Chegamos a Sighisoara através da chave de portal, o ponto onde aterrissamos era uma campina verde onde tinha um lago e mais a frente ruínas de um antigo castelo. Meu irmão sentia-se meio tonto, era sua primeira viagem através desse aparelho, o que fez com que sua empolgação diminuísse um pouco. Sighisoara é uma cidade que você sente a magia antiga, um lugar onde praticamente não há trouxas, sua população se divide entre ciganos e bruxos.

Nosso povo praticamente não precisa se esconder. Não fazem magia em frente aos turistas, mas adoram vender adivinhações. Se durante o dia Sighisoara remete a um conto de fadas, à noite o ar sombrio leva à reclusão de todos os moradores. As raríssimas almas vivas que tomam coragem para sair à noite são os turistas que acabam dando uma grande dor de cabeça ao governo que tem de protegê-los de todo o tipo de criatura.

Minha mãe segurou Scorpius e aparatou primeiro em direção ao espetáculo. Eu segurei o braço do meu pai e fui com ele em seguida. Não consigo deixar de ficar impressionado com essas majestosas criaturas. Podem dizer o que quiser eu não acredito que eles possam ser domados, acredito que eles respeitam o bruxo que se atreve a enfrentá-los. Digo isso, pois fora os "domadores" ninguém consegue aproximar-se deles, sendo necessário acorrentá-los com todo o tipo de feitiço.

Ao longe se dava para ouvir urros dos dragões, meu coração acelerou em antecipação ante a expectativa de estar tão próximo a tão temíveis criaturas. Ouvi Scorpius da um gritinho alegre e começar a saltitar puxando a barra do vestido de minha mãe, meu pai balançou a cabeça em negação olhando para sua esposa; que apenas riu. Seguimos então para o camarote onde meu pai cumprimentou o colega que ofereceria o jantar de negó homem grisalho de nariz adunco,alto e -se demais ao beijar a mão de minha mãe.

Depois de um discurso enfadonho o show começou. Cinco dragões entravam voando e lançando bolas de fogo no ar, que eram contidas pelos domadores que estavam no chão da arena. Havia sete no total, e o que mais me chamou a atenção foi o ruivo, se não me engano um Weasley, e para estar nesse meio faz jus a coragem estúpida de sua casa em Hogwarts. Costumo dizer que a família de pobretões são todos iguais, ruivos e sardentos, mas esse Weasley parecia diferente.

Ele tinha a pele queimada de quem trabalha no sol, quando montou a vassoura e se aproximou do meu camarote pude notar que sua face era de quem estava abatido por trabalhar fora do país. As sardas ficavam levemente escondidas na pele bronzeada, ele tinha uma queimadura brilhante e grande em um de seus braços e um grande porte físico devido ao seu trabalho árduo como domador de dragões.

- Posso saber o motivo de estar dando tanta atenção a esse traidor de sangue, meu filho?

Levei um leve susto ao ouvir o sussurro do meu pai, não sei bem porque, mas senti-me como se estivesse fazendo algo muito errado, ajeitei-me novamente na cadeira e respondi:

- Impressão sua pai, apenas estava observando como ele lida com a bola de fogo chinês, é um dos meus Dragões favoritos. O Weasley é tão nojento que não serve nem para alimentar o dragão.

- Eu prefiro o rabo córneo húngaro! – Gritou Scorpius no exato momento que o referido animal destruiu uma torre do lado oposto da arena. Meu pai desviou a atenção de mim e dirigiu-se para meu irmão que estava quase saltando do parapeito do camarote.

Não consegui concentra-me mais no show, ouvia os gritos da plateia excitada com a luta entre dragões. Não gosto de ser repreendido pelo meu pai, não gosto de desaponta-lo, mas desde que comecei a minha vida escolar fora de casa parece que tudo que tenho feito é ser um filho medíocre incapaz de superar um sangue ruim como a Granger nos estudos e vencer de um mestiço no quadribol. Fui despertado dos meus devaneios quando o pobretão ruivo foi lançado pelo Dragão e acabou caindo no meu colo

- Foi mal, gracinha. - Ele piscou para mim e se lançou em cima da vassoura de um colega de trabalho. Não pude deixar de sentir minhas bochechas esquentarem com o gesto.

- Vamos embora daqui, pensei que o espetáculo seria seguro e que os participantes saberiam se portar, mas enganei-me pelo visto. – Disse meu pai.

- Mas papai... -Meu irmãozinho fez um beicinho

- Querido, mamãe está cansada, vamos até a loja de presentes escolher uma pelúcia para você. Que tal? – bastou essas palavras para Scorpius voltar a se animar.

- Lucius! Temos muito que conversar e acredito que ainda falta uma hora para começar o amistoso. –Chamou com a voz carregada de sotaque. Se não me engano este velho também pertence ao grupo de comensais. Não tomou a marca, é apenas um mercenário que vê vantagens de conseguir artigos raros e "especiais" estando dentro deste "seleto" grupo.

- Narcisa vá à frente. Encontraremos-nos no estádio. – falou meu pai.

Acompanhei então minha mãe para o lado de fora, sempre tive orgulho de andar ao seu lado, parecia que estava perto de uma rainha, amava seus cabelos soltos pareciam fios de ouro, ela sempre andava com eles presos e em raras ocasiões permitia ao público vê-la com a cabeleira livre de adornos. Acredito que meu pai tenha ciúmes, pois nos raros momentos de intimidade flagrei - o penteando com a escova os longos cabelos de minha mãe.

- Draco querido, poderia segurar Scorpius, por favor?Ele está ficando pesado. - Assenti e segurei o menino em meus braços. Os olhos de mamãe pareciam como o de uma boneca, grandes, com cílios longos, um tom de azul claro como um dia de verão, tão doces, tão assustados, meu irmão herdou esse mesmo olhar, a diferença é que ele nunca pareceu ter medo, seu olhar era travesso.

Entramos em uma loja de brinquedos, meu irmãozinho parecia fascinado pelos dragões de pelúcia que voavam e ao invés de fogo, soltavam bolhas de sabão coloridas. Levamos quatro, que na cabecinha de Scorpius eram nossa família. Demoramos cerca de vinte minutos lá. Saindo da loja fomos tomar sorvete, a temperatura era amena, mas mesmo que estivesse frio não me importaria, sempre preferi o frio ao invés do calor.

- A senhora está chamando muita atenção hoje, perdi a contas de quantos homens quase quebraram o pescoço para aprecia-la e quantas mulheres perderam o fôlego só de estar no mesmo ambiente que você.

- E quem disse que esses olhares são apenas para mim meu filho. Você também está muito formoso. Acredito que logo estará recebendo cartas de diversos pretendentes.

-Mas daco não vai aceitar nenhum, porque ele vai casa co- mi- go !- Altas risadas ecoaram na sorveteria ao ouvirem as palavras do meu irmão. Scorpius pulou no meu colo e me deu um selinho melecado de sorvete de chocolate. Não aguentei e comecei a rir, minha mãe cobriu a boca com as mãos numa tentativa falha de conter as risadas. Com um guardanapo limpei minha boca e a de Scorpius.

- Bebê, você não pode casar com o Draco, ele é seu irmão.

- Posso sim, um Malfoy pode ter tudo o que quiser e eu quelo Daco – Ele cruzou os bracinhos e empinou o narizinho.

- Ora, falando desse jeito me sinto um objeto! – Fiz-me de ofendido.

- você é meu e ponto final! – falava de modo obstinado, então mamãe suspirou e disse em um tom conspiratório:

- Tudo bem bebê, Draco é seu e ponto final, mesmo que me case com outra pessoa o coração dele será sempre seu. Você é muito novinho ainda, tem que crescer e ficar forte para poder protegê-lo da mesma forma que ele te protege.

- Tá bem mamãe, serei um bruxo muito poderoso e bonito, como o papai. - respondeu ficando de pé no meu colo e batendo o pezinho.

Quando estávamos indo embora um dos assessores do amigo do meu pai apareceu arfando,era um dos mais jovens parecia ter no máximo vinte e cinco anos,então ele se aproximou e disse:

- Senhora Malfoy, infelizmente o jogo amistoso foi cancelado, seu marido encontra-se em um baile beneficente da liga de proteção aos animais raros, ofertado por Igor Karkaroff. Ele pede para que se vista em trajes de gala e compareça lá dentro do horário previsto. Acompanharei a senhora durante as compras e a levarei para o quarto onde ficara hospedada.

- Isso é tão repentino!Ele deve ter seus motivos para tanto...

Notei que minha mãe ficou um tanto nervosa, ocasiões não planejadas aconteciam e ela sempre conseguia segurar as pontas, então porque o fato de termos de ir a esse baile a deixou com os nervos a flor da pele? Sem tempo para pensar seguimos o homenzinho em direção a uma butique bastante frequentada pela alta sociedade. Enquanto mamãe analisava o vestuário eu corria atrás de Scorpius que se divertia em sumir entre os tecidos. Assim que consegui pegá-lo comecei a fazer cócegas no pequeno, sua risada era o melhor som do mundo.

- Jovem senhor Malfoy poderia eu acompanhá-lo até ao alfaiate?Sua mãe disse-me que iria demorar mais do que imaginava para ficar perfeita. – Olhei por sobre o ombro para minha mãe e ela fez um leve aceno para que eu fosse.

- Será um prazer senhor?

- Ivan Bunescu, ao seu dispor - então fez uma reverência. Ele estendeu o braço para mim, mas, Scorpius enciumado fez questão de ficar no meu colo, então Bunescu riu e colocou as mãos nos bolsos.

Começamos a andar nas ruas, segundo ele a loja do alfaiate era próxima da butique cuja qual minha mãe se encontrava. O rapaz parecia bem animado e falava sobre os costumes, tradições locais e sobre o trabalho; às vezes provocava meu irmãozinho dizendo que iria me roubar para ele. Tão logo chegamos ao local, o Sr. Anghelescu começou a tirar nossas medidas.

Assim que ele terminou e foi para outra salinha dizendo que já voltava com as nossas roupas, comecei a acariciar os cabelos do meu irmão, Scorpius estava cansado, deitou-se no divã e adormeceu. Burnescu estava recostado em uma parede, ele não tirava os olhos de mim e isso estava começando a me incomodar, para o meu total alivio o alfaiate voltou com as roupas prontas para que eu pudesse provar.

Senti-me um tanto constrangido e irritado quando Bunescu entrou no meu provador no momento em que eu me despia, por não poder fazer magia na frente dos outros me contentei a socá-lo (Na verdade foi uma reação primitiva e instintiva diante do assédio) E para minha total surpresa o imbecil riu.

- Qual o problema Draco, por acaso é uma garota?Só queria ver como tinha ficado o traje. – O Sorriso predatório no rosto dele entregava suas reais intenções.

- Primeiro não lhe dei intimidade para me chamar pelo meu nome. Minha família é mais poderosa e antiga que a sua. Vermes como você devem reconhecer seu devido lugar. Segundo sou apenas um jovem de quatorze anos se da algum valor a sua reputação saia daqui agora antes que eu faça um escândalo. - Tentei soar frio e letal

- É mesmo Malfoy?Teria coragem de gritar? Um escândalo também afetaria você. - Ele falava se aproximando cada vez mais de mim.

- Meu pai pode silenciar os jornais. - Sentia meu coração aos pulos,uma náusea forte só de imaginar aquele cara me tocando,procurei com os olhos o Sr. Anghelescu e não o vi em parte alguma Scorpius ressonava tranquilamente para o meu alivio, ele não estava vendo nada.

- Será? Talvez ele tivesse vergonha de um filho tão fraco – Burnescu imprensou-me naquela cabine apertada e lambeu meu pescoço, em seguida colocou a mão debaixo do meu colete, eu tentava empurrá-lo e mandava-o parar, mas ele apenas ria. Lágrimas formavam-se em meus olhos, então de repente ele desgrudou-se de mim e ouvi um tremendo barulho.

Abri os olhos e vi apenas costas largas, braços fortes e cabelos ruivos, a cicatriz no braço esquerdo me fez lembrar-se de quem se tratava. Era o Weasley domador de dragões!

- O garoto disse não, seu otário pedófilo! – Então deu um soco tão forte no meu agressor que ele acabou cuspindo um dente.

- O que está acontecendo da minha loja?Quem é você?Irei chamar os aurores! – gritava o Sr. Anghelescu.

- Chame mesmo! Este pedófilo estava atacando o rapaz. – Aquele Weasley respondeu aos gritos, dando em seguida um chute na costela de Bunescu. Que gemia de dor.

Scorpius acordou e olhava a cena assustado, eu só queria pegar meu irmão e ir embora dali evitando o escândalo.

- Já chega! Ninguém vai chamar os aurores e ninguém vai fazer denúncia alguma- nesse momento olhei diretamente para Bunescu que entendeu o recado.

- Espera garoto, temos que denunciar esse filho da –.

- Olha a língua, temos uma criança pequena aqui, que por sinal está muito assustada.

- Eu te salvei e você nem para agradecer- o ruivo dizia irritado.

- Não me lembro de ter pedido sua ajuda – nessa hora meu orgulho falou mais alto

- Claro, se não fosse por mim você definitivamente se livraria da situação, delicadinho desse jeito. – ele respondeu em um tom sarcástico.

- De qualquer forma já lhe paguei o favor. - Peguei os pacotes e sussurrei ao velho:

- Nenhuma palavra sobre o que aconteceu aqui, ou meu pai vai fechar essa espelunca e nunca mais você irá trabalhar neste ramo, estamos entendidos? - Sr. Anghelescu engoliu em seco e assentiu.

Saí apressado da loja e percebi que estava sendo seguido pelo ruivo.

-Hei garoto, espera aí! – Com a sutileza de um hipogrifo o imbecil chamava atenção de todo mundo na rua.

-Daco,acho que ignolar num tá dando resultado- Scorpius sabiamente parei e vir-me-ei bastante irritado para o ruivo.

- Escuta aqui loirinho, você tem que falar com seus pais sobre o que aconteceu, aquele cara não pode sair impune. E que papo é esse de que você me pagou o favor?

-Não aconteceu nada, você puniu o infeliz com seus punhos, e se você usar esses dois neurônios que tem na cabeça irá perceber que quando fiz a escolha de omitir esse fato, te salvei de também ser preso ou punido pela agressão, afinal você realmente acha que a família do Bunescu não se vingaria de você?Sangues puros resolvem suas diferenças de forma discreta. – falei praticamente sibilando as palavras.

- Então, quer dizer que você se preocupou comigo doçura?- Eu senti meu rosto esquentar ao ouvir aquela sentença, olhei para o sardento e ele exibia um sorriso sardônico no rosto, o fato de eu estar tão vermelho fez o seu sorriso aumentar ainda mais.

- Escuta aqui Weasley – Falei colocando todo o asco que eu sentia no sobrenome dele. - Eu tenho um nome, Draco Malfoy.

-Eu sei disso, doçura. Ficou tão encantado comigo que já foi pesquisar sobre mim?-

- Nem preciso pesquisar!Cabelos ruivos, vestes de segunda mão, sardento, você só pode ser um Weasley.

Ele não pareceu se incomodar com minhas palavras, sorriu de canto e disse:

- Você tem uma língua muito ferina doçura, mas não posso esperar gratidão de um Malfoy pensei que fosse diferente, a propósito está entregue. –

Quando dei por mim percebi que estava em frente à butique onde minha mãe estava. Antes que eu pudesse falar algo, Scorpius disse:

- Eu tenho o melhor irmão do mundo inteiro!Daco pra conhecer ele é necessalio um estudo!- Quis morrer de vergonha depois da fala do meu irmão, o ruivo deu uma gargalhada alta, bagunçou os cabelos do meu irmão, e fitou-me de maneira intensa.

- O trabalho da minha vida é estudar dragões, menino. Acho que os encontrarei no baile, e doçura, não se esqueça do nome do seu salvador, sou Charles Weasley.