Título: O Destino de Isabella
Postado por: Gabriela Swan
Adaptação de: Kate Silver
Personagens: Edward/Bella
Rated: T/M – Cenas de Sexo (NC)
Advertências: Universo Alternativo.
Disclaimer: Edward, Bella e Cia pertencem à Stephenie Meyer. E "O Destino de Isabella" é uma adaptação de Kate Silver. Ou seja:
Não ganharei dinheiro algum com isso!
Sinopse:Depois de perder toda a família numa epidemia que assolou o país, Isabella assume a identidade de seu irmão gêmeo e ocupa o lugar dele na Guarda Real. O disfarce lhe possibilitará observar de perto o conde Edward Cullen, oficial dos mosqueteiros e o amigo que seu irmão confiara que a protegeria, mas que nunca apareceu para cumprir a promessa. Edward fica feliz ao ver seu companheiro voltar ileso da região devastada pela praga, porém o comportamento estranho do amigo o deixa intrigado... Até ele descobrir que sob o uniforme de mosqueteiro esconde-se a graciosa irmã de Emmett Swan. Será difícil explicar a Isabella por que ele não foi resgatá-la, e mais ainda convencê-la de que está disposto a honrar sua palavra. Mas Edward lutará com todas as armas para alcançar um sonho quase impossível: conquistar o coração de Isabella e fazê-la acreditar na sinceridade do seu amor!
Capítulo III
Duas semanas mais tarde:
Cullen pôs sob a camisa as preciosas garrafas envoltas em espessos pedaços de tecido. Ali elas estariam seguras. Pagara caro por elas. Uma poção para manter a praga afastada valia mais do que o próprio peso em ouro em momentos como esse, quando relatos sobre a doença nas regiões vizinhas chegavam aos ouvidos até dos mais alienados parisienses. O próprio médico do rei havia preparado o medicamento que ele agora carregava com grande cuidado.
Uma hora mais tarde, Cullen deixava a cidade levando apenas uma pequena quantidade de alimento e uma camisa limpa na bagagem. O cavalo o transportaria mais depressa e para mais longe se não estivesse sobrecarregado. Emmett precisava dele e dos bens preciosos por ele levados.
Nos primeiros dias, as hospedarias do caminho eram acolhedoras com suas lareiras brilhantes e com o alimento quente e farto para saciá-lo. Cullen viajava para longe e com grande velocidade, detendo-se apenas quando percebia que a montaria beirava a exaustão e a estrada se tornava perigosa na escuridão da noite.
Na medida em que penetrava nas províncias, as pessoas passavam a olhar para suas roupas sujas e para o cavalo esgotado com crescente desconfiança. Até o ouro que levava parecia perder o valor. Mais de uma vez, ele foi recusado em uma hospedaria tarde da noite, tendo de dormir sob as estrelas, com as roupas úmidas de orvalho e a barriga roncando de fome.
Os relatos sobre a doença eram muitos. Um dia, ao passar por uma fazenda, ele decidiu trocar algumas moedas por pães e leite, mas, ao bater na porta, nem foi atendido.
A porta não havia sido trancada e se abriu sob o peso de sua mão. O cheiro de putrefação e morte no interior da casa era tão intenso, que ele fugiu assustado. Era tarde demais para tentar ajudar as pessoas daquele lugar, e não queria banquetear os olhos com o espetáculo mórbido que certamente o aguardava além daquela porta. Podia imaginá-lo muito bem.
Esperava que a família de Emmett houvesse sido poupada. A carta do amigo revelava pouco, apenas que sua irmã, Isabella, estava enferma. Isabella, irmã gêmea de seu melhor amigo, a mulher com quem ele contratara um casamento.
Ele tocou a miniatura que levava no bolso junto ao peito. Gentileza e feminilidade iluminavam aqueles olhos azuis e claros tão semelhantes aos do irmão em cor, mas, como era conveniente a uma mulher, desprovidos da centelha marcial. O cabelo castanho emoldurava o rosto e o pescoço em delicados caracóis brilhantes, e ela sorria para o pintor que capturara sua imagem na tela.
Isabella era suavidade e beleza. Tudo o que ele admirava em uma mulher e valorizava na vida. Já se sentia meio apaixonado pela jovem. Ansiava por ser seu salvador e protetor, defendendo-a de tudo que pudesse macular e destruir o delicado buquê de sua inocência. Não suportaria perdê-la para a morte antes mesmo de começar a conhecê-la. Se o medicamento que levava junto ao corpo pudesse salvá-la, já se daria por satisfeito.
Cullen estava a menos de três dias do destino, quando se deparou com a multidão de camponeses na estrada. Muitos viajavam sem chapéu ou camisa, cobertos apenas por trapos, todos levando no rosto a mesma determinação desesperada.
O que seguia na frente do grupo brandiu um forcado em sua direção.
— Pare! — ele exigiu com uma voz gutural assim que Cullen se aproximou o suficiente para ouvi-lo.
O conde deteve a montaria e levou a mão ao cabo da espada, embora não a empunhasse. Os camponeses estavam desarmados, a menos que se pudessem considerar os forcados e as foices como armas. Ele não era covarde para sacar a arma contra criaturas desarmadas.
— O que querem?
O líder mantinha o forcado com os dentes voltados para ele numa atitude ameaçadora.
— Não se aproxime. Volte para o lugar de onde veio. Não pode passar por aqui.
— Por que não? Nada fiz de errado! - Vozes furiosas se ergueram do grupo.
— Não temos a doença em nosso vilarejo.
— Não gostamos de estranhos por aqui.
— Volte para o inferno de onde você saiu!
— Desapareça! Não queremos infestados por aqui, demônio contaminado!
Não recuaria e perderia um dia de viagem por causa de medos sem fundamento de um grupo de camponeses ignorantes. Sua doce Isabella podia estar morrendo sem o valioso medicamento que levava sob a camisa.
— Venho de Paris. Não há nenhuma praga por lá. Não estou doente.
— Então, volte para lá e deixe-nos em paz. Os outros concordaram enfaticamente.
— Não posso voltar. Minha noiva está doente e devo levar até sua casa a poção que a salvará. Preciso prosseguir.
A multidão se agitou, sem saber como reagir à afirmação. Então, um homem no fundo do grupo disse:
— Não existe um só medicamento feito pelo homem capaz de salvar uma vítima da praga. É uma maldição enviada por Deus para punir os pecadores.
— Sua noiva merece morrer.
— E ele deverá segui-la na morte.
O conde não gostava do rumo que a situação tomava, nem dos olhares furiosos lançados em sua direção. Ele cravou os calcanhares nos flancos do cavalo, disposto a abrir caminho à força por entre a multidão.
O animal estava cansado demais depois de tantos dias na estrada, e sua resposta não foi suficientemente rápida. Antes que pudessem atravessar o mar de gente, os camponeses reagiram.
Cullen viu o forcado ser arremessado em sua direção, mas não conseguiu se esquivar. Uma sensação de fogo explodiu na lateral de seu corpo. A ferramenta rasgava sua carne. O cavalo gritou de dor, usando os cascos poderosos contra os atacantes.
Mãos estendidas o arrancaram da sela. Ele atingiu o chão com um baque surdo. O corpo caiu sobre o lado recentemente ferido. O mundo em torno dele perdeu a cor, passando do cinza ao negro. E depois foi o nada. A escuridão. O vazio. O silêncio.
Seis meses mais tarde
Isabella Swan cavalgava sem pressa pelas ruas movimentadas, registrando tudo com o olhar curioso de alguém que chegava a uma cidade desconhecida. Os vendedores ambulantes gritavam anunciando seus produtos, jovens corpulentos desfilavam sua força física, trabalhadores se dedicavam ao ofício, e todo o ambiente fervia com a agitação característica da mais importante cidade da França. Estava fascinada com a cacofonia de sons, imagens e cheiros que compunha Paris.
A multidão a inquietava e entusiasmava. Vivera sozinha na imensa mansão em Camargue por todo o inverno, e acabara se habituando ao silêncio e à solidão. Em Paris, nunca mais teria de estar sozinha.
Uma mulher da rua gritou para ela de um beco sujo e sombrio. Ela corou e olhou na direção oposta, mas pensou melhor e decidiu que a timidez já não fazia mais sentido nesse novo mundo. Isabella encarou a desconhecida e reconheceu seu cumprimento com uma discreta inclinação de cabeça. Agora era um homem, a reencarnação do irmão Emmett, cujo corpo havia enterrado no solo querido de Camargue. Devia se lembrar disso sempre e honrar o nome do irmão e de sua família. Lembraria sempre o amor pelo irmão e o ódio por todos aqueles que os haviam enganado, e esses sentimentos a fortaleceriam.
Durante os longos e frios meses do inverno ela havia chorado constantemente a morte de Emmett. Culpa e desespero quase a destruíram, até ela transformar essas emoções negativas em força e canalizá-las para o ódio contra o inimigo, o homem que podia odiar sem se destruir: o conde Cullen. Passara as primeiras semanas após a recuperação esperando por ele. O conde havia prometido a Emmett que cuidaria dela. Onde, então, havia estado esse homem nos momentos de maior necessidade?
Fora resgatá-la do horror de passar todo o inverno sozinha, perdida em uma casa devastada pela morte? Nesse caso, certamente o teria recebido de braços abertos. Teria acolhido com alegria até mesmo o diabo, se ele a houvesse ido salvar do amargo destino de frio e solidão.
Cullen era seu prometido, ela dissera a si mesma inúmeras vezes enquanto tentava aquecer-se diante do fogo que mantinha aceso na cozinha, comendo parcas rações e tentando não bater os dentes de frio. Por certo, quando soubesse de seu destino, ele iria buscá-la. Emmett confiara nesse homem. Não queria acreditar que o conde temia a praga a ponto de quebrar uma promessa solene feita a seu irmão.
As semanas se arrastaram até a neve cobrir o chão, impossibilitando qualquer viagem e destruindo inteiramente sua esperança de ser resgatada pelo conde. Isabella tornava-se mais forte em sua solidão, e gradualmente, também foi se tornando mais amarga e revoltada contra o homem que poderia ter evitado todo esse sofrimento, mas não o fizera. Cullen não fora buscá-la. Quando a neve do inverno havia começado a derreter, ela se vira forçada a enfrentar a miserável realidade. Como um covarde mesquinho, ele permanecera afastado para salvar a própria pele, deixando o companheiro de armas e sua prometida entregues a uma morte miserável.
Se algum dia o conde voltasse a manifestar a intenção de desposá-la, seria tratado por ela com o desprezo que merecia um falso amigo e um traidor da lealdade e da honra. Cullen: covarde, traidor e falso amigo. Como desejava fazê-lo sofrer como sua família havia sofrido. Como o odiava por estar vivo, quando todos que amava estavam mortos. Cullen. O nome soava diabólico. Jamais poderia desposá-lo. Seria preferível matá-lo, arrancar-lhe o coração e atirá-lo aos lobos.
A primavera chegou, finalmente, e com ela o conhecimento de que outro inverno como o anterior a levaria à loucura. Com a primavera veio também a notícia da morte de Jacob, do pai dele e de todos os habitantes de sua casa. Isabella não tinha mais lágrimas para chorar, mas rezou um rosário por suas almas pedindo pelo descanso eterno dos amigos e vizinhos.
Alguns poucos moradores do vilarejo sobreviveram à praga. Ela fez do mais confiante dos sobreviventes seu criado, contando com a ajuda desse escudeiro para pôr em prática o plano que criara durante dias e noites de solidão ao pé do fogo. Não tinha mais motivo para viver. Podia tornar-se protegida do rei e submeter o próprio destino aos caprichos do instável Luís XIV, mas preferiu ir ao encontro do soberano na personalidade do irmão. Isabella deixaria de existir.
Como Emmett, teria controle sobre a própria vida. Teria a honra que um dia fora dele. Como Emmett, viveria e morreria.
Sim, sabia que era uma versão enfraquecida do valente mosqueteiro que deixara Paris há sete meses para cuidar do noivado e do casamento da irmã gêmea.
Mas isso se explicaria pelas semanas de enfermidade e pelos meses de recuperação a que se submetera antes de estar suficientemente recuperada para se dedicar ativamente ao serviço, como Emmett teria feito.
Esperava apenas que os que haviam conhecido Emmett, de maneira mais íntima, não notassem a suavização nos traços e a incomum delicadeza do queixo, jamais tocado por uma navalha.
Com os cabelos cortados recentemente e as roupas e botas do irmão, era uma cópia exata do gêmeo. Desafiaria a própria mãe a diferenciá-la de Emmett a uma distância maior do que dois ou três metros.
Também não seria descoberta pela falta de habilidade nas artes marciais. Passara os últimos meses praticando com a espada do irmão e cavalgando até a exaustão, e agora era como se ela e Seafoam fossem um só corpo e uma só vontade. Era capaz de cavalgar tão bem quanto o gêmeo sempre havia montado. A habilidade com a espada ainda era rudimentar, mas se empenharia nisso, também.
Mesmo que os futuros companheiros notassem as mudanças em seu rosto ou em sua postura, jamais suspeitariam da verdade. Era absurdo demais para ser imaginado. De acordo com o que o mundo sabia, Isabella Swan estava morta, vítima da praga, e Emmett, após escapar da enfermidade que havia vitimado toda sua família, voltava para reintegrar o regimento.
Seu irmão havia se hospedado em um estabelecimento respeitável ao longo do caminho, perto do alojamento. Isabella encontrara um menino de rua que, mediante uma oferta de algumas moedas, a levara até lá. Os dois percorrem alamedas escuras e ruas imundas, até pararem na frente de uma placa desbotada anunciando quartos para aluguel.
A viúva, proprietária da hospedaria, olhou desconfiada para Isabella, preocupada com suas roupas sujas e gastas pelos dias de viagem.
— Então voltou — ela disse com as gengivas à mostra num arremedo de sorriso. — Soube que estava morto, mas constato que a notícia era falsa. É um homem de sorte. Tenho um quarto vago, se quiser alugá-lo. O cavalheiro que lá habitava enforcou-se há uma semana. Porém, suponho que não se incomode com isso, já que vem da região onde a praga faz tantas vítimas.
O quarto ficava no último andar do prédio, depois de quatro lances de escadas. O calor ali era sufocante, e mal havia espaço para a pequena cama e uma cômoda, única mobília do aposento minúsculo.
Mesmo cansada como estava, Isabella não conteve o desgosto causado pela terrível acomodação.
— Quanto?
A viúva anunciou uma quantia exorbitante, quase o valor integral do soldo que Isabella receberia pelo cumprimento de seus deveres como mosqueteira.
Ela balançou a cabeça, incrédula.
— Por um quarto tão pequeno? Com uma abertura minúscula que nem se pode chamar de janela?
— Estou cobrando um valor extra por ter vindo de Camargue. Os outros estabelecimentos da região nem aceitam viajantes oriundos daquela área. É ruim para os negócios.
Isabella era forçada a reconhecer que a mulher tinha razão. Seria difícil encontrar outro lugar onde se hospedar. Mesmo assim, ela hesitava. Pagar tanto assim pelo abrigo significaria drenar fundos mais do que necessários na propriedade da família. Relutava em lançar mão desse dinheiro, mas ela e Seafoam beiravam o colapso por exaustão. Precisavam descansar.
Diante da pausa prolongada, a viúva recuou um pouco em sua ganância, temendo perder um cliente.
— Bem, já que é um velho amigo, pode alugar o quarto por um pouco menos. — Ela anunciou uma soma mais aceitável. — Mas o pagamento deve ser adiantado.
Isabella despejou algumas moedas na mão estendida.
— Traga-me água quente e comida. — Ela acrescentou mais duas moedas. — E mande alguém levar meu cavalo ao estábulo.
A proprietária guardou as moedas no bolso do avental com um olhar feroz. Isabella sabia que o encarregado de cuidar de Seafoam não receberia nenhuma daquelas moedas. Sozinha, ela se sentou na cama, sentindo a palha fina farfalhar sob seu corpo magro. Estava em Paris. Encontrara acomodações, mesmo modestas. Seria um mosqueteiro! Ninguém a questionara até esse momento. Todos a tratavam como se fosse mesmo um homem. Talvez houvesse uma chance de sucesso em seu plano tresloucado.
Quando a viúva retornou com a água quente e um mingau ralo e de aparência aguada, sua confiança havia evaporado. Sentia-se preocupada, tensa.
Isabella fechou a porta, empurrou a cômoda contra ela para certificar-se de que não teria sua privacidade invadida, e lavou-se como pôde na água morna. Como poderia levar adiante a farsa sendo tão obviamente uma mulher? Não seria evidente pelo andar, pela maneira de falar, até por como usava as roupas masculinas? Seria exposta, desmascarada diante de todos os companheiros de Emmett, e o cobriria de vergonha para sempre.
O mingau era horrível, mas saciou sua fome. Os rigores do inverno haviam destruído toda a reserva de gordura em seu corpo. Esperava que no alojamento houvesse mais comida do que ali, na horrível hospedaria, ou perderia ainda mais peso. Precisava fortalecer-se e encorpar, ou seria rapidamente descoberta.
A noite era quente, e o ar da cidade que penetrava pela pequena janela do quarto era pesado e fétido. Ela se virou na cama durante toda a noite, perturbada pelo calor e pelos sons e cheiros desconhecidos, por sonhos de descoberta e vergonha.
Nas primeiras horas da manhã, ela foi despertada por gritos de vendedores ambulantes anunciando seus bens. Cansada, se levantou, envolveu os seios com várias camadas de tiras de tecido e os cobriu com a camisa, que prendeu dentro da calça de couro. As vestes eram desconfortáveis e opressoras no calor da cidade, mas era indispensável que escondesse os seios para não ser descoberta. Não permitiria que sua feminilidade fosse descoberta por um erro tão elementar.
O alojamento ficava próximo da hospedaria, bem no centro do calor e da imundície da cidade. Quando lá chegou, caminhando sob o sol forte, Isabella sentia o suor escorrendo pelo pescoço e ensopando suas roupas.
Homens vestindo uniformes da guarda real andavam de um lado para o outro, todos engajados em tarefas de suprema importância, aparentemente. A comoção a deixava confusa, e ela se sentia perdida e deslocada, sem saber para onde ir.
Lágrimas queimavam seus olhos. Emmett saberia o que fazer e para onde ir.
Mas não estava mais ali para ajudá-la. Estava sozinha. Com toda resolução de que era capaz, ela ergueu os ombros e começou a andar em uma direção qualquer, esperando parecer mais confiante do que se sentia.
Ela foi detida pelo grito de um mosqueteiro.
— Emmett? Emmett, é você?
Isabella parou e virou o rosto na direção contrária à da voz, uma reação instintiva de medo. Uma parte crucial de seu plano era evitar todos os velhos amigos do irmão para reduzir as chances de ser descoberta.
— O que quer? — Ela falava em voz baixa e grave, soando impaciente.
O mosqueteiro hesitou.
— Emmett? — A resposta era confusa e magoada. — Para onde vai com tanta pressa? Não tem tempo para cumprimentar um velho amigo?
Isabella examinou a aparência do rapaz pelo canto do olhos. Ele era mais alto que a média, mais alto que ela, certamente, e tinha ombros largos como poucos ali. Apesar do porte avantajado, ele usava a jaqueta do uniforme com uma graça natural invejável, apesar de mancar um pouco. O cabelo era claro, num tom estranho de cobre, e as botas de couro preto que cobriam suas pernas até a metade das coxas brilhavam pelo polimento cuidadoso. Gostaria de saber qual dos amigos de Emmett era esse, mas não tinha meios de descobrir sem se expor ao risco de ser desmascarada por perguntas descabidas.
Quem quer que fosse, ele certamente seria digno de seu olhar, se algum dia tivesse liberdade para olhar o que quisesse. Isabella cruzou os braços sobre o peito e bateu a ponta de um dos pés contra o chão.
— Estou procurando pelo capitão. Por acaso você o viu? - O mosqueteiro apontou para um grupo de edifícios do outro lado do pátio.
— Na última vez em que o vi, ele estava chamando a atenção do capitão da infantaria.
Sem dizer mais nada, Isabella partiu na direção indicada, mas o mosqueteiro a seguiu.
— Lamento sobre a perda que sofreu. Senti muito por não poder ajudá-lo.
Isabella grunhiu uma resposta incompreensível. Mesmo depois de tantos meses de solidão, de ter aprendido a lutar e recuperado a força, a perda ainda a atingia como uma faca no peito. Não sabia se poderia falar sem trair sua emoção.
— Sempre soube o quanto você e sua irmã eram próximos, como você a amava.
Seu coração se encheu de orgulho por saber que Emmett falava sobre ela, confidenciando seu amor a um amigo querido. Foi necessário pigarrear várias vezes para limpar a garganta de toda emoção antes de poder responder.
— Éramos gêmeos. Raramente nos separamos um do outro. Éramos dois, e agora sou um. É como se parte de mim houvesse desaparecido.
— Também chorei a morte de sua irmã. Já estava meio apaixonado por ela depois de ouvir seus relatos. Esperava ser seu cunhado a essa altura...
Cullen. É claro, um homem tão bonito só podia ser Cullen, o culpado de sua ruína. Ela parou e encarou o inimigo pela primeira vez.
— Não importa — interrompeu, detendo-o com um gesto imperativo. — Isabella está morta e enterrada, e nada pode trazê-la de volta.
Cullen a olhava com espanto genuíno.
— Não é mais o homem que eu conheci. — Sua voz continha grande melancolia. — A enfermidade o transformou no corpo e na mente.
— Sou o homem que sempre fui. — Isabella voltou a andar, tentando não pensar nos horrores do inverno passado em uma casa solitária e cheirando a morte. Cullen prometera a seu irmão que cuidaria dela, mas não cumprira a promessa. Como o odiava por isso. — Não tinha tempo para covardia e canalhice há um ano, e ainda não tenho. Bom dia.
As palavras mal haviam deixado sua boca, quando ela sentiu uma repentina e aguda pressão na região do ventre.
O conde, movendo-se com velocidade espantosa, apesar da dificuldade que o fazia mancar, pressionava a ponta da espada contra o couro de seu colete.
— Nenhum homem me acusa de covardia, Emmett. Nem mesmo você. Onde está sua espada?
Então era isso. Isabella recuou um passo e empunhou a espada. Se estivesse mais calma e controlada, não o teria provocado tão prontamente. No calor do momento, deixara-se dominar pelo ódio contra tudo que ele representava, a morte do irmão e a perda da confiança na humanidade. Esquecida de que agora era um homem cujas palavras seriam tomadas por um insulto, cedera à tentação de desafiá-lo.
Agora lutariam. Não tinha ilusões quanto a sua habilidade com a espada. Empenhara-se no aprendizado solitário, mas precisava urgentemente de um professor experiente. A menos que tivesse sorte, a menos que ele fosse um espadachim desajeitado, provavelmente encontraria a morte nos próximos instantes.
Não tinha medo de morrer pela mão de Cullen; apenas de morrer sem honra.
Ela se concentrou na espada. Lutaria bem e vingaria a família, se pudesse. Se não, pelo menos morreria em paz, certa de que fizera o melhor possível.
Lutaria por Emmett, ela pensou determinada ao investir pela primeira vez contra o adversário, que se esquivou com rapidez impressionante.
Cullen fez um movimento com o corpo e a atacou. Isabella conhecia esse golpe. Seu irmão havia ensinado a ela o movimento quando ainda eram crianças. Ela torceu o corpo para o lado, e o golpe encontrou apenas o vazio.
Os dois se movimentavam para frente e para trás, atacando e defendendo, o ruído do choque entre as espadas atraindo um grande número de curiosos. Isabella arfava e sentia o braço que sustentava a espada começar a doer. Cullen mancava mais do que nunca, o rosto crispado pela dor, mas ainda nem começara a suar.
Ela atacou novamente. Cullen esquivou-se, inclinou-se debochado para os espectadores e ergueu o corpo, apontando a espada para Isabella, que nem teve tempo de reagir.
A platéia ria. Ele ridicularizava sua falta de habilidade diante de todos.
— E então? Pronto para engolir a ofensa, rapaz?
As palavras de escárnio a levaram a redobrar o esforço. Ele a desafiava, brincava com ela como um gato brinca com um rato.
— Nunca.
Isabella o atacou com fúria renovada, concentrando toda a atenção nos movimentos do corpo, buscando identificar pistas do próximo golpe, pequenos sinais que dariam a ela a vantagem no contra-ataque.
Um dos curiosos gritou uma palavra de incentivo. Cullen se virou para agradecer tocando a aba do chapéu.
Isabella o atacou com precisão e rapidez, e a ponta de sua espada rasgou a parte superior do braço do conde.
Ele praguejou ao ver o sangue manchando sua jaqueta, e logo toda a leveza desapareceu de seu rosto. A determinação que surgiu em seu lugar despertou nela a primeira onda de medo. Todos os presentes se calaram, sentindo que a brincadeira chegava ao fim.
Cullen investia furioso contra ela, golpe após golpe, empurrando-a contra a muralha do pátio até não haver mais para onde fugir.
E ele atacou novamente.
Com a espada erguida para se proteger do golpe, Isabella caiu de costas no chão de terra. A força do impacto arrancou a arma de sua mão, jogando-a longe, fora de seu alcance.
Ele estava em pé ao seu lado, segurando a espada contra seu pescoço, com o corpo, bloqueando a luz do sol. Isabella o encarava com o coração cheio de ódio, desafiando-o a degolá-la e pôr fim à disputa.
Os olhos do conde eram cinzentos, frios como o gelo que cobre o solo no inverno. Frios como a morte que a rondava.
— Retire o que disse.
Ela cuspiu. Sabia que esse seria seu último gesto em vida.
Devagar, a ponta da espada se afastou de seu pescoço. Cullen a devolveu à bainha.
Esperava estar com Emmett no Paraíso em poucos minutos, mas o conde a desapontara mais uma vez, privando-a da alegria desse reencontro.
Ele mantinha a mão estendida em sua direção, mas Isabella preferiu se levantar sozinha.
— Por que não me mata?
Ele a encarava confuso, como se a visse sem realmente vê-la.
— Você não é digno do aço de minha espada. Esqueceu tudo que o capitão e eu ensinamos sobre a arte da luta. Volte a me insultar quando souber enfrentar uma espada com maestria.
Isabella o viu caminhar mancando para longe dela, balançando a cabeça com um misto de tristeza e incompreensão. O rosto do conde estava gravado em sua memória; o rosto do falso amigo de seu irmão. Seu pior inimigo. Recusando-se a matá-la, ele a insultara mortalmente. Não descansaria enquanto não o matasse.
Ela recolheu a espada, limpando-a na calça de couro antes de devolvê-la à bainha. O conde conseguira escapar de sua vingança, mas não tinha importância. Na próxima vez, não estaria tão despreparada.
Um homem grandalhão com ombros largos como uma porta destacou-se do grupo de espectadores.
— Swan, meu rapaz — ele disse, batendo em suas costas com tanta força que quase a derrubou. — Estou feliz por tê-lo de volta no meu regimento, embora esteja tão magro e pálido. Quanto à sua exibição com a espada, mais parecia uma garota lutando! Um período de treinamento intensivo vai devolvê-lo à forma de antes. Voltará a lutar como um homem. E uma dúzia de cálices de porto na companhia de seus companheiros vai devolver-lhe a cor ao rosto. — O homem suspirou. — Sei que é bom termos paz novamente em Paris, mas sinto falta dos bons e velhos tempos de rebelião nas ruas, quando um homem podia derrotar meia dúzia de rebeldes com a ponta de sua espada antes mesmo de tomar o desjejum.
Withlock, o capitão dos Mosqueteiros. Isabella conteve um gemido angustiado e, séria, tocou o chapéu e inclinou-se para o superior. Coberta de lodo e suor, sentindo o peso da humilhação de uma derrota vergonhosa... Definitivamente, não era nesse estado que sonhara conhecê-lo.
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Edward Cullen inclinou-se dolorosamente para seu monarca ao pegar o papel dobrado sobre sua escrivaninha. Outra carta para madame Henrietta Anne, a duquesa D' Orleans.
Conhecia o caminho para seus aposentos de olhos fechados. Breves batidas na porta eram suficientes para que a porta se abrisse. Ele entregou a carta à jovem criada que o recebeu.
— Para sua senhora.
Ele não esperou por uma resposta. Há muito sabia que a duquesa D'Orleans não tinha nenhum grande amor pelo cunhado, o rei Luís XIV, e daria em troca de suas mensagens muitas pragas e maldições, nunca moedas de ouro.
Como ansiava por voltar ao dever no front, qualquer um, em vez de agir como mensageiro do rei.
Ele retornou mancando ao seu posto, sentindo fortes dores no braço, de onde um filete de sangue ainda escorria manchando sua camisa. Esperava que o ferimento não se houvesse aberto. Não tinha a menor intenção de ser costurado novamente. Cada perfuração da agulha só aumentava a dor que já sentia. Havia sido tolice desafiar Emmett para um duelo quando ele ainda estava tão debilitado, mas a provocação ofensiva não podia ser simplesmente ignorada.
O outro guarda o observava de seu lugar junto da muralha, onde continuava sentado com um cálice de Porto na mão. Ele ergueu o copo à guisa de cumprimento, mas não disse nada.
Como sentia falta de Emmett e seu coração eternamente leve! Seus comentários divertidos e inteligentes tornavam suportável até a mais fria e úmida noite de vigília.
O amigo havia voltado, mas não era mais o mesmo de antes. Era como se o corpo de Emmett houvesse sobrevivido, mas sua alma desse lugar à outra desconhecida, uma alma estranha que guardava contra ele forte ressentimento.
Lera o ódio nos olhos do velho amigo e ficara profundamente abalado. O motivo de tal rancor era um mistério para ele, um inexplicável desvio do destino. Só podia pensar que a doença de Emmett afetara seu raciocínio, além de abalar sua força física e a habilidade no manuseio da espada.
Ele encolheu os ombros, retraindo-se ao sentir o local onde a lâmina de Emmett encontrara sua pele. Mais uma cicatriz para integrar sua crescente coleção. Ainda não conseguia acreditar que Emmett o havia ferido deliberadamente.
Pior ainda, ele o teria matado, se pudesse. Não sabia por que, mas pretendia desvendar esse mistério o quanto antes.
Enquanto isso, teria de tomar cuidado. Não havia nada mais traiçoeiro, nada mais digno de medo, do que um amigo que se torna inimigo.
Nota da Autora:
Muito obrigada aos que me enviaram reviews, favoritaram e afins! Vocês são o combustível para que eu continue escrevendo!
Até breve,
~Gabi
