Olá. Espero que todos estejam bem.
Essa é a quarta parte das seis dessa pequena história. É um capítulo um pouco diferente dos que o antecederam, com mais diálogos e revelações do que a ação dos anteriores. Espero que isso não deixe meus amigos enfadados. Se deixar, peço desculpas, talvez eu recupere o crédito no próximo capítulo.
Só gostaria de lembrar que alguns dos eventos mencionados por Elrohir nesse capítulo fazem parte de outra fic minha chamada A MÃO DO PRÓXIMO GUERREIRO, peço desculpas a quem não leu se a compreensão destes funcionar como uma espécie de spoiler do texto, essa não era a intenção.
Muito obrigada aos que estão lendo e sendo gentis a ponto de deixarem uma review. A motivação do escritor amador é só essa mesmo, mas, pensando bem, o que poderia ter mais valor para alguém cujo passatempo é o uso e o poder da palavra do que outras palavras daquela a quem respeita e admira? Por isso mesmo eu volto e voltarei a agradecer sempre pelos reviews e pela confiança em mim depositada.
Beijos
Sadie
CAPÍTULO IV – O OPONENTE
Opor: dar uma ajuda com obstruções e objeções.
Ambrose Bierce
Elrohir passou aquela semana em reclusão e descanso, como Glorfindel lhe recomendara, sem quase sair da cama e procurando repousar o máximo que podia. Até mesmo as visitas do mestre não aconteceram mais. Aquele encontro após sua vitória sobre o elfo do cais fora o último que tiveram.
"Saia já dessa janela e trate de voltar para a cama, elfinho!" Ele ouviu então uma voz conhecida sua à porta e virou-se surpreso, sem quase acreditar no que via.
"Nana." Seu sorriso se alargou e a mãe soltou um riso agradável quando o caçula a abraçou, erguendo-a no ar. "O que faz aqui? Não posso receber visitas."
"Ao espaço essas regras tolas." Celebrian disse em tom de brincadeira, apoiando a mão no rosto do filho que ainda continuava a portar aquele sorriso maravilhoso que apenas ele e o irmão pareciam ter em todo o mundo. Ela respirou fundo então, "No final do Torneio você pode receber uma visita apenas, uma pessoa que o Conselho indica e que lhe exporá as regras da última disputa." A mãe explicou, acariciando ainda o rosto do filho, passando os dedos levemente pelos hematomas que ainda estavam desaparecendo, pelos cortes quase cicatrizados. "Faz parte das regras. Obviamente eu não era a pessoa mais indicada, mas fiz uma pequena pressão e o Conselho permitiu que fosse eu."
Elrohir riu ainda mais, imaginando o que seria a pressão da mãe, haja vista que boa parte do Conselho era de parentes ou conhecidos do casal.
"Você não os colocou em uma situação constrangedora, colocou, nana?" Elladan foi quem provocou, recebendo a mãe nos braços assim que ela deixou o caçula.
"Ou nos colocou em uma?" Elrohir provocou ainda mais, sentando-se em sua própria cama enquanto Elladan tomava o leito à frente e a mãe sentava-se em uma das pernas do filho mais velho, alisando-lhe os cabelos despretensiosamente.
"Eu? Bem... o que vocês entendem por uma situação constrangedora?" Ela retribuiu a provocação e os irmãos se entreolharam, mas depois se puseram a rir, sabendo que era o que lhes restava, e julgando que, talvez, não fosse de todo ruim não saber quais argumentos a mãe havia usado para convencer o conselho de que ela seria a presença mais indicada naquela última formalidade, antes do duelo final.
"Deixa estar." Eles disseram em uníssono. "É, pensando bem eu não quero saber mesmo." Elrohir completou, contendo o riso.
Celebrian continuou sorrindo. Depois olhou o caçula com atenção.
"Como se sente, querido?"
"Bem. Estou praticamente recuperado. Pode perguntar ao meu curador." O gêmeo respondeu, julgando que a mãe estava fazendo seu papel de fato naquele fim de Torneio, mesmo com o dispensável acréscimo da palavra "querido" no término de sua pergunta e a atmosfera familiar toda na qual se encontravam naquele quarto.
Celebrian riu então, olhando para o filho mais velho e erguendo o queixo altivo.
"Então, nobre curador? O que me diz de seu guerreiro?" Ela aceitou entrar naquele jogo apenas por diversão.
Elladan estufou o peito, contendo o riso.
"Ele foi um bom paciente esses dias, algo que, diga-se de passagem, não acontecerá nos próximos milhares de anos, com certeza." Completou, recebendo do irmão a sua frente um chute certeiro na canela. "Ai!" Queixou-se, lançando um olhar de advertência ao gêmeo. "Na verdade, sou eu quem está para enlouquecer nesse quarto, minha senhora. Melhor seria se meu paciente estivesse de fato acamado e eu pudesse enchê-lo de sedativos e ter alguma paz."
Elrohir riu então e o irmão o acompanhou por um tempo. Celebrian deixou-se ficar observando os filhos, depois de soltar um suspiro de alívio. Estivera preocupada com eles por tempo demais e teria de fato mandado todas aquelas regras ao espaço, se o Conselho não tivesse permitido sua visita. Ela lembrou-se então de que infelizmente não estava ali apenas como mãe.
"Preciso mesmo dizer o que acontecerá amanhã, como é o meu papel?" Ela indagou ao filho caçula a sua frente. "Preciso explicar-lhe as regras, falar sobre os propósitos da prova?"
Elrohir baixou os olhos então, e seu sorriso esmoreceu.
"Só se algo mudou no manual e nos livros que li." Ele disse desgostoso e a resposta um tanto amarga preocupou a mãe.
"Por que não parece tão contente quanto deveria estar, Rohir-nín?" Ela indagou. "Lutou tanto para estar aqui, o povo só fala em você por toda a cidade. Seu pai até recebeu um pássaro vindo do cais que trazia uma mensagem de Lorde Círdan, parabenizando-o pelo filho campeão. Ele até disse que não tinha a menor dúvida de que seria um Torneio difícil, por isso mandara seu melhor elfo."
A mera menção do oponente que enfrentara já empalideceu o rosto do gêmeo e roubou, também de Elladan, os resquícios de alegria. Celebrian olhou os filhos alternadamente.
"Lorde Enel já voltou para sua terra." Ela informou. "Ele foi duramente advertido pelo Conselho e pelo que Lorde Eilafion nos disse, uma punição bem mais severa o aguarda na Cidade Portuária."
Elrohir apertou os lábios, não parecendo satisfeito com a informação.
"A guerra faz das pessoas seres estranhos." Veio de Elladan o comentário. Também ele não parecia satisfeito com o que ouvira. "Eu só posso lamentar por Lorde Enel, pois ele tinha um nome a zelar."
"Bem. Agora tem um nome a recuperar. Eu não lamento por ele." Celebrian foi mais dura do que os filhos esperavam e por isso Elladan e Elrohir se olharam intrigados, antes de se voltarem para a mãe. A elfa loura, no entanto, não parecia disposta a dissertar sobre os muitos porquês que a fizeram dar as costas àquele elfo, antes mesmo dele cruzar os portões de Imladris. Diferentemente do marido, ela nunca fora das mais tolerantes e compreensivas no que concernia à soberba e outros sentimentos, que, por vezes, podiam mover até os melhores guerreiros. Para ela a história, incluindo a de sua própria família, já tinha exemplos o suficiente desses casos, para que ela tivesse uma opinião concreta sobre o assunto.
"Acha mesmo que Lorde Círdan vai puni-lo com rigor extremo, nana?" Elrohir indagou hesitante.
Celebrian olhou surpresa para o filho e assim ficou como que aguardando um complemento que a fizesse compreender o questionamento. Depois, na ausência deste, ela estalou com a língua e deu de ombros, igualmente indisposta.
"É o que se espera de um líder, cujo oficial favorecido mancha o nome dos seus em terras amigas."
Elrohir baixou os olhos e Celebrian pressionou contrariada os lábios.
"Por que se importa, ion-nín? Acha que aquele jogo de guerra foi mesmo justo? O próprio Enel acabou por admitir, depois de interrogado sobre alguns pontos de irregularidade em sua atuação, que chegou a usar a tortura mental para com você. Um dom que de tão raro tem seu uso estritamente proibido, mesmo nos mais duros treinos de batalha. Era mais do que evidente que, apesar de ser um guerreiro dos mais poderosos que já vimos, o espírito do Torneio não estava no coração daquele elfo."
Elrohir continuou com os olhos presos nos dedos das mãos e Celebrian sentiu uma tristeza naquele ambiente que simplesmente não cabia. Ela ficou olhando para o filho por tanto tempo quanto o próprio Elrohir foi capaz de suportar, uma tática que aprendera com o marido e que era infalível, quando havia a necessidade absoluta de roubar do caçula o que estava em seu coração.
"Ele me odiava pelo que eu fiz... há muito tempo... Desonrei-o no passado e agora ele volta desonrado para casa novamente por minha causa."
Celebrian sentiu o queixo cair com aquela declaração e ainda custou uns bons instantes até conseguir verbalizar o que tais palavras lhe despertaram.
"Não teve responsabilidade por isso no passado e muito menos agora, Elrohir!" Ela disse indignada. "Não acredito que esteja se sentindo culpado. Logo você, ion-nín, cujo coração sempre foi dos mais justos, independente de quem estivesse enfrentando."
Elrohir balançou a cabeça e a mãe percebeu que nem para ensaiar uma defesa o filho estava disposto.
"Diga-me que não está se sentindo responsável pelo que aconteceu, Elrohir." Ela pediu então. "Vamos, diga-me o que está sentindo, querido."
Elrohir deu de ombros.
"Ai ai ai..." Ela virou-se então para o primogênito, que fingia distrair-se agora descendo os dedos pelos anéis dos cabelos da mãe. "El-nín?"
"Não olhe para mim... Estou na mesma discussão com ele há dias." Elladan respondeu de imediato, olhando para o irmão.
Celebrian surpreendeu-se, soltando depois os braços inconformada.
"Mas, por Manwë e toda a sua sabedoria. Por quê? Por que, Rohir-nín?"
Elrohir não respondeu, movendo os olhos para a janela.
"Ai esses seus silêncios." A elfa reclamou. "Não me venha com esses seus silêncios ou irei embora antes que meu tempo termine."
O caçula respirou fundo, baixando indisposto os olhos, mas quando a mãe simulou insatisfação, ameaçando sair dos braços do primogênito, Elrohir disse, ainda contrafeito:
"Estou arrependido por ter entrado nesse Torneio."
Celebrian olhou-o intrigada, depois tornou a acomodar-se nos braços do filho mais velho.
"Por causa do que aconteceu com Lorde Enel?" Ela indagou surpresa e dessa vez Elrohir balançou mais violentamente a cabeça, parecendo deixar enfim escapar o que o estava angustiando.
"Por tudo, nana. Desde o começo tudo o que eu ouvia era: Não, Elrohir! É cedo para você, Elrohir! Ainda é cedo, Elrohir! Nem Glorfindel me queria na competição. Ele a trouxera para Imladris porque queria que tivéssemos a oportunidade de vê-la. Mas eu não, eu e meu orgulho enorme, eu não podia apenas assistir, eu tinha que participar."
"Foi campeão! Provou a todos que estava certo."
"Também cruzei um continente quando menino, portei uma arma afiada que não me pertencia e..." Ele ergueu-se então, caminhando angustiado pelo quarto. "E matei... pela primeira vez... alguém... que eu nem conhecia... Tudo porque me julgavam incapaz... Estou sempre prejudicando alguém porque quero provar que sou capaz, porque fico buscando essa aprovação... essa... E pobre de quem estiver no meu caminho, como Lorde Enel esteve duas vezes."
Celebrian desprendeu surpresa os lábios, desde aquele momento difícil de sua infância o rapaz jamais havia mencionado tais fatos novamente. Ela ergueu-se devagar, bastante preocupada agora.
"Rohir-nín..."
"Não vai terminar bem... Eu sei que não vai." Elrohir balançava a cabeça diante da janela. "Não vai terminar bem... Só espero que só eu me prejudique dessa vez... e mais ninguém."
A elfa loura aproximou-se inquieta então, pousando com cautela a mão por sobre o braço do filho.
"O que não vai terminar bem, querido? Do que está falando?"
Elrohir silenciou-se, respirando fundo e Celebrian percebeu que ele continha o pranto agora. Aquilo lhe partiu o coração. Ela voltou-se então para o primogênito que nem sequer se atrevera a se aproximar, continuando a ficar no lugar que tomara para si. Elladan, no entanto, não parecia surpreso com a história que ouvia, ao receber o olhar da mãe, ele apenas balançou a cabeça, igualmente inconformado.
Diante daquele impasse, Celebrian achegou-se ao caçula, envolvendo-o em seus braços, Elrohir tentou se esquivar, como sempre fazia quando estava nervoso, mas por fim deixou-se ficar ali, incapaz de levar sua revolta a um ponto que o fizesse arrepender-se novamente. Seu corpo, no entanto, estava tão rígido quanto uma muralha.
"Eu terei que sair daqui em breve, querido. Se não me disser o que está em seu coração agora, serei obrigada a levar essa dúvida comigo. É o que quer para sua mãe?"
Elrohir fechou os olhos e estremeceu, mas mesmo assim nada disse. Celebrian ainda deu a ele algum tempo, mas depois o soltou, igualmente entristecida. Ela já caminhava em direção à porta quando ouviu a voz do caçula.
"Glorfindel não está aqui..." Ele disse.
A elfa loura se voltou então, um ar confuso estava agora em seu semblante.
"E o que tem isso, querido?"
"Ele tinha que estar aqui... comigo... tinha que estar aqui... É meu mentor."
"Acha que ele não está aqui porque está zangado ou algo assim?" A mãe indagou sem entender, e quando o gêmeo jogou novamente a cabeça de lado em seu sinal mais comum de impaciência, ela acrescentou: "Ele não está aqui porque não pode estar. Sabe disso."
"Não havia nada nos manuais sobre isso. Ele é o meu mentor. Ficou comigo o tempo todo. Nem pudemos discutir a última luta, ele saiu do nosso quarto naquele dia em que eu estava entorpecido por aquelas ervas todas e não voltou mais..."
A elfa loura desceu os olhos pelos traços tristes do filho, antes de acrescentar.
"Você sabe o porquê da ausência dele, Rohir-nín. Ele faz parte dos Alcarinqua. E eles todos estiveram concentrados como você durante essa semana. Faz parte das regras do Torneio. Eles tinham uma decisão importante para tomar."
"Mas ele é meu mentor... Não pode ocupar dois papéis ao mesmo tempo."
"Ele pode... Ele é um Alcarinquallo antes de ser seu mentor. Sua primeira obrigação é para com o seu grupo."
Elrohir soltou um leve bufar, mas depois estremeceu e fechou os olhos por um instante. Quando os reabriu, encostou-se junto à janela, o olhar perdido novamente na paisagem que via, mas o peito ainda arfante de quem está sendo perseguido por uma ideia que não o agrada.
"Ai, querido." Celebrian voltou a se aproximar, cautelosamente dessa vez. O filho parecia tão angustiado como poucas vezes ela o vira antes. "O que mais se passa em seu coração? Que outros pensamentos tristes, além dos que me revelou, está deixando enraizar-se dentro de si? Porque não consigo crer que está assim apenas porque seu mestre não está aqui lhe fazendo companhia." Completou a elfa e quando o rapaz apenas sacudiu a cabeça em silêncio, acrescentou: "Vamos, Elrohir, sua mãe não é adivinha. Não a torture assim."
"É ele... Eu sei que é ele..." Elrohir disse enfim, como se cuspisse aquelas palavras que não queria dizer.
"Ele o quê, querido?"
O gêmeo jogou a cabeça de lado e a mãe percebeu então que ele estava realmente irritado.
"O que tem Glorfindel, Elrohir? Vamos, me diga para que eu possa entender."
"É ele quem enfrentarei amanhã." O caçula disse, ainda olhando para a imagem do dia do qual aquela janela o separava. "Por isso que ele não está aqui. Eu não sou tolo. Ele deveria estar fazendo esse papel que a senhora veio fazer hoje."
Celebrian apertou os lábios.
"Depois de tudo o que aconteceu, é ainda tão importante assim quem você enfrentará amanhã, Rohir-nín?"
Elrohir estalou com os lábios, descontente.
"É claro que é..."
"Por quê? De tudo o que podia prever esse momento de amanhã estava em primeiro lugar. Conhecia tão bem as regras do Torneio. Sabia que esse dia chegaria. Sabia como o evento funcionava."
Elrohir baixou a cabeça, esfregando agora o rosto com as mãos.
"Eu... não queria que fosse assim... Não esperava... Talvez eu mereça que seja... mas eu não queria... não queria que fosse assim..."
"Rohir-nín..." A mão voltou a tocar-lhe o braço com carinho, depois o envolveu devagar novamente, dessa vez o gêmeo cedeu ao carinho recebido, deixando-se abraçar pela mãe e pousando a cabeça no ombro dela.
"Pensei que ele fosse estar a meu lado." Ele lamentou enfim. "E não contra mim. Eu podia ter qualquer outra pessoa lá, desde que ele estivesse comigo... Eu... Eu não quero estar lá sem ele... Eu... Não sei se posso... se sou capaz de estar lá contra ele..."
Celebrian ouviu o desabafo do filho com olhos brilhantes e mesmo depois que Elrohir terminou ela continuou abraçada a ele, acariciando-lhe as costas lentamente, sem nada dizer. Dessa vez foi o caçula a intrigar-se com a ausência de respostas da mãe, julgando que aquele silêncio só fazia ratificar suas suspeitas. Ele buscou então o olhar dela, e prendeu-se nele como se à espera que aquelas órbitas azuladas por si só lhe dessem a certeza que ele nem sabia se queria de fato ter.
Mas a bela elfa apenas ofereceu-lhe seu mesmo sorriso de sempre, depois lhe acariciou o rosto devagar.
"Não pense no pior, querido. Nem tudo tem o significado que lhe queremos atribuir." Ela disse então.
Elrohir voltou a balançar a cabeça.
"Para mim certos significados estão claros demais." Ele comentou desgostoso, soltando-se então da mãe e voltando a se sentar no lugar que desocupara há pouco. Agora que esclarecera a si mesmo os temores que tinha, percebia-se enfim completamente ciente de seu problema, um problema incontornável cuja única solução seria enfrentá-lo de frente, por mais que ele não desejasse fazê-lo. "É meu castigo... eu sei que é." Ele disse inconformado, soltando a cabeça para frente.
Celebrian ficou observando o filho agora, sentado em sua cama com a atenção presa nas próprias mãos, como era seu costume quando percebia que estava em uma situação desagradável para a qual a saída não lhe cabia. Ela ainda deslizou as pupilas claras para o primogênito, de quem a resposta foi apenas um sutil arcar de sobrancelhas e um mover de ombros, antes de voltar a analisar a figura do caçula.
"Acho que minhas instruções sobre a prova de amanhã não são tão dispensáveis assim." Ela disse então. "Acho que devo mesmo lembrá-los do porquê dela, que devo dissertar sobre os desafios do avaliado, da importância da escolha sensata do adversário, do porquê do grupo de escolhidos ser composto por pessoas de valor para quase todos os guerreiros que participam do Torneio."
"Por mim posso dispensar tal discurso." Elrohir torceu os lábios e Celebrian percebeu a mudança do tom do filho. Aquilo era tão próprio do confuso caçula, partir da agressão a si mesmo para a agressão ao próximo apenas porque não queria compreender ou aceitar a situação na qual estava.
"Pois parece ter se esquecido. Não havia apenas nossos amigos e parentes no Conselho, Elrohir." Celebrian lembrou. "Cada um dos participantes, cada um dos adversários que você enfrentou, tem entre os Alcarinqua alguém por quem seu coração tem afeto e respeito absolutos. Cada um daqueles elfos tem no Conselho dos Gloriosos alguém a quem ele daria tudo em sua vida para não ter que enfrentar."
"Eu sei, nana..." Elrohir disse em tom aborrecido.
"E cada um deles em seu lugar estaria sentado em seus aposentos tendo exatamente a mesma sensação que você, elfinho."
O gêmeo fez um pequeno som de desdém com aquele comentário e Celebrian intrigou-se.
"Acha que não? Acha que o todo poderoso Enel Baradobel a quem você tolamente defendeu há pouco não estaria se sentindo assim?" Ela provocou o filho então. Depois, diante do olhar escurecido que recebeu deste, acrescentou: "O próprio Eilafion está entre os Alcarinqua. Acha que Lorde Enel Baradobel gostaria de enfrentar o capitão-chefe dos Portos ao lado de quem lutou as mais duras batalhas? Acha que para com o elfo que salvou sua vida diversas vezes e a quem deve muito, inclusive a posição na qual está, ou estava no caso daquele infeliz, ele teria coragem de usar as táticas abomináveis e covardes que usou com você, Elrohir? Pense bem. Será que o bom e justo Lorde Eilafion está entre os adversários que o segundo capitão enfrentaria com prazer?"
Elrohir silenciou-se então e seu rosto endureceu como se tivesse recebido um grande golpe. Celebrian aguardou mesmo assim, temerosa do que suas palavras haviam plantado no peito do filho. Conversar com Elrohir costumava ser um problema em algumas circunstâncias, porque o rapaz muitas vezes via nas entrelinhas do que ouvia, significados ocultos que nem sempre elas carregavam.
"É sempre um castigo então..." Ele disse. "Não importa quem seja o vencedor. O prêmio para o campeão é ser castigado."
"Ai." Celebrian sentou-se agora em uma poltrona próxima, e o próprio Elladan deixou escapar um contido som de inconformismo.
Elrohir esvaziou o peito, soltando o ar forçosamente pelo nariz apenas para voltar a respirar fundo em seguida. Ele sabia que estava passando dos limites, começando a fazer um papel que não cabia de forma alguma a um elfo na situação na qual ele se encontrava. Envergonhar-se-ia por certo mais tarde ao se recordar que, na véspera da prova final de um Torneio milenar no qual, inacreditavelmente, conseguira ser o finalista, estava agindo como um elfinho malcriado.
O problema era que simplesmente não conseguia se conter.
"Droga... Eu não posso... Eu... Eu não quero enfrentar Glorfindel." Ele admitiu enfim e seu tom ganhou novamente aquela tristeza legítima que preocupava a mãe. Celebrian reabriu os olhos que fechara e voltou-os para o caçula.
"É só uma luta, querido. Não terá valor algum para o Torneio. É apenas uma apresentação na qual os Alcarinqua querem testar seu campeão. Ninguém espera vê-lo vencer a luta, apenas querem analisar seu comportamento em uma situação extrema."
Elrohir baixou os olhos novamente, depois balançou a cabeça.
"Acho que estou de volta ao início, não estou?" Ele indagou, esfregando nervosamente as mãos por sobre as pernas. "Acho que ninguém espera mesmo que eu ganhe... Eles só vão lá para me ver perder..."
"Sim, é claro. E para apreciar a oportunidade de ver um Alcarinqua lutar." Celebrian adicionou, tentando trazer de volta o agradável tom provocativo que usara para embalar o início da conversa ao chegar.
Elrohir voltou a torcer os lábios com a provocação, mas depois largou os ombros com um suspiro e soltou um riso fraco.
"Menos mal..." Ele disse. "É melhor surpreender do que decepcionar..."
Dessa vez foi Celebrian a soltar um suspiro fraco.
"Acho que você já surpreendeu o bastante para decepcionar alguém, querido." Ela disse, vendo que já era passada a hora das brincadeiras e advertências. "Todos nós estamos orgulhosos, Rohir-nín e assim continuaremos nos sentindo, independentemente do resultado de amanhã."
Os lábios do gêmeo se ergueram em um leve sorriso, que para a mãe bastou, pelo menos para aquele momento. Ele tornou a olhar pela janela um instante, antes de voltar-se para ela mais uma vez.
"Acha que tudo continuará sendo como era mesmo assim, nana?"
"Tudo o que, querido?" Celebrian indagou confusa.
"Tudo... Acha que se Glorfindel e eu duelarmos como oponentes de fato... Se tivermos que usar de nossas armas e técnicas como se fôssemos inimigos... poderemos... depois..."
"Ai, querido." Celebrian ergueu-se então, apressando-se em sentar-se ao lado do caçula e segurar-lhe a mão. Só agora compreendia a apreensão do filho e aquele entendimento fazia seu coração voltar a doer. "Que tolice é essa?" Ela indagou com um sorriso. "Glorfindel o ama, assim como todos nós. Nada pode mudar isso."
Elrohir engoliu em seco aquela resposta, pensando que acreditar nela era quase tão difícil quanto acreditar que suas pernas não tremeriam naquele campo na manhã seguinte.
"Está mesmo arrependido, Rohir-nín?" A mãe indagou então.
"Arrependido do quê?"
"De ter se inscrito? De ter vencido? De ter que estar lá amanhã por causa disso?"
"Não sei..." O gêmeo soltou um suspiro triste. "Acho que só terei essa certeza amanhã, depois que tudo isso houver enfim terminado."
Celebrian suspirou também e ainda trocou com o primogênito um olhar carinhoso antes de voltar a analisar o semblante do caçula.
"Nem tudo é o que parece ser." Ela repetiu então. "Você verá. São nos momentos que mais nos julgamos senhores da verdade e do destino, que o verdadeiro senhor da sorte costuma nos pregar algumas peças."
&&&
Apesar da véspera de alegria e sol, o dia da competição final amanheceu disfarçado em um manto cinzento e provocativo. Elrohir manteve os olhos escuros e preocupados voltados para o céu, enquanto cruzava o pátio em direção ao campo de provas. Ele e o gêmeo mais velho trocaram então um olhar por sob os pesados mantos idênticos que cada qual usava para se cobrir.
"A chuva pode vir a ser um problema." Elladan comentou. "Acha que ada permitirá que o tempo adie mais essa disputa?"
"Eu sei lá... Não sei de mais nada." Elrohir tornou a olhar para o céu, antes de chegarem enfim ao lugar das provas. Estava bastante cedo e nenhum elfo ainda havia chegado. Os gêmeos decidiram estar lá já com o raiar do dia para tentar fugir um pouco do tumulto esperado para as próximas horas. Elrohir sentou-se em um dos bancos que ficavam nas laterais do campo, mas não tirou a capa nem o capuz, não parecia disposto a ser reconhecido tão cedo.
Elladan colocou sua bagagem em uma mesa próxima, abrindo-a apenas para verificar pela enésima vez se havia lá tudo o que poderia precisar. Também ele optara por manter-se sob o capuz acinzentado, respeitando a necessidade de anonimato do gêmeo.
"Como está a perna?" Ele indagou, dando uma olhada rápida para o irmão.
Elrohir deu de ombros e essa foi sua única resposta, o rosto ainda escondido no enorme capuz. Ele estava realmente nervoso e aquela sua indisposição para responder a qualquer questionamento era uma prova mais do que clara disso.
E Elladan, como sempre fizera, respeitou a necessidade de silêncio do irmão, abstendo-se, também ele, de dirigir-lhe a palavra. Uma vez tendo tudo em ordem, o primogênito ainda ensaiou outros procedimentos, mais informais do que necessários, como andar pelo campo em busca de algo no chão que pudesse ser prejudicial à disputa, checar a direção do vento, sentir a temperatura, tudo apenas para ganhar tempo; depois se achegou devagar e acabou sentando-se ao lado do calado caçula, cujo semblante continuava inexpressivo, o olhar perdido, a cabeça um pouco inclinada para frente.
Elladan deixou-se ficar, até que, passados alguns instantes, buscou encostar-se um pouco mais, seu braço tocando sutilmente o do gêmeo. Elrohir fechou os olhos com aquele toque e assim os deixou, sentindo a presença do irmão, como este desejava que fosse. O caçula pendeu um pouco a cabeça em seguida, apoiando-a no ombro do mais velho que o envolveu enfim com o braço, permitindo-o ficar ali por quanto tempo precisasse.
Elrohir não imaginava que, uma vez na posição pelo qual tanto ansiara desde que havia tomado ciência do Torneio, aquela fosse ser a sensação que teria em seu peito. Não. Nada fora como ele havia desejado, ao contrário do que previra em seus devaneios de sucesso, ele não estava nem próximo de ter em seu peito a emoção que julgava que deveria estar lá em um instante como aquele.
Elladan acariciava-lhe o braço, murmurando uma canção que o gêmeo curador particularmente gostava de cantar. Ela falava sobre o mar, sobre cruzá-lo e ir para casa encontrar aqueles a quem se amava. Elrohir fechou os olhos, deixando-se invadir pelo tom agradável da voz do irmão, pelos desejos que aquela canção refletia e que não eram dele, eram apenas de Elladan, mas que o caçula gostava de ouvir mesmo assim.
E ali permaneceram quase imóveis, até que aquele campo ficou tão cheio de pessoas que o próprio Elladan não acreditou. Elas foram chegando com seus cânticos e risos, trazendo cestas e harpas. Algumas se posicionaram em um canto qualquer e se puseram a desenhar, enquanto o evento não começava. Outras se sentaram em pequenos grupos e cantarolaram e riram, aparentando empolgação e alegria.
Ninguém parecia tê-los reconhecido ali, ou se o haviam feito, procuraram dar-lhes também o tempo e a oportunidade para fazer o que naquele instante estavam julgando ser o melhor.
Por aquilo Elladan foi grato. Pela disposição de seu povo ou talvez pelo puro jogo de sorte ou acaso ou ambos que o destino fizera e que a eles viera a favorecer.
O alvoroço só se iniciou quando, pelo meio da multidão, eles começaram a surgir: Mantos azuis, deslocando-se devagar pelo povo ali presente. Eram muitos e pela primeira vez estavam todos juntos e vestidos a caráter. Até aquele dia ninguém tinha certeza de seus nomes ou títulos de fato, e o grupo formara-se na mente da população local e convidados apenas através de especulações. Somente naquele momento do Torneio, seria revelado quem fora escolhido para compor tão valoroso grupo de guerreiros.
Sim, seria a primeira vez que se apresentariam.
Eram eles: Os Alcarinqua...
Elrohir levantou enfim a cabeça e ele e Elladan ainda se entreolharam e custaram a se erguer. Só então alguns pareceram descobrir quem eram as enigmáticas figuras, escondidas em seus capuzes e mantos acinzentados, que estavam ali desde o início da manhã. Porém, apesar dos olhares para o campeão do Torneio, a emoção e a expectativa foram tão fortes que qualquer outro som, que não os passos suaves daqueles misteriosos elfos, entrando enfileirados e posicionando-se no campo de provas, pareceu não ter espaço.
O grande grupo dos Alcarinqua tomou então o centro do lugar e todos se curvaram em uma saudação, que despertou aplausos dos presentes. Um dos recém-chegados enfim deu alguns passos e se posicionou mais próximo do público. Ele ergueu então as mãos e revelou-se, jogando o capuz para trás e libertando os cacheados, mas muito bem trançados, cabelos louros, arrancando outros aplausos e sons de admiração dos presentes.
"Mae Govannen! Eu sou Glorfindel, senhor das armas das terras do vale e um dos conselheiros da regência de Imladris." Ele disse, aguardando alguns instantes para que o som do público enfraquecesse.
Quando o silêncio possível voltou a preencher o lugar, o elfo louro se virou na direção dos gêmeos, que, apesar de conhecerem as etapas da prova, não tinham ciência do que aconteceria nessa parte final. O que os irmãos haviam estudado sobre o protocolo e sobre as regras do Torneio milenar terminava ali, e o que viria, do início da cerimônia de encerramento em diante, era uma incógnita até mesmo para eles.
Elrohir olhava o mestre atentamente, tentando entender porque Glorfindel fora o primeiro a se revelar. O elfo louro, que até então ainda escondia o corpo por sobre o manto azul adornado em ouro e prata, símbolo do grupo ao qual pertencia, jogou com graça e precisão o braço direito para trás em um belo movimento, e a capa que o cobria enfim dobrou-se por sobre o ombro do elfo, revelando o robe prateado com detalhes em vermelho intenso que o guerreiro usava pela primeira vez...
E a bela espada que Glorfindel jamais deixara de portar, mesmo em dias de paz...
"Muitas razões me trazem aqui hoje." Ele disse com extrema formalidade, seus olhos claros percorrendo o cenário de rostos, alguns conhecidos, outros nem tanto, que tinha diante de si. "Mas meu primeiro e mais sério objetivo dessa manhã é apresentar-lhes com orgulho e satisfação, meu pupilo, cuja habilidade o trouxe até aqui." Ele completou, sacando a longa espada de sua bainha e erguendo-a para o gêmeo mais novo. "Recebam, por favor, Elrohir, filho de Elrond Perendhel. Campeão do Torneio de Imladris!"
Apesar de ciente de que haveria toda uma formalidade naquela ocasião, Elrohir estremeceu diante do inacreditável som de exaltação e alegria que aquele público foi capaz de produzir. Ele ficou estagnado, sem saber realmente o que fazer, ou desejar de fato fazer qualquer movimento, mesmo com todo o alvoroço que por certo motivaria outro guerreiro campeão em seu lugar. Aqueles momentos ritualísticos eram o que mais o constrangia, ele disputaria trezentas e trinta e três lutas para não ter que participar de cerimonial algum.
Entretanto os olhos claros de Glorfindel estavam voltados para ele. E o guerreiro oferecia-lhe uma das maiores honras, saudava-o com a espada erguida. Ele precisava se mover e fazer seu papel ou decepcionaria alguém por quem preferia ter uma mão amputada a causar mais qualquer desapontamento. Mesmo assim, Elladan ainda precisou dar-lhe uma pequena cutucada, para que o rapaz se conscientizasse enfim de que sua vergonha começaria mais cedo do que ele imaginava, se não fosse capaz ao menos de mover os pés na direção do mestre. Ele jogou então o capuz para trás e seu rosto pálido surgiu pela primeira vez naquela manhã, trazendo novas ovações.
Glorfindel acompanhou os passos firmes do pupilo, parecendo satisfeito. Um sorriso discreto estava em seu rosto e olhá-lo fazia, para o gêmeo, com que o dia parecesse menos escuro. Quando ele enfim estava a passos suficientes do mestre, este moveu a cabeça, estranhando perceber-lhe a extrema palidez.
"Está nervoso, elfinho?" Ele provocou em um tom que só o rapaz poderia ouvir. Em outra situação, Elrohir o amaldiçoaria por ter a coragem de chamá-lo daquele jeito e atentá-lo assim em uma situação como aquela. No entanto, a única resposta que lhe ocorreu ao invés disso, foi balançar a cabeça, como se de fato fosse mesmo um elfinho assustado.
Glorfindel riu, guardando enfim a espada, e Elrohir ainda ficou olhando a arma do mestre por um tempo, não conseguindo deixar de se perguntar se seria ele de fato seu adversário. Mas, se fosse, porque não estava em armadura ainda? Não houve porém, tempo ou oportunidade para qualquer outro questionamento. Glorfindel virou-se para o grupo que o aguardava e endireitou-se ainda mais, fixando seus olhos nas pessoas ali presentes.
Elbereth, Elrohir ainda pensou, seu mestre tinha mesmo algum estranho poder, pois o silêncio se fez sem que ele precisasse dizer uma palavra ou fazer qualquer gesto. Bastou sua mera atenção e diante dele restavam apenas rostos curiosos e atentos.
"Nessa manhã, apesar de pertencer ao grupo o qual hoje acompanho, tenho dele a autorização para tomar o lado de meu pupilo nessa disputa final, pois ainda sou seu mentor." Ele disse e alguns murmúrios de excitação começaram a surgir. O comentário também deu ao coração de Elrohir uma inesperada energia, mesmo ele não tendo certeza se o havia compreendido bem. Ele soltou os lábios surpreso, mas depois esvaziou o peito, intensamente aliviado com o que aquela informação inferia. Glorfindel e o gêmeo trocaram um breve olhar e um sorriso ainda mais breve de satisfação, antes do mestre tomar a palavra novamente. "Gostaria que recebessem, por favor, outro integrante de nosso valoroso grupo."
Um novo silêncio de expectativa mal se fez e do meio do conjunto de mantos azulados, outra figura se distanciou das demais. Glorfindel tomou então o lado direito de Elrohir e a aguardou.
O outro elfo deu mais alguns passos e, quando estava a poucos metros da dupla de guerreiros, jogou o capuz para trás, fazendo com que outro rosto conhecido de Elrohir e de muitos dali surgisse. Era um elfo de cabelos acobreados, olhos verdes e porte altivo, cujo semblante parecia refletir a mesma paz das águas por ele tantas vezes visitadas.
"Mára aurë. Meu nome é Eilafion. Sou o Primeiro Capitão de Mithlond e com muita honra apresento-me para ser o juiz da contenda de hoje." Disse o elfo e depois de fazê-lo, voltou-se na direção do gêmeo caçula. "Aproveito a oportunidade que até agora não tive, para declarar minha mais profunda admiração por seu pupilo, Lorde Glorfindel, cujo nome e feitos extraordinários foram incluídos em algumas canções de minha terra há muito tempo, quando seu guerreiro ainda era um menino." Ele completou e só quando Glorfindel apoiou a mão no peito em agradecimento, Eilafion olhou diretamente para o filho mais novo do curador. "Boa sorte, Lorde Elrohir de Imladris. Vejo que sua coragem e competência não o abandonaram nesses anos, muito pelo contrário, cresceram e se fortaleceram igualmente com sua pessoa. Será um prazer assistir a essa disputa e ser dela mediador."
Elrohir trouxe a mão para o peito no mesmo instante, surpreso e tocado com a inesperada declaração, e curvou o corpo em sinal de agradecimento. Depois ficou olhando para o capitão do Golfo de Lune. Era a primeira vez que o via desde que o bom elfo ajudara seu pai e ele a saírem dos Portos sem serem vistos. O gêmeo o viu oferecer-lhe um breve sorriso então, exatamente como fizera naquele dia e que o fez retribuir o gesto de cordialidade, sorrindo também.
Tudo parecia um sonho estranho agora. Era a sensação que Elrohir tinha, uma sensação a qual agora não conseguia classificar como boa ou ruim. Ele era o vencedor do Torneio e era respeitado, inclusive por outros inegavelmente superiores a ele em experiência e conhecimento. Aquilo era mais do que qualquer novato em seus dias de aprendiz poderia sonhar alcançar.
Ele era o vencedor...
E Glorfindel estava ao seu lado...
Glorfindel estava ao seu lado. Mas... se Glorfindel estava a seu lado, quem...
"Não será você." Ele disse então ao mestre, quando enfim a constatação daquela realidade saltou-lhe aos olhos. Quando Glorfindel apenas balançou negativamente a cabeça como resposta, os olhos do gêmeo moveram-se por todos aqueles capuzes azuis, sentindo-se novamente perdido. "Quem então? Quem?"
Antes que Glorfindel respondesse àquele questionamento, se é que poderia fazê-lo, Eilafion voltou ao centro do campo e virou-se para o público. Ele encheu o peito e ergueu a mão direita em direção aos recém-chegados. Só então um deles se deslocou, caminhando por entre os demais mantos azuis e colocando-se igualmente no meio do local de provas.
"Peço, por gentileza, que recebam o desafiador de hoje," Eilafion solicitou formalmente. "O representante do grupo dos Alcarinqua que fechará o Torneio duelando com o campeão."
Elrohir estremeceu, olhando para aquele enigma em intransponível tecido azul. Seu coração acelerava-se agora de uma forma incontrolável e quando a figura ergueu as mãos e jogou o capuz para trás, algo que o gêmeo julgava que pudesse ao menos trazer-lhe alguma paz, nem que fosse a paz da compreensão, Elrohir percebeu que, daquele instante em diante, ele não teria mais percepções nenhuma, pois era como se houvessem roubado-lhe o coração e restasse nele apenas o vazio. Seus pesadelos seriam ainda piores.
"Quel amrum, Eu sou Elrond Peredhel, regente de Imladris. E aqui estou para representar os Alcarinqua nesse Torneio."
Elrohir nem soube dizer se foi a surpresa daquela revelação, ou o assustador som de estupefação que o público fez antes de romper em um caloroso e entusiasmadíssimo aplauso, o que lhe roubou o chão assim. Quando ele deu por si, a mão de Glorfindel segurava com vigor em um de seus braços, trazendo-o de volta a si.
"Força, rapaz!" Ele ouviu o mestre pedir, mas seus olhos já estavam novamente presos naquele par de órbitas acinzentadas, naquele rosto que o olhava sem deixar escapar qualquer emoção. Elbereth, não podia ser verdade.
Seu pai... Aquele era seu pai... Aquele... Aquele era seu pai?
Elrond encheu o peito, olhando para o filho com um rosto endurecido e sem qualquer expressão que pudesse traduzir o que aquele momento significava para ele. O curador deu apenas alguns passos e apoiou a mão por sobre o peito, curvando-se no cumprimento dos que chegam.
"Saudações, campeão!" Foram suas palavras. "Hoje serei seu oponente."
Elrohir desprendeu os lábios alguns milímetros apenas, mas sentiu que o ar que passou por eles estava frio demais. Seu corpo todo estava frio demais e aquele olhar enigmático que recebia, do qual não se lembrava de jamais tê-lo visto antes, também não o estava ajudando a se reencontrar.
Mas ele precisava se reencontrar. Ele precisava se reencontrar. Elbereth, como? Como? Quem era ele? O que viera fazer ali mesmo? Por que, em nome de Mandos estava mesmo naquela situação das trevas? Ele ainda tentou buscar por aquela resposta, tentou buscar o que havia naquele olhar, tentou pensar se seria algo mesmo que realmente se atreveria a tentar decifrar.
Ilúvatar. Estava fazendo o pior papel que já fizera, ele o sabia, sabia o que tinha que fazer, sabia todos os passos, todas as regras, preparara-se por tanto tempo, representara mentalmente aquele dia, incluíra-se nele, traçara os rumos certos para agora... agora simplesmente não conseguir se mexer como se estivesse paralisado... Por quê? Por Elbereth, por quê? Por que se sentia como um elfinho perdido em meio a uma floresta desconhecida? Por quê? Por que se sentia prisioneiro daquele estranho olhar que deveria conhecer tão bem?
Elrohir respirou fundo, e tentou recuperar um pouco de sua integridade, apoiando a mão no peito e lembrando-se de retribuir, ainda que tardiamente, a saudação recebida. Quem sabe se executasse passo a passo o que planejara, viesse a se descobrir em mais um de seus muitos devaneios de vitória, em um daqueles aos quais se entregava com prazer em suas horas vagas, quando apenas sonhava estar ali. Quem sabe... Quem sabe se representasse piamente seu papel descobrir-se-ia em um sonho apenas, um daqueles sonhos arriscados aos quais seu coração rebelde vez por outra gostava de se atirar, e despertaria para uma realidade menos assustadora do que aquela que tinha diante de si.
No entanto, tudo o que sua atitude formal conseguiu foi apenas despertar uma leve sensação de agrado em seu oponente. Pelo menos, aos olhos do gêmeo, os lábios do curador pareceram esboçar uma sombra de sorriso. No entanto, ele não teve tempo para mais nenhuma análise ou conclusão, a mão de Glorfindel passou a puxá-lo sutilmente para o local onde se preparariam. Lá o rosto pálido de Elladan o aguardava.
"Ilúvatar, Dan." Elrohir segurou com força o braço do irmão assim que Glorfindel o fez sentar-se, achando que, devido à tamanha palidez do jovem elfo, ele fosse desfalecer. "Diga-me que é um pesadelo."
"É um pesadelo..." Elladan comentou, virando-se rapidamente para ver o pai sendo ajudado por outros elfos a preparar sua armadura. "Mas acho que o despertar será doloroso."
"Pare de dizer essas bobagens para seu irmão, Elladan!" Glorfindel ralhou, mas ao perceber que os gêmeos estavam tão impressionados com aquele inesperado, ele segurou o braço dos dois com igual vigor. "O adversário improvável, elfinhos!" Ele disse olhando-os alternadamente. "O adversário improvável! Nunca lhes ocorreu quem seria?"
Elrohir ainda olhou novamente para o pai, cuja armadura era checada agora pelo próprio Eilafion. Ele não entendia o porquê, mas aquela imagem despertava-lhe a mesma sensação de estar diante do fantasma de algum de seus antepassados.
"Não entendo..." Ele disse, os lábios ainda trêmulos de nervosismo.
"O que não entende?" Glorfindel indagou, checando as amarras da armadura do pupilo.
"Ada... Ele nunca lutou oficialmente... Eu nem sequer o vi treinar no campo desde... que me conheço por ser pensante nessa terra. A única imagem que tenho dele como... como guerreiro é..." Ele nem conseguiu continuar, pois a cena que tinha guardada na recordação, a qual se referia, era a do pai o salvando de uma fera terrível em um lugar no qual ele jamais deveria ter posto seus pés.
Glorfindel riu um riso nervoso.
"Quem o ouvir dizendo tamanha bobagem vai imaginar então que você dormiu em todas as aulas gastas, por certo, por seu enfadonho mentor com os diversos livros que trazem o nome de seu pai."
Elrohir nem se apercebeu do tom de brincadeira do mestre. Ele continuava a olhar descrente para aquela figura que jamais esperaria ver. Seu pai em vestes de guerra, a mesma armadura esverdeada que fora símbolo do grande exército que enfrentara Sauron e seus aliados na Última Aliança de Elfos e Homens. Seu pai lutara, é claro que lutara, ele era um curador, mas mesmo os elfos da cura jamais deixaram de usar suas espadas quando estas foram necessárias.
"Mas... por que ele aceitou? Por que, Glorfindel?" Elladan parecia igualmente inconformado, sentado com um ar desolado próximo ao irmão. Sua incompreensão e desgosto eram movidos, no entanto, por um motivo diverso daquele do gêmeo. Assim como Elrohir, ele apenas vira o pai com uma arma na mão em situações extremas do passado, nas quais o lorde de Imladris se vira obrigado a defender a família. No entanto, no dia a dia de Valfenda, Elrond jamais fora visto portando arma alguma, nem mesmo em brincadeiras com as crianças, como a maioria dos adultos fazia, tomando vez por outra uma das espadas de madeira apenas para brincar com os pequenos. Elladan sacudiu a cabeça, sentindo escapar-lhe, dolorosamente, a certeza na qual embasara muitas de suas convicções e crenças. "Ele é um curador... não... não podia estar utilizando uma arma assim, ele..."
"Tem certeza que está apto para julgar o que seu pai deve ou não fazer, elfinho?" Glorfindel lançou ao gêmeo um olhar duro dessa vez. "Acha que apenas com uma poção ou unção nas mãos seu pai é capaz de curar alguma ferida ou extirpar algum mal?"
Elladan pressionou os lábios fechados, mas não baixou os olhos, seu rosto ainda guardava a amargura que a incompreensão daquela cena gerara e da qual não conseguia livrar-se. Glorfindel percebeu isso, percebeu que no peito do primogênito do curador ver o pai ali em vestes de guerra poderia ser mais doloroso do que para o caçula, que por si só, já estava enfrentando dificuldades o bastante para aceitar o que o aguardava. Sim. Ele entendia o motivo. Ele entendia a mágoa e decepção intensa que aquela cena inesperada despertara no justo Elladan.
"O que você faria, Elladan, se eu lhe ordenasse que apanhasse a espada de seu irmão e tomasse o lugar dele na luta de hoje?"
"Como assim?" O gêmeo mais velho curvou as sobrancelhas.
"Apenas responda a minha pergunta, rapaz."
Elladan respirou fundo, depois trocou um olhar intrigado com o irmão antes de responder.
"É meu mentor..."
"E?"
"Tenho que confiar em seu julgamento..."
"Mesmo sendo contra suas convicções, você aceitaria o que lhe foi atribuído?"
Elladan dessa vez não respondeu, mas seus olhos se moveram para a direção do pai, cuja concentração absoluta ainda estava nos preparativos da armadura que utilizava. Como se percebesse algo, Elrond retribuiu o olhar com uma seriedade que só veio a confirmar o que Glorfindel estava tentando dizer aos dois irmãos.
"Elbereth." Elladan empalideceu então, sentindo aquela verdade melhor do que gostaria: Não eram apenas eles os incomodados por estarem na situação a que o destino os obrigara. Ele ainda se voltou um instante para o gêmeo, cuja atenção acompanhava o olhar e as conclusões do irmão. Elrohir empalidecera igualmente, mas para ele aquela descoberta ainda tinha sido pior do que conhecer seu adversário para a final. Então seus pressentimentos da véspera não eram tolices como ele chegara a julgar.
Não... não eram tolices... Ele fizera de fato... Ele fizera novamente...
"Elrohir? Elrohir?" Ele ouviu a voz do mestre chamá-lo mais de uma vez e quando deu por si sentia as mãos dele em seu rosto, enxugando as lágrimas que derramava. A figura do mentor sentado ao lado dele, olhando-o com um ar preocupado agora o despertou de vez. "O que é isso, elfinho? A terra não será sacudida por nenhum vendaval, nem muito menos seremos levados pelas águas de Ulmo se você e seu pai duelarem."
Elrohir não respondeu, seu corpo parecia amolecido naquela cadeira, ele apenas olhou para o mestre, que só fez preocupar-se ainda mais.
"Glorfindel..." Chamou, a voz saindo com dificuldades de sua boca. "Não me sinto bem..."
"Deixe de bobagens." O elfo louro apertou-lhe um pouco um dos joelhos, depois segurou com vigor o rosto do pupilo, ao perceber que nem mesmo seu ar e tom austeros o retiravam daquela letargia. "Elrohir, não me envergonhe."
Nem aquelas palavras que teriam movido o orgulhoso Elrohir em qualquer outra situação pareceram fazer efeito, e Glorfindel ainda lançou um olhar preocupado para Elladan, antes de fazer um breve sinal para Eilafion, que já aguardava no centro do campo.
"Preciso de um pouco mais de tempo, por gentileza, senhor mediador." Ele disse, formalmente e o capitão dos portos ainda pousou na figura do abatido rapaz um olhar complacente, de quem entende bem melhor do que se imagina o que estava acontecendo ali. Também ele estivera naquela posição há muitos invernos, igualmente campeão de um torneio, igualmente recompensado com um adversário dos mais improváveis. Eilafion fechou os olhos com a lembrança do dia em que enfrentara seu amigo Gil-Galad, e aquela imagem já foi o bastante para que ele desejasse fazer mais por aquele campeão do que apenas dar-lhe tempo para preparar-se para o inevitável.
"Leve o tempo que precisar, Lorde Glorfindel." Ele apenas disse.
Glorfindel baixou os olhos, forçando o ar a abandonar os pulmões. Elladan fez o mesmo e os dois ainda se olharam, cada qual procurando livrar-se de seus próprios fantasmas. O gêmeo mais velho sentou-se então um pouco mais perto do caçula, passando o braço por sobre seus ombros.
"Vamos, Ro!" Ele pôs-se a fazer o último papel que desejava naquela situação. "Não pode deixar nosso paiesperando. Colocá-lo-á em uma situação difícil se o fizer."
Elrohir ergueu os olhos e encontrou o pai observando-o preocupado do outro lado do campo.
"Vamos lá, elfinho!" Glorfindel tornou a apertar-lhe um dos joelhos. "Você é melhor do que isso. Vá até lá e faça seu pai orgulhoso."
Aquela frase despertou a última reação esperada pelo mentor. O corpo de Elrohir sacudiu então em um riso contido e amargo, que só fez intensificar-se. Ele encostou-se a cadeira, olhando o céu acima com um ar que nem seu mentor, nem o irmão compreenderam. Glorfindel e Elladan ainda consultaram um ao outro em busca de uma resposta, mas não parecia haver nenhuma.
"Orgulhoso..." Elrohir disse enfim. "Por certo ada deve estar muito orgulhoso... Claro que está. Por certo deve estar tão orgulhoso de mim quanto quando descobriu que eu roubei uma espada, forjei-a escondido, feri meu irmão... quando descobriu que seria desonrado por minha causa..."
"Pare com isso, Elrohir!" Glorfindel advertiu, descontente com o rumo que sentia naquele desabafo.
"Não! Espere..." O gêmeo riu mais mordazmente dessa vez. "Talvez ele esteja se sentindo tão orgulhoso quanto quando descobriu que eu havia fugido com a arma que deveria ter devolvido, ou talvez quanto quando percebeu que teria que cruzar águas turbulentas e pisar em um território proibido, arriscando mais uma vez seu bom nome, para me salvar... ah sim, com certeza ele deve estar se sentindo do mesmo jeito, sentindo exatamente o mesmo orgulho..."
"Elrohir... Não faça isso, não faça isso, toron-nín..." Foi Elladan quem pediu dessa vez, mas o gêmeo mais novo apenas balançou a cabeça, sacudindo os ombros para que as mãos que estavam sobre ele o soltassem.
"Vocês não veem, não é? Por isso ada pediu que eu não participasse... ele não estava apenas preocupado com minha inexperiência, ele estava preocupado com a próxima grande conquista de seu orgulhoso e presunçoso filho. Claro que eu posso. Por que ninguém acredita em mim? Por que tenho sempre que provar que sou capaz?" Ele repetiu as mesmas perguntas que fizera para convencer o pai e o mentor a deixá-lo participar da prova. "Ilúvatar, e Lorde Eilafion teceu aqueles elogios todos para mim..."
"Elrohir, pare!" O mentor ainda tentou intervir, mas o gêmeo soltou outro riso sarcástico.
"O pobre capitão nem sabe que soldado estúpido e arrogante era aquele a quem estava elogiando. Eu devia ir até os portos e implorar que, fosse qual fosse a punição de Lorde Enel, eu ficasse em seu lugar. Eu é que deveria estar sendo punido. Eu é que deveria. Quando vou ser punido? Quando vou ser punido ao invés dos outros em meu lugar?"
"Elrohir, pare!" Glorfindel dessa vez segurou-o pelos ombros, dando-lhe uma sacudida breve então e seu olhar foi duro como poucas vezes antes, na tentativa de fazer o rapaz despertar daquele transe estranho de autopunição no qual estava. Porém, quando o mentor percebeu, depois da crise que tivera, a dor tomar enfim conta daquelas órbitas escurecidas e outras lágrimas escorregarem pelo rosto do pupilo, seu coração se enterneceu. "Pare... Pare, menino... Nada do que aconteceu aqui é culpa sua... Seu pai é um Alcarinqua, posto que ele poderia ter recusado se desejasse."
Elrohir soltou um riso triste dessa vez, insatisfeito com a inconsistência daquela justificativa.
"É uma grande honra..." Ele lembrou. "Não se pode recusar algo assim... Não se pode simplesmente dizer Não obrigado, eu não me interesso por isso e..."
"Ser campeão de um torneio também o é." Glorfindel lembrou então, em tom categórico dessa vez. "Mas tem seu preço. Quem aceita as glórias, aceita a responsabilidade." Ele completou e depois, percebendo que fora enfim feliz em uma de suas observações, voltou a sacudir o pupilo pelos ombros. "Agora olhe para o seu pai. Vamos, olhe!" Ele ordenou e esperou as pupilas escuras do discípulo moverem-se hesitantes na direção pedida para acrescentar: "Olhe e veja se ele está tendo crises infantis de arrependimento aqui, em pleno campo de batalha. Veja se ele está tecendo discursos sobre si mesmo, se está se perdendo em inúteis sentenças governadas pela primeira pessoa. Vamos, veja! Veja e pense se seu pai envergonhará alguém hoje."
Elrohir respirou fundo e naquele instante desejou que seus olhos não fossem tão poderosos. Ele desejou não poder ver o que Glorfindel tentava fazê-lo entender em todos os detalhes. Ele desejou não encontrar ali, no lugar de um espelho de sua atitude irresponsável e vergonhosa, o rosto preocupado do curador, retribuindo o olhar que recebia com atenção redobrada.
Elbereth... Seu pai em vestes de guerra... Como ele se orgulhava dele... Como ele se orgulhava dele independente das vestes que usava... Como ele gostaria que aquele orgulho fosse mútuo.
"Acha que ele me odeia, Glorfindel?"
"Tanto quanto acho que o sol é azul turquesa." Veio a resposta do mestre e quando Elrohir moveu seus olhos tristes para o mentor, encontrou-o olhando-o com extrema paciência.
"E você? Você me odeia por estar envergonhando-o?"
Glorfindel apertou os lábios, pensando se seria capaz de um dia sentir por aquele menino algo ainda mais forte do que a extrema admiração que estava tendo por ele naquele dia.
"Sabe qual é o ritual pelo qual cada Alcarinqua é obrigado a passar antes de ganhar seu manto de estrelas?" Ele indagou e Elrohir envergou intrigado o cenho, depois balançou negativamente a cabeça. "Relatar ao grupo um de seus momentos mais constrangedores como guerreiro." Glorfindel revelou e ao perceber que o ar de incompreensão ainda desenhava-se no rosto do pupilo, somou. "Você se surpreenderia com o número de guerreiros que classificou esse momento pelo qual você está passando como o mais constrangedor que tiveram. Se admiraria mais ainda com as histórias realmente constrangedoras que já ouvi de muitos a respeito de tais momentos." Ele completou e riu ao perceber os lábios do gêmeo ensaiarem um sorriso e sua pele ganhar um leve rubor. "É fato, menino! E eram todos grandes guerreiros, com inúmeras batalhas em suas costas."
O sorriso do gêmeo escapou-lhe então e ele baixou constrangido o rosto, balançando a cabeça.
"Eu teria uma dúzia desses momentos para narrar... Esse seria apenas mais um deles..." Disse então em tom triste, porém conformado. Em seguida ergueu os olhos para o pai mais uma vez, que continuava a olhá-lo do outro lado do campo. Elrohir respirou fundo então, apoiando a mão sobre o peito e murmurando a palavra Desculpe-me, mesmo sem saber se o curador conseguiria entendê-lo. Como resposta, Elrond ofereceu seu sorriso paciente de sempre, repetindo o sinal, mas movendo depois a palma que pousara no peito em direção ao filho, em um gesto que o gêmeo compreendeu muito bem. "Eu também te amo, ada..." Ele repetiu baixinho a mensagem. "Eu também te amo demais, adar-nín."
