Talvez na minha pressa de entrar e sentar logo, eu não tivesse reparado que havia um vampiro ali. O cheiro, que antes passara imperceptível, agora me atacava com toda força. Aquele deveria ser o novo Cullen, a mais recente criação de Carlisle.
Ele, é claro, também sabia o que eu era. Seus olhos, escuros por causa das lentes de contato, estreitaram-se para mim enquanto eu falava. E apesar de toda a repulsa que eu deveria ter sentido por ele, não pude deixar de analisar suas feições com cuidado.
Eu já vira muitos vampiros que se alimentavam de sangue humano. E todos eles tinham algo em comum: a expressão de desdém com que olhavam para os humanos e para os vampiros que não tinham o mesmo hábito, os "vegetarianos". Principalmente os Cullen, que "não gostavam de se misturar com a comida".
Porém, este era diferente. Sua expressão era de dor enquanto ele olhava para meus olhos cor de topázio. E havia algo mais, talvez fosse curiosidade. Mas eu não poderia ter certeza, pois toda essa análise se passou em menos de um minuto, tempo que eu levei para dizer meu nome e de onde viera.
O professor, Sr. Varner, indicou o fundo da sala para que eu sentasse. Havia um lugar ao lado do Cullen e a mesa logo atrás dele estava completamente vazia. Preferi sentar sozinha.
Enquanto me dirigia para lá, mais olhares curiosos. Acho que eu levaria algum tempo para me acostumar com isso.
Logo que sentei atrás do Cullen, pude ouvir um rugido baixo brotando de sua garganta. Uma reação normal da nossa espécie quando poderíamos estar em perigo. Era um som de alerta, só eu ali naquela sala poderia ouvir. Ignorei-o e tentei me concentrar no que o professor dizia.
Infelizmente, aquela era uma matéria relativamente fácil e minha memória de vampira não havia me deixado esquecer, é claro. O professor era monótono e muitos alunos conversavam durante a aula sem que ele se importasse. E os olhares ainda não haviam parado, apesar de estarem menos freqüentes agora.
O cheiro que inebriava do Cullen estava me contagiando. Não sei como isso poderia ter sido possível, ele era um Cullen como qualquer outro! Mas o aroma era tão delicioso que de repente eu me peguei pensando em como seria sentir seu cheiro em minha pele, poder encostar o rosto em seu pescoço e me inebriar ali. E eu me senti suja por estar pensando isso de um dos filhos nojentos de Carlisle.
A hora passou rápido; quando o sinal soou, enquanto eu arrumava os livros dentro da mochila tentando parecer normal, a sala foi esvaziando, até que, sem que eu percebesse, restamos apenas eu e o Cullen.
Ele estava completamente virado de costas em sua cadeira, me encarando.
— Algum problema? – perguntei em voz calma.
— Você vem de onde?
— Isso interessa a você?
— Claro que sim. Caso você não saiba, já há um clã morando por aqui.
— É óbvio que eu sei, Cullen.
Ele pareceu surpreso que eu soubesse seu nome.
— Sou Edward.
Ficamos nos encarando. Agora que eu o estava olhando melhor, eu percebi que ele era o vampiro mais bonito que eu já havia visto. Seus traços eram mais perfeitos do que quaisquer outros. E, em uma reação nada vampiresca, eu me senti fraca, tonta com tanta perfeição.
Respirei fundo algumas vezes, fechando os olhos e tentando equilibrar a voz para falar. Quando os abri novamente, ele continuava na mesma posição me encarando.
(N/A: Trilha sonora da fic: Just Like Me – Paramore)
— O que você quer aqui? – ele perguntou com o cenho franzido.
— Nada que incomode vocês. Pode ficar tranqüilo, não vou ficar no seu caminho.
— Eu sei que não. Mas você não respondeu minha pergunta.
— Não respondi por que não lhe devo satisfações. – Levantei pegando minha mochila e o olhando de cima. – Saia do meu caminho e eu sairei do seu, Edward.
Como estávamos sozinhos, não me incomodei em andar com velocidade humana para fora da sala, ainda mais levando em conta que eu havia me atrasado para a próxima aula. Mas ele me alcançou e me segurou pelo pulso, fazendo-me estancar. Eu não havia parado por causa do seu aperto ou sua força. Eu parei porque, mesmo nós dois sendo vampiros, com a pele gélida e tudo mais, sua mão em meu braço foi uma sensação de calor, como se houvesse fogo onde ele tocou.
E mais: eu tive a sensação estranha de ouvir uma voz. Mas não era como se alguém tivesse falado em meu ouvido. A voz estava em minha cabeça. Mais estranho ainda foi perceber que era a voz de Edward, mesmo eu tendo certeza de não ter visto sua boca se mover.
A voz e a quentura duraram apenas uma fração de segundo, o tempo que Edward ficou me tocando. Pelo visto ele também sentiu o calor, pois ficou olhando para a mão depois de tirá-la do meu braço. Seu rastro de fogo havia ficado em minha pele: o local onde ele havia tocado ficara avermelhado.
— Eu... Estou atrasada – me limitei a balbuciar enquanto andava para minha próxima aula, deixando-o desnorteado quanto eu.
Minha cabeça estava uma confusão de pensamentos, principalmente porque eu não sabia o que havia ocorrido. Que voz era aquela? Era como se... se eu estivesse ouvindo os pensamentos de Edward enquanto o tocava!
Estanquei no corredor enquanto chegava à essa conclusão, derrubando os livros que carregava nos braços e chamando a atenção de todos que passavam por ali. Não sei quanto tempo fiquei parada, mas senti alguém me conduzindo para uma sala vazia, me sentando em uma cadeira; ao longe, pude ouvir meu nome sendo chamado.
— Bella? O que houve? – Era James.
— Aconteceu uma coisa muito... estranha. – falei em uma voz fraquinha, olhando para ele com os olhos arregalados.
— Me diga, por favor, estou começando a ficar preocupado. – Ele estava agachado em minha frente, com as mãos apoiadas em meus joelhos.
— Eu... Conheci a nova criação de Carlisle.
— O que ele fez a você, Bella? Me conta! – James começava a ficar alterado.
Mesmo sem precisar, respirei fundo algumas vezes, fechando os olhos e tentando organizar as ideias para começar a falar.
— Ele está na minha turma de Trigonometria – falei, ainda de olhos fechados. – Seu nome é Edward.
— E o que ele fez para você estar tão alterada, Bella? Quando a encontrei no corredor, achei que estava tendo uma síncope, ou algo parecido.
— Você vai rir, mas vou tentar explicar.
— Não vejo como posso de rir de algo tão sério.
Abri os olhos e encontrei James me encarando com um vinco no meio da testa.
— Quando Edward me tocou, eu senti como se... como se houvesse calor em seus dedos. Como se eu, novamente, pudesse sentir o calor em minha pele.
Fiquei olhando para ele, incerta, esperando ele dizer alguma coisa.
— Então era por isso que você estava embasbacada no meio do corredor?
— Tecnicamente, sim.
Ele me olhava com cara de ponto de interrogação.
— Agora é a parte que você vai rir – falei dando uma pausa para morder o lábio inferior. – Eu acho que... ouvi os pensamentos de Edward.
As últimas cinco palavras saíram em um jato só, como se quanto mais rápido eu as pronunciasse, menos verdadeiras elas pudessem parecer.
James, ao contrário do que eu esperava, estava com uma expressão de preocupação. Ele levantou vagarosamente, passando uma mão pelos cabelos e ficando de costas para mim.
— O que foi? – perguntei, olhando para suas costas.
— Eu já vi isso antes, Bella. Pode me dizer como isto aconteceu? – Ele estava anormalmente sério, e eu fiquei alarmada.
— Eu... Toquei-o e pude ouvir o que ele pensava, suponho. Mas isso é só uma hipótese, James. O toque foi muito rápido, não posso ter certeza. E além do mais, você tocou em mim e eu não ouvi nada. Talvez eu tenha imaginado isso.
Ele ficou de frente para mim, o rosto totalmente sério, os olhos eram apenas duas fendas. Eu conhecia aquela expressão. Era a que James fazia quando não acreditava no que eu dizia, ou quando sabia que eu estava mentindo, escondendo algo.
— Bella, você sabe que isso não é verdade. Me diga, como foi que você tocou nele?
E então, comecei a narrar com detalhes toda a conversa que eu havia tido com o Cullen recém-criado.
Alguns minutos depois, James sabia de tudo o que ocorrera. Ele ouvira tudo calado, uma estátua perfeita, sem demonstrar nenhuma emoção.
— Então? – perguntei, quando terminei de contar.
Ele continuou calado, apenas me olhando.
— James?
— Bella... Eu já vi isso antes – ele repetiu. – E não é nada bom. Se você, como eu estou pensando, conseguir ler a mente dele, e só a dele... Significa que vocês têm alguma ligação.
Apenas encarei-o, sem saber o que perguntar primeiro.
— Er... Hum. Que tipo de ligação? – decidi começar pela mais fácil.
— Eu não sei explicar... Eu ouvi falar de um caso desse tipo há muito tempo. Mas não há muitos detalhes.
Uma ligação entre eu e Edward... Eu não conseguia ver como. A começar pelo fato de que nem havíamos nascido no mesmo século. E eu era muito mais velha do que ele.
Só havia uma ligação possível entre nós.
— Você acha que isso pode ser pelo fato de termos sido transformados pela mesma pessoa? – perguntei a James.
— Pode ser... – Ele virou o olhar para a janela. – Mas pode ser também que minha teoria esteja errada. E isso não nos leva a lugar algum.
Ficamos em silêncio, parados na mesma posição, provavelmente imaginando onde tudo aquilo iria parar. Olhei meu relógio de pulso.
— Perdemos a metade dessa aula já – sorri para ele, ainda preocupada. – E você, como foi a primeira aula?
— Nada demais. Um cara enjoado que fala devagar e uma matéria totalmente sem sentido. O mais legal é a reação das garotas.
Revirei os olhos.
— Você nunca cresce, não é mesmo, cabeção? – ri sem vontade.
Ele riu um pouco e puxou uma cadeira para sentar ao meu lado, passando um braço por meus ombros.
— Não fique preocupada, garota. Nós vamos descobrir o que está acontecendo, está bem? Só quero que você mantenha o máximo de distância desse tal Edward.
— Vou tentar. Prometo que vou.
Eu ia dar o melhor de mim para tentar cumprir essa promessa. Mesmo querendo descobrir qual era o mistério da minha "ligação" com Edward, se é mesmo que ela existia.
