Eu não vou ficar, Eriol. Não posso ajudar você depois de ter me sequestrado, me impedido de ir trabalhar por dois dias. Estou indo embora.
- Você vai. - ele retrucou, dessa vez com certa arrogância. Isso estava me dando nos nervos. Revirei os olhos porque já não sabia a que deus recorrer.
- Não, eu não vou. Não tenho motivos para ficar. - eu disse. Se ele precisava de uma mão amiga, era mais fácil ter pago uma das outras garotas (ele tinha dinheiro), ou ter antes de tudo isso ter conversado comigo amigavelmente e apelado para a minha boa vontade e senso de cooperação. Ele havia acabado com a minha boa vontade no momento em que trancou aquela maldita porta.
- Eu posso te dar um. - falou enquanto se aproximava da porta e encostava no batente. Ele estava fazendo isso para tirar com a minha cara? - Aposto que vai decidir ficar aqui hoje. Será que estou errado, Daidouji?
VOU MORRER AOS POUCOS ATÉ RECEBER UM REVIEW T_T O pior é saber que vai demorar pela minha mancada de um cap tão grande! UIHASDIUHASDUIHASIDH
