4- Pergunta
- Reneesme, você poderia me ajudar com esse exercício de cálculo?
Eu levantei a cabeça um pouco assustada. Estava, novamente, na última mesa de uma sala, com Jake ao meu lado. Meus olhos se fixaram em Brian. Um garoto moreno com grandes olhos verdes e com um sorriso que, para um humano, era bem bonito. Eu raramente era perturbada em sala de aula: o título de tímida e Jake sempre ao meu lado, geralmente, faziam as pessoas se afastarem. Mas eu não deveria ser grossa.
- Claro, Brian. – disse esticando meu corpo por sobre a mesa e chegando mais perto do garoto. Jake, quase que instantaneamente, colocou a mão na minha cintura, me puxando de volta ao lugar.
- Ai! – eu virei para ele. Sua feição era indecifrável. E então, meio milésimo de segundo depois, ele sorriu. Lindo, como sempre. E disse:
- Nessie, não precisa se esforçar tanto para ajudar o Brian. Pessoas pequenas como você devem guardar energias para crescer.
Eu não sorri. Brian não sorriu. Mas isso não fez com que o sorriso no rosto de Jake morresse. Era besteira, mas eu fiquei prestando atenção no jeito que o sorriso não tocava os olhos.
Então, acho que por medo da reação de Jake, Brian se levantou da carteira da frente e se abaixou ao meu lado, com seu caderno em cima de minha mesa. Expliquei uma simples questão de derivada múltipla a ele e o acompanhei com o olhar de volta a sua cadeira. Olhei para Jake, ele ainda ria. Mas eu definitivamente nunca havia visto aquele sorriso.
Resolvi ignorar. Se eu pudesse, gostaria de pensar no mínimo possível sobre Jake e quaisquer de suas ações. Não sabia até quando minha parede de tijolos duraria.
A aula começou e o cálculo tirou qualquer outro pensamento da minha mente. Rabiscar números no caderno enquanto se fazia a conta de cabeça tinha um quê de diversão para mim. Tudo parecia exatamente igual, monótono e cheio de exponenciais.
Alguém disse algo.
Passar para o denominador, inverter o sinal...
- Nessie! – era Jake quem dissera algo. E, dessa vez, ele chegou bem ao lado do meu ouvido para me chamar.
- Ai, Jake, que susto! – não. Não havia absolutamente nada de susto.
- Susto por quê? Estava pensando no Brian?
Como alguém podia soar tão estúpido às vezes?
- Estava. – ironia era de família.
Ele me encarou. E, novamente rápido demais, sorriu. Aquele sorriso que não chegava aos olhos.
- Fale sério.
- Estou falando, Jake. Estou apaixonada. Nunca se sentiu assim?
Acho que falara demais. Ele se virou, pegou o lápis e começou a desenhar qualquer coisa na folha do caderno. Não me senti culpada por ter feito o que quer que tenha feito. Era com raiva que ele encarava qualquer relação? Qualquer sentimento? Era bom que eu soubesse logo, talvez fosse mais fácil esquecer.
Parei de pensar. Eu não queria esquecer, queria que desse certo. Que fosse o certo.
Suspirei.
- Até suspiros ele arranca?
Se eu pudesse, eu brigaria com Jacob agora. Rasgaria sua pele com meus dentes, seguraria seus braços, ele me seguraria com seus braços, eu beijaria seu pescoço...
Parei de pensar novamente. Eu queria brigar!
- Black, cale a boca. Não é culpa minha se você nunca teve sua impressão. Não desconte sua frustração em mim.
Ele riu. E esse sorriso atingiu os olhos. Mas de um jeito receoso, nervoso. Eu com certeza estava irritada demais para avaliar qualquer coisa sobre ele no momento, ele não ficava nervoso. Simplesmente não podia ficar.
- Certo. Ficarei quieto.
A bandeira branca me assustou um pouco. Ele não era disso. Nunca.
Não havia mais diversão alguma nas contas. Olhei para o caderno de Jacob e vi que ele desenhava um carro qualquer, mas, eu percebi, suas mãos não estavam lidando com o lápis com a destreza certa.
Eu abri a boca para falar com Jake, pedir desculpar por tudo. Por nada, não sei. Qualquer coisa serviria para não vê-lo desse jeito.
- Obrigado, Reneesme. – Brian se virou em sua cadeira agradecendo pelo exercício. Ele sorriu, sincero, não como Jake. E eu automaticamente sorri de volta.
Um lápis quebrou.
Eu olhei para Jake surpresa. Essas coisas não aconteciam com ele. Ele parecia fingir que nada acontecera. As duas partes do lápis estavam encostadas na lateral do caderno e ele estava recostado na cadeira, fingindo prestar atenção na correção.
- Jake...
- O que é? Quer que eu troque de lugar com ele? - ele respondeu ríspido demais. Eu encolhi meus ombros e pareci afundar meio metro na cadeira.
- Não, não... Claro que não, não seja absurdo! Eu... Bom, me desculpe. – e eu fui sincera.
- Não precisa se desculpar...
Mas estava na cara que eu precisava.
O sinal tocou anunciando o intervalo do almoço e ele se levantou. Foi a minha vez de puxá-lo de volta a cadeira. Ultimamente eu evitava tocá-lo o máximo que podia, mas eu simplesmente não agüentava brigar com Jake. Segurei sua mão e não precisei fazer força alguma para que ele parasse e me olhasse com os olhos mais doces do mundo.
- Eu quero me desculpar.
Ele sentou e segurou meu queixo com sua mão grande e quente. Tão, tão convidativa.
- Eu já disse, Nessie, não precisa. E eu estou falando sério. Eu só... Só não gosto do Brian, ok? Acho que se você estiver mesmo apaix...
Eu comecei a rir.
- Jake, por favor, você não acha que eu esteja realmente apaixonada!
Ele me olhou confuso, mas com um sorriso.
- Precisarei levantar uma plaquinha de ironia agora toda vez que fizer uso desta?
Ele riu e beijou minha testa, levantando-se rápido demais.
- Vamos almoçar!
- É, vamos...
Não havia empolgação alguma na minha voz. Por mim, poderíamos ficar sentados em nossas mesas o resto do dia se eu soubesse que tudo terminaria com os lábios dele sob a minha pele.
Involuntariamente eu me arrepiei.
Era estranho, mas tão bom se sentir assim.
- Mas, para a sua informação, Jacob Black, eu também não gosto nadinha daquela tal de Susan.
- Nem eu, Nessie. Nem eu. – ele disse sorrindo, pegando os livros da minha mão e carregando-os com facilidade.
O resto do dia passou rápido. Brian e Susan não foram mais mencionados e, felizmente, nem vistos pela escola.
Por mais que estivesse feliz em estar bem com Jake, parte de mim sabia que aquele bem não era nem o mínimo do qual eu gostaria no momento. Será que demoraria tanto para ele perceber? Até mesmo com o que falei sobre Susan? Ou será que, para ele, era apenas proteção fraternal?
Vi, de repente, que eu já estava no estacionamento da escola. Jacob iria atrás de mim até minha casa, conversaríamos um pouco e então ele iria para a dele. Rotina torturante.
Fiquei passando de estação em estação o caminho inteiro. Nenhuma conseguia parar de me fazer pensar nele. Coisa que eu precisava conseguir fazer antes de chegar perto demais de casa. Meu pai conseguia ser tão inconveniente...
Então, finalmente, eu cheguei. Tentando pensar no que falar para tia Alice sobre a idéia de uma mudança no visual. Jacob estacionou o carro e se juntou a mim tão rápido que nem ao menos tive tempo de pensar no que poderíamos conversar.
- Jake – eu comecei –, estive pensando numa coisa.
- No quê? – ele parecia interessado.
- Estava pensando em mudar um pouco.
- Como assim mudar?
- Ah, não sei... Seguir uns conselhos da tia Alice, pedir uns a Tia Rose. – percebi a virada de rosto dele, como se pensar em minha tia o fizesse sentir o cheiro desagradável que os vampiros tinham para lobisomens. Não pude deixar de rir. – Ei, é sério! Eu tava pensando em mudar o cabelo, o jeito que me visto, sei lá... Ficar mais bonita.
- Nessie, você já é linda.
Eu não o encarei. Senti o meu rosto queimando.
- Não vale se você é praticamente um irmão para mim. Conta como se fosse meu pai ou minha mãe falando.
Ele riu alto.
- Não, acho que definitivamente não.
Bom, se eu devia entender, fiquei sem o fazer.
- O que você acha? De verdade.
- Nessie, é completamente desnecessário. Você é perfeita.
Meu coração deve ter falhado umas trezentas e noventa e quatro batidas. Mas eu não podia me iludir, confundir as coisas.
- Eu... eu... – comecei.
- Você quer chamar atenção de algum garoto? – ele perguntou bastante sério. Eu não tive coragem de olhar para ele e me denunciar com os olhos, mas balancei a cabeça afirmativamente. Ele fez um sonoro "hum" e um silêncio se instalou sobre nós.
- Deve ser normal na sua idade. – ele continuou. Eu continuava a encarar o chão. – Bom, quer dizer, não sei...
Eu sorri e olhei para ele. Ele batia o pé no chão, fazendo um buraco. O silêncio mais uma vez se instalou sobre nós. E isso era tão incomum. Eu e ele estávamos sempre rindo, conversando ou até mesmo discutindo.
Uma força fora do comum se apoderou de mim. Eu andei até o lado dele e o abracei. Com força, com vontade, com desejo. Os olhos apertados, sem me preocupar se seria ali que ele perceberia ou não.
Ele me abraçou de volta e, se eu pudesse dizer que era algo diferente de amor fraternal, diria que era com mais urgência do que meu próprio abraço. Ficamos um tempo, apenas abraçando um ao outro, sem nem ao menos afrouxar nossos braços.
Meu coração estava louco. Batia freneticamente no meu peito e tão alto, tão alto que eu as escutava, ritmadas, no meu ouvido. No meu ouvido. No peito de Jake.
Eu abri os olhos.
Tentei me afastar um pouco para olhar nos olhos dele. Demorou um pouco para que ele me largasse o suficiente, podendo, assim, encará-lo. Ou eu estava louca ou ele tinha uma feição de dor.
Um bilhão de perguntas brotaram na minha cabeça, mas eu resolvi começar pela mais importante.
- Jake... Posso fazer uma pergunta?
- Todas. – ele disse e suspirou, apoiando o queixo na minha cabeça.
- Você já se apaixonou?
