Capítulo 3 – Doenças da alma


"Não há dificuldade que o amor não vença, nem doença que não cure, nem porta que não atravesse, nem muro que não derrube, nem pecado que não redima." Emmet Fox


O cheiro ocre e pesado de morte fez com que ela apurasse o nariz. Há pouco mais de três meses trabalhando ali, já conseguia distingüir o mero odor de doença daquele que representava o último suspiro humano. Ginevra Weasley sabia que tinha nascido para minorar as dores dos que sofriam, provocando-lhes alento e despertando neles a esperança. Porém, desde que se ofereceu para atuar como enfermeira voluntária no hospital de guerra, tinha aprendido que ali a palavra esperança não existia. Mesmo que viessem a se recuperar dos ferimentos do corpo, aqueles homens estariam para sempre marcados no mais profundo da alma e caminhariam como zumbis pela face da Terra se a guerra um dia terminasse, com as orbes mortas num corpo que insistia em se manter de pé.

Abriu os olhos castanhos de uma vez e não precisou acostumá-los à luminosidade, já que dentro daquela construção o sol raramente entrava. Levantou-se da cama de armar e não precisou fazer nenhum gesto para trocar de roupas. Desde que a batalha aérea havia começado em Londres, Ginevra dormia com a farda do exército inglês sobre o corpo magro e quase sem formas. Pensou com amargura que, num dia não muito distante, havia sido bonita. Até mesmo atraente. Mas a guerra havia arrancado dela tudo o que um dia ousou amar. E ela se entregava com sofreguidão e uma dedicação quase febril a essa mesma guerra, como se pudesse obter de volta aquilo que perdera para sempre.

- Você só pode estar maluca, Ginny! Eu não quero que você faça isso!

- Você não manda em mim, Harry! Eu não vou ficar aqui parada, apenas ouvindo notícias suas pelo rádio. "O grande e jovem comandante da Royal Air Force está botando os alemães para correr"! Não vou me contentar com isso e ficar em casa tricotando nosso enxoval, até que o rádio resolva narrar a sua morte e eu esteja escondida na Toca, viúva sem nunca ter sequer casado!

- Eu quero saber que tenho alguém para quem voltar quando essa maldita guerra terminar. E além disso eu...

- E se não terminar? Harry! Harry!? Droga de telefone!

Não importava o que ele tinha dito, não importava qualquer coisa que fizesse para manter a noiva longe dali. Afinal, para que Ginevra havia estudado enfermagem se não para ajudar a sua pátria, mostrar o seu valor, como diziam os cartazes de recrutamento? Quanta baboseira! Estava ali única e exclusivamente porque queria ser a última a fechar os olhos do comandante Potter se ele morresse. E rezava a todo o momento para que não tivesse que fazê-lo.

Ginevra farejou por entre as camas de armar repletas de doentes. Alguns sequer conseguiam adormecer por causa da dor, e não havia morfina suficiente para todos. As enfermeiras precisavam ser seletivas: aqueles que tinham mais chances de sobreviver é que recebiam o medicamento salvador. Ela procurava caminhar com certa prudência, distante das mãos dos soldados feridos e doentes. Certa vez, quando tinha acabado de chegar, permitiu-se caminhar por entre as macas sem cautela. Um jovem soldado de olhos verdes a havia agarrado e, reunindo o pouco de força que lhe restava, derrubou-a por sobre o seu corpo pútrido e coberto de ferimentos em carne viva. Ele não devia ter mais que 20 anos, a idade dela. Com o corpo deitado sobre o dele e sem conseguir se desvencilhar nem gritar por socorro, deixou-se ficar apenas para ouvir:

- Eu queria sentir pela última vez o perfume de uma mulher bonita.

Em seguida, as mãos afrouxaram e ela sentiu aquele cheiro, que passaria a reconhecer sempre que o sentisse de novo. Não importava o quão diferentes fossem os homens, jovens ou velhos, gordos ou esbeltos, o cheiro da morte era sempre o mesmo.

Ginevra queimou as roupas que usava naquele dia. Elas ficaram imprestáveis, cobertas de sangue e secreções de feridas abertas. Mas o cheiro não abandonou suas narinas porque a morte continuava ali, pairando o tempo inteiro sobre aquela construção e escolhendo cuidadosamente suas vítimas. O corpo do jovem soldado foi jogado numa vala comum. Antes, Ginevra lhe fechou os olhos verdes com um arrepio de medo: eram assustadoramente iguais aos olhos de Harry.

Encontrou sem dificuldades a cama onde jazia mais um corpo entregue aos horrores da guerra. Com olhar clínico, estudou o rosto do rapaz. Estava coberto de estilhaços de bombas, que não poderiam ser arrancados. Um pedaço maior havia provocado o ferimento mortal ao se cravar exatamente em seu pescoço. O sangue tinha secado em volta do ferimento, agora que o homem não mais respirava. Morrera em silêncio durante a noite, sem incomodar ninguém. Com a ajuda de uma das enfermeiras, tão jovem quanto ela e o soldado morto, retirou o corpo daquela cama de armar, na qual rapidamente seria depositado outro soldado à beira da morte. Eles chegavam aos montes e se amontoavam como formigas em volta do açúcar. Eram nada mais que garotos. Os pilotos experientes já haviam morrido há muito, estavam inválidos ou ficavam nos quartéis comandando as ações sem se envolver diretamente com elas. Restavam apenas os espirituosos e corajosos como Harry. O grande herói Harry. Ginevra tinha raiva de heróis.

Conhecera Harry ainda criança, quando seus seios sequer haviam começado a se formar. Naquele momento, soube que o amava. Ele era pouco mais que um garotinho órfão que freqüentava a Toca por conta da amizade que tinha criado com um dos seis irmãos de Ginevra, Ronald Weasley. Assim como os outros de sua família, Ronald tinha abandonado a Toca, o conforto do lar, para se alistar como soldado e lutar nas trincheiras. Harry, porém, ingressou nas forças aéreas aos 16 anos, por ter desenvolvido precocemente uma incrível habilidade para voar, e arrastou Ronald para lá. Quando se tornou comandante, o mais jovem da história da Grã-Bretanha, novamente Harry levaria consigo o irmão de Ginevra. Ambos sempre voavam em formação conjunta, um protegendo o espaço aéreo do outro. De vez em quando apareciam trazendo mais um corpo e notícias de casa.

- Mamãe e papai estão bem, Ginny. A perna de papai que você amputou não está mais dando tanto trabalho quanto antes, agora que o ferimento cicatrizou. Charlie escreveu que, por enquanto, as coisas na Rússia ainda estão calmas. Bill também mandou uma carta do campo de batalha na França. Disse que foram expulsos do território na última batalha e estão retornando para cá. Parece que ele conheceu uma francesa que voltará com ele. George perdeu uma orelha por causa de um atirador de elite e... – Ronald engoliu em seco e seus olhos azuis quase perderam a cor, enchendo-se de lágrimas. O coração de Ginevra protestou no peito, e Harry a abraçou antes de completar a macabra sentença do amigo:

- Fred se foi...

O cheiro de morte, mesmo distante, invadiu-lhe as narinas e não dispersou quando as lágrimas rasgaram seu rosto, velozes e dolorosas. Fred era o irmão gêmeo de George e tudo o que Ginevra guardava deles em sua mente eram figuras alegres de dois meninos idênticos, que sempre arranjavam confusão na Toca e levavam a sua mãe à loucura. Não podia ser verdade, ambos não seriam capazes de viver separados. Fred e George eram como se fossem a mesma alma dividida em dois corpos. E a guerra acabava de levar metade dela.

Harry a beijou naquela noite e fizeram amor num canto escuro do hospital. Ela não sentiu nada, como sempre, e pensou, mais uma vez, que aquilo devia ser normal. Cresceu sabendo que moças direitas e de família precisam satisfazer os desejos de seus homens sem pedir nada em troca. Sentir prazer era pecado. Entregava-se a Harry porque era seu dever de mulher. Amava-o, mas era incapaz de sentir prazer quando estavam unidos num só corpo.

Na manhã seguinte, Ronald abraçou-a sem dizer nada e Harry a beijou na testa antes de partir num jipe escuro do exército. O jovem de cabelos negros e espetados acenou da janela, sorrindo, os olhos verdes brilhando intensamente ao sol. Ginevra gravou aquela expressão na memória. Seria a última vez que o veria sorrir.

10 de setembro de 1940. Ginevra estava entretida com as notícias do rádio, que transmitiam o pronunciamento da rainha Elizabeth. O primeiro-ministro Wiston Churchill tinha acabado de fazer um discurso emocionado, o qual concluíra brilhantemente ao dizer que não deixaria a Grã-Bretanha cair nas mãos dos nazistas. A rainha coroou a transmissão com sua emocionada declaração a todos os súditos:

- A família real não irá aceitar o asilo político oferecido pelos Estados Unidos. Estamos em guerra e vamos permanecer aqui. Eu não abandonarei a minha pátria! Morrerei com meu povo, se preciso for.

A jovem estava à beira das lágrimas quando ouviu uma voz conhecida, que caminhava para dentro do hospital. Levantou-se num pulo e avistou os cabelos vermelho-vivos do irmão, que a procurava. Ginevra abandonou rapidamente o rádio e correu, com o fôlego preenchido pelo sabor adocicado da esperança.

Logo percebeu que o irmão não vinha acompanhado da única pessoa que poderia lhe trazer alento naquele instante, e sim de mais um doente que ele simplesmente abandonaria aos seus cuidados. Harry não aparecia há mais de um mês, e Ginevra estava assustada. Os bombardeios a Londres estavam cada vez mais ferozes, e as poucas enfermeiras voluntárias que ainda restavam no hospital não eram suficientes para cuidar de tantos soldados feridos. O barulho das aeronaves, seguido pelas explosões, mal as deixava dormir. Homens maduros gritavam e choravam, sem muito o que as jovens enfermeiras pudessem fazer para acalmá-los. Seus próprios monstros interiores eram o suficiente para despertar neles os piores pesadelos.

- Olá, minha querida irmã – disse Ronald, o rosto cansado esboçando um sorriso. Em seguida a abraçou, afagando os cabelos vermelhos com as pontas dos dedos.

- Oi, Ron – ela disse enquanto sentia o cheiro de suor no pescoço do irmão, onde havia se alojado. Preferiu permanecer abraçada até que pudesse controlar seus olhos, que estavam ligeiramente molhados. No entanto, quando ele se desvencilhou da irmã, as lágrimas ainda faziam as íris brilharem. Embora ele a conhecesse bem demais, limitou-se a lhe entregar um envelope de cor parda, preenchido meio às pressas com uma letra pequena e conhecida.

- Harry mandou uma carta.

Ginevra queria gritar que não desejava nenhuma carta, e sim a presença daquele noivo que havia praticamente se esquecido dela. Guardou o envelope no bolso da farda displicentemente. Desde que Harry resolveu se tornar o herói favorito do mundo, tinha pouco tempo para aquela que dizia amar, que ousou um dia chamar de "mulher da sua vida". Mesmo ali, tudo o que Ginevra conseguia era ouvir notícias dele pelo rádio, atitude da qual ela tentou fugir ao abandonar a Toca. Julgou que, estando próxima às batalhas, poderia acompanhá-lo mais de perto. Porém, ele aparecia raramente, e nas poucas oportunidades que poderia ter, limitava-se a enviar Ronald. Não que ela não ficasse contente em ver o irmão e escutar notícias de casa. Mas que noivo era aquele que sequer se importava em saber como ela estava se sentindo em meio ao cheiro de morte e doença que pairava constantemente sobre sua vida? Se Ginevra o conhecia bem, Harry poderia dizer que havia sido escolha dela estar ali. Sua profundidade emocional jamais seria capaz de notar o sentimento de intensa doação que a jovem dispendia a ele. Naquele momento, Harry estava preocupado apenas em vencer a maldita guerra e devolver a Alemanha ao seu devido lugar.

Ela não podia negar que, no início, ele tinha se preocupado em poupá-la e guardá-la dos horrores aos quais estava destinado. Mas, com o passar do tempo, julgou que Ginevra estava protegida pelas sólidas paredes do hospital. O código de guerra impedia ataques aos prédios civis. Mas ela quase se viu desejando que um bombardeio fosse direcionado exatamente para o prédio do hospital de guerra naquele exato momento.

Ronald sequer viu a expressão irritada no rosto da irmã. Ele e um assistente se ocupavam em carregar para dentro da construção uma maca longa, na qual um homem parecia estar adormecido. Ginevra apurou as narinas, mas não sentiu o conhecido e temido aroma daquela que a todos leva. O irmão se dirigiu a ela, como se lesse seus pensamentos:

- Ainda está vivo – deu um profundo suspiro antes de continuar - Precisamos de um lugar especial para este aqui, Ginny querida. Ainda há uma cela nos porões?

Ginevra sacudiu a cabeça em sinal de concordância. Na última vez que a cela havia sido ocupada por um prisioneiro de guerra, ele não durou mais que uma semana no local frio e úmido. Ela fez o que estava ao seu alcance para salvá-lo, e chegou a se sentir culpada por não ter conseguido. Depois, pensou com amargura que aquele era apenas mais um inimigo, um dos responsáveis por destruir todos os sonhos que ela alimentava desde a infância.

Harry tinha explicado que encaminharia para lá apenas os alemães que pudessem ser úteis ao governo inglês, fornecendo informações e localizações sobre as forças do exército alemão. Gina olhou com desprezo para o corpo adormecido na maca, coberto por um pano branco cheio de manchas de sangue seco e meio amarelado. Era mais um desertor, um traidor de sua própria pátria. E mesmo que passassem informações úteis ao esforço de guerra inglês, esses homens não mereciam nada mais que um profundo e amargo desprezo.

- Como é o nome deste, meu irmão? Como devo chamá-lo?

Ronald se dirigia para a cela escura do porão do hospital, acompanhado pelo colega que o ajudava a carregar a maca. Ginevra seguia com um lampião a óleo pouco à frente dos dois, de forma a lhes iluminar o caminho naquele local aonde a luz não chegava. Ronald deu de ombros antes de responder:

- Tudo o que encontramos nos escombros de sua aeronave foi o distintivo de sua patente. Esse aí era o digníssimo soldado Malfoy, mais um filho da puta da Luftwaffe. Restou pouco da aeronave. Nem sei como o maldito sobreviveu...

Ginevra não sabia exatamente o porquê, mas sentiu seu coração protestar de encontro às costelas enquanto continuava descendo pelas escadas que davam acesso ao longo e escuro corredor.