– Hades?
– Pai... – ergueu a cabeça ao ouvir o chamado do rei. Tinha certeza de que o pai havia o entendido, de que seria perdoado – O senhor veio me soltar, não é isso? Já estava cansado de ficar na mesma posição...
– Não, não vim lhe soltar! – declarou bruscamente. – Eu vim para ajudá-lo, vim para evitar uma tragédia.
– O que o senhor quer dizer com isso? – perguntou com insegurança, tentando soltar-se dos grilhões que lhe prendiam. Sentiu o clima tenso no ambiente e previa que algo de muito ruim iria acontecer. – Pai, me escute! Não é o que o senhor está pensando... Eu...
O jovem não conseguiu terminar de falar. Foi amordaçado por Radamanthys, um soldado loiro cujos olhos dourados confundiam-se com os de uma fera selvagem, denunciando o lado cruel que ele não tinha medo de deixar transparecer. Era considerado o mais fiel, mas o mais frio de todos os guerreiros.
O soldado aproveitou para soltar os pulsos do jovem à sua frente e juntá-los novamente em frente ao corpo do prisioneiro. Hades debateu-se, dificultando a retirada das correntes em seus pés, que também seriam unidos posteriormente. A luta era desigual, visto que o soldado tinha 1,89m de altura, era treinado para ser um exímio guerreiro e caçador, não tinha medo da morte e não se importava com as lendas a respeito do príncipe.
– Vamos transferi-lo para o seu novo aposento. Ainda não será o definitivo, mas... – informava o rei, que teve dificuldade em concluir a frase. – Evitará que você nos mate.
O rei fechou os olhos e, num gesto ensaiado, Radamanthys deu um golpe certeiro. Foi apenas o suficiente para deixar o rapaz desacordado. Até por que, segundo as orientações de Ares, não poderiam matá-lo. Caso contrário, o mundo dos mortos se vingaria enviando um verdadeiro exército de cruéis assassinos. Alguns iriam surgir em forma de criança, outros se instaurariam no corpo de jovens, adultos e até idosos com o intuito de confundir a população e iniciar a era do verdadeiro caos. O dia viraria noite e o sol nunca mais brilharia no céu. As trevas viriam diante muita nuvem, trazendo frio, medo e... morte!
O único meio de evitar a tragédia seria mantê-lo em algum lugar fechado, longe da sociedade e do contato com a luz solar. Hades era um monstro e deveria receber o tratamento adequado! Por mais que pensassem, só haviam encontrado uma forma de garantir todas essas exigências, mas seria necessário o aguardo de um pequeno período de tempo para que as obras fossem concluídas. A solução era simples: mandá-lo pro Inferno, trancando-o no mais profundo subsolo do castelo de tal forma que ele jamais pudesse sair.
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– Finalmente o encontrei...
– Não precisa ficar me cobrando... Se ainda não percebeu, não estou aqui por livre e espontânea verdade. O que veio fazer? – perguntou irritado, dando uma pausa para molhar os lábios – Veio atormentar a minha vida?
– E depois eu sou o vilão da história... – comenta o visitante, num suspiro longo. – Eu vim em nome do mestre Shion. Ele pediu para que eu lhe avisasse que, graças a você, a Helena finalmente conseguiu seguir seu caminho.
Hades fechou os olhos e sorriu.
– Também autorizou que eu viesse pedir ajuda... junto de um amigo meu. – desviou a atenção para uma outra direção – Posso chamá-lo?
– Claro! Já que eu não posso mais sair, pelo menos me distraio. Portanto, fique à vontade, Máscara da Morte.
– Pode vir... Eu avisei que o garoto era bem disponível, que não precisava ter medo... Afrodite.
Um homem esguio, de faces afeminadas, longos e cacheados cabelos loiros e olhos azuis-piscina aparece ao lado de Máscara da Morte. O sinal abaixo de seu olho esquerdo dava-lhe um charme especial. Suas vestes pertenciam a algum nobre: talvez um duque, um conde...
– Bom dia, vossa majestade! – ajoelha-se respeitosamente diante do príncipe – Meu nome é Afrodite e... ao contrário do que parece... sou um rapaz.
– Ahn... Er... Bom dia! Seja bem-vindo, eu acho. – declarou um pouco confuso. – Em que posso ajudá-lo?
– É difícil ter que pedir algo ao príncipe... – Afrodite declara, ainda cabisbaixo.
– Por favor, Afrodite... não precisa se portar dessa forma. Olhe o estado em que me encontro! Acho que nem sou mais o príncipe dessas terras.
– Desculpe, lord Hades! – levanta-se, ainda cabisbaixo.
– Pelo que entendi, o Máscara da Morte não lembra do próprio passado... Só sabe que trabalhava como algoz e decepava a cabeça dos condenados pela Santa Inquisição. Agora... você parece ser de origem nobre. Tem porte e traja-se como um!
– Pois engana-se! Eu sou apenas um plebeu. – confessou ainda constrangido – Como eu sempre me consideravam muito belo, fui criado para ser confundido com uma menina... Quando fiz 16 anos, o meu pai me vendeu para um conde, que sabia que eu era um homem! Mesmo assim, ele me forçava a fazer coisas que eu não queria, mas não tive coragem de cometer suicídio. – declara, deixando transparecer em seus belos olhos toda a sua mágoa e o seu asco – Então... golpeei o filho dele no ombro esquerdo. Não queria matá-lo e sei que não o matei, mas... felizmente, o conde acabou achando que eu fosse um perigo. Por isso, mandou que seus homens me dessem uma surra e me deixassem ao relento.
– Naquela noite estava caindo uma forte tempestade e o Afrodite não resistiu. Não pude fazer nada para evitar a fatalidade, pois... eu já não podia ser considerado humano.
– Não posso fazer muita coisa para ajudá-los, apenas dar um conselho. Afrodite, Máscara da Morte... arrependam-se sinceramente de seus crimes, perdoem aqueles que lhes ofenderam, libertem-se das mágoas que ainda lhes prendem a esse mundo e sigam seu caminho em paz. – declarou Hades, num discurso calmo. Em seguida, começou a rezar. Não se prendia apenas ao que aprendera com a Igreja, mas se guiava pelo que o seu coração mandava.
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– Saga, você tem certeza de que esta seja a única forma de ajudar o meu filho?
– Eu não queria ter que prendê-lo, mas... os boatos já chegaram aos ouvidos de Sua Santidade, o Papa. Você sabe que, além do preconceito das pessoas, ainda tem a Igreja... Se eles queimaram a sua esposa viva p-por... – o Sumo Sacerdote sente uma pontada na cabeça, impedindo-o de terminar a frase. Ele cai de joelhos no chão, gemendo de dor.
– Saga? Saga... – chama o rei, preocupado. Sabia que essas crises eram comuns, mas não conseguia acostumar-se àquela cena. Levantou-se, abriu a porta e ordenou a alguns servos que estavam à sua espera – Levem o meu convidado para descansar em seu aposento!
– Não... Não precisa! – declarou o outro, levantando-se. – Só preciso de um pouco de vinho...
– Valentine, você servirá Ares enquanto ele estiver em meu castelo. – falou para um jovem servo de rebeldes cabelos ruivos e olhos esverdeados – Lhe fará companhia e garantirá que ele não venha a passar por nenhuma necessidade. Agora vá! Traga um jarro com o meu melhor vinho e duas taças para que possamos nos servir. – exigiu com descaso e fechou a porta.
– Continuando a nossa conversa, acredito que Hades não tenha condições de assumir um compromisso de casamento. – declara e um brilho avermelhado revela-se nos orbes azuis – Na verdade, creio que o melhor seja garantir que ele não venha a ter descendentes... Segundo a lenda, não podemos matá-lo, pois seria pior. Entretanto... – geme, diante de uma nova dor, mas prossegue. – Temos que evitar que ele destrua o mundo. O primeiro passo é deixá-lo estéril para evitar que ele produza uma legião de demônios, o segundo é cancelar este casamento e o terceiro... é lacrá-lo o mais urgentemente possível.
– Estou ciente de tudo isso e lhe garanto que, em no máximo 6 meses, conseguiremos nos livrar dessa maldição. E pensar que eu sempre acreditei que Hades viesse a ser um grande imperador... – suspira – Acho que era o seu lado demoníaco tentando ganhar a minha confiança, mas ninguém subestima a minha inteligência e sai impune...
– Deus abençoará essa casa e essas terras novamente. Tudo voltará ao normal... – garantiu o Sumo Sacerdote, mordendo o lábio inferior. – Se me dá licença, vou ao meu aposento. Mande o vinho para lá...
– Fique à vontade e cuide da sua saúde! Se precisar de alguma coisa...
– Eu aviso! – declara e sai sem olhar para trás.
O Sumo Sacerdote tinha muito o que pensar, muito o que refletir. O jogo estava ficando perigoso demais e o solo tornava-se cada vez mais frágil sob seus pés. Não demoraria para que as verdadeiras investigações fossem feitas, para que a Igreja interferisse e para que seus sonhos se esvaíssem diante de seus olhos. Sua briga interna entre bem e mal o estava levando ao fracasso. Depois de tanto estudo, tanta pesquisa e tanto esforço... Ares tinha vencer!
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– Adeus, lord Hades e obrigado pela ajuda. – Agradeceu Afrodite, novamente ajoelhando aos pés do príncipe.
– Seu caminho será muito longo e árduo, mas... você tem que ser forte. – declarou Máscara da Morte. – Muitos virão pedir ajuda, mas...
– E quanto a mim? Vocês sabem o que o meu pai irá fazer comigo? Podem ao menos me dizer se poderei voltar ao meu quarto ou para onde eu serei levado?
– Infelizmente não temos respostas. Somos apenas o que as pessoas chamam de almas, fantasmas. Não temos um corpo físico e não podemos prever o futuro... – declarou o romano – Além disso, nosso tempo acabou. Eu e Afrodite precisamos continuar nossos caminhos.
– Eu... entendo. – virou o rosto para outro lado, um pouco decepcionado com a resposta. – Vão em paz!
– Nunca esquecerei o que fez por nós. Foi o primeiro a me aceitar como sou e me dar uma nova oportunidade. Rezaremos e tentaremos interceder por ti, milord! – declarou Afrodite, levantando-se com um meio sorriso. – Obrigado.
Uma forte luz iluminou Máscara da Morte e Afrodite, que começaram a caminhar em sua direção. Sabiam que aquilo não significava que iriam alcançar o Paraíso, mas seriam julgados e poderiam descansar em paz. Não tinham medo do que estava por vir e estavam dispostos a pagar por todos os erros que cometeram em vida, pois agora tinham a bênção de Hades.
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– Lord Hades, trago boas novas! – Hanna anunciava com um largo sorriso.
– Que notícia pode deixá-la tão alegre, Hanna?
– Vosso pai mandou que o levassem novamente para o seu próprio quarto... Serás examinado por um médico.
– Verdade?
– Sim. Deus seja louvado! Rezei tanto para que ele desistisse dessa idéia absurda... – sorria a cozinheira – Depois de seis longos dias ele finalmente caiu em si.
– Não sei... acho que isso ainda é muito suspeito! – declarou sir Shura, analisando a situação.
– Hanna, busque algo para beber... preferencialmente, algo doce.
– Sim, vossa alteza. – cumprimentou a mulher, saindo logo em seguida.
– Estava perdido pelo castelo, sir Shura?
– Hunf! – rosnou, cruzando os braços – Estava ocupado com outras coisas...
– Com o quê, por exemplo? – perguntou desconfiado.
– Com as investigações. Eu já sabia que Ares não era confiável, mas depois de tudo o que ele lhe fez... Sinto que tem algo errado nessa história.
– Antes de prosseguirmos... Você é um homem morto?
– Sim. Morri em batalha há pouco tempo atrás... Uma batalha comandada indiretamente pelo próprio Ares, o Sumo Sacerdote deste reino, e desde então venho buscando respostas.
– Entendo... Isso significa que precisaremos tomar cuidado em nossos encontros.
– Não se preocupe. Sou um homem sensato e por isso demorei a retornar. Não queria que vossa alteza ficasse em uma situação ainda pior...
– Obrigado, sir Shura. És um bravo homem! Agora, o que tem a me contar a respeito de Ares?
– Não muito... Ainda faltam muitas peças do quebra-cabeça e eu não gostaria de fazer nenhum julgamento precipitado, pois se eu estiver certo... – falou com extrema seriedade e respeito, virando-se bruscamente na direção da porta.
– O que foi?
– Está vindo alguém. Depois eu continuo. Se me dá licença... – pediu, de joelhos e com a cabeça abaixada.
Hades respondeu com um gesto de cabeça e permaneceu mudo. Não sabia quem estava vindo, mas precisava preparar-se para receber da melhor forma possível.
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– Lord Poseidon? O que o traz aqui? – perguntou um assustado servo.
– Soube que meu irmão está precisando de ajuda. Onde ele está?
– Está preso no próprio quarto. Acabou de voltar...
– Ótimo! Vou lá... e não quero ser incomodado. – afirmou.
– Deseja que eu avise vossa majestade a respeito de sua chegada?
– Não. – respondeu sem olhar o servo.
Poseidon partiu rumo ao quarto do irmão. Saíra do castelo há cerca de um ano para assumir um compromisso de casamento e nunca mais havia voltado. Culpava-se por ter abandonado Hades nas mãos do pai, mas estava disposto a corrigir este erro com o consentimento de sua esposa. Chegou rapidamente à porta do quarto de seu irmão, onde se encontrou com Radamanthys, um soldado que ainda não conhecera ou do qual não se lembrava. Este, por sua vez o encarou com um olhar desconfiado, mesmo ciente de que estava diante do atual imperador de Atlântida.
– Sou Lord Poseidon e desejo ver meu irmão.
– Tens a permissão de vosso pai, o rei?
– Não, mas tenho o direito...
– Então não vai entrar. Fui instruído a só deixar passar quem tivesse autorização prévia.
– Não seja estúpido, soldado! Lord Poseidon não precisa de autorização. – declarou um rapaz de pele branca, cabelos levemente arroxeados na altura do ombro e expressivos olhos rosados.
– Deixe-o, Sorento. Não desejo travar uma batalha aqui.
– Lord Poseidon? – chamou um cavaleiro de cabelos e olhos acinzentados, muito parecido com seu irmão, sir Hypnos.
– Boa tarde, sir Thanatos! Vim visitar meu irmão, mas este soldado disse que não tenho autorização. Creio que devo gastar o pouco tempo disponível do qual disponho para falar com o rei dessas terras, o meu próprio pai... – declarou num tom muito informal, jogando com o cavaleiro que o conhecera desde sua adolescência. Sabia que não devia satisfações ao homem que acabara de chegar, mas tinha esperanças de que ele conseguisse deixa-lo entrar no quarto de Hades antes mesmo que seu pai soubesse de sua presença.
– Não milord! Radamanthys é novo no castelo e só está cumprindo ordens.
– Entendo! Fazem isso com o intuito de garantir a segurança de meu irmão...
– Exato! Se quiser entrar, fique à vontade. Tenho certeza de que Radamanthys terá o maior prazer em servi-lo, não é mesmo? – perguntou com um leve ar de ameaça. Apesar do perigo que o soldado representava, ainda conseguia domina-lo com a promessa de vir a torná-lo um cavaleiro a serviço daquele reino. Era um jogo arriscado, visto que o outro tinha extintos fortemente selvagens, mas foi a única forma que sir Thanatos encontrou de manter o respeito perante o loiro.
– Sim, senhor! – respondeu o soldado, levantando-se e ficando em posição de sentido. Aproximou-se da porta e tocou na maçaneta. – Pode entrar, lord Poseidon.
Poseidon não respondeu com palavras. Apenas executou um discreto aceno de cabeça e entrou no quarto acompanhado de seu servo. Teve cuidado para não fazer barulho, mas arrependeu-se. Não estava pronto para ver e ouvir aquilo!
Continua...
