Capítulo 3

- Há muitos anos, nosso vilarejo era repleto de intrigas, o que acabava nos levando a várias batalhas internas. Nosso povo se massacrava e o fim dos dias, estava chegando. Foi então que, um dia, a natureza se revoltou contra aquelas pessoas e as portas do outro mundo se abriram e delas saíram os males que viviam ocultos até então. As pessoas viam-se diante de novas preocupações e caso não houvesse união entre eles, cada dia seria um passo a caminho do fim.

"Um grande sábio, temendo o extermínio de todos, foi em busca de uma salvação. Busca essa que o levou a desbravar o bosque e enfrentar o que nele habitava. Este sábio conseguiu chegar à fonte de todo o terror e fez um acordo que garantiria a sobrevivência da maioria das pessoas que ali viviam."

"Alguém sabe me dizer qual foi o acordo que o sábio realizou com a escuridão?" – A senhora tinha um semblante sério, seu olhar era sereno, entretanto quem a conhecia saberia que aquela era uma história que ela gostaria de nunca mais repetir.

Alguns alunos levantaram a mão, alguns mais confiantes que outros.

- Sango, pode responder.

Kagome ouviu a menina pigarrear atrás de si antes de começar o seu discurso.

- Bem, o sábio conseguiu o seguinte acordo: A cada cinco anos uma das pessoas do vilarejo seria sacrificada, esta escolha seria feita com uma votação, onde todos na vila, com exceção apenas das crianças mais jovens que não possuíam entendimento, deveriam participar. Este sacrifício seria realizado para que suas crias fossem alimentadas, assim apenas uma pessoa as manteria longe de sua sede de sangue mantendo-as longe também das outras pessoas que viviam no local. – Ouvir a menina chamada Sango, era como ouvir alguém mais velho falando. Kaede havia lhe dito que todas as crianças da sala teriam a idade de 9 a 10 anos, mas ela juraria que a garota atrás de si tinha alguns anos a mais.

- E alguém sabe me dizer quem foi a primeira pessoa sacrificada? – A professora tornou a perguntar.

Dessa vez menos crianças levantaram as mãos, aquele era um assunto muito delicado e todos ficaram um pouco tensos.

- Bankotsu.

- A primeira pessoa a ser sacrificada foi a filha do sábio, chamada Midoriku. – Kagome percebeu que este menino estava do outro lado da sala e sua voz era tremula, como se temesse dar uma resposta errada.

- E alguém poderia me dizer por que o sábio escolheu a própria filha como sacrifício? – A voz da senhora parecia perturbada com essa última pergunta.

Um único aluno levantou a mão. Kaede andou de um lado pro outro da sala.

- Pelo visto é só você que tem coragem de responder, Miroku.

- O sábio ofereceu sua filha como sacrifício para provar que o acordo era real e para demonstrar que todos deveriam se sacrificar por um bem maior, que era a sobrevivência do povo. Ao oferecer sua filha ele mostraria a todos que o sacrifício não seria apenas dela, mas dele também, pois era sua filha também e ele a amava. Todos esses detalhes serviriam de prova para que todos se convencessem de que aquele era o melhor caminho a ser tomado.

Um sinal estridente foi acionado, sinal esse que indicava a hora do intervalo. Várias crianças saíram correndo e outras pulando, no entanto, pareciam ter a calma maior do que a do próprio sábio.

- Algumas pessoas dizem que ela foi sacrificada por que era uma idiota cega. – Kagome ouviu o menino que estava na sua frente falando e sabia que era para ela que ele falava, era quase como se tivesse sussurrado ao seu ouvido. Kagome ficou aterrorizada, mas nos instantes que ela demorou a absorver a informação o garoto tinha simplesmente ido embora e deixado com que aqueles pensamentos horríveis se infiltrassem na sua cabeça.

- Higurashi, né? – A menina sentiu uma mão suave pousando em seu ombro, mas deu uma leve estremecida de susto. Conseguiu apenas balançar a cabeça positivamente.

- Ah me desculpe por assustá-la. – Disse a outra percebendo o incomodo da colega. – Eu sou Sango, estou sentando atrás de você na aula. Queria saber se gostaria de se juntar a nós no intervalo? – Sua voz soava doce como mel e com muito menos seriedade do que quando estava respondendo as perguntas que Kaede fazia.

- Sim, claro.

- Miroku e eu sempre ficamos juntos nos intervalos. Ele é o menino que respondeu a última pergunta. – Sango pegou em sua mão e, automaticamente, Kagome se levantou, como se aquilo já fizesse parte de uma rotina muito conhecida.

- Muito obrigada, Sango. Vocês dois me pareceram ser muito inteligentes. – Sua fala veio junto de um sincero sorriso, ela estava se sentindo bastante à vontade na companhia de Sango.

- Srtª Higurashi, prazer em conhecê-la. – A menina sentiu sua mão livre ser enlaçada por outra e levantada até o encontro dos lábios do menino, onde foi depositado um leve beijo nas costas da mesma. Kagome ruborizou levemente.

- Miroku, pare de agir como seu pai, ou vai acabar assustando a Higurashi. – Sango puxou Kagome para mais perto de si e sussurrou – Não liga pra ele, de vez em quando ele age da mesma maneira estranha que o pai dele, com o tempo você acaba acostumando. – Sango ria gostosamente, enquanto Miroku as observava com um olhar desconfiado. – É melhor a gente ir, se não vamos acabar ficando sem lanche.

Kaede os observava enquanto saia da sala conversando animadamente, Sango segurava firmemente o braço de Kagome junto ao seu, ficando visível que a garota se importava e a protegeria caso ocorresse alguma coisa. Esse era um instinto natural em Sango, ela sempre defendia os mais fracos ou os que necessitassem, e Kagome com certeza iria necessitar de alguém que lhe passasse segurança ao seu lado.

Bem, não era necessário ficar vigiando a criança como havia planejado, ela sabia que ao lado de Sango, Kagome estaria bem.