4. LÁBIOS DE MEL
Mais um dia raiava. Acordei e me certifiquei de que a hóspede estava deitada ainda. É claro que aquela pedra estava bem ali ao meu lado, estirada na minha cama, com os cabelos de novo no rosto. Era sempre gozado vê-la dormir. Bem, desde o segundo dia em que ela apareceu na minha vida. No primeiro, não foi nada engraçado, e sim assustador. Desta vez, parece que foi apenas um susto. Ela estava muito mais tranquila do que durante a noite, quando teve um pesadelo.
Nessas horas de silêncio, enquanto eu colocava os óculos de leitura para registrar tudo sobre o estado dela, eu viajava meditando e pensando na vida.
Antes, tudo era simplesmente um cotidiano masoquista. Se não fosse por seguir minhas escolhas paralelas às da família, eu não sei, sinceramente, se teria gás para ainda viver. Minha única esperança era ter a plena convicção de que eu, mesmo remotamente, ainda tinha a chance de ser livre, se tudo desse errado. Bastaria me formar e sair definitivamente de casa.
Agora, as coisas começaram a ficar diferentes.
O tempo parece fluir ridiculamente. Não me sinto mais sufocado. Talvez, a viagem longa e repentina dos meus velhos esteja fazendo bem a mim. Parecia que tudo tem um pouco mais de graça.
Minha vida faz mais sentido.
Arriscaria até a dizer que, nas últimas semanas, o futuro médico e advogado aqui era menos moleque e mais homem.
E, cada vez mais, as suspeitas de que a mudança chegou de forma inesperada aumentavam.
Era ela.
Não é possível que ela não tenha nada a ver com minha mudança de estado de espírito.
Antes, um quase alcoólatra, chapado e mal educado que eventualmente catava qualquer uma só para aliviar a tensão e aguentar a vida de bosta de estudantezinho-de-Direito-com-ambição-em-Medicina. Agora...
Um novo Edward.
Controlado, educado, calmo, companheiro e preocupado com a minha hóspede. E completamente fodido, sem saber sinceramente o que fazer ou dizer como tenho pensado nela.
Não é possível que eu esteja insano. Meu juízo sempre esteve aqui, está em perfeito lugar.
Em todo caso, manterei em mente que tudo ainda não passa de uma hipótese.
Talvez esteja somente maravilhado com a presença de uma jovem estranha na minha "casa". Ou realmente estou ficando louco.
É cedo para saber, e é melhor não ter pressa. Hora de acordar do daydreaming que aquela magrela sonolenta me provocou...
Fui à vila buscar nosso café da manhã e resolvi agradar minha hóspede com um pão doce. Tinha cara de quem adorava uma besteira.
Em si, a própria era um doce de pimenta.
Uma hora me xinga, a outra sorri. Estranha que só.
Voltei à cabana e nem reparei nela. Corri para deixar tudo no lugar antes de sair para o trabalho. Improvisei a mesa, troquei de roupa, dei um jeito no cabelo e já ia sair, quando a ouvi gemer. Ela dizia alguma coisa, de novo.
–Não... não! – gritou dormindo.
Se pela noite ela apenas falava, desta vez, parece que estava no pior de seus pesadelos. Sem pensar muito, tive o impulso de acordá-la.
– Ei, calma! Foi só um sonho ruim. – deixei minha bolsa e pasta na mesa e sentei perto dela, na ponta da cama.
– E-eu não consigo... respir...! – disse ofegando.
– Calma, puxa o ar pelo nariz e solta pela boca. – peguei nos seus pulsos, gelados e alarmantes, e passei a mão secando a testa, antes de pousar nas costas, por minutos. – Calma... – olhava pra ela fixamente, que não parava de tremer.
– Quero saber o que aconteceu comigo! – ela berrou, chorando, enquanto eu a encarava esperando alguma explicação.
–O que sonhou? – perguntei, depois de minutos, enquanto levantava para buscar um copo d'água.
–Alguém estava atrás de mim na estrada, vindo da floresta! Estavam me agarrando e mordendo, eu estava sozinha e subiam em mim, queriam quebrar meus ossos. Queriam me matar! – ela soluçava.
– Meu coração... – usei o termo sem nem pensar - isso foi um pesadelo, precisa relaxar. É natural... – tentei confortá-la, tirar sua tensão, ainda que soubesse que aquele sonho podia sim significar algo sério sobre o que aconteceu com ela.
–Não... não! Foi muito real. Natural é uma mer...! – tapei seus lábios exaltados com a mão antes que ela terminasse a palavra.
–Pshhh... Por um segundo, pensei em tapá-los com os meus, mostrando que ali ela não estava sozinha.
Mas não era a hora de ceder ao impulso.
Cheguei a me assustar um pouco por ter cogitado a ideia, o que rapidamente me remeteu ao pensamento do início da manhã.
Nos encaramos até ela amansar, após longos cinco minutos.
– Merda - disse, sorrindo, até que ela finalmente se acalmou. – Deve ter sido uma merda mesmo, mas acabou, relaxa. Deve ter trabalhado muito esta caixola pensando. – brinquei, fechando a mão e batendo de leve em sua testa.
–Não precisa berrar. – pisquei, e ela me olhava com a expressão mais confusa possível.
– Estou com fome. – anunciou, ficando logo bicuda, e eu quase ri pela sua mudança brusca de emoções. Parecia até alguém que eu conhecia há uns meses...
– Vamos tomar café, daqui a pouco tenho que sair. – não admiti que já passara da minha hora.
–Isso é só suor, ok? – ela levantou se apoiando em meu ombro, olhando para o estado do lençol e pensando que eu acharia que ela tinha urinado na cama.
Só mesmo aquela figura para pensar nisso.
– Eu sei, eu sei. É muito grandinha pra fazer necessidades na cama. – virei os olhos prendendo um riso, e fomos para a mesa.
Ela ainda andava devagar, mas já havia melhorado bastante desde quando chegou. Sua aparência já não era anêmica e nem cansada como no primeiro dia. Só não estava tão preocupado porque acompanhava seus exames de laboratório, e tratei para que saísse de um estágio inicial de desnutrição. Comida saudável não faltava ali, ainda que eu praticamente não parasse na cozinha. Muitas frutas, pães, queijos, chá, sopas e comida vinda de casa ou do comércio local.
Se tudo desse errado nessa merda de vida, eu poderia virar entregador de comida.
– Posso te pedir um favor? –ela invadiu minha breve reflexão enquanto comíamos. Eu balancei a cabeça, concordando, e finalmente falei quando ela começou a hesitar.
–Sim?
–Posso ouvir seus discos? – ela falava como uma garotinha com medo de ouvir um "não" por pedir ao pai para dormir na casa da colega. Pura frescura, mas ela ficava uma graça com vergonha.
–Claro. – estranhei o pedido e franzi os olhos.
–É só que... eu não quero ficar em silêncio. – ela me olhou, mais tímida ainda.
–Está com medo de ficar sozinha? – apertei os olhos, tentando decifrá-la – Ninguém virá aqui, isso eu te garanto.
–Não! Só quero... ter o que fazer. Eu... não sou fã desse silêncio todo. –falava em tom de repúdio - Não gosto.
Ri com sua declaração. O silêncio era a coisa que eu mais gostava em Snoqualmie.
–O que?
– Nada. Então não gosta do silêncio?
–Não. – disse, toda séria.
–Você pode fazer outras coisas também.
–Tipo?
–Tipo lavar louça. – ri com a ironia. Péssima sugestão.
– Bem, é uma opção. –ela era tão figura que concordou em fazer.
Definitivamente essa garota não é normal.
–Ok. Então... É fácil, olha só. – mostrava como ligar o vinil, quando ela instintivamente encostou seus dedos nos meus, o que a deixou vermelha.
E assim, como um estalo, eu pude perceber que havia algo diferente entre nós.
Franzi o cenho enquanto tentava decifrar sua reação.
Mas como disfarçava mal. Péssima, péssima atriz.
–Obrigada. –ela apertou os lábios, sem graça, e já foi logo escolhendo um de baladas de Rock para tocar e quebrar aquele silêncio estranho entre nós.
– De nada. Se quiser trocar, é só parar e repetir o que fiz.
–Entendido. – ela agora já ia servindo o leite, totalmente descontrolada só por nossas mãos terem tocado.
Se já ficava assim com um toque de nada...
–Espera. Tenho uma surpresa para você. – lembrei e fiz cara de suspense.
–Relacionada a...? – ela perguntou levantando uma sobrancelha.
–Relacionada a comida mesmo.
–O que é?
– Algo para adoçar seu dia. – mostrei o pão, e aposto que nunca tinha visto um doce pitoresco como aquele de receita suíça.
– Nossa! É para comer ou para ver? Parece uma pintura, sério. – ela o pegou com cara de fome, nem parecia a chorosa de vinte minutos atrás. –Obrigada... Edward. – ela interrompeu o corte para me olhar e agradecer.
Ponto meu.
– Gosta de doces?
–Adoro. – ela disse automaticamente, buscando alguma lembrança enquanto fatiava o pão e nos servia. Esperei ela começar primeiro, porque suspirou tanto que fiquei até desconsertado.
–Gostoso, hã? – sorri e tentei acompanha-la, me esforçando para continuar no papel do bom amigo, pois era só isso que eu precisava ser. Cego e assexuado.
A tarefa estava ficando difícil.
Devoramos tudo em poucos minutos, e enquanto eu levantava e guardava o meu jaleco na bolsa, ainda encontrei tempo para disfarçar e admirar aquela boca vermelha e... sim, formosa.
Pronto.
Pela segunda vez naquele dia, tive que controlar o impulso.
Agora estava mais assustado comigo do que antes.
–Muito, foi o melhor café da manhã desses dias. – ela lambia os dedos.
Porra.
Levantou, após terminar, e começou a arrumar a sujeira que fizemos.
– De nada. – olhei o chão, fingindo estar chateado pela falta de uma palavra de despedida, já perto da saída.
– Obrigada. – ela disse e sorrindo veio, bem mansa, na minha direção.
E eis que fui completamente surpreendido.
Tentou ficar na ponta dos pés, próximo a minha altura, me envolveu em seus braços finos e me deu um beijo no rosto.
Do lado esquerdo.
Mais ou menos perto de onde eu queria.
Foi a primeira vez que se aproximou de mim por conta própria. Nunca vou esquecer daqueles lábios melados de doce e chá com mel. Não consegui esboçar reação alguma, mas ah, se ela soubesse como eu tinha gostado... Temia que me provocasse eternamente.
Sem ação, não consegui pensar em mais nada se não uma indireta.
– Devo trazer mais doces? – meus olhos certamente sorriram, jogando o comentário malicioso para ver qual era a dela.
Minha hóspede sorriu de lado, e não respondeu.
Ponto dela.
Arrumei minhas coisas e deixei tudo organizado para suas refeições, como de costume. Ela, calada, limpava a mesa e guardava as coisas que eu trouxera no dia anterior no meu armário. Finalmente eu ia sair, quando ela resolveu abrir o bico de novo.
–Edward.
–Sim?
– Você acha que foi só um pesadelo mesmo?
– Eu sinceramente não tenho como te responder agora. – admiti, e ela pareceu entristecer-se. Olhou para baixo e voltou a me olhar, séria.
– Ok...
–Mas lembre-se, eu disse que iria ajudá-la, não foi? – tentei ser positivo.
–Disse.
–E eu vou ajudá-la. Dê-me um tempo e prometo que vai dar tudo certo. Volto mais tarde, ok?
– Ok. Vou esperar. Edward! – ela me chamou, quando eu já estava na Harley, pronto para sair.
– Fala.
–Vou lavar a louça! – Ela era mesmo uma figura.
– Bom. Fique com os Deuses do Rock! – pisquei de longe e saí.
Cheguei no hospital e todos já estavam começando os trabalhos. Dr. Masen já estava preocupado, ele disse. Nunca me atrasei, e agora era a segunda vez seguida.
Nunca tive algo para me distrair tanto da chatice da rotina. Corria como um louco ansioso, para as aulas, das aulas para os atendimentos, e assim era minha vida. Agora, algo me fazia apreciar mais os meus dias.
Ou alguém.
– Bom dia, meu filho. Melhorou?
–Bom dia, Doutor. Sim. Acho que tenho andado muito cansado. – tentei logo arrumar uma desculpa para os possíveis atrasos no futuro.
–Tenha paciência, Edward. Já está acabando. Em breve estará livre somente para atuar.
Realmente, nem lembrava mais que já estava perto de me formar em Direito, e a dois anos, só de experiência, em Medicina. O Dr. Masen conseguiu me animar. Significava que em breve eu teria mais tempo para ficar em casa. Ou na minha cabana.
–Bem lembrado, Doutor. – lavei minhas mãos e comecei o trabalho, sorrindo sem motivo.
–Há algo de novo no ar, Edward? – era uma merda esquecer que o Dr. Masen me conhecia bem o bastante para reparar.
–Como assim, doutor?
–Tem andado feliz. Tenho reparado uma mudança brusca em seu humor. Menos frieza. Está sorrindo. A linguagem está mais controlada. – ele riu.
Eu era o típico idiota que usa determinados expletivos como se fossem vírgulas.
–Talvez o cansaço esteja me amadurecendo. – não pude conter uma breve risada. Piada interna ao lembrar o termo já usado por ela antes.
O Dr. Masen provavelmente não entendeu, e a conversa acabou com um olhar de estranhamento.
Naquela manhã, duas crianças desacompanhadas apareceram com sinais de mutilação. Não podíamos saber como aconteceu exatamente. O Dr. Masen tentou salvá-las comigo, mas já era tarde demais. Não havia mais vida. Não havia mais coração.
Apesar de estar preparado para enfrentar aquele tipo de situação, ficava sempre pra baixo ao ver migrantes sendo atacados nos arredores da cidade.
Preferia não cogitar quem estava por trás daquilo.
A desgraça da minha vida não podia ser maior.
–Mais dois anjos, meu filho.
–Sim, senhor. Queria que isso acabasse. Não consigo entender. – disse, mesmo suspeitando que minha família de alguma forma tinha ligação com a putrefação daquele lugar. O descaso era suspeito demais aos meus olhos.
Caráter nunca fez o gênero deles.
Queriam comandar Washington, mas mantinham seu luxo brincando de faces limpas e mentindo para inocentes. Eram verdadeiros arlequins. Dois porcos, e a vergonha da minha vida.
–Nem eu, Edward, nem eu...
Aquilo fez lembrar o caso da minha hóspede.
–Dr. Masen, o senhor soube de algum outro ataque, morte ou sumiço aqui em Washington nas últimas semanas?
–Não, meu filho. Ainda estudando sobre os índices?
–Sim. – falei num tom apático.
–Creio que eu deveria perguntar ao conselho geral. Pode esperar alguns dias? Terás dados precisos, se eu solicitar. Eu respondo por mim, mas outros podem saber o que não sei.
–Eu espero, Dr. Masen.
–Está realmente interessado, não? Gostaria de ver seu estudo quando estiver pronto. – ele me encarava.
–Sim, é muito importante para mim. Agradeço muito se conseguir informações. – talvez o tom do meu pedido tenha levantado alguma curiosidade no Doutor.
–Tem certeza que precisa somente disto, Edward? – ele me conhecia há anos, mas por envolver a vida dela, resolvi não contar.
–Sim, senhor. – falei seco.
Até então, o Dr. Masen não caiu em si para refletir que, dificilmente, o extermínio de pessoas seria tema de estudo. Tudo era tratado por debaixo dos panos em Yellow Woods. – Meu estudo é por uma boa causa. – dei esta migalha de informação como conforto.
– Vamos aguardar, meu filho. Sabe que é sempre um prazer ajudar um rapaz tão esforçado como você. É bom saber que está tão bem ultimamente.
–Muito obrigado. A admiração é mútua.
–Vamos à vila?
–Vamos.
Enquanto o Dr. Masen fazia uma série de considerações clínicas, eu pensava se as duas crianças mortas teriam algo a ver com a moça em minha cabana. Talvez fosse apenas uma coincidência, mas isso eu não teria como saber. Não que eles tivessem alguma relação, mas a dúvida seria se aqueles que deixaram as crianças vivas por pouco tempo foram os mesmos que deixaram minha hóspede sozinha. Não fazia sentido ela estar viva. Não sabia de nenhum caso assim antes. Todos eram devolvidos mortos ou semimortos.
Despedi-me do doutor e nos encontramos na pequena clínica da vila.
Já havia passado metade da manhã. Ao entrar, o Sr. Masen pareceu interessado em saber mais sobre minha privacidade. Não era segredo para ele o meu conturbado relacionamento com a família, principalmente com meu pai. Sempre que podia, ele procurava conversar comigo e dar alguns conselhos. Eu não seguia metade no início, mas ele nunca desistiu de mim.
– Como estão todos na sua casa?
–Devem estar bem, estão viajando.
–De férias?
–Honestamente, eu nem sei o propósito da viagem, Sr. Masen. – ele riu com minhas palavras. - Não tenho ficado em casa, estou na casa de um amigo.
–É mesmo?
–Sim, do Nestor. – de novo ri internamente sobre a piada.
– Faz bem. Ficar com um amigo sempre faz bem.
–Sim, a casa dele me faz muito bem. – prossegui na piada interna.
– E as namoradas, meu jovem? – devo ter deixado escapar uma expressão de extra dose de alegria ao falar da casa do meu "amigo".
– Vou bem devagar neste assunto, doutor. As garotas parecem mais interessadas na moto ou no meu cabelo do que na minha pessoa. – ri sem graça.
– Quando você menos esperar, meu jovem, alguma irá se interessar no seu bom coração. Ou a senhorita já apareceu e o senhor ainda não sabe. – me olhou por cima dos óculos. Espertalhão.
–Não sei. – dei de ombros e fiquei constrangido. Ele parecia querer arrancar alguma novidade de mim. Rapidamente escapei. – Dr. Masen, se me permite, irei pegar meus aparelhos.
– Vá, meu filho. – no meu retorno já tínhamos pacientes de rotina e o assunto cessou.
Atendemos algumas pessoas até o início daquela tarde. Tudo estava bem mais calmo do que no hospital pela manhã. Ao terminar, me despedi e decidi não ir ao posto de polícia. Perguntar a mesma coisa por duas vezes seguidas poderia levantar suspeitas novamente. Suspeitas poderiam levar a perseguição, e perseguição poderia colocar o bem-estar dela em perigo. A única pessoa que poderia me ajudar, no momento, era somente o Dr. Masen. E minha intuição.
Em vez do posto, após o trabalho, fui ao conselho de moradores da região perguntar se ocorreu algum acontecimento estranho envolvendo algum morador recentemente. Um sumiço ou acidente. O Sr. Caius, líder dos trabalhadores, disse que não sabia de nada. Mas a exemplo do Sr. Masen, ofereceu ajudar buscando informações. Para ele, disse que precisava de dados para uma pesquisa médica.
Mais um dia que eu teria de voltar para a cabana sem novidades para aquela garota. Isso era frustrante demais.
Certo de que ainda não poderia fazer nada para resolver o sofrimento, a não ser oferecer um teto improvisado, resolvi passar rápido pelo centro comercial de Seattle e arrumar algumas coisas que ela talvez precisasse, como toda mulher.
Nunca havia comprado nada para uma moça, a não ser para minha mãe, e o corpo deladefinitivamente não era igual ao da minha mãe, o que se tornou uma árdua tarefa para mim. Levei um jeans, um vestido floral escuro, sapatos e algumas blusas. Fiz questão de pedir para a vendedora escolher peças íntimas, já que não tinha a mínima ideia do que pegar nem o tamanho. Ela me olhou sem entender, e eu disse que era para uma doação ao hospital. A senhora loira e baixota acreditou.
Pedi que tudo fosse embalado como presente, e arrumei no baú da Harley. Não me esqueci de comprar algumas coisas para comermos, e a extravagância de pêssegos, já que os da cabana não estavam maduros.
Pêssegos, sempre trazendo ótimas memórias.
Quando cheguei à viela da cabana, observei a garota sentada na cadeira, com a cabeça pousando em cima dos braços cruzados e deitados sobre a mesa. Ainda ouvia meus discos, mas agora era AC/DC. Quem disse que não tinha bom gosto?
Toma essa, sociedade.
–Ei. – entrei devagar, enquanto ela despertava provavelmente por ter ouvido a moto.
–Oi. – disse com cara de sono, olhos brilhantes e bem apertados. Parecia estar de ressaca, mas só se fosse de cansaço. Não tinha mesmo nada o que fazer ali. – Já chegou?
– Acho que sou eu sim, posso entrar? – perguntei ironicamente, pois ela já parecia tão acostumada com a cabana que poderia facilmente se passar pelo macho dali.
– A casa é sua, ué. – ela levantou o rosto.
–Gostou mesmo, hein? – perguntei apontando para o toca-discos.
–Sim, me ajudou a pensar e relaxar.
– "Relaxar" eu tenho certeza. – ri por ela estar quase dormindo quando cheguei.
– Como foi seu dia?
– Foi normal, dorminhoca.
– Cala a boca, eu só cochilei, Edward. - já estava ficando folgada, até virava os olhos e mandava eu calar a boca.
– Aham, certo! – estava bem na face dela a marca de horas com o peso do rosto sobre a mesa.
– Bem, só queria saber... –hesitava em perguntar.
– Saber o que?
–Como é o dia lá fora.
Senti pela pergunta que ela já estava ficando fatigada ali, sem fazer nada. Não a julguei por isso, mesmo sabendo o que acontecia lá fora. Sua vontade de viver sem barreiras era normal e eu, mais do que ninguém, podia muito bem entender seu desejo por liberdade.
Ali, ela era um pássaro em uma gaiola de proteção.
–O dia está tão quente quanto aqui, mas acho que aqui ainda está mais fresco por causa dali. – apontei para as árvores.
– Hum. – ela queria mais.
–Olha, vou abrir o jogo contigo, não quero mentir para você. – resolvi contar sobre as crianças.
Os olhos dela brilhavam bem abertos na esperança de uma notícia, qualquer notícia, que não viria agora. E eu simplesmente matei a esperança daquela menina por mais uma vez.
– Tive um péssimo dia. Vi duas crianças chegarem nos últimos segundos de vida ao hospital. Antes que você pergunte, elas estavam sozinhas, e eu acho que o caso delas não tem a ver com o seu. Mas eu entrei em contato com duas pessoas que irão procurar por algo, sem relevar nada sobre você, e eles vão me ajudar. Eu só preciso que você me dê tempo, pois eles precisam de tempo. Eu sinto muito por não poder ser rápido como gostaria que fosse, mas as coisas andam devagar, e eu me sinto péssimo por isso. Desculpa. – metralhei em palavras tudo o que tinha a falar, que não era nada, basicamente.
Vi seus olhos se desviarem dos meus, e ela abaixou a cabeça na mesa novamente, escondendo eles de mim, marejados. Ela entendeu que eu dava o meu melhor e que, naquele momento, não tínhamos muito a fazer. Na verdade, ela nem estava triste comigo, e sim por não saber da sua própria vida.
Outra coisa, particularmente, parecia a incomodar tanto quanto a ausência da memória.
– Você acha que, se não descobrirem nada, poderei sair um dia?
– Ora, teimosa. Você não entende que... – mordi os lábios, hesitando enquanto abaixava à mesa para conversarmos, e ela me interrompeu.
– Eu já sei! – falou alto - Já entendi que estamos em um lugar perigoso. Eu sei que você está fazendo o seu melhor e eu agradeço a cada segundo por você ser tão legal comigo, mas...
–Não precisa agradecer, o que est... – ela me interrompeu novamente.
–Edward, você é meu amigo. E eu quero ser sempre sua amiga. Mas eu preciso sair um dia, não quero ficar aqui para sempre, com medo de sair e não voltar. Não pode me esconder aqui pelo resto da vida! – as primeiras lágrimas da tarde começaram a cair.
– Para de chorar! – a repreendi, atordoado com suas palavras. Não estava gostando de estressá-la assim, e não sabia que ela cansaria tão rápido. – Não disse que você não irá sair, ok? Só vamos esperar mais um pouco. Te prometo que você vai sair, e muito. Só precisamos ter cuidado agora, entendeu? Tá bom pra você? – levantei e esfreguei a cabeça, incomodado com a situação. – Vamos dar um jeito nisso.
–Tá. – ela logo ficou calada.
Realmente, se eu estivesse em sua situação, não conseguiria aguentar a falta de liberdade por muito tempo. Precisava arrumar um jeito de tirá-la um pouco dali, nem que fosse para passear e voltar. Ou ela poderia pensar que estava mantendo-a em cativeiro, ou algo mais errado. E definitivamente esse não era o caso.
Nota mental: minha hóspede está carente e quer sair.
–Por enquanto, trouxe algo para você vestir. – entreguei as sacolas de presente.
– Obrigada, mas não estou nua.
– Pare de birra e abre isso logo, vai...
Ela abriu em silêncio, totalmente sem modos e de bico. Ficou surpresa com as escolhas que fiz. Porém, hoje resolveu pegar no meu pé.
– Acho que alguém andou fuçando as roupas novas da mamãe.
– Não gostou de nada? – fiquei sem entender sua reação.
– Gostei sim, mas posso confessar uma coisa? – ela apertava os olhos, mudando de humor da água pro vinho. Tão linda...
–Pode.
–Eu gosto de vestir as suas roupas.
–Pensei que só as usasse porque era o que eu trazia. - fiquei um pouco surpreso com a declaração.
–Não me leve a mal... mas gosto do cheiro.
–É mesmo? – devo ter feito cara de metido.
–Sim.
–Bom, não há problema nisso. Pode continuar vestindo as minhas também.
–Não acredito que tenha escolhido isso. - ela falou franzindo o cenho e arregalando os olhos, vendo as calcinhas e outros itens que toda garota usa... bem, periodicamente.
– Dessa parte aí realmente eu não entendo nada. – o comentário soou tão errado para mim quanto para ela, e nos olhamos torto achando graça. – Bem, nunca vesti uma mulher. Pedi à vendedora para escolher essas peças. – levantei as mãos em sinal de redenção.
–Claro. – ela brincou, e continuava me olhando torto. – E vai continuar sem entender.
Deduzi que ela não iria experimentar nada na minha frente, e concordei com a cabeça.
–Espere pelos próximos. – prometi, piscando.
–Não precisava nada disso. – ela balançava a cabeça, incrédula.
–Precisava sim. Quando sairmos, terá o que vestir.
–Você é um amigo e tanto. Obrigada.
Ela me abraçou. Novamente.
–Que bom saber que me considera um amigo. Também é minha amiga. – a amassei retribuindo o abraço. Para ela, puramente amigável.
–Amiga com calcinhas novas. – ela piscou e nós rimos. Eu, com certeza, por motivos mais maliciosos. -Bem... não sei se você me considera tão amiga assim. – ela apertou os olhos.
–Por que não?
– Você só me faz perguntas. E quando eu faço as minhas, sobre a sua vida, você muda de assunto.
–Não sou eu quem precisa lembrar-se das coisas. – franzi o cenho. – Falar sobre você e o que pensa pode te ajudar. – me defendi.
–Mas se eu lembrar de qualquer coisa, você será o primeiro a saber... – ela olhou para baixo, triste.
–Tá, vamos lá. O que quer saber sobre mim? – revirei os olhos e sentei na cadeira da cabana. Nem percebi que ainda estávamos praticamente abraçados. Encarei como se fosse uma entrevistadora.
–Hum... – ela praticamente buscava no seu catálogo imaginário algo que não me assustasse, eu acho.
–Só uma por hoje, tá?
–Tá. O que seus pais fazem?
–Meu pai é advogado... e minha mãe é sua assistente, pode-se dizer. – declarei de forma totalmente desconfortável.
–Quando você fala deles, sua expressão muda totalmente. Fica horrível, sério. – ela certamente queria analisar minha expressão de dor, sem sucesso, enquanto eu organizava na mesa o que iríamos comer, me esquivando da conversa.
Ela encarou uma torta salgada, mas desistiu e pegou um pêssego. E aí, é claro, ferrou comigo.
–Talvez eles sejam horríveis mesmo. – eu disse olhando para o horizonte. Ela, obediente, encerrou o assunto.
–Por que trouxe frutas se tem tantas ali fora? – franziu os olhos.
–Bem... acabaram os pêssegos maduros. – balancei os ombros.
–Hummm, eu gosto desses. – ela comia delicadamente.
Dava largada à minha tortura.
Cada mordida certamente aumentava meu batimento cardíaco. Tinha algo muito errado acontecendo comigo.
– E se continuar com perguntas, vou querer perguntar coisas estranhas também. – tentei desviar o olhar dos seus lábios úmidos. Esfreguei minha cabeça atordoado com suas simples expressões.
–Como o que? Eu não tenho nada a oferecer. – ela me olhou torto.
– Veremos. - arqueei a sobrancelha.
Era isso.
Bastou uma simples resposta para despertar o gatilho mental que eu tinha. Tinha sim algo que eu queria, mas ainda era cedo para pedir.
Não queria assustá-la, mas o sentimento aumentou.
O desejo real surgiu agora, automaticamente, enquanto a olhava comer, saborear pêssegos e lamber os dedos.
No fim, a culpa é dela. Tudo culpa só dela.
Não tinha coragem de pedir ou de assumir o controle, pela primeira vez na vida.
Eu queria um beijo seu, na minha boca.
A ausência dos meus pais já se estendia por semanas, e eu estava adorando. O tempo passava rápido demais enquanto estava com ela, e devagar enquanto eu saía.
A cada instante longe da cabana, sentia mais falta dela. Seus risos, suas palavras sujas que mais pareciam ensinamentos meus, suas birras, atitude, e sua falta de modos iam me conquistando de uma forma nunca sentida até então. Tudo bem que às vezes ela era estranha, eu relevava.
Cada vez ela se mostrava mais à vontade. Tão moleca. Já conversava comigo como se eu fosse um amigo de longa data. Se eu tivesse um pouco menos de juízo, afirmaria para todos que estava encantado com minha hóspede secreta, aquela desbocada, egocêntrica, curiosa e cheirosa.
Cada vez mais.
Eu gostava de presenteá-la, ainda que só com o necessário. Até agora, acho que aceitou tudo numa boa porque ela realmente só veio parar aqui com a roupa do corpo.
Seu único pedido material, e por sinal bem pensado para o futuro, foi que eu comprasse tintura "preto 1.0" para cabelo. Um dia depois cheguei da clínica e lá ela estava, toda melecada e esbravejando pela ardência na cabeça, além de reprovar a cor. Como se não bastassem os foras, todas as toalhas sujas de preto sobraram para o burro aqui.
Nunca mais cairia nessa cilada de pintura em casa.
Comecei a pensar em algo para dar a ela como lembrança minha, caso voltasse logo para o local de onde veio. Assim não se esqueceria de mim, da mesma fora que eu nunca mais esqueceria dela. A camisa tinha sido apenas uma lembrança, mas deu uma luz.
Quando fez um mês que apareceu na minha frente, na estrada, resolvi dar outro presente relacionado à música que ela certamente iria se amarrar. Ouvir, ela já ouvia. Agora produzir, seria outro nível para ela.
Fui ao centro da Seattle novamente e parei numa loja de música. Pensei em algo que não fosse muito doce, como um piano, e nem muito elétrico, como uma bateria. Um meio termo, pequeno e forte. Era o ideal.
Comprei seu primeiro violão.
Ainda tinha outros presentes em mente para aquela semana de feriado prolongado.
No mesmo dia, quando cheguei à cabana, ela estava usando o primeiro vestido que a dei. Tinha sugerido que vestisse algo novo, pois os próximos dias seriam diferentes. Ela hesitou, mas parece que aceitou, e com louvor.
Que corpo.
Tão linda que quase bati a Harley na madeira da cabana, o que arrancou uma risada dela. Estava muito linda mesmo.
E seus lábios... ah, seus lábios.
Se já era bonita sem nada, agora hipnotizava de vez. Um pequeno coração cor-de-rosa e avermelhado, acompanhado de um par de olhos vivos, ainda mais ressaltados pela nova cor do cabelo. Esqueci toda a loucura das toalhas sujas num passe de mágica.
Minha jovem moleca estava muito mais... mulher. Nunca a vi usando maquiagem antes, ainda que só fosse um batom.
Fui direto ao presente, antes que começasse a me sentir desconfortável diante da beleza dela.
–T-trouxe algo diferente para... você. Adivinha.
–É de comer? –adivinhações não eram seu forte mesmo. Tive que rir.
–Não, sua tonta. Olha o volume do embrulho. É de tocar. – mordi o lábio inferior e ela não deve ter entendido nada, ou entendeu tudo errado, porque aquela cabeça oca recuou uns dois passos e franziu o cenho, levando as mãos à cintura.
–Tocar?
–Sim.
– Sei lá. – ela desistiu, ainda sem entender muito bem o volume na traseira da moto.
– Você gosta de música, não é?
– Pergunte ao seu toca-discos. – ela balançou a cabeça firmemente, e só bem depois comentou que quase quebrou o disco dos Stones.
–Espero não ficar surdo... – dei o presente balançando a cabeça em reprovação ao que poderia acontecer daqui para frente. Tive uma breve visão do barulho que ela faria, e quase me arrependi.
–Merda! Está brincando comigo? Um violão!? – o sorriso dela era maior do que o sol acima das nossas cabeças.
– Sim, cuidado com as cordas. Gostou?
E mais uma vez, eu fui surpreendido.
Ela apoiou o instrumento na moto e me agarrou pelo pescoço, dando um abraço bem apertado.
Ah, se ela soubesse como eu gostava... não provocaria.
Ia contar agora qual era o plano para os próximos dias, só pra ver se rolava o meu desejo, que era um beijo seu. Mas a alegria dela com o "brinquedo" novo era tão grande que a deixei curtir logo o primeiro presente.
Ela sentou no chão de cimento onde parei com a Harley, pegou o violão e o analisou todo. Testou as cordas e posso jurar que tocou alguma melodia qualquer, por alguns segundos. Fiquei admirando encostado na janela, ainda sentindo o perfume delicioso dela no meu rosto. Olhei para o relógio e precisava prepará-la para o próximo.
–Ei, garota. – a interrompi.
–Oi.
–Quer saber o que mais ganhará hoje?
–E tem mais?
–Muito mais.
– O que deu em você? Nem sei quando faço aniversário – ela riu-se, desconfiada.
–Quieta... olha, é melhor você escolher um nome, nem que seja de apelido, para eu te chamar.
–Por que isso agora?
–Porque nós vamos dar um passeio hoje. Quer dizer, se você quiser, é claro. Na moto, bem comporta... – ela me interrompeu.
Dessa vez, foi ainda melhor do que eu esperava.
Ela veio pulando no meu colo, e me encheu de beijos pelo rosto. Só não foi na boca, o que mataria meu desejo sem o mínimo esforço da minha parte. Acho que essa garota deve ser uma doida sem noção ou está a fim de me tentar mesmo. Ninfeta da porra.
Quase caí.
Tive uma séria vontade de avisar que era melhor ela não brincar com fogo para não se queimar, mas fiquei ali, segurando no colo, como um babaca, sentindo seus doces lábios e calor do seu corpo no meu. Estava extasiado, mas não me rendi. Nem ela. Paramos por ali.
Isso não podia estar acontecendo.
Haja calma pro meu garoto...
