A Crónica Perdida, por Elyon Somniare


Capítulo IV – A chegada a Cair Parável e a primeira aparição de Aslan

Se voar é isto, pensou David, vou-me inscrever na força aérea assim que voltarmos a casa. Se voltarmos.

- Para onde vamos?

- Para onde? – repetiu a gárgula-chefe. – Para Cair Parável, mas é claro. É lá que mora o jovem rei Cáspian, coroado há um ano. Ele saberá o que fazer convosco, criaturinha, e deveremos informá-lo das atrocidades que os Carquilhos têm vindo a cometer durante o reinado de Miraz, o tio usurpador de Cáspian que já não se encontra entre nós. Mas, valha-me o Leão! – exclamou batendo com uma pata na testa, o que fez com que balançasse um pouco e David tivesse de se agarrar a ele com mais força. – Não me apresentei ainda, que má educação! E que mau exemplo para as minhas gárgulas! Sou Joseph, criaturinha. Diz-me, porque que a outra criaturinha é tão mais pesada do que tu?

- Come mais.

- As Filhas de Eva... são todas assim?

- Claro que não. Só algumas. Demora muito daqui até Caí Para-bel?

- Cair Parável – corrigiu amavelmente Joseph. – A pé demora um bocado, mas como vamos a voar – e, acredita, só os cavalos-alados e os grifos voam mais depressa que uma gárgula – devemos demorar mais ou menos um dia. Dorme, criaturinha. Tiveste uma noite difícil e uma boa noite de sono faz muita falta ao bom funcionamento da massazinha cinzenta, ai lá isso faz.

- Não tenho sono...

Os protestos não valeram de grande coisa a David que, na verdade, tinha mesmo sono (assim como vocês teriam se tivessem passado a maior parte da noite a fugir de um bando de Carquilhos e viajassem depois no dorso confortável – apesar de Kim continuar a assegurar de que era muitíssimo incomodo – de uma gárgula bem-disposta e paternal).

- Quero ir embora... – resmungou Kim novamente. Karl, a gárgula que tão amavelmente a transportava, limitou-se a exibir uma expressão triste: perdera já o número de vezes que a rapariga dissera aquela frase. Que ia agora começar a contar para se distrair na viagem?

- Porquê que não fazes como a outra criatura? Como o Filho de Adão? – perguntou por fim. Kim fungou antes de responder, retirando uma mexa de cabelos ruivos que insistia em se meter à frente dos olhos roliços e castanhos.

- Porque eu não sou, nunca fui e nunca serei o Cartairs! Nunca farei o que ele faz! E porque não ia conseguir dormir num sítio tão incómodo.

- Os dorsos das gárgulas são considerados os mais confortáveis para viagens de longo curso – retorquiu Karl, com um tom de orgulho ferido. – Nós não somos pedra, ao contrário do que se pensa. E não me parece assim tão mau fazer o mesmo que o Filho de Adão.

- É mau! Tenho fome! Quero voltar para casa!

Karl retomou a sua contagem. Tinha tido esperanças de que a Filha de Eva se tivesse esquecido das lamúrias, mas já que isso não acontecera, sempre podia retomar a sua contagem... Afinal, quais as probabilidades de ter mais oportunidades para contar lamúrias de Filhas de Eva? Muito poucas! Era preciso aproveitar... (O passatempo preferido de Karl, como já devem ter reparado, é contar coisas. Isso é hereditário, a família de Karl tem até o sobrenome de Numerus e é famosa pelas suas sessões, já milenares, de quem é mais rápido a contar).

O passatempo de Karl dá-nos também a possibilidade de descrever sucintamente a viagem das gárgulas e das "criaturinhas" até Cair Parável, uma vez que não aconteceu nada de especial durante a referida viagem e, estar a contá-la em pormenor, apenas serviria para vos maçar e desincentivar a leitura da aventura de David e Kim. No número 24 da sua segunda contagem (lembrem-se que ele perdeu-se na primeira), Karl recebeu o sinal de Joseph para poisarem e fazerem a pausa do almoço. Foi nesta altura que David acordou e verificou que, tanto ele como Kim, estavam perante um problema de alimentação: as gárgulas comiam os seus alimentos crus e não sabiam nada sobre cozinhar a comida. Nem David nem Kim sabiam como cozinhar; não era uma das coisas que se ensinasse na Escola Experimental. Isso, claro, apenas serviu para aumentar os ruídos dos estômagos de ambos e piorar o humor de Kim e o ressentimento desta para com David. Assim, é naturalíssimo que, quando as gárgulas chegaram a Cair Parável, ao pôr-do-sol, Karl levasse a sua contagem nos 76 resmungos e lamentações.

- Chegámos – anunciou Joseph alegremente. – E batemos um novo record! Rapazes, este ano vamos inscrevermo-nos na Grande Corrida Aérea de Nárnia!

- Fixe!

- Porreiro!

- Vou cortar a meta em primeiro lugar!

- Não vão fazer nada disso se não começarem a treinar como deve ser... – interrompeu a gárgula de olhos sombrios.

- Estraga prazeres.

- Pessimista.

- Agoirento.

- Isto é que é Cair Parável? – interrompeu David, analisando o magnífico palácio.

- Sim – confirmou Joseph. – Esplendidamente restaurada, hein? Cáspian é um bom rei... Isso lembram-me que temos de falar com ele! Não há aqui ninguém para nos receber?

- Há – respondeu uma voz amável que obrigou todos a baixarem os olhos e fixarem o texugo que se mantivera nas sombras até ao momento.

- Buscatrufas! – exclamou Joseph. – Onde estão todos? Além de ti, é claro.

- Alguns estão dentro de Cair Parável, claro, mas a maioria partiu com o rei na demanda contra os gigantes.

- Demanda contra os gigantes? – perguntou Karl, confuso.

- Sim, eles voltaram a atravessar a fronteira e, agora que as coisas já estão estabilizadas em Nárnia, Cáspian partiu para os pôr na ordem – explicou Buscatrufas. -Ripitchip e Trompkim foram a comandar a tropas. Fiquei eu na Regência.

- Bem, o assunto também não é de muita pressa. Fazes-me o favor de dar um recado meu ao rei? Sim? Obrigado. Então é assim: a Oeste estende-se um Labirinto onde Carquilhos – ele certamente sabe o que são – exercem práticas terríveis de morte e tortura. Peço para que ele trate do assunto o mais depressa que puder e que pode contar com o apoio das gárgulas.

- Darei o recado – assegurou Buscatrufas. – E este Filho de Adão e esta Filha de Eva?

- Julgo que Aslan os enviou do mesmo mundo dos Grandes Reis Irmãos. Não sei com que propósito, mas achei melhor traze-los para aqui.

- Fizeste bem, fizeste bem... os propósitos de Aslan podem ser obscuros, mas são sempre justificados. Entrem, Filho de Adão e Filha de Eva. Devem estar cheio de fome. Também não querem entrar? – acrescentou para as gárgulas.

- Não, não, obrigado – recusou Joseph. – Temos de ir treinar para a Corrida Aérea, não é assim rapazes?

- Sim!

- Claro!

- Evidentemente!

- Veremos...

- Estraga prazeres.

- Pessimista.

- Agoir...

- Vamos deixá-los e entremos – murmurou Buscatrufas, ao que as crianças acederam de imediato. – Então, que faremos com vocês? – perguntou já no interior do palácio. – Quando encontrámos Cáspian e descobrimos quem ele era, soubemos o que fazer... Os centauros mais do que ninguém. Mas agora... Com o rei Cáspian a governar e sem qualquer perigo à vista, não sei. O melhor é manter-vos aqui até o rei chegar. Ou até Aslan vos vir buscar, quem sabe? Seriam umas crianças muito sortudas se isso acontecesse. Mas sentem-se, sentem-se. Não deixem a comida arrefecer.

- Porquê é que alguns de vocês chamam Leão a Aslan? – perguntou David, sentando-se na mesa da sala de banquetes e esticando o braço para umas costeletas de cabrito não-falante. Kim observava tudo de olhos esbugalhados, quase se esquecendo da fome que tinha. Quase.

- Ora, porque ele é um Leão, claro! – esclareceu Buscatrufas. – Ou pelo menos aparece sob a forma de um.

- Não quero que um leão me venha buscar – resmungou Kim com a boca cheia de um pastel de carne de veado não-falante. – Quero ir para casa!

- Isso é Aslan quem decide. Mas não nos demoremos mais com conversas. Vocês estão cansados e ainda têm de tomar um bom banho antes de irem para os vossos aposentos.

- Aposentos?

- Sim, Filho de Adão, achavas que ias dormir numa toca? Isso estaria muito bom para mim ou para um Coelho, mas não me parece que fosse bom para ti.

No fim da refeição (em que tanto David como Kim comeram como não o faziam desde que tinham deixado o seu, ou o nosso, mundo), David ofereceu-se para lavar a loiça, como tinha feito com Casca de Árvore, mas, mais uma vez, lhe disseram que não e mandaram-no acompanhar uns serviçais (os primeiros humanos que David via). Kim foi levada, sem protestar (o que era uma coisa realmente rara), por um grupo pequeno de jovens donzelas. Buscatrufas acompanhara David.

- Se precisarem de alguma é só chamarem – ofereceu Buscatrufas, antes de David entrar no quarto. – Os Filhos de Adão e as Filhas de Eva são sempre muito bem vindos a Cair Parável. É a eles que Aslan destina as tarefas mais perigosas e importantes. As Crónicas mais conhecidas são sempre sobre Filhos de Adão e Filhas de Eva. A minha favorita é da Menina Polly e Menino Digory que voaram no primeiro cavalo-alado de Nárnia até... Ah, mas vejo que estás com muito sono para ouvir velhas histórias e eu ainda tenho que tratar de alguns assuntos da Regência. Eu bem avisei que o Trompkin ficava muito melhor na Regência do que eu, mas o rei é tão teimoso! Amanhã, se tivermos tempo, contar-te-ei algumas das histórias mais belas de Nárnia. Por hoje, dorme bem.

David teria ficado muito agradecido se pudesse ter dormido nessa noite mas, como já se estava a tornar hábito, isso não aconteceu. Não tivera ainda tempo de tirar as roupas quando lhe pareceu que a cabeça de leão esculpida por cima da lareira se mexera. David podia jurar que a tinha visto a piscar os olhos, e pôde confirmar isso quando a cabeça se moveu de forma a ter um ângulo de visão melhor sobre o rapaz. Não demorou muito, poder-se-ia até dizer que não demorou mesmo nada, a descobrir quem era o dono da cabeça.

- És Aslan, não és? – perguntou, aproximando-se mais da lareira.

- Sou e não sou – respondeu a cabeça numa voz que o fez sentir maravilhosamente calmo e reconfortado. Percebia agora porque Avelã tinha dito que não era fácil explicar quem era Aslan. Aslan não se explicava, sentia-se. – Um dia ver-me-ás como realmente apareço aos de Nárnia, mas não agora. Agora tenho uma missão para ti.

- Ah, o Buscatrufas disse que seria muito sortudo se me viesses buscar...

- Isso depende do ponto de vista – interrompeu Aslan sem parecer tê-lo feito (não sei se já alguma vez isso vos aconteceu, mas asseguro-vos que faz com que uma pessoa não pareça nada antipática por estar a interromper a frase de outra). – Já dei missões a outras crianças e não costumo obrigar ninguém, apesar de nunca lhes ter perguntado. Mas contigo vai ser diferente porque vais dar o que seria considerado pelos tolos como um pouco mais do que elas deram. Por isso tenho de te perguntar: aceitas a missão que te incubo?

David queria aceitar a missão. E aceitou-a. Mas não pode deixar de sentir que mesmo que não quisesse, teria dito que sim, pois bastar-lhe-ia olhar nos olhos meigos e sérios de Aslan para passar a desejar a missão.

- Óptimo – limitou-se a responder Aslan. - Aproxima-te do fogo para que possas partir. Não tenhas medo, não te irá queimar.

- E a Pearl?

- A Kim tem o seu próprio papel. Conto a cada um apenas, e unicamente, a sua própria história. Agora vai, meu filho, e nunca temas.

E, com um rugido do Grande Leão, as labaredas da lareira aumentaram de tamanho rodeando David, sem o queimar, e levando-o numa rápida e estranha viagem para o desconhecido.

Mas afinal, qual é a missão?, pensou ainda o rapaz antes de perder completamente a noção do que passava em seu redor.


Fayra Lee: Mais Aslan . Ele é a personagem que mesmo sem aparecer está sempre presente. Eu já disse que gosto mt do "nome" Fayra? Especialmente da escrita do mesmo;P. Vivam as gárgulas! Bjs